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EuPTCVHe0872-07542013000400006

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variedadeEu
ano2013
fonteScielo

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Encefalomielite aguda disseminada: pós-infeção por Herpes Vírus 6

INTRODUÇÃO A encefalomielite aguda disseminada (ADEM) é uma doença desmielinizante do sistema nervoso central (SNC), monofásica, relativamente rara, com uma prevalência de 0.8: 100 000 indivíduos. Trata-se de uma doença imunomediada que geralmente surge após infeções (víricas ou bacterianas) ou certos tipos de vacinação(1-3).

As manifestações clínicas iniciais são inespecíficas, tais como, febre, cefaleias, vómitos e anorexia, a que se seguem manifestações neurológicas, que incluem alteração do estado de consciência, crises epiléticas e défices focais (1).

Do ponto de vista laboratorial não existem alterações patognomónicas, podendo o exame citoquímico do líquido cefalorraquidiano (LCR) revelar pleocitose linfocitária ligeira e proteinorraquia. Imagiologicamente a ressonância magnética (RM) é o exame complementar de diagnóstico de eleição, revelando lesões multifocais compatíveis com edema, inflamação e desmielinização(1,2).

De entre as opções terapêuticas disponíveis salienta-se a corticoterapia em altas doses e a imunoglobulina humana endovenosa(1,3-5).

O prognóstico é habitualmente favorável, havendo recuperação completa após seis meses em cerca de 60-70% das crianças. No entanto, a taxa de mortalidade é de 5%(1). O vírus herpes humano do tipo 6 (HHV-6) pertence à família herpesviridae. O HHV-6 apresenta tropismo pelos linfócitos T CD4+, podendo também infetar e destruir as células produtoras de mielina(3).

A infeção pelo HHV-6 é geralmente benigna e autolimitada, sendo muito comum em crianças até aos dois ou três anos de idade (cerca de 90%). Nesta faixa etária manifesta-se habitualmente sob a forma de exantema súbito. Contudo, devido ao potencial neuroinvasivo deste vírus, este pode ser o agente responsável por convulsões febris, meningites, encefalites e outras infeções do SNC(3,5,6).

CASO CLÍNICO Criança de 16 meses, sexo feminino, caucasiana, internada por perda da capacidade de marcha de instalação em 24-48 h.

Filha de pais saudáveis, não consanguíneos; sem história de doenças heredo- familiares. Gravidez, parto e período neonatal sem intercorrências. Plano Nacional de Vacinação atualizado, com três doses de vacina conjugada antipneumocócica heptavalente. Desenvolvimento estaturo-ponderal e psicomotor adequados, salientando-se marcha autónoma desde os 12 meses de idade. Sem antecedentes patológicos de relevo.

Duas semanas antes do internamento tinha-se registado episodio febril autolimitado (quatro dias) associado a quadro de coriza.

No dia anterior ao internamento recorreu ao serviço de urgência de hospital terciário (SUHT) por recusa em andar, claudicação e desequilíbrio na marcha com quedas frequentes; sem história de traumatismo. Observada por Pediatria e Ortopedia, verificando-se ao exame físico claudicação, sem aparente dor à mobilização das articulações coxo-femurais ou outros sinais inflamatórios articulares. Realizou telerradiografia da bacia e ecografia das ancas que foram normais, tendo tido alta com o diagnóstico provável de sinovite transitória da anca bilateral, com indicação de vigilância e medicada com anti-inflamatório durante três dias.

No dia seguinte recorre novamente ao SUHT por perda total da marcha e incapacidade de se sentar. Sem febre ou outros sintomas.

Apresentava-se apirética, com restantes sinais vitais normais para a idade, com exame articular dos membros inferiores sem alterações e sem dor aparente a palpação das massas musculares. No exame neurológico apresentava períodos de irritabilidade alternados com sonolência, paraparésia flácida arrefléxica, reflexo cutâneo-plantar em extensão bilateralmente, reflexos cutâneo-abdominais ausente bilateralmente e ataxia do tronco. De salientar ainda globo vesical palpável. O restante exame era irrelevante, nomeadamente com ausência de atingimento dos membros superiores ou envolvimento dos pares cranianos.

Nos exames complementares de diagnóstico efetuados apresentava hemograma, proteína C reativa e bioquímica (ureia, creatinina, transaminases, creatininoquinase, desidrogenase láctica, ácido úrico e ionograma com fósforo, cálcio e magnésio) sem alterações. Foi realizada punção lombar, que evidenciou pleocitose (170 polimorfonucleares/μL) com glicorraquia e proteinorraquia normais. Efetuou RM encefálica e medular (Figuras 1 e 2) que revelou, na ponderação T2, hipersinal medular que se estendia desde D6 ao cone medular, sem tradução na ponderação T1 ou realce após administração de gadolínio (Figura_3); em D2-D3 apresentava uma segunda lesão medular, de idênticas características de sinal e sem significativa expansão medular; o estudo encefálico foi considerado normal para a idade, com presença de áreas de hipersinal nas sequências de TR longo, bilaterais, e relativamente simétricas, compatíveis com áreas ainda não mielinizadas.

Perante o quadro clínico, o estudo analítico e imagiológico a criança foi internada com o diagnóstico de mielite transversa no contexto de encefalomielite aguda disseminada (ADEM). Iniciou terapêutica anti-inflamatória (com metilprednisolona endovenosa, na dose de 23 mg/Kg/dia durante cinco dias, seguida de prednisolona oral na dose de 2 mg/Kg/dia) e imunossupressora (Imunoglobulina G Humana endovenosa, na dose de 1 g/Kg/dia, duas tomas). Foram ainda instituídas medidas gerais de suporte (monitorização cardio-respiratória contínua, cateterismo vesical, profilaxia de infeção urinária com cotrimoxazol oral e ranitidina oral).

No estudo microbiológico realizado, foi isolado o HHV-6 por técnica de PCR (Polymerase Chain Reaction) no LCR, tendo o exame bacteriológico de LCR e a hemocultura sido estéreis.

Durante o internamento a evolução clínica foi favorável, tendo readquirido capacidade para sentar sem apoio, micções espontâneas e movimentos espontâneos dos membros inferiores ao quinto dia de internamento. Teve alta ao décimo dia de internamento encontrando-se vigil, com bom estado geral, bem disposta, com movimentos espontâneos dos membros inferiores e melhoria da hipotonia, mas ainda sem capacidade em manter ortostatismo, com reflexos rotulianos presentes e aquilianos ausentes. Manteve prednisolona oral em esquema de redução gradual e cotrimoxazol profilático, tendo iniciado programa de reabilitação física diário.

Em ambulatório manteve reavaliação multidisciplinar (Pediatria, Neuropediatria, Urologia e Medicina Física e de Reabilitação), tendo-se constatado recuperação completa do quadro clínico e normalização imagiológica (RM encefálica e medular) ao terceiro mês de seguimento.

DISCUSSÃO A criança descrita apresentava um quadro de paraparésia flácida arrefléxica de instalação subaguda com envolvimento esfincteriano. Face a este quadro clínico os principais diagnósticos diferenciais a colocar são: mielopatia aguda pós- infeciosa (ADEM e mielite transversa), mielite infeciosa, mielopatia aguda por lesão compressiva (tumoral, traumática) e polirradiculoneuropatia periférica (Síndrome de Guillain-Barré) (1).

O principal exame de diagnóstico para auxiliar no diagnóstico diferencial é a RMN cerebral e medular, que evidencia lesão medular em todas as situações atrás descritas exceto no Síndrome de Guillain-Barré.

No caso clínico descrito a sonolência e irritabilidade são sugestivas de envolvimento encefálico, que atualmente é considerado obrigatório para o diagnóstico de ADEM(7). O diagnóstico de encefalopatia poderá ser questionado, dado que numa criança de 16 meses múltiplos fatores poderiam justificar estas alterações comportamentais e flutuações da vigília (stress do internamento, dor, desregulação do sono...). Contudo, o facto de melhorar com o tratamento ainda em ambiente hospitalar apoia o diagnóstico. Questiona-se se a ausência de lesões na RM cerebral permite excluir ADEM, dado que casos de ADEM descritos em crianças com lesões confinadas ao tronco cerebral(8,9) e casos em que as lesões na RM surgem meses após o início dos sintomas(10).

Se neste caso clínico considerássemos que não havia encefalopatia, o caso seria rotulado de síndrome clínico solado(7). Esta separação não tem grandes implicações no tratamento inicial, mas e fundamental para o seguimento da criança. Assim, perante um novo episodio desmielinizante poderá classificar-se como ADEM recorrente ou esclerose múltipla, com diferentes implicações terapêuticas.

No caso apresentado, face à gravidade e rápida progressão da sintomatologia, foi instituída terapêutica com corticoterapia em altas doses associada a imunoglobulina endovenosa. Esta última não tem eficácia clínica totalmente comprovada nesta patologia, embora alguns estudos documentem benefícios quando associada à corticoterapia(1,3,4).

Nesta criança, quer a idade precoce de aparecimento, quer a extensão da lesão medular poderiam fazer prever um prognóstico mais reservado. Em vários estudos, foi documentada resolução total do quadro entre um a seis meses após o diagnóstico, embora também estejam descritos casos com recuperação mais tardia (1). Neste caso, verificou-se resolução clínica e imagiológica completa ao terceiro mês de follow-up.

O neurotropismo do HHV-6 está bem documentado, nomeadamente como agente etiológico de encefalites em adultos, sobretudo em doentes imunocomprometidos (3,5,6). A associação de ADEM com a infeção por HHV-6 está descrita em muito poucos casos(6). Na doente apresentada, a deteção do material genético do HHV- 6 no LCR por técnica PCR, associada à ausência de isolamento de outros vírus ou bactérias, permite colocar este vírus como agente etiológico da mielite.

Contudo, esta relação causal deve ser interpretada cautelosamente, não porque não se verificou a apresentação clínica mais típica do HHV-6, mas também porque este pode permanecer em estado latente no SNC após a infeção primária, sobretudo durante a infância(7).

Tendo em conta os diferentes aspetos discutidos e com base na bibliografia mais recente, pode-se concluir que este caso pode ser classificado como mielite transversa associada a ADEM pós-infeção pelo HHV6(11).


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