Contracepção em adolescentes nos últimos 15 anos: perspectiva de um Centro de
Atendimento a Jovens
INTRODUÇÃO
A sexualidade, os comportamentos sexuais e os relacionamentos sexuais são uma
importante e necessária parte do desenvolvimento humano. É durante a
adolescência que ocorre uma progressiva conquista da autonomia, elaboração de
projectos, afirmação pessoal e social e procura de uma independência que conduz
à vida adulta. É também nesta fase que se evidenciam os comportamentos
socioafectivos e sexuais.
Actualmente, os profissionais de saúde discutem a sexualidade dos adolescentes,
em especial as infecções sexualmente transmissíveis e a gravidez indesejada,
como riscos reconhecidos nesta população. O comportamento sexual responsável
(início das relações sexuais de forma consciente e informada, aumento do uso de
preservativo e contracepção eficaz) é uma importante questão de saúde
pública.1-3Por outro lado, a maioria das gravidezes na adolescência não são
planeadas e as consequências de uma gravidez precoce e não desejada são várias.
As grávidas adolescentes têm maior probabilidade de iniciar a vigilância da
gravidez tardiamente e têm taxas mais elevadas de outcomesperi-natais
desfavoráveis.2
Desta forma, o aconselhamento contraceptivo é um elemento chave na estratégia
da prevenção da gravidez e das infecções sexualmente transmissíveis nos
adolescentes.1
É, então, de extrema importância a existência de espaços dedicados a jovens que
sejam confidenciais, de fácil acesso e youth-friendly, para que estes se sintam
confortáveis para partilhar dúvidas e obter informações sobre sexualidade e
para que a escolha e o uso de contraceptivos sejam consistentes e eficazes.4-6
Seguindo este princípio, foi criado em 1994, no nosso Hospital, um Centro de
Atendimento a Jovens (CAJ) até aos 25 anos de idade: o Espaço Jovem. O nosso
Centro obedece ao cumprimento da Lei nº 3/84 sobre educação sexual e
planeamento familiar, posteriormente regulamentada pela portaria nº 52/85.
O objectivo deste estudo foi avaliar o comportamento das adolescentes que
recorreram ao Espaço Jovem em relação à saúde sexual e à escolha contraceptiva
nos últimos 15 anos.
MATERIAIS E MÉTODOS
Estudo retrospectivo descritivo com avaliação da informação dos processos
clínicos das primeiras consultas efectuadas no Espaço Jovem nos anos de 1997,
2002, 2007 e 2012. Foram incluídas as adolescentes do sexo feminino com idade
inferior a 18 anos, sendo considerados critérios de exclusão: sexo masculino e
processos clínicos incompletos. Foram analisadas características demográficas
(actividade profissional, nacionalidade, proveniência e antecedentes
obstétricos), os métodos contraceptivos utilizados e os escolhidos pelas
adolescentes na primeira consulta, motivos de atendimento e idade da coitarca.
A análise estatística foi efectuada com os programas SPSS 21.0 e Microsoft
Excel 2007. Na análise estatística dos dados foram calculadas as médias e as
proporções das diferentes variáveis e, na comparação de variáveis categoriais,
utilizado o teste de qui-quadrado. Foi utilizado um nível de significância de
p=0,05.
RESULTADOS
O total de primeiras consultas nos anos avaliados foi de 3571. Após aplicação
dos critérios de exclusão foram incluídos 822 (23%) processos. A amostra foi
distribuída por quatro grupos, de acordo com o ano da primeira consulta: grupo
1 (ano 1997), n =151; grupo 2 (ano 2002), n=152; grupo 3 (ano 2007), n= 315 e
grupo 4 (ano 2012), n=204.
Foram avaliadas as características demográficas e antecedentes ginecológicos e
obstétricos da amostra, conforme descrito na Tabela_1. A maioria das utentes
eram estudantes, com uma proporção relativamente constante ao longo dos anos.
Observou-se, no decorrer dos períodos estudados, um aumento significativo quer
do número de jovens oriundas dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa
(PALOP) que recorreram ao Espaço Jovem, quer da referenciação das jovens ao CAJ
por instituições ' lares de acolhimento.
Os motivos de atendimento mais frequentes nos quatro anos estudados foram:
início de contracepção hormonal, informação sobre contracepção e sexualidade e
suspeita de gravidez (Gráfico_1).
A percentagem das adolescentes que não utilizavam método contraceptivo versusa
percentagem das que já utilizavam método contraceptivo hormonal à data da
primeira consulta foi em 1997 44,8% vs 13,2%, 2002 49,6% vs 17,1%, 2007 40,9%
vs 17,5% e 2012 41,6% vs 21,6%, (p=0,004). As restantes utilizavam contracepção
não hormonal. Os métodos contraceptivos hormonais usados pelas adolescentes
estão descritos na Tabela_2. Nas adolescentes que não realizavam Contracepção
Hormonal (CH) e recorreram à consulta para a iniciar, verificou-se que 98,6%
iniciou CH no grupo 1, 100% no grupo 2, 90,9% no grupo 3 e 97% no grupo 4. Os
métodos contraceptivos hormonais escolhidos estão apresentados na Tabela_3.
No nosso estudo, a maioria das adolescentes já era sexualmente activa à data da
primeira consulta: 61,5% vs 38,5% sem actividade sexual em 1997, 76,2% vs 23,8%
em 2002, 74,7% vs
25,3% em 2007 e 76,5% vs 23,5% em 2012, respectivamente (p=0,01). A percentagem
das adolescentes que já tinha iniciado vida sexual e contracepção hormonal
regular à data da primeira consulta foi: grupo 1 ' 8,4%; grupo 2 ' 14,3%; grupo
3 ' 18,1%; grupo 4 ' 21,5% (p <0,001). Nas adolescentes que não tinham iniciado
actividade sexual e que recorreram à consulta para contracepção hormonal, tendo
efectivamente iniciado, obtiveram-se os seguintes resultados: grupo 1 '
36,5%; grupo 2 ' 71,4%; grupo 3 ' 52,1%; grupo 4 ' 62,5%.
DISCUSSÃO
Ao longo destes 15 anos verificou-se um aumento da pro cura da consulta do
Espaço Jovem por jovens provenientes de lares de acolhimento e dos PALOP.
Embora a idade da coitarca tenha vindo a diminuir, sendo este dado discrepante
em relação a outros dados portugueses, que apontam para idade superior à data
da primeira relação sexual, também se verifica que mais adolescentes já
utilizam um método contraceptivo hormonal à data da primeira consulta, embora
longe da percentagem desejada.7Por outro lado, cada vez mais adolescentes sem
vida sexual iniciada recorrem ao nosso atendimento para obterem informação
sobre as infecções sexualmente transmissíveis e iniciarem contracepção
hormonal, sendo este o principal motivo de consulta, o que demonstra que as
jovens estão cada vez mais conscienciosas dos riscos que podem correr se não
optarem por uma contracepção segura e eficaz. Também constatamos que, em cada
um dos grupos, nem todas as jovens sem vida sexual que recorriam ao nosso
Centro para iniciar CH o fizeram. Apesar de não ter sido obti da informação
suficiente quanto ao facto de não terem iniciado CH, podemos inferir que tal
não sucedeu por falta de indicação médica.
Apesar da contracepção oral combinada ser o método preferencial, constatou-se
uma maior adesão ao implante subcutâneo, provavelmente por ser um método de
longa duração e sem necessidade de toma diária, evitando os frequentes
esquecimentos. A combinação do preservativo masculino com um método
contraceptivo hormonal (dupla protecção) é o método de eleição para os
jovens. O nosso estudo foi inconclusivo em relação ao uso do método de barreira
ou de dupla protecção, essencialmente por falta de informação nos processos
clínicos sobre o seu uso sistemático. No entanto, é prática no nosso centro de
atendimento motivar a utilização do método de barreira masculino, promovendo a
protecção das IST e au mentando a taxa de eficácia contraceptiva nos casos de
dupla protecção.
As maiores limitações deste trabalho são: o facto de se tratar de uma amostra
de conveniência, podendo esta população não ser representativa das adolescentes
com menos de 18 anos, e a falta de informação clínica em alguns processos,
limitando a análise completa dos dados. No entanto, é um estudo relevante, por
ter uma amostra numerosa, por se basear numa população que recorre a um Centro
de Atendimento a Jovens de forma voluntária, e por avaliar comportamentos
sexuais e escolhas contraceptivas em adolescentes.
CONCLUSÃO
A promoção de uma sexualidade responsável é fundamental para o bem-estar
físico, psíquico e social dos adolescentes. Face aos resultados obtidos, será
mandatório criar e dinamizar Centros de Atendimento a Jovens de forma a
incentivar e refor çar práticas e comportamentos saudáveis em saúde sexual e
reprodutiva nos adolescentes, acompanhando a evolução em contracepção e as
necessidades específicas deste grupo.