Impacto da Traça-Verde Palpita vitrealis (Rossi) em diferentes cultivares de
oliveirana Cova da Beira
INTRODUÇÃO
A traça-verde Palpita vitrealis (Rossi) [=Palpita unionalis (Hübner);
=Margaroniaunionalis Hübner] é uma praga importante da família Oleaceae nos
géneros Jasminum , Ligustrum , Olea , Fraxinus e Phillyrea, causando prejuízos
elevados nas folhas dessas plantas, principalmente em plantações jovens e
viveiros (Katsoyannos, 1992; Bento et al., 2007). É um lepidóptero da família
Crambidae, com comportamento polífago.
Observações efectuadas em Trás-os-Montes e na Beira Interior, entre 2002 e 2004
(Torres et al ., 2004) e no Ribatejo em 2003 e 2004 (Marques e Bento, 2005),
mostraram uma curva de voo irregular, sugerindo a sobreposição de diferentes
gerações entre meados do Verão e meados do Outono, com o pico de maior
intensidade entre meados de Agosto e Outubro. No Ribatejo existe também um pico
de capturas em Junho/início de Julho (Marques e Bento, 2005).
Em olivais, esta traça costuma ter densidades populacionais moderadas, embora
existam períodos em que ocorrem surtos que podem causar prejuízos elevados. As
lagartas atacam as folhas tenras, principalmente as dos rebentos terminais,
podendo até atacar os frutos, embora sem significado económico nas árvores
adultas. As jovens lagartas alimentam-se da página inferior das folhas e à
medida que crescem, consomem as folhas inteiras e os rebentos e, na segunda
geração, alimentam-se dos frutos e sementes se atingirem níveis populacionais
elevados (Grossley, 2000).
MATERIAL E MÉTODOS
Este estudo decorreu num olival localizado na Quinta do Galvão, na freguesia de
Vale Formoso, junto a Belmonte, na região denominada Cova da Beira. Este olival
é constituído por árvores de porte pequeno e médio.
O olival está instalado com um compasso de 5m x 7m, num vale orientado a NE/SW.
As cultivares presentes são Cobrançosa', Galega Vulgar' e Arbequina'. As
árvores tinham cerca de cinco anos; no entanto, a Galega Vulgar' encontra-se
plantada em duas manchas, uma com cinco anos e outra com um ano. Encontravam-se
em bom estado sanitário, embora tenham tido alguns ataques de euzofera,
Euzophera pinguins (Haworth) (Lepidoptera: Pyralidae) e de traça-verde, P.
vitrealis . Tinha ocorrido uma forte geada que provocou a morte de várias
árvores, tendo-se replantado com Galega Vulgar' (daí a existência de árvores
com um ano de idade).
Efectuaram-se observações visuais dos rebentos atacados, utilizando a
metodologia de estimativa do risco de Mendes e Cavaco (2008). Marcaram-se
quatro blocos de 20 árvores em Cobrançosa', Arbequina' e Galega Vulgar' de
cinco anos. Por haver algumas falhas devido à geada e outrosataques referidos,
a disposição dos blocos foi diferente nas diferentes cultivares. É de referir
que na parcela Galega Vulgar' com um ano se marcaram 20 árvores em oito zonas
das parcelas para poder observar cinco rebentos em cada uma das 20 árvores
(Mendes e Cavaco, 2008). Em qualquer das cultivares observaram-se 400 rebentos/
semana, durante 15 semanas. Registaram-se, também, os estados fenológicos nas
quatro cultivares, de acordo com Mendes e Cavaco (2009). As observações
decorreram entre 5 de Abril e 7 de Novembrode 2010.
Para avaliar a espessura das folhas de oliveira Arbequina', Cobrançosa' e
Galega Vulgar', seccionaram-se fragmentos de folhas com o auxílio de um
micrótomo de congelação CM1850 (Leica). Os cortes, com espessura de 18 µm,
foram depois corados, montados numa mistura clara de azul de algodão em
lactofenol e observados em microscópio de campo claro (Rijo e Rodrigues, 1978).
Mediu-se a espessura das folhas com recurso a uma ocular micrométrica. Usaram-
se20 folhas de cada bloco (1folha/árvore) em cada um dos quatro blocos de cada
cultivar.
Os cortes transversais de folhas efectuados com micrótomo de congelação foram
submetidos ao teste de fluorescência. Os cortes foram colocados numa solução de
fosfato de potássio (K2HPO4; 0,07 M e pH 8,9) e, posteriormente, montados na
mesma solução e observados ao microscópio (Silva et al. , 2002). A
autofluorescência das células (com luz azul) é indicadora da acumulação e
oxidação de compostos fenólicos (Bennett et al. , 1996).
As observações foram feitas em microscópio óptico DM-2500 (Leica) de campo
claro e de fluorescência, equipado com lâmpada de mercúrio HB 100W, luz azul
(excitação 450-490, filtro barreira 515) com câmara digital acoplada. A medida
obtida foi multiplicada pelofactor de correcção de 12,5 para conversão em µm.
A análise estatística foi efectuada através de ANOVA a um factor (cultivar),
com quatro blocos e 20 árvores ou cortes por bloco, seguida do teste de
comparação múltipla de médias de Tukey, sempre que se detectava diferenças
significativas. Em qualquer dos testes considerou-se o nível de significância
de 0,05 e recorreu-se ao programa estatístico Statistix versão 9.0.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O número de rebentos atacados foi inicialmente baixo, mas aumentou bastante
para qualquer das cultivares, no início de Agosto (Fig._1). A Cobrançosa'
apresentou diferenças estatisticamente significativas em relação às restantes
(Quadro_1).
Em relação à espessura das folhas não se verificaram diferenças
estatisticamente significativas entre cultivares (Quadro_2). No entanto, é de
salientar que apenas se fizeram 80 observações em cada cultivar.
A nível histológico não se observaram diferenças relativamente à presença e
abundância de tricomas nas diferentes cultivares (Fig.2).
O facto da Cobrançosa' evidenciar significativamente menos rebentos atacados
levou a admitir que as folhas das diferentes cultivares poderiam apresentar
diferentes espessuras que justificassem as diferenças observadas nos ataques
registados e explicassem preferências da praga. Contudo, não se encontraram
diferenças significativas ao nível da espessura das folhas entre as cultivares
que justificasse as diferenças observadas. A nível histológico não se
verificaram diferenças na abundância de tricomas nas diversas cultivares.
CONCLUSÕES
Os ataques de traça-verde aos rebentos das três cultivares estudadas foram
baixos no início da Primavera, mas subiram em Agosto para valores relativamente
elevados. Cobrançosa' foi significativamente menos atacada que Arbequina' e
Galega Vulgar'. Não se detectaramdiferenças quer na espessura das folhas quer
na abundância de tricomas nas diferentes cultivares que pudessem explicar a
diferente susceptibilidade das cultivares estudadas.