Caso radiológico
Adolescente do sexo masculino, 11 anos de idade, com paralisia cerebral.
Alimentação exclusivamente por via oral e com normal capacidade de mastigação e
deglutição. Trânsito intestinal de fezes moldadas com frequência de 4/4 dias,
sempre com necessidade de estímulo com microclisteres. Enviado à consulta de
Gastrenterologia Pediátrica por apresentar desde há cerca de um ano episódios
recorrentes de vómitos de conteúdo biliar e/ou fecaloides, precedidos por
palidez cutânea, hipersudorese, noção de dor e tumefação abdominal móvel. Sem
relação com as refeições. Sem febre. Inicialmente estes episódios ocorriam com
uma frequência trimestral, mas nos últimos meses apresentavam frequência
semanal. Num dos episódios teve necessidade de internamento hospitalar para
pausa alimentar e fluidoterapia endovenosa. Realizou radiografia abdominal
simples de pé e Tomografia Axial Computorizada (TAC) abdominal (Figura_1,_2_e
3).
Qual o seu diagnóstico?
DIAGNÓSTICO
Distensão gasosa acentuada do intestino com megacólon compatível com o
diagnóstico de Pseudo-obstrução intestinal ileocólica.
DISCUSSÃO
A Pseudo-obstrução intestinal caracteriza-se por episódios de oclusão
intestinal na ausência de obstrução mecânica. De salientar que os doentes com
história de paralisia cerebral podem apresentar alterações a nível do aparelho
gastrointestinal, nomeadamente disfagia com aerofagia persistente, refluxo
gastro-esofágico e obstipação. A obstipação é multifatorial, ou seja, além de
existirem erros alimentares com dieta pobre em fibras, baixa ingestão hídrica e
falta de atividade física, há alterações na motilidade intestinal ao nível de
todo o cólon e reto (falência do relaxamento do esfíncter anal interno após a
distensão retal, sensibilidade retal alterada, impedimento para relaxamento ou
contração paradoxal do esfíncter anal interno ou músculo puborretal e propulsão
diminuída do cólon).
A TAC abdominal com contraste é o exame radiológico mais indicado para o
diagnóstico de Pseudo-obstrução intestinal visto excluir causas anatómicas de
obstrução intestinal.
A abordagem terapêutica nestes doentes tem por base a correção de erros
alimentares e o uso de estimulantes da motilidade ' procinéticos. No caso
apresentado o tratamento médico não foi suficiente pelo que foi necessário
realizar cecostomia laparoscópica para descompressão de aerocolia exuberante,
consequência de aerofagia permanente por parte do adolescente. A cecostomia
permite também a administração de enemas de forma anterógrada melhorando o
quadro clínico de obstipação quando necessário.