Perspectivas da produção de tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus) no Brasil
Introdução
O Brasil apresenta uma grande área territorial com uma extensa bacia
hidrográfica, fato este que confere um grande potencial para a aquacultura no
país. Apesar desse potencial a produção de peixes no país ainda é abaixo do
esperado (Vicente e Fonseca-Alves, 2013). Devido a esses fatores a piscicultura
brasileira sofreu muitas transformações nos últimos anos, consolidando-se como
importante atividade no agronegócio brasileiro, substituindo aos poucos o peixe
proveniente do extrativismo (Firetti et al., 2007). Os últimos dados do
Ministério da Pesca e Aquacultura (MPA, 2014) mostram que o país produz 1,25
milhões de toneladas de peixe, e deste total, 38% trata-se de peixes
cultivados. A atividade gera um PIB de R$ 5 bilhões e mobiliza mais de 800 mil
profissionais, proporcionando 3,5 milhões de empregos diretos e indiretos (MPA,
2014).
As principais barreiras encontradas para o avanço da aquacultura no país são as
questões ambientais, falta de organização de uma cadeia produtiva e de linhas
de crédito, dificuldades para regularização dos empreendimentos e elevada carga
tributária (Ostrensky et al., 2008). Dentre os peixes cultivados a tilápia do
Nilo apresenta um grande potencial devido a sua fácil reprodução, carne branca
e de alta qualidade, baixos custos de produção podendo inclusive, ser
cultivadas em locais com alta salinidade e baixas temperaturas (Vicente e
Fonseca-Alves, 2013).
As tilápias são naturais do continente africano, Israel e Jordânia, encontradas
nas bacias dos rios Nilo, Níger, Tchade e lagos do Centro'Oeste africano
(Verani, 1980). Esta espécie não apresenta espinhos em forma de Y'' na sua
musculatura, sendo o seu filé, apropriado para a indústria (Hildsorf, 1995). A
carne da tilápia possui excelente qualidade, favorecendo a aceitação pelo
mercado consumidor (Castagnolli, 1992). Estas qualidades associadas ao fato da
tilápia aceitar facilmente dietas artificiais desde o estágio larval fazem com
que esta espécie apresente grande potencial aquícola (Zimmermann e Fitzsimmons,
2004).
A tilápia apresenta grande adaptação ao sistema de produção em tanques-redes,
no entanto, dados apontam que a espécie apresenta grande desempenho e adaptação
em sistemas intensivos de produção (Furlaneto et al., 2006). Os sistemas
intensivos de produção (tanque-rede e gaiolas) têm como característica a
contínua renovação da água, o que promove a remoção dos metabolitos e dejetos
produzidos pela tilápia, mantendo assim a qualidade de água (Vicente e Fonseca-
Alves, 2013).
O investimento no sistema de produção intensivo, representa potencial para
gerar incremento da produção pesqueira, criando assim uma atividade atrativa
para investidores e tornando a piscicultura uma alternativa para geração de
empregos e rendimento (Ayroza et al., 2009). Segundo Rotta e Queiroz (2003), na
produção de tilápias a cada 100 tanques-rede há geração de três empregos
diretos e nove indiretos. Além disso, segundo os autores, a produção em
sistemas intensivos diminui os custos com importação de peixe.
Diante desse panorama e ao potencial brasileiro para a aquacultura esta revisão
teve por objetivo apresentar os principais dados da produção da tilápia do Nilo
no Brasil e o potencial da sua cultura no território nacional.
Aquacultura no Brasil
Conceitualmente a aquacultura é o cultivo de organismos que apresentam, em
condições naturais, o seu ciclo de vida total ou parcialmente no meio aquático
(Vicente e Fonseca-Alves, 2013). Essa atividade é praticada pelo Homem há
milhares de anos e existem evidências que esta atividade é praticada na China
há muitos séculos e que os egípcios cultivavam tilápias para a alimentação há
quatro mil anos (MPA, 2014).
A aquacultura abrange a criação de peixes em água doce ou marinha
(piscicultura), a produção de moluscos (malacocultura), a criação de camarão ou
caranguejo (carcinicultura) e a cultura de algas (algicultura) (Sidonio et al.,
2012). Segundo dados do MPA (2014) o Brasil apresenta 12% da água doce
disponível no planeta, com um litoral de aproximadamente oito mil quilómetros e
uma extensa Zona Econômica Exclusiva (ZEE).
As diferentes regiões brasileiras tem vindo a especializar-se na produção de
espécies específicas de peixes. Na região Norte há predomínio da criação de
tambaqui e o pirarucu, no nordeste a maior produção é de tilápia do Nilo e pelo
camarão marinho (Sidonio et al., 2012). Na região Sudeste a produção de tilápia
é considerada a principal espécie. No Sul do país predomina a produção de
carpas, tilápia, ostras e mexilhões, enquanto na região Centro-oeste os
destaques são o tambaqui, pintado e o pacu (MPA, 2011).
De acordo com a legislação brasileira nos parques aquícolas continentais é
limitada a criação de espécies exóticas nos corpos de água, exceto quando há
comprovação de que a espécie invasora já foi detectada na bacia hidrográfica de
acordo com a Portaria do IBAMA n°145/N, de 29 de Outubro de 1998. Em várias
bacias hidrográficas do país há detecção de escape de tilápias do Nilo, dentre
elas a Bacia do Leste, São Francisco, Nordeste e a Amazônica (Ibama, 1998).
Nos últimos anos houve um crescente aumento no consumo de peixe no país,
principalmente por ser considerado um alimento saudável e de fácil aces-so para
todas as faixas de rendimento. Assim como a produção de algas tem vindo a
aumentar devido principalmente à indústria de cosméticos. Segundo dados da
Organização Mundial de Saúde a média de consumo ideal de peixe seria de 12 kg
por habitante/ano, no entanto, o mercado brasileiro está distante desta média
(Sidonio et al., 2012). No ano de 2003 o mercado brasileiro registou um consumo
de 6,46 kg de peixe por habitante e em 2009 alcançou o índice de 9,03 kg por
habitante (Lazzari, 2006). Um programa do governo federal, denominado de mais
Pesca e Aquacultura estabeleceu várias campanhas para incentivar o consumo de
peixe em pelo menos 9 kg por habitante até ao ano de 2011. Portanto, a meta foi
alcançada antes do previsto, demonstrando assim o aumento do consumo interno
(MPA, 2011). O MPA (2014) tem uma previsão que até 2030 a procura internacional
de peixe aumente em mais 100 milhões de toneladas por ano, e assim investe nos
produtores nacionais para se tornarem competitivos no cenário internacional
(Sidonio et al., 2012).
A produção mundial de peixe é de 126 milhões de toneladas e o Brasil é um dos
países que apresentam condições ideais para a sua produção que possa suprir
essa procura mundial. De acordo com a FAO, o Brasil apresenta todas as
condições para se tornar o maior produtor mundial até 2030.
Produção de Pescado no Brasil
No ano de 2013, segundo boletim do MPA (2014), o Brasil confirmou o seu grande
potencial para a produção de peixe, atingindo uma produção histórica.
Segundo as estimativas o país atingiu uma produção de 2,5 milhões de toneladas,
meta a ser atingida com um ano de antecedência (MPA, 2014). Esse aumento na
produção só foi possível devido ao grande investimento no setor, para o qual o
Plano Safra da Pesca e Aquacultura disponibilizou quatro biliões de reais até
2014 para o setor (MPA, 2014).
O MPA publicou pela última vez em 2011 o panorama geral da pesca e aquacultura
mundial, aonde apontou a China como o maior produtor de peixe no mundo seguida
pela Indonésia e a Índia, com o Brasil ocupando a 19° posição no ranking
mundial (Tabela_1). A produção mundial de peixe proveniente da pesca
extrativista e da aquacultura atingiu aproximadamente 168 milhões de toneladas
em 2010 (MPA, 2011). A nível nacional, a produção de peixe no ano de 2011
atingiu 1 431 974,4 toneladas, e quando comparado ao ano de 2010, nota-se um
incremento em 13,2% em toda a produção (MPA, 2011). No entanto, a pesca
extrativa marinha foi a maior fonte de produção de peixe nacional, produzindo
553 670,0 toneladas (38,7% de todo a pesca nacional), seguida pela aquacultura
continental (544 490,0 toneladas; 38,0%), pesca extrativa continental (249
600,2 toneladas; 17,4%) e aquacultura marinha (84 214,3 toneladas; 6%) (MPA,
2011).
A região Nordeste registou a maior produção do país, atingindo 454 216,9
toneladas, responsável por 31,7% de toda a produção brasileira. Dentre as
outras regiões o Sul, Norte, Sudeste e Centro-Oeste registraram 336 451,5
toneladas (23,5%), 326 128,3 toneladas (22,8%), 226 233,2 toneladas (15,8%) e
88 944,5 toneladas (6,2%), respectivamente (Figura_1) (MPA, 2011).
As estatísticas para o ano de 2011 mostraram que a produção de peixe por
Unidade da Federação para o Estado de Santa Catarina (Figura_2) foi o maior
produtor brasileiro de peixe com 194 866,6 toneladas (13,6%), seguido pelos
estados do Pará com 153 332,3 toneladas (10,7%) e Maranhão com 102 868,2
toneladas (7,2%). A Bahia, São Paulo, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Distrito
Federal Alagoas e Sergipe tiveram uma diminuição da produção, quando comparado
ao ano de 2010. Os outros estados da federação apresentaram um incremento da
produção quando comparado ao ano de 2010 (MPA, 2011).
Tilápia do Nilo
A tilápia do Nilo é um peixe oriundo do continente africano, nas bacias dos
rios Nilo, Níger, Chade e nos lagos do centro-oeste e pertence à Ordem
Perciformes (Verani, 1980). Devido às suas características favoráveis para
aquacultura houve a introdução da espécie em mais de 100 países localizados em
regiões tropicais e subtropicais, na tentativa de melhorar a produtividade
pesqueira e auxiliar o desenvolvimento da aquacultura (Coward e Bromage, 2000;
Lèveque, 2002).
Na década de 1950 surgiram as primeiras publicações sobre a tilápia no
Ocidente, e essa produção foi considerada promissora para aquacultura (Croward
e Bromage, 2000). As tilápias possuem uma excelente capacidade de reprodução e
apresentam maturidade sexual entre o 3° e o 4° mês, após introdução dos
alevinos, fato que deve ser monitorizado porque essa reprodução prematura pode
ocasionar a superpopulação nos tanques, causando uma grande competição por
alimento e de forma secundária um crescimento insatisfatório (Lèveque, 2002).
Apresenta muitas características favoráveis à piscicultura como rusticidade,
facilidade na obtenção de larvas, crescimento acelerado em criação intensiva e
hábito alimentar omnívoro (Coward e Bromage, 2000). Até o início da década de
1980, a maioria dessas espécies com valor comercial pertencia ao género
tilápia, que incluem as espécies que desovam em substratos e não realizam a
incubação oral dos ovos (Castagnolli, 1992). Precedido somente pelos
cipriníeos, as tilápias constituem o segundo grupo de maior importância na
aquacultura dulcícola do mundo, e portanto o peixe mais produzido no país,
atingindo um total de 95 091 toneladas no ano de 2007 (FAO, 2009).
Por apresentarem características como: rusticidade, resitência a diferentes
sistemas de maneio, à doença, à alta densidade, e rápido crescimento, a tilápia
do Nilo (Oreochromis niloticus), torna-se a espécie mais cultivada nomundo
(Castagnolli, 1992). Para além destas características soma-se a capacidade das
tilápias responderem bem às condições ambientais.
Produção de Tilápia do Nilo no Brasil
A primeira espécie de tilápia introduzida no Brasil, a tilápia do Congo
(Tilapia rendalli), ocorreu em 1953 na região do estado de São Paulo. Em 1971,
no Nordeste, foram introduzidas a tilápia de Zanzibar (Oreochromis urolepis
hornorum) e a tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus), e a sua distribuição
expandiu-se nas últimas cinco décadas devido ao seu potencial para a
aquacultura dulcícola (Zimmermann e Fitzsimmons, 2004).
A produção comercial de tilápia apresenta um aumento em todo o mundo e, do
ponto de vista da produção em cativeiro, a cultura de tilápia é o que mais
cresce no mundo e na atualidade é a segunda mais cultivada no mundo e a
primeira no Brasil (Oliveira et al., 2007). A aquacultura continental
brasileira é considerada a segunda maior da América do Sul ficando atrás apenas
do Chile, e produz principalmente tilápias e algumas espécies nativas como pacu
e pintado (Sussel, 2013). Dentre as regiões que mais produzem, destacam-se o
nordeste brasileiro, com o Ceará consolidando-se como o maior produtor de
tilápia no país.
Um aspecto importante no panorama da produção de tilápia no país é o crescente
aumento na produção em todas as regiões e surgiram novas áreas de cultura em
todo o país, com novas tecnologias que culminaram numa maior produção das
diferentes regiões (MPA, 2014). A comercialização da tilápia no mercado
internacional ocorre na forma de filés congelados ou frescos, ou o peixe
congelado inteiro (Sussel, 2013).
Um novo projeto do MPA visa investir 252 mil reais em projetos voltados para o
melhoramento genético da tilápia, por ser considerada a principal espécie de
peixe atualmente cultivada no Brasil, visto a sua produção crescer em média 17%
ao ano (MPA, 2014). Todo o recurso libertado está relacionado com o projeto
"Implementação de estratégias genéticas e reprodutivas para selecionar
reprodutores de tilápias", vencedor da Chamada Pública realizada pelo Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (MPA, 2014).
No mercado interno existe elevada procura de tilápia (Figura_3), onde o estado
do Ceará é considerado o principal consumidor; em relação ao mercado externo os
maiores consumidores da produção brasileira são os Estados Unidos e a Espanha.
Em 2004, a Região Sul do Brasil obtinha média de 52% da produção nacional, ao
contrário da Região Nordeste que detinha 24% (MPA, 2011). Outro ponto
importante foi o início da cultura da tilápia nos reservatórios da usina de
Itaipu. No ano de 2013, o Ministro da Pesca e Aquacultura apoiou o projeto de
produção de tilápia no reservatório da usina de Itaipu, iniciativa que pode
dobrar a produção nacional (Itaipu, 2013). A estimativa é que com a utilização
de um dos lagos da usina se obtenha uma produção de 400 mil toneladas por ano,
utilizando apenas 1% do potencial hídrico da usina, gerando um capital bruto de
seis biliões de reais (Itaipu, 2013).
Conclusões
A produção de tilápia cresce a cada ano no país, e atualmente é o principal
peixe em aquacultura no país. Com os incentivos do governo federal na
aquacultura e as inciativas para o melhoramento genético da tilápia do Nilo, o
Brasil possui o potencial para ser o maior produtor mundial de tilápia, gerando
uma fonte de alimentação nutritiva e de baixo custo, além de gerar rendimento
para os produtores.