Indicadores antropométricos, mas não a aptidão aeróbia, se associam com a
reatividade vascular de pressão arterial em homens
INTRODUÇÃO
A prática de exercícios físicos tem sido amplamente destacada nas diferentes
populações, com fim de melhora na aptidão física do praticante (Gaesser,
Angadi, & Sawyer, 2011). Por outro lado, uma baixa aptidão física poderá
estar inversamente correlacionada com a gordura corporal (Palou, Serra, Bonet,
& Picó, 2000) a qual em excesso torna-se um importante fator de risco para
doenças cardiovasculares, entre as quais se destaca a hipertensão arterial
sistémica (HAS) (Chobanian et al., 2003; Triches & Giugliani, 2005).
Classicamente, a HAS tem sido associada com uma aumentada reatividade vascular
de pressão arterial (RVPA) durante e após momentos agudos de estresse induzido
(Hines & Brown, 1936; Wood, Sheps, Elveback & Schirger, 1984). A
elevação significativa da RVPA pode sugerir uma prejudicada modulação
autonómica e tónus simpático aumentado, fenómeno associado ao risco
cardiovascular em médio e longo prazo (Brownley et al., 2003; Flaa, Mundal,
Eide, Kjelsen & Rostrup, 2006; Galetta et al., 2006; Su et al., 2006) e que
apresenta relação positiva com a adiposidade corporal (Kuniyoshi et al., 2003;
Ribeiro et al., 2001).
Segundo Christou et al. (2005), indicadores de adiposidade corporal e a
potência aeróbia estão associados a fatores de risco metabólicos e
hemodinâmicos. Um reduzido consumo máximo de oxigénio pode minimizar o efeito
cardioprotetor da aptidão aeróbia num indivíduo (Thompson et al., 2003). Se
associado a isso, ainda um aumentado conteúdo de gordura corporal estiver
instalado, o risco cardiovascular aumenta (Vicent et al., 2011; Wilson,
D’Agostino, Sullivan, Parise, & Kannel, 2002). Entretanto, a baixa aptidão
aeróbia e ainda a aumentada adiposidade corporal, em geral, se combinam
(Hoehner et al., 2008), o que traz dúvidas quanto aos efeitos diretos e
independentes de cada uma dessas condições, bem como, do poder de predição
dessas variáveis, na associação com fatores de risco cardiovasculares. Deste
modo, ainda são necessários estudos que quantifiquem o grau de associação entre
aptidão aeróbia e indicadores antropométricos de adiposidade corporal com
fatores de risco cardiovascular. Além disso, os estudos supracitados não
apresentam o poder de predição destes indicadores nos fatores de risco
hemodinâmicos, o que poderia ter importância clínica na área da avaliação da
saúde cardiovascular. Sendo assim, os objetivos do presente estudo foram: 1)
Verificar a associação independente entre indicadores antropométricos e aptidão
aeróbia com a RVPA; e, 2) Analisar o poder de predição das variáveis associadas
com a RVPA em homens adultos. A hipótese do presente estudo é que a potência
aeróbia não apresentará correlação direta com RVPA. Por outro lado, indicadores
antropométricos de fácil aplicação apresentarão correlação direta e
significativo poder de predição da RVPA.
MÉTODO
Participantes
Cálculo amostral prévio foi realizado a partir do software GPower 3.1. Ao
considerar umEffect Size= 0.21; a= 5%; e Power= 0.80, o tamanho da amostra
requerido para os objetivos propostos e quantidade de variáveis analisadas foi
de 40 participantes.
A partir disso, 40 indivíduos do sexo masculino, aparentemente saudáveis com
idade entre 17-46 anos foram convidados a participar do estudo, o qual se
caracterizou como do tipo transversal e com enfoque biológico. Dos 40
voluntários foi possível realizar todas as mensurações propostas em 30
participantes. Dez participantes não realizaram as medidas de aptidão aeróbia,
porém, foram mantidos na amostra para análises posteriores. A tabela_1
apresenta as características gerais da amostra estudada. O Comitê de Ética em
Pesquisa da Universidade local aprovou a pesquisa (proc. 5934.0.000.441-10) e
todos os participantes foram informados dos procedimentos a serem adotados e
assinaram um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido em acordo a resolução
196/96 do Conselho Nacional de Saúde em Pesquisa com Seres Humanos.
Instrumentos e Procedimentos
A análise da composição corporal através de parâmetros antropométricos e a
aptidão aeróbia através da medida indireta do consumo máximo de oxigénio foram
realizadas para posterior verificação da associação desses parâmetros com a
RVPA mensurada pelo Cold Pressor Test.
Indicadores Antropométricos
O peso corporal foi verificado através de uma balança de plataforma digital da
marca Tech Lyne (Petrolina/PE/Brasil) com precisão de 0.1 kg.
Para estatura utilizou-se um estadiómetro de metal da marca Physical (Londrina,
PR - Brasil) com precisão de 0.1 cm. O índice de massa corporal (IMC) foi
calculado através da relação peso/estatura2.
Dobras cut âneas das regiões tricipital, supra-ilíaca e abdominal, foram
mensuradas de forma rotacional e replicadas três vezes no hemicorpo direito do
avaliado. O valor médio foi considerado para estimativa da densidade corporal
em acordo a equação preditiva de Jackson e Pollock (1978). O percentual de
gordura (%Gordura) foi calculado de acordo com a fórmula de Siri (1961)= (4.91
/ densidade – 4.5) × 100 (Guedes & Guedes, 1997). O equipamento utilizado
foi um adipómetro da marca Cescorf (Porto Alegre, RS - Brasil) com precisão de
0.1 mm. Circunferências da cintura e quadril foram analisadas utilizando uma
fita métrica metálica inextensível com precisão de 0.1 cm da marca Cescorf
(Porto Alegre, RS - Brasil) conforme as técnicas descritas por Callaway et al.
(1988). A relação cintura/quadril (RCQ) foi calculada e todas as medidas foram
realizadas por um único avaliador.
Aptidão Aeróbia
A aptidão aeróbia foi avaliada a partir do consumo máximo de oxigénio (VO2max)
indireto. Teste de corrida para desempenho máximo em 1600 metros (1600m) foi
realizado, onde o avaliado foi orientado a realizar a distância alvo no seu
menor tempo possível. Através da velocidade média (distância/tempo) no teste de
1600m (VM1600m) calculou-se o VO2max pela equação: VO2max = 0.177 × VM1600m +
8.101. A equação utilizada foi validada por Almeida et al. (2010).
Mensuração da Pressão Arterial (PA) de Repouso
A mensuração da PA foi realizada por um avaliador experiente e adotou-se o
método auscultatório, de acordo com Perloff et al. (1993). Utilizou-se um
estetoscópio (Duo Sonic/BD, Juiz de Fora, MG - Brasil) e um esfigmomanómetro da
marca Missouri® devidamente calibrado e certificado pelo INMETRO (Missouri, São
Paulo, SP - Brasil). As medidas foram realizadas no braço esquerdo com o
indivíduo sentado em local calmo e confortável durante um período de 20 minutos
de repouso, com mensurações a cada 5 minutos para se considerar a média como
representativa do repouso.
O pesquisador responsável pelas mensurações de PA foi submetido a um
procedimento de validação das medidas auscultatórias adotadas. Para tal
utilizou-se um aparelho automático clinicamente validado por Stergiou,
Tzamouranis, Protogerou, Nasothimiou e Kapralos (2008) da marca Microlife
modelo BP3AC1-1 (Microlife/Co, USA). O procedimento de validação envolveu 30
voluntários de ambos os sexos, os quais permaneceram por um período aproximado
de 10 minutos em repouso e logo após, em ordem randomizada, passaram por
avaliações de PA Sistólica (PAS) e PA Diastólica (PAD) pelo método automático e
auscultatório. As correlações encontradas para as medidas de PAS e PAD entre
métodos automático e auscultatório foram r= 0.90 (p< 0.001) e r= 0.80 (p<
0.001), respetivamente. Além disso, a técnica de Bland e Altman (1986)
demonstrou concordância entre as medidas realizadas pelo método automático e
auscultatório. A média das diferenças, com 95% de intervalo de confiança, foi
de 3.9 (-12.4/20.2) e -3.4 (-17.3/10.5) para a PAS e a PAD, respetivamente.
Mensuração da Reatividade Vascular de Pressão Arterial (RVPA)
A mensuração da RVPA foi realizada através do Cold Pressor Test (CPT) seguindo
procedimentos de validação descritos por Hines e Brow (1936). A especificidade
do CPT foi comprovada por Bring e Oerting (1933). O protocolo do teste de RVPA
foi realizado com a mão direita (até altura do punho) do voluntário sendo
imersa em recipiente com água em temperatura de 4ºC durante 1 minuto. Durante
os testes de RVPA a água foi controlada por termómetro (Incoterm®, Porto
Alegre, RS). Medidas de PA foram realizadas aos 30s e 60s do teste através do
método auscultatório (supracitado). Os valores de pico encontrados durante o
teste de RVPA foram considerados como Pico30” e Pico60” de PA (Hines &
Brow, 1936; Wood et al., 1984). Aos 2 minutos da recuperação do CPT considerou-
se o momento Rpós2’.
Análise Estatística
A estatística descritiva foi adotada. A normalidade dos dados foi testada pelo
teste Shapiro-Wilk. A correlação linear de Pearson foi aplicada para verificar
correlações independentes. O método de Bland e Altman (1986) foi utilizado para
verificar o nível de concordância entre medidas de PA por método automático e
auscultatório. O teste t de Student para amostras independentes foi utilizado
para comparar grupos. A regressão múltipla foi realizada entre as variáveis
dependentes da RVPA e as variáveis independentes dos indicadores
antropométricos. Segundo Hair, Black, Babin, Anderson e Tatham (2009), na
regressão múltipla para cada variável independente devem existir no mínimo
cinco casos. No presente estudo foi possível realizar a técnica de regressão
entre cada variável dependente com as quatro variáveis independentes com um
número de 40 indivíduos, ficando uma razão de 10:1 (casos/variável
independente).
O nível de significância do estudo foi p< 0.05 e o software foi o SPSS 15.0.
RESULTADOS
A tabela_1 apresenta as características antropométricas, aptidão aeróbia, PA de
repouso e RVPA na amostra investigada. Destaca-se a significância estatística
do CPT em induzir a RVPA para PAS e PAD na amostra investigada (p< 0.01). A
tabela_2 apresenta as correlações entre os indicadores antropométricos e a
aptidão aeróbia com as variáveis de PA de repouso e RVPA. A aptidão aeróbia
representada pelo VO2max não apresentou correlação direta com RVPA (p> 0.05).
Por outro lado, indicadores antropométricos, especialmente a circunferência da
cintura e o IMC apresentaram correlações significativas com a RVPA tanto
durante como após o CPT (p< 0.05). Com objetivo de identificar uma possível
associação entre o VO2max e a RVPA, agora em função da comparação de valores
médios encontrados na amostra, a tabela_3 apresenta uma subdivisão de
indivíduos com o VO2max abaixo e acima da média encontrada. Foi possível
identificar que na amostra investigada não existe associação do VO2max com a PA
de repouso, RVPA durante e após o CPT (p> 0.05). Apesar de não ser objetivo
principal do presente estudo, a tabela_4 demonstra que existe uma associação
entre VO2max e os indicadores antropométricos, representada pelas variáveis
IMC, circunferência da cintura e % de gordura (p< 0.05).
A técnica de regressão múltipla aplicada entre os indicadores antropométricos e
as variáveis da RVPA, demonstrou que a CC é uma preditora significativa da RVPA
durante o CPT. Já na recuperação do estresse induzido, evidenciou-se que o IMC
pode ser considerado um bom preditor (p< 0.05).
DISCUSSÃO
Os principais achados do presente estudo evidenciaram correlações independentes
de indicadores antropométricos, principalmente da CC e do IMC, com a RVPA
durante e após o estresse induzido (Tabela_2). Ainda, foi possível identificar
que apenas a CC se mostrou preditora da RVPA durante o teste de estresse
cardiovascular, com o IMC tendo importância na predição da RVPA na recuperação
do estresse induzido (Tabela_5). Por outro lado, a aptidão aeróbia não
apresentou associação direta com a RVPA de homens adultos (Tabelas_2 e 3).
Diversos indicadores de adiposidade corporal têm sido utilizados na área da
saúde e a CC e o IMC têm sido destacados na predição da HAS (Tuan, Adair,
Stevens & Popkin, 2010). Carneiro et al. (2003) ao analisarem indivíduos
com sobrepeso e obesidade, demonstraram um aumento significativo na prevalência
de HAS, especialmente nos parti-cipantes com IMC = 30 kg/m², sugerindo que o
incremento dos depósitos de gordura corpo-ral aumentam o risco de HAS. Esses
resultados corroboram os achados do presente estudo, os quais apresentam
correlação positiva da PA de repouso, e em adicional da RVPA, com indicadores
antropométricos, principalmente com a CC (gordura abdominal) e IMC de homens
adultos (Tabela_2).
O mecanismo que explica a associação da adiposidade corporal com a RVPA pode
ser parcialmente explicado. O aumento da adiposidade corporal está relacionado
com uma maior atividade nervosa simpática (Kuniyoshi et al., 2003; Ribeiro et
al., 2001) e com uma possível ativação do sistema renina-angiotensina, o qual
estaria diminuindo a biodisponibilidade de óxido nítrico e por conseguinte
aumentando a rigidez arterial e a PA (Christou et al., 2005). No presente
estudo, a CC e o IMC se correlacionaram com a PA de repouso e com a RVPA, essa
última induzida pelo Cold Pressor Test (Tabela_2), o qual atua via um possível
reflexo neurogénico e aumento do tónus simpático (Wood et al., 1984).
Kuniyoushi et al. (2003) avaliaram a PA e a ativação simpática em mulheres
obesas e magras. Estes autores também utilizaram o Cold Pressor Test e
concluíram que a obesidade aumenta o tónus simpático e a RVPA durante o
estresse induzido.
Apesar da falta de correla ção entre aptidão aeróbia e RVPA (Tabela_2), optou-
se no presente estudo por investigar uma possível associação entre essas
variáveis por meio de diferentes estratos de VO2max (Tabela_3). Sendo assim,
foi possível verificar que nenhuma das variáveis da RVPA para PAS e PAD
(Pico30”, Pico60” e Rpós2’) diferiram entre os grupos com VO2max abaixo e acima
da média constatada no presente estudo (p> 0.05). Nessa mesma direção, ao
comparar a RVPA entre grupos com VO2max abaixo do percentil 10 e acima do
percentil 90 do presente estudo, mais uma vez não foram identificadas
diferenças significativas (p> 0.05; resultados não apresentados). Esses achados
evidenciam que o efeito independente e cardioprotetor do VO2max na RVPA de
homens adultos não é significativo, corroborando aos achados de Christou et al.
(2005) os quais destacam que o VO2max, quando analisado em relação a variáveis
antropométricas, não apresenta correlações independentes com fatores de risco
hemodinâmicos para a doença cardiovascular.
Entretanto, ao se verificar a associação entre VO2max abaixo e acima da média
com indicadores antropométricos, constatou-se que a CC, o IMC e o %Gordura
apresentaram-se reduzidos no grupo com maior VO2max (Tabela_4; p< 0.05). Nesse
sentido, apesar da falta de uma associação direta entre aptidão aeróbia e RVPA,
o VO2max apresentou asso-ciação indireta, via indicadores antropo-métricos, com
a RVPA, uma vez que indivíduos com maiores valores de VO2max apresentaram
menores índices de adiposidade corporal (CC e IMC), os quais influenciam direta
e indepen-dentemente na RVPA de homens adultos (Tabela_2).
As correlações independentes, porém, moderadas entre indicadores
antropométricos e RVPA (Tabela_2), bem como, a predição significativa da CC e
do IMC na RVPA (Tabela_5), sugerem a investigação de outras variáveis, não
relacionadas ao fenótipo, na explicação da RVPA de homens adultos. Dessa forma,
traba-lhos investigando genes candidatos na variabilidade das respostas de RVPA
são necessários. Esses estudos podem contribuir com o conhecimento relacionado
aos com-ponentes genéticos e ambientais que inter-ferem em fatores de risco
cardiovasculares, pois, com o prévio conhecimento dessas variáveis, estratégias
atenuando o risco futuro podem ser encorajadas na população.
CONCLUSÕES
Conclui-se que indicadores antropométricos, mas não a aptidão aeróbia, se
associam direta e independentemente com a RVPA de homens adultos. Ainda, foi
possível identificar que a CC se mostrou preditora da RVPA durante o estresse
cardiovascular induzido, com o IMC tendo importância na predição da recuperação
da RVPA de homens adultos. Apesar da falta de uma associação direta entre
aptidão aeróbia e RVPA, o VO2max apresentou associação indireta, via
indicadores antropométricos, com a RVPA de homens adultos.