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EuPTCVHe0871-34132015000100001

EuPTCVHe0871-34132015000100001

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0871-3413
ano2015
Issue0001
Article number00001

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Cabazitaxel no tratamento do cancro da próstata metastático resistente à castração

Introdução Em Portugal, o cancro da próstata é a neoplasia mais frequente no homem e representa a terceira causa mais comum de morte oncológica.1 Apesar dos avanços, o docetaxel mantém-se um tratamento de referência no mCPRC.2As opções terapêuticas nos doentes refratários ao docetaxel eram até recentemente limitadas. Contudo, vários agentes têm demonstrado benefício na sobrevivência destes doentes.3-6 O cabazitaxel é um taxano da nova geração aprovado após o ensaio TROPIC, que demonstrou, associado à prednisona, melhorar a sobrevivência global (SG) destes doentes relativamente a mitoxantrone e prednisona.3Comparativamente aos outros taxanos, apresenta ainda actividade potencial em doença metastática cerebral e leptomeníngea, ultrapassando a barreira hemato-encefálica em modelos pré- clínicos.7 Os autores pretendem reportar os resultados da sua instituição quanto à eficácia e tolerância do cabazitaxel no mCPRC, seguindo-se uma revisão da literatura.

Métodos Procedeu-se ao estudo retrospetivo dos doentes com diagnóstico de mCPRC que iniciaram tratamento com cabazitaxel (25 mg/m2cada 21 dias e prednisolona 5mg 2id) no Serviço de Oncologia Médica do Centro Hospitalar de São João entre Janeiro de 2011 e Janeiro de 2012.

A colheita de dados foi efetuada com base nos processos clínicos. Analisaram-se os seguintes parâmetros: idade, ECOG performance status, tipo de metastização, número de linhas terapêuticas prévias, número de ciclos de docetaxel, data de início de tratamento com cabazitaxel, valor de PSA inicial e após 3 meses, número de ciclos de cabazitaxel, motivo de adiamento e /ou descontinuação de tratamento, efeitos adversos, data de término do tratamento, data e causas de óbito.

Os principais objetivos consistiram na avaliação da taxa de resposta do PSA, taxa de progressão, sobrevivência livre de progressão (SLP) e SG. Foram ainda analisados os principais efeitos laterais.

A resposta do PSA foi definida como redução >25% do valor inicial do PSA e avaliada aos 3 meses. A progressão foi definida após 2 elevações consecutivas do PSA, com ou sem progressão imagiológica. A avaliação da metastização óssea foi efetuada através de cintigrafia óssea.

A análise de sobrevivência foi realizada pelo método Kaplan-Meier. A SLP e a SG foram calculadas desde a data de início do tratamento com cabazitaxel até à data de progressão ou óbito, respetivamente.

Na análise estatística recorreu-se ao programa SPSS (Statistical Package for the Social Sciences) versão 19.0.

Resultados Doze doentes iniciaram tratamento com cabazitaxel. A mediana de idades no início do tratamento foi de 70 anos (60-75) e 10 doentes tinham ECOG performance statusde 0-1. A metastização óssea estava presente em todos os doentes. Três doentes tinham associada metastização visceral e quatro tinham metastização ganglionar.

A mediana de ciclos efetuados de docetaxel foi de 9 e apenas dois doentes efetuaram mais de duas linhas terapêuticas prévias.

O tempo mediano desde o diagnóstico inicial até ao início do cabazitaxel foi de 43 meses e a mediana do número de ciclos efetuados foi de 8 (2-18).

A resposta máxima do PSA foi atingida em média no ciclo. A taxa de resposta do PSA aos 3 meses foi de 64%, com uma taxa de redução de PSA >50% de 57%.

Com follow-upde 14 meses, registou-se uma taxa de progressão de 55% e um tempo mediano para a progressão de 7 meses.

A mediana da SLP foi de 8 meses (IC 95% 3.412.7) com SLP ao 1 ano de 40% (Figura_1 ). A mediana da SG foi de 14 meses (IC 95% 7.3-20.2) com SG ao 1 ano de 58% (Figura_1 ).

Os efeitos laterais mais frequentes foram a anemia (83%), neutropenia (25%) e a diarreia (25%) e ocorreram maioritariamente nos 3 primeiros ciclos. Dois doentes tiveram neutropenia grau 3 e nenhum teve neutropenia febril.

A Tabela_1 apresenta os efeitos adversos objetivados com cabazitaxel.

O ciclo de quimioterapia foi adiado em 3 doentes (trombocitopenia e neutropenia: 1; infecção: 2) e um doente apresentou anemia grau 2 com necessidade de redução de dose em 20%.

Nenhum doente necessitou de descontinuar tratamento por toxicidade, seis doentes descontinuaram por progressão e dois por estabilização de doença.

Dos sete doentes que faleceram, verificou-se progressão de doença em quatro e, nos restantes, registou-se tromboembolismo pulmonar, sépsis e neoplasia gástrica. A taxa de mortalidade foi de 58,7%.

Discussão O número de casos de cancro da próstata tem vindo a aumentar significativamente. Em Portugal, são diagnosticados 5140 novos casos por ano.1 Menos de 5% dos doentes apresentam metastização ao diagnóstico, embora 40% venham a desenvolver metástases após tratamento local.8 Na doença metastática, a abordagem clínica está dependente da resposta à castração. Contudo, a resistência à castração desenvolve-se inevitavelmente, com duração de resposta mediana de 12 a 24 meses.8 O tratamento com docetaxel (75 mg/m2a cada 21 dias) e prednisolona (5mg 2id) estabeleceu-se como tratamento standard nos doentes com mCPRC, desde os ensaios TAX327 e SWOG9916.2,9 Até aos últimos 3 anos, a abordagem dos doentes que progrediam após docetaxel era diversa. A reintrodução de docetaxel tornou-se numa estratégia alternativa para aqueles com eficácia prévia a este taxano (progressão após 6 meses).10- 13Os doentes eram também frequentemente tratados com mitoxantrone (12 mg/m2a cada 21 dias) e prednisolona (5 mg 2id) para controlo sintomático.

O cabazitaxel, taxano com baixa afinidade para a glicoproteína-P, demonstrou ter maior actividade nos tumores resistentes ao docetaxel.7O ensaio prospectivo TROPIC comparou cabazitaxel e prednisona com mitoxantrone e prednisona em doentes previamente tratados com docetaxel, tendo sido demonstrado benefício na SG a favor do cabazitaxel (15.1 vs 12.7 meses), com 30% da redução no risco de morte (HR=0.70;IC 95% 0.59-0.83; P< 0.0001).3Uma atualização recente mostrou que aos 2 anos de follow-up, as curvas de sobrevivência mantêm-se divergentes.14Além disso, o cabazitaxel teve um impacto positivo no controlo da dor, com um perfil de segurança consistente com as outras quimioterapias e uma baixa taxa de neuropatia.14 Recentemente foi iniciado o ensaio clínico FIRStAnA, que pretende comparar cabazitaxel e prednisona na dose 25 mg/m2ou 20 mg/m2com docetaxel e prednisona relativamente à SG nos doentes sem quimioterapia prévia.

O acetato de abiraterona e a enzalutamida vie-ram demonstrar também benefício clínico após falência do tratamento com docetaxel. Uma análise interina do estudo COU-AA-301 demonstrou que o acetato de abiraterona aumentava significativamente a SG em 3,9 meses em comparação com placebo (14.8 vs 10.9 meses, HR=0.65 p<0.001).5 No estudo AFFIRM, a mediana da SG para o grupo da enzalutamida foi de 18.4 meses versus 13.6 para o grupo placebo.6Apesar de representarem atualmente novas opções terapêuticas, ainda não exista consenso quanto à melhor abordagem após quimioterapia com docetaxel.

Na nossa casuística de tratamento com cabazitaxel, apesar das limitações de um estudo retrospetivo e do tamanho da amostra, foram objetivadas taxas de resposta e um perfil de segurança comparáveis ao ensaio TROPIC. A sobrevivência dos nossos doentes veio confirmar o claro benefício evidenciado no ensaio de aprovação deste fármaco, com uma mediana que se aproxima do resultado observado (14.0 vs 15.1 meses).

Os efeitos adversos mais comuns de grau 3/4 no TROPIC foram a neutropenia (82% cabazitaxel vs 58% mitoxantrone), a leucopenia (68% vs 42%), a anemia (11% vs 5%) e a diarreia (6% vs <1%).3A nossa análise mostrou toxicidades comparáveis e, apesar da mediana do número de ciclos de docetaxel efectuados (9 vs 7 ciclos) ter sido superior ao ensaio TROPIC, a hematoxicidade de grau 3/4 foi pouco significativa, não se verificando nenhuma neutropenia febril. A percentagem de doentes que descontinuou tratamento por efeitos adversos no TROPIC foi de 18%.3No nosso estudo, a maioria descontinuou por progressão, não se objetivando nenhum caso por efeitos secundários.

Assim, a nossa experiência revela que a utilização do cabazitaxel na prática clínica apresenta um benefício comparável ao estudo de aprovação, constituindo uma opção terapêutica nos doentes refratários ou resistentes ao docetaxel.

Com a maior disponibilidade de agentes, acresce a necessidade de ensaios randomizados que definam a melhor sequência de tratamento, para maximizar o valor das atuais terapêuticas.


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