Como as famílias portuguesas percecionam a transição para a aposentação
Introdução
A aposentação anuncia o final da vida ativa. Trata-se de um evento transicional
(Meleis 2010) caracterizado por uma adaptação à mudança que pode causar
vulnerabilidades em saúde (Loureiro, Fonseca, & Veríssimo, 2012). O aumento
do número de reformados observado na maioria das sociedades desenvolvidas
levanta um grande número de problemas, nomeadamente uma maior procura de
cuidados de saúde (Hermon & Lent, 2012).
Os estudos sobre o impacto da reforma em famílias de aposentados são escassos
em todo o mundo e, em Portugal, são praticamente inexistentes. A investigação
neste domínio é necessária a fim de proporcionar evidências para promover a
saúde da família durante este processo adaptativo. Assim, este estudo tem como
objetivo conhecer as perceções das famílias Portuguesas relativamente à sua
experiência de transição para a aposentação.
Enquadramento
As sociedades atuais estão a enfrentar um dos maiores desafios de sempre: o
crescente envelhecimento da população. O número de aposentados tem vindo a
aumentar em todo o mundo e, também, em Portugal. Este desafio pode ser
respondido com um equilíbrio entre os determinantes da saúde que incluem o
ambiente social e económico, o ambiente físico e as características e
comportamentos individuais (Marmota, Allen, Bell, Bloomer, & Goldblatt,
2012), que são influenciados pelos acontecimentos transicionais (Meleis, 2010).
A aposentação é um desses eventos transicionais, caracterizada por um processo
contínuo de adaptação à mudança e que pode expor as pessoas a diferentes níveis
de vulnerabilidade biofisiológica (Loureiro, 2011), psicoemocional (Fonseca,
2011) e socioeconómica (Fernandes, 2008). Este evento é uma das principais
transições na vida dos indivíduos na meia-idade. É o início de uma nova fase da
vida que exige a reestruturação das rotinas diárias, bem como das dinâmicas
relacionais internas das famílias.
Uma transição é um processo psicológico interno que os indivíduos atravessam
quando têm que enfrentar uma nova situação (Nuss & Schroeder, 2002). As
transições podem ser eventos previstos, como a aposentação, ou eventos
imprevistos. Cada indivíduo traz pontos fortes e fracos para lidar com o
processo de transição e a família pode ser vista como uma força ou como uma
fraqueza.
A aposentação anuncia o final da vida ativa e traz muitas perdas que podem
aumentar o risco de doença entre os recém-aposentados. No entanto, a
aposentação é desejada por muitos, uma vez que constitui a oportunidade para
libertar a pressão e a responsabilidade, a falta de tempo e muitas outras
restrições que são normalmente atribuídas ao trabalho. Mas é também temida por
outros que fizeram do seu trabalho fonte de prazer, investimento pessoal e/ou
reconhecimento social. Para muitos indivíduos esta transição pode mesmo chegar
a ser percebida como uma perda da sua identidade.
A experiência bem-sucedida deste evento depende de muitos fatores individuais
(Loureiro et al, 2012; Mintzer & Taylor, 2012) que se podem refletir na
saúde das famílias.
Questão de Investigação
Como é que as famílias portuguesas percecionam a experiência de transição para
a aposentação?
Metodologia
Os métodos qualitativos constituíram a base metodológica deste estudo, tendo-se
recorrido ao interacionismo simbólico, como referencial teórico, e à
investigação narrativa como método de análise da informação cedida pelos
participantes. A investigação narrativa foi conduzida pela análise das
narrativas em si, e posteriormente, elas foram recontados pelo investigador
(sendo o principal objetivo desta ação, ouvir e questionar os participantes
sobre a validade das narrativas expressas). Numa segunda fase, após a análise
fora do contexto, o investigador relatou essas mesmas narrativas na presença
dos participantes, elaborando uma meta-narrativa.
A seleção dos participantes resultou de uma investigação anterior (Loureiro,
2011), realizada a uma amostra de 432 indivíduos recém-aposentados (há menos de
5 anos), a quem foi aplicado um questionário e no qual identificamos 136
participantes que haviam percecionado alterações e/ou dificuldades na
aposentação. Entre os indivíduos identificados com estas características, 30
foram sinalizados porque as suas famílias obedeciam aos seguintes critérios de
inclusão: todos os elementos tinham experienciado o período de transição para a
aposentação com o indivíduo numa situação de coabitação e todos os elementos
expressaram a participação voluntária no estudo através da obtenção de
consentimento informado. Os critérios de exclusão foram: todos os elementos que
tinham uma idade inferior a 18 anos; todos os elementos que não apresentavam
capacidades cognitivas para participar do estudo (por exemplo: demência, doença
de Alzheimer) e todas as famílias em que pelo menos um dos seus elementos
revelasse um índice de APGAR familiar (Smilkstein, 1978) inferior a quatro
(traduzindo ausência de disfunção familiar).
Depois de verificar todos os critérios acima mencionados e da obtenção do
consentimento informado, a amostra de famílias participantes ficou restringida
a 14. Maioritariamente, estas eram constituídas por dois elementos, nenhuma
família era reconstruída, apresentavam-se num estadio do ciclo de vida de
«ninho vazio» (Wright & Leahey, 2012) e o índice de APGAR familiar,
percebido por estes, situava-se entre os valores de 4 e 9 (média do índice =
6). A caracterização das famílias participantes foi baseada no Modelo de
Avaliação Familiar de Calgary (Wright & Leahey, 2012).
A colheita de dados foi realizada através de entrevista semi-estruturada a
todos os elementos, no mesmo momento, das famílias selecionadas. O processo de
colheita de dados foi desenvolvido em duas etapas distintas. Uma primeira fase
em que a entrevista com a família foi realizada através de uma entrevista
semiestruturada, com a pergunta Como passou a ser a sua vida após a
aposentação?, e gravada em vídeo, após obtenção do consentimento informado de
todos os seus elementos. Uma segunda fase, realizada posteriormente, em que os
participantes foram confrontados com uma sistematização das suas narrativas, a
fim de validar o contexto do seu discurso. A análise da informação,
propriamente dita, iniciou com a transcrição completa das entrevistas e, em
seguida, com a codificação de acordo com o número de participantes da família e
da relação estabelecida com o aposentado identificado (I – individuo recém-
aposentado; C – cônjuge; A – ascendente; D – descendente). O material
resultante desta transcrição foi analisado por consenso, utilizando o programa
NVivo10®.
Todos os princípios éticos e deontológicos de investigação foram salvaguardados
[aprovado pela Comissão de Ética da Unidade de Investigação em Ciências da
Saúde (UICISA: E), Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (P131-01 / 2013)]
e, de uma forma muito particular, das famílias que foram selecionadas para este
estudo.
Resultados
As famílias viram-se confrontadas com uma nova realidade após a aposentação e,
ainda que esta transição tenha sido protagonizada por um dos seus elementos, o
referido acontecimento foi responsável por um conjunto de processos de
adaptação que não deixou indiferente nenhum dos elementos da família. Esta
evidência emergiu nos significados atribuídos a esta transição, que sugeriram a
aposentação enquanto evento e enquanto vivência (Figura_1).
As famílias percecionaram a aposentação como um acontecimento gerador de ganhos
e/ou perdas nas suas vidas (Figura_2).
Os ganhos percecionados estiveram particularmente relacionados com a obtenção
de melhor estado de saúde “Foi bom ter-me reformado . . . porque aquela
angústia que não me deixava descansar, passou.” (I1) (2013), com a diminuição
do stresse “a minha perspetiva era a de que existisse uma maior tranquilidade
por parte da minha mulher. . . . veio a verificar-se” (C1) (2013), com a
obtenção de mais tempo para si próprio . . . só tem uma coisa boa é que passei
a ter mais tempo para me dedicar a numismática . . .” (I5) (2013) e para outros
“agora, que tenho tempo, ajudo a minha filha, cuidando dos meus netos.” (I12)
(2013), e ainda com a perceção de melhoria da relação sistémica familiar “mas
agora tenho o meu filho mais próximo de mim” (A1) (2013).
Relativamente às perdas percecionadas, estas estiveram relacionadas com a
diminuição do ritmo da vida “parece que lhe falta um pouco daquelas pilhas que
a moviam” (C1) (2013), com a perda de relação social “às vezes sinto alguma
pena, porque perdi algum contato com a vida do dia-a-dia” (I1) (2013), com a
perda de status “esquecem-se daquilo que eu fiz por elas . . . Deixei de ser o
Dr. . . . para passar a ser o senhor” (I5) (2013), com a perda económica “mas a
dificuldade económica que me trouxe foi o pior” (I11) (2013), com a perceção de
perda de liberdade “Pelo menos não tinha ninguém para me chatear . . . agora é
um stresse. Sinto-me preso. Sinto-me como um passarinho que foi metido na
gaiola.” (I9) (2013) e, com o aumento de stresse no sistema familiar “chegar a
casa e ainda ter tudo para fazer? Nem o pão me é capaz de comprar! Ora, uma
mulher também se cansa. Eu já só lhe peço que não desarrume.”(C5) (2013).
Interessante foi verificar que este evento suscitou sempre, num mesmo
participante e numa mesma família, uma ambivalente perceção de ganhos e perdas.
Exemplo dessa ambivalência foi o caso da família número 2, em que protagonista
e cônjuge atribuíram simultâneos ganhos e perdas a esta vivência:
Acabaram-se as guerrilhas com a direção . . ., mas cá em casa começou
outra guerra . . . a minha mulher não entende que temos que nos
preparar para um futuro incerto . . . . (I2) (2013)
Saiu-me tudo ao contrário . . . Agora ele (I2) diz que não tem muito
dinheiro . . . que podemos vir a precisar quando estivermos doentes .
. . e o facto de termos a minha sogra cá em casa não nos deixa muito
espaço para o fazer. (S2) (2013)
Com respeito ao significado atribuído à vivência da aposentação, a tipologia e
o contexto em que as perceções foram proferidas permitiu verificar que na sua
grande maioria se reportavam a experiências que se faziam acompanhar por uma
certa reaprendizagem sistémica, reaprendizagem essa que se desenvolveu em torno
das dimensões estar, sentir e ser em família (Figura_3).
Relativamente ao reaprender a estar em família, esta dimensão reportou-se às
atitudes que passaram a adotar em resposta à mudança que o referido
acontecimento de vida lhes terá suscitado, sugerindo a existência de uma
atitude: pró-ativa, quando o indivíduo foi agente da sua reaprendizagem,
podendo esta ter sido sentida de forma positiva (se construtiva para o sistema
familiar), negativa (se não construtiva para o sistema familiar) ou ambivalente
(quando se manifestou de uma forma dualística para o sistema familiar);
reflexa, quando se verificou que o indivíduo sentiu uma alteração da sua forma
de estar em família, mas em que o próprio não se constituiu agente desta
reaprendizagem, podendo ter sido igualmente sentida de uma forma positiva,
negativa ou ambivalente e/ou; neutra, quando se verificou que o indivíduo,
ainda que a possa ter sentido, não manifestou qualquer alteração na sua forma
de estar em família.
Na família 3 o elemento que protagonizou este acontecimento de vida, proferiu:
“para dar a volta à questão, passei a tomar conta das questões caseiras . . .
é, posso dizer, de certa forma, me tornei um pouco . . . um dono de casa . . .
.” (I3), o significado de reaprender a estar em família, tornou-se evidente,
estando este relacionado com uma nova forma de ocupar o seu tempo livre.
Contudo, numa análise mais atenta, tornou-se evidente a atribuição simbólica
que o protagonista deu a esta nova forma de estar em família, e apesar de
aparentemente satisfeito com esta, a maneira hesitante e o tom irónico com que
a transmitiu, deixou transparecer que forma de estar não seria propriamente a
habitual para a sua condição e género, no contexto sociocultural em que vivia
e, como tal, considerou-se que a sua atitude foi pró-ativa e de caráter
ambivalente.
Já as narrativas da família cinco fizeram notar que o facto de o (I5) se ter
aposentado não terá exercido uma grande interferência na sua forma de estar em
família. Essa situação poderá ter sido decorrente do desinvestimento na relação
familiar que este elemento foi assumindo ao longo dos anos e de ter mantido
essa mesma postura, após a ocorrência deste acontecimento de vida.
Encontrei uma nova forma de ocupar o meu tempo . . . eu já me
interessava pela numismática, mas agora passei a dedicar-me mais a
este assunto . . . Nunca me preocupei com as questões caseiras porque
eu sei que minha mulher cuida bem dessa parte. (I5) (2013)
O facto do meu marido se ter reformado não alterou em nada a minha
forma de estar na vida . . . também já não tinha muita esperança de
ele vir a colaborar com a dinâmica caseira, uma vez que também nunca
o tinha feito . . . . (C5) (2013)
A reaprendizagem relativa ao sentir em família foi também evidente nos
participantes e, segundo a análise efetuada, a deceção, a saudade e a solidão
transpareceram. Estas formas de sentir poderão ter estado relacionadas com o
facto dos elementos protagonistas do acontecimento em estudo terem manifestado
a vivência de alterações e/ou dificuldades numa fase anterior a esta
investigação, mas não apenas com esse aspeto. A análise dos contextos
narrativos, nos quais os referidos significados foram proferidos, fizeram notar
que outros fatores poderão ter estado também na origem desta forma de sentir em
família.
No que diz respeito à deceção, os significados proferidos estiveram
relacionados com o facto de a vida após a aposentação não ter correspondido às
expectativas e, de forma particular, com a externalização de um sentimento dado
pela não concretização de alguns ganhos em família que seriam esperados com a
referida transição. A narrativa de (I1) foi ilustrativa deste sentimento
perante tal evento que, a seu ver, deveria ser previamente preparado, a fim de
evitá-lo.
Nem tudo é um mar de rosas . . . pensava que iria ser melhor! Agora
sinto falta daquela que era a minha vida . . . Considero que o ritmo
de vida que eu tinha não me deu a mínima oportunidade para eu
preparar esta mudança . . . deveriam ser criadas oportunidades para
as pessoas se prepararem para esta mudança de estatuto . . . e acho
que no início o meu marido também sentiu que eu não estava preparada
para esta mudança tão brusca. (I1) (2013)
A nostalgia foi a premissa para o aparecimento do sentimento de saudade nas
narrativas de muitos dos indivíduos neste estudo. Os excertos de algumas
narrativas descreveram esse facto e a sua análise ajudou a perceber que essa
forma de sentir se relacionou com o cessar do exercício profissional, com o
afastamento dos sistemas com os quais habitualmente estabeleciam relação e, de
uma forma geral, com o distanciamento daquelas que tinham sido as suas vidas
passadas. I1, na sua narrativa, foi explícita desta forma de sentir quando
referiu: “mas, o meu gosto pela lecionação nunca me abandonou e é sobre esse
que ainda hoje sinto saudade. . . . o próprio convívio com alguns dos meus
colegas de trabalho também ainda me deixa muitas saudades . . . tento que esse
sentimento não interfira na minha vida, mas . . .”. (I1) (2013).
A solidão foi outra reaprendizagem do sentir em família que emergiu nas
narrativas, sobre a experiência após a aposentação. Este sentimento foi
particularmente proferido pelos indivíduos que protagonizaram o referido
acontecimento, mas não foi exclusivo. Ainda que de uma forma mais discreta,
também outros membros da família manifestaram um idêntico sentimento que esteve
essencialmente relacionado com o facto de terem esperado que com a referida
vivência pudessem ter passado a usufruir de uma maior companhia e participação
deste elemento, na sua dinâmica familiar. As narrativas da família 3 fizeram
notar essa perceção, quando um dos seus elementos proferiu:
Sentia-me só! . . . No meu trabalho estabelecia contato com muitas
pessoas . . . enfim, tinha um outro tipo de vida que agora não tenho!
Acho que a minha maior dificuldade foi mesmo essa: o ter deixado de
ter essa relação com as pessoas. Também não tinha outra atividade
para me entreter e, dessa forma, parecia que os meus dias tinham 48
horas. Dei por mim a ligar à minha mulher, só para sentir companhia!
(I3) (2013)
O subtema reaprender a ser em família emergiu nos discursos das famílias
participantes quando se reportaram às dinâmicas relacionais que passaram a
estabelecer, em resposta à mudança que o referido acontecimento de vida lhes
terá propiciado. Esta reaprendizagem foi particularmente manifestada pelo
subsistema conjugal, terá estado relacionada com as diferentes tarefas
instrumentais e expressivas que passaram a experimentar e manifestou-se pela
negociação da interdependência relacional:
Depois de falarmos, estabelecemos um plano: em determinados dias da
semana, cada um de nós teria um tempo para as suas próprias
atividades. Nos outros dias, passaríamos a desenvolver atividades
conjuntas (I1) (2013)
Torna-se imprescindível que cada um mantenha o seu espaço e, em
conjunto, torna-se também importante que o casal encontre o seu
espaço comum! (C1) (2013)
Pela gestão do conflito relacional:
a minha mulher nunca mais me deu sossego” (I2) (2013)/Nunca mais tive
sossego, desde que meu marido se reformou! . . . Estava sempre a
reparar naquilo que fazia”. (C2) (2013)
E, pela reorganização de papéis e funções conjugais, destacando-se nesta área a
função de cuidador particularmente direcionado para gerações descendentes:
Passei a ocupar o meu tempo com os meus netos. . . . sinto-me
bastante orgulhoso com esta minha nova função, porque as pessoas
reconhecem-me e vêm felicitar pelos dois lindos netos, que tenho.
(I8) (2013) “tem muito jeito para os netos . . . desconhecia esse seu
papel . . . às vezes até fico com a sensação de que passei a ter um
novo marido”. (C8) (2013)
Discussão
As evidências empíricas mostraram que a aposentação é uma transição vivida de
forma ambivalente, que desperta significados simultâneos de ganho e perda. Para
os protagonistas, o facto de começarem a ter mais tempo para si, viver sem as
responsabilidades e obrigações que o trabalho lhes requeria, estar longe do
stresse e conflitos e outros aspetos organizacionais que constituíam uma fonte
de insatisfação, facilitaram a expressão dos significados de ganho que foram
encontrados nas suas narrativas. Estes e outros motivos levaram a uma idêntica
perceção da aposentação pelos restantes elementos da sua família, porque
começam a viver com uma pessoa mais relaxada, com um melhor bem-estar e que tem
mais tempo para eles, o que foi, sem dúvida, uma mais-valia para o ambiente
familiar.
No entanto, porque o confronto com a perspetiva que tinham antes de este
acontecimento ocorrer se torna inevitável e porque para aqueles cujas
expetativas atribuídas à aposentação não correspondeu à experiência que
passarão a viver, essa situação terá originado algum descontentamento,
traduzida pelos significados de perda presentes nas suas narrativas. Embora
essa perceção tenha sido mais aparente em indivíduos que sofreram este
acontecimento de vida, essa perceção esteve igualmente presente em outros
elementos das suas famílias.
A proliferação de significados de ganho e perda e a forma concomitante em que
estes foram revelados nas narrativas analisadas constituiu assim uma das mais
claras evidências de que indivíduos e famílias estavam a experienciar um
fenómeno de transição (Meleis, 2010).
Este estudo acrescenta um pouco mais a esta área do conhecimento, pois alerta
que a experiência da transição para a reforma não se manifesta apenas no
protagonista deste acontecimento, mas também, e de forma muito evidente, nos
outros membros da família.
Estes resultados reiteraram a perspetiva do modelo ecológico do desenvolvimento
humano (Bronfenbrenner, 1986), quando dão a perceber que as experiências de
transição não podem ser entendidas de forma isolada. Pelo contrário, têm de ser
analisadas no contexto transitório de interação sistémica em que se
desenvolvem, e que integram inevitavelmente o sistema familiar.
Com base nessa perspetiva e no domínio da Enfermagem, estes profissionais de
saúde devem estar sensibilizados para o facto de a sua intervenção não poder
ser apenas focada nos indivíduos que experienciam este acontecimento, mas
deverem ser simultaneamente abordados os sistemas que também estão envolvidos
nessa transição, entre os quais se destaca a família.
Com efeito, no que diz respeito ao contexto do seu desenvolvimento e dada a
interação sistémica nela estabelecida (Hanson, 2005), o envolvimento da família
torna-se inevitável: não só pelos efeitos que esta transição pode ter sobre
eles (família, enquanto destinatária de cuidados), mas também porque os seus
elementos podem ser um aliado importante na implementação de estratégias que
minimizem os significados de perda mencionados (família enquanto cuidador
informal).
No que respeita ao significado atribuído à experiência da aposentação e mais
especificamente em relação a ser em família, as atitudes neutras, reflexivas e
proactivas expressas nas narrativas dos participantes evidenciaram que há
muitas maneiras de os indivíduos lidarem com a adaptação à mudança que esta
transição suscita. Estas resultam certamente das trajetórias de vida das
famílias, da sua capacidade de resiliência para responder aos desafios e como
se preparam para essa transição. De acordo com este achado, consideramos que
uma preparação atempada e bem-sucedida para essa transição pode fazer toda a
diferença no momento em que as famílias a experienciam.
Em Portugal, esta prática não é comum. Até ao momento não há programas de saúde
ou políticas especificamente concebidas para este fim e, como afirmado
anteriormente, também não existe uma particular atenção por parte dos
profissionais de saúde para o acompanhamento de indivíduos e famílias nesta
transição. Como este acontecimento de vida ocorre normalmente no início da
anciania, considera-se que esta intervenção deverá começar ainda na idade
adulta, numa fase de meia-idade. Por conseguinte, em relação às consequências
que surgem a partir de uma experiência menos bem-sucedida desta transição,
reiteramos a adequação de investir num programa de promoção da saúde, nesta
fase do ciclo de vida da família, cuja construção deve ser adaptada à realidade
sociocultural portuguesa (Loureiro, 2014 ).
Sobre sentir em família e porque os significados atribuídos à experiência em
estudo estiveram essencialmente relacionados com perceções menos positivas do
mesmo, esta evidência alertou para o facto de que esta transição é muitas vezes
sentida como uma experiência possivelmente difícil dentro da sistémica
familiar. Mas embora os sentimentos de deceção, saudade e solidão, tenham sido
expressos com alguma frequência pelos participantes deste estudo, eles não têm
necessariamente de ser vividos nessa transição. Contudo porque em estudos
anteriores (Loureiro et al., 2012) se identificaram idênticas alterações e/ou
dificuldades percecionadas em indivíduos que tinham experienciado este mesmo
acontecimento, os resultados apresentados sugerem que esta reaprendizagem deve
ser objeto de especial atenção por parte dos enfermeiros que cuidam de
indivíduos e famílias durante esta transição. Explorar a composição e qualidade
das relações estabelecidas no sistema familiar, fomentar as relações que podem
ser desenvolvidas com outros sistemas comunitários e promover a continuidade ou
mesmo o início de projetos de vida que são estimulantes para o desenvolvimento
de um sentido de autoestima renovado (Hanson, 2005), são algumas das muitas
intervenções que os enfermeiros podem desenvolver com estes indivíduos, a fim
de minimizar esses sentimentos.
Em relação à reaprendizagem de estar em família a evidência veio reiterar a
importância atribuída ao cônjuge, como uma fonte de apoio nesta experiência de
transição (Loureiro, 2011). Uma vez que é o elemento da família que está mais
próximo do protagonista desta transição, por o ter acompanhado ao longo dos
vários anos do seu desenvolvimento, tendo construído objetivos de vida comuns
e/ou porque os laços afetivos o induzem; a verdade é que esta relação é
considerada de extrema importância no processo de adaptação à aposentação
(Hanson, 2005; Alarcão, 2006).
No entanto, porque nesta mesma fase do ciclo de vida este tipo de relação é
muitas vezes dotado de sinais de desequilíbrio, resultante de outras
experiências de transição (por exemplo: a saída dos filhos, a entrada dos pais)
e/ou das relações conjugais anteriores de menos sucesso, resultado do
desencanto da vida; é necessário notar que para alguns subsistemas conjugais
esta transição seja mais um esforço adaptativo. A negociação de
interdependência, a gestão de conflitos relacionais e papéis conjugais e a
reorganização de funções, foram manifestações expressas dessa necessidade. No
que diz respeito à negociação da interdependência e porque os significados
denotaram a ocorrência de atitudes opostas de conformismo ou de inconformismo,
essa dualidade revelou que o desenvolvimento desta adaptação expôs os seus
protagonistas a momentos de ajuste relacional.
A aposentação pode ser então vivida com maior dificuldade por parte de casais
que apresentem relações conflituosas (Mintzer & Taylor, 2012), como as
relatadas. Estes achados corroboram a ideia de que a relação conjugal é
frequentemente sujeita a constrangimentos nesta fase do ciclo de vida (Alarcão,
2006; Ribeiro, 2005; Wright & Leahey, 2012), e que estes são em grande
parte resultantes dos processos adaptativos a que estiveram expostos ao longo
da sua vida conjugal. À luz desta evidência, os enfermeiros devem intervir no
sentido de promover a autonomia, a relação de partilha e de desenvolvimento
destes casais, sendo certo que decorrente esta intervenção resultarão ganhos
para ambos os membros do casal (Ribeiro, 2005; Bushfield, Fitzpatrick, &
Vinick, 2008).
Com respeito à reaprendizagem dos papéis e funções familiares, verificou-se que
a função de cuidar, mais particularmente cuidar dos netos, foi evidente em
termos de resposta adaptativa. Este achado teve de alguma forma a sua origem
nos costumes da cultura portuguesa, onde era comum a existência de famílias
extensas em que prática de autocuidado estava instituída. Considerando que o
casal não se deve esquecer nunca de explorar as várias formas e estratégias de
promover a sua conjugalidade (Bushfield et al., 2008), será este o protagonista
de um equilíbrio que permitirá a alcançar a tão desejada saúde.
Conclusão
As coisas, os símbolos, a linguagem, a sociedade, a auto interação, a ação
humana e a atividade de grupo que emergiram das narrativas evidenciaram que a
aposentação é uma experiência de transição que não é exclusiva do protagonista,
mas que é transversal a toda a família. Também foi possível perceber que,
dependendo das características envolventes, este acontecimento pode resultar em
diferentes perceções de ganho e perda, que se traduz numa atribuição de
significado ambivalente. Numa perspetiva experiencial, também foi percetível
que esta transição leva a um processo de mudança e adaptação na sistémica
familiar que só é conseguido através de uma reaprendizagem de ser, sentir e
estar em família. Assim, cuidar durante a transição para a aposentação deve
seguir um modelo muito próprio de intervenção que harmonize a singularidade dos
indivíduos e das famílias que são protagonistas desse evento. Este modelo ainda
não existe nos cuidados de saúde primários Portugueses. No entanto, com base
nessas evidências, está a ser desenvolvido um programa para ser implementado
neste contexto de cuidados. O REATIVA [Reforma Ativa: estudo de um programa
promotor de um envelhecimento saudável (PTDC / MHC-PSC / 4846/2012)] é um
projeto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, pelo Governo
Português e pela União Europeia, inscrito na UICISA: E, que está a procurar
mais evidências para sustentar o programa a ser implementado em cuidados de
saúde primários, que visa melhorar a saúde biopsicossocial de indivíduos e
famílias de meia-idade, a experienciar um processo de adaptação à aposentação
por forma a promover um envelhecimento ativo.