Validação do International Resident Assessment Instrument: Acute Care(InterRAI-
AC) para a população portuguesa
Introdução
A medição de resultados em saúde, como forma de produzir indicadores de
efetividade, de melhorar a qualidade dos cuidados e de garantir a prestação de
contas (accountability) de prestadores e das unidades, tornou-se uma prática
essencial nos diferentes contextos em que os cuidados de saúde são produzidos e
está muito ligada aos processos de financiamento das organizações e a uma
tendência internacional de redução de custos. Isto é muito evidente nos
cuidados de enfermagem, uma vez que os serviços prestados pelos enfermeiros
representam uma fatia importante dos cuidados de saúde e os gestores exigem a
justificação dos gastos que lhe estão associados e, sobretudo, a sua ligação
com os resultados que se obtêm nos doentes (Donabedian, 1992).
Neste contexto a medição dos resultados tem que ser um objetivo comum que una
os interesses e as atividades de todas as partes interessadas, porque tem
repercussões profissionais, financeiras e políticas, sendo por isso necessário
encontrar instrumentos de medida que sejam fiáveis e válidos (Porter, 2010).
Para analisar o efeito dos cuidados de enfermagem na obtenção dos melhores
resultados para os pacientes é necessário avaliar os resultados sensíveis aos
cuidados de enfermagem, considerados por Doran, Sidani, Watt-Watson, Laschinger
e Hall (2001) como um estado, um comportamento ou perceção de um doente ou
família, mensurável ao longo de um continuum, que ocorre em resposta a uma
intervenção de enfermagem.
As organizações e os sistemas de saúde têm enfrentado grandes desafios
motivados pelo envelhecimento da população com correspondente aumento das
doenças crónico-degenerativas e com recursos cada vez mais limitados. De acordo
com o Instituto Nacional de Estatística (2013), o Índice de Envelhecimento da
População passou de 103 para 128 entre o ano de 2001 e 2011. Isto constitui um
desafio porque as pessoas idosas, assim como as que têm incapacidades, estão
mais suscetíveis à ocorrência de problemas de saúde que exigem cuidados
multidisciplinares (Hirdes et al., 2008). A fragilidade da pessoa e a
complexidade do estado de saúde fazem aumentar o risco de resultados adversos
associados ao internamento hospitalar como, por exemplo, as quedas e as úlceras
de pressão aos quais se associam mais custos socioeconómicos, nomeadamente pelo
aumento no tempo de internamento e despesas, pela taxa de mortalidade mais
elevada, pelo declínio após a alta, pelas altas taxas de readmissão e pela
perda de capacidades para realizar as atividades de vida diária, entre outras
(Brand et al., 2011).
A complexidade e multidimensionalidade das situações exigem a utilização de
instrumentos compreensivos que meçam mais do que uma dimensão da pessoa e,
principalmente, espelhem uma visão holística dos cuidados (Hirdes et al.,
2008). A sua utilização coloca, no entanto, múltiplos desafios aquando da
validação, uma vez que não se podem utilizar, do mesmo modo, os testes
habituais usados nos instrumentos que medem apenas uma dimensão da pessoa
(Wellens, Milisen, Flamaing, & Moons, 2010).
Validação e fiabilidade
Os processos de validação de instrumentos têm-se desenvolvido de acordo com a
evolução do conceito de validade, que passou de uma propriedade estática de uma
medida, em que um teste era válido ou não de acordo com a correlação existente
entre a medida e outra medida de critério externo, para uma outra visão, em que
a validade foi categorizada em tipos específicos: validade de conteúdo;
validade do constructo; e validade de critério (que inclui a validade
concorrente e a validade preditiva). Mais tarde foi apresentada uma abordagem
multi-método que introduziu os tipos de validade convergente e descriminante
fazendo parte da validade de constructo. Nos anos 80 emergiu uma nova
conceptualização de validade, liderada por Cronbach (1980) e Messick (1980),
que enfatizou as inferências e as decisões a partir dos valores obtidos pelos
testes. Este processo levou à estandardização dos testes psicológicos e, partir
daí, a validade passou a ser definida como a adequação, significado e utilidade
das inferências feitas pelos testes sendo essa acumulação de evidência que
constitui a base científica para a interpretação dos scores(Goodwin &
Leech, 2003). Assim, os últimos padrões para a validação de instrumentos
indicam cinco linhas de força que revelam a evidência de validade, sendo elas:
evidência baseada no conteúdo; responsividade (processo de respostas);
estrutura interna; relação com outras variáveis; e consequências dos testes
(idem).
Quanto à fiabilidade, que se refere à capacidade de um qualquer instrumento
medir de forma consistente e confiável um qualquer atributo populacional,
independentemente do momento em que se mede e de quem mede, os instrumentos
compreensivos também colocam vários desafios (Wellens, Milisen, Flamaing, &
Moons, 2011; Streiner & Norman, 2008). Desse modo os autores advogam a
necessidade de medir a evidência de fiabilidade baseada na equivalência das
medidas efetuadas por dois observadores diferentes, a evidência baseada na
estabilidade e na consistência interna. A evidência baseada na fidelidade é
muito importante para se verificar se uma medida mede apenas uma ideia e se as
variáveis que compõe a escala têm consistência interna (Streiner & Norman,
2008).
InterRAI-AC
O InterRAI é um grupo de investigação internacional que desenvolve instrumentos
de avaliação compreensiva orientados para pessoas que necessitam de cuidados,
sobretudo pessoas idosas (InteRAI, 2012). Os Instrumentos de Avaliação de
Residentes (RAI) são utilizados internacionalmente em vários contextos e com
diferentes fins, como planeamento de cuidados, medição de resultados e
indicadores de qualidade (Glenny & Stolee, 2009).
Atualmente existem 18 instrumentos de avaliação InterRAI para diferentes
contextos de prestação de cuidados (cuidados paliativos, cuidados
domiciliários, cuidados em lares, cuidados pós-agudos, cuidados em saúde mental
comunitária, entre outros). O InterRAI AC, apresentado em 2006, foi
desenvolvido para ser utilizado em hospitais de cuidados agudos onde as pessoas
podem beneficiar de uma avaliação abrangente por múltiplos especialistas (Gray
et al., 2008).
O instrumento InterRAI-AC foi desenvolvido para ser aplicado em pessoas com
limitações funcionais em atividades pessoais, como as Atividades de Vida Diária
(AVD) e em Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD); em pessoas com
limitações cognitivas; em pessoas com doenças que sejam acompanhadas de perda
da capacidade funcional para a realização das atividades pessoais, ou em
pessoas com mais de 75 anos por existir maior probabilidade de desenvolvimento
destes problemas; e fornece uma informação holística da complexidade e
fragilidade das pessoas internadas. (Gray et al., 2006; Gray et al., 2008).
Os instrumentos InterRAI são compostos por um conjunto de itens, que são comuns
a todos os instrumentos (cerca de 70 ex.: AVD e Dor); cerca de 100 itens estão
presentes em quase todos os instrumentos e alguns são específicos para
contextos especiais e variam consoante os instrumentos (Wellens et al., 2012).
O InterRAI-AC é composto por várias dimensões que avaliam diferentes domínios
clínicos, em quatro momentos: na Pré-Admissão, ou seja, no período de três dias
antes do aparecimento da situação que causou o internamento (neste caso os
informantes podem ser os familiares se os doentes não forem capazes de o
fazer); na Admissão, ou seja, no período de 24 horas seguintes ao internamento;
ao 14º dia de internamento; e na Alta, sendo que a avaliação se reporta às 24
horas anteriores à saída. Assim, a particularidade deste instrumento, ao nível
da sua extensão e estrutura, é a possibilidade de avaliar todo o episódio de
internamento da pessoa. A avaliação da situação anterior à doença não só
permite estabelecer uma ligação com o estado atual, como pode servir de
referência para a reabilitação e para o tratamento. Para além disto, a medição
de resultados exige um ponto de referência e, como referem Sidani, Doran e
Mitchell (2004), o estado do doente antes da situação que o levou a recorrer ao
hospital influencia o resultado dos cuidados. Porque se trata de uma medida
essencialmente destinada a apoiar a prática clínica, após o seu preenchimento
total não é possível determinar um valor final, pelo que se calculam os valores
obtidos em cada uma das escalas que refletem a severidade da doença e a sua
evolução em domínios selecionados (Wellens et al., 2010; Hirdes et al.,2008).
O InterRAI Cuidados Agudos versão portuguesa (InterRAI-AC-PT) é constituído por
16 secções: Identificação; Admissão e História Inicial; Datas de Avaliação;
Cognição; Comunicação, Visão e Audição; Comportamento e Ânimo; Estado
Funcional; Continência; Diagnósticos; Condições de Saúde; Estado Nutricional e
Oral; Estado da Pele; Tratamentos e Procedimentos; Potencial da Alta; Alta;
Informação da Avaliação.
Das secções do instrumento é possível produzir, de acordo com o Manual, através
de somatórios ou de algoritmos que combinam itens, um conjunto de escalas que
medem: Desempenho Cognitivo; Comunicação; Dor; Atividades Instrumentais de Vida
Diária; Delírio; Hierárquica das Atividades de Vida Diária; Versão Curta desta
Escala; Escala Curta de Classificação da Depressão; Índice de Massa Corporal).
Escala do Desempenho Cognitivo (DES_COG), construída através de um algoritmo
que combina as variáveis capacidades cognitivas para tomar decisões no dia-a-
dia, capacidade para memorizar/recordar - boa memória de curto prazo,
capacidade para memorizar/recordar - boa memória processual, fazer-se
entender e auto desempenho nas Atividades de Vida Diária ' alimentação. Este
algoritmo origina um conjunto de 6 níveis de desempenho, do nível 0 (pessoa
Independente) ao nível 6 (incapacidade muito grave).
Escala da Comunicação (COMUNIC) avalia a capacidade que as pessoas têm para
comunicar e é construída através do somatório das variáveis fazer-se entender
e capacidade para compreender os outros. O somatório destas duas variáveis
origina um conjunto de oito níveis de capacidade para comunicar de 0
(Independente) a 8 (Incapacidade muito grave).
Escala da Dor (DOR) avalia a dor que a pessoa refere e é construída através de
um algoritmo que combina códigos das variáveis sintomas de dor - frequência
com que a pessoa se queixa ou mostra sinais de dor e sintomas de dor - nível
mais elevado de intensidade da dor atual. Este algoritmo origina um intervalo
de 0 (sem dor) a 4 (dor diária insuportável) com valores intermédios 1 (dor não
diária), 2 (dor diária mas não severa) e 3 (dor diária severa).
Escala das Atividades Instrumentais de Vida Diária (AIVD) avalia o nível de
dependência das pessoas na realização de atividades, como preparação das
refeições, as tarefas domésticas ou gestão das finanças pessoais e é construída
através da recodificação e somatório das variáveis auto desempenho nas AIVD e
capacidade na preparação das refeições, tarefas domésticas, gerir as
finanças pessoais, gerir a medicação, uso do telefone, escadas,
compras e transporte. Esta escala origina uma classificação num intervalo
de 0 a 48, cujos valores mais altos representam maior dependência e os valores
mais baixos independência ou fraca dependência na realização das AIVD.
Escala do Delírio (DELIR) avalia a presença de sintomas de delírio e é
construída através da recodificação e somatório das variáveis perturbações
periódicas do pensamento ou consciência - facilmente distraído, perturbações
periódicas do pensamento ou consciência - momentos de discurso desorganizado,
perturbações periódicas do pensamento ou consciência - função mental varia ao
longo do dia e alteração aguda do estado mental em relação ao habitual. Da
recodificação e somatório destas variáveis resulta um intervalo de 0 a 4, cujos
valores mais altos indicam alta probabilidade de delírio.
Escala Hierárquica das Atividades de Vida Diária (AVD_H). Avalia o nível de
dependência das pessoas na realização de atividades do dia-a-dia, como usar o
WC, caminhar ou comer, e é construída através de um algoritmo que combina as
variáveis auto desempenho na higiene pessoal, auto desempenho no caminhar,
auto desempenho no uso da casa de banho, auto desempenho na alimentação. A
construção desta escala é baseada no conceito de perda precoce, média e
tardia no desempenho das AVD. As variáveis são recodificadas sendo que o
desempenho na higiene pessoal recodificado corresponde à variável perda
precoce, o desempenho a andar recodificado corresponde à variável perda
média, o desempenho na alimentação recodificado corresponde à variável perda
tardia e o desempenho no uso do WC recodificado corresponde à variável uso do
WC. Este processo origina uma classificação em sete níveis de desempenho
distintos: Independente, com supervisão, incapacidade diminuta,
assistência alargada ' 1, assistência alargada ' 2, dependente,
dependência total.
Versão Curta da Escala das Atividades de Vida Diária (AVD_BR). Utiliza as
variáveis: auto desempenho na higiene pessoal, auto desempenho no caminhar,
auto desempenho no uso da casa de banho e auto desempenho na alimentação
que são recodificadas e somadas resultando um intervalo de 0 a 16 e cujos
valores mais altos representam maior dependência e os mais baixos menor
dependência na realização das Atividades de Vida Diária. Esta escala é mais
útil na avaliação da função na globalidade enquanto a escala hierárquica é mais
útil quando se deseja conhecer exatamente o padrão de desempenho de uma pessoa.
Escala Curta de Classificação da Depressão (DEPRESS) avalia a presença de
sintomas de depressão e é construída através da recodificação e somatório das
variáveis ânimo auto reportado - com pouco interesse ou prazer em fazer as
coisas de que normalmente gosta, ânimo auto reportado - ansioso, impaciente
ou inquieto e ânimo auto reportado - triste, deprimido ou desesperado. O
somatório destas variáveis recodificadas cria um intervalo de 0 (sem sintomas
de depressão) a 3 todos os sintomas presentes nos últimos 3 dias/24 horas),
com os valores intermédios 1 (um sintoma presente algumas vezes, 2 (pelo
menos 2 sintomas presentes nos últimos 3 dias/24 horas).
Índice de Massa Corporal (IMC) é uma medida nutricional que relaciona o peso e
a altura da pessoa, originando um valor que se for alto representa obesidade e
se for baixo representa fraqueza e potencial desnutrição. A fórmula para
calcular o IMC é (Peso/altura²).
Tendo em conta as exigências metodológicas e a complexidade deste instrumento
de medição, os objetivos do presente estudo são os seguintes: (i) criar a
versão portuguesa do InterRAI-AC, por nós denominada InterRAI-AC-PT, o seu
processo de tradução e os métodos para assegurar a validação para a população
Portuguesa; e (ii) validar o instrumento InterRAI-AC-PT.
Metodologia
Foi solicitada à organização InterRAI a autorização para utilizar o instrumento
InterRAI-AC no contexto de um projeto de pesquisa, cujo objetivo é medir a
efetividade dos cuidados de enfermagem, tendo esta sido concedida. Como este
instrumento foi concebido para ser utilizado sobretudo com pessoas idosas e
considerando que os doentes internados nos hospitais são maioritariamente
idosos, considerámos que a sua utilização seria não só pertinente como útil
porquanto a análise dos dados que produz tem o potencial de melhorar a
qualidade pela possibilidade que permite de avaliar resultados, análise de
casos, benchmarking e planeamento (Gray et al., 2008). Para a sua utilização
procedemos não apenas à tradução do instrumento, mas também do seu manual.
Validação cultural e linguística
A validação linguística foi realizada através de um processo de tradução/retro
tradução com análise de peritos. A validação do conteúdo das componentes do
instrumento, nas vertentes da sua relevância, clareza do enunciado e a sua
importância clínica para dar resposta ao objetivo do estudo, bem como a
tradução do seu manual e a forma de codificação, foram realizadas com a
colaboração de um grupo de peritos constituído por enfermeiros e docentes de
enfermagem, tal como propõem Goodwin e Leech (2003).
Para avaliar a clareza dos itens e a sua equivalência cultural foi realizada
uma análise da percentagem de não respostas por variável ou de respostas
inválidas por codificação errada. Segundo Wellens et al. (2010), a existência
de muitos dados omissos pode resultar do facto dos itens não serem
suficientemente claros ou culturalmente adaptados, os dados serem difíceis de
recolher ou o constructo ser irrelevante, por outro lado se as respostas
tiverem muitos códigos inválidos é porque é preciso melhorar a sua redação ou
porque a forma de codificação não é clara.
Validade da estrutura interna
Tendo em conta a característica deste instrumento é importante verificar em que
medida existe coerência entre as respostas a questões que pertencem a
diferentes variáveis, mas que estão relacionadas entre si (twin scores).
Torna-se então necessário analisar as inter-relações entre variáveis distintas,
mas que avaliam uma parte específica do mesmo constructo, pelo que a
codificação de algumas variáveis tem que ser consistente com a codificação de
outras (Goodwin & Leech, 2003; Wellens et al., 2010).
Assim avaliámos a consistência das respostas através da análise das
codificações das variáveis que se encontram inter-relacionadas. Para isso
formulámos 25 hipóteses, que pretendem espelhar essas inter-relações e que se
encontram listadas no Tabela_1.
Fiabilidade
Foi avaliada a fiabilidade interna do InterRAI AC com a análise de dois aspetos
chave: a fiabilidade inter-juizes e a consistência interna (Wellens et al.,
2011).
A evidência de fiabilidade baseada na equivalência foi testada através da
fiabilidade inter-juízes. Assim, foram efetuadas avaliações duplas a um
conjunto de 31 doentes por enfermeiros dos serviços e pela equipa de
investigadores. Estas foram feitas de forma aleatória, num intervalo que tinha
que ser inferior a 48 horas e sem que o 2º avaliador tivesse conhecimento da
codificação anterior. Para analisarmos o grau de concordância na classificação
dos dados utilizou-se o coeficiente K de Cohen. De acordo com Landis e Koch
(1977), valores de K abaixo de 0 significam que não há acordo; entre 0 e 0.20
considera-se uma concordância ligeira; entre 0.21 e 0.40 concordância razoável;
entre 0.41 e 0.60 concordância moderada; entre 0.61 e 0.80 é considerado uma
concordância substancial; acima de 0.81 considera-se excelente ou quase
perfeita, ou seja, os dois avaliadores codificaram de forma igual ou quase
perfeita as mesmas questões. Para a avaliação dos valores de K foram
considerados os descritores de força e direção indicados por Landis e Koch
(1977), no entanto devido ao facto de existirem poucos valores correspondentes
ao primeiro (< 0), segundo (0 ' 0.20) e terceiro (0.21 ' 0.40) grupos,
agregaram-se estes 3 num só.
Uma forma para verificar a consistência interna de um instrumento é através da
utilização do α de Cronbach. No entanto, esta técnica não pode ser utilizada
para avaliar a fidelidade do InterRAI-AC na sua globalidade dado o seu carácter
multidimensional. As variáveis que o constituem não devem ser somadas para
formar um valor global e o valor do α de Cronbach pode ser fortemente afetado
por uma grande quantidade de variáveis, como é o caso. Contudo, podemos
utilizar esta técnica para testar a consistência interna das várias escalas que
o constituem, mas apenas nas que resultam do somatório de variáveis, pois as
que são constituídas por algoritmos não garantem que cada variável contribua
igualmente para a pontuação final (Wellens et al., 2011).
Tendo em conta a forma de constituição de cada escala, foi testada a
consistência interna medida com o α Cronbach da Escala da Comunicação, da
Escala das Atividades Instrumentais da Vida Diária, da Escala do Delírio, da
Escala Curta de Classificação da Depressão e da Versão Curta da Escala das
Atividades de Vida Diária, nos três momentos (Pré-Admissão, Admissão e Alta)
(idem). Outra forma de testar a consistência interna das escalas é verificar as
correlações existentes entre as variáveis que as compõe e o score total, tendo
sido utilizados os coeficientes de correlação r de Pearson, ró de Spearman e o
V de Cramer. Espera-se que as variáveis tenham uma correlação significativa e
forte com a Escala à qual pertencem (Goodwin & Leech, 2003; Streiner &
Norman, 2008).
Desenho do estudo e amostra
Este estudo é do tipo longitudinal descritivo correlacional. A colheita dos
dados decorreu entre março e julho de 2012, em quatro hospitais de cuidados
agudos da Região Centro de Portugal, em serviços de medicina e cirurgia gerais.
Foi solicitada a colaboração dos enfermeiros que constituíam as equipas dos
serviços para a recolha dos dados. Em cada serviço, o enfermeiro chefe indicou
dois enfermeiros para coordenarem o trabalho de recolha de informação, junto
dos utentes e familiares, e para se articularem com a equipa de investigadores.
O registo dos dados colhidos poderia ser efetuado em papel ou em suporte
magnético. Para esta última hipótese, foi construído um aplicativo informático
que foi utilizado nos serviços que o pretenderam.
Foram realizadas formações a todos os enfermeiros sobre o instrumento InterRAI
AC e seu preenchimento.
Para cada serviço foi destinado um elemento da equipa de investigação que
esclarecia dúvidas e seletivamente recolhia dados de doentes para avaliar a
consistência dos registos.
A amostra foi constituída por todos os doentes internados nos serviços durante
o período da recolha dos dados, por um período superior ou igual a três dias.
Procedimentos éticos
Foi solicitada a autorização para a realização do estudo aos conselhos de
administração dos hospitais participantes que, após parecer positivo das
respetivas comissões de ética, a concederam.
A todos os doentes ou familiares foi solicitada a autorização para a
participação no estudo através de uma declaração de consentimento. Esta
autorização foi precedida de um esclarecimento sobre o estudo e os seus
objetivos, assim como da confidencialidade dos dados e, ainda, da não
existência de quaisquer custos ou prejuízos para os participantes.
Tratamento estatístico
As análises foram realizadas através do programa SPSS versão 19.0.
Foram utilizadas medidas de frequência e medidas descritivas como a média e
desvio padrão. De a cordo com o nível de mensuração das variáveis foram
utilizados o teste de qui quadrado para avaliar a independência entre variáveis
qualitativas, a análise da variância com um fator para a comparação de médias,
os coeficientes de correlação rde Pearsone ró de Spearman para a análise da
relação entre variáveis, respetivamente, numéricas e categóricas, e o V de
Cramer.
Resultados
Equivalência cultural e linguística
Deste processo que foi executado por um grupo de professores de enfermagem,
todos doutorados e por um grupo de enfermeiros com experiência profissional de
pelo menos 5 anos, em que todos eles falavam inglês, resultou um instrumento
com ligeiras alterações em relação ao original, nomeadamente a exclusão do 14º
dia de internamento como momento de registo, tendo em conta que o tempo médio
de internamento global, nos hospitais portugueses com a mesma tipologia da
amostra, é de 7,64 dias, tal como está expresso no Relatório Final do Grupo
Técnico para a Reforma Hospitalar criado pelo Despacho N.º 10.601/2011 do
Ministério da Saúde (Ministério da Saúde. Direcção-Geral da Saúde, 2011).
Também se decidiu retirar a componente que diz respeito à medicação, dado que a
análise desta informação não é útil para o estudo. Na secção relativa à
avaliação do estado da pele, decidimos incluir mais uma questão referente ao
risco de adquirir úlcera de pressão. Esta variável pode constituir uma base de
evidência da efetividade dos cuidados de enfermagem, na medida em que permite
estabelecer uma relação entre o diagnóstico de risco e a ocorrência ou não de
úlcera de pressão.
Por não serem consideradas relevantes para o estudo, foram retiradas da secção
de identificação as seguintes questões: identificação da etnia/raça, do nome do
médico responsável pelo doente, número de identificação nacional, da
instituição/agência fornecedora do número e fontes de financiamento do
internamento. Da secção relativa à admissão e história inicial, foi retirado o
código correspondente à Residência de Saúde Mental dado que este tipo de
valência não existe no nosso sistema de saúde.
Características da amostra de dados
Foram recolhidos um total de 1823 questionários. Depois de uma revisão em que
se eliminaram os questionários muito incompletos ou que não cumpriam os
critérios de inclusão, reunimos um total de 1764 questionários. Comparadas as
amostras dos 4 hospitais verificámos, através do teste qui-quadrado, que nelas
não existem diferenças significativas na proporção de homens e mulheres (²=
6,626; p=0,085).Em relação à idade verifica-se que a média global é de 70,78
anos e que através da ANOVA se verifica-se que não existem diferenças
significativas entre as médias de idades nos quatro hospitais (F=0,604;
p=0,612).
Pela análise da Tabela_2 é ainda possível verificar que a maioria dos doentes
provém dos serviços de medicina com 64% e que existe uma proporção de 12,3% de
indivíduos que vivem sozinhos.
Fiabilidade inter-juízes
Foram avaliados 151 itens distribuídos por 13 secções do InterRAI CA-PT,
recolhidos em cada um dos três momentos - Pré-admissão, Admissão e Alta. A
proporção de concordância foi quase perfeita em 44% (66) dos itens, foi
substancial em 41% (62) dos itens, foi moderada em 14% (22) dos itens e foi
pobre em 1% (1) dos itens, como podemos verificar na Tabela_3.
Os itens com maior interesse são aqueles em que o avaliador interpreta os dados
que recolhe do utente, como os referentes ao desempenho cognitivo, ao humor, às
atividades de vida diária, às atividades instrumentais de vida diária e à dor
(Gray et al., 2008). Na Secção Comportamento e Ânimo, que inclui os itens
referentes ao humor, a proporção de concordância em 80% dos itens foi superior
a substancial, ou seja, os valores de K foram superiores a 0.61. Na secção
Estado Funcional, que inclui os itens referentes às AVDs, e às AIVDs, a
proporção de concordância em 94% dos itens foi superior a substancial. Na
Secção Condições de Saúde, que inclui os itens referentes à dor, a proporção de
concordância em 67% dos itens foi superior a substancial.
Consistência Interna
O coeficiente de α de Cronbach para cada uma das escalas foi superior a 0.80,
como podemos verificar na Tabela_4, e não aumentou com a eliminação de qualquer
das variáveis constituintes das escalas.
Foi testada a correlação entre os itens que compõe a Escala Curta de
Classificação da Depressão e a própria escala e os valores das correlações
foram todos superiores a 0.8. Quando testámos as correlações entre os itens que
compõe a Escala da Comunicação e a própria escala, verificámos que as
correlações são bastante altas, superiores a 0.90. Nas Escalas do Delírio, das
Atividades Instrumentais de Vida Diária e a Versão Curta da Escala das
Atividades de Vida Diária, em todas elas a força das correlações é superior a
0.8.
Validade de conteúdo
As percentagens de dados omissos por variável são irrelevantes, como podemos
verificar na Tabela_5, ou seja, 13 variáveis (7%) não têm dados omissos, 104
(57%) têm percentagens de dados omissos inferiores a 1%, 57 variáveis (31%) têm
percentagens de dados omissos entre 1% e 2% e apenas 9 variáveis (5%) têm
percentagens de dados omissos superiores a 2%. As variáveis Altura e Peso foram
as que tiveram percentagens mais altas de dados omissos, 12,9% e 13%,
respetivamente, mas isto pode-se dever ao facto de estes dados serem difíceis
de obter em situações de dependência funcional. Quanto aos três momentos de
avaliação do InterRAI AC, o preenchimento foi idêntico e as percentagens de
dados omissos não variam muito nos três momentos.
Analisando a quantidade de códigos inválidos por variável, verificámos que das
214 variáveis analisadas, 67 (31%) tinham códigos inválidos, sendo que 31
destas tinham apenas um código inválido num só questionário preenchido, e nas
restantes variáveis a quantidade de códigos inválidos foi considerada
irrelevante.
Validade de constructo
Para testar a estrutura interna da versão portuguesa do InterRAI-AC, foram
analisadas as relações correspondentes às 25 hipóteses por nós formuladas e
apresentadas no Tabela_1. Como resultado, obtivemos a confirmação total da
consistência (100% de consistência) com todas as relações verificadas.
Validade concorrente
Para além das relações entre os códigos das variáveis foram também analisadas
sete correlações entre variáveis que se espera terem correlação com base na
evidência da literatura, como se pode verificar na Tabela_6.
As sete correlações demonstraram ser significativas: estado funcional com
desempenho cognitivo; estado funcional com Índice de Massa Corporal; estado
funcional com atividade física; estado funcional com a visão (Stuck et al.como
citado por Wellens et al., 2010); continência fecal com úlceras de pressão;
úlceras de pressão com mobilidade na cama (Allman, 1997, apudWellens et al.,
2010) e úlceras de pressão com alterações da consciência (Maklebust e Magnan,
1994, apudWellens et al., 2010).
Discussão
A tradução, validação e adaptação cultural de um instrumento num idioma
diferente daquele em que é produzido revela-se importante, uma vez que ajuda a
desenvolver os métodos de validação e o próprio instrumento, pois é pela
comparação dos resultados da utilização que se vai construindo a validação do
instrumento em relação à sua pertinência e utilidade (Wellens et al., 2010).
Por outro lado, é sempre uma tarefa desafiante que exige uma metodologia
adequada para que a sua utilização seja segura e a possibilidade de erro seja
minimizada. Por outro lado, uma vez que os contextos são variáveis, os
processos de adaptação e validação são essenciais para comparar resultados
entre instituições, entre sistemas de prestação de cuidados e entre países.
No caso dos instrumentos da organização InterRAI, particularmente do InterRAI
AC, esse processo é ainda mais desafiante e complexo, uma vez que se trata de
instrumentos compreensivos, multidimensionais que necessitam de ser avaliados
como um todo e transversalmente a todos os domínios, em todos os momentos, e em
cada item (Hirdes et al., 2008).
Tendo em conta o carácter do instrumento, seguiu-se a opinião e as
recomendações de Wellens et al. (2010, 2011) quer para a avaliação da validade,
quer para a da fiabilidade.
A avaliação da validade do constructo á habitualmente feita com ajuda da
análise fatorial, cujo objetivo é a redução de um conjunto grande de variáveis
para um conjunto mais pequeno com características comuns ou a criação de
dimensões subjacentes. Uma vez que o InterRAI AC tem as características de um
resumo mínimo de dados, em que cada domínio já está identificado, tem já um
número mínimo de itens e não é calculado um scoreglobal, Wellens et al. (2010)
consideram que não é apropriado na validação fazer a redução de variáveis
através das técnicas de análise fatorial.
Os resultados que obtivemos nesse processo permitem dizer que a versão que
resultou é mais um passo na consolidação do InterRAI AC como um instrumento
capaz de ajudar os profissionais de saúde na obtenção de dados sobre os doentes
que permitam a produção de informação e conhecimento para a qualidade de
cuidados e para a determinação de políticas que permitam uma organização mais
centrada na pessoa e nos resultados das intervenções, para além da
monitorização e validação de dados produzidos por outros meios e instrumentos.
Quanto aos dados obtidos verificámos que a média de idade da amostra é de 70.78
anos, o que corresponde a uma população idosa, a maioria a viver na sua
residência.
No que diz respeito à validação de conteúdo e à adaptação cultural, todos os
peritos foram unânimes quanto ao valor deste instrumento no seu conjunto,
quanto aos itens que compõem e quanto à sua utilidade.
No que toca à equivalência da informação, quando foram obtidos e registados
dados acerca do mesmo doente por juízes diferentes, registaram-se concordâncias
substanciais na maioria dos casos. Nas situações em que é necessária uma
capacidade interpretativa maior, por parte do juiz, verificaram-se níveis de
concordância em 80% dos itens superiores a substanciais (> 0.61) no
Comportamento e ânimo. No que toca aos itens relacionados com as AVDs e com as
AIVDs, o nível de concordância inter-juízes foi também superior a substancial
em 94% dos itens. Estes dados estão em linha com os obtidos por Hirdes et al.
(2008).
No que diz respeito à consistência interna das escalas que produzimos, em todas
elas foi encontrado um valor superior a 0,80, sendo que a maioria apresentava
valores superiores a 0,90, o que significa uma forte consistência interna das
escalas e o que contribui para uma boa fiabilidade do instrumento.
Em relação à validade baseada na estrutura interna, analisada a partir da
relação entre codificações de variáveis relacionadas (Wellens et al., 2010),
que corresponde a 25 hipóteses que formulámos nesse sentido, verificámos em
todas elas 100% de consistência. Este resultado é, na perspetiva das autoras,
essencial para a validação de instrumentos complexos como o InterRAI AC.
Obtivemos também valores de correlação significativos entre variáveis que a
teoria diz estarem relacionadas. Em relação a estas correlações deve referir-se
que a sua significância estatística se deve em grande medida ao tamanho da
amostra, porquanto os valores de correlação são em alguns casos <70 o que
significa que o grau de variação de uma variável que é explicada pela variação
de outra variável nem sempre é grande. Exemplo do exposto são as correlações
entre: índice de massa corporal e estado funcional (r=-0.087); atividade física
e estado funcional (r=0.473); visão e estado funcional (r=0.471). Apesar disso
devemos considerar o contributo e a necessidade de se ter intervenção nesses
atributos para obter ganhos na atividade física, esse é um dado a reter nesta
validação.
Limitações
O tempo de demora com o preenchimento de cada questionário (em média 15
minutos) revelou-se um fator limitativo deste estudo, pois em circunstâncias em
que o tempo já é escasso para os cuidados, a disponibilidade dos enfermeiros
para o seu preenchimento é menor, o que tem repercussões no tamanho da amostra.
Conclusão
As análises realizadas no processo de validação do InterRAI AC, versão
portuguesa, demostram que este instrumento é válido e fiável, sendo portanto
uma excelente ferramenta para ser utilizada nos contextos de prestação de
cuidados em serviços de cuidados agudos.
Este instrumento pode ser muito útil na obtenção de dados para diversos fins
como indicadores de qualidade, planeamento de cuidados, base de evidência para
a tomada de decisão, entre outros.
Para além da sua utilização pontual no âmbito de algum trabalho de
investigação, o InterRAI Cuidados Agudos, versão portuguesa, poderia ser
integrado como ferramenta fundamental no processo de recolha de informação
sobre os pacientes, pois este instrumento fornece uma visão holística da
história e da evolução do paciente, possibilitando assim prestar cuidados mais
documentados.
O principal obstáculo na aplicação do interRAI Cuidados Agudos, versão
portuguesa, é o tempo necessário para o seu preenchimento. Serão necessários
mais estudos para avaliar se o tempo gasto na aplicação deste instrumento pode
ter como retorno a melhoria da efetividade e qualidade dos cuidados.