Editorial
EDITORIAL
Editorial
Os cuidados de saúde inteligentes estão iminentes: chegou o momento de os
enfermeiros assumirem o controlo
As tecnologias de informação e comunicação (TIC) têm impacto em quase todas as
áreas da vida humana, e a utilização da internet para fins de saúde tem vindo a
crescer anualmente. A digitalização altera a forma de acesso ao conhecimento e
a utilização dos serviços de saúde de uma forma inesperada. O papel dos
cidadãos/doentes tem vindo a alterar-se, passando de um papel de utilizador
passivo de serviços e recetor de informação para um papel ativo de promotor da
saúde e profissional capacitado ao nível do autocuidado. De acordo com um
estudo de avaliação realizado no ano passado, os cidadãos gostariam de ter
acesso online aos resultados das suas análises laboratoriais, aos seus
processos e prescrições, renovar as suas receitas online, marcar consultas, ter
acesso a informação fiável sobre saúde e bem-estar e a recomendações sobre
cuidados, bem como ter acesso a um diretório eletrónico de serviços. Esta
evolução é já uma realidade em muitos países.
Em quatro países nórdicos, é dada ênfase aos cuidados de saúde centrados no
cidadão e foram construídos ou estão em processo de desenvolvimento serviços
virtuais. Na Finlândia existem vários serviços que atribuem ao doente um papel
fundamental no seu percurso pelos serviços de saúde, como por exemplo o
National eArchive(sistema Kanta) com os processos clínicos eletrónicos dos
doentes. Com a ajuda de cartões de identificação eletrónicos ou certificados
móveis, os cidadãos têm acesso através do eArchive às páginas My Kanta, que
lhes permitem visualizarem principalmente prescrições eletrónicas (prescrições,
sínteses impressas das prescrições, compra de medicamentos e registos de acesso
de utilizadores) e processos clínicos eletrónicos (informação sobre
diagnósticos, encaminhamento e alta, períodos de tratamento, resultados
laboratoriais, informação sobre exames radiológicos e medicação). O acesso aos
dados pessoais de saúde é também usado para gerir o consentimento no sistema
KanTa. Os doentes podem também monitorizar o acesso aos seus dados através de
um instrumento de auditoria. A visão de futuro é a de fazer com que seja mais
fácil para os cidadãos assumir a responsabilidade pela sua saúde e bem-estar e
prevenir diversos problemas de saúde. Este planeamento é feito utilizando a
Internet como personal trainer do cidadão. Os planos envolvem a utilização de
exames médicos virtuais, o tratamento de dados pessoais para criar instruções,
ou a oferta de programas de tratamento que promovam a saúde e o bem-estar. O
plano de saúde virtual incentiva os cidadãos a seguir instruções e oferece-lhes
recompensas em termos de monitorização positiva de acompanhamento e resultados.
Um guia do serviço virtual iria encaminhar um cidadão para o prestador de
serviços mais adequado em função da necessidade de serviços e dados
comparativos.
Na Dinamarca, o acesso aos serviços públicos de saúde é gratuito e equitativo;
há cobertura universal, o que significa um sistema igual para todos, e o estado
está a investir cada vez mais no desenvolvimento de melhores cuidados de saúde
através de “tecnologias de capacitação dos doentes”. Existe um portal público
online - Sundhed.dk - para que doentes e profissionais de saúde possam
encontrar informações e comunicar entre si.
O modelo TIC de cuidados de saúde na Suécia pretende reforçar a posição do
doente e criar um bom acesso aos cuidados de saúde. O modelo prevê que os
cidadãos possam aceder a todas as informações pessoais e desempenhem um papel
ativo em termos dos cuidados pessoais e dos cuidados de saúde. Além disso, o
modelo considera o doente como um membro de pleno direito da equipa de saúde. O
cidadão pode, por exemplo, marcar uma consulta, consultar e renovar
prescrições, solicitar análises domiciliárias, seguir os seus encaminhamentos e
ler os resultados dos exames. Os suecos têm acesso ao National Health Care
Portal- 1177.se -, que oferece, entre outras coisas, milhares de artigos sobre
cuidados de saúde, doenças, sintomas, medicamentos e tratamentos e 10 000
perguntas anónimas que foram respondidas por médicos. Além disso, existeum
serviço designado de 1177-Health Advice by Phone. Se os cidadãos necessitarem
de conselhos de saúde, podem ligar para o 1177 a qualquer hora do dia, ao longo
de todo o ano, de qualquer lugar na Suécia. Em média, 440 000 suecos telefonam
para o 1177 mensalmente. De acordo com os resultados do acompanhamento, 50%
recebem orientações sobre autocuidado e os outros 50% são encaminhados para o
nível correto de cuidados. Mais de 90% estão satisfeitos e seguem as
recomendações. Em 2013, na Noruega, 78% das pessoas utilizaram algum tipo de
serviço de saúde online. Isto significa que os noruegueses querem ter e
utilizar serviços de saúde onlinesemelhantes aos de outros países nórdicos.
Fora do sistema de saúde, o ser humano é capaz de se monitorizar devido ao
número crescente de tecnologias avançadas e diferentes aplicações destinadas ao
autocuidado e ao bem-estar pessoal. A abordagem do Quantified Self pode ser
definida resumidamente como um aprofundamento do autoconhecimento através da
automonitorização. Uma pessoa segue alguma coisa que lhe interessa. A
tecnologia está a permitir a exploração de soluções. Por conseguinte, todos
somos capazes de desempenhar o papel de cientistas e o limite das descobertas é
apenas a nossa imaginação.
A Internet das Coisas (Internet of Things-IoT) tem assistido a uma revolução
nos cuidados de saúde. Os sensores - tecnologia ubíqua – que são adicionados
aos telefones, óculos, roupas e até mesmo implantados no interior do nosso
corpo irão fornecer uma visão geral do nosso corpo. Será possível assim
compreender melhor as causas e os mecanismos subjacentes à saúde e à doença. As
soluções IoT incentivam a capacidade de monitorizar a saúde e prevenir,
detetar, tratar e gerir a doença. Além disso, os dispositivos ajudam as pessoas
a manterem-se ativas e saudáveis, e representam uma oportunidade de testar
novos modelos e ferramentas para a saúde e a prestação de cuidados. A saúde
pode ser divertida, por exemplo automonitorização através de “gamificação”. Os
cidadãos apenas transformam as atividades de vida diária em jogos, atribuindo
troféus e pontos, e as aplicações inteligentes incentivam pessoas de todas as
idades a competir com os seus amigos ou a participarem em jogos a nível
mundial.
As pessoas que recolhem dados sobre saúde e bem- estar fazem parte dos
designados Big data, cujo conceito é brevemente utilizado para descrever o
crescimento exponenciale a disponibilidade de dados. Os Big data estão a ser
cada vez mais recolhidos por vários dispositivos móveis baratos de deteção de
informação e através da Internet, por exemplo, grandes conjuntos de dados.
Existe algum motivo para recolher dados pessoais de diferentes formas? A
resposta pode ser sim e não. Para fins relacionados com a saúde e o bem-estar,
as pessoas querem recolher os dados. Os profissionais de saúde qualificados têm
sempre um motivo para a recolha e utilização dos dados. Além disso, os dados
deveriam apenas ser recolhidos após o consentimento da pessoa. O cidadão comum
pode apenas recolher dados para entretenimento ou por curiosidade. Quem irá
armazenar e assumir responsabilidade pelo volume de dados? As informações
extraídas dos Big data também permitem aos profissionais de saúde compreenderem
as necessidades da população que servem, o funcionamento dos serviços e
tratamentos versáteis, bem como as necessidades e o historial clínico das
populações de quem cuidam. Mas existem mais desafios, tais como a proteção e o
armazenamento seguro dos dados pessoais. As ferramentas de mineração de dados e
os métodos de utilização dos dados são desenvolvidos rapidamente. São
necessários regulamentos e normas internacionais. Para isso é necessário um
planeamento claro e cuidadoso de novos serviços na área dos cuidados de saúde.
A informação permite perceber de que forma se pode melhorar a saúde, saber
quais são as opções ao nível dos cuidados e tratamentos e avaliar pessoalmente
a qualidade dos serviços.
Estão a ser criadas novas tecnologias para conectar os dispositivos numa rede.
A integração de novos sistemas na tecnologia existente é um processo de mudança
incremental que demora tempo e exige uma formação contínua. Os enfermeiros
precisam de aprender novas formas de trabalhar e estar a par das mudanças
geradas pela tecnologia. A literacia digital em saúde por parte dos doentes/
cidadãos, bem como a “disponibilidade da tecnologia” são aspetos essenciais
para o sucesso da implementação das tecnologias inteligentes. Para além disso,
as relações enfermeiro/doente serão mais interativas e ambos poderão usar a
tecnologia para obterem melhores resultados de saúde.