Avaliação de plantas espontâneas do olival para fomento da protecção biológica
de conservação
INTRODUÇÂO
A necessidade de reduzir o uso de pesticidas na protecção das culturas confere
particular interesse à protecção biológica de conservação, estratégia que
assenta na adopção de medidas de gestão do habitat destinadas a incrementar a
densidade das populações de inimigos naturais das pragas e a melhorar o seu
desempenho (Böller et al., 2004). Diversos trabalhos têm demonstrado que muitos
destes auxiliares utilizam o néctar e polén como fonte de energia, melhorando
assim o seu desempenho e sobrevivência. Para isso, é essencial que possam
aceder a tais recursos, o que depende da morfologia do insecto (i.e. armadura
bucal e/ou cabeça) em relação com a arquitectura da flor (Wäckers, 2004;
Winkler et al., 2009).
No olival, entre os inimigos naturais das pragas, assume papel relevante, a
crisopa-comum, Chrysoperla carnea (Stephens), pela predação que as suas larvas
exercem sobre as populações de diversos fitófagos, como a traça-da-oliveira,
Prays oleae Bernard, a cochonilha-negra, Saissetia oleae Olivier e o algodão-
da-oliveira, Euphyllura olivina Costa (Torres, 2006).
Este estudo teve por objectivo contribuir para conhecer as possibilidades
oferecidas por 3 espécies de plantas espontâneas do olival (erva-aranha,
Spergula arvensis L., malva, Malva neglecta Wallr. e funcho-bravo, Foeniculum
vulgare Miller) no fomento da actuação de C. carnea. Avaliou-se a atractividade
exercida por estas plantas sobre o insecto e a possibilidade teórica de acesso
deste ao seu néctar, através da medição da largura da sua cabeça em comparação
com a abertura da corola das flores. Também se avaliou a longevidade e a
fecundidade do insecto quando alimentado em cada uma das plantas.
MATERIAL E MÉTODOS
Insectos e medição da cabeça
Os exemplares de crisopa-comum foram criados em laboratório em condições
ambientais controladas (25±2ºC, 60±20% HR e 16:8 D:N) e alimentados com ovos de
Ephestia kuehniella Zeller (Lep.: Pyralidae). A largura da cabeça foi medida em
30 indivíduos de cada sexo, com recurso a uma lupa binocular e ao software
Digital Imaging Solutions.
Plantas e arquitectura floral
Foram selecionadas 3 espécies de plantas identificadas em olivais da Beira
Interior (Nave et al., 2009): Foeniculum vulgare Miller (funcho-bravo),
Spergula arvensis L. (erva-aranha) e Malva neglecta (Wallr.) (malva). Mediu-se
a abertura e a profundidade das corolas de 12 flores de malva, 20 flores de
erva-aranha e 10 flores de funcho, com recurso à lupa e software usados na
medição da cabeça dos insectos.
Atractividade
A atractividade exercida pelas plantas sobre C. carnea foi avaliada com um
olfactómetro de 4 vias, numa das quais se colocou água, que serviu de
testemunha, e em cada uma das outras 3 colocou-se uma das plantas a testar.
Para o efeito usaram - se 40 indivíduos de C. carnea previamente acasalados,
cada um dos quais testados uma única vez. Antes do início de cada teste o
aparelho foi sujeito a 5 minutos de vácuo, apenas com água em cada uma das
vias, para o limpar. Para evitar possíveis efeitos de variações ambientais, os
testes foram realizados sempre à mesma hora, e a posição do olfactómetro sofreu
rotações de 90º depois de se testarem 10 indivíduos. Simultaneamente,
higienizou-se o aparelho e substitui-se o extracto floral, de forma a evitar a
deterioração e a diluição do aroma. Esta operação foi também efectuada sempre
que se trabalhava com uma nova planta, para evitar a contaminação por aromas
anteriormente testados. Utilizaram-se partes de planta com flor e folhas, tendo
sido feita a sua colheita imediatamente antes da realização dos ensaios.
Longevidade dos insectos nas plantas em estudo
Nas 4 modalidades (funcho-bravo, erva-aranha, malva e testemunha, no caso a
água) e 15 repetições, cada repetição era constituída por um casal de C.
carnea.Cada casal recém-emergido (< 24 h) foi colocado numa caixa de plástico
(16 x 16 x 12 cm) com o topo forrado com feltro verde, que funcionava como
substrato de postura, e a base revestida por uma rede de plástico para permitir
a ventilação. Em cada caixa, colocaram-se 2 recipientes (frascos para amostras
biológicas de 60 mL) com água. Num dos recipientes introduziu-se uma esponja
para permitir aos insectos acederem à água; no outro introduziu-se um fragmento
de planta com flores, com ca. de 10-12 cm de comprimento. O ensaio decorreu em
condições controladas: 25±2ºC, 60±20% HR, e 16:8 D:N de fotoperíodo, sendo os
fragmentos de planta renovados diariamente ou, no máximo, de 2 em 2 dias.
Registou-se a longevidade dos insectos e a sua fecundidade, expressa pelo
número de posturas efectuadas.
Análise dos dados:
A largura da cabeça de C. carnea foi comparada entre sexos, através de um teste
t-Student. A atractividade exercida pelas diferentes plantas, em termos de
aroma, foi avaliada por análise da variância (ANOVA), para o número de insectos
que optaram pelo aroma e pelo teste de Qui-quadrado (X2), para o tempo em que
cada insecto permaneceu no aroma. A longevidade nas diferentes modalidades foi
determinada pelo teste de Kruskal-Wallis (X2kw), seguido do teste de Mann-
Whitney U, por não ser possível garantir os pressupostos de normalidade e
homogeneidade das variâncias. As análises foram realizadas para um nível de
significância de 5%. Os resultados são apresentados sob a forma de média ± erro
padrão (EP).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A abertura das corolas foi de 19,04±2,91mm em M. neglecta, 5,92±2,00mm em S.
arvensis e 1,84±0,26mm em F. vulgare(Figura_1) e nenhuma das plantas tinha
profundidade. A largura média da cabeça de C. carnea foi de 1,19±0,06mm nos
machos e 1,21±0,06mm nas fêmeas, não tendo diferido significativamente entre
sexos (t = -0,999, p = 0,322). No conjunto dos sexos, a largura da cabeça do
insecto foi, em média, de 1,20±0,06mm (Figura_1). Destes resultados concluiu-se
que o insecto pode facilmente aceder ao néctar das plantas em análise.
C. carnea foi significativamente mais atraída por S. arvensis (17 indivíduos) e
M. neglecta (13 indivíduos), comparativamente à testemunha (2 indivíduos)
(Quadro_1). Enquanto na água, a permanência do insecto foi, em média, de
53,0±16,0s, em S. arvensis foi de 239,0±26,1s e em M. neglecta foi de
282,2±6,7s. A atractividade exercida por F. vulgare (8 indivíduos e 194,0±46,4s
de permanência)não diferiu significativamente da evidenciada pelas plantas
anteriores e pela testemunha (Quadro_1).
A longevidade dos adultos diferiu entre modalidades (X2kw= 36,733, p = 0,001
nas fêmeas e X2kw= 27,565, p = 0,001 nos machos), tendo sido sempre superior,
em qualquer das plantas, à testemunha. Nas fêmeas, a longevidade foi
significativamente maior na modalidade F. vulgare, comparativamente a qualquer
das restantes, enquanto nos machos foi superior nesta modalidade
comparativamente a S. arvensis, mas não se observaram diferenças significativas
entre F. vulgare e M. neglecta (Figura_2). Em nenhum dos sexos se observaram
diferenças significativas entre M. neglecta e S. arvensis. As fêmeas viveram
12,5±2,8 dias (entre 3 e 41 dias) em F. vulgare, 6,7±1,5 (entre 2 e 25 dias) em
M. neglecta, 4,0±0,2 (entre 3 e 5 dias) em S. arvensis e 2,3±0,1 (entre 2 e 3
dias) em água (Figura_2). Os machos viveram 9,9±2,6 dias (entre 3 e 41 dias) em
F. vulgare, 7,3±2,2 (entre 2 e 34 dias) em M. neglecta, 4,1±0,1 (entre 4 e 6
dias) em S. arvensis e 2,4 ± 0,2 (entre 2 e 4 dias) em água (Figura_2). Apenas
6 dos casais efectuaram posturas, todos eles na modalidade F. vulgare. O número
de ovos por fêmea foi de 66,0±15,7.
CONCLUSÕES
Os resultados obtidos fornecem informação preliminar sobre a adequação de 3
espécies de plantas espontâneas do olival no incremento da actuação de
C.carnea. Comparando a morfologia da cabeça do insecto com a estrutura da flor,
conclui-se que o mesmo é capaz de aceder ao néctar de qualquer das plantas
analisadas. C.carneafoi atraída por todas as plantas em estudo, embora tenha
manifestado preferência por S. arvensis e M. neglecta,comparativamente aF.
vulgare. Apesar disso, viveu significativamente mais tempo quando lhe foi
facultada a última destas plantas e foi apenas nesta que efectuou posturas. Tal
facto, poderá estar relacionado com diferenças na qualidade do néctar das
plantas em estudo, quer em termos de quantidade quer em termos de riqueza.
Deste modo, a capacidade do insecto aceder ao néctar de dada planta deverá ser
vista apenas como um indicador e não como uma garantia de que a mesma permite
incrementar a sua longevidade, como referido por Tompkins (2010).