A supervisão de estágios em enfermagem: entre a escola e o hospital
Introdução
A reflexão sobre a problemática da supervisão de estágios, em Portugal, não
constitui uma questão nova no âmbito da Enfermagem. No entanto, a temática como
campo investigatigação, de interesse organizacional, aparece-nos com um novo
foco de interesse e plenamente atual. Aliás, nos últimos tempos, as
organizações de saúde têm procurado implementar medidas de supervisão,
incitadas pelos critérios de qualidade e também por outros organismos. A Ordem
dos Enfermeiros, por exemplo, tem considerado prioritária a implementação de um
modelo assente no reconhecimento e certificação de competências, de suporte à
atribuição de títulos profissionais, onde explicitam propostas relativas ao
processo de tutoria e ao processo de supervisão clínica (Lei nº 111/2009 de 16
de setembro; Regulamento nº167/2011 de 8 de março).
A investigação debruça-se sobre as orientações e as práticas de supervisão de
estágios em Enfermagem como analisadores dos fenómenos de Articulação
interorganizacional Escola de Enfermagem e Hospital (Macedo, 2012), originando
que o seu percurso fosse de entrelace entre algumas mudanças na supervisão de
estágios, com algumas mudanças sociais e políticas. O presente trabalho teve a
pretensão de perceber como se intersetam as duas organizações num contexto de
supervisão de estágio, cujo resultado nos diz mais acerca de cada uma das
organizações.
De forma sucinta, apresentamos alguns dos objetivos primordiais que nos
propusemos perseguir neste trabalho, estando contudo abertos a outros,
emergentes dos contextos onde a investigação iria ocorrer: i) caracterizar a
articulação entre a organização Escola de Enfermagem e a Organização Hospital;
ii) compreender as lógicas de supervisão de estágios de Enfermagem, implícitas
e explícitas entre as duas organizações; iii) contribuir para esclarecer alguns
aspetos relativos ao contexto de trabalho hospitalar como local de formação e
educação dos alunos estagiários de Enfermagem.
Ao longo de um percurso de investigação considerável, pudemos compreender o
valor deste ensino na educação e formação dos alunos estagiários de Enfermagem
dentro de um contexto real de trabalho e, por outro lado, paradoxalmente, os
constrangimentos que essa educação e formação implicam para o desenvolvimento
de uma Enfermagem inovadora e emancipadora. O estágio assume assim um papel de
mediador ou revelador das relações interorganizacionais, das contradições, dos
conflitos, das relações de poder, das mudanças dos contextos de trabalho, das
questões políticas, das perspetivas de gestão e dos contornos específicos
desses espaços organizacionais onde se dão a educação e a formação dos alunos
estagiários de Enfermagem. Tendo em conta esta moldura, apresentamos o presente
trabalho de investigação, levando em consideração, entre outros fatores, as
políticas educativas do ensino da Enfermagem e supervisão de estágios, e a
nossa própria experiência profissional neste domínio.
Enquadramento/Fundamentação Teórica
O desenvolvimento do quadro conceptual não resultou exclusivamente de um
processo de dedução teórica mas sim de um diálogo permanente entre a
conceptualização teórica e os dados da investigação empírica, o que permitiu
identificar pontos a reavaliar ou a abandonar no terreno. O valor heurístico
deste percurso propiciou a (re)construção de um modelo teórico de análise à
Articulação interorganizacional Escola de Enfermagem e Hospital, onde se
elegeram duas vertentes para a sua compreensão. A primeira vertente expôs uma
proposta de modelo teórico para a compreensão da supervisão de estágios em
contexto de trabalho hospitalar, cruzando-se com uma pluralidade de dimensões,
ora organizacionais (Ellström, 1983), ora de supervisão (Alarcão e Tavares,
2003), permitindo uma leitura transversal dos dados que contextualizaram toda a
problemática. Esta leitura, fundamental num primeiro momento da investigação,
capaz de conferir sentido aos processos e às práticas observadas, não era no
entanto, suficientemente abrangente face ao nosso objeto de estudo. Assim,
mesmo sabendo que os modelos teóricos nem sempre cobrem suficientemente as
características do real, isto é, por muito abrangente que seja o quadro
conceptual construído, há sempre áreas que permanecem invisíveis ao olhar a
partir dele. Procurámos então uma estratégia epistemológica capaz de aumentar o
foco de análise do real, ampliando-nos à compreensão das evidências, dando-nos
conta de outros pormenores e outras especificidades relacionadas com o objeto
de estudo. Foi o que aconteceu num segundo momento desta investigação, e esta é
a segunda vertente do estudo. Com base na proposta de Tyler (1991) construímos
um arquétipo de Configurações da articulação Escola de Enfermagem e Hospital em
contexto de supervisão de estágio no plano das orientações para a ação
organizacional (Lima,1998; Lima 2003)/sistema de pensamento e ideias (Brunsson,
2006). A partir da tipologia construída foi-nos possível realizar uma outra
leitura dos discursos das práticas de supervisão e da articulação
interorganizacional Escola e Hospital, em contexto de estágio.
No plano das orientações para a ação organizacional/sistema de pensamento e
ideias
No primeiro plano analítico das orientações para a ação e de sistema de
pensamento e ideias integrámos elementos contextuais que, ao serem confrontados
com os cenários passíveis de serem observados no domínio da empírico nos
permitiram esboçar a seguinte tipologia de Configurações de Articulação Escola
de Enfermagem e Hospital em contexto de supervisão de Estágio e com a
possibilidade de ser associada à tipologia organizacional de Ellström (1983):
Articulação eficiente ' imposta; Articulação de Interdependência e Colaboração
' integrativa/adaptativa; Articulação Conflitual ' Estratégica; Articulação
Débil - Simbólica. A Articulação eficiente ' imposta trata-se de uma
configuração que conduz a uma conceção de articulação interorganizacional
entendida como uma tecnologia racional para a tomada de decisões. A articulação
vincula-se a partir do momento que são definidas as estruturas adequadas para
assumirem as funções administrativas e poderem tomar as decisões, com base em
objetivos definidos a priori. As organizações que se articulam orientam-se por
normativos claros e documentos que esclarecem com rigor as sequências de um
programa de ação e os modos de funcionamento e de comportamento dos atores, bem
como os resultados esperados. No que diz respeito à Articulação de
Interdependência e Colaboração ' Integrativa/Adaptativa esta afasta-se da
configuração anteriormente descrita, já que a dimensão formal, racional e
estrutural desta, presente na planificação de um programa, é agora substituída
por um contexto informal dirigido à valorização individual e grupal dos membros
de cada uma das organizações. A relação interorganizacional forte é um dos
grandes objetivos, por isso investe-se em programas, processos de integração e
adaptação, de interdependência e de colaboração, garantindo desta forma a
confiança e a satisfação dos vários elementos. O que se designa por cultura
organizacional agrupa um conjunto de condições que tornam a articulação
fortemente socializadora e produtora de identidades profissionais. Outro tipo
de articulação - Articulação Conflitual ' Estratégica -, caracteriza-se pela
existência da luta de interesses que os vários grupos desencadeiam entre si, em
ordem à obtenção dos seus objetivos setoriais, socorrendo-se, para isso, de
diversidades estratégicas de influência e de mecanismos de afirmação do seu
poder em função de processos negociais, donde surgem vitoriosos os grupos ou as
coligações dominantes. A atividade política é uma dimensão essencial na
articulação entre as organizações, como tal o conflito não é representado
necessariamente como um problema, uma vez que, mais importante que a regulação
dos conflitos são as estratégias e as táticas do confronto. Por último, a
Articulação Débil ' Simbólica é caracterizada por frouxa ou loosely coupled
(Weick, 1976). As estruturas e os órgãos de cada uma das organizações não têm
uma união forte, uma coordenação eficiente e racional. O investimento
participativo dos gestores dessas estruturas é débil, eles podem criar momentos
formais sem grande intenção de que os seus efeitos interfiram na ação real. Os
acontecimentos interorganizacionais surgem relativamente desconectados, embora
muitas vezes publicitados como sendo pensados em conjunto. Neste tipo de
articulação o simbolismo assume uma importante questão para manter "a
união do sistema".
Assim, as categorias enunciadas, representadas no Quadro_1, foram ajustadas aos
dois eixos conceptuais deste nosso ensaio teórico-metodológico, também
apresentados por Tyler (1991). No primeiro eixo, o Enfoque Estruturalista e/ou
a Teoria da Organização Formal. No segundo eixo, o Enfoque Interpretativo e/ou
o modelo de Ajuste Articulado de Modo Impreciso ou Sistema Debilmente
Articulado (Weick, 1976). Se, no primeiro caso, nos remete para um tipo ideal
de "organização ação", no segundo caso, para um tipo ideal de
"organização política" (Brunsson, 2006).
Foi a partir da tipologia construída que foi possível realizar a leitura dos
discursos e das práticas de supervisão em contexto de supervisão de estágio, no
plano da ação/sistema da ação. O quadro de referência delineado toca na questão
fundamental da sistematização da realidade em nossa mente: No fundo, é uma das
medidas da nossa capacidade de compreensão do que se passa na realidade, embora
seja sempre um gesto reconstrutivo da realidade (Demo, 2004, p. 26).
O primeiro "tipo ideal" de "organização ação" assume
posições teóricas com características burocrático-racionais e de sistema
social, cujo princípio de recrutamento e de trabalho constante de uma
organização para a ação é o acordo e a hierarquia.
Ainda nas palavras de Brunsson (2006), na organização para a ação são
formuladas regras concretas e firmes para os comportamentos dos seus membros.
As ideias e os valores predominantes são partilhados por todos os membros dessa
mesma organização, bem como do seu ambiente. Neste sentido, uma
"poderosa" ideologia não necessita de uma tomada de decisões, pelo
que todo o processo é irracional. Isto significa que estamos perante uma
ideologia organizacional capaz de limitar qualquer iniciativa dos
intervenientes, mas também capaz de transformar esses mesmos intervenientes em
especialistas dentro da organização. Uma outra característica é que a
organização para ação é sobretudo direcionada para soluções e não para
problemas, daí a abolição de todo o tipo de conflito, pretendendo-se antes de
mais o consenso partilhado e o culto de uma enorme confiança entre os membros
da organização: A confiança que tantas vezes anexa a esta ideologia é
excessiva em relação ao que poderá parecer mais razoável (Brunsson, 2006, p.
41).
Relativamente ao segundo "tipo ideal", a "organização
política" remete-nos para uma outra face da organização cuja base de
legitimidade é a reflexão de normas inconsistentes. As estruturas e os
processos estão, assim, orientados para o ambiente. As conceções teóricas pelas
quais os seus argumentos se baseiam não são convencionais e realçam as
dimensões ambíguas e certas dimensões políticas das organizações. Quase sempre
estão presentes ideologias para discussão, capazes de promoverem a crítica e o
conflito. Ao contrário do primeiro tipo ideal, a tomada de decisão é racional.
Por seu lado, a "hipocrisia" é um comportamento fundamental na
organização política. Em síntese, a "organização política"
apresenta uma grande abertura às exigências externas. Ela está dependente da
forma como reflete sobre essas exigências, embora seja igualmente importante
controlar o modo como essa reflexão é realizada. Neste sentido, esta perspetiva
(neo)institucional permite-nos uma interpretação crítica da articulação
interorganizacional Escola de Enfermagem e Hospital.
Assim, a confrontação com os vários tipos de análise tem como objetivo
identificar as articulações Escola e Hospital que temos posto em questão desde
as suas origens. As perguntas orientadoras delineadas para este estudo são as
seguintes: Será que a articulação entre Escola de Enfermagem e Hospital ao ser
reveladora das semelhanças/diferenças entre as duas organizações favorece a
supervisão de estágios?; Será que a articulação entre Escola de Enfermagem e
Hospital favorece a integração dos alunos estagiários de Enfermagem no contexto
de trabalho hospitalar?
Metodologia
A metodologia de suporte ao estudo da articulação entre Escola de Enfermagem e
Hospital em contexto de supervisão de estágio, enquanto objeto de investigação
empírica, aproxima-se da investigação tipo etnográfico ou, para sermos mais
sistemáticos, de um paradigma de investigação naturalista, cujo método é um
"estudo de caso" (Yin, 2005).
O exercício de articulação entre a Escola de Enfermagem e o Hospital exige uma
reflexão da nossa parte estimulada pelo estudo da supervisão de estágios,
permitindo-nos esboçar, dentro de alguns limites, algumas semelhanças e
diferenças entre as duas organizações. Uma análise a priori às duas
organizações parece apontar para uma evidência espontânea que as reaproxima em
dois domínios, o dos cuidados e o da educação.
A abordagem de interesse heurístico, que nos propomos fazer neste artigo,
evidencia articulações relativas entre dois contextos organizacionais que se
combinam num momento concreto ' o estágio. Esta opção para a vertente da
pesquisa de terreno, parte do nosso processo de familiarização com o contexto
social que pretendíamos estudar. Assim as características do estudo implicavam
a presença prolongada do investigador no terreno, face à multiplicidade de
dimensões do social que aí se observam, o confronto sistemático entre, por um
lado, a visão do mundo e da sociedade, dos atores sociais locais, obtida
através de vários tipos de depoimentos verbais e, por outro, os dados obtidos
por observação direta e participante. Para este artigo recorremos, apenas, aos
atores intervenientes no momento do estágio, de um curso de licenciatura em
Enfermagem, sendo a amostra designada de "oportunidade"
(Wragg,1987) - oito alunos estagiários, cinco enfermeiros e a supervisora
(docente da escola), privilegiando duas modalidades de entrevista ' a
entrevista semidiretiva e a entrevista diretiva.
A entrevista semidiretiva baseou-se na utilização de um guião, permitindo aos
entrevistados exprimirem-se, seguindo o curso do seu pensamento. Isto é,
situámo-nos no entremeio, ao respondermos a duas imposições que podiam parecer
opostas. Por um lado, procurávamos que o próprio entrevistado estruturasse o
seu pensamento em torno do objeto perspetivado, atitude parcialmente "não
diretiva". Por outro lado, pretendíamos que o entrevistado não fosse
naturalmente desviado para outras considerações desligadas do objeto de estudo,
facilitando assim o aprofundamento de aspetos que ele próprio não teria
explicitado (Albarello et al., 1997).
A entrevista diretiva ou estruturada, também utilizada, distinguiu-se da
anterior. Foi realizada com base num questionário, cujas questões eram
padronizadas e a respetiva ordem preestabelecida. Consoante as situações, os
inquiridos foram convidados a selecionar a resposta mais adequada; selecionar
um número determinado de respostas do leque contemplado e ordená-las por ordem
de prioridades; indicar a resposta que consideravam mais adequada; responder
com uma certa brevidade e escolher cenários com um número limitado de opções.
Para cada questão com um número amplo de alternativas de resposta inserimos a
opção "outra(s)", deixando espaço no questionário para que fossem
discriminadas. No final do questionário inserimos uma questão aberta, cujo
espaço destinado à resposta raramente foi aproveitado para elucidar o
investigador e nos casos em que se verificou uma resposta, esta apresentava-se
sucinta e eclética.
Nesta investigação a análise de documentos mostrou-se assim adequada por se
tratar de um estudo em que era pertinente analisar algumas características
organizacionais, quer da Escola de Enfermagem, quer do Hospital, como entidades
sociais em desenvolvimento num determinado contexto. Neste sentido justifica-se
este método de pesquisa, por ser necessário explicar as razões e as bases
legais e éticas que têm motivado e delineado as políticas e as práticas ao
longo de um período significativo. Conhecer e analisar o processo de mudança, a
sua aplicação, a sua aceitação ou recusa, a sua intensidade ou a sua
velocidade, interessou-nos enquanto clarificador do estatuto que reconhecemos,
no estudo, ao processo socio-histórico.
A riqueza e a pertinência da informação recolhida nos dois contextos do estudo,
na Escola, - deduzida a partir dos Planos de Estudo e Regulamentos de Curso e
da consulta de Dossiers Pedagógicos de estágios, dos livros de Atas das
reuniões, Relatórios Anuais de Avaliação, Jornais da Escola, dados sobre a
população escolar, dados relativos à gestão quotidiana da escola; documentos
políticos/estratégicos; relatórios anuais por Curso/ano -, e no Hospital, -
deduzida a partir dos Boletins Informativos do Conselho de Administração, das
Ordens de Serviço, dos Relatórios de Atividade, dos Planos de "Formação
em Serviço" e dos Planos de Formação do Departamento de Formação e
Investigação, dos Documentos no âmbito do Processo de Acreditação (pelo King's
Fund Healt Quality Service), das Normas de Atuação Profissional e Critérios de
Avaliação do Desempenho, do Manual de Conteúdo Funcional das Carreiras
Profissionais e do Manual Internacional Normas 1-55 -, convenceram-nos da sua
possibilidade quando complementada com os "informantes
privilegiados" que fizeram parte dos dois contextos em épocas distintas.
A leitura dos dados desta última fase da investigação foi realizada a partir de
duas grelhas de análise que emergiram do quadro teórico-conceptual do estudo,
arquitetadas para os dados serem lidos em dois momentos singulares. Um momento,
para a leitura transversal dos dados que contextualizaram toda a problemática
da supervisão de estágios, compreendendo assim, os fenómenos de articulação
interorganizacional entre uma Escola de Enfermagem e um Hospital, a partir dos
modelos de supervisão de estágios em Enfermagem e, um outro momento, para a
leitura dos discursos e das práticas de supervisão em contexto de estágio, a
partir de um arquétipo de Configurações da articulação Escola de Enfermagem e
Hospital construídas. As grelhas de análise tornaram, assim, mais fácil o
processo de tratamento da informação recolhida, e mesmo a aplicação da técnica
de análise de conteúdo.
No que respeita concretamente à questão da validade interna, ela foi
solucionada de certo modo através de diferentes estratégias, mobilizadas
durante as diversas fases de investigação, recorrendo, nomeadamente, à
triangulações ao nível das fontes múltiplas dos dados e dos métodos, à
participação de diferentes atores na interpretação dos dados e à revelação dos
pressupostos do investigador. Tratou-se de um processo claramente evolutivo,
aberto, exploratório, pois pôde-se enriquecer progressivamente em função dos
progressos da compreensão das particularidades do campo.
Convirá explicitar ainda neste ponto que, a identificação da unidade de
cuidados, assim como a dos atores intervenientes no estudo, não foi revelada,
por nossa opção, porque considerámos que os atores estariam mais dispostos a
revelarem os seus pensamentos e menos constrangidos a descreverem os episódios
que eventualmente dariam uma imagem desfavorável de si. Queremos com isto dizer
que respeitámos as normas no âmbito da ética relativa à investigação com
sujeitos humanos ' (...) o consentimento informado e a proteção dos sujeitos
contra qualquer espécie de danos (Bogdan e Biklen, 1994, p. 75).
Resultados
Iniciamos então a nossa análise dos discursos dos alunos estagiários.
Relativamente à articulação desejável para a supervisão do estágio balanceiam
entre Configurações de Articulação eficiente ' imposta; Articulação de
Interdependência e Colaboração ' integrativa/adaptativa. Vejamos alguns
depoimentos, nos quais é possível identificar as expectativas destes atores em
relação às áreas em que a intervenção dos responsáveis pelos estágios poderia
ser incrementada. Relativamente à primeira, Articulação eficiente ' imposta, as
falas dos alunos estagiários enfatizam uma conceção de articulação
interorganizacional entendida como uma tecnologia racional para a tomada de
decisões, concretizada num acompanhamento sistematizado, coerente com os
objetivos, antecipadamente identificados e centrada nos resultados de
aprendizagens:
Para mim o acompanhamento dos estagiários desde o início do estágio e uma
preocupação maior com os resultados de aprendizagem é o mais importante. Porque
penso que acima de tudo o ensino clínico deve ser considerado como uma
oportunidade de aprendizagem e considero fundamental o acompanhamento
permanente dos estagiários (Est.1).
Já o entrevistado seguinte remete-nos essencialmente para uma conceção de
Articulação de Interdependência e Colaboração ' integrativa/adaptativa.
Conseguir uma articulação em "sintonia" e incentivar a
"parceria" são alguns objetivos, por isso estes atores reforçam a
ideia de uniformização das políticas de supervisão para as duas organizações. A
supervisão desejável deveria investir em atividades ou programas em que os
alunos estagiários pudessem participar para se sentirem mais próximos da
organização hospitalar e das suas práticas:
Considero que a relação Escola e Hospital podia ser mais estreita e não se
cingir apenas ao momento de estágio, pelo menos no que diz respeito aos alunos.
Poderiam ser desenvolvidas ao longo do ano atividades em parceria com o
Hospital em que os alunos pudessem participar para se sentirem mais próximos da
Instituição (Est.3).
As incongruências de articulação refletem-se nas estratégias de supervisão e
são relatadas pelo grupo de alunos no Estágio no serviço de Medicina. São
alguns exemplos: sensibilidades diferentes aos processos de integração e formas
de acompanhamento, divergências nas formas de orientação, tempo de permanência
na orientação.
A Articulação débil ' simbólica entre a Escola e o Hospital aparece-nos
caracterizada de diferentes modos pelos atores intervenientes no contexto da
supervisão de estágios. No entanto, há algumas ideias que tendem a prevalecer
em todos os depoimentos. Os acontecimentos interorganizacionais surgem
relativamente desconectados, embora muitas vezes publicitados como sendo
pensados em conjunto. O investimento participativo dos gestores dessas
estruturas é débil e eles podem criar momentos formais sem grande intenção de
que os seus efeitos interfiram na ação real. A articulação é ainda marcada por
um certo grau de ambiguidade, o que contribui para o desenvolvimento de
perceções e lógicas divergentes e para as desconexões entre ideias e ações,
intenções e concretizações. Alguns dos relatos de enfermeiros e da supervisora
permitiram-nos identificar Configurações de Articulação Escola de Enfermagem e
Hospital, que na nossa opinião não passam de cambiantes da Articulação débil.
Passemos à exposição desses relatos derivantes de uma Configuração de
Articulação débil ' simbólica e à sua caracterização.
A Articulação "assim está bem" trata-se de uma articulação cómoda,
sem qualquer responsabilidade por parte da organização que recebe os alunos
estagiários, neste caso o Hospital. Os atores da organização hospitalar estão
pouco implicados ou nada envolvidos em todo o processo de supervisão de
estágio:
Considero que assim está bem, há uma integração gradual da prática de
cuidados. Penso que se a Escola não estivesse presente a comunicação entre
instituições Escola - Hospital estaria mais dificultada, penso que assim como
está, está bem. (...) A minha participação na preparação dos ensinos clínicos
não a considero necessária, porque é função da entidade de ensino (Enf.1).
A Articulação "unidirecional" é uma articulação dos responsáveis
pela gestão das organizações. Caracteriza-se por possuir um protocolo de
articulação unidirecional, não sujeita a um sistema participativo dos vários
intervenientes do estágio. Esta perspetiva exclusiva dos órgãos de gestão, quer
da Escola, quer do Hospital, concretiza-se em momentos cruciais, o da
formalização dos pedidos de estágios e o da reunião de preparação e avaliação
dos estágios:
O Protocolo de colaboração entre a Escola e os serviços é unidirecional, em
que se faz essencialmente através da formalização dos pedidos dos campos de
estágio. A preparação dos estágios realiza-se entre professores e enfermeiros
chefes, sendo que os estudantes são socializados de uma forma passiva (Enf.2).
A Articulação "passa ao lado" é traduzida por um desconhecimento
total, por parte dos atores, acerca do protocolo de articulação Escola e
Hospital. Acerca da supervisão de estágios apenas existem comentários vagos,
pouco precisos, sem objetivos e estratégias suficientemente definidas e
operacionalizáveis, capazes de vincular as práticas:
Como profissionais a Articulação Escola e Hospital passa-nos um pouco ao lado.
Sei que os pedidos de estágio são dirigidos ao topo, ao nível da gestão. O
Enfermeiro Chefe pronuncia-se, mas nós não sabemos de mais nada (Enf.3).
A Articulação "Utilitarista" implica que uma organização se sirva
da outra e o estágio adquire o estatuto de articulador utilitário entre as duas
organizações ' Escola de Enfermagem e Hospital. Há uma colaboração mínima
interorganizacional, pouco compensatória a nível pessoal e profissional dos
atores intervenientes do estágio, que se limitam a seguir e a utilizar os
instrumentos de avaliação que a Escola recomenda:
Considero que este Hospital tem um contacto mais próximo com a Escola,
precisamente na área dos ensinos clínicos que tem um caráter essencialmente
utilitário (Enf.4).
O relato da supervisora permite-nos identificar uma outra Configuração de
Articulação entre a Escola de Enfermagem e o Hospital ' a Articulação
"Tentativa". Em certos momentos há um certo voluntarismo por parte
de alguns atores em colaborarem, na tentativa de ambas as partes ' Escola de
Enfermagem e Hospital -, se articularem. Essa coordenação de esforços diz
apenas respeito à dimensão pedagógica da supervisão de estágios:
Há uma tentativa de ambas as partes em se articularem, quando há uma
coordenação de esforços em refletir sobre a teoria e a prática. O projeto entre
Escola e Hospital deverá ser facilitador das aprendizagens dos alunos (Sup.).
Discussão
A triangulação de dados sobre os discursos e as práticas de supervisão de
estágios, ao longo de um período considerável, muito próxima dos atores,
permitiu-nos obter uma imagem da realidade social, política e cultural da
articulação interorganizacional Escola de Enfermagem e Hospital. Como
considerações mais significativas deste processo de investigação empírica,
destacamos as seguintes: i) A supervisão de estágio constituiu-se no elemento
articulador entre as duas organizações, capaz de desvendar pistas
interpretativas acerca de um referencial de ordem de valores, apresentados
pelos alunos estagiários através das suas perceções, interpretações e
identificações em relação à supervisão no contexto de trabalho hospitalar e à
profissão, e ainda, em relação ao protocolo de articulação Escola de Enfermagem
e Hospital; ii) As quatro Configurações da Articulação propostas para a
caracterização da Articulação entre a Escola de Enfermagem e o Hospital podem
em determinados momentos estar representadas, diferentemente por diversos
atores intervenientes no Estágio de Medicina, mas há evidências de que neste
contexto de supervisão a Configuração da Articulação Conflitual/Estratégica
surge, globalmente, marginal face às questões organizacionais por nós
analisadas; iii) A análise da informação recolhida a partir dos atores
concretiza, em nosso entender, uma Configuração de Articulação Débil/Simbólica
entre a Escola de Enfermagem e o Hospital; iv) As falas dos atores são
reveladoras de algumas incongruências entre uma e outra organização e dentro da
mesma organização: práticas de cuidados distintos, orientações conflituantes,
condicionantes de vária ordem (espaço, tempo, ignorância); irregularidades
(falhas de comunicação). Estas desconexões podem ser geradoras de
infidelidades normativas, ou constituírem-se em si de infidelidades
normativas (Lima, 1998); v) A opinião de uma maioria de profissionais de
Enfermagem considera que o Protocolo de Articulação deveria incluir outros
atores e um trabalho conjunto - a "formação de tutores e auxiliares de
ensino", a "criação de novos cursos na Escola com a vertente
específica supervisão de estágios", o "incentivo a atividades em
parceria", a "organização de ações de formação em conjunto",
a "definição em conjunto de políticas de supervisão"; vi) Os
discursos, contraditórios à lógica da participação e da intervenção dos atores,
ofereceram-nos indicadores próximos do pragmatismo e do cumprimento dos
requisitos de eficácia que caracterizam estas perspetivas. Alguns dos relatos
permitiram-nos identificar outras Configurações de Articulação Escola de
Enfermagem e Hospital, que na nossa opinião não passam de derivantes da
Articulação débil; vii) Na interpretação dos contextos organizacionais, a visão
comum que suporíamos encontrar era a de que o pensamento e as ideias
controlassem as ações. Mas nem sempre foi isto que aconteceu, ou seja, tendo em
conta a nossa interpretação das ações implementadas pelas duas organizações
verificámos que algumas ações controlavam as ideias. As falas, nestes casos,
tomavam o formato de explicações que tinham "como finalidade última a
legitimação"; viii) Noutras situações, os discursos apareciam adaptados a
algumas normas, enquanto as ações adaptadas a outras. No nosso entender, este
quadro permite que a hipocrisia organizacional se manifeste como dimensão
necessária e benéfica na perspetiva do desenvolvimento das organizações; ix) O
Protocolo de Articulação entre a Escola de Enfermagem e o Hospital apresenta-
se-nos, assim, como um artefacto que contribui para engrandecer o conjunto dos
elementos de formalização estrutural destas duas organizações, cumprindo uma
dupla função: por um lado, dar resposta às exigências e expectativas sociais,
políticas, administrativas e legais e, por outro lado, legitimar, quer a razão
de ser deste cumprimento legal, quer a imagem de competência e de qualidade das
duas organizações.
Conclusão
Neste trabalho, concluímos que o estágio foi revelador de articulações e de
desarticulações, capaz de nos traçar um mapa de configurações a partir de
vários intervenientes: alunos estagiários, enfermeiros, supervisora e
investigadora. A complexidade deste estudo residiu precisamente na leitura de
configurações de articulação a partir dos atores intervenientes, que julgámos
ter extravasado a argumentação teórica avançada em torno das relações
interorganizacionais Escola de Enfermagem e Hospital.
Os discursos dos atores apontam com maior evidência, para uma aproximação da
organização hospitalar a um modelo "racional-burocrático" com
dimensões de cariz gerencialista e empresarial e que, implicitamente, os
valores da eficácia, da eficiência e da produtividade se tornam mais evidentes,
relativamente à Escola de Enfermagem. Esta particularidade é às vezes referida
como se estivéssemos na presença de um status antropológico diferente atribuído
às duas organizações em causa. Para a Escola de Enfermagem a obrigação de
resultados tem o significado de uma luta contra o insucesso, para o Hospital
ela tem o significado de uma luta contra o desperdício. No entanto, face à
pluralidade e ao eventual antagonismo entre os pontos de vista dos atores
envolvidos e entre as orientações, e as ações praticadas, dificilmente
poderíamos considerar como modelo único a ser analisado.
O Hospital constitui-se num lugar de formação, mas é com algumas resistências
que se constroem experiências valorativas para os alunos estagiários. A
implementação de medidas administrativas que aludem a uma presença insinuada de
uma Articulação eficiente entre a Escola de Enfermagem e Hospital, concretizada
a partir de um Protocolo de Articulação entre a Escola de Enfermagem e o
Hospital, parece distorcer e tornar ambíguo o que se pretende com a anunciação
de um novo paradigma e os pressupostos teóricos que o sustentam. Se, por um
lado, os autores que estudámos, parecem desejar que os alunos estagiários
detenham competências de independência e interdependência e sejam supervisores
responsáveis e empenhados, capazes de serem autores de si próprios, por outro
lado, esse desejo difunde-se quando os atores intervenientes no estágio ficam
cingidos a uma estrutura racional burocrática, onde a administração
institucionalizada prepondera sobre a preocupação e a própria realização do
ensino.
O que nós retemos finalmente do estudo da articulação entre a Escola e o
Hospital é o papel decisivo dos atores coletivos, profissionais (professores e
enfermeiros) e agentes beneficiários (alunos e doentes) que necessitam de
cuidados, no funcionamento futuro destas grandes organizações. E para
terminarmos, resta-nos dizer que a ligação afetiva e profissional a estas duas
organizações foi simultaneamente um fator de estímulo e de responsabilização
que influenciou todo o processo da pesquisa. O modo como encarámos o problema,
a forma como captámos e demos corpo a representações e visões da articulação
interorganizacional, através da supervisão de estágios, permitiu-nos fotografar
essa realidade.