Baydiversity: Planos de acção de conservação para a gestão integrada de áreas
agrícolas
INTRODUÇÃO
Como a Bayer não possui as capacidades técnicas para realizar estudos de
Biodiversidade, procedeu à realização de um protocolo com a AmBioDiv, empresa
já com um longo historial de trabalhos relacionados com gestão de
Biodiversidade, ao nível agrícola e florestal. Numa primeira fase do projecto
foi realizado um Plano de Acção de Conservação (PAC) para cada uma das 14
quintas. Os trabalhos continuarão em 2012, com a selecção das áreas mais
interessantes para trabalhar, sobretudo ao nível das questões ambientais e
ecológicas, através da gestão e recuperação de áreas mais degradadas, tendo em
vista a melhoria dos set-aside agrícolas e florestais como forma de refúgio de
pragas e auxiliares destas culturas, o que permitirá ao proprietário reduzir o
uso de pesticidas no controlo de pragas e doenças das suas culturas.
Foi adoptada a metodologia denominada Abordagem ao Habitat ' análise de
comunidades vegetais através da fitossociologia (Braun-Blanquet, 1979) ' tendo
sido identificadas diversas espécies e habitats com estatuto de conservação em
set-asides agrícolas e florestais, fornecendo importantes guidelines de gestão
destas áreas aos proprietários. As 14 quintas visitadas são sobretudo dedicadas
à produção agrícola de vinho, uva, pomóideas e à produção florestal de
alfarrobeira, oliveira, pinho e eucalipto. As quintas foram agrupadas em 3
grupos, de acordo com a sua distribuição biogeográfica: Norte, Centro e Sul, e
são referidas as espécies com estatuto de conservação identificadas (flora e
fauna), bem como as comunidades vegetais identificadas.
MATERIAL E MÉTODOS
Na avaliação dos valores naturais presentes utilizou-se a abordagem ao nível do
Habitat (Figura_1), através da aplicação da metodologia fitossociológica da
escola de Zurich_Montpellier, proposta inicialmente por Braun-Blanquet (1966),
Rivas-Martínez (1976) e posteriormente modificada por Géhu e Rivas-Martínez
(1981). A abordagem ao nível do Habitat é focada na avaliação da estrutura e
desenvolvimento de um habitat, sobretudo através da análise das comunidades
vegetais, utilizando a metodologia fitossociológica que integra as variáveis
ambientais e sumariza praticamente toda a diversidade florística, bem como
muitas das relações ecológicas entre os diferentes organismos (Loidi, 1994).
Posteriormente, é necessário saber se a estrutura do habitat providencia áreas
de abrigo, alimentação e reprodução para as diferentes espécies de fauna. A
nomenclatura sintaxonómica apoia-se em Rivas-Martínez et al.(2001 e 2002).
O material vegetal foi identificado segundo os trabalhos de Castroviejo et al.
(1986-1997), Coutinho (1939), Franco (1971, 1984), Franco e Afonso (1994, 1998,
2003), Muñoz Garmendia e Navarro(1998) e Zarco (1990). A identificação da
fauna, espécies, dejectos e pegadas foi efectuada na base de guias de campo e
bibliografia especializada (Askew, 2004; BirdLife International, 2004; Brown,
2002; Bruun, 2002; Costa, 2003; Ferrand de Almeida, 2001; Flegg, 1990; García-
Barros, 2004; Maravalhas, 2004 e 2003; MacDonald, 2003; Mullarney, 1999;
Pollard, 2003; Robineau, 2007; Tolman, 1997 e Van Swaay, 1999). A biogeografia
das quintas avaliadas seguiu o trabalho de Costa et al. (1998).
RESULTADOS E DICUSSÃO
Foram avaliadas 14 quintas em Portugal Continental (Figura_2) que serão aqui
agrupadas e descritas por grupos: Sul, Centro e Norte.
Sul
Foram avaliadas 5 quintas localizadas (Figura_2), respectivamente, no
Superdistrito Sadense, Alto-Alentejano (2), Estremenho e Algárvico.
Quinta de Camarate
Foram identificadas 99 espécies de flora, 33 de aves, 4 de mamíferos e 1 de
réptil. Das espécies identificadas, apenas a flora apresenta espécies com
estatuto de conservação, nomeadamente um endemismo europeu e uma espécie
constante na Directiva Habitats, Anexo V: Salvia sclareoides e Ruscus
aculeatus, respectivamente.
A Quinta de Camarate localiza-se em Azeitão e estende-se por cerca de 110
hectares (ha). Tem 40 ha de vinha, sendo os restantes constituídos por
matagais, montados de sobro, e pinhais. A quinta localiza-se no sopé da Serra
da Arrábida, em solos argilo-calcários, sendo aqui produzidos os queijos de
Azeitão. Existe ainda uma colecção ampelográfica com mais de 500 castas
diferentes de vinha. Esta propriedade encontra-se encostada ao Parque Natural
da Arrábida, área protegida da Rede Natura 2000 (RN2000).
Os habitats da RN2000 identificados são: bosques de zambujeiros (9320pt1 '
Bosques olissiponenses-arrabidenses de zambujeiro e alfarrobeira) e montados de
sobro (6310 ' Montados de Quercus spp. de folha perene).
Herdade da Morgada
A Herdade da Morgada localiza-se em Borba e tem 110 ha, destes 27,5 ha são
vinha, 28 ha de nogueiras, 20 ha de montado de sobro, 11 ha de pomares de
ameixas rainha-cláudia, 13 ha de pomares de ameixas japonesas e 2,5 ha de
damascos. A propriedade encontra-se em zona de caça associativa, apresenta
terreno plano e com bastante diversidade de culturas frutícolas. A área de
montado de sobro encontra-se em óptimo estado de conservação. De maneira geral,
existem poucos núcleos de vegetação na bordadura das culturas, tratando-se de
um local muito aberto e de características áridas, abrangido pelo anticlinal de
Estremoz, com solos que variam entre xistos e vermelhos calcários. Os caminhos
não apresentam sinais de erosão e as culturas têm relvados naturais nas
entrelinhas. Na propriedade existe ainda uma charca com boas condições para a
ocorrência de anfíbios.
Esta propriedade não está abrangida por qualquer Sítio de Interesse Comunitário
(SIC) ou Zona de Protecção Especial (ZPE) da RN 2000, nem por nenhuma Área
Classificada.
Foram identificadas 86 espécies de flora, 35 de aves, 4 de mamíferos e um
réptil. Apenas no grupo da flora se observou a presença de espécies com
estatuto de conservação, nomeadamente 2 endemismos europeus (S. sclareoides e
Phlomis lychnitis). Em termos de habitats RN2000 identificados, chama-se a
atenção para os montados de sobro (6310 ' Montados de Quercus spp. de folha
perene).
Herdade de João Portugal Ramos
A Herdade de João Portugal Ramos localiza-se em Estremoz, com cerca de 130 ha.
Tem 63 ha de vinha e 70 ha de montado, uma ribeira e uma pequena barragem. Esta
propriedade não está abrangida por qualquer SIC ou ZPE da RN2000, nem por
nenhuma Área Classificada.
Nesta Herdade foram identificadas 105 espécies (73 de flora, 25 de aves, 5 de
mamíferos e dois répteis) e 3 apresentam estatuto de conservação: o
tartaranhão-caçador (Circus pygargus) uma espécie ameaçada com o estatuto de Em
Perigo (EN), a Gladiolus illyricus subsp. reuteri (endemismo ibérico) e a
Anarrhinum bellidifolium (endemismo europeu). Estas espécies ocorrem sobretudo
nos montados de sobro (6310 ' Montados de Quercus spp. de folha perene).
Quinta da Granja
Foram identificadas 91 espécies de flora, de destacar as 3 espécies presentes
na Convenção CITES (Anacamptis pyramidalis, Ophrys apifera e Serapias sp.),
todas orquídeas que se desenvolvem nestes solos calcários, bem como o endemismo
europeu (S. sclareoides) e a espécie constante na Directiva Habitats, Anexo II
(Salix salviifolia).
A quinta localiza-se entre o Carregado e Arruda dos Vinhos e estende-se por 120
ha. Tem várias parcelas de plantação de uva de mesa e outras de cereal
(cevada). As áreas de cereal funcionam como pousio, sendo cedidas a
agricultores que tratam da sua gestão. As culturas agrícolas de uva de mesa têm
a particularidade de não serem regadas, o que pode ser um factor diferenciador
que permita diferenciar este tipo de produção no mercado da fruticultura em
favor da conservação da natureza. Apresenta solos profundos, com elevada
capacidade de retenção de água e com pH na ordem dos 8 ' solos calcários. Esta
propriedade não está abrangida por qualquer área da RN2000. Os habitats com
maior relevância, são os relvados de orquídeas (habitat prioritário para a
conservação 6210 - Prados secos seminaturais e fácies arbustivas em substrato
calcário), bem como os matagais arbustivos presentes nas imediações destes
relvados e que são constituídos por carrascais (5330pt5 ' Carrascais,
espargueirais e matagais afins basófilos)
Quinta dos Vales
Localiza-se em Estombar e estende-se por 50 ha. Nesta quinta são desenvolvidas
várias actividades, tais como culturas agrícolas (vinha, figueiras,
laranjeiras, ameixeiras e alfarrobais) e florestais Esta propriedade não está
abrangida por qualquer área da RN2000. Compreende área agro-florestal,
implantada em terreno calcário com relevo ondulado. O solo (calcário) é um dos
principais factores ecológicos responsáveis pelo desenvolvimento do coberto
vegetal: núcleos de orquídeas, carrascais e tomilhais, entre outros.
De todas as quintas amostradas foi a que apresentou maior diversidade de
espécies, nomeadamente espécies com estatuto de conservação. Em termos de flora
foram identificadas 117 espécies, das quais 2 são endemismos (Cistus
psilosepalus e G. illyricus subsp. reuteri) e 5 são orquídeas, espécies que
figuram na Convenção CITES (Anacmptis pyramidalis, Ophrys bombyliflora, Ophrys
lutea, Ophrys speculum e Serapias sp.). Foram também registadas 4 espécies de
répteis, 28 espécies de aves e 3 espécies de mamíferos. Relativamente às
espécies de aves, destaca-se a Gaivota-de-asa-escura (Larus fuscus), detectada
na amostragem e que apresenta estatuto de conservação Vulnerável. Contudo,
tratando-se de uma ave marinha a utilização da área da Quinta dos Vales será
apenas pontual. Todos os outros grupos de fauna não apresentam espécies com
especial interesse para a conservação.
Centro
Foram avaliadas 4 quintas (Figura_2) localizadas, respectivamente, no Subsector
Beirense Litoral (2), Altibeirense e Zezerense e Miniense Litoral.
Quinta do Valdoeiro
A Quinta do Valdoeiro, no concelho de Mealhada, tem cerca de 140 ha. Esta
propriedade não se encontra abrangida por qualquer área classificada da RN2000.
Identificaram-se 60 espécies vegetais, 25 aves, 7 mamíferos e um anfíbio. Em
relação às espécies identificadas com estatuto de conservação, apenas a flora
apresenta espécies desta categoria, nomeadamente dois endemismos europeus
(Hypericum elodes e Cytisus striatus) e uma espécie constante na Directiva
Habitats, a gilbardeira (R. aculeatus). Foi amostrada uma charca e a sua
envolvente constituída por povoamentos de eucalipto e um povoamento de pinhal-
bravo, não tendo sido identificados quaisquer habitats classificados.
Apesar da Biodiversidade encontrada ser reduzida, as zonas amostradas possuem
potencial para a ocorrência de muitas espécies com estatuto de conservação,
dado o estado actual de conservação da área ser evolutivo e favorável. Esta
reduzida detecção de Biodiversidade, pode dever-se ao facto de ter sido
realizada uma única visita de amostragem.
Colinas de São Lourenço
Localiza-se no concelho de Anadia e tem cerca de 20 ha, não sendo abrangida por
qualquer área classificada da RN2000. Foram identificadas 46 espécies vegetais,
sendo apenas uma constante da Convenção CITES (A. pyramidalis), 4 espécies de
aves, 3 espécies de mamíferos e uma espécie de réptil. Nenhum dos grupos de
fauna apresenta espécies com especial interesse para a conservação.
Foi avaliada a área de pinhal que não apresentava sub-coberto arbustivo por ter
sido recentemente cortado. Assim sendo, a diversidade florística encontrada foi
relativamente baixa. Alguns sobreiros estão presentes no estrato arbóreo e no
estrato arbustivo apenas se observaram as seguintes espécies (resquícios do
corte de matos ou regeneração após corte): Smilax aspera, Cistus salvifolius,
Ulex sp., Quercus lusitanica, Myrtus communis, Crataegus monogyna, Daphne
gnidium e Phillyrea angustifolia.
Apenas foi identificado um habitat classificado, caracterizado por ser uma área
aberta constituída por relvados de orquídeas em solos calcários. Esta área já
não pertence à quinta, no entanto, foi realizada a sua avaliação que permite
tirar elações sobre o tipo de vegetação que poderia existir na mesma caso
houvesse mais áreas naturais.
Dada a altura do ano em que os levantamentos foram realizados (Verão), já não
foi possível identificar as espécies de orquídeas aqui presentes. Apenas se
conseguiu observar já o estado final do seu ciclo reprodutivo (ovários
inchados). Provavelmente trata-se de A. pyramidalis e Serapias sp., contudo sem
certezas. Do que se conseguiu observar, as populações eram grandes (pelo menos
mais de 20 indivíduos de A. pyramidalis), o que torna a área habitat
prioritário da RN2000.
Quinta de Valverdinho
Localiza-se na sub-região da Cova da Beira e tem cerca de 1200 ha, não se
encontrando abrangida por qualquer área classificada da RN2000.
As áreas amostradas correspondem sobretudo a zonas húmidas que constituem os
set-asidesdas áreas plantadas. As ribeiras são dominadas por salgueirais,
freixiais e amiais (92A0pt4 ' Salgueirais arbustivos de S. salviifolia; 91E0* -
Florestas aluviais de Alnus glutinosaeFraxinus excelsiore 91B0 ' Freixiais
termófilos de Fraxinus angustifolia). Foram identificadas 76 espécies de flora,
duas endemismos Europeus (C. striatus e A. bellidifolium) e 1 espécie do Anexo
II da Directiva Habitats (S. salviifolia). Em termos de fauna, foram registadas
41 espécies de aves, 6 espécies de mamíferos, 2 espécie de répteis, 2 de
anfíbios, 1 de peixes, 6 de Odonatos e 3 de Lepidopteros. A maioria das
espécies de fauna registadas corresponde a espécies não ameaçadas, comuns e de
distribuição ampla. No entanto, é de realçar a importância da presença de dois
endemismos ibéricos, a rã-ibérica (Rana iberica) que merece atenção especial já
que, apesar de ser uma espécie classificada como Pouco Preocupante a nível
nacional, apresenta populações isoladas na sua área meridional de distribuição
e do lagarto-de-água (Lacerta shreiberi), também considerado Pouco Preocupante
(LC) no Livro Vermelho de Vertebrados de Portugal, mas apresentando populações
residuais a sul do Rio Tejo, com elevada probabilidade de extinção. A toupeira
(Talpa occidentalis) é também um endemismo ibérico considerado como Pouco
Preocupante (LC) que, dada a sua ampla distribuição em Portugal, não requer,
para já, especial atenção. Na conservação de anfíbios, dada a sua dependência
de zonas húmidas (p.e. charcas, linhas de água, pauis), tem especial relevância
a conservação destas e diminuir a poluição e eutrofização das mesmas. Para os
répteis terrestres, as acções de conservação devem também centrar-se na
manutenção da vegetação autóctone.
Quinta de Lemos
A Quinta de Lemos localiza-se em Silgueiros e tem cerca de 50 ha com 23 ha de
vinha, 8 ha de olival, sendo os restantes constituídos por floresta (bosquetes
de carvalhais e pinhais). Esta propriedade não se encontra abrangida por
nenhuma área protegida da RN2000.
Durante as saídas de campo foram identificadas 69 espécies de flora, 32 de
aves, 3 mamíferos e dois répteis. Apenas o grupo da flora apresenta espécies
com especial interesse para a conservação: 4 endemismos Europeus (Linaria
spartea, A. bellidifolium, Teucrium scorodonia e Halimium alyssoides), e duas
espécies constantes na Directiva Habitats (R. aculeatus e S. salviifolia).
Os habitats amostrados são povoamentos de pinheiro-bravo que apresentam
bastante regeneração natural de carvalho-alvarinho (Quercus robur) e
medronheiro (Arbutus unedo). Fora dos limites da propriedade existe uma área
onde o pinheiro-bravo (Pinus pinaster) diminui a sua dominância, aumentando a
dominância de carvalhais com sub-coberto de medronhal (9230pt1 ' Carvalhais de
Q. robur e 5330pt3 ' Medronhais). Apesar de fora da área de amostragem, fez-se
a avaliação desta área como forma de caracterizar a vegetação natural
característica da área de estudo.
Norte
Foram avaliadas 5 quintas (Figura_2) que se encontram respectivamente no
Superdistrito Altibeirense, Duriense, Duriense e Terra-Quente, Miniense Litoral
e Subsector Miniense.
Quinta da Ervamoira
A Quinta da Ervamoira localiza-se no concelho de Vila Nova de Foz Côa e abrange
cerca de 200 ha, entre os 110 m e os 340 m de altitude. Tem 150 ha de vinha
(plantação vertical), sendo os restantes constituídos por olivais, linhas de
água (ribeira de Piscos e rio Côa) e matos baixos. Pretende-se fazer a
transição de cerca de 30 ha de modo de produção biológico, a serem certificados
como parcelas pedagógicas. A quinta tem todo o seu limite Este delimitado pelo
rio Côa. Na quinta predominam os solos do tipo xisto com pH neutro, existindo
bastantes problemas de perda de solo por erosão. Esta propriedade encontra-se
abrangida pela ZPE do Vale do Côa ' PTZPE0039.
Foram identificadas 55 espécies vegetais, das quais duas são endemismos Europeu
(Cytisus multiflorus e A. bellidifolium). Foram também registadas 42 espécies
de aves, 4 de mamíferos, 1 de réptil e 1 de anfíbio. É de realçar a importância
da presença da Cegonha-preta (Ciconia nigra), classificada como Vulnerável
(VU); da Águia-real (Aquila chrysaetos), classificada como Em Perigo de
Extinção e do Chasco-preto (Oenanthe leucura), classificado como Criticamente
em Perigo (CR) no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Para todas as
espécies mencionadas, é muito importante realizar campanhas nacionais de
sensibilização e educação ambiental da população rural.
Identificaram-se comunidades arbóreas de salgueiros, choupos e freixos nas
margens do rio Côa (91B0 ' Freixiais termófilos de F. angustifolia; 92A0 '
Florestas-galerias de Salix alba e Populus alba; 92D0pt3 ' Matagais de Flueggea
tinctoriaassociados a leitos de estiagem inundados no Inverno e 5330pt2 '
Piornais de Retama sphaerocarpa). São comunidades importantes por possuírem a
estrutura física que permite o abrigo de diferentes espécies de avifauna e que
permitem, entre outras funções, regularizar o ciclo hidrológico da água bem
como a estabilização de margens e taludes.
Quinta da Roêda
Localiza-se em Pinhão e abrange cerca de 105 ha. Tem 77 ha de vinha (vinha em
patamares e ao alto), sendo os restantes constituídos por olivais e matorrais.
A quinta a SE e a SW contacta com o rio Douro, encontrando-se implantada em
solos xistosos. A Quinta da Roêda apresenta 3 modos de produção de vinho -
biológico, convencional e sustentável.
Apenas se realizaram levantamentos em áreas adjacentes ao modo de produção
sustentável como forma de obter resultados comparativos em relação aos dois
outros modos de produção, uma vez que a finalidade é aliar um modo de gestão
que tenha o mínimo de impactes na natureza e ao mesmo tempo que do ponto de
vista económico seja gerador de riqueza. Esta propriedade não se encontra
abrangida por nenhuma área protegida da RN2000. Os levantamentos florísticos
realizados evidenciam uma diversidade vegetal de 59 espécies, sendo uma
endemismo Europeu (A. bellidifolium). Foram registadas 29 espécies de aves, 1
de mamífero, 1 de réptil e 4 de Lepidopteros. Estas espécies de fauna
correspondem a espécies não ameaçadas, comuns e de distribuição ampla.
Apenas foi identificado um habitat da Directiva Habitats (5330pt3 '
Medronhais). Trata-se de um medronhal denso com enorme variedade de espécies
que o acompanham tais como: Cistus albidus, C. ladanifer, C. salvifolius, Erica
sp., Cytisus sp., P. angustifolia, Thapsia villosa, Osyris alba, Juniperus
oxycedrus, Lavandula pedunculata, Pistacia terebinthus, e R. sphaerocarpa,
entre outras.
Quinta de Malvedos
A Quinta de Malvedos localiza-se em Pinhão e abrange cerca de 108 ha. Tem 70 ha
de vinha, sendo os restantes constituídos por olivais e linhas de água. A
quinta a SE contacta com o rio Douro e a SW com o rio Tua e encontra-se
implantada em solos xistosos, sendo aqui produzidos vinhos de categoria A,
classificação atribuída pela entidade reguladora dos vinhos do Douro. Esta
propriedade não é abrangida por nenhuma área protegida da RN2000. Foram
identificadas 83 espécies vegetais, 32 espécies de aves, 3 espécies de
mamíferos e 2 espécies de répteis. Em relação às espécies com interesse para a
conservação, destacam-se os 3 endemismos Europeus de flora (A. bellidifolium,
Verbascum virgatum e Centaurea aristata subsp. langeana), a espécie do anexo V
da Directiva Habitats, a gilbardeira (R. aculeatus) e o tartaranhão-caçador (C.
pygargus), classificado como Em perigo de Extinção (EN) ' no Livro Vermelho
dos Vertebrados de Portugal.
A grande maioria dos levantamentos ecológicos foi realizada junto ao rio Douro
e Côa, tendo sido identificado um habitat figurativo da Directiva Habitats, os
freixiais de F. angustifolia (91B0 ' Freixiais termófilos de F. angustifolia).
São freixiais mediterrânicos ocidentais, hidrófilos, próprios de solos
profundos e com nível freático elevado que formam bosques fechados.
Quinta das Arcas
Quinta localizada no concelho de Valongo com cerca de 40 ha, não abrangida por
qualquer área protegida da RN2000.
Os valores naturais aqui amostrados evidenciam a presença de 51 espécies (33 de
flora, 17 de aves e um mamífero). Apenas a flora apresenta espécies com
especial interesse para a conservação: 3 endemismos Europeus (T. scorodonia,
Pterospartum tridentatum e C. striatus).
Trata-se da quinta amostrada que apresenta menor biodiversidade de espécies e
de habitats naturais, sendo por isso, importante recuperar áreas adjacentes às
áreas de produção agrícola através da recriação de habitats e sebes de
compartimentação. Deverá promover-se a cobertura arbustiva das margens de modo
a potenciar a existência de abrigos para a fauna. O adensamento com espécies
arbustivas por forma a incentivar o estado sucessional da vegetação deverá ser
uma das principais medidas de gestão.
Quinta de Azevedos
A Quinta de Azevedo tem 40 ha e localiza-se no concelho de Barcelos. Contigua à
Quinta de Azevedo, encontra-se a Quinta da Covilhã, a qual também foi avaliada,
tendo sido considerada como o segundo ponto de amostragem. Esta propriedade não
é abrangida por qualquer área classificada da RN2000.
Os resultados obtidos evidenciam a presença de 57 espécies florísticas, 3 das
quais endemismos Europeus (C. striatus, P. tridentatum e C. psilosepalus), 21
de aves, 3 de mamíferos e 1 réptil. É de destacar o noitibó-cinzento
(Caprimulgus europaeus), classificado como Vulnerável (VU), que é uma ave
crepuscular e nocturna insectívora. Faz-se notar principalmente pelo seu canto
que parece o de uma cigarra. Estão presentes manchas de pinho (P. pinaster) com
algum subcoberto de matos baixos. Nos limites da quinta, junto da parte murada,
desenvolvem-se núcleos de carvalho-americano (Quercus rubra) sem sub-coberto e
núcleos de carvalho-alvarinho (Q. robur), estes últimos em maior expressão fora
da quinta, já no terreno vizinho (9230pt1 ' Carvalhal de Q. robur). Muito
interessante é ainda a presença de comunidades que se desenvolvem em solos
hidromórficos, na margem de povoamentos de pinho, com urzais (Erica tetralix) e
tojais (Ulex sp.) e várias gramíneas sob solos profundos e fofos, com algum
nível de humidade. Estes habitats são considerados prioritários para a
conservação, segundo a Directiva Habitats (4020* ' Charnecas húmidas atlânticas
temperadas de Erica ciliaris e E. tetralix).
A quinta possui as infraestruturas ecológicas necessárias à protecção da área
agrícola, com taludes naturais que funcionam como descontinuidades da parte
produtiva.
CONCLUSÕES
A partir dos levantamentos de campo efectuados, ao longo de 2011, em
propriedades sob gestão agro-florestal, salienta-se:
• A gestão agro-florestal deve ter em conta a protecção e gestão de áreas de
conservação e de espécies com estatuto de protecção;
• A Biodiversidade Natural assegura o desempenho das funções ecológicas
(regulação de pragas e doenças, criação de nichos com microclimas
específicos, fonte de alimento para a fauna, redução no uso de produtos
químicos, aumento da fertilidade do solo); quando falta a regulação promovida
por estes elementos naturais, as funções ecológicas não se processam e o
ecossistema entra em desequilíbrio; na tentativa de repor o equilíbrio nos
ecossistemas é necessária a intervenção humana, através da realização de
acções de restauro ecológico de áreas degradadas;
• Os PAC são, sem dúvida, uma excelente ferramenta para os proprietários
agro-florestais, que têm assim identificadas, mapeadas e reconhecidas as
áreas de conservação e espécies com estatuto de conservação, para
concretizarem medidas de gestão para cada valor de conservação identificado;
• Os PAC são a forma de diferenciar estas quintas no mercado de vinhos ou de
fruta, através da sinergia entre a componente ecológica e o desenvolvimento
sustentável; depois de realizado o diagnóstico junto do proprietário para
identificação de problemas existentes, foram identificadas as áreas
prioritárias de intervenção, nomeadamente a ausência de infra-estruturas
ecológicas ou a invasão por espécies exóticas;
• Os resultados apresentados são parte de resultados mais amplos obtidos,
limitando-se à referência às espécies e habitats com alto valor de
conservação.