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EuPTCVHe0872-07542014000500006

EuPTCVHe0872-07542014000500006

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-0754
ano2014
Issue0005
Article number00006

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Tuberculose miliar no século XXI: a propósito de um caso clínico

INTRODUÇÃO A tuberculose (TB) é umas das principais causas de morte a nível mundial, sobretudo nos países em desenvolvimento(1). Portugal apresenta uma taxa de incidência intermédia (21.6/100000 habitantes), apesar do decréscimo progressivo nos últimos anos. Dos 2480 casos de TB diagnosticados em 2012, 26 (1.0%) corresponderam a formas disseminadas e 69 (2.8%) ocorreram em idade pediátrica(2).

A TB pediátrica representa a transmissão recente do Mycobacterium tuberculosis (MT) na comunidade, permitindo assim aferir a eficácia das medidas de controlo da doença(1,3-5). No entanto, o diagnóstico é frequentemente um desafio devido à inespecificidade e variedade das manifestações clínicas, às dificuldades na obtenção de amostras de qualidade para os exames microbiológicos e à natureza paucibacilar das lesões com consequente baixa sensibilidade do exame direto (<15%) e da cultura (30-40%)(1,4-6).

A imaturidade imunológica inerente às idades mais precoces (sobretudo abaixo dos três anos) e a infeção VIH constituem fatores de risco para doença grave ou disseminada(1,4,5,7).

Apresentamos o caso de uma criança com TB miliar que exemplifica a dificuldade do diagnóstico destas situações em idade pediátrica.

CASO CLÍNICO Menina de três anos de idade, raça caucasiana, residente em Portugal, observada por febre prolongada (19 dias) associada a dor abdominal, anorexia e noção de perda ponderal. No início do quadro, tinha sido diagnosticada infeção urinária a Escherichia colitendo cumprido dez dias de antibioticoterapia em ambulatório, de acordo com o antibiograma. Antecedentes de anemia ferripriva, tratada com ferro oral. Vacinada segundo o Programa Nacional de Vacinação, incluindo a BCG.

História familiar antiga de tuberculose no ramo materno (anterior ao nascimento da criança). Ao exame físico apresentava ar doente, palidez cutânea, febre elevada (40ºC) e hepatomegalia, sem outras alterações relevantes. O estudo analítico revelou ligeira anemia microcítica e hipocrómica, proteína C reativa (pCr) elevada e hipertransaminasemia (Tabela_1). O sedimento urinário mostrou- se alterado com leucocitúria e nitritos positivos. Foi internada e iniciou antibioticoterapia endovenosa. Após 48 horas, mantinha febre, tendo-se isolado novamente Escherichia colimultissensível na urocultura. Analiticamente constatou-se diminuição da pCr, velocidade de sedimentação (VS) ligeiramente elevada e enzimas hepatobiliares aumentadas (Tabela_1) com função de síntese hepática normal. A investigação complementar incluiu urocultura de controlo (negativa), ecografia abdominal (hepatoesplenomegalia homogénea) e reno-vesical (sem alterações), serologias e marcadores víricos (CMV, EBV, hepatite A, B e C e VIH) que foram negativos, e radiografia torácica que evidenciou infiltrado pulmonar bilateral micronodular com padrão miliar (Figura_1). Por suspeita de tuberculose, efetuou-se a prova de tuberculina (0 mm) e colheita de aspirado gástrico, cujo exame direto foi negativo, mas com identificação do Mycobacterium tuberculosis(MT) por técnica de polymerase chain reaction(PCR).

Embora não apresentasse sinais meníngeos ou outras manifestações neurológicas, foi efetuada punção lombar para exclusão de envolvimento meníngeo. O exame citoquímico do líquor (LCR) revelou pleocitose, hipoglicorráquia e hiperproteinorráquia, alterações compatíveis com meningite tuberculosa que foi confirmada após identificação do MT por técnica de PCR no LCR. Para estadiamento do envolvimento do sistema nervoso central (SNC), realizou ressonância magnética (RM) cerebral que excluiu a presença de tuberculomas. O exame oftalmológico revelou uveíte posterior com tubérculos coroideus (Figura 2). Iniciou tratamento antituberculoso triplo associado a prednisolona oral. Os exames culturais em meio líquido de Middlebrook 7H9 e sólido de Lowenstein- Jensen do aspirado gástrico, urina e LCR foram positivos para MT resistente à estreptomicina.

Apresentou boa evolução clínica e analítica, com apirexia após 12 dias de tratamento, diminuição dos parâmetros analíticos inflamatórios e normalização das enzimas hepatobiliares após um mês de terapêutica (Tabela_1). A reavaliação oftalmológica mostrou o desaparecimento dos tubérculos e algumas zonas cicatriciais. Cumpriu dois meses de isoniazida, rifampicina e pirazinamida associados a corticoterapia, seguidos de dez meses de isoniazida e rifampicina.

Importa referir que o caso clínico foi precocemente sinalizado ao Centro de Diagnóstico Pneumológico local que desencadeou e orientou a investigação do caso-índice que acabou por ser identificado (convivente da criança).

DISCUSSÃO A TB miliar é uma forma grave da doença que resulta habitualmente de disseminação hematogénea do MT. As manifestações clínicas são frequentemente inespecíficas, sendo a febre de origem desconhecida e a hepatoesplenomegalia formas comuns de apresentação(8-10). Neste caso, a pista para o diagnóstico foi dada pela radiografia torácica. De facto, nas formas disseminadas de TB, encontra-se um padrão miliar em 50 a 90% dos doentes(9,11).

A prova de tuberculina é útil para a deteção da infeção tuberculosa, mas não permite o diagnóstico de TB doença sendo para isso necessário proceder à colheita de amostras biológicas para identificação do agente. A prova de tuberculina é negativa em até metade dos casos e, como referido anteriormente, nas crianças o exame direto é habitualmente negativo(9,10). No caso apresentado, não havia contexto epidemiológico conhecido, pelo que a identificação do MT por técnica de PCR foi uma mais-valia ao possibilitar o início mais precoce do tratamento, dado que os resultados das culturas são demorados(1,6,7).

O envolvimento do SNC é comum, tornando necessária a sua exclusão através de exame do LCR e imagem cerebral(5,12,13,14). É também obrigatória a observação oftalmológica, uma vez que em 13 a 87% dos casos verifica-se envolvimento ocular, principalmente tubérculos coroideus, muito específicos de TB miliar (9,13). No caso apresentado, embora não houvesse sintomatologia neurológica, confirmou-se a presença de meningite traduzida por alterações inflamatórias a nível do LCR, e de uveíte posterior tuberculosa.

É comum isolar-se o bacilo na urina, o que por si não traduz TB renal. Por outro lado, está descrita a possibilidade de sobreinfeção bacteriana a nível do trato urinário, tal como aconteceu neste caso, com consequente atraso do diagnóstico de TB(9).

Relativamente à abordagem terapêutica, a maior parte das normas de orientação clínica internacionais recomenda um esquema quádruplo para as formas disseminadas. No entanto, o uso rotineiro do etambutol em crianças menores de seis anos é desaconselhado dado o risco de diminuição da acuidade visual e difi       em diagnosticar esta complicação neste grupo etário, devendo fi reservado para os casos em que existe alto risco de resistência à isoniazida.

Quanto à corticoterapia, existe consenso relativamente à sua indicação na meningite tuberculosa(8,10,13-15).

O prognóstico é favorável quando a terapêutica é iniciada precocemente, com regressão da febre em duas a três semanas e recuperação ponderal, embora as alterações radiológicas possam persistir durante vários meses ou até anos, pelo que não está indicado controlo radiológico de rotina(9). Neste caso, foram indicadores de bom prognóstico a ausência de envolvimento do parênquima cerebral e a resposta favorável e célere à terapêutica.

Em conclusão, a TB em idade pediátrica continua a ser um desafio diagnóstico, especialmente quando a apresentação clínica é atípica e extrapulmonar. Um elevado índice de suspeição clínica é fundamental, pois a instituição precoce do tratamento adequado é decisiva para o prognóstico.


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