O impacto das características individuais na permanência em programas de
atividades físicas numa academia de ginástica
INTRODUÇÃO
A literatura tem destacado os efeitos e benefícios da prática regular de
atividade física (AF), mas pouco tem sido tratado sobre a influência das
características individuais como idade, sexo, aptidão física ou de variações
biológicas para um determinado nível de frequência e/ou manutenção para a
prática destas atividades (Hawkins et al., 2009; Herman, Hopman, Vandenkerkhof,
& Rosenberg, 2012; Roth et al., 2012). Estão bem documentados os efeitos
das AFs para um determinado tempo (duração), intensidade, frequência (por
semana ou meses), mas ainda não está clara a exata natureza do mecanismo
responsável pelas diferentes respostas em relação à prática de AF quando
realizada de forma regular (Tappe, Tarves, Oltarzewski, & Frum, 2013).
Problemas de concordância e de adesão à atividade física ainda representam as
principais barreiras na adoção de um estilo de vida fisicamente ativo
(Poehlman, 1999). Neste sentido, tanto para prescrição de exercícios físicos,
como para uma maior motivação e adesão aos programas de AF, é de fundamental
importância conhecer o perfil de prática dos indivíduos e as possíveis
influências das características pessoais, principalmente em relação à sua
manutenção e frequência em relação às atividades físicas (Tappe et al., 2013).A
AF tem uma grande participação no controle e perda do peso corporal (Donnelly
et al., 2009; Nakade et al., 2012). Por outro lado, sabe-se que ganhos de peso
e/ou obesidade podem resultar em diminuição das atividades físicas rotineiras
(Bak, Petersen, & Sorensen, 2004). Para as mulheres este quadro parece
agravar-se devido à autoimagem (Sabiston et al., 2010). De fato, indivíduos
obesos apresentam maiores dificuldades de se manterem em programas de
exercício, com taxas de desistência superiores a 70%, em um período de 6 a 12
meses (Chagnon et al., 2003; Marcus et al., 2006). Sendo assim, a obesidade
pode vir a ser um fator de risco da não prática de atividades físicas, além de
ocasionar experiências negativas, como a excessiva carga fisiológica
proporcionada pelo peso corporal, inibição diante da imagem corporal, entre
outros aspetos (Jeffery, Wing, Sherwood, & Tate, 2003; Ruby, Dunn, Perrino,
Gillis, & Viel, 2011; Wadden, Butryn, & Byrne, 2004). Apesar das
dificuldades ocasionadas pelo sobrepeso, autores apontam que indivíduos acima
do peso ideal podem vir a ser ativos e aptos a determinadas tarefas físicas
(DaSilva et al., 2009), além de motivados (Lee, Ory, Yoon, & Forjuoh,
2013). Quanto à frequência em que estas AFs são realizadas, quando associada ao
índice de massa corporal (IMC) e à insatisfação com o peso corporal, não foram
encontradas diferenças significativas (de Araújo & de Araújo, 2003). Deve-
se levar em conta que realizar exercícios com uma alta frequência pode
acarretar lesões, dores musculares e articulares, além de um cansaço excessivo,
ocasionando o afastamento ou interrupção das AFs (Gabbett & Ullah, 2012).
Para os indivíduos iniciantes, este quadro pode vir a afetar até 50% dos
participantes (ACSM, 2005; Donnelly et al., 2009). Sabe-se que a idade do
praticante tem uma influência diante dos motivos que os levam a praticar
exercícios físicos. Autores apontam que os jovens, quando comparados aos
adultos, parecem aderir mais aos programas de AFs (Aaltonen, Rottensteiner,
Kaprio, & Kujala, 2014; Quindry, Yount, O'Bryant, & Rudisill, 2011). No
entanto, quanto ao processo de manutenção, os jovens parecem desistir mais
facilmente das suas atividades físicas por diversos fatores (Leyk et al.,
2012). Para a variável sexo, autores (e.g., Deaner et al., 2012) relatam que
não há grandes diferenças entre a frequência e participação nas atividades
desportivas. A adesão é um fenómeno complexo, que deve ser entendido como um
processo. Além dos fatores citados anteriormente deve-se atentar também que os
jovens adultos, obesos e idosos apresentam distintos motivos para a prática de
suas AFs (Lee et al., 2013; Quindry et al., 2011). Os profissionais, ao
prescreverem programas de exercícios físicos, devem levar em conta as
características dos praticantes, pois estas podem ter uma influência direta no
comportamento ativo ou inativo dos indivíduos.
Desta forma, o objetivo do presente estudo foi verificar o impacto das
características individuais (sexo, idade, obesidade, percentagem de gordura) e
da frequência mensal de prática sobre a permanência numa academia de ginástica.
MÉTODO
O presente estudo, de abordagem quantitativa, caracteriza-se como uma pesquisa
observacional, uma vez que procurou-se recolher os dados pertinentes aos
indivíduos inscritos numa academia de ginástica, realizar sua descrição
detalhada, bem como proceder a comparações entre grupos de casos e medidas de
associações (Barros, Reis, Hallal, & Florindo, 2005).
Participantes
A amostra foi composta de 1573 indivíduos (840 do sexo masculino e 733 do sexo
feminino) com idades compreendidas entre os 18 e os 66 anos, com idade média de
32.5 ± 8.9 anos. Os indivíduos se matricularam numa academia localizada na
região do Centro da cidade do Rio de Janeiro, durante o período de estudo.
Inicialmente, os responsáveis pela academia foram esclarecidos sobre os
procedimentos realizados e autorizaram a realização da pesquisa. Ainda que o
presente estudo tenha trabalhado com dados de um arquivo, procurou-se seguir os
princípios éticos de respeito à autonomia, anonimato e confidencialidade das
pessoas, segundo a Resolução n° 196/1996, do Conselho Nacional de Saúde. Assim,
todos os indivíduos tiveram suas identidades preservadas, sendo utilizados
apenas os dados, sem qualquer referência ao nome ou outra identificação do
indivíduo.
Instrumentos
As medidas verificadas nos testes iniciais do indivíduo na academia de
ginástica para constatação da composição corporal foram o IMC e o percentual de
gordura.
O IMC foi calculado através da razão entre massa corporal e estatura ao
quadrado (IMC= Massa corporal/Estatura²), segundo as recomendações da WHO
(2008). A partir deste cálculo cada sujeito foi classificado em: peso normal (=
25) e sobrepeso (> 25). A união das categorias “abaixo do peso” e “normal” e
das categorias “sobrepeso” e “obesidade” foi realizada de forma a criar
categorias com dados mais consistentes. Para a medição do peso e estatura foi
utilizada uma balança com estadiómetro da marca Filizola.
O percentual de gordura foi calculado a partir das equações propostas por
Jackson e Pollock (1978) para homens e Jackson, Pollock, e Ward (1980) para
mulheres. Para medição das dobras foi utilizado um adipómetro científico, marca
Cescorf. Os indivíduos foram classificados de acordo com o sexo e a idade,
conforme a Tabela_1.
Procedimentos
As informações coletadas referiram-se ao sexo, idade, IMC, percentual de
gordura e frequência e regularidade de prática do indivíduo.
Os acessos dos indivíduos à academia foram verificados através do ponto digital
(leitura biométrica) e organizados em valores mensais, durante o período
analisado. Os dados de cada indivíduo foram acompanhados, desde seu ingresso na
academia, até seis meses completos ou até que abandonasse a prática na
academia, o que ocorresse primeiro. Indivíduos que abandonaram a academia e
retornaram ainda durante o período de coleta tiveram apenas o seu primeiro
ingresso considerado. Cada indivíduo tinha apenas um acesso computado por dia
na academia. A média mensal de acessos foi utilizada como indicador da
frequência do indivíduo no período observado.
Os indivíduos foram divididos em dois grupos, denominados de “regulares” (n=
486) e “não regulares” (n= 1087). Foram considerados “regulares” os indivíduos
que frequentaram a academia por seis ou mais meses. Os “não regulares” foram
aqueles que frequentaram a academia por menos de seis meses.
O estabelecimento do período de seis meses como critério de aderência à prática
de atividades físico-desportivas foi decorrente da posição assumida pelo ACSM
(2000), em que os indivíduos que se mantêm em programas de exercícios físicos
por mais de seis meses estão em um processo de manutenção em relação à prática.
Análise Estatística
Após a análise descritiva da amostra utilizada, foi desenvolvido um modelo de
regressão logística para determinar o impacto das características do indivíduo
na probabilidade de que o mesmo se mantenha ativo por seis meses ou mais
(regular). Iniciou-se com um modelo completo, utilizando como variáveis
preditivas a faixa etária do indivíduo, seu sexo, sua classificação de IMC e de
percentual de gordura e sua frequência média mensal no período em que
frequentou a academia. A variável dependente foi a classificação de “regular”
(seis meses ou mais de frequência na academia) ou “não regular” (menos de seis
meses de frequência). As variáveis não significativas (p> 0.05) foram retiradas
até que o modelo mais parcimonioso fosse obtido. A razão de verossimilhança e a
análise dos resíduos foram utilizadas na avaliação do modelo final. As análises
foram realizadas no Software R versão 2.15 (R Foundation for Statistical
Computing, Áustria, 2012).
RESULTADOS
As características gerais da amostra em relação às variáveis analisadas podem
ser observadas na Tabela_2.
A amostra apresenta predominância de indivíduos na faixa etária entre 26 e 45
anos (66.8%) e com percentual de gordura elevado (60.6%). Este padrão se mantém
relativamente estável, independente da separação entre indivíduos regulares e
não regulares. Em relação à frequência média mensal de comparecimento à
academia, os indivíduos regulares apresentaram média mensal maior que o dobro
da apresentada pelos não regulares.
O modelo de regressão logística final apontou as variáveis faixa etária e
frequência média mensal como as únicas variáveis significativamente associadas
à probabilidade de um indivíduo se tornar regular (Tabela_2). Notamos um efeito
crescente da idade sobre a probabilidade de um indivíduo se tornar regular.
Indivíduos da faixa etária até 25 anos são os que apresentam a menor
probabilidade de se tornarem regulares, enquanto aqueles na faixa etária entre
26 e 45 anos apresentam chance 67% maior e aqueles na faixa etária mais alta
(acima de 45 anos) apresentam maior probabilidade, com uma chance três vezes
maior em relação aos indivíduos com até 25 anos. Em relação à frequência média
mensal, seu efeito está representado na Figura_1.
Podemos notar que indivíduos que apresentam frequência média mensal acima de
oito têm uma maior probabilidade (50%) de se tornarem regulares, independente
da faixa etária a que pertençam. Somente a partir de uma frequência média
mensal de 15 vezes é que os indivíduos da amostra não mais apresentam
diferenças quanto a probabilidade de se tornarem regulares em relação a faixa
etária.
Diferente do esperado, as variáveis relacionadas ao excesso de peso (IMC e
percentual de gordura) não tiveram impacto significativo sobre a probabilidade
de um indivíduo se tornar regular.
DISCUSSÃO
O objetivo do presente estudo foi verificar o impacto das características
individuais (sexo, idade, IMC, percentual de gordura) e da frequência mensal de
prática sobre a permanência numa academia de ginástica.
Um importante achado do presente estudo foi que o IMC e o %GC não tiveram
impacto sobre a probabilidade do indivíduo se tornar regular em programas de
AFs. Estudos apontam que os indivíduos com sobrepeso são menos ativos e menos
condicionados do que os indivíduos mais magros, tanto em relação às atividades
de lazer, quanto às atividades físicas rotineiras, devido à dificuldade de
movimentação proporcionada pelo excesso de peso (Bak et al., 2004; Chagnon et
al., 2003; Donnelly et al., 2009; Schmidt, Biwer, & Kalscheuer, 2001;
Wadden et al., 2004). Em concordância com os nossos achados, um estudo que
avaliou se a autopercepção do peso corporal tinha uma relação com a frequência
nas AFs não encontrou diferença significativa, principalmente entre as mulheres
(de Araujo & de Araujo, 2003). Dishman (1981) verificou que o percentual de
gordura e o peso corporal têm uma influência significativa na participação dos
indivíduos em relação à duração (meses) e manutenção aos exercícios. Para o
autor, quanto à prescrição de exercício, mesmo com intensidades similares para
os indivíduos com o mesmo nível inicial de aptidão, devem existir diferenças
biológicas na capacidade dos indivíduos se adaptarem ao estresse inicial do
treino (“inicial” significando ao entrar num programa de exercícios físicos), o
que influenciaria alguns indivíduos a desistirem da atividade. O presente
estudo, no entanto, se baseou apenas na informação obtida aquando do ingresso
do indivíduo na academia. Existe a possibilidade de que a mudança da composição
corporal, avaliada pelo IMC ou pelo %GC, possa influenciar a aderência à
atividade. Por exemplo, um indivíduo com elevado %GC inicial que consegue
emagrecer pode se sentir mais motivado para continuar o treinamento, enquanto
aquele que não obtém este resultado pode se tornar mais propenso a desistir.
Porém, é bastante difícil conseguir a informação sobre a composição corporal de
indivíduos que deixam a academia em curtos períodos.
Para o nosso estudo, foi observado que quanto maior a faixa etária, maior a
chance de que o indivíduo se torne regular na prática de atividade física.
Diversos trabalhos têm demonstrado que os indivíduos são motivados à prática
por diferentes motivos (Poobalan, Aucott, Clarke, & Smith, 2012; Quindry et
al., 2011). Campbell, MacAuley, McCrum e Evans (2001) destacam que os jovens
entre 16-44 anos apresentam distintos objetivos para à prática quando
comparados aos adultos/idosos entre 45-74 anos. Para os jovens “se divertir”
foi o motivo que apresentou maior importância, enquanto para os idosos “estar
mentalmente atento” foi o que se destacou. Com 90% de concordância entre
grupos, os autores ressaltam o motivo “se sentir em boa forma física”, sendo
que, para os idosos este motivo os levam à academia, mas um número
significativamente menor não acredita que irá conseguir tal benefício através
do exercício.
Apesar de não termos verificado os motivos que levaram os indivíduos à aderirem
as AFs, verificamos que os indivíduos entre 26 e 45 anos tiveram 67% de chance
a mais de se tornarem regulares do que os até 25 anos. Autores (e.g., Leyk et
al., 2012) relatam que os jovens adultos cada vez mais tornam-se sedentários e
que os motivos estão diretamente relacionados com as experiências passadas e
diferenças entre o nível de motivação.
O estudo de Aaltonen et al. (2014) verificou que praticantes apresentam motivos
como “aptidão física” e “prazer”, dentre outros, para se praticar AFs quando
comparados aos não-praticantes e que as mulheres com 30 anos de idade
apresentaram uma maior preocupação em relação à imagem corporal quando
comparadas aos homens. Os não-praticantes destacaram o fator “expectativa dos
outros” em relação a se iniciar à prática.
Ao analisar a relação do sexo com a permanência, não verificamos resultados
significativos para homens e para as mulheres. Um interessante estudo detetou
uma tendência para os homens serem um pouco mais ativos fisicamente do que as
mulheres, em relação às AFs passadas e atuais, mas de acordo com os nossos
achados, os autores também não verificaram uma relação significativa da
frequência entre os grupos (de Araújo & de Araújo, 2003). Na literatura que
aborda esta temática é mais comum constatar diferenças entre estes dois grupos
(De Moor, Stubbe, Boomsma, & De Geus, 2007; Kolt, Driver, & Giles,
2004; Stubbe et al., 2006).
Apesar de a compreensão do comportamento do indivíduo, quanto à manutenção da
prática de exercícios físicos, ainda ser estudada por um grupo de autores como
oriunda de aspectos motivacionais (Fortier, Duda, Guerin, & Teixeira,
2012), o presente estudo apresenta um importante aspeto em relação ao processo
de manutenção, pois quanto mais alta a frequência dos indivíduos analisados na
academia maior foi a probabilidade de se tornarem regulares, ou seja, os
indivíduos que apresentaram uma média mensal de frequência acima de oito vezes,
tiveram 50% de probabilidade de se tornarem regulares em relação às suas AFs e
a partir de uma frequência de 15 vezes não houve diferenças, independente da
faixa etária que pertencessem.
Na literatura revisada não se encontraram estudos que associassem a frequência
dos indivíduos às suas características individuais. Porém, pode-se destacar
como limitação do presente estudo, o fato deste ter utilizado somente a
primeira avaliação do indivíduo ao entrar na academia. A utilização apenas das
informações referente à entrada do aluno na academia como variáveis neste
estudo apresenta-se como uma limitação aos resultados obtidos pois, uma vez que
algumas variáveis (como o IMC, por exemplo) podem apresentar variação
importante mesmo em períodos relativamente curtos, como os seis meses
analisados no presente trabalho. Essas variações podem, de fato, influenciar a
decisão do aluno de permanecer na academia ou não. Por exemplo, um indivíduo
com IMC ao entrar na academia acima da média, e que evolui para uma redução
significativa nesta variável, possivelmente se sentirá mais motivado a
permanecer em atividade do que outro indivíduo que não apresenta essa redução
ao longo do tempo. Porém, infelizmente, a obtenção destas informações, através
de reavaliações periódicas, é tarefa difícil no ambiente de academias e, muitas
vezes, o indivíduo abandona a prática sem aviso prévio. Até que essa abordagem
seja realizada, tais conclusões permanecem apenas como especulação. Assim,
recomenda-se que futuros trabalhos tentem colmatar essa limitação através de um
acompanhamento mais próximo dos indivíduos.
Sendo assim, os resultados aqui apresentados podem vir a colaborar para uma
melhor interpretação nos meios de intervenção de práticas de atividades físicas
quanto às estratégias de se motivar os praticantes logo após o seu inicio no
programa de exercícios físicos. Neste sentido, é de fundamental importância,
tanto para a prescrição de exercícios físicos, como para uma maior motivação e
adesão aos programas de atividades físicas, conhecer o perfil de prática dos
indivíduos e suas características pessoais.