A qualidade de vida do idoso: o caso da Cova da Beira
Introdução
O envelhecimento da população é um fenómeno observado em todos os países. Os
progressos médicos e a melhoria das condições de vida desde a Segunda Guerra
Mundial são tais que, o número de pessoas com mais de sessenta anos aumenta de
ano para ano. A compreensão dos processos de envelhecimento que transformam a
nossa velhice num momento feliz ou num verdadeiro naufrágio constitui o objeto
de investigação de numerosos cientistas. O desafio do século XXI não será dar
tempo ao tempo, mas dar qualidade ao tempo (Fontaine, 2000).
Segundo Magalhães (2003), entre 1991 e 2001, verificou-se em Portugal um
crescimento acentuado da população com 65 e mais anos. No total das famílias em
1991, a percentagem de famílias com idosos era de 30.8%. Em 2001, aumentou para
32.3%, o que se deve exclusivamente ao acréscimo da proporção de famílias só de
idosos, de 14.9% em 1991, para 17.4% em 2001.
Também o INE (2007) refere que em 31 de dezembro de 2006 a população residente
em Portugal foi estimada em 10 599 095 indivíduos, dos quais 5 129 937 homens e
5 469 158 mulheres. Destes, 1 828 617 eram idosos (65 e mais anos de idade),
repartindo-se em 763 752 homens (41,8%) e 1 064 865 mulheres (58,2%).
Com base nesta problemática, e sendo os enfermeiros uma classe sensibilizada
com os idosos, não só é importante prolongar-se a idade, mas sobretudo que essa
idade vivida seja repleta de qualidade de vida e conforto.
A amostra não probabilística por conveniência inicial foi formada por 103
idosos, dos quais destes 36 são institucionalizados e 67 não
institucionalizados. Trata-se de um estudo descritivo, analítico e
correlacional, cuja recolha de dados se baseou num conjunto de questionários e
escalas.
Este estudo pretende dar um contributo nesta área do conhecimento ' O Valor
Preditor das Variáveis sócio familiares na Qualidade de vida do Idoso: O Caso
da Cova da Beira ', tendo como principal propósito avaliar a qualidade de vida
dos idosos institucionalizados e não institucionalizados, para que deste modo
se possam implementar medidas corretivas e se obterem as transformações
desejadas. Assim, esta investigação em concreto incide sobre os idosos
residentes na Cova da Beira e tem como objetivo geral identificar as principais
variáveis sócio familiares que se relacionam com a qualidade de vida, quer dos
idosos institucionalizados quer dos não institucionalizados.
Enquadramento/Fundamentação teórica
O envelhecimento da população é um fenómeno observado em todos os países. Os
progressos médicos e a melhoria das condições de vida desde a Segunda Guerra
Mundial são tais que, o número de pessoas com mais de sessenta anos aumenta de
ano para ano. O desafio do século XXI não será dar tempo ao tempo, mas dar
qualidade ao tempo (Fontaine, 2000).
Este estudo pretende dar um contributo nesta área do conhecimento ' A
influência das Variáveis sócio familiares na Qualidade de vida do Idoso: O Caso
da Cova da Beira. Deste modo, esta investigação em concreto incide sobre os
idosos residentes na Cova da Beira e tem como objetivo geral identificar as
principais variáveis sócio familiares que se relacionam com a qualidade de
vida, quer dos idosos institucionalizados quer dos não institucionalizados.
A amostra não probabilística por conveniência inicial foi formada por 103
idosos, dos quais destes 36 são institucionalizados e 67 não
institucionalizados. Trata-se de um estudo correlacional, cuja recolha de dados
se baseou num conjunto de questionários e escalas.
O conceito de qualidade de vida, pela sua utilização frequente em discursos ou
simples conversas, tornou-se num conceito popular que, como afirma (Ribeiro
cit. por Coimbra e Brito, 1999), faz parte da linguagem do homem comum, dos
especialistas aos leigos, de gente um lhe atribuir um sentido ou um valor que
varia de contexto para contexto.
O aumento da esperança de vida, resultante quer da melhoria das condições
socioeconómicas das populações, quer dos inegáveis progressos da medicina,
resulta num aumento do número de pessoas muito idosas na sociedade, o que
levanta várias questões de ordem psicológica, social e económica, nomeadamente
uma crescente preocupação com a qualidade de vida das mesmas (Coutinho et al.,
2009).
A tendência para o crescimento da população idosa é um dos traços mais
salientes da sociedade portuguesa atual. Habituado durante décadas a viver com
uma imagem de si mesmo, sob o ponto de vista demográfico, alicerçada em
elevadas taxas quer de natalidade, quer de mortalidade, Portugal enfrenta
presentemente uma realidade que, sendo comum à generalidade dos países
europeus, só agora começa a ganhar um impacte social relevante: baixas taxas de
natalidade e de mortalidade, com um aumento significativo do peso dos idosos no
conjunto da população total do país (Paúl e Fonseca, 2005).
Nenhuma sociedade pode ficar indiferente à problemática do envelhecimento, nem
tão pouco à do sobreenvelhecimento. Chegou-se até a pensar que este fenómeno
demográfico era uma característica das sociedades desenvolvidas (Silva, 2004).
Esta problemática é olhada pelos diversos intervenientes, desde a comunidade
científica, política à sociedade em geral. Não importa só viver mais anos, mas
sim vivê-los com qualidade. Pois a preocupação crescente no que concerne ao
aumento do número de idosos, associada à diminuição do número de jovens,
acarreta modificações socioeconómicas e políticas, para a qual a sociedade tem
que se preparar (Oberg et al., 2004).
As atividades de vida diária ' AVD ' (designadas internacionalmente por
Activities Daily Living ' ADL) são as competências básicas em geriatria e são
indicadores da adaptação dos indivíduos à longevidade, abrangendo áreas
relacionadas com a qualidade de vida que a avaliação clínica frequentemente
ignora (Cabete, 2008).
Evidenciou-se ainda, que outros problemas relacionados ao funcionamento dos
sentidos entre as idosas cadastradas em uma Unidade de Saúde da Família foram:
diminuição na audição (17,4%) e olfato (1,5%) e deglutição prejudicada (4,4%).
Destaca-se que os órgãos sensoriais permitem o relacionamento do utente com o
meio em que vive, seja ele familiar, do trabalho ou outros. Através dos
sentidos, o corpo percebe diversas situações que o rodeiam, contribuindo para a
sua integração com o ambiente (Ribeiro, Alves e Meira, 2009). Assim, perdas
nestas funções podem interferir negativamente na qualidade de vida do idoso
podendo piorar as suas relações pessoais e hábitos de vida.
Há a necessidade de se estimular mais a prática de exercício físico, mas
devidamente orientado por profissionais da área, bem como o desenvolvimento de
novas pesquisas que abordem o nível de atividade física em idosos, visto que
este fator tem um papel importante para um envelhecimento saudável (Cardoso et
al., 2009).
Segundo Ferreira (2010), o século XXI será certamente o século dos idosos, pelo
menos no mundo ocidental. Este processo interessa a todos, em primeiro lugar,
aos já idosos, mas a todos os que vêm atrás, mesmo as crianças, que amanhã
também serão velhos.
Metodologia
População, amostra e tipo de estudo
Para a realização deste estudo é necessário a identificação da população alvo,
que segundo Fortin (2009, p. 311) é o conjunto de pessoas que satisfazem os
critérios de seleção definidos previamente. Este estudo teve como contexto de
análise o Centro Hospitalar Cova da Beira, EPE (CHCB, EPE), na Covilhã, através
de entrevista semi-estruturada aos idosos que se dirigiram à consulta externa
deste hospital no período de tempo compreendido entre 18 de janeiro de 2007 e
27 de fevereiro de 2007. Teve ainda como contexto de análise as seguintes
instituições: Lar de São José; Núcleo de Apoio a Idosos (NAI); Associação de
Socorros Mútuos Mutualista Covilhanense; Lar de Belmonte; e, por fim, o Lar
D.ª Bárbara Tavares da Silva. A recolha de dados inerentes aos idosos, nestas
instituições, decorreu no período de tempo compreendido entre 17 de julho de
2006 e 23 de outubro de 2006, constituindo-se a amostra final por 103 idosos,
dos quais destes 36 são institucionalizados e 67 não institucionalizados.
É ainda um estudo de nível II, ou seja, correlacional, inserido numa
investigação não experimental, pois não se procuram manipular as variáveis em
estudo. O principal propósito ou objetivo de investigação consiste em
determinar a qualidade de vida dos idosos institucionalizados e não
institucionalizados relativamente às variáveis sócio familiares na região da
Cova da Beira.
Instrumento de recolha de dados
A recolha de dados foi feita através de um protocolo constituído por
questionários e escalas que suportaram a entrevista aos idosos, tendo estes
sido questionados de forma individual e anónima. O protocolo obedeceu à
seguinte sequência: Questionário de Caracterização Sociodemográfica; Escala de
Suporte Social, sendo que o instrumento que se utilizou foi, a Escala
Instrumental e Expressiva do Suporte Social (EIESS) de Paixão e Oliveira
(1996); Escala de Funcionalidade Familiar que foi elaborada em 1978, por
Smilkstein, esta mesma escala conhecida também como a Escala de Apgar Familiar,
é constituída por 5 perguntas, que quantificam a perceção que o utente tem do
funcionamento da sua família, permitindo também caracterizar os componentes
fundamentais da função familiar; Escala de Atividades Instrumentais de Vida
Diária; foi desenvolvida pelo Centro Geriátrico de Filadélfia e publicada em
1969, pelos autores Lawton e Brody (1969). Foi construída especificamente para
a população idosa institucionalizada ou não;
Índice de Saúde Social, ou Escala de Duke-UNC-11 foi elaborado por Broadhead,
em 1988, sendo que o seu objetivo era medir o apoio social funcional
percebido; Escala de Qualidade de Vida no Idoso, o Perfil de Saúde de
Nottingham (PSN), ou em inglês, Nottingham Health Profile (NHP), é um
instrumento genérico de avaliação de qualidade de vida, desenvolvido
originalmente para avaliar a qualidade de vida em doentes portadores de doenças
crónicas. Os itens estão organizados em seis categorias/dimensões que englobam:
Nível de Energia, Dor, Reações Emocionais, Sono, Interação Social e Habilidades
Físicas. Cada resposta positiva corresponde a um score de um (1) e cada
resposta negativa corresponde a um score de zero (0).
Variáveis em Estudo
Para a realização desta investigação considerou-se um conjunto de variáveis
necessárias e fundamentais para o tratamento estatístico: variáveis
sociodemográficas (idade, género, estado civil, habilitações literárias, local
de residência, coabitação, ocupação de tempos livres, atividade física) e sócio
familiares (frequência da visita da família, rendimentos e apoio social, bens
de conforto, funcionalidade familiar, atividades instrumentais de vida diária e
valorização das redes de apoio social e risco social).
Procedimentos formais e éticos
Procurando pautar a atuação em todo o processo de investigação por uma rigorosa
conduta ética, foi solicitada a autorização formal aos diretores dos Lares para
aplicação dos questionários aos idosos residentes nas respetivas instituições.
Foi também requerida autorização formal ao presidente do Conselho de
Administração do Centro Hospitalar de Cova da Beira para aplicação dos
questionários junto dos idosos que se dirigiam à consulta externa do hospital.
Procedimentos estatísticos
Na análise dos dados recorreu-se à estatística descritiva e analítica. Em
relação à estatística descritiva determinaram-se: frequências absolutas e
percentuais; médias; e desvios padrão. No que respeita à estatística analítica
utilizaram-se: teste UMW, para comparação de médias entre grupos, e o teste de
Kruskal-Wallis. A utilização de testes não paramétricos tem a ver com a não
distribuição normal dos dados.
Hipótese de investigação: As variáveis sócio familiares (suporte social,
funcionalidade familiar, atividades instrumentais de vida diária, valoração das
redes de apoio social e risco social) influenciam a qualidade de vida do idoso
residente numa instituição ou no domicílio.
Resultados
A amostra é constituída por 103 idosos, sendo 67 não institucionalizados e 36
idosos institucionalizados. Quanto ao género, 60 pertencem ao sexo feminino
(58,3%) e 43 ao sexo masculino (41,70%).
Verifica-se que a idade média dos idosos do domicílio (75,21 anos) é inferior à
dos idosos do lar (82,28 anos), com idades mínimas de 65 anos para os idosos do
domicílio e 66 anos para os do lar. Da totalidade da amostra, 46,60% dos idosos
são casados, predomínio que também se verifica entre os idosos residentes no
domicílio, já entre os idosos que se encontram em lares o maior percentual é
viúvo (75%).
Para os idosos que residem no domicílio, 71,6% refere ter casa própria. Quanto
à coabitação e na totalidade, 38,8% dos idosos refere viver com a esposa/
marido, situação esta que se mantém para os idosos que residem no domicílio.
A opção de residir em lar para 63,9% é uma opção livre, 22,2% refere que é por
falta de apoio e por fim, 13,9% diz que foi imposta por familiares.
Quanto à área de residência, a maior percentagem (42,7%) corresponde aos idosos
que são oriundos da Covilhã, sendo mais representativa nos idosos
institucionalizados (50,0%) comparativamente com os não institucionalizados
(38,8%). Cerca de 40,0% são idosos oriundos do Fundão, apresentando os idosos
que residem no domicílio (47,8%) um valor mais elevado que os residentes em
instituição (25,0%). Os idosos com menos representatividade neste estudo são os
que provêm de Belmonte e Penamacor com 9,7% e 7,8%, respetivamente. Os idosos
que proveem da zona rural correspondem a 44,7% e os que proveem da zona urbana
correspondem a 55,3%.
A maioria dos idosos (58,3%) é analfabeta, sendo sobretudo os que estão em
lares os que mais contribuem para este valor ao representarem 75,0% da amostra
em detrimento dos 49,3% de idosos no domicílio.
Verificou-se que metade dos idosos não recebem qualquer tipo de apoio, 14,6%
recebe apoio do centro de dia e 35% dos idosos recebe apoio do lar.
Quanto às visitas que recebem, 32,0% do total de idosos recebe visitas de
familiares diariamente. Nos idosos residentes no domicílio essa percentagem de
visitas é de 41,8%, enquanto que em instituição é de apenas 13,9%. Como dados
mais salientes de referir, as visitas semanais e mensais correspondem a 18,4% e
21,4% no total da amostra.
Os idosos na sua grande maioria (68,9%) têm como fonte de rendimentos a pensão
de velhice, correspondendo aos residentes do lar um maior valor percentual
(75,0%) comparativamente aos do domicílio (65,7%). De referir ainda que 23,3%
auferem a pensão de invalidez e a maior representatividade situa-se nos idosos
do domicílio (26,9%) comparativamente aos idosos do lar (16,7%). Apenas 4,9%
vivem da pensão social.
43,7% dos idosos referiram auferir um rendimento mensal entre 250 e 400 euros,
sendo os idosos do domicílio os que mais contribuem para este percentual
(44,8%) em relação aos idosos do lar (41,7%). Contudo, para 31,1% dos idosos o
valor da pensão é inferior a 250 euros, com uma percentagem ligeiramente
superior nos idosos que vivem no domicílio (31,3%) comparativamente aos do lar
(30,6%).
Quanto aos bens de conforto, o bem de conforto mais referido é a TV (97,1%),
sendo que 95,5% dos residentes no domicílio possuem este bem e a totalidade dos
inquiridos residentes em instituição. O segundo bem de conforto mais referido,
com 96,1%, é o frigorífico, sendo os idosos do lar (97,2%) que maior valor
percentual apresentam comparativamente aos idosos do domicílio (95,5%). Por
ordem decrescente, o terceiro bem de conforto mais usado pelos idosos é a
máquina de lavar roupa, com 81,6%, e neste em particular são os idosos
residentes no domicílio com 88,1%.
Da necessidade regular de cuidados, pode constatar-se que a maioria dos idosos
inquiridos (61,2%), ou seja, cerca de 6 em cada 10, deu a informação de
precisarem de algum tipo de cuidados por parte de pessoas ou instituições,
sendo que a totalidade dos idosos institucionalizados referiram essa
necessidade contrastando com 40,3% dos idosos no domicílio.
No que concerne às pessoas ou instituições que prestam esses cuidados,
constata-se que dos 36 idosos inquiridos em instituição a totalidade afirma que
os cuidados eram prestados pelo próprio lar. Quanto aos idosos domiciliários,
em 55,6% a prestação de cuidados é efetuada pelo centro de dia.
Já quando questionados quanto à ocupação dos tempos livres, quase a totalidade
(94,2%) afirmou que ocupavam o tempo a ver televisão, essa preferência recai
mais nos idosos do domicilio (95,5%) que nos idosos do lar (91,7%). Segue-se a
prática religiosa como a ida à igreja para 69,9% dos idosos, sendo esta mais
evidente nos idosos do lar (77,8%) que nos idosos do domicílio (65,7%). A
terceira ocupação com 49,5% por ordem de preferência dos idosos é ouvir rádio,
recaindo sobretudo nos idosos do domicílio (73,7%).
Verifica-se que a maioria dos idosos afirma ter o hábito de praticar alguma
atividade física (70,9%), prevalecendo esse hábito entre os idosos do domicílio
(73,1%) comparativamente aos do lar (66,7%). Quanto ao tipo de atividade
praticada verificou-se que o mais habitual é o caminhar com 79,5% e a menos
habitual é a ginástica (20,5%).
A escala de Nottingham utilizada para determinar a qualidade de vida nos idosos
nas vertentes energia física, dor, reações emocionais, sono, interação social,
habilidades físicas e qualidade de vida total (QVIT), apresenta uma cotação
inversa, ou seja, os idosos com melhor qualidade de vida são os que possuem
índices médios mais baixos (Tabela_1). No que respeita às reações emocionais
são os idosos residentes em instituição que possuem melhor qualidade de vida
comparativamente aos idosos do domicílio. Para o nível de energia, dor, sono,
interação social, habilidades físicas e QVIT, são os idosos residentes no
domicílio que possuem melhor qualidade de vida, já que apresentam índices mais
baixos comparativamente aos idosos residentes em instituição.
Relação entre variáveis sócio familiares e qualidade de vida do idoso
Recordando que a melhor qualidade de vida corresponde aos menores valores de
ordenação média e no intuito de se determinar se o suporte social influenciava
a qualidade de vida do idoso, efetuou-se o teste de Kruskal-Wallis tanto para
os idosos residentes no domicílio como para os residentes em lares.
Dos resultados expressos na (Tabela_2) destaca-se que entre os idosos
residentes nos domicílios os classificados com suporte social razoável
apresentam níveis mais elevados de qualidade de vida no que respeita ao nível
de energia, dor, reações emocionais, interação social, habilidades físicas e
QVIT (qualidade de vida total), sendo que é nos classificados com baixo suporte
social que se encontram os de melhor qualidade de vida no que respeita ao sono.
As diferenças entre os três grupos não são estatisticamente significativas,
pelo que se pode afirmar que o suporte social não influencia a qualidade de
vida dos idosos residentes no domicílio.
Quanto aos idosos residentes em instituição, nota-se pela análise da mesma
tabela que os classificados com alto suporte social, apresentam níveis de
qualidade de vida superiores aos restantes grupos a nível da energia, interação
social, habilidades físicas e QVIT, enquanto nos de razoável suporte social os
índices mais elevados de qualidade de vida se situam nos fatores reações
emocionais e sono.
Dos resultados apresentados na (Tabela_3), verifica-se que entre os idosos
residentes no domicílio os que apresentam melhor qualidade de vida ao nível de
energia e dor, mas sem significância estatística, encontram-se inseridos nas
famílias severamente disfuncionais. Já para os indicadores de qualidade de vida
reações emocionais, sono, interação social, habilidades físicas e QVIT, a
melhor qualidade de vida observa-se entre os idosos com famílias altamente
funcionais. No entanto, o teste Kruskal-Wallis apenas revela diferenças
estatisticamente significativas nas reações emocionais (p=0,023) e habilidades
físicas (p=0,018), confirmando-se a relação de dependência entre as variáveis
em estudo apenas nestes dois fatores.
Quanto aos idosos residentes em instituição, as ordenações médias mais baixas,
correspondentes consequentemente a uma melhor qualidade de vida, verificam-se
nos fatores nível de energia e habilidades físicas entre os idosos com famílias
moderadamente funcionais. A melhor qualidade de vida para a dor, reações
emocionais, sono, interação social e QVIT, recai nos idosos com famílias
altamente funcionais, sem no entanto se verificar significância estatística, o
que infirma a hipótese descrita, ou seja, não há relação entre a funcionalidade
familiar e a qualidade de vida do idoso residente em instituição.
Da análise da (Tabela_4) para os idosos residentes no domicílio denota-se que a
melhor qualidade de vida, face aos menores valores de ordenação média,
verifica-se nos idosos independentes no que se refere ao nível de energia,
reações emocionais, sono, interação social, habilidades física e QVIT, com
diferenças estatisticamente significativas entre os grupos para o nível de
energia (p= 0,002), a interação social (p=0,014), as habilidades físicas (p=
0,000) e a QVIT (p=0,001). Já para a dor, os idosos com melhor qualidade de
vida são os dependentes parciais, também com diferenças estatisticamente
significativas conforme resultado do teste Kruskal-Wallis (p= 0,041). São os
idosos com dependência total que apresentam menores índices de qualidade de
vida em todos os fatores da escala.
Por sua vez, os idosos residentes em instituição com melhor qualidade de vida
em relação ao nível de energia, dor, reações emocionais, interação social,
habilidades físicas e QVIT, são também os idosos independentes, com diferenças
estatisticamente significativas para o nível de energia (p=0,027), reações
emocionais (p=0,013), habilidades físicas (p=0,002) e para a QVIT (p=0,009).
Prediz-se que as redes de apoio social exercem influência na qualidade de vida
do idoso. Foi nesse sentido que se elaborou a hipótese acima formulada e para a
comprovar realizou-se o teste de UMW. Dos resultados expressos na (Tabela_5),
constata-se que os idosos residentes no domicílio que auferem apoio de redes
sociais são os que têm melhor qualidade de vida em todos os fatores da escala
por apresentarem ordenações médias mais baixas, mas o teste de UMW apenas
apresenta significância estatística na qualidade das reações emocionais (p=
0,000), qualidade do sono (p=0,044), qualidade da interação social (p=0,000) e
na QVIT (p=0,002).
Entre os residentes em instituição, a melhor qualidade de vida observa-se no
nível de energia, nas reações emocionais, no sono, na interação social e na
QVIT, também se observa entre os idosos com apoio das redes sociais. Por sua
vez, para a dor e habilidades físicas a melhor qualidade recai entre os idosos
sem apoio, apesar de não se verificarem diferenças estatisticamente
significativas.
Em suma, confirma-se a influência das redes sociais de apoio na qualidade de
vida do idoso residente em instituição no que se refere à qualidade das reações
emocionais, qualidade do sono, qualidade das interações sociais e à QVIT, mas
não se confirma para nenhum dos fatores da qualidade de vida entre os idosos
residentes no domicílio.
A existência de risco social pode conferir uma menor qualidade de vida tanto a
idosos institucionalizados como não institucionalizados. No sentido de o
comprovar, efetuou-se um teste de UMW cujos resultados se apresentam na (Tabela
6).
Da sua análise constata-se que os idosos residentes no domicílio sem risco
social são os que apresentam ordenações médias mais baixas em todos os fatores
da qualidade de vida, mas somente com significância na qualidade das reações
emocionais (p=0,045) e QVIT (p=0,028).
Quanto aos idosos institucionalizados observa-se o oposto, isto é, os idosos
com melhor qualidade de vida em todos os fatores da escala são os que
apresentam risco social, exceto na qualidade da dor, onde as ordenações médias
mais baixas se situam nos idosos sem risco social, não se verificando contudo
significância estatística. Deste modo, comprova-se que nos idosos residentes em
instituição existe só relação entre a valoração sócio familiar e a qualidade
das reações emocionais e QVIT, enquanto para os residentes em instituição se
infirma a relação para todos os fatores da qualidade de vida.
Face aos resultados obtidos, a Hipótese H1 inicialmente formulada, confirma-se
parcialmente para algumas variáveis, como tivemos a oportunidade de constatar
pela análise destas tabelas.
Discussão
A qualidade de vida dos idosos pode variar significativamente de idoso para
idoso, mesmo em idosos que se encontrem por exemplo dentro da mesma instituição
(Lar), dado que esta perceção é individual e tem a subjetividade como uma das
suas características.
Atendendo às variáveis sócio familiares e ao suporte social, destaca-se que
entre os idosos residentes nos domicílios os classificados com suporte social
razoável apresentam níveis mais elevados de qualidade de vida no que respeita
ao nível de energia, dor, reações emocionais, interação social, habilidades
físicas e QVIT (qualidade de vida total). Quanto aos idosos residentes em
instituição, verificou-se que os classificados com alto suporte social
apresentam níveis de qualidade de vida superiores aos restantes grupos a nível
da energia, interação social, habilidades físicas e QVIT.
Sendo certo que vários estudos apontam para uma inter-relação entre
funcionalidade familiar e qualidade de vida do idoso, verificámos que é entre
os idosos residentes no domicílio que se verifica uma melhor qualidade de vida
ao nível da energia e dor, que por sua vez se encontram inseridos nas famílias
severamente disfuncionais. Já para os indicadores de qualidade de vida reações
emocionais, sono, interação social, habilidades físicas e QVIT a melhor
qualidade de vida, observa-se entre os idosos com famílias altamente
funcionais.
Quanto aos idosos residentes em instituição a melhor qualidade de vida recaí na
dor, reações emocionais, sono, interação social e QVIT que corresponde aos
idosos com famílias altamente funcionais não havendo relação entre a
funcionalidade familiar e a qualidade de vida do idoso residente em
instituição. De salientar que Quaresma (2000) apela, ainda, para a necessidade
de medidas urgentes relativas à compatibilização entre a vida familiar e a vida
profissional, garantindo os direitos às pessoas idosas que necessitam de
cuidados, e aprofundar os direitos de família face a essa opção, centrando-se
na pessoa em situação de necessidade, com direitos aos cuidados de qualidade e
à autodeterminação face aos mesmos.
Nas atividades instrumentais de vida diária, as estatísticas foram
significativas e revelam que os idosos do domicílio são mais independentes nas
suas AIVD do que os idosos em instituição.
No estudo referente aos idosos não institucionalizados, pode-se constatar que a
melhor qualidade de vida refere-se aos idosos independentes e são relativos à
utilização do telefone e à medicação. No estudo referente aos idosos
institucionalizados, a melhor qualidade de vida refere-se aos idosos
independentes e são relativos à medicação e à utilização do telefone.
Estes resultados estão de certo modo de acordo com Fillenbaum (1986), que
refere que a capacidade funcional corresponde ao indivíduo poder cuidar de si
próprio, desempenhando tarefas de cuidados pessoais e de adaptação ao meio em
que vive.
Deve ser avaliada segundo o que o indivíduo faz no seu quotidiano e com os
meios de que dispõe e ser relacionada com fatores físicos e/ou mentais e com
fatores extrínsecos, de natureza social, económica ou ambiental, que interfiram
na função. A avaliação do estado funcional das pessoas idosas é importante para
se poder compreender a capacidade de auto-cuidado dos indivíduos, não só no que
diz respeito às atividades de vida diária, como em relação a outras atividades
mais complexas, como sejam as atividades instrumentais de vida diária, cuja
execução é fundamental para a manutenção de uma autonomia de vida (Gallo,
Fulmer e Reichel, 2000).
Consequentemente, a maioria dos idosos do lar são mais dependentes nas suas
AIVD do que os idosos no domicílio, que se apresentam regra geral mais
autónomos nas suas AIVD.
Relativamente às redes de apoio social, constatamos no nosso estudo que os
idosos residentes em instituição que auferem apoio de redes sociais são os que
têm melhor qualidade de vida em todos os fatores da escala por apresentarem
ordenações médias mais baixas. Entre os residentes em instituição, a melhor
qualidade de vida observa-se no nível de energia, nas reações emocionais, no
sono, na interação social e na QVIT, o que também se observa entre os idosos
com apoio das redes sociais. Por sua vez, para a dor e habilidades físicas a
melhor qualidade recai entre os idosos sem apoio. Em suma, confirma-se a
influência das redes sociais de apoio na qualidade de vida do idoso residente
em instituição no que se refere à qualidade das reações emocionais, qualidade
do sono, qualidade das interações sociais e QVIT, mas não se confirma para
nenhum dos fatores da qualidade de vida entre os idosos não
institucionalizados. Indo de encontro a estes resultados e segundo Guimarães
(1999), no Mundo Ocidental, com a chegada da industrialização, assiste-se ao
desaparecimento dos modelos de família baseados na economia da terra. O
trabalho especializado leva a uma estratificação e segregação etárias: os que
aprendem, os que produzem e aqueles que saíram do ciclo produtivo, onde se
incluem os idosos. A pessoa idosa perde desta forma o seu papel de transmissor
transgeracional do saber, face a uma economia de mercado onde só o lucro
interessa.
Verificou-se que os idosos não institucionalizados possuem maior risco social
comparativamente aos idosos residentes em instituição, sendo as diferenças
altamente significativas, contudo, observou-se que a maioria dos idosos não
apresenta risco social
Pela análise dos resultados, verifica-se que a maioria da totalidade dos idosos
apresenta-se sem risco social, sendo este percentual mais evidente no domicílio
comparativamente ao lar. Por sua vez, a percentagem de idosos com risco social
é maior entre os que residem na instituição comparativamente aos do domicílio.
Estes resultados estão de acordo com os obtidos anteriormente e também com
Guimarães (1999), que refere que a sociedade moderna marginalizou os velhos
dando prioridade a valores ligados à produtividade, rentabilidade, consumo
excessivo, etc., face aos quais, as pessoas com 65 e mais anos não estão em
condições de competir, pois até são considerados pouco produtivos.
Conclusão
Esta investigação incidiu sobre os idosos residentes na Cova da Beira, cujo
principal propósito ou objetivo consistiu em determinar a qualidade de vida dos
idosos institucionalizados e não institucionalizados relativamente às variáveis
sócio familiares, que pensamos ter atingido com sucesso. Verificou-se que
praticamente todas as variáveis sócio familiares influenciam a qualidade de
vida do idoso. Da análise entre a qualidade de vida e o suporte social total,
verifica-se que os idosos no domicílio com melhor qualidade de vida para os
itens nível de energia e dor encontram-se inseridos nas famílias severamente
disfuncionais. Já para os itens reações emocionais, sono, interação social,
habilidades físicas e QVIT, a melhor qualidade de vida verifica-se nos idosos
com famílias altamente funcionais.
Para os idosos não institucionalizados, da relação das atividades instrumentais
de vida diária (AIVD) e a qualidade de vida do idoso, verificou-se, no nível de
energia, reações emocionais, sono, interação social, habilidades física e QVIT,
que a melhor qualidade de vida corresponde aos idosos independentes. Todavia,
para a dor, os idosos com melhor qualidade de vida são os dependentes parciais.
Por sua vez, para os idosos institucionalizados, os que apresentam melhor
qualidade de vida para o nível de energia, dor, reações emocionais, interação
social, habilidades físicas e QVIT, são os independentes.
Quanto à relação da qualidade de vida com a existência de apoio, pode-se
constatar que no domicílio, para todos os domínios, a melhor qualidade de vida
recai nos idosos com apoio. Para o lar, a melhor qualidade de vida para o nível
de energia, reações emocionais, sono, interação social e QVIT, situa-se entre
os idosos com apoio. Por sua vez, para a dor e habilidades físicas a melhor
qualidade de vida verifica-se entre os idosos sem apoio.
Relativamente à relação entre qualidade de vida e a existência de risco social,
constata-se que a melhor qualidade de vida para o domicílio surge entre os
idosos sem risco social para todos os itens de qualidade de vida. Para o lar,
verifica-se que os idosos com risco social têm melhor qualidade de vida em
todos os itens, excetuando a dor, onde as ordenações médias mais baixas se
situam nos idosos sem risco social.
Face aos resultados obtidos, conclui-se, assim, que a qualidade de vida do
idoso, institucionalizado ou não, está dependente de várias determinantes que
estão associadas, entre outros, a fatores do meio familiar, social,
psicológico, económico e pessoal. Espera-se com esta investigação uma reflexão
acerca da importância das variáveis sócio familiares para a manutenção da
qualidade de vida do idoso institucionalizado e não institucionalizado, bem
como se recomenda às instituições que acolhem os idosos, que mantenham
programas vitais que contribuam para uma melhor qualidade de vida dos mesmos.