Caracterização biométrica de frutos e sementes de baru (Dipteryx alata Vog.) na
região leste de Mato Grosso, Brasil
Introdução
O estimulo à expansão da fronteira agrícola a partir da década de 70 provocou a
ocupação de áreas do Cerrado. Estas áreas apresentam características edáficas
favoráveis à agricultura, no entanto, pouco se conhece sobre o potencial de uso
dos recursos naturais deste bioma, em especial o das espécies vegetais de
ocorrência natural.
O Cerrado apresenta aproximadamente 30% da biodiversidade de espécies vegetais
brasileiras e 5% da mundial, a sua flora é composta por mais de 11627 espécies
vasculares (Mendonça et al., 2008). A flora do Cerrado possui diversas espécies
frutíferas com grande potencial económico (Silva et al., 2008a), que são
tradicionalmente utilizadas pela população local (extrativismo), onde são
comercializadas e consumidas in natura ou beneficiadas pelas indústrias
caseiras nas mais diversas atividades económicas (Gonçalves et al., 2013). De
acordo com Avidos e Ferreira (2000), os frutos do Cerrado apresentam sabores
sui generise elevados teores de açúcares, vitaminas, proteínas e sais minerais,
havendo mais de 58 espécies frutíferas com potencial de utilização e
comercialização.
O baru (Dipteryx alataVog.) é uma árvore frutífera nativa do Cerrado, pertence
à família Fabaceae, apresenta altura média de 15 m, com caule ereto e ramos
lisos, floresce de outubro a janeiro e os frutos amadurecem entre março e
agosto (Isa, 2009), produzindo em média de 2000 a 6000 frutos por planta (Silva
et al., 1992). Oliveira e Sigrist (2008), observaram que a espécie é alógama,
ou seja, apresenta um sistema reprodutivo de fecundação cruzada, sendo a
polinização realizada por diversos insetos e a dispersão dos frutos realizada
por animais (Sano et al., 2004). Tanto a polpa quanto a amêndoa de baru podem
ser utilizadas na alimentação humana, sendo a polpa constituída principalmente
de hidratos de carbono (63%), predominantemente por amido, fibras insolúveis e
açúcares (Alves et al., 2010). A amêndoa é consumidain natura ou torrada,
apresenta elevados níveis de lipídicos (42%), proteínas (30%), cálcio, fósforo,
manganês e potássio, além de ferro, zinco, selênio e consideráveis teores de
hidratos de carbono e fibras (Sousa et al., 2011).
De acordo com Sano et al. (2004), o baru é uma espécie-chave do Cerrado, devido
ao amadurecimento dos frutos ocorrerem no período seco, servindo de alimento
para a fauna. Alves et al. (2010) relatam que o baru é uma das espécies mais
promissoras para cultivo, devido aos seus usos múltiplos, entre eles o
alimentar, madeireiro, medicinal, industrial, paisagístico e na recuperação de
áreas degradadas. A espécie apresenta uma distribuição esparsa, podendo ser
encontrada nos estados de Tocantins, Goiás, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso,
neste estado especificamente na região Sul e Leste (Ratter et al., 2000). Com
base no potencial do baru, estudos de biometria se tornam necessários, para
caracterização dos frutos e sementes do baru.
As informações obtidas a partir da biometria dos frutos e sementes podem servir
de base para a conservação e exploração dos recursos de valor económico,
permitindo um incremento contínuo da busca racional e uso eficaz dos frutos
(Gusmão et al., 2006). Outro fator relevante quanto à determinação biométrica
de frutos, está relacionado ao fato de constituir importante instrumento para
detectar a variabilidade dentro de uma mesma população ou entre populações de
uma mesma espécie, conforme verificado por Gusmão et al. (2006) e Corrêa et al.
(2008). Entretanto, estudos de procedências da descência em diferentes anos de
colheita têm mostrado variabilidade genética na espécie, e evidenciam que os
frutos e sementes possuem variação anual quanto às suas características
morfológicas (Sano et al., 1999, Corrêa et al., 2008).
Para Oliveira (1998), o estudo de populações de espécies nativas, de acordo com
as variáveis fenotípicas e genéticas, é de grande interesse, devido à intensa
antropização dos sítios de ocorrência, o que levaria a uma quebra no padrão
natural de fluxo gênico dessas populações. Nestes pressupostos, caracterizaram-
se biometricamente frutos e sementes de baru e correlacionaram-se os parâmetros
formados pela espessura, comprimento, largura, volume, peso fresco dos frutos e
sementes de baru, a fim de obter informações sobre a variação das
características biométricas em dois anos consecutivos.
Material e Métodos
Os frutos foram colhidos numa área de vegetação de ocorrência natural, cujas
árvores estão localizadas na reserva natural da Fazenda União (14o50' 41'' S;
52o22' 49'' W) com aproximadamente 100 hectares, situada no vale da Serra Azul,
distante 28 km do município de Nova Xavantina e altitude de 290 m, leste do
estado de Mato Grosso, Brasil. A vegetação da área de estudo é do tipo Cerrado
sensu stricto, encontra-se pouco antropizada, ainda com presença de várias
espécies frutíferas nativas deste bioma, entre elas o baruzeiro, que não é
explorado extrativistamente, servindo apenas como alimentação dos animais
silvestres.
O clima da região é do tipo Aw, segundo a classificação Köppen, com duas
estações climáticas bem definidas, uma seca, que vai geralmente de maio a
setembro, e uma chuvosa, de outubro a abril, com temperatura média anual de
24°C e precipitação média de 1500 mm (Silva et al., 2008b). Os dados climáticos
foram obtidos na estação meteorológica do Instituto Nacional de Meteorologia '
INMET (Figura_1).
Os frutos maduros foram recolhidos do solo, na área de projeção da copa de 10
árvores de baruzeiro que apresentavam altura média de 15,0±5,00 m, durante a
primeira semana do mês de agosto, em 2012 e 2013, época de seca na região,
sendo a colheita dos frutos realizada nas mesmas árvores em ambos os anos.
Foram escolhidas dez árvores aleatórias na área, equidistantes no mínimo de 200
m umas das outras. Durante a colheita dos frutos, os mesmos foram
acondicionados em caixas para o seu transporte até o Laboratório de Biologia
Vegetal da Universidade do Estado de Mato Grosso, campus de Nova Xavantina '
MT.
Recolheram-se 10 frutos por planta, ou seja 100 frutos, visualmente sadios,
inteiros e sem deformação, de acordo com Gonçalves et al. (2013), que nos
estudos biométricos de frutos de espécies arbóreas tropicais sugere um mínimo
de 100 frutos. De cada fruto determinou-se o comprimento longitudinal (CLF),
largura (LF) e a espessura (EF), com auxílio de um paquímetro digital (Clarke-
150 mm), o peso fresco (MFF) do fruto e o volume do fruto (VF), a partir do
volume de água deslocado após a imersão do fruto em proveta, contendo um volume
conhecido de água conforme metodologia descrita por Basso (1999).
A remoção das sementes foi realizada após o rompimento do endocarpo dos frutos,
com auxílio de um martelo, e determinou-se o comprimento longitudinal (CLS),
largura (LS), espessura (ES) e peso fresco (MFS) de 100 sementes. O índice de
volume das sementes (IVS) foi obtido a partir do produto entre o comprimento,
largura e espessura (CLS x DES x LS) de cada semente. O peso fresco do fruto e
das sementes foi obtido numa balança analítica de precisão (0,001 g).
As características biométricas dos frutos e sementes do baruzeiro foram
analisadas mediante distribuição de frequência. Os dados de cada parâmetro nos
dois anos de produção foram submetidos à análise de variância, sendo as médias
das variáveis significativas comparadas pelo teste t a 5% de significância.
Calculou-se o coeficiente de correlação não paramétrico de Spearman (rS) e o
respectivo nível de significância entre as variáveis através do teste t (Zar,
1996). As análises estatísticas descritivas, distribuição de frequência e
correlação foram realizadas utilizando-se o programa computacional Bioestat 5.0
(Ayres et al., 2007), enquanto as demais realizadas pelo programa estatístico
Sisvar (Ferreira, 2008).
Resultados e Discussão
A análise descritiva geral, para as variáveis analisadas nos frutos de baru
colhidos no período em estudo, encontra-se no Quadro_1 e Figura_2. De maneira
geral, para os frutos de baruzeiro, os valores de média e mediana foram
semelhantes, a assimetria e a curtose apresentaram valores próximos de zero,
indicando uma aproximação da distribuição normal, com exceção do volume e do
peso do fruto no segundo ano de avaliação (Quadro_1). O coeficiente de variação
entre todos os parâmetros variou de 4,34 a 21,45%, valores que ficaram dentro
dos relatados por Côrrea et al. (2008), para os frutos de baru. Verificam-se
diferenças significativas quanto ao coeficiente de variação para os mesmos
parâmetros em anos diferentes, sendo o segundo ano o que apresentou maiores
valores de coeficiente de variação em relação ao primeiro ano. Relaciona-se a
isso ao fato dos frutos no segundo ano apresentarem uma maior amplitude (mínimo
e máximo) em todos os seus parâmetros.
A análise descritiva geral para as variáveis analisadas na semente de baru está
apresentada no Quadro_2 e Figura_2. Os valores de média e mediana foram
semelhantes, a assimetria e a curtose apresentaram valores próximos à zero,
indicando uma aproximação da distribuição normal (Quadro_2). O coeficiente de
variação entre os parâmetros variaram de 5,34 a 18,26%. A espessura dos frutos
(EF) apresentou média de 30,18 mm, considerando os frutos colhidos em ambos os
anos, sendo que em 2012 os frutos se concentraram em duas classes principais
que juntas representam 85%, que foram de 29,95 a 33,55 mm, já em 2013 o maior
percentagem de frutos (33%) foi encontrada na classe de 29,95 a 31,75 mm
(Figura_2a). Em relação ao comprimento longitudinal dos frutos (CLF) os frutos
concentraram-se principalmente na classe de 57,78 a 62,16 mm no ano de 2012,
entretanto, em 2013 os frutos foram distribuídos em duas classes centrais que
representam 77% dos frutos amostrados, na classe de 49,02 a 53,40 mm, com 41%
dos frutos e na classe de 53,40 a 57,78 mm, com 36% dos frutos (Figura_2b), com
média de 56,61 mm.
Cerca de 34% dos frutos apresentaram largura (LF) em uma classe central de
41,10 a 43,08 mm em 2012, no ano seguinte 47% dos frutos se concentraram na
classe de 37,14 a 39,12 mm (Figura_2c), já a média deste parâmetro foi 39,20
mm.
Esses valores são semelhantes aos relatados por Corrêa et al.(2000), que
verificaram a média de 30,44, 54,32 e 40,65 mm para os valores de ES, CLS e LS,
respectivamente, de frutos colhidos em três regiões do Goiás denominadas: I '
Mato Grosso Goiano, II -Norte/Nordeste e III - Estrada de Ferro. De acordo com
Simão (1971) e Bleinroth et al.(1985) a relação entre comprimento e largura dos
frutos deve ser um dos primeiros parâmetros a ser estabelecido para a
tipificação de frutos de uma espécie ou variedade/ cultivar. Os frutos de baru
medidos no presente estudo apresentaram relação média entre o com primento e
largura de 1,45 e 1,42, para as colheitas realizadas em 2012 e 2013,
respectivamente, da mesma forma Corrêa et al. (2000) encontraram um valor 1,35,
bem próximo do obtido no presente estudo.
Para o volume dos frutos colhidos em 2012, a distribuição apresentou uma classe
central de 34,0 a 38,70 cm³, com 50% dos frutos, já em 2013, os frutos
distribuíram-se por três classes, com 90% dos frutos, sendo 31,33 cm³ a média
para esse parâmetro (Figura_2d). O peso do fruto no ano de 2012 se concentrou
em três classes distribuídas entre 29,36 a 42,10 g que representaram juntas 82%
do peso dos frutos. Em 2013, a distribuição foi semelhante, mas as classes
ficaram no intervalo de 20,87 a 33,61 g e concentraram 90% dos frutos e a média
foi de 31,12 g (Figura_1e).
Corrêa et al. (2008) encontraram valor superior para o peso do fruto, com média
de 33,24 g por frutos, isso provavelmente deve-se a variações edafoclimáticas
entre as áreas dos estudos.
A variação obtida na biometria dos frutos e sementes nos dois anos, foi,
possivelmente, promovida pelos fatores ambientais, principalmente pela
disponibilidade de água, que é o fator essencial para a formação dos frutos e
sementes (Figura_1). Tabarelli et al.(2003) verificaram que na região semiárida
nordestina não houve correlação positiva entre o tamanho do fruto e a
pluviosidade nos locais analisados, a percentagem de frutos pequenos diminuiu
de 20% para 13,2%, e a de frutos grandes aumentou de 6,6% para 14,5%, com
pluviosidades médias de 400 mm e 600 mm, respectivamente. Adicionalmente,
Vieira et al. (2008) relatam que as variações das características biométricas
das sementes podem influenciar a capacidade germinativa e está relacionada aos
problemas reprodutivos da espécie.
Ao analisar a distribuição da espessura das sementes (ES) de baru, observou-se
que a média foi de 9,64 mm, considerando as duas colheitas realizadas, e no ano
de 2012, o ES concentrou-se em duas classes centrais (9,29 a 10,96 mm), que
corresponde por 69% das sementes mensurados, em 2013, as sementes concentraram-
se principalmente em uma única classe (8,45 a 9,29) com 56% das sementes
presentes nela (Figura_2f). Para o comprimento longitudinal das sementes (CLS),
em 2012, as sementes se concentraram na classe de 25,25 a 27,40 mm,
concentrando 56% destas, em 2013, as sementes se concentraram em uma classe
central (20,95 a 23,10) e duas classes intermediarias que juntas agruparam 92%
das se-mentes (Figura_2g), com média de 24,12 mm. Para a largura das sementes
(LS) a média obtida foi de 9,03 mm, apresentando em 2012 e 2013 duas classes
centrais que foram de 8,36 a 9,51 mm, concentrando 63 e 67% das sementes
respectivamente (Figura_2h).
Sano et al. (1999) colheram os frutos nos municípios de Goiás (Cristalina,
Formosa, Padre Bernardo, Trajanópolis e Simolândia) e em Minas Gerais
(Paracatu), e os valores médios ES, CLS e LS foram de 2,82, 5,21 e 3,71 mm,
respectivamente, ou seja inferiores aos deste estudo. As diferenças
edafoclimáticas das áreas de colheita dos frutos, segundo Barrios e Souza
Júnior (2009) podem limitar a expressão do potencial genético em algum momento
durante o ciclo. Os caracteres quantitativos ou métricos sofrem grande
influência do ambiente, aqueles autores relatam que para estes caracteres é
comum a presença da interação de genótipos/ambientes, que pode ser definida
como o efeito diferencial dos ambientes sobre os genótipos ou a resposta
diferencial dos genótipos à variação ambiental.
Para o índice de volume das sementes medido em 2012 a distribuição apresentou
uma classe central (2,26 a 2,55 cm³) e duas intermediárias que concentraram 89%
das sementes, da mesma forma ocorreu no ano de 2013, onde a classe central
(1,68 a 1,97 cm³) e as duas intermediárias concentraram 94% das sementes
(Figura_2i), apresentando média de 2,10 cm³.
O peso da semente no ano de 2012 concentrou-se em duas classes que
compreenderam sementes com peso de 1,14 a 1,52 g que representaram 78% das
sementes, no ano seguinte ocorreu fato semelhante, porém, o peso das sementes
ficou na classe de 0,95 a 1,33 g, concentrando 64% das sementes (Figura_2j),
considerando ambos os anos a média foi de 1,25 g.
Corrêa et al. (2008) encontraram valores semelhantes para o peso da semente,
com média de 1,26 g por se-mente em frutos colhidos em diferentes regiões do
Cerrado Goiano. Ao compararmos os frutos e sementes dos anos de 2012 e 2013,
observa-se, que para todas as variáveis analisadas, exceto a largura das
sementes, os frutos e sementes colhidos em 2012 apresentaram superioridade aos
do ano seguinte, diferindo estatisticamente (Quadro_3). Uma possível explicação
para a redução das variáveis analisadas nos frutos e sementes, no ano de 2013,
poderá residir na precipitação ocorrida (Figura_1), pois o fato da mesma
apresentar uma maior acumulação e melhor distribuição, em 2012, pode ter levado
as plantas de baruzeiro a produzirem maior quantidade de frutos e com isso os
fotoassimilados foram distribuídos para uma maior quantidade de drenos.
No Quadro_4 apresentam-se as estimativas dos coeficientes de correlação de
Spearman (rS) entre as características biométricas de frutos e sementes de
baru. Para Farias Neto et al.(2004), o coeficiente tor-na-se útil ao
correlacionar positivamente com uma determinada característica de fácil
avaliação, sendo que, o aumento de uma característica tende a ser variação
acompanhado pelo aumento de outro ou vice-versa, obtendo ganhos sem restringir
a seleção. No ano de 2012, houve efeito significativo das correlações para o ES
com CLS, LS e IVS; CLS com IVS e MFS; LS com IVS, já no ano seguinte o ES com
IVS; CLS com LS e IVS; LS com IVS. Para todas as correlações entre variáveis
anteriormente citadas apenas a correlação do ES com LS apresentou efeito
antagónico, ou seja, de acordo com o que aumentou o ES diminuiu o LS (Quadro
4).
Para Gonçalves et al. (2013) o conhecimento da variação biométrica de
caracteres de frutos e sementes é importante para o melhoramento dessas
características, seja no sentido de aumentar ou uniformizar as características,
podendo ser exploradas por pro-gramas de melhoramento, visando a seleção e
melhoramento genético desta fruteira para obtenção de cultivares que propiciem
frutos com características importantes para a comercialização.
Conclusões
Os frutos e sementes de baru possuem grandes variações biométricas,
principalmente em relação ao volume e peso fresco dos frutos e do peso fresco e
índice do volume das sementes. Houve diferenças significativas entre os anos,
com tendências de frutos e sementes maiores em 2012 e menores em 2013. As
condições climáticas podem propiciar a expressão das características
biométricas.