A pessoa dependente no autocuidado: implicações para a Enfermagem
Introdução
A evolução científica e as transformações sociais e políticas, ocorridas nas
últimas décadas, introduziram mudanças significativas, tanto na vida privada
como na vida pública das populações atuais. Na verdade, o aumento da esperança
média de vida e a maior prevalência de doenças crónicas têm-se traduzido no
aumento exponencial de pessoas com limitações físicas, emocionais e cognitivas
que, inevitavelmente as conduzem à dependência (Petronilho, 2007). Esta é uma
realidade em Portugal, bem como em outros países ditos desenvolvidos, sendo que
as políticas de saúde, por princípios economicistas, mas também humanistas,
apontam para que as pessoas dependentes sejam inseridas no contexto familiar.
Exemplo disso é o atual esforço de expansão e desenvolvimento da área dos
cuidados continuados, essencialmente orientada para a manutenção das pessoas
dependentes no domicílio, sempre que lhe possam ser garantidos os cuidados
terapêuticos e o apoio social necessários, conduzindo, por um lado, ao aumento
da responsabilidade da família, mas também da própria comunidade no apoio aos
dependentes.
Em Portugal, os trabalhos que apresentam a avaliação do grau de dependência no
autocuidado surgem no âmbito de processos de investigação, sendo que, na
maioria, o grau de dependência é usado apenas como variável de caracterização
dos participantes dos estudos. Entendemos, portanto, que os dados existentes no
nosso país, em relação ao fenómeno da dependência no autocuidado, são
insuficientes. Não é avaliado o grau de dependência de forma consistente, não
se avaliam todos os setores da população, não existe uma diferenciação por
regiões, aspetos que seriam essenciais para fazer um diagnóstico da situação,
fundamentando a implementação de medidas de intervenção concretas, até porque,
corroborando Caldas (2006), é exatamente o grau de dependência que determina os
cuidados que serão necessários. O conhecimento da situação da dependência
assume particular relevância para os enfermeiros, isto porque a necessidade de
cuidados de saúde não está relacionada com o diagnóstico da doença já efetuado,
nem com a necessidade da terapêutica já prescrita, mas sim com os processos de
transição vivenciados pelos indivíduos (Silva, 2007). A necessidade de cuidados
de enfermagem não se circunscreve à pessoa dependente, mas é extensível à
unidade familiar. De facto, para além da transição saúde/doença do indivíduo,
que passa de um estado de saúde para um estado de doença, da independência para
a dependência de pessoas ou equipamentos, importa também considerar a transição
situacional dos membros da família para o exercício do papel de prestador de
cuidados em contexto domiciliário e a importância de os capacitar para a
assunção desse papel. No seguimento do referido, com este trabalho, pretende-se
descrever o grau de dependência das pessoas dependentes em contexto familiar,
nomeadamente nas atividades que concretizam os diferentes domínios de
autocuidado, bem como identificar áreas de intervenção de enfermagem no apoio
às pessoas dependentes no autocuidado e às famílias que as integram. Importa
referir que a análise apresentada se integra num projeto de investigação mais
alargado - em torno das "Famílias clássicas que integram dependentes no
autocuidado" - que foi concretizado no âmbito do Mestrado em Ciências de
Enfermagem.
Fundamentação Teórica
Analisando o contexto atual, verificamos que a sociedade portuguesa, com o
aumento da esperança média de vida e a diminuição da taxa de natalidade,
caminha no sentido do envelhecimento gradual da população. A par dessas
mudanças sociodemográficas, os progressos terapêuticos e a melhoria das
condições socioeconómicas conduziram ao aparecimento de doenças crónicas e,
consequentemente, ao aumento do número de pessoas com défices na capacidade de
autocuidado (Petronilho, 2007; Araújo, 2010). A par do envelhecimento e das
doenças crónicas, também o número significativo de acidentes rodoviários e de
trabalho têm contribuído para o aumento de pessoas com sequelas incapacitantes,
que impedem a realização das atividades executadas pelo próprio (Ribeiro,
2011). Neste sentido, a pessoa dependente é aquela que durante um período de
tempo, mais ou menos prolongado, necessita de ajuda de outra pessoa ou de
equipamento, para realizar certas atividades de autocuidado (Araújo, 2010).
Partindo do pressuposto que o autocuidado é central na vida de qualquer pessoa,
e que as transições estão intimamente associadas à mudança na capacidade de
autocuidado, gerada pelos processos de desenvolvimento ou por eventos
significativos da vida que exigem adaptação, a dependência no autocuidado, de
instalação gradual ou súbita, merece particular atenção dos enfermeiros. Apesar
de atualmente apresentar contornos diferentes, a dependência no autocuidado há
muito que constitui uma grande preocupação, sendo que uma das questões
fundamentais é perceber como é que uma pessoa é considerada dependente e qual o
grau da sua dependência. Já Roper, Logan, e Tierney (2001), no Modelo de
Enfermagem, consideraram que avaliar o nível de dependência da pessoa em cada
atividade é uma competência importante do profissional de Enfermagem, uma vez
que permitirá perceber de que forma as pessoas devem ser assistidas e quais as
intervenções adequadas para alcançar os objetivos exequíveis em cada situação.
A par desse desenvolvimento do juízo profissional em relação às capacidades das
pessoas, uma intervenção importante da Enfermagem é procurar que,
independentemente da idade, as pessoas não percam a independência nas
atividades de vida, ajudando-as, simultaneamente, em direção a essa
independência e, noutros momentos, ajudando-as a aceitar a sua dependência.
Mais recentemente, a evolução do exercício profissional dos enfermeiros de uma
lógica inicial essencialmente executiva para uma lógica progressivamente mais
concetual, com ênfase nas respostas humanas envolvidas nas transições (Silva,
2007, p. 14), relembra a necessidade dos enfermeiros nortearem as suas práticas
pelas necessidades efetivas dos clientes. No caso específico das necessidades
de autocuidado, as exigências do contexto atual determinam que a avaliação da
dependência se faça em relação às atividades que concretizam cada domínio de
autocuidado. Isto porque, de acordo com Duque (2009), o conhecimento da
dependência das pessoas em cada domínio de autocuidado, mais especificamente em
cada atividade que o concretiza, permite não só planear cuidados
individualizados, mas também definir e implementar intervenções realistas e
adequadas às necessidades.
Questões de Investigação
Tendo em conta os objetivos definidos, delineámos as seguintes questões de
investigação: Qual a dependência das pessoas dependentes nas atividades que
concretizam os diferentes domínios de autocuidado? Quais as áreas de
intervenção de enfermagem no apoio às pessoas dependentes no autocuidado e às
famílias que as integram?
Metodologia
De acordo com as questões de investigação formuladas, foi desenvolvido um
desenho de investigação quantitativo, exploratório, de natureza descritiva e de
caráter transversal. O contexto do estudo foi o concelho de Paços de Ferreira,
subdividido em 16 freguesias, e a população alvo foi constituída pelas famílias
clássicas que integravam pessoas dependentes. Perante a impossibilidade de
estudar a totalidade da população, foi constituída uma amostra representativa
da população em estudo. Para determinar a dimensão da amostra, utilizámos a
fórmula de Lwanga e Lemeshow (1991), publicada pela Organização Mundial de
Saúde, em que n = Z2 p (1-p)/d. A técnica de amostragem usada foi
probabilística, aleatória, estratificada e proporcional. Uma vez que, na
investigação, pretendíamos estudar uma grande população - as famílias clássicas
residentes no concelho de Paços de Ferreira, que se encontrava dividida em
grupos com uma característica específica - local de residência, os estratos
utilizados foram as freguesias do concelho. A proporcionalidade foi, de acordo,
com a representação das famílias de cada freguesia, em relação ao valor na
população total do concelho de Paços de Ferreira, ou seja, o número de famílias
selecionadas em cada freguesia foi proporcional ao peso que o número de
famílias residentes na freguesia exercia no número total de famílias do
concelho. Para conhecer a distribuição geográfica das famílias em cada
freguesia, recorremos à Base Geográfica de Referenciação de Informação. Por sua
vez, usámos o Sistema de Informação Geográfico, o Quantum GIS, para a seleção
geográfica aleatória estratificada de subsecções territoriais, onde se
encontravam as famílias clássicas a amostrar, de acordo com a dimensão
pretendida em cada freguesia. Os outputs com as referidas subsecções
geográficas, bem como com o número de famílias clássicas a amostrar, depois de
importados para o Bing Maps, facilitaram a recolha de dados no terreno. O
contacto com as famílias foi efetuado através de uma recolha de dados
"porta a porta" até à obtenção do número anteriormente definido
para a determinação de uma amostra representativa e proporcional. Como
instrumentos de colheita de dados, foram usados os formulários "Famílias
que integram Dependentes no Autocuidado" (Duque, 2009), constituídos por
duas partes: parte I ' Inquérito Preliminar ' e parte II ' Formulário PCD
(Prestador de Cuidados do Dependente). A validade do constructo deste
formulário assenta nos conceitos da Nursing Outcome Classification (reconhecida
pela American Nursing Association), assim como nos da Classificação
Internacional para a Prática de Enfermagem (desenvolvida pelo International
Council of Nurses). A colheita de dados efetuou-se em casa das famílias, entre
os meses de outubro e dezembro de 2010, de acordo com o seguinte procedimento:
realização do inquérito preliminar, pedido de colaboração voluntária na
investigação, informação sobre os objetivos da investigação e sobre a
confidencialidade das respostas e, por fim, a aplicação dos instrumentos. Neste
pressuposto, a presente investigação cumpriu todos os princípios éticos e
legais, nomeadamente foi dado conhecimento à comissão nacional de proteção de
dados. Para o tratamento estatístico dos dados, recorreu-se ao Statistical
Package for Social Sciences (SPSS) versão 19.0.
Resultados
Das 2115 famílias clássicas que aceitaram responder ao inquérito preliminar,
248 integravam pessoas dependentes. Das 248 famílias referidas, 7 recusaram
participar na investigação. Por esse motivo, a amostra do estudo foi
constituída por 241 famílias que integravam pessoas dependentes no autocuidado.
No que se refere à pessoa dependente no autocuidado, constatámos uma maior
prevalência do género feminino (53,1%) com uma média de idade de 67,57 anos. Em
termos etários, verificámos que a maior percentagem de dependentes tinha uma
idade igual ou superior a 80 anos (39,8%), o que nos remete para a associação
entre o envelhecimento e o aumento da dependência. De referir, no entanto, que
6,2% dos dependentes tinham menos de 18 anos, o que corrobora o pressuposto de
que a dependência pode existir em qualquer faixa etária. Em concordância com a
idade, verificou-se que maioritariamente os dependentes eram casados/união de
facto (41,7%) ou viúvos (37,1%), com 81,5% em situação de pensão/reforma. No
que se reporta à escolaridade, constatou-se um nível de iliteracia
significativo, em que 44,6% dos dependentes não possuía qualquer nível de
escolaridade e 41,3% apresentavam o 1º ciclo do ensino básico. Ao analisarmos a
situação que originou a dependência, de entre os resultados obtidos, destacamos
como principais causas de dependência a doença crónica (63,6%) e o
envelhecimento (31,5%). Tal facto leva a compreender o dado referente ao modo
de instalação da dependência, que foi predominantemente gradual (66,5%).
Para se perceber o tipo e grau de dependência que as pessoas apresentavam,
importa explicitar que cada um dos domínios de autocuidado estudados (tomar
banho, vestir-se e despir-se, arranjar-se, alimentar-se, uso do sanitário,
elevar-se, virar-se, transferir-se, usar cadeira de rodas, andar e tomar
medicação) se concretiza através de indicadores, sendo cada um deles
classificado em: Dependente, não participa ' pessoa totalmente dependente, que
não é capaz de realizar a atividade em análise; Necessita de ajuda de pessoa '
pessoa que realiza (inicia e/ou completa) a atividade em análise,
necessariamente com ajuda de uma pessoa; Necessita de equipamento ' pessoa que
é capaz de realizar a atividade em análise, apenas com auxílio de equipamento
adaptativo, não exigindo a colaboração de pessoa; Completamente independente '
pessoa sem qualquer tipo de dependência na realização da atividade em análise.
Pelo referido, inferimos que, aquando da realização de cada uma das atividades
de autocuidado, a pessoa pode necessitar da ajuda de outra, do apoio de
equipamentos ou, em casos mais extremos, necessitar de substituição. Nas
situações em que o dependente não participa nas atividades de autocuidado, ou
quando necessita de ajuda de outra pessoa para a concretização das atividades,
está subjacente que os cuidados prestados por outra pessoa são imprescindíveis,
tendo os primeiros um caráter de substituição integral "fazer por",
ou seja, totalmente compensatórios, enquanto os segundos, um caráter de
colaboração "fazer com", enquadrados nos cuidados parcialmente
compensatórios (Orem, 2001).
Na nossa investigação, aquando do estudo da situação de dependência, em cada
domínio de autocuidado, procedeu-se à análise conjunta das pessoas
"dependentes, não participam" e das que "necessitam de ajuda
de pessoa", uma vez que nessas situações está inerente a necessidade de
outra pessoa para a execução plena das atividades de autocuidado. Importa
referir que houve atividades de diferentes domínios de autocuidado,
relativamente às quais os prestadores de cuidados tendo a expetativa de que os
seus familiares não podiam/deviam realizá-las, acabavam por substituí-los.
Assim, face às atividades de autocuidado, em que diariamente o papel assumido
pelo prestador de cuidados foi o de substituir a pessoa dependente, não foi
possível determinar com o grau de certeza pretendido o nível de dependência
apresentado pelo familiar dependente. Por esse motivo, os valores percentuais
que apresentamos, relativamente a cada atividade dos diferentes domínios de
autocuidado, referem-se ao número de pessoas cujo nível de dependência foi
cuidadosamente confirmado, e não ao número total de dependentes (N=241). Para
além disso, há atividades que não se aplicavam a determinadas pessoas
dependentes.
Decorrente do referido, no que se refere ao autocuidado Tomar banho (Tabela_1),
constatámos que secar o corpo (81,1%) e lavar o corpo (77,4%) constituíram as
atividades em que mais pessoas eram dependentes e que, no mínimo, necessitavam
de ajuda de pessoa. A atividade em que mais pessoas só necessitavam de
equipamento (3,8%) referia-se a obter objetos para o banho. Por outro lado,
abrir a torneira era a atividade em que mais pessoas eram independentes
(44,7%).
Face ao autocuidado Vestir-se e despir-se (Tabela_2), verificámos uma maior
percentagem de pessoas dependentes e que, no mínimo, necessitavam de ajuda de
pessoa, nas atividades calçar as meias (77,4%) e calçar os sapatos (76,6%). A
atividade em que mais pessoas só necessitavam de equipamento (1,7%) era no
retirar as roupas da gaveta e do armário. Por conseguinte, segurar as roupas
foi a atividade em que mais pessoas eram independentes (59,6%).
No autocuidado Arranjar-se (Tabela_3), observámos que as atividades em que mais
pessoas eram dependentes e que, no mínimo, necessitavam de ajuda de pessoa,
centravam-se no cuidar das unhas (81,7%) e limpar a área do períneo (66,4%).
Usar um espelho foi a atividade em que mais pessoas só necessitavam de
equipamento (3,5%) e aquela em que uma maior percentagem de pessoas era
independente (61,1%).
Analisando o autocuidado Alimentar-se (Tabela_4), constatámos que foi nas
atividades preparar os alimentos para a ingestão(82,6%) e abrir recipientes
(63,5%) que mais pessoas eram dependentes e que, no mínimo, necessitavam de
ajuda de pessoa. A atividade em que mais pessoas só necessitavam de equipamento
(6,6%) era colocar os alimentos nos utensílios. Por outro lado, levar os
alimentos à boca usando os dedos da mão foi a atividade em que mais pessoas
eram independentes (69,0%).
Relativamente ao autocuidado Uso do sanitário (Tabela_5), os resultados
evidenciaram que fazer a higiene íntima após urinar ou evacuar(62,1%) e ajustar
as roupas após a higiene íntima(58,6%) constituíram as atividades em que mais
pessoas eram dependentes, necessitando de pelo menos do apoio de uma outra
pessoa. Erguer-se da sanita foi a atividade em que mais pessoas só necessitavam
de equipamento (17,4%). Por conseguinte, a atividade em que mais pessoas eram
independentes (49,8%) foi posicionar-se na sanita ou na arrastadeira.
Na única atividade inerente ao autocuidado Elevar-se, levantar parte do corpo
(Tabela_6), constatámos que 37,8% dos dependentes precisavam, no mínimo, de
ajuda de pessoa, 17,0% só necessitavam de equipamento e 45,2% eram
independentes.
Atendendo à única atividade subjacente ao autocuidado: virar-se, mover o corpo,
virando-o de um lado para o outro (Tabela_7), verificámos que 29,9% dos
dependentes necessitavam, no mínimo, de ajuda de pessoa, 5,0% só necessitavam
de equipamento e 65,1% eram independentes nesta atividade.
No autocuidado Transferir-se (Tabela_8), constatámos que, a percentagem de
dependentes que, no mínimo, necessitava de ajuda de pessoa era idêntico para as
atividades transferir-se da cadeira/cadeirão para a cama (44,0%) e transferir-
se da cama para a cadeira/cadeirão (42,8%). Relativamente aos restantes graus
de dependência, quando comparadas as duas atividades, a percentagem das pessoas
também foi uniforme. No que concerne à atividade transferir-se da cadeira/
cadeirão para a cama, 13,7% das pessoas só necessitavam de equipamento e 42,3%
eram independentes. Em relação à atividade transferir-se da cama para a
cadeira/cadeirão, 12,9% das pessoas só necessitavam de equipamento e 44,4% eram
independentes.
No que concerne ao autocuidado usar cadeira de rodas (Tabela_9), constatámos
que as atividades em que mais pessoas eram dependentes e que, no mínimo,
necessitavam de ajuda de pessoa, se referiam a manobrar em curvas, rampas de
acesso e outros obstáculos com velocidade lenta, moderada ou rápida (64,9%) e
transferir-se de e para a cadeira de rodas com segurança (62,1%). Igual
percentagem de pessoas dependentes (5,4%) só necessitava de equipamento para
movimentar o corpo de um lado para o outro em cadeira de rodas e para se
transferir de e para a cadeira de rodas com segurança. Na atividade movimenta o
corpo de um lado para o outro em cadeira de rodas, 35,1% das pessoas eram
independentes.
No autocuidado Andar (Tabela_10), observámos que as atividades em que mais
pessoas eram dependentes e que, no mínimo, necessitavam de ajuda de pessoa, se
centravam no percorrer longas distâncias(61,3%) e no percorrer distâncias
moderadas(48,1%). A atividade em que mais pessoas só necessitavam de
equipamento (33,2%) era percorrer distâncias curtas. Por outro lado, suportar o
próprio corpo na posição de pé foi a atividade em que mais pessoas eram
independentes (50,9%).
No autocuidado Tomar medicação (Tabela_11), providenciar medicamentos (92,1%) e
preparar a medicação(89,1%) foram as atividades que apresentaram mais pessoas
dependentes que, no mínimo, necessitavam de ajuda de pessoa. Tomar a medicação
foi a única atividade em que havia pessoas (0,8%) que só necessitavam de
equipamento e, simultaneamente, em que mais pessoas (41,2%) eram independentes.
Discussão
As características da pessoa dependente do presente estudo são corroboradas por
investigações anteriores (Duque, 2009; Petronilho, Machado, Miguel, &
Magalhães, 2010; Ramos, 2010), nomeadamente a predominância de idosos e do
género feminino. De facto, a percentagem de pessoas dependentes aumenta nos
grupos populacionais mais idosos (Araújo, Paúl, & Martins, 2010), sendo que
a mulher tem uma maior longevidade. Todavia, a dependência pode existir em
qualquer faixa etária: pode estar presente desde o nascimento; desencadear-se
como consequência de uma doença aguda ou acidente na infância, juventude ou
vida adulta; ou, mais frequentemente, ir aparecendo à medida que as pessoas
envelhecem (Figueiredo, 2007). Este facto foi comprovado no nosso estudo, no
qual a idade mínima dos dependentes foi de 7 anos e a máxima de 97 anos. O
nível de iliteracia encontrado é relevante, considerando os estudos que
comprovaram que a dependência moderada a grave é mais provável em pessoas com
baixo nível de escolaridade (Torres et al., 2009).
Ao analisarmos a situação de dependência e os fatores a ela associados,
verificámos que a passagem do estado de independência para dependência inseriu-
se, maioritariamente, no conceito de transição saúde/doença e/ou de
desenvolvimento. Daqui se depreende que a situação de dependência pode ter sido
provocada pelo aparecimento de uma ou várias doenças crónicas, ou ser o reflexo
de uma perda geral das funções, atribuível ao processo de envelhecimento.
Figueiredo (2007) referiu que viver mais tempo aumenta as probabilidades de a
pessoa contrair uma ou várias doenças crónicas, no entanto, em muitos casos, é
difícil distinguir se as limitações apresentadas são consequentes de processos
patológicos, ou se são decorrentes do envelhecimento. Certo é que, em ambas as
situações, as atividades de autocuidado vão gradual e paulatinamente, tornando-
se cada vez mais difíceis de realizar, conduzindo a situações de dependência de
pessoas ou de equipamentos. O conhecimento do nível de dependência das pessoas,
em relação a cada atividade de autocuidado, para além de permitir aos
enfermeiros identificar as necessidades específicas, também possibilita um
planeamento mais adequado de cuidados. Na realidade, duas pessoas podem obter o
mesmo valor global de dependência no autocuidado, mas apresentarem necessidades
diferentes. Para além disso, a pessoa pode ser, por exemplo, dependente para
executar determinadas atividades e independente na realização de outras, facto
que se verificou na presente investigação. As alterações na capacidade da
pessoa para executar as atividades inerentes aos diferentes autocuidados podem
estar relacionadas com limitações resultantes do compromisso motor, sensorial
ou cognitivo/percetual, ou da sua combinação. No presente estudo, a maior
dependência situava-se nas atividades providenciar medicamentos e preparar a
medicação. Atendendo a que a amostra era constituída maioritariamente por
idosos, com um nível de iliteracia significativo, está inerente a esses
resultados um comprometimento cognitivo. De facto na perspetiva de Araújo, Paúl
e Martins (2008), os idosos apresentam com frequência diminuição cognitiva
necessitando de ajuda para cuidar de si próprios. Nesta mesma linha
interpretativa, não nos surpreende que a seguir surjam como atividades com
maior dependência, aquelas cuja execução exige maior amplitude e coordenação do
movimento, maior capacidade motora fina e grosseira, bem como maior destreza
manual, força muscular ou equilíbrio corporal, de que são exemplo as atividades
inerentes aos autocuidados alimentar-se, arranjar-se, tomar banho, vestir-se e
despir-se, usar cadeira de rodas, uso do sanitário e andar. No âmbito dos
autocuidados referidos, constatámos que mais de 50% dos dependentes precisavam,
no mínimo, da ajuda de pessoa para a concretização das atividades desses
autocuidados. De acordo com o grau de dependência, as pessoas
"dependentes, não participam" necessitavam que os prestadores de
cuidados as substituíssem nas atividades de autocuidado; por outro lado, os
dependentes que "necessitam de ajuda de pessoa" careciam de
cuidados de complementaridade. Segundo Orem (2001), quando a pessoa não tem
nenhum papel ativo no seu autocuidado, sendo socialmente dependente de outros,
necessita de substituição na concretização das atividades, isto é, de uma
intervenção totalmente compensatória; quando é capaz de realizar algumas
atividades de forma independente, necessita de ajuda naquilo que não consegue
executar por si, sendo que quem cuida presta uma intervenção parcialmente
compensatória. Neste pressuposto, constatámos que a necessidade de cuidados
parcialmente compensatórios foi a situação mais frequentemente encontrada nesta
investigação.
Na sequência do referido e pelo que constatámos aquando da colheita de dados,
pelas vivências e relatos dos participantes e pelos resultados obtidos
relativamente à dependência nas atividades de autocuidado, fez-nos sentido
refletir sobre a necessidade de se criarem novas respostas, de maior
proximidade à população, tendo em conta as necessidades das pessoas
dependentes, das suas famílias e das comunidades onde estão inseridas (Araújo,
2010). De facto, ajudar a pessoa numa situação de dependência, bem como a
família no processo de tomar conta da pessoa dependente, está sem dúvida
concordante com o mandato social da profissão de Enfermagem. Neste contexto,
perante situações de elevado grau de dependência nas atividades de autocuidado,
nomeadamente pessoas "dependentes, não participam", as terapêuticas
de enfermagem deveriam basear-se no conhecimento e treino de capacidades e
habilidades do prestador de cuidados, para a implementação das diferentes
atividades centradas na substituição da pessoa dependente; na informação sobre
a prevenção de complicações na pessoa dependente, assim como, sobre os recursos
institucionais, profissionais e materiais/equipamentos disponíveis, capazes de
facilitar o processo de tomar conta de dependentes em casa. Por outro lado,
perante pessoas dependentes que "necessitam de ajuda de pessoa"
para a realização das atividades de autocuidado, as terapêuticas de enfermagem
deveriam ser direcionadas para o conhecimento e treino de capacidades e
habilidades do prestador de cuidados, para a execução das atividades centradas
no complemento e ajuda ao dependente, de acordo com as suas necessidades, bem
como na informação e treino da capacidade da pessoa dependente para a
consecução das atividades de autocuidado. Perante a realidade dos dependentes
que só tinham necessidade de equipamento para a concretização das atividades de
autocuidado, levanta-se uma questão interessante: Será que as pessoas em estudo
poderiam ser "menos dependentes" se utilizassem algum tipo de
equipamento? Todos reconhecemos que, aquando da execução das atividades de
autocuidado, a utilização de equipamentos adaptativos é assumida como
importante, no entanto o desconhecimento das possibilidades de equipamento
existente, ou as dificuldades em os adquirir, poderão justificar a
"não'utilização" e, consequentemente, a elevada dependência de
pessoa. Face ao explicitado, o uso de equipamentos adaptativos poderia ser uma
mais-valia para a diminuição do nível de dependência da pessoa na concretização
das atividades de autocuidado, evoluindo-se, por exemplo, para a situação em
que o dependente só necessitasse de equipamento em todas ou algumas atividades
de autocuidado. Neste contexto, coloca-se em relevo a necessidade de expandir a
ajuda profissional da Enfermagem, implementando intervenções que advoguem o uso
de equipamentos adaptativos, sem descurar a forma de aceder e utilizar esses
recursos.
Outro aspeto que poderá contribuir para a manifestação e, porventura,
manutenção da dependência (Andrade, 2009) é o ambiente físico e social que
rodeia a pessoa dependente. A nível físico, o ambiente pode impor barreiras
arquitetónicas e ergonómicas com repercussão negativa na execução das
atividades de autocuidado. Por outro lado, ao nível do ambiente social, vários
autores têm referido que as atitudes e os comportamentos das pessoas próximas
do dependente podem contribuir para a promoção da independência, ou pelo
contrário, agravar a sua dependência. Um dos fatores identificados por Almeida
(2009), que contribui para o referido, é a instalação de relações de
superproteção. Na realidade, quando os prestadores de cuidados têm a expetativa
de que os seus familiares não têm capacidade para realizar determinadas
atividades, acabam por substituí-los naquilo que eles eram capazes de fazer,
privando deste modo a pessoa de praticar as atividades para as quais ainda
estava capacitada, o que pode conduzir ao estabelecimento gradual da
dependência (Figueiredo, 2007). De facto, a aproximação ao contexto real levou-
nos a refletir se não haverá um remeter para uma situação de passividade da
pessoa dependente, na assunção social de que o papel de "doente" a
isso impõe. Substituir e ser substituído é muitas vezes mais fácil e menos
moroso que promover a ação e agir contra os défices, vindo reforçar que, no
âmbito do autocuidado, os padrões de interação prestador de cuidados/pessoa
dependente mais frequentes são a manutenção da dependência e o estímulo à
dependência. Na realidade, em algumas situações, senão frequentemente, o
ambiente social envolvente tende a ignorar as capacidades da pessoa,
incentivando e reforçando as suas manifestações de dependência, prevalecendo o
conceito de cuidar como sinónimo de fazer pela pessoa dependente (Andrade,
2009), aspeto que também constatámos na nossa investigação. O exposto acentua a
necessidade de se desenvolverem ações mais próximas das pessoas dependentes,
promotoras da sua autonomia e independência, representando um enorme desafio e
responsabilidade para o sistema de saúde e de forma particular para a
Enfermagem. Neste contexto, o enfermeiro, teria, por exemplo, um papel fulcral
em ensinar e instruir estratégias adaptativas que facilitassem a concretização
das atividades de autocuidado, bem como treinar as capacidades da pessoa
dependente, diminuindo em algumas situações o seu grau de dependência. Certo é
que o treino de capacidades, para progressivamente se ir tornando mais
independente face aos défices contribuiria positivamente para o envolvimento da
pessoa dependente e, consequentemente, para a reaprendizagem de algumas
atividades de autocuidado. Desta forma, poder-se-ia estar a concorrer para a
maximização da independência e para o desempenho seguro nas atividades de
autocuidado. O potencial de intervenção de Enfermagem, no contexto da realidade
estudada nesta investigação, é enorme, fundamentalmente, através de estratégias
terapêuticas, imbuídas de uma intencionalidade que vise a capacitação para o
autocuidado. Neste sentido, importará equacionar estratégias capazes de
promover uma maior intensidade de acompanhamento das pessoas dependentes,
integradas em famílias, na medida em que, os cuidados de Enfermagem poderão ser
um importante contributo para os ganhos em saúde, constituindo uma oportunidade
de praticar Enfermagem com mais Enfermagem (Silva, 2007, p. 12). Apesar da
assumida robustez metodológica da investigação, há que assumir algumas
limitações. O facto de se ter procedido a um estudo transversal limita a
compreensão de uma problemática que é inquestionavelmente mutável ao longo do
tempo. Também a abordagem quantitativa permite-nos um retrato epidemiológico,
mas não nos dá a compreensão do vivido por parte das pessoas dependentes e das
famílias. O recurso a uma triangulação de métodos contribuiria para uma
planificação mais consentânea com as reais necessidades de saúde nesta área,
que é indubitavelmente um foco de intervenção da Enfermagem.
Conclusão
A existência de pessoas com graus de dependência variáveis nas atividades de
autocuidado é hoje uma realidade inquestionável nas sociedades ditas
desenvolvidas. O problema é que a insuficiente caracterização da (in)capacidade
das pessoas para desempenhar as atividades inerentes ao autocuidado, tem criado
dificuldades no exercício profissional dos enfermeiros. Os resultados do
presente estudo retratam uma realidade epidemiológica, que necessita de ser
contemplada na operacionalização dos serviços de saúde. As famílias e,
concretamente, os membros prestadores de cuidados, não podem fazer tudo, nem
conseguem dar todas as respostas, principalmente quando se está perante um
processo que pode durar longos períodos de tempo e ser extremamente complexo.
Esta investigação, ao permitir conhecer os contextos que rodeiam a dependência,
bem como o perfil das pessoas dependentes no autocuidado integradas em
famílias, poderá potenciar o aperfeiçoamento da prática de Enfermagem. Neste
contexto, desenvolver e aprofundar terapêuticas de enfermagem consistentes com
as necessidades específicas das pessoas dependentes e dos membros da família
prestadores de cuidados pode ser um elemento decisivo na qualidade do exercício
profissional dos enfermeiros, constituindo uma oportunidade única de serem mais
significativos para as pessoas. Paralelamente, o conhecimento mais aprofundado,
acerca das atividades inerentes aos diferentes autocuidados, poderá permitir
uma abordagem mais proativa da problemática, favorecendo, no futuro, um campo
de intervenções preventivas e de cuidados individualizados. Neste sentido, para
além da pertinência desta investigação noutros concelhos, bem como da sua
realização num cariz longitudinal, sugerimos ainda estudos de natureza
qualitativa, em que seria interessante explorar o papel da pessoa dependente na
realização do autocuidado, identificando os fatores facilitadores/
obstaculizadores da promoção da autonomia, assim como o papel da família neste
processo.