Caso estomatológico
Adolescente do sexo feminino, 17 anos de idade que frequenta a consulta de
Pediatria devido a imunodeficiência primária e que foi referenciada à consulta
de Estomatologia Pediátrica para observação, urgente, devido a tumefação e dor
a nível do 2º Q, tendo já sido polimedicada sem qualquer efeito. Andava a fazer
tratamento ortodôntico para tração de 2.1 que se encontra incluso.
Antecedentes pessoais relevantes: imunodeficiência primária; avulsão traumática
de 6.1 aos 4 anos de idade.
Ao exame objetivo apresenta assimetria facial com tumefação importante da
hemiface esquerda, sem sensibilidade para os testes de quente e frio (2º
Quadrante) e sem cáries. Fez uma OPG que revelou 21 incluso e ocupação do seio
maxilar esquerdo. Realizou TAC maxilar (Figura 1).
Face ao descrito:
Figura 1
Qual o seu diagnóstico? Qual a sua atitude?
O caso clínico descrito trata de uma situação que não tem relação direta com
qualquer patologia dentária.
As queixas dentárias são decorrentes da evolução da doença sem qualquer
tratamento eficaz. Não esteve bem quem partiu do princípio de que as queixas da
adolescente se relacionavam com patologia dentária, e insistiu em tentar
controlar a situação com antibióticos variados, sempre com insucesso, uma vez
que não existem cáries nem lesões de tecidos moles orais.
Na situação descrita podem-se colocar três situações distintas como
diagnósticos prováveis:
- porque a doente tem um dente incluso no maxilar esquerdo, a lesão que se
observa pode tratar-se de um quisto dentígero. Esta patologia apresenta-se
sempre associada a um dente incluso e, como tal, é de considerar como um dos
diagnósticos diferenciais, embora a imagem não seja muito sugestiva de tal;
- pode tratar-se de uma lesão maligna do seio maxilar que explicaria a expansão
mais ou menos rápida, as dores da utente, o não controle da situação com os
antibióticos usados;
- em virtude da imunodeficiência há que considerar ainda a situação de uma
infeção oportunista por fungos. Neste caso também estaria explicada a evolução
da doença refratária ao tratamento com antibióticos.
A atitude a tomar é a realização de uma biópsia que consistiu na realização de
uma limpeza de todo o seio maxilar e a extração de três dentes molares do
maxilar esquerdo, com abordagem de Caldwell-Luc.
O exame histológico não revelou nada em de anormal mas o exame bacteriológico
demonstrou que a presente situação se tratava de uma aspergilose do seio
maxilar.
O tratamento cirúrgico foi complementado com a toma de antifúngico durante duas
semanas e o pós-operatório imediato decorreu sem intercorrências.
No controle radiológico efetuado dois meses após a cirurgia, a doente
apresentava o seio maxilar esquerdo livre e a doente não apresentava qualquer
queixa