Vida e obra do Professor Doutor Álvaro António Pinheiro Rodrigues
A história é definida por factos que marcam o nosso passado, explicam o nosso
presente e determinam o nosso futuro. Especificamente, a História da Medicina
apresenta um papel preponderante na concepção da realidade atual do que é a
Medicina. Todas as suas descobertas e progressos moldaram e contribuíram para
que, no presente, a Medicina esteja mais avançada sob o ponto de vista
científico, técnico e tecnológico.
Tão importante como os factos que fazem a história, são as personalidades que a
demarcam. Pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto passaram alguns
dos mais ilustres médicos e cientistas que algures na história médica nacional,
através do progresso, foram esquecidos, ou simplesmente nunca relembrados.
A motivação inerente à realização de uma tese com este tema, advém do meu
interesse e envolvimento precoce com a História da Medicina e com a Museologia
Médica, através da colaboração assídua que, desde o meu primeiro ano de curso,
dedico ao Museu de História da Medicina Maximiano Lemos da Faculdade de
Medicina da Universidade do Porto. A presente monografia visa relatar e
preservar a história da nossa Faculdade, história essa que carece de ser
valorizada. A existência de um Museu de História de Medicina, repleto de
divícia histórica, desafia-nos a explorar, relatar e devolver o merecido apreço
por todos aqueles que, embora esquecidos, não descuraram de construir o futuro,
o nosso presente.
Este trabalho tem como principal objetivo dar a conhecer à comunidade médica,
estudantil e ao público em geral, um dos mais distintos Professores desta
instituição. O Professor Doutor Álvaro António Pinheiro Rodrigues, dotado de
uma inteligência e determinação notáveis, serviu a Universidade, dedicou-se ao
ensino e à ciência e consagrou-se no exercício da medicina como clínico e como
gestor. Formou discípulos, alguns destes cirurgiões, vocacionando-os também
para o ensino e investigação.
Secundariamente, mas não menos importante, este trabalho tem como objetivo
perpetuar a memória do Professor Álvaro Rodrigues, através da divulgação da sua
herança científica e humanística. Citando um dos seus discípulos e amigo, o Dr.
Reis Lima (n.1935), O Professor Doutor Álvaro Rodrigues, foi um dos cirurgiões
mais brilhantes e sabedor do século XX, que se tivesse nascido nos Estados
Unidos da América, Inglaterra ou França, não tenho dúvidas nenhumas, seria
considerado um mestre a nível mundial, embora fosse reconhecido como ímpar em
Portugal e pelos cirurgiões desses Países que o conheciam e admiravam.1 A
recordação daqueles que contribuíram para a formação do que hoje é a Faculdade
de Medicina da Universidade do Porto e a valorização, em específico, das
investigações pioneiras que o Professor Doutor Álvaro Rodrigues desenvolveu,
bem como a sua contribuição para História da Medicina nacional, é da
responsabilidade de todos os estudantes, docentes, médicos e outros
profissionais associados de saúde. Considero de extraordinária relevância que a
história seja preservada e relembrada, uma vez que é com o passado que
aprendemos, crescemos e orientamos o nosso futuro. No Relatório Pedagógico da
disciplina de História de Medicina da Faculdade de Medicina da Universidade do
Porto, elaborado pela Professora Doutora Amélia Assunção Beira de Ricon Ferraz,
podemos encontrar alguns dos objetivos pedagógicos que sustentam a motivação
para a elaboração desta tese, nomeadamente: sensibilizar o estudante para a
história da sua Faculdade nas suas vertentes docente e estudante; (...) para a
temática da Museologia, em geral, e na Medicina, em particular, e divulgar o
património museológico e documental da Faculdade na perspetiva de sensibilizar
e capacitar pelo saber a sua salvaguarda.2
O Homem
Álvaro António Pinheiro Rodrigues, filho de António Borrajo Rodriguez e de
Camila Fernandes Pinheiro, nasceu no dia 7 de Julho de 1904, na freguesia de
Santo Ildefonso, no concelho e distrito do Porto. Filho de pai de nacionalidade
espanhola e mãe portuguesa, tinha dupla nacionalidade. Desposou Neuza de Castro
e sousa Pinheiro Rodrigues, em 1928, com quem teve dois filhos, Jorge de Castro
Pinheiro Rodrigues, nascido em 1928, e Maria Manuela de Castro Rodrigues
Fernandes da Fonseca, em 1934 (Figura_1
).3
Os seus estudos tiveram lugar na cidade do Porto, concluindo o percurso liceal
em 1921, tendo-se evidenciado desde cedo pelo seu desempenho académico. Foi
distinguido com um Louvor e uma Menção Honrosa no exame de instrução Primária
em 1911/1912 e o Prémio Pereira da Costa em 1914/1915 na Celestial Ordem
Terceira da santíssima Trindade.3
Em 1921-1922 frequentou o curso preparatório de Física, Química e Ciências
Naturais na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Posteriormente
iniciou, em 1922, e concluiu, com distinção, em 28 de Julho de 1927, o curso
geral de Medicina e Cirurgia na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Na Faculdade de Medicina granjeou o Prémio Barão de Castelo de Paiva por ter
obtido a melhor classificação na disciplina de Anatomia Topográfica, e Accessit
na mesma disciplina (1924). Durante o seu percurso académico destacou-se ainda
noutras áreas, tendo sido reconhecido com Accessit nas disciplinas de Anatomia
Patológica, Medicina Operatória, Bacteriologia e Parasitologia, Patologia e
Clínica Médica, Patologia e Clínica Cirúrgica, Higiene e Medicina Legal, e com
Distinção nas disciplinas de Anatomia Descritiva, Farmacologia e Terapêutica
geral e nas Especialidades Médicas de Pediatria, Obstetrícia e ginecologia.4
O seu interesse pela Anatomia, desenvolvido ao longo do seu trajeto estudantil,
desempenhou um papel preponderante na sua ulterior vida profissional e
académica, tendo sido um discípulo dedicado do seu Mestre, o Professor Doutor
Hernâni Monteiro (1891-1963). No manuscrito, presente no Museu de História de
Medicina, da autoria do Professor Hernâni Monteiro, redigido aquando da
prestação de provas para Professor Auxiliar do grupo de Anatomia pelo Professor
Doutor Álvaro Rodrigues (1931), pode ler-se: Era um rapaz franzino e de poucas
palavras, que passava todo o tempo que os deveres escolares lhe deixavam livre
no teatro anatómico, curvado sobre cadáveres, a estudar. De certo, esse aluno
julgava-se sozinho entre as quatro paredes da vasta sala de dissecção. Todavia,
alguém atentamente o seguia, apreciando os primores da sua técnica perfeita e a
queda decidida que mostrava para tal género de trabalhos. E, assim, sem nisso
pensar, esse aluno traçava o seu futuro.5
Foi reconhecido pelos seus pares e homenageado por diversas entidades, tendo
sido condecorado, em 1963, pelo Presidente da República, com o grau de
Comendador da Ordem de Benemerência; em 1983, com a Medalha de Ouro de serviços
Distintos do Ministério dos Assuntos sociais, Medalha de Ouro de Mérito
Municipal da Câmara Municipal de vila Nova de gaia, Medalha de Ouro da Câmara
Municipal do Porto e Medalha de Mérito da cidade de Espinho; em 1984, com o
grau de grande Oficial da Ordem de instrução Pública; e, em 1981, nomeado
Membro Emérito da Academia de Ciências de Lisboa.3,6
Paralelamente à sua competência indiscutível para as questões do foro
académico, científico, e assistencial afirma-se como um notável pianista e um
intérprete singular, demonstrando uma extraordinária aptidão para a música e
para outras áreas artísticas, como o desenho.
O Investigador
Como previamente mencionado, a disciplina de Anatomia constituiu um impulso
fundamental na carreira académica do Professor Álvaro Rodrigues, e,
consequentemente, no seu percurso como investigador. Neste âmbito, dedicou-se,
ainda durante o curso, à dissecção de peças anatómicas, algumas das quais se
encontram salvaguardadas no Museu de Anatomia da Faculdade de Medicina da
Universidade do Porto (Figura_2
).7
Esta vocação para a Anatomia valeu-lhe a nomeação a assistente desta área
científica, dedicando-se, então, ao aperfeiçoamento de técnicas anatómicas mais
delicadas como as injeções vasculares e as dissecções do sistema nervoso.
Elaborou trabalhos de investigação de carácter morfológico, abrangendo a
Nevrologia, nomeadamente relativamente aos nervos frénico, pneumogástrico e
depressor de Cyon.4,6,8
Em 1927, o Professor Hernâni Monteiro (1891-1963) funda o Laboratório de
Cirurgia Experimental e Radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do
Porto, no qual cooperaram, além do Professor Álvaro Rodrigues, o Professor
sousa Pereira (1904-1986), o Professor Luís de Pina (1901-1972) e o Professor
Roberto de Carvalho (1893-1944). Desta forma, o Professor Hernâni Monteiro
contribuiu para o desenvolvimento técnico e científico dos seus colaboradores e
a projeção nacional e internacional do serviço.7 O Professor Álvaro Rodrigues
dedicou-se, assim, sob a sua orientação, à Cirurgia Experimental, tendo um dos
seus primeiros ensaios, insidido sob a influência da simpaticectomia nas
modificações leucocitárias periféricas. Posteriormente, enveredou pelo estudo
da fisiopatologia linfática, sistema cardiovascular, sistema respiratório,
sistema nervoso vegetativo e ainda do sistema ósseo.4
Em 1956, o Professor Hernâni Monteiro e os seus colaboradores receberam o
reconhecimento internacional pelos trabalhos desenvolvidos no âmbito da
anátomo-fisiologia linfática, tendo sido convidados a redigir um dos trabalhos
(Méthodes de démonstration du système lymphatique chez le vivant) do
Congresso Anual da Association des Anatomistes que ocorria, nesse ano, na
Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. O Professor Álvaro Rodrigues,
apesar de já se encontrar afastado da investigação anatómica e da docência do
iº grupo, foi nomeado pelo Professor Hernâni Monteiro para fazer a exposição do
tema aos congressistas, tendo sido distinguido pela sua dedicação e por ter
sido um dos discípulos mais estimados do seu Mestre.7
É de enfatizar a sua dissertação de doutoramento no âmbito da Anatomia,
denominada Ansa Hypoglossi: novos subsídios para o seu estudo anatómico
(Porto, 1930). Esta, representava, como explicita o Professor Álvaro Rodrigues,
um estudo essencialmente morfológico da ansa do hipoglosso, realizado no Homem
e em alguns mamíferos, baseado sobretudo na dissecção cuidadosa do pescoço de
50 cadáveres de indivíduos portugueses. A um longo apanhado bibliográfico, em
que são referidas as diversas interpretações e descrições da ansa, desde
vesálio até aos nossos dias, e à exposição da técnica empregada nessas
investigações, segue-se a descrição pormenorizada de cada uma das 100
observações (...) Da conjugação dos resultados destas dissecções, elaboraram-se
as conclusões, em que são apreciadas, em separado, certas particularidades da
ansa (...).8 Terá sido admitida pelo Conselho Escolar por conformidade de
votos (sessão de 29 de julho de 1929), e cuja publicação foi subsidiada pela
Junta de Educação Nacional (predecessora do instituto de Alta Cultura, do
instituto Nacional de investigação Científica e da atual Fundação para a
Ciência e a Tecnologia).4
Em março de 1930, terá prestado provas com a Dissertação supramencionada,
tendolhe sido conferido o grau académico de Doutor. Este trabalho, mereceu
numerosas apreciações na imprensa médica nacional e internacional, nomeadamente
pelo Professor Hernâni Monteiro na revista Trabalhos da Sociedade Portuguesa e
Antropologia e Etnologia; pelo Professor silva Carvalho (1861-1957) na A
Medicina Contemporânea; pelo Professor Henri valloies (1889-1981) na
L'Anthropologie; e pelo Professor Castaldi (1890-1945) nos Scritti Biologici,
entre os mais relevantes.8
É de salientar o facto do Professor Henri Rouvière (1876-1952), catedrático de
Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade de Paris, o ter convidado
para estagiar (uma bolsa conferida pela Junta de Educação Nacional) no serviço
de Anatomia e Embriologia da mesma Faculdade4. Na carta que enviou ao Professor
Álvaro Rodrigues sobre a sua Dissertação, expressou: ...C'est une oeuvre très
intéressante et la meilleure étude qui ait été faite jusqu'à maintenant sur ce
point de l'anatomie. Je me propose d'en adopter les conclusiones, s'est-à-dire
d'en extraire les principaux faits, quand le moment sera venu pour moi, de
préparer une nouvelle édition de mon Traité d'Anatomie.8
Iniciou o seu estágio no serviço do Professor Rouvière, juntamente com o
Professor sousa Pereira, a 6 de abril de 1930 e terminou-o a 24 de abril,
retomando-o a 3 julho até ao dia 2 de agosto, para comparecer no III Congresso
Internacional Federativo de Anatomia, onde, baseando-se nos seus trabalhos,
apresentou uma comunicação intitulada Le descendens cervicalis chez l'Homme et
chez les Mammifères. Terminado o congresso, regressou a Paris para finalizar o
seu estágio até 24 de agosto de 1930. Neste período, devido à dedicação do
Professor Rouvière ao estudo anatómico dos vasos linfáticos, instruiu-se na
técnica de injecção e disseção dos mesmos segundo o método de gerota, e
realizou investigações morfológias sobre o sistema linfático. Estas
investigações abordaram, entre outras questões, a disposição dos grandes
troncos coletores linfáticos terminais, tendo os resultados obtidos sido
relatados no artigo intitulado sur les gros troncs lymphatiques de la base du
cou e apresentados à Société Anatomique de Paris. As conclusões, bem como
alguns capítulos e duas gravuras, foram incluídos no Tratado L'Anatomie des
lymphatiques de l'Homme do Professor Rouvière.9
Ainda como bolseiro, teve oportunidade de estagiar em Estrasburgo de 26 de
abril a 1 de julho de 1930 em Clínica Cirúrgica, sob direção do Professor René
Leriche (18791955) e, durante este tempo, procurou, no Laboratório de Cirurgia
Experimental, sob a orientação do Dr. René Fontaine (1899-1979) e, no
Laboratório de Fisiologia do Professor Edward Albert shäffer (1850-1935),
inteirarse das técnicas e métodos fisiológicos aplicados à Cirurgia
Experimental.4,9
Também no instituto de Histologia do Professor André Pol Bouin (1870-1962), em
Estrasburgo, dedicou-se à investigação experimental, efetuando, com o Dr. sousa
Pereira, ressecções do sistema nervoso simpático lombar em animais, os quais
foram aproveitados pelo Professor Bouin para estudar a influência do sistema
nervoso simpático no desenvolvimento dos orgãos genitais e no aparecimento dos
caracteres sexuais secundários.9
De dezembro de 1937 a janeiro de 1938, realizou um estágio (financiado pelo
instituto para a Alta Cultura) no serviço de Cirurgia Experimental do instituto
Português de Oncologia de Lisboa, durante o qual inaugurou a sua aprendizagem
neste domínio. Na sala de operações e nas consultas, teve o privilégio de
acompanhar os trabalhos realizados pelo Diretor do instituto, o Professor
Francisco gentil (18781964) e pelos seus colaboradores. Durante o mês janeiro
de 1938 teve oportunidade de trabalhar no instituto de Histologia de Lisboa,
sob orientação do Professor Celestino da Costa (1884-1956).4
De fevereiro de 1939 a dezembro de 1941, foi-lhe concedida uma bolsa pelo
Professor Francisco gentil, permitindo retomar os trabalhos no instituto
Português de Oncologia, aplicando-se simultaneamente à investigação
experimental e ao estudo clínico dos problemas de cirurgia aplicada.4
Integrou numerosas sociedades Médicas nacionais e internacionais,
designadamente: a Royal society of Medicine, a Association des Anatomistes, a
société internacionale de Chirurgie, a société internacionale de
gastroenterologie e a Union internacional Contre le Cancer.6
Publicou cerca de 120 trabalhos científicos como autor e co-autor, em algumas
das revistas mais relevantes no mundo da Medicina e das Ciências, nomeadamente
os Arquivos de Anatomia e Antropologia, o Portugal Médico, A Medicina
Contemporânea,entre as principais.
Nas diversas áreas abordadas durante o seu percurso investigacional,
salientamos alguns dos seus trabalhos:
Sistema Linfático
Sob a orientação do Professor Hernâni Monteiro e juntamente com os seus
colaboradores, foi um dos pioneiros da Angiografia, dedicando-se ao estudo do
sistema linfático no Laboratório de Cirurgia Experimental e Radiologia da
Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Os trabalhos desenvolvidos
permitiram pôr em evidência o sistema linfático no animal vivo, quer
indiretamente pela visualização radiográfica, quer diretamente, no ato
operatório, pela injeção intralinfática de contraste, permitindo assim a
elaboração de variados modelos sobre a fisiopatologia deste sistema, que
constituíram uma base para a moderna linfangiografia.10-12Um dos trabalhos
realizados, intitulado Le thorotrast dans la mise en évidence radiographique
des lymphatiques chez le vivant, datado de 1933, foi apresentado, pelo
Professor Roberto de Carvalho no IV Congresso Internacional de Radiologia de
Zurique (1934), onde é exposto o valor potencial do método com torotraste para
a delimitação de invasões ganglionares malignas. Através da revisão e
modificação dos métodos e materiais utilizados, J. B. Kinmonth (1916-1982)
descreve, em 1954, o método clássico de linfangiografia, dado histórico
referido por Fuchs e Davidson.13,14
Tendo como objetivo conhecer as perturbações da circulação linfática, e
conseguida a visualização dos vasos linfáticos no vivo, foram desenvolvidas
investigações que visavam compreender como se restabelecia a circulação após a
secção e laqueação dos troncos principais dos membros e do pescoço, e qual o
efeito da ressecção do sistema simpático catenário respetivo no
restabelecimento da circulação. Constatou-se que a simpaticectomia contribuía
para o desenvolvimento da circulação derivativa e que acelerava de algum modo o
processo de reconstituição da circulação.4,12 Mais tarde, comprovou-se que as
infiltrações novocaínicas do simpático exerciam ação vaso-dilatadora sobre os
vasos linfáticos, que favorecia o restabelecimento da circulação após
laqueação, quer por acelararem a reconstituição dos troncos interrompidos, quer
por provocarem o desenvolvimento de vias colaterais.15
Dentro deste domínio, estudou também os enxertos e os transplantes de gânglios
linfáticos, procurando estabelecer os princípios que explicavam o êxito destas
intervenções.16,17
Sistema Cardiovascular
Dedicou-se ao desenvolvimento de um estudo experimental que tinha como objetivo
a visualização, radiograficamente, no vivo, das artérias vertebrais. Com este
trabalho conseguiu pôr em evidência não só os vasos do pescoço e cabeça mas
também outros descritos na altura como de difícil e invulgar visualização,
nomeadamente ramos da crossa da aorta, as artérias intercostais superiores, a
artérias mamárias internas e as artérias coronárias cardíacas, entre os mais
importantes. Durante este ensaio, objetivou as alterações vasodilatadoras
operadas nas artérias vertebrais após simpaticectomia do gânglio
cervicotorácico.18
Baseado no estudo supracitado, aplicouse na visualização das artérias
coronárias cardíacas e na demonstração da importância das suas anastomoses.19
Concomitantemente, avaliou a ação da inervação simpática sobre a
vasomotricidade das artérias coronárias e sobre as fibras cardíacas, através de
experimentos que avaliavam o efeito da ablação do gânglio cervicotorácico (na
época utilizada para o tratamento da angina de peito) e a repercussão no
dinamismo cardíaco.20,21
Sistema ósseo
Neste campo, e, de acordo com a importância que a resseção ou ablação de uma
parte da diáfise dos ossos longos tinha na época, o Professor Álvaro Rodrigues
colaborou numa série de experiências em animais, relacionadas com este tema e
com a influência dos enxertos autopásticos, homoplásicos e de osso morto no
crescimento dos ossos. No seu trabalho La résection diaphysaire et l'influence
des greffes autoplastiques, homoplastiques et d'os mort, sur la croissance de
l'os, o Professor Álvaro Rodrigues, em colaboração com o Professor sousa
Pereira e o Professor Roberto de Carvalho, verificou o papel da resseção
diafisária na regeneração óssea, concluindo que esta era perfeita quando a
resseção diafisária era subperióssea e limitada e que, quando a resseção era
extensa, embora a regeneração fosse inconstante, podia ser facilmente
corrigida, aplicando simultaneamente um enxerto auto ou homoplástico.22
Aparelho Respiratório
As investigações no âmbito do sistema respiratório apoiaram-se na utilização
roentgenquimografia, desenvolvendo estudos que tiveram como principal objetivo
estudar a cinemática respiratória.23
Debruçou-se sobre o estudo das modificações na cinemática respiratória após
colapsoterapia quer por métodos médicos (pneumotorax uni e bilateral) quer por
métodos cirúrgicos (frenicectomia ou alcoolização do frénico, escalenectomia,
toracoplastia, alcoolização dos intercostais e apicolise). Estas investigações
utilizaram a radioquiomografia de stumpf, que permitia registar, em pormenor, o
funcionamento do pulmão saudável e do pulmão doente, bem como avaliar, no
decurso de um colapso, as condições de motilidade a que ficam sujeias as
diversas áreas pulmonares.24 Utilizou ainda o método de Parodi, através da um
aparelho improvizado em conjunto com o Professor sousa Pereira, que permitia
avaliar os resultados ergomanométricos.25
Aparelho Digestivo
Nesta área, em complemento das investigações realizadas pelo Professor sousa
Pereira, acerca da influência do bloqueio da inervação simpática na
cicatrização de úlceras gástricas e duodenais no homem,4realizou um estudo
experimental em cães que pretendia analisar a possível influência do bloqueio
da inervação simpática do estômago na cicatrização de úlceras provocadas na
mucosa gástrica. Após ter realizado ressecção dos nervos esplâncnicos (uni ou
bilateral), e por comparação com animais aos quais não tinha sido feita a
ressecção, concluiu que, na presença de feridas da mucosa gástrica, a
cicatrização era acelerada pela ressecção esplâncnica.26
Oncologia
Em 1935, aquando das suas investigações no Laboratório de Cirurgia Experimental
e Radiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, desenvolveu
estudos que definiram a importância do sistema linfático na patogenia, evolução
e terapêutica da doença oncológica, o papel da invasão ganglionar nos cancros
da face, lábio, cavidade bucal e dos orgãos genitais externos bem como se
deveria proceder ao seu tratamento. No seu artigo intitulado Alguns problemas
sobre a circulação linfática ' a linfangiografia e suas aplicações realça a
importância das técnicas de injeção de vasos linfáticos, não só na delineação
dos mesmos na dependência de lesões neoplásicas, bem como na ablação
ganglionar circunscrita apenas aos gânglios para os quais se fez a depleção da
linfa do segmento atingido,27discutindo o envolvimento ganglionar na
Oncologia. Tais argumentos voltariam a ser discutidos num trabalho publicado em
1936 no Arquivo de Patologia, onde promovia os métodos de visualização
linfática aplicados ao estudo do cancro, defendendo que tal técnica permitiria
ao cirurgião fazer uma ablação ganglionar limitada, assegurando uma taxa de
recidivas diminuta.28
Prosseguiu a sua investigação no serviço de Cirurgia Experimental do instituto
Português de Oncologia de Lisboa, onde desenvolveria a sua investigação mais
relevante na área da Oncologia. Dedicouse ao estudo do papel dos gânglios
linfáticos no mecanismo de defesa orgânica contra as neoplasias, a sua invasão
local e disseminação sistémica. Desenvolveu investigações que focaram,
essencialmente, a evolução da cancerologia, insidindo sobre a sua patogenia e
promovendo a compreensão do papel desempenhado pelo sistema linfático e a
importância do esvaziamento ganglionar no tratamento do cancro e na prevenção
do desenvolvimento de metástases.29,30 Em 1941, publicava no Arquivo de
Patologia um trabalho que contemplava os resultados de um conjunto de
experiências,31 tornando-se pioneiro na apresentação de uma série de
conhecimentos com grande repercussão no estudo do cancro. Nele era descrita a
ação da simpaticectomia no desenvolvimento de tumores de maiores dimensões e
mais irrigados (vindo a confirmar o papel da simpaticectomia na angiogénese
tumoral, desconhecido na altura) e a interferência de procedimentos a nível
ganglionar na disseminação neoplásica, tendo sido pioneiro, laboratorialmente,
nas ações esclerosantes em redor dos gânglios, prática que se refletiria no
futuro na quimioterapia intralinfática e nas injeções intralinfáticas de
substâncias radioativas.14,31
O Professor
Devido à sua distinta classificação em Anatomia Topográfica, foi nomeado, após
conclusão da sua licenciatura e estágio voluntário de um ano no Departamento de
Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Assistente do iº
grupo da mesma, por Decreto de 18 novembro de 1927, ficando igualmente
responsável pelos trabalhos práticos de Anatomia Topográfica. Renovou o cargo
em sessão do Conselho Escolar de 30 de julho de 1929.14
Como já referido, defendeu a tese de doutoramento a 10 de março de 1930 e em
julho de 1931, candidatou-se ao cargo de Professor Auxiliar do grupo de
Anatomia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto com um trabalho
intitulado O sistema linfático e a sua importância cirúrgica, sendo
classificado com Distinção.
Foi reconduzido definitivamente a Professor Auxiliar em julho de 1934. Nesta
condição foi nomeado, pelo Conselho Escolar da Faculdade de Medicina da
Universidade do Porto, regente da disciplina de Medicina Operatória nos anos
letivos de 1934-1935 e 1935-1936, tendo sido simultaneamente responsável pela
regência de Histologia e Embriologia de 1935 a 1942.4
Em 1944, concorreu a Professor Catedrático da Faculdade de Medicina da
Universidade do Porto, tendo sido nomeado Professor Catedrático da disciplina
de Clínica Cirúrgica, cargo que manteve até à sua jubilação em 7 de julho de
1974.6
É lembrado por todos que, honrados de ter presenciado as suas aulas, o
descrevem como um Professor com uma enorme sabedoria, conduzindo as suas lições
de forma magistral, com extrema clareza e confiança.7
O Médico
Com uma personalidade vocacionada para o serviço de prestação de cuidados de
saúde, é relembrado pelos seus pares como um cirurgião exemplar, dotado de uma
aptidão notável para comunicar com todos os que diretamente consigo se
relacionavam e, em particular, com os seus doentes.
Durante o seu estágio no instituto Português de Oncologia, começou, segundo o
consentimento e conselho do Professor Francisco gentil, a frequentar o serviço
da Clínica Cirúrgica do Hospital Escolar de santa Marta, onde teve oportunidade
de aperfeiçoar as suas aptidões dentro da clínica e da técnica cirúrgica, sobre
o alçar deste seu mestre.4
Trabalhou no serviço de Clínica Cirúrgica do Hospital de santo António, anexo à
Faculdade de Medicina, desde a conclusão do seu curso, até 1959. Juntamente com
o Professor Hernâni Monteiro integrou a Comissão instaladora do Hospital de s.
João, tendo o serviço de Clínica Cirúrgica, onde trabalhava, sido transferido
para o Hospital de s. João a 23 de novembro de 1959.3 Foi Diretor dos serviços
de Cirurgia do Hospital de s. João32bem como dos serviços Clínicos do mesmo
hospital.33,34
Paralelamente, trabalhou nos Hospitais da Ordem da Trindade, Ordem da Lapa e na
Casa de saúde da Boavista. Foi reconhecido e graciado pelos serviços prestados,
com os títulos de irmão Beneficente da Ordem Terceira do Carmo e da Ordem do
Terço bem como irmão Honorário da santa Casa da Misericórdia do Porto.
Atualmente, está exposto na Ordem Terceira do Carmo, o seu busto esculpido em
bronze, por Joaquim Meireles, descerrado em sua homenagem pela Direção e
Administração a 14 de Dezembro de 1958 (Figura_3
).3
O Gestor
Após o seu envolvimento com a investigação oncológica e o exímio trabalho
desenvolvido como discípulo do Professor Francisco gentil, tornou-se membro da
Comissão Diretora do instituto Português de Oncologia de Lisboa em 1941,
desempenhando funções como vice-Presidente desde 1971 até ser exonerado, a seu
pedido, em outubro de 1974. Como delegado da Comissão Diretora, exerceu
interinamente, desde março de 1971 a maio de 1972, o cargo de Diretor Clínico
da secção Regional do sul (Lisboa) do instituto Português de Oncologia de
Francisco gentil. Posteriormente, exerceu o cargo de Diretor do Centro Regional
do Norte (Porto), que rescindiu, igualmente, em outubro de 1974.6
Desempenhou funções como Presidente do Conselho Médico-Legal do Porto de 1966 a
1974.6
Em 1971, e durante três anos, foi responsável pela direção dos serviços de
Cirurgia do Hospital Universitário de Luanda e da regência das disciplinas de
Cirurgia do Curso Médico-Cirúrgico da mesma Universidade.6
Foi nomeado Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em 1972,
declinando as suas responsabilidades de gestão e ensino do serviço de Clínica
Cirúrgica no Professor Amarante Júnior (1924-2010) e no Professor António da
silva Leal (1931-2014).35Ao assumir este cargo, durante uma época de
insurreição social, foi alvo de imerecidos dissabores. Pela leitura das Actas
do Conselho Escolar da Faculdade dos anos de 1973 e 1974, constata-se a pressão
que a Faculdade vivia, com presença constante das forças de autoridade, e o
ambiente de indignação motivado pela revolta estudantil. Na Acta de sessão
Extraordinária do Conselho Escolar (13 de dezembro de 1973) é descrita a
manifestação de um grupo de estudantes, durante a qual alguns deles, em fuga da
polícia, invadiram o gabinete do então Diretor, o Professor Álvaro Rodrigues, e
um desses estudantes agrediu na face o Professor.
Dotado de uma dignidade e humanidade extremas, conseguiu gerir a Faculdade com
pleno respeito pelas regras da democracia, cumprindo a sua responsabilidade
dedicadamente e altruisticamente, e apesar de ser alvo das críticas constantes
dos estudantes, nunca deixou de defender os seus melhores interesses. Foram,
sem dúvida, momentos que trouxeram muito dissabor e desencanto, a quem, como
Professor, dedicou a sua vida à Faculdade e à Universidade do Porto. Foi
demitido a 29 de abril de 1974 desempenhando, posteriormente, como decano da
Universidade e, por imposição da Junta de salvação Nacional, interinamente, o
cargo de Reitor da Universidade do Porto de 29 de abril a 14 de maio de 1974.6
O Professor Doutor Álvaro António Pinheiro Rodrigues evidenciou precocemente
que possuía qualidades e aptidões que fariam dele um referencial na História da
Medicina nacional e internacional.
Foi um médico que primou pela excelência da sua prática clínica, do ensino que
ministrava, das investigações pioneiras ao nível internacional e pela qualidade
da liderança de unidades de investigação, de ensino e de prestação de cuidados
de saúde. Estas vertentes fizeram dele uma personalidade incontornável na
História da Medicina Nacional e da Faculdade de Medicina da Universidade do
Porto, em particular.
Com uma sólida base anatómica e morfológica, dedicou-se, desde os anos
académicos, à investigação científica, tendo abordado diferentes áreas da
Medicina. Foi discípulo de personalidades ilustres, nomeadamente o Professor
Hernâni Monteiro, o Professor Henri Rouvière e o Professor Fransciso gentil,
que o instruíram e o capacitaram para a aplicação de métodos e técnicas
clássicas basilares a toda a investigação. Destacou-se pelos seus trabalhos
vanguardistas no esclarecimento da fisiopatologia e visualização do sistema
linfático, alguns dos quais constituem a base da linfangiografia moderna. Estes
conhecimentos permitiram que fosse um importante impulsionador do estudo do
cancro e do papel dos linfáticos na sua génese e tratamento, marcando a época
pelas suas conclusões reveladoras e visionárias.
Consagrou-se no ensino, formando médicos, muitos deles seus discípulos, dando
continuidade às tradições anatómica e cirúrgica da Escola Médico-Cirúrgica e da
sua antecessora, Real Escola de Cirurgia do Porto.
Dotado de uma sabedoria notável, possuía o talento de transmitir os seus
conhecimentos de forma clara e sublime, sendo as suas lições lembradas pelos
cursos que formou.
Como prestador de cuidados de saúde, vocacionou-se para a área de Cirurgia, e
distinguiu-se no seu exercício e nos órgãos de chefia a que pertenceu. Foi
reconhecido pelos pares como um profissional de extrema competência e com um
engenho natural para a cirurgia. Assumiu cargos de gestão hospitalar e de
ensino que revelaram a sua administração diplomata e humanística e um forte
sentido de responsabilidade.
Em conclusão, o Professor Doutor Álvaro Rodrigues foi uma personalidade
multifacetada que se distinguiu em diferentes áreas da Medicina bem como nas
funções que exerceu. O seu espírito erudito e o seu contributo para o
desenvolvimento da Ciência ultrapassaram as fronteiras nacionais, elevando a
Medicina portuguesa ao mais alto nível internacional, deixando uma herança
científica da qual somos devedores.