Armadilhas de feromona sexual com luz para captura em masse de Tuta Absoluta
(Meyrick), sim ou não?
INTRODUÇÃO
A chegada, a Portugal, da espécie Tuta absoluta (Meyrick) (Lepidoptera:
Gelechiidae), designada por traça-do-tomateiro, detectada em Maio de 2009 pelas
entidades oficiais (Figueiredo et al.,2010), mas cujas primeiras observações na
empresa Horticilha, em Alcochete, datam de Abril de 2009 (Matos, 2011),
originou graves prejuízos e suscitou a necessidade de encontrar formas eficazes
e com risco aceitável para o seu combate. De facto, a sua rápida proliferação e
grande capacidade de causar prejuízos, associados ao desconhecimento inicial da
sua biologia, inclusivamente com confusão com outras pragas, como as larvas
mineiras das hortícolas (Liriomyza spp. ' Diptera: Agromyzidae) e as
dificuldades de proceder ao seu tratamento com produtos fitofarmacêuticos,
exigiram a definição de estratégias integradas de prevenção e tratamento. Para
além do contributo dos insectos auxiliares e da correcta aplicação de produtos
fitofarmacêuticos, o combate a T. absoluta deverá passar, também, pelo
criterioso uso de meios de luta biotécnica. Este tipo de luta pode e deve
contribuir para a considerável redução dos efeitos dos ataques desta praga,
sendo necessário determinar as metodologias mais adequadas para este objectivo.
Este aspecto assume particular importância dado o elevado custo que os meios de
luta contra esta praga representam na conta de cultura.
O uso de feromonas no combate a T. absoluta pode ter duas finalidades: a
monitorização e a captura em massa (Martí et al., 2010). Para efectuar a
monitorização da praga e a estimativa do risco, Cabello et al. (2010)
recomendam a colocação de quatro armadilhas delta, com difusor de feromona,
desde o início da cultura ' uma no exterior da estufa e três no interior, junto
à entrada, a meio da instalação e na parede oposta à entrada. Apesar de
Benvenga et al. (2007) referirem a correlação significativa entre o número de
capturas nas armadilhas de monitorização e a intensidade de ataque de T.
absoluta em tomate cultivado em ambiente protegido, Cabello et al. (2010)
alertam para a necessidade de inspeccionar regularmente as plantas para
detectar a presença de lagartas, já que nem sempre a presença e número destas
está correlacionada com o número de adultos capturados nas armadilhas. Para
captura em massa de machos de T. absoluta, Monserrat (2009) considera que o uso
de armadilhas de água pode ser útil, especialmente se usadas como complemento
de outros meios de luta. Essa utilidade reflectir-se-á no relativo abrandamento
da evolução da praga, com alguma importância em níveis baixos da população, mas
com efeito residual face a populações elevadas. Realça-se que por se dispor
apenas de feromonas análogas às feromonas naturais das fêmeas e, portanto,
estas armadilhas capturarem apenas machos, a captura em massa só terá eficácia
na redução das populações de espécies poligínicas (como a traça-do-tomateiro)
no caso de capturarem mais de 80% da população (Monserrat, 2009). Estas
armadilhas podem ser adquiridas a empresas do ramo de protecção das culturas
mas, como relataram Figueiredo et al. (2010), alguns agricultores da região
Oeste usam dispositivos artesanais para o mesmo efeito, com eficácia similar e
menor custo. É geralmente considerado que a associação de uma fonte luminosa às
armadilhas iscadas com feromona sexual deverá aumentar as capturas de
lepidópteros e, sobretudo, permitir a captura expressiva de fêmeas,
justificando, por isso, o custo mais elevado destas armadilhas. Al-Zaidi (2010)
avaliou o efeito combinado de feromona e de luz em armadilhas de captura em
massa, verificando resultados prometedores na redução das populações de T.
absoluta em culturas protegidas, capturando, simultaneamente, machos e fêmeas,
e evitando que a armadilha Ferolite®, resultante dessa investigação, capturasse
indevidamente insectos auxiliares. Estas armadilhas poderão, contudo, no caso
de estufas desprovidas de estanquicidade à entrada de insectos, causar o efeito
pernicioso de atrair para o interior das infra-estruturas de produção ainda
mais adultos de T. absoluta e outros lepidópteros, que apesar de atraídos
poderão não ser retidos na armadilha (Monserrat, 2009).
MATERIAL E MÉTODOS
Neste ensaio, foram utilizadas 10 armadilhas de água Tutasan®, da Koppert B.V.
(Holanda) e cinco armadilhas luminosas Ferolite®, da Russell IPM (Reino Unido).
Nas armadilhas foram colocados iscos de feromona Phero-Tuta® da Pheromon
(Espanha) e o depósito das armadilhas foi parcialmente cheio de água com
pequena quantidade de detergente ecológico Ecover®, da EcoTrading, como agente
surfactante. Nas armadilhas Tutasan® o efeito atractivo é exercido apenas pelo
isco de feromona, enquanto que nas outras este actua em conjunto com a luz
emitida pela lanterna de recarga com energia solar, acoplada à armadilha. Esta
luz funciona nas últimas quatro horas da madrugada. As armadilhas foram
agrupadas em conjuntos, abrangendo uma armadilha Ferolite®, em posição central,
e duas armadilhas Tutasan® adjacentes à primeira. A localização dos conjuntos
de armadilhas foi seleccionada, aleatoriamente, entre as posições habitualmente
adoptadas pelos responsáveis da empresa. Os conjuntos de armadilhas foram
dispostos nos Blocos A (duas) e B (três) da estufa da Horticilha S.A.,
construída em 2008 (estufa HAI 2, com pé-direito de 7 m (Figura_1). A distância
entre as armadilhas com e sem luz em cada trio foi de cerca de 20 m. As
armadilhas foram colocadas em suportes metálicos, entre as plantas, a 30 cm do
chão. Nesta estufa, é seguido o Modo de Produção Biológico. Cada bloco tem área
de 1,17 ha. A entrada principal da estufa tem sistema de porta dupla, com dois
sistemas de ar forçado para impedir a entrada de inimigos da cultura. As
aberturas zenitais dispõem de rede de protecção em saco, com malha de 0,78 x
0,28 cm2 e a estufa dispõe de ventiladores eléctricos.
As armadilhas foram instaladas em 8 de Novembro de 2010 e as contagens de
adultos de T. absoluta capturados foram efectuadas semanalmente, em 15, 22 e 29
de Novembro de 2010, tendo-se determinado, em cada observação, a carga da
bateria das armadilhas Ferolite®, com um multímetro portátil. Só foram
considerados válidos os dados relativos aos conjuntos de armadilhas em que a
bateria apresentava carga superior a 50% da sua capacidade nas três armadilhas.
Os adultos de T. absoluta recolhidos nas armadilhas Ferolite® consideradas
válidas para análise (seis destas armadilhas) foram examinados em laboratório.
As armadilhas válidas corresponderam às seguintes datas e posições na estufa:
15 de Novembro de 2010 Bloco B - Casa 1 e Bloco B - Casa 7; 22 de Novembro de
2010 Bloco B - Casa 1 e Bloco B - Casa 7; e 29 de Novembro de 2010 Bloco A -
Casa 4 e Bloco B - Casa 12 (Figura_1).
Foram retiradas amostras dos adultos capturados nas armadilhas Ferolite® para
determinação da proporção de fêmeas. Estas amostras foram lavadas com água
destilada e armazenadas em frasco de vidro contendo etanol a 70%.
Para diferenciação e contagem de adultos machos e fêmeas foram observadas as
genitálias dos indivíduos de uma subamostra de, aproximadamente, 50 indivíduos
de cada uma destas amostras, procedendo-se à diafanização em hidróxido de
potássio a 10%. Essas duas subamostras foram depois colocadas,
consecutivamente, em água destilada, etanol a 50%, a 80% e a 96%, durante dez
minutos para cada uma das etapas. Os adultos de T. absoluta foram, por fim,
colocados em lâmina com concavidade, com água destilada e observados à lupa,
retirando a genitália do abdómen e, assim, procedendo-se à contagem do número
de machos e fêmeas presentes em cada subamostra.
A averiguação da existência de diferenças significativas no número de adultos
capturados pelas armadilhas com e sem luz associada foi feita através do Teste
de Wilcoxon de comparação de medianas em amostras emparelhadas, recorrendo ao
programa SPSS vs. 17.0.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os resultados obtidos (Quadro_1) não permitiram detectar diferenças
significativas no que se refere à captura total (machos e fêmeas) se
considerarmos as sete amostras válidas (Z = -1,521; p = 0,128; N = 7). No
entanto, se não for considerada uma das amostras, a única na qual o valor das
capturas na armadilha sem luz foi superior ao verificado na armadilha com luz,
pode afirmar-se que há uma diferença significativa por efeito da luz (Z = -
2,201; p = 0,028; N = 6). Estes resultados sugerem a existência de tendência
para maior número de adultos de T. absoluta capturados nas armadilhas com
dispositivo luminoso. Dado o custo muito mais elevado destas armadilhas, é
questionável se não é mais barato conseguir este aumento de cerca de 50% nas
capturas com a colocação de maior número de armadilhas convencionais, sem luz
associada. Contudo, este efeito deverá ser estudado mais exaustivamente num
outro tipo de infra-estruturas e, consequentemente, de cultura ' com menor pé
direito, logo com plantas a menor altura, sem acumulação dos troncos
desfolhados na zona onde a armadilha é colocada. A estanquicidade dessas infra-
estruturas à entrada dos insectos-alvo deverá ser garantida tanto quanto
possível, para que as armadilhas exerçam o seu efeito sobre os adultos de T.
absoluta contidos no interior das estufas, evitando efeito de atracção
indesejável sobre os existentes nas imediações.
Além do acréscimo no número de capturas, outro grande objectivo que se
pretendia alcançar com o uso de armadilhas de água com luz incorporada era a
captura substancial de fêmeas. Com isso reduzir-se-ia de forma assinalável a
intensidade de posturas e, por conseguinte, de ataque e estragos sobre a
cultura. O trabalho laboratorial efectuado permitiu verificar que a captura de
fêmeas ocorreu de forma casual, representando aproximadamente 1,1% (0,5/45,0)
das capturas. Esta proporção não poderá ser considerada minimamente
interessante, especialmente se considerarmos o elevado custo de aquisição,
cerca de três vezes superior, das armadilhas luz incorporada em comparação com
as armadilhas de água convencionais.
CONCLUSÕES
As armadilhas de captura em massa com luz capturaram significativamente mais
adultos de T. absoluta, mas a grande vantagem que se supunha associada, a
captura substancial de fêmeas, não se confirmou. Assim, a utilização destas
armadilhas para combate à traça-do-tomateiro não parece interessante, dado o
seu custo bastante mais elevado em relação às armadilhas convencionais, sem
luz.