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EuPTCVHe0872-07542015000400002

EuPTCVHe0872-07542015000400002

variedadeEu
Country of publicationPT
colégioLife Sciences
Great areaHealth Sciences
ISSN0872-0754
ano2015
Issue0004
Article number00002

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Anafilaxia e alergia alimentar: O resultado de uma intervenção na comunidade

INTRODUÇÃO A alergia alimentar é uma realidade crescente em Pediatria.1,2Estima-se que cerca de dois por cento da população geral e seis a oito por cento da população em idade pediátrica tem antecedentes de alergia alimentar, sendo a sua prevalência maior nos primeiros anos de vida.1-4No entanto, pensa-se que a prevalência esteja subestimada, uma vez que esta reação nem sempre é diagnosticada e/ou reportada pelos profissionais de saúde.5,6 A alergia alimentar ocorre devido a uma reação imunológica após contacto (ingestão, cutâneo, inalação) com um alimento/ aditivo alimentar que contenha o alergénio.2 Esta reação imunológica pode ser classificada em IgE mediada (sintomas ocorrem minutos a duas horas após o contacto com o alergénio) e não IgE mediada.2,4,7Clinicamente pode manifestar-se de diversas formas e graus de gravidade, sendo os sistemas orgânicos mais frequentemente envolvidos o mucocutâneo (urticária, angioede ma, prurido, eritema), respiratório (esternutos, rinorreia, tosse, dispneia, pieira, dor torácica), gastrointestinal (náuseas, vómitos, diarreia, dor abdominal) e cardiovascular (tonturas, hipotensão, síncope).1,2,4,5 A anafilaxia representa a forma mais grave de alergia ali mentar.1Clinicamente a anafilaxia pode manifestar-se de for mas diversas, sendo que o seu diagnóstico nem sempre é fácil e evidente.8Para o diagnóstico de anafilaxia é necessário que haja envolvimento de pelo menos dois sistemas orgânicos (Tabela 1).1,5,6,9Na maioria das vezes (80-90%) caracteriza-se por sintomas mucocutâneos, associados a um ou mais sintomas de outros sistemas (respiratório, gastrointestinal, cardiovascular).5,6,9-,11O diagnóstico tardio associa-se a uma maior taxa de mortalidade.8,10A melhor forma de prevenção da anafilaxia é a evicção do alergénio, no entanto, tal nem sempre é possível, acontecendo reações acidentais. Deste modo, sempre que ocorre um contacto com o alergénio é fundamental reconhecer os sintomas iniciais da reação alérgica e atuar de imediato. A adrenalina intramuscular constitui o fármaco de primeira linha para os casos de anafilaxia.2,5,8,9,11,12Uma vez que a anafilaxia é uma patologia potencialmente fatal se não for reconhecida e ra pidamente tratada, torna-se fundamental o ensino dos doentes e das pessoas que contactam com estes, de modo a aprende rem a reconhecer precocemente os sinais/sintomas da anafila xia e a usar corretamente a caneta de adrenalina.13

A partir do projeto denominado Programa de formação e prevenção da anafilaxia alimentar nas escolas, que é um pro jeto inter-hospitalar que envolve alguns hospitais nacionais e que tem o apoio da Sociedade Portuguesa de Alergologia Pediátrica (SPAP), realizamos formações nas escolas e infantários. É finalidade do programa formar os funcionários, que contactam com crianças com risco de anafilaxia, quanto a procedimentos corretos e intervenção precoce. O objectivo do estudo foi ava liar os resultados da implementação desta acção de formação no desenvolvimento da capacidade dos funcionários relativa ao reconhecimento desta situação clinica e actuação adequada.

MATERIAL E MÉTODOS Estudo populacional, observacional e transversal que decorreu entre Dezembro de 2013 e Março de 2014.

Na Consulta de Pediatria Doenças Alérgicas do Centro Hospitalar do Alto Ave ' Unidade de Guimarães, foram selecionadas todas as crianças (total de 6 crianças) com antecedentes de anafilaxia por alergia alimentar (ovo, proteínas do leite de vaca, Kiwi, amendoim). A visita aos infantários/escolas destas crianças foi realizada após consentimento parental e após os estabele cimentos de ensino disponibilizarem os funcionários (professores, auxiliares, cozinheiros e outros funcionários escolares que contactam com as crianças) para se proceder à formação. Foi realizada uma sessão teórico-prática sobre conceitos básicos de alergia alimentar e anafilaxia. Antes e após a sessão foi entregue um questionário de avaliação de conhecimentos. Este questio nário não está validado mas foi aprovado para ser usado nes te projeto pela SPAP. Para avaliação da pontuação global dos conhecimentos cada resposta correta foi cotada com um ponto, sendo que a pontuação máxima era de oito pontos. Sempre que as respostas dadas eram incompreensíveis, foram excluídas da base de dados.

A população do estudo corresponde a todos os funcionários que aceitaram receber formação e ser submetidos a avaliação dos conhecimentos pré-concebidos e adquiridos após a formação. Foram excluídos do estudo os funcionários que não demonstraram interesse em receber formação.

As variáveis quantitativas recolhidas neste estudo foram submetidas a uma análise descritiva, através do cálculo de dias e desvio-padrão.

Relativamente às variáveis qualitativas foram analisadas através do cálculo de frequências.

Para o estudo comparativo dos resultados globais antes e após a sessão teórico- prática recorreu-se ao teste t-student. O tratamento estatístico foi efetuado com recurso a softwareestatístico (SPSS Statistics versão 20), sendo que um valor de pigual ou inferior a 0.05 foi considerado estatisticamente significativo.

RESULTADOS No total dos seis infantários e escolas visitadas receberam formação sobre alergia alimentar e anafilaxia 77 funcionários, dos quais 51 preencheram um questionário de avaliação de conhecimento antes e imediatamente após a sessão teórico-prática exposta.

O questionário entregue era constituído por dez questões, das quais oito eram de avaliação de conhecimento (questões 1,2,3,4,5,6,8,9) e duas (questões 7 e 10) eram de opinião pessoal acerca da qualidade e pertinência da sessão apresentada (Figura_1).

No gráfico_1 encontra-se discriminada a taxa de respostas certas e erradas, para cada uma das questões, antes de apresentada a sessão teórica. Pela análise do gráfico_1 verifica-se que 98% dos inquiridos acertaram nas questões 1 e 6, reconhecendo a anafilaxia como uma emergência médica poten cialmente fatal (questão 1) e que mesmo quantidades mínimas do alergénio podem despoletar uma reação anafilática (questão 6). Constatou-se também que 92% dos formandos sabiam que após uma reação anafilática era imprescindível contactar o 112 (questão 3) e reconheciam que a adrenalina era o tratamento de eleição (questão 8). Setenta e um por cento sabiam que a reação anafilática pode ocorrer após qualquer tipo de contacto com o alergénio (questão 5) e 65% sabiam identificar possíveis acontecimentos desencadeantes de anafilaxia (questão 4). A identificação dos sintomas inerentes a uma reação anafilática foi conseguida por 56% dos formandos (questão 2) e 55% reconheciam o modo correto de administração da adrenalina (questão 9).

Relativamente às respostas dadas após a sessão teórica (gráfico_2), verificou- se uma melhoria global dos resultados, sendo que a taxa de respostas certas variaram entre 75% (questão 9) e 100% (questões 1 e 3).

Quando comparadas a taxa de respostas certas antes e depois da formação teórica (gráfico_3), verificou-se que a maior taxa de aprendizagem diz respeito às questões que abordavam os sintomas (questão 2) e causas possíveis da anafilaxia (questões 4 e 5) e o uso adequado da caneta de adrenalina (questão 9).

Vinte e cinco por cento das pessoas presentes na formação nunca tinham ouvido falar no auto-injetor de adrenalina (questão7).

No que diz respeito à pontuação global (0-8 pontos) antes da sessão obteve-se uma pontuação média de 6,3±1,3 pontos (mínimo 2 e máximo 8). Após a sessão teórica a pontuação média subiu para 7,5±0.8 pontos (mínimo 5 e máximo 8). Esta diferença foi estatisticamente significativa (p<0.001).

Todos os participantes consideraram que a sessão foi útil e mostraram disponibilidade para receber mais formações sobre este e outros temas relacionados (questão 10).

DISCUSSÃO Em Pediatria, a alergia alimentar constitui a principal causa de anafilaxia no ambulatório.5,10,11Dentro dos vários alergénios alimentares, alguns tendem a desenvolver tolerância na primeira década de vida (alergia ao leite, ovo, soja, trigo) enquanto outros alergénios tendem a perdurar toda a vida (amendoim, noz, ma risco, peixe).2,14,15Nos casos em que a alergia persiste, é fundamental a evicção do alergénio de modo a prevenir reações sistémicas potencialmente fatais.13Uma vez que a anafilaxia é uma emergência médica potencialmente fatal se não reconhecida e não tratada adequadamente, é fundamental o ensino regular dos doentes, dos seus familiares e contactos mais próximos para que se tornem capazes de reconhecer os sintomas da anafilaxia e saibam utilizar corretamente o auto-injetor de adrenalina.13 Com este trabalho verificou-se que a grande maioria dos funcionários das escolas/infantários sabiam que a anafilaxia era uma emergência médica, que podia ser despoletada mesmo com pequenas quantidades de alergénio, reconheciam a necessidade de contactar o 112 após a anafilaxia e sabiam que o fármaco de eleição é a adrenalina. No entanto, apenas metade das pessoas sabiam reconhecer os sintomas inerentes a uma rea ção anafilática apesar de contactarem diariamente com crianças e/ou adolescentes com antecedentes de anafilaxia e somente 25% tinham ouvido falar do auto-injetor de adrenalina apesar desta ser transportada diariamente pelas mesmas. Através da comparação das pontuações totais antes e depois da sessão teórica, verificou-se que a formação teve um impacto positivo no conhecimento geral sobre a alergia alimentar e abordagem de uma reação anafilática. Todos os participantes do estudo reconheceram a importância deste tipo de formação e demonstraram vontade em receber formações periódicas.

O presente estudo apresenta algumas limitações que importa realçar. Trata-se de um estudo de pequenas dimensões o que limita o significado estatístico e a extrapolação dos resultados para a população geral. Uma vez que a amostra estudada era constituída por funcionários que lidavam diariamente com crianças com antecedentes de anafilaxia por alergia alimentar, o seu conhecimento geral acerca de alergia alimentar e anafilaxia provavelmente será superior ao da população que não contacta com estas crianças. Por outro lado, o fato da avaliação ter sido feita imediatamente após a exposição teórica pode estar associado aos bons resultados da formação.

Não foram encontrados estudos semelhantes que permitissem comparar os resultados obtidos na nossa amostra com outra população.

CONCLUSÃO Com este trabalho demonstrou-se que metade das pessoas que contactam diariamente com crianças com antecedentes de anafilaxia não sabe reconhecer nem atuar perante esta. Sabendo que a anafilaxia pode ser fatal e que é potencialmente reversível através do uso da adrenalina, torna-se fundamental o ensino da comunidade para esta problemática.13Este tipo de formação na comunidade é muito importante podendo ter um impacto benéfico na ajuda de crianças com alergia alimentar. Apesar das limitações estatísticas desde estudo, a formação dos funcionários parece ter tido um impacto positivo na aquisição de noções básicas de alergia alimentar e anafilaxia, uma vez que se verificou um aumento significativo no conhecimento deste tema.

Salienta-se a necessidade de continuar e propagar este tipo de ação comunitária, pois deste modo será possível reduzir a prevalência da anafilaxia e diminuir a sua taxa de mortalidade. São necessários mais estudos e de maiores dimensões que avaliem o conhecimento geral da comunidade acerca desta temática e que averiguem a vantagens a longo prazo deste tipo de intervenção comunitária.


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