Tradução, adaptação e validação do Relationship Questionnaire em jovens
portugueses
Introdução
Uma das tarefas de desenvolvimento com a qual os adolescentes/jovens se
confrontam prende-se com o estabelecimento de relações interpessoais de
qualidade, as quais terão influência no processo de construção da sua
identidade, integridade, autonomia, autoconceito, autoestima e gestão
emocional.
No âmbito das relações interpessoais importa destacar as relações amorosas.
Nesta fase da vida, os adolescentes caracterizam-se por uma maior autonomia
face à família, desenvolvem relações íntimas com pares do mesmo sexo e começam
a namorar. O namoro e o estabelecimento de relações amorosas representam uma
transição para a adultez sendo para muitos adolescentes manifestações do estado
adulto (Hand & Furman, 2009).
Os relacionamentos amorosos assumem maior significado no final da adolescência,
começando os adolescentes a ensaiar os equilíbrios entre a construção da
intimidade e da identidade. Collins, Welsh, e Furman (2009) constataram a
existência de associações entre as relações românticas na adolescência e
aspetos do desenvolvimento individual, tais como construir uma identidade
pessoal, adaptar-se às mudanças nas relações familiares, envolver-se em
relações harmoniosas com pares, ter sucesso escolar e desenvolver a sua
maturidade sexual.
No que concerne às diferenças de sexo, as raparigas tendem a reportar níveis
mais elevados na qualidade da relação com o par amoroso, nomeadamente no que
respeita à intimidade e à satisfação (Connolly & McIssac, 2011).
A investigação revela a existência de diferenças nas características das
relações românticas adolescentes em função da idade (Adams, Laursen, &
Wilder, 2001). As relações amorosas, em fases iniciais, são sobretudo
caracterizadas por níveis elevados de afiliação, que se traduzem na procura de
proximidade física, na partilha de atividades e no companheirismo (Adams et
al., 2001). Com o aumento da idade, verifica-se uma tendência para a procura de
proximidade emocional, manifestada através da interdependência, da
reciprocidade e da diversidade de atividades que ocorrem entre os parceiros,
bem como através de interação social diária (Adams et al., 2001; Pinto, 2009).
Markiewicz, Lawford, Doyle, e Haggart (2006) constataram que no início da
adolescência os níveis de suporte pelos pares aumentam. Contudo, verifica-se um
declínio dos mesmos na adolescência tardia, sendo que nesta fase o suporte é
providenciado pelo par romântico.
A relação amorosa traduz um fenómeno no qual a independência e a admiração
mútua resultam numa forma de entendimento e de compreensão do par romântico,
tornando-se cada elemento da díade uma figura de vinculação. Nesta perspetiva,
uma relação saudável seria aquela em que cada indivíduo tem a sua própria
identidade e deseja fazer o bem à pessoa amada, sem esperar recompensa (Rosset,
2004).
Para Sangrador (como citado por Fiol, 2007) o amor pode entender-se como uma
atitude (atitude positiva ou de atração relativamente a outra pessoa, que
inclui uma predisposição para pensar, sentir e comportar-se de um certo modo
relativamente a essa pessoa), uma emoção (sentimento ou paixão que inclui
determinadas reações fisiológicas) ou um comportamento (cuidar da outra pessoa,
estar com ela, atender às suas necessidades). Importa assim aprofundar o estudo
das relações amorosas em termos de comportamentos, sentimentos, conceitos e
motivações.
As relações amorosas tenderão a influenciar de modo positivo os indivíduos,
indo ao encontro das suas expectativas, auxiliando na resolução dos seus
problemas e promovendo a satisfação das suas necessidades (Pinto, 2009). Servem
igualmente como fatores protetores da vitimização e da solidão (Woodhouse,
Dykas, & Cassidy, 2012). Apesar do estabelecimento de relações de namoro
constituir uma tarefa de desenvolvimento dos adolescentes/jovens, nem sempre se
processa de modo positivo, gratificante e adequado tanto para o próprio como
para o outro. Assim, poderão surgir problemas tais como: o isolamento social, a
timidez e ansiedade social e a violência (Shulman & Kipnis, 2001).
As relações de amor na adolescência/juventude podem variar na sua intensidade
(ténue-extrema) e na qualidade (agradável-dolorosa). Madsen e Collins (2011)
constataram que os adolescentes que tiverem menos parceiros na adolescência
intermédia e que experienciaram relações de melhor qualidade, aquando jovens
adultos evidenciavam relações caracterizadas pela negociação de conflitos tendo
por base a satisfação mútua, o cuidado e a atenção ao outro. Pelo contrário, os
adolescentes que tinham tido mais parceiros tendiam a estabelecer relações
românticas pautadas por uma afetividade negativa.
Estudos realizados nos últimos anos têm demonstrado que a violência nas
relações amorosas é um fenómeno frequente e habitual, evidenciando que esta se
inicia com frequência nas relações de namoro (Muñoz-Rivas, Gómez, O'Leary,
& Lozano, 2007).
A agressão indireta face ao par romântico é usada mais frequentemente pelas
raparigas, sendo as relações mediadas pelo ciúme (Arnocky, Sunderani, Miller,
& Vaillancourt, 2012).
Nas relações amorosas um dos sentimentos que tende a estar presente é o ciúme
romântico. Se para muitos o ciúme pode representar uma manifestação de amor, de
afeto, de zelo que uma pessoa revela por outra, ele é, na verdade, um
sentimento que produz angústia em muitos parceiros e pode atingir formas
doentias, com consequências nefastas para a saúde física e mental dos
indivíduos envolvidos. Estes são os casos em que o ciúme se torna patológico,
doentio, traduzindo-se numa obsessão descontrolada e descontroladora (Almeida,
Rodrigues, & Silva, 2008). O que aparece neste tipo de ciúme é um grande
desejo de controlo total sobre os sentimentos e comportamentos do companheiro.
O ciúme geralmente surge quando um relacionamento diádico valorizado é
ameaçado. Implica o exercício de uma certa restrição sobre o outro, porque o
parceiro ciumento, de algum modo, interfere no comportamento do outro e na sua
liberdade, tornando-se possessivo e controlador. O ciúme poderá ter na sua base
uma insegurança afetiva devida à interferência de um rival e pode envolver
sentimentos como medo, suspeição, desconfiança, angústia, ansiedade, raiva,
rejeição, indignação, constrangimento e solidão, entre outros, dependendo de
cada pessoa (Arnocky et al., 2012).
Numa relação afetada pelo ciúme, as pessoas, geralmente, são tratadas como
objetos pelos próprios parceiros. Muitas anulam-se e, assim, perdem grande
parte da sua identidade para serem o que o ciumento quer que sejam, tentando
corresponder a todas as suas expectativas (Almeida et al., 2008).
As relações amorosas dos adolescentes/jovens deverão ser, desejavelmente, a
tradução de uma relação de cuidado, de atenção, encerrando em si,
simultaneamente, mudanças e desafios pessoais, sociais e relacionais (Pinto,
2009). Deste modo importa promover uma melhor compreensão acerca das
experiências amorosas que estabelecem ao longo do tempo e das implicações das
mesmas na sua saúde e bem-estar (Starr et al., 2012).
É necessário abordar a temática das relações amorosas e da atenção ao outro
pensando na prevenção das relações de violência e maltrato, com a finalidade
última de evitar relações dominantes e vitimizadoras. Para tal é necessário o
desenvolvimento de instrumentos de natureza psicopedagógica e didática com o
objetivo de favorecer, nos contextos educativos, a elaboração pessoal destas
relações, particularmente junto dos adolescentes e jovens (García, 2008).
Importa conhecer a qualidade dos relacionamentos amorosos que os jovens
estabelecem de forma a otimizar os mesmos, convertendo-os numa oportunidade e
num contexto promotor do seu desenvolvimento pessoal e relacional. Ao nível da
intervenção será também premente a promoção de competências e de recursos
pessoais que permitam assegurar o bem-estar pessoal, transformando as relações
amorosas em realidades o mais positivas possível, promotoras da vivência e
experienciação dos sentimentos pelo outro e pela relação de intimidade e de
compromisso, com vista à satisfação da díade.
Tendo subjacente a importância das relações amorosas que os jovens estabelecem
e as implicações nos diferentes domínios e não havendo um instrumento validado
para a população portuguesa que permitisse avaliar estes aspetos, o presente
trabalho tem como objetivos adaptar e validar para a língua portuguesa o
Relationship Questionnaire (Questionário do relacionamento amoroso ' QRA) e
determinar a qualidade de relacionamento amoroso em jovens portugueses.
Metodologia
População e amostra
Para a concretização dos objetivos foi desenvolvido um estudo metodológico
envolvendo 127 estudantes que frequentavam uma instituição de ensino superior
da região centro de Portugal, no ano letivo 2010/2011. Para a seleção da
amostra não probabilística intencional definiram-se os seguintes critérios de
inclusão: ter idade igual ou superior a 18 anos; ter ou ter tido namorado(a) e
não ser casado.
Sendo o instrumento a validar constituído por 22 itens, a amostra mínima
necessária seria de 110 adolescentes cumprindo os pressupostos referenciados
por Pestana e Gageiro (2005), que salientam que o mínimo de respostas válidas
(N) por variável (K) é: 5x 22.
Instrumento
Foi utilizado um questionário composto por dois grupos de variáveis:
características sociodemográficas (sexo, idade) e de relacionamento amoroso
(ter namorado, tipo de relacionamento, componente sexual no relacionamento,
frequência de contacto e futuro do relacionamento), e o Questionário do
Relacionamento Amoroso (QRA).
O QRA é constituído por 22 perguntas com três opções de resposta (sim, não e às
vezes) destinado a avaliar a existência de sinais indicadores de um
relacionamento não saudável (National Resource Center on Domestic Violence,
n.d).
No processo de adaptação cultural que corresponde à validação linguística e
conceptual seguimos as guidelines internacionais (Rahman, Waheed, &
Hussain, 2003) que a seguir se descrevem.
Equivalência linguística e conceptual do QRA
A equivalência linguística e conceptual corresponde à adaptação transcultural
do instrumento, tendo sido realizada conforme o método preconizado pela
literatura.
A tradução de inglês para português do RQ foi efetuada por dois portugueses
fluentes em inglês e conhecedores dos objetivos do estudo. Durante o período de
tradução foram realizados alguns contactos com os tradutores a fim de lhes ser
explicado o objetivo do instrumento de medida e as intenções subjacentes à
conceção de cada item para que a tradução mantivesse o mesmo significado da
versão original (equivalência do item).
A análise das diferenças entre as duas versões das traduções foi realizada por
três peritos da área e da língua, resultando a primeira versão do RQ em
Português (Portugal).
A retroversão ou retro tradução da primeira versão em Português (Portugal) foi
realizada por outros dois tradutores, sem conhecimento prévio do questionário
original.
Após a análise e comparação de todas as versões, não tendo sido encontradas
discrepâncias significativas, efetuou-se o ajuste do instrumento, do qual
resultou a segunda versão do RQ em Português (Portugal).
A constituição de uma comissão de peritos e submissão dos instrumentos à sua
análise, teve como objetivo validar a existência dos conceitos na cultura da
população alvo e, ao existirem, verificar se eram interpretados de modo
semelhante nas duas culturas. Foi ainda solicitado aos juízes a revisão da
apresentação dos instrumentos, as instruções para o seu preenchimento e a
escala de respostas, de forma a assegurar a sua reprodutibilidade. Durante este
processo foi sugerido que as perguntas tivessem resposta do tipo Likert com 4
pontos, variando de 1 (nunca) a 4 (frequentemente), pois a fidedignidade de uma
escala aumenta consideravelmente a partir de duas opções de resposta, sendo
mais fácil discriminar as opções de resposta. Pontuações mais elevadas
correspondem a relacionamentos amorosos menos saudáveis.
A etapa seguinte consistiu na realização da reflexão falada (Thinking aloud).
Aplicámos a 3ª versão em Português (Portugal) dos instrumentos a um grupo com
características semelhantes à população em estudo. A amostra foi constituída
por seis estudantes que aceitaram voluntariamente responder aos questionários e
contribuir com comentários para a sua aferição.
Este procedimento teve como objetivos testar junto da população alvo o formato
e aparência visual; a compreensão das instruções e dos diferentes itens; e a
recetividade e adesão aos conteúdos. Averiguámos ainda se o instrumento estava
redigido com clareza, sem tendenciosidade, se solicitava o tipo de informação
pretendida e se a apresentação permitia um correto preenchimento. Não houve
sugestões de alterações.
Equivalência psicométrica do QRA
A equivalência psicométrica refere-se ao grau ou extensão em que as
propriedades psicométricas das versões do mesmo instrumento são semelhantes. De
salientar, contudo, que em virtude do original não se configurar como uma
escala não foi submetido a procedimentos estatísticos, pelo que optámos por
realizar os procedimentos indicados por Streiner e Norman (2008) e que se
descrevem no capítulo dos resultados.
Procedimentos formais e éticos e tratamento de dados
Após receber a autorização formal para a adaptação cultural e linguística da
versão Portuguesa do RQ e do processo da tradução e retro tradução estar
finalizado, foi solicitada autorização à direção da instituição do ensino
superior para a realização do estudo. Após a sua autorização, o questionário
foi aplicado em contexto de sala de aula após o consentimento informado dos
inquiridos.
Após a recolha dos dados, procedeu-se ao lançamento e processamento dos mesmos
no programa de análise estatística de dados Statistical Package for Social
Sciences (SPSS), versão 17.
As propriedades psicométricas do instrumento estudado foram calculadas
utilizando medidas descritivas de resumo, correlações de cada item com o total
(excluindo o respetivo item) e o alfa de Cronbach como medida de fidelidade
interna dos instrumentos. A validade de constructo foi avaliada através da
análise fatorial em componentes principais com rotação ortogonal pelo método
varimax. Foi ainda utilizado o Teste t de Student para verificar a existência
de diferenças significativas entre as médias de resultados do sexo masculino e
feminino.
Na totalidade dos itens da escala, a percentagem de não respostas foi inferior
a 3% pelo que para efeitos de tratamento estatístico, as não respostas foram
substituídas pelo valor médio dos casos válidos da variável (Pestana &
Gageiro, 2005).
Resultados
Características sociodemográficas e do relacionamento da amostra
A média de idades dos estudantes é de 19,6 anos (DP= 3,8), variando entre os 18
e os 27 anos e 78,7% (100) dos participantes são do sexo feminino. Todos os
estudantes frequentam o 1º ano do ensino superior e 8,7% são estudantes
trabalhadores. No momento da recolha de dados, 36% não tem namorado e dos 101
participantes que responderam à questão do tipo de relacionamento que tinham ou
têm com o namorado, verificamos que 82,2% referiram que tinham/têm um
relacionamento estável. Dos participantes, 45% referiram que contactam várias
vezes por semana com o namorado e 55,1% acreditam que o futuro do
relacionamento passa por viverem juntos. Em 87,9% a relação de namoro envolve
uma componente sexual. A duração de namoro dos 122 inquiridos que responderam a
esta questão é em média de 17,4 meses (DP= 17,4), variando entre os 1 e os 84
meses.
Características psicométricas do QRA
As características psicométricas foram determinadas por uma avaliação de
fidelidade e validade, tendo deste estudo resultado uma escala final
constituída por 16 itens. O estudo dos itens e da fidelidade foi realizado de
acordo com os seguintes critérios: determinação do coeficiente de correlação
entre as diversas questões e a nota global e determinação do coeficiente (a)
alfa de Cronbach, tanto para a globalidade dos itens como para o conjunto da
escala, à medida que foram sendo excluídos, um a um, os vários itens.
Tendo presente estes critérios verificamos que as correlações do item-total
obtidas foram todas positivas, bastante elevadas e altamente significativas
(p<0,001). Todos os valores de correlação foram superiores a 0,30. Verificam-se
correlações corrigidas de cada item com o total da escala entre 0,302 e 0,743,
e a média das correlações entre todos os itens da escala atesta a homogeneidade
do conjunto de enunciados (Streiner & Norman, 2008).
Quanto ao coeficiente de alfa (a) de Cronbach, verifica-se que na quase
totalidade (exceção do item 1) dos itens este valor desce quando ele é
excluído, o que significa que melhoram a homogeneidade da escala quando estão
presentes. O item 1 não foi excluído pois, ao ser eliminado não melhorava
significativamente o alfa de Cronbach e em termos teóricos é importante para a
escala. Nenhum dos itens apresenta valores inferiores a 0,80. Para a
globalidade dos itens o valor alfa de Cronbach é de 0,847 (Tabela_2) o que
segundo vários autores corresponde a um bom valor (Pestana & Gageiro, 2005;
Streiner & Norman, 2008).
Validade
Para o estudo da validade do instrumento e, mais especificamente, da sua
estrutura interna, realizámos procedimentos de análise fatorial em componentes
principais. No sentido de se maximizar a saturação dos itens, procedemos à
rotação ortogonal pelo método de Varimax.
Após sucessivas análises e de acordo com critérios estatísticos e de
interpretabilidade, optámos por uma estrutura fatorial de componentes
principais, segundo a regra de Kaiser. Para se obter uma estrutura fatorial
harmoniosa e fiável utilizaram-se, para a eliminação de itens, os seguintes
critérios: saturação inferior ou igual a 0,3; e correlação simultânea com dois
fatores, sendo que a distância entre ambos os valores não dista mais do que
0,1.
De acordo com estes critérios, os resultados dessa análise revelaram que os 16
itens se organizam em quatro fatores que explicam 63,865% de variância (Tabela
3).
Na Tabela 3 podemos igualmente observar que foi rejeitada a hipótese da matriz
de correlação constituir uma matriz de identidade (?2 =840,544; p<,000) e que a
medida de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO=0,815) se aproxima da unidade, garantindo que
a adequação do modelo fatorial a esta matriz de correlações é elevada. De
salientar que o valor mais baixo de cumunalidades é de 0,47.
A designação atribuída a cada fator procurou refletir o conteúdo conceptual
global dos itens que o compõem: relação de controlo; relação possessiva;
relação destrutiva e relação depreciativa
O Gráfico de Cattell ou Scree Plot do QRA (Gráfico_1) permite confirmar a
adequação da matriz fatorial aos dados analisados, verificando-se uma
inclinação da reta até ao quarto componente, sendo este o valor correspondente
a um maior afastamento entre os valores próprios (Pestana & Gageiro, 2005).
Pelos dados apresentados na Tabela_4 verifica-se uma correlação entre fraca
(0,274) e elevada (0,825) entre as várias subescalas e entre estas e o total do
QRA. São igualmente correlações positivas e significativas (p=0,01), indicando
que medem o mesmo constructo.
Qualidade do relacionamento amoroso
Pela análise da Tabela_5, constatamos que, ao nível da qualidade da relação
amorosa, os inquiridos do sexo masculino apresentam, em média, uma pontuação
mais elevada que os do sexo feminino, quer para o total da escala quer para os
diferentes fatores. Isto corresponde a relacionamentos amorosos menos
saudáveis, sendo que essas diferenças têm significado estatístico ao nível da
totalidade da qualidade do relacionamento amoroso (t=2,338; p=0,021), ao nível
da relação de controlo (t= -3,063; p=0,003) e ao nível da relação destrutiva
(t= 2,302; p=0,023).
Discussão
Este estudo teve como objetivos adaptar e validar para a língua portuguesa o
QRA (Questionário do relacionamento amoroso) e determinar a qualidade de
relacionamento amoroso em jovens portugueses. Participaram, neste estudo, 127
estudantes de uma instituição do centro de Portugal que frequentavam o ensino
superior no ano letivo 2010/2011. Em média, os estudantes tinham 19,6 anos (DP=
3,8), eram maioritariamente do sexo feminino (78%) e não tinham namorado (36%).
Relativamente ao tipo de relacionamento que tinham ou tiveram com o namorado,
dos participantes que responderam à questão (101), a maioria (82,2%) referiu
ter ou ter tido um relacionamento estável, contactando o namorado várias vezes
por semana (45%). Além disso, 87,9% acreditam que o futuro do relacionamento
passa por viverem juntos. Estes resultados estão em consonância com o apontado
por alguns autores (Adams et al., 2001) que referem diferenças nas relações
românticas entre os adolescentes em função da idade. Assim sendo as fases
iniciais são caracterizadas por níveis elevados de afiliação, como a procura de
proximidade física, partilha de atividades e companheirismo (Adams et al.,
2001). As fases finais caracterizam-se pela procura de proximidade emocional,
sendo esta manifestada através da interdependência, da reciprocidade e da
diversidade de atividades entre a díade e de interação social diária (Adams et
al., 2001; Pinto, 2009). A maioria (87,9%) refere que o namoro envolve a
componente sexual.
Em virtude deste instrumento não ter ainda sido submetido a nenhum estudo
psicométrico não é possível fazer comparações. No entanto, é possível salientar
que o questionário resultante deste estudo apresenta boas características
psicométricas. Apresenta uma boa consistência interna (a de Cronbach de 0,847),
sendo o valor alfa de Cronbach para a globalidade dos itens considerado um bom
valor (Pestana & Gageiro, 2005; Streiner & Norman, 2008). Nenhum dos
itens apresenta valores inferiores a 0,80.
Os resultados apontam para uma escala de 16 itens, distribuídos por 4 fatores
(Relação possessiva, Relação de controlo, Relação depreciativa e Relação
destrutiva), que explicam 63,850% da variância.
No que respeita à qualidade da relação amorosa, os dados obtidos revelam que os
relacionamentos amorosos dos inquiridos, tomando como valor de referência a
mediana, são saudáveis. O indicador com resultados menos saudáveis diz respeito
ao item Ele/ela tem ciúmes dos seus amigos (M=2,1; DP=0,97) o que vai ao
encontro do referido por Almeida et al. (2008) ao salientar que nas relações
amorosas o ciúme romântico tende a estar presente podendo mesmo atingir formas
doentias.
Nesta amostra, os resultados evidenciam a inexistência de violência nas
relações amorosas, apesar dos estudos referirem ser um fenómeno frequente e
habitual e que se inicia com frequência nas relações de namoro (Muñoz-Rivas et
al., 2007). A qualidade das relações amorosas poderá ter repercussões positivas
do ponto de vista do desenvolvimento destes jovens, indo ao encontro do
mencionado por Pinto (2009) e ser fator protetor da vitimização e da solidão
(Woodhouse et al., 2012).
No entanto, atendendo a que pontuações mais elevadas correspondem a
relacionamentos amorosos menos saudáveis, os jovens do sexo masculino
estabelecem, em média, relações menos positivas que os do sexo feminino, uma
vez que apresentam pontuações mais elevadas, quer para o total da escala quer
para as diferentes dimensões. Assim, apesar de a relação amorosa dever
traduzir-se em entendimento e compreensão entre o par romântico, em que cada um
mantém a sua própria identidade e deseja fazer o bem à pessoa amada sem esperar
recompensa (Rosset, 2004), as relações positivas nem sempre acontecem.
Verificamos ainda que as diferenças, em função do sexo, têm significado
estatístico ao nível da totalidade da qualidade do relacionamento amoroso, da
relação de controlo e da relação destrutiva. Estes resultados vêm ao encontro
do referido por Shulman e Kipnis (2001), ao mencionarem que nem sempre as
relações de namoro se processam de modo positivo e gratificante. Por outro
lado, os estudos evidenciam (Almeida et al., 2008; Arnocky et al., 2012) que as
relações amorosas mediadas pelo ciúme, controlo e posse afetam o
desenvolvimento interpessoal dos jovens. Nesta amostra, a dimensão relação
possessiva é a que apresenta pontuações mais altas, em ambos os grupos.
Numa perspetiva de prevenção das relações de violência e de relações dominantes
e vitimizadoras, torna-se importante o desenvolvimento de instrumentos de
natureza psicopedagógica e didática que permitam uma intervenção junto dos
adolescentes e jovens, numa perspetiva desenvolvimental, especialmente em
contextos educativos, tal como recomenda García (2008).
Assim, os resultados obtidos na adaptação do QRA à população portuguesa
confirmam este instrumento como rigoroso, válido e com boas características
psicométricas. A escala constituída por 16 itens, distribuídos por 4 fatores
(Relação possessiva, Relação de controlo, Relação depreciativa e Relação
destrutiva) que explicam 63,850% da variância, apresenta uma boa consistência
interna (a de Cronbach de 0,847). Isto permite a possibilidade da escala ser
usada com confiança em estudos futuros na avaliação da relação amorosa dos
adolescentes, assim como na prática educacional com o objetivo de avaliar a
eficácia de intervenções junto desta população.
Sugerimos que em estudos futuros a amostra seja maior e colhida em diversos
pontos do país.
Em síntese, consideramos que este estudo pode contribuir para conhecer a
qualidade dos relacionamentos amorosos dos jovens de forma a otimizá-los com
vista ao seu desenvolvimento pessoal e relacional.
Conclusão
Os estudos recentes demonstram que os relacionamentos amorosos assumem um
significado especial na adolescência e juventude, constatando-se a existência
de associações entre estes e aspetos do desenvolvimento individual.
Os resultados apontam para uma escala com uma boa consistência interna e
confiabilidade, confirmando o instrumento como rigoroso, válido, com boas
características psicométricas. Assim, poderá ser utilizado em estudos futuros,
sendo muito importante para a prática de enfermagem na área do adolescente e
jovem.
A validação do Relashionship Questionnaire (RQ) para a população portuguesa
constitui, assim, um valor acrescentado aos instrumentos de investigação
direcionados para jovens, dado que possibilita determinar a qualidade dos seus
relacionamentos amorosos e implementar programas de intervenção com vista ao
desenvolvimento de competências pessoais e relacionais que potenciem o
estabelecimento de relações íntimas saudáveis, responsáveis e gratificantes.