Representações sociais de professores sobre o uso racional de medicamentos
Introdução
O uso racional de medicamentos pressupõe que a cada pessoa seja administrada a
medicação apropriada para a sua situação clínica, nas doses necessárias à sua
condição, por um período de tempo adequado e ao menor custo (Organización
Mundial de la Salud, 2002). O construto subjacente a esta definição pressupõe
que a decisão acerca do uso de medicamentos e a sua adequação em cada caso
inclua um juízo acerca da efetividade e segurança dos medicamentos em
diferentes contextos de utilização e condições de acesso (Gandolfi e Andrade,
2006; Mota e col, 2008). As perceções sobre a efetividade, segurança e acesso
apresentam especificidades nas situações que envolvem medicamentos genéricos,
medicamentos não sujeitos a receita médica e medicamentos adquiridos através da
Internet, uma vez que estes proporcionam uma maior liberdade de escolha por
parte dos indivíduos, independentemente das recomendações dos profissionais de
saúde.
Perante a constatação de que cerca de metade dos medicamentos eram vendidos,
prescritos ou utilizados indevidamente, prejudicando a saúde das pessoas e
desperdiçando recursos, num cenário global onde escasseavam políticas básicas
no âmbito do uso racional de medicamentos, desde 2001 que a Organização Mundial
de Saúde (OMS) recomenda a implementação de programas nacionais para promover o
uso racional de medicamentos por meio de políticas estruturais e/ou campanhas
de informação e educação para a saúde (Aquino, 2008; World Health Organization,
2012). O sistema de ensino afigura-se como uma instituição privilegiada para
concretizar tal objetivo, atendendo a que as escolas são espaços favoráveis à
aprendizagem e aquisição precoces de competências transversais por parte de
todos os alunos, contando com a colaboração de profissionais preparados para
ensinar: os professores (Plataforma europeia para a Promoção da Saúde na
escola, 2009; Precioso, 2004; Rodrigues e col, 2007).
Em Portugal, as áreas curriculares não disciplinares foram definidas em 2008 e
incluem a educação para a saúde e a educação para o consumo. Doravante,
consolidaram-se as responsabilidades dos professores dos níveis 2 e 3 da
International Standard Classification of Education ' ISCED (UNESCO, 2011) na
lecionação de conteúdos relacionados com a promoção do uso racional de
medicamentos, exigindo deste grupo profissional a aquisição de conhecimentos
relevantes e de formação específica nessa área, agravadas pela inexistência de
conteúdos programáticos formais a abordar no âmbito da educação para a saúde.
Adquirir tais competências pode implicar grandes investimentos pessoais ao
longo do tempo, pelo que, na sua ausência, os professores podem ver-se
confrontados com a necessidade de ministrar conteúdos com base em
representações sociais (Gazzinelli e col, 2005). Enquanto sistemas de
referência e de conhecimento que sustentam a interpretação e a significação
atribuída ao acesso, segurança e efetividade dos medicamentos e fenómenos
cognitivos e simbólicos que orientam as práticas, os comportamentos e as
comunicações no âmbito do uso de medicamentos (Almeida, 1990; Sevalho, 1993),
as representações sociais interferem na eficácia da educação em saúde (Alves-
Mazzoti, 2008). Deste modo, o objetivo deste estudo foi conhecer as
representações sociais de professores sobre o uso racional de medicamentos.
Métodos
Foram convidados a participar numa entrevista semiestruturada professores dos
níveis 2 e 3 da ISCED, com responsabilidades em educação para a saúde. Entre
janeiro e maio de 2012, foram contactados, pessoal ou telefonicamente, 15
professores de escolas públicas ou privadas do distrito do Porto, Portugal, aos
quais se explicou o objetivo geral do estudo: conhecer as representações
sociais dos professores acerca do uso racional de medicamentos. Todos os
professores convidados aceitaram participar e formalizaram a colaboração
através da assinatura de uma declaração de consentimento informado, após a
leitura do folheto de apresentação do estudo em situação de copresença física.
O estudo obteve parecer positivo da Comissão de Ética da Universidade do Porto.
Na constituição desta amostra intencional, procurou-se assegurar a inclusão de
um número semelhante de participantes quanto à área de graduação (ciências
naturais versus ciências sociais e humanidades) e grupo etário (=30 anos, 31-40
anos, =41 anos) (Tabela_1
). No que respeita ao peso relativo de participantes de cada sexo (9 mulheres e
6 homens) e a lecionar em escolas públicas (n=13) ou privadas (n=2), a amostra
representa aproximadamente a distribuição no norte de Portugal. Este tipo de
amostragem caracteriza-se pela seleção de casos cuja representatividade assenta
na qualidade teórico-metodológica e na exemplaridade, permitindo identificar as
principais variações do fenómeno em análise e a respetiva incorporação na
teoria emergente. O número de entrevistas a realizar foi definido pela
saturação da informação: adicionaramse à análise novos dados sempre que tal se
revelou pertinente do ponto de vista da construção teórica, até que os dados
adicionais deixaram de contribuir para as categorias consideradas (Guest e col,
2006). As entrevistas, com uma duração média de 30 minutos (mínimo-máximo: 22 -
54 minutos), realizaram-se nas escolas ou em espaços públicos próximos do local
de trabalho dos participantes e foram conduzidas pela primeira autora.
Após a recolha de informações sobre o percurso académico e profissional dos
participantes, o guião de entrevista incluía uma questão aberta sobre os
significados atribuídos ao uso racional de medicamentos: na sua opinião, o que
significa um uso racional de medicamentos?. O guião contemplava também
questões que exploravam os conhecimentos, práticas e atitudes acerca de
medicamentos genéricos, medicamentos não sujeitos a receita médica e
medicamentos adquiridos através da internet. Atendendo a que cada um destes
grupos tem especificidades quanto à segurança, efetividade e facilidade de
acesso, a inclusão de questões específicas sobre cada um deles permitiu
explorar, em profundidade, as representações sociais dos professores acerca do
uso racional dos medicamentos em geral. Foram colocadas as seguintes questões
para cada um destes grupos de medicamentos: Quais as vantagens desses
medicamentos?; Acha que existem desvantagens nesses medicamentos? Quais?;
Acha que esses medicamentos são utilizados de forma correta por parte das
pessoas?; O que pode ser feito para otimizar a utilização desses
medicamentos?; na sua opinião quais os profissionais indicados para educar
para a saúde no contexto do uso racional desses medicamentos?.
Todas as entrevistas foram gravadas com a autorização dos participantes e
integralmente transcritas. De acordo com o protocolo estabelecido por Stemler
(2001) para a análise de conteúdo temática, os dados recolhidos foram
sistematicamente codificados e sintetizados por temas e subtemas a partir da
análise semântica da informação, registando-se a frequência de respostas
semelhantes e selecionando-se as expressões mais ilustrativas das
representações sociais dos professores sobre cada um dos temas emergentes. Para
cada subtema apresenta-se o número de professores com respostas semelhantes e
descrevem-se alguns dos excertos mais ilustrativos e representativos de todas
as entrevistas, utilizando pseudónimos. Os dados foram analisados
independentemente por dois investigadores, tendo os conflitos sido resolvidos
por discussão conjunta com um terceiro investigador.
Resultados
Nas representações sociais de professores sobre o uso racional de medicamentos
emergiram 4 temas e 20 subtemas (Tabela_2
). Os principais temas identificados foram os seguintes: enquadramento do
conceito de uso racional de medicamentos; condições necessárias para usar
racionalmente medicamentos; obstáculos ao uso racional de medicamentos; medidas
para otimizar o uso racional de medicamentos.
Todos os entrevistados usaram a sua experiência pessoal enquanto doentes e/ou
cuidadores para enquadrar a definição de uso racional de medicamentos a nível
individual. Apenas dois dos 15 participantes, ambos homens com mais de 30 anos,
referiram aspetos relacionados com o nível coletivo. No discurso de Renato, por
exemplo, a implementação da uni-dose no sistema de saúde surgiu como um
facilitador do uso racional de medicamentos, por permitir uma utilização mais
eficiente dos recursos comuns. Na afirmação seguinte, proferida por Francisco,
realça-se a importância do controlo e vigilância de medicamentos considerados
essenciais por parte do Sistema nacional de Saúde:
[O uso racional de medicamentos] por parte de um país, de um Sistema Nacional
de Saúde de um país, teria a ver com [controlar e vigiar] aqueles medicamentos
que são absolutamente necessários para determinadas doenças: doenças crónicas,
doenças terminais, doenças graves, etc.
Os professores entrevistados perspetivaram o uso racional de medicamentos como
o seu consumo responsável, ou seja, sob prescrição e controlo médico (n=7)
ou, no caso dos medicamentos não sujeitos a receita médica, com conhecimento
individual adequado à tomada de decisões corretas neste contexto (n=4) e apenas
quando necessário (n=7), como ilustram as definições propostas pela tatiana e
pelo João, respetivamente:
Um uso racional de medicamentos será ( ) a utilização de medicamentos ( ) de
forma responsável, não é? ( ) Não em demasia, mas também [com] receita médica.
Eu penso que ( ) será a utilização de medicamentos com prescrição médica ou,
no caso de ser sem prescrição médica, medicamentos daqueles mais convencionais
[e] sem exageros.
De acordo com os professores que participaram neste estudo, no uso racional de
medicamentos coexistem, obrigatoriamente, pelo menos duas das seguintes
condições: conhecimento acerca do medicamento; existência de mediação
profissional; conhecer a doença; e aderir à terapêutica (Tabela_3
). A condição mais referida foi o conhecimento acerca das consequências dos
medicamentos (efeitos desejados e não desejados) no âmbito da segurança (n=15)
e eficácia (n=14), seguida pela adequação aos problemas de saúde no caso da
eficácia (n=12) e pela informação sobre as regras de utilização no que concerne
a segurança (n=12).
Os entrevistados identificaram a utilização prévia de medicamentos (n=9) e a
interpretação do folheto informativo (n=8) como os principais modos de obtenção
do conhecimento que sustenta um uso racional de medicamentos, sobretudo nos
casos de medicamentos não sujeitos a receita médica e de medicamentos
adquiridos através da Internet. Nas demais situações, a maioria dos
entrevistados referiu o aconselhamento de um profissional de saúde (n=13) e/ou
a prescrição (n=11) como condição para o uso racional de medicamentos. Nos
casos que envolvem medicamentos não sujeitos a receita médica, 12 dos 15
entrevistados defenderam a ideia de que o seu uso racional não é prejudicado
pela ausência de mediação, como ilustra a seguinte afirmação de Renato:
Quando vou a uma parafarmácia comprar [medicamentos]( ), são coisas de uso
livre ( ) e, portanto, à partida, ( ) já sei o que é que vou comprar, não peço
opinião.
Onze dos 15 participantes consideraram existir um uso racional de medicamentos
quando as pessoas conhecem os sintomas e o grau de sofrimento provocado pela
doença. na perspetiva de Olinda, este conhecimento facilita e legitima a
escolha de medicamentos simples adequados à situação concreta do utilizador,
validando a sua opinião por intermédio da experiência pessoal de utilização
racionalde aspirinapara a enxaqueca: [quando fico com] a enxaqueca ( ) basta
uma simples aspirina ( ) para aliviar os sintomas.
A utilização do conhecimento acumulado para a distinção dos problemas de saúde
relativamente à sua cronicidade ou duração esperada também foi percebida como
uma condição do uso racional de medicamentos, em geral. O relato de João mostra
como este professor aprendeu a identificar as causas das habituais dores de
cabeça, gerindo de forma responsável a necessidade de recorrer a medicamentos,
segundo a duração das mesmas:
Acaba por existir um conhecimento próprio, que permite ( ), se calhar, nem
tomar nada, porque é uma dor de cabeça que tem a ver com ( ) o stress ( ) e sei
que vai passar.
Os discursos em torno da adesão à terapêutica realçaram a importância da
utilização dos medicamentos ser feita com base no princípio da necessidade
(n=11), evitando duas situações: por um lado, a irracionalidade associada a
uma sobre utilização dos mesmos, de que são exemplo, para Maria, as pessoas
que [por] qualquer coisinha tomam logo medicamento; por outro lado, a
subutilização provocada por medo ou receio, como relatou Renato ao
reconhecer que se calhar, o meu uso é irracional porque tenho muito medo [de
usar medicamentos]. Cerca de metade dos participantes referiu a dosagem
adequada (n=7) ou a toma do medicamento até ao fim (n=6), sobretudo no caso dos
antibióticos, para evitar que as bactérias fiquem resistentes.
Doze dos 15 entrevistados mencionaram a facilidade de acesso a medicamentos, a
disponibilidade de medicamentos com segurança e eficácia questionáveis e a
automedicação como os principais entraves ao uso racional de medicamentos
(Tabela_4
). Tais obstáculos surgiram frequentemente articulados com a falta de
conhecimento acerca do medicamento (n=9) e a crença na exclusividade do
medicamento como uma forma de resolver problemas (n=7), como atesta a seguinte
reflexão de Alberto:
Hoje vivemos numa sociedade em que ( ) há um certo facilitismo, um certo
imediatismo na resolução dos problemas e, portanto, também há [um recurso fácil
e imediato] no que diz respeito ao medicamento [para resolver qualquer
problema].
As referências aos interesses de ordem comercial (n=6) ou corporativa (n=5)
foram relativamente escassas e surgiram quase sempre associadas na
identificação dos obstáculos ao uso racional de medicamentos, como transparece
do relato de Renato: o poder económico de determinadas indústrias ( )
condiciona isto tudo, não só a nível da publicidade, como a nível depois da
prescrição do clínico.
Todos os entrevistados referiram as campanhas de sensibilização e informação
como uma estratégia de educação para o uso racional de medicamentos(Tabela_5
)
, envolvendo sobretudo profissionais de saúde (n=14) e professores (n=9), de
preferência com formação em Biologia, como defendeu Carla:No caso dos
professores, sim!, os professores de biologia seriam os mais indicados.
Paralelamente à educação para a saúde, os participantes mencionaram a
importância da regulação do setor do medicamento para otimizar o seu uso
racional, seja por via da fiscalização e controlo (n=12), sobretudo no caso dos
medicamentos genéricos ou dos que são comercializados na internet, seja pelo
aumento da informação sobre os medicamentos (n=11). no discurso de tatiana
evidencia-se a necessidade de articular a educação com a regulação na promoção
do uso racional de medicamentos:
Os nossos alunos têm de estar informados, não é?, em relação a essas questões
[segurança e eficácia dos medicamentos] para mais tarde poderem tomar as
devidas decisões e poder escolher entre os [medicamentos] de marca e os
genéricos. ( ) Tem que haver uma maior fiscalização ( ) por parte das entidades
( ) nesse domínio [medicamentos adquiridos na internet], não é?.
Um terço dos participantes referiu a otimização da mediação, através da
atribuição de maior autonomia ao farmacêutico e melhorias em alguns aspetos
relacionados com o acesso aos serviços de saúde, nomeadamente o aumento do
número de médicos ou consultas e a diminuição dos respetivos custos, conforme
referiu Olinda:
Qualquer coisa tem de ser feita no sistema de saúde, de modo a que seja mais
fácil poder ter ( ) uma consulta médica ( ) e, provavelmente, também diminuir
os custos.
Discussão
Este estudo é, no melhor do nosso conhecimento, o primeiro a avaliar as
representações sociais dos professores relativamente ao uso racional de
medicamentos em Portugal. Os resultados devem ser interpretados à luz do
contexto político e económico que enquadra o acesso a cuidados de saúde, e em
particular a medicamentos, ao longo dos últimos anos, nomeadamente a
acessibilidade às farmácias, a prescrição e consumo de medicamentos genéricos,
as reestruturações na comparticipação de determinados medicamentos e as
diversas pressões sociais, demográficas e económicas sobre o sistema de saúde
(Pita, 2010). É necessário ainda valorizar estes achados tendo em conta o
potencial para os professores modularem atitudes e comportamentos com impacto
na saúde, e também as solicitações que lhes são efetivamente colocadas no
âmbito da sua atividade profissional (Precioso, 2004). No entanto, a
generalização teórica dos resultados exige uma análise sólida da literatura
relevante produzida noutros contextos, junto de professores representativos do
conjunto de pares com responsabilidade na educação para a saúde.
Para além de lacunas identificadas relativamente a conhecimentos específicos e
da heterogeneidade de relatos acerca de questões essenciais no contexto do uso
racional de medicamentos, nos discursos dos professores predominaram
referências a conhecimento obtido empiricamente e baseado em experiências
pessoais.
Os professores entrevistados perspetivaram os conceitos, práticas e resultados
subjacentes ao uso racional de medicamentos essencialmente ao nível do
indivíduo, raramente reconhecendo de forma explícita os determinantes e
consequências relacionados com o funcionamento e regulação do setor do
medicamento. O enfoque na importância das ações e conhecimentos individuais
traduz provavelmente o reconhecimento da capacidade de populações cada vez mais
escolarizadas assumirem responsabilidades no contexto da promoção de saúde, na
prevenção de doenças e na gestão de problemas de saúde que não requerem
intervenção médica (Sícoli e nascimento, 2003). Esta interpretação está de
acordo com o reconhecimento dos conhecimentos específicos acerca das doenças e
medicamentos, especialmente os últimos, como condições necessárias para um uso
racional de medicamentos não sujeitos a receita médica, e é consistente com o
facto de a maioria dos professores ter reconhecido não ser necessária a
mediação de profissionais de saúde para um uso racional do medicamento nestas
situações, ou de assumir que a sua intervenção neste processo se poderá limitar
ao aconselhamento.
Estes resultados e interpretação estão em aparente contradição com o facto de a
maioria dos professores ter referido como imprescindível a prescrição médica
como um elemento essencial para o uso racional, em geral. Contudo, foi
frequente a coexistência, nos mesmos discursos, de referências a medicamentos
de prescrição médica obrigatória e de medicamentos não sujeitos a receita
médica, legitimando diferentes posições acerca do papel dos diferentes
profissionais de saúde como intermediários (Conrad, 2007). O mesmo se aplica
aos obstáculos ao uso racional de medicamentos enunciados pelos professores, em
que as referências à automedicação, ao acesso fácil a medicamentos, à falta de
disponibilidade de tempo e financeira do doente refletem frequentemente a
interpretação da automedicação enquanto estratégia ilegítima de contornar a
necessidade de consultar um profissional de saúde ou de obter prescrição médica
(Lopes, 2007).
Apesar de não haver referências explícitas ao conceito de automedicação
responsável preconizado pela OMS, segundo o qual os indivíduos tratam as suas
doenças ou sintomas autovalorizados, utilizando medicamentos não sujeitos a
receita médica que são eficazes e seguros se utilizados de acordo com a sua
finalidade (World Health Organization, 1998),
O discurso da maioria dos professores foi globalmente compatível como seu
reconhecimento. Contudo, raramente foi demonstrado um domínio dos diversos
conceitos subjacentes a esta prática, nem um discurso coerentemente organizado
nessa base.
O acesso fácil aos medicamentos foi também apontado como um obstáculo ao seu
uso racional, refletindo a perceção de que pode potenciar o consumo excessivo
e/ou desnecessário de medicamentos e induzir a aquisição de medicamentos
disponíveis de eficácia e segurança duvidosas. Esta visão enraíza-se na ideia
de que os medicamentos são, hoje, bens acessíveis e de uso comum que podem
condensar em si o saber médico e, como tal, dispensam muitas vezes a mediação
profissional direta (Lopes, 2001).
A importância de diferentes dimensões da adesão à terapêutica foi referida por
um menor número de professores, traduzindo provavelmente lacunas na sua
formação específica a este respeito, ou a atribuição de uma menor importância a
estes fatores numa hierarquia das condições necessárias que definem um uso
racional de medicamentos. Tendo em conta que a falta de adesão à terapêutica se
traduz em importantes desperdícios de recursos e muito frequentemente em
prejuízos substanciais para os doentes (World Health Organization, 2003),
importa sensibilizar os professores quanto à relevância da educação para a
adesão à terapêutica no âmbito do uso racional de medicamentos.
A maioria dos professores referiu consumir medicamentos quase em último
recurso, de acordo com a identificação da crença na exclusividade do
medicamento como forma de tratar enquanto obstáculo ao uso racional do
medicamento. Por outro lado, a referência ao sofrimento causado pela doença
como fator determinante da decisão de tomar medicamentos pode refletir
insegurança relativamente aos conhecimentos específicos e à capacidade de os
traduzir em escolhas acertadas relativamente à opção pelos cuidados médicos
mais adequados (Conrad, 2007).
Ainda relativamente aos obstáculos ao uso racional de medicamentos, os
interesses comerciais ou corporativos foram referidos por menos de metade dos
professores. Este resultado pode ser considerado surpreendente, tendo em conta
que se tem observado uma transição no sentido de maior utilização de
medicamentos genéricos em Portugal, a que se tem associado uma discussão dos
méritos das medidas subjacentes a estas mudanças sob a perspetiva da indústria
farmacêutica e das classes médica e farmacêutica (Figueiras ecol, 2007), com
ampla visibilidade na comunicação social (Lusa, 2012). Atendendo a que um dos
aspetos mais relevantes desta discussão tem gerado em torno da garantia da
qualidade dos medicamentos genéricos, este debate pode terse traduzido na
grande importância atribuída pelos professores à necessidade de fiscalização e
controlo do setor do medicamento, em particular no caso dos medicamentos
genéricos.
A educação para a saúde também foi vista como uma medida necessária no contexto
do uso racional de medicamentos. A predominância de respostas defendendo a
realização de campanhas de sensibilização e informação e o envolvimento dos
profissionais da saúde está de acordo com a valorização dos conhecimentos
específicos nesta área como condições essenciais para um uso racional. Os
entrevistados mencionaram o contributo fundamental dos professores, sobretudo
da área de Biologia, refletindo o facto de serem os docentes com este tipo de
formação que mais frequentemente assumem estas responsabilidades no contexto
das atividades estruturadas de educação para a saúde nas escolas (Figueiredo,
2008). Contudo, no âmbito do sistema de ensino português considera-se que a
educação para a saúde no contexto escolar não é da exclusiva responsabilidade
de professores de disciplinas específicas, mas implica um comprometimento de
toda a comunidade.
Atendendo a que os professores se encontram numa posição privilegiada para
modular as atitudes e os padrões de utilização de medicamentos, em diferentes
contextos educativos e formativos, ao ministrar conteúdos programáticos
inseridos no âmbito da saúde e da educação para a saúde, tornase pertinente
disseminar junto destes profissionais conhecimentos específicos acerca de
questões essenciais no contexto do uso racional de medicamentos, contribuindo
para melhorar os níveis de literacia em saúde.