Alinhamento estático e dinâmico do retropé não diferencia sujeitos com e sem
síndrome de dor femoropatelar
INTRODUÇÃO
Síndrome da Dor Femoropatelar (SDFP) caracteriza-se como uma dor difusa na
região anterior do joelho, geralmente de início insidioso e progressão lenta,
sendo agravada por atividades que aumentam as forças de compressão na
articulação femoropatelar, como subir e descer escadas, correr e/ou andar,
agachar e ajoelhar, bem como ao permanecer sentado por período prolongado
(Thomee, Renstrom, Karlsson, & Grimby, 1995). Essa condição é geralmente
encontrada em atletas e afeta cerca de 20% da população em geral, sobretudo
adolescentes e adultos jovens do sexo feminino (Tumia & Maffulli, 2002).
Sua etiologia é considerada multifatorial e relacionada a vários fatores que
levam ao mau alinhamento patelar (Powers, 2000; Sutvile et al., 2004), além de
fraqueza do músculo quadríceps femoral, alterações no alinhamento e na
biomecânica dos membros inferiores, especialmente relativas ao ângulo do
retropé (Levinger & Gilleard, 2004; Powers, Maffuci, & Hampton, 1995;
Thijs, Van Tiggelen, Roosen, De Clercq, & Witvrouw, 2007; Venturini et al.,
2006), destacando-se a pronação excessiva da articulação subtalar que leva a
compensações biomecânicas com sobrecarga da articulação femoropatelar
(Venturini et al., 2006). Segundo Powers (2003) e Vogelbach e Combs (1987), o
retropé varo leva à pronação excessiva da subtalar com consequente rotação
interna excessiva da tíbia alterando o vetor de força que age sobre a patela
gerando maior tensão sobre os tecidos moles laterais e podendo conduzir à dor
femoropatelar.
Powers, Maffucci e Hampton (1995), observaram que sujeitos com dor
femoropatelar apresentam maior varo do retropé do que sujeitos sem esta afeção.
Os autores ressaltam que o varo do retropé pode ser fator contribuinte para a
dor femoropatelar, portanto deve ser considerado na avaliação biomecânica da
extremidade inferior. No entanto, estes autores avaliaram o ângulo do retropé
na posição neutra da subtalar, com o sujeito posicionado em decúbito ventral.
Quando a postura do retropé foi avaliada na posição ortostática, Aliberti
(2008) e Levinger e Gilleard (2004), encontraram aumento do valgo do retropé em
sujeitos com a SDFP, enquanto outros autores não encontraram associação entre a
postura do retropé e a ocorrência da SDFP (Messier, Davis, Curl, Lowery, &
Pack, 1991; Thomee et al., 1995).
Como a SDFP é uma afecção que se manifesta principalmente durante atividades
dinâmicas (Piazza et al., 2012), torna-se importante conhecer não só as
alterações relacionadas ao alinhamento estático dos membros inferiores dos
sujeitos com SDFP, mas também as alterações que se manifestam durante suas
atividades funcionais dinâmicas.
O conhecimento das diferenças cinemáticas entre indivíduos com e sem SDFP
permite desenvolver e aperfeiçoar estratégias de prevenção e tratamento para a
SDFP. Barton, Levinger, Menz e Webster (2009) verificaram um atraso no pico de
eversão do retropé e adução do antepé, os quais poderiam indicar a existência
de uma prolongada pronação em indivíduos com SDFP. Um maior ângulo de eversão
do retropé foi encontrado na população com SDFP na passagem do contato do
calcanhar, adicionando fortes evidências que diferenças na cinemática do
retropé podem estar associadas com a SDFP.
Sabe-se ainda que a avaliação do alinhamento do pé é realizada na prática
clínica na avaliação de indivíduos com SDFP, particularmente quando se
considera a prescrição de órteses para o pé, no entanto, até a presente data,
apenas um estudo (Barton et al., 2011) verificou o alinhamento estático e
dinâmico do retropé em indivíduos com SDFP, embora tenha utilizado homens e
mulheres na amostra, o que poderia representar viés na análise, uma vez que
existem diferenças biomecânicas entre os sexos (Csintalan, Schulz, Woo,
Macmahon, & Lee, 2002). Assim, surge a necessidade de novos estudos que
avaliem não só o alinhamento estático de sujeitos com SDFP, mas também o
alinhamento dinâmico do retropé, proporcionando desta forma, maior conhecimento
para o processo de avaliação e reabilitação desses sujeitos.
Face ao exposto, este estudo teve como objetivo comparar o alinhamento postural
estático e dinâmico do retropé de mulheres com e sem Síndrome da Dor
Femoropatelar. Justifica-se a amostra somente do sexo feminino para se evitar
um possível viés nos resultados, uma vez que existem diferenças biomecânicas
entre os sexos (Csintalan et al., 2002; Powers, 2000) e também pela maior
incidência da SDFP neste sexo (Tumia & Maffulli, 2002).
MÉTODO
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade do
Estado de Santa Catarina sob protocolo 33/2010. Os dados foram coletados no
Laboratório de Biomecânica da Universidade de Passo Fundo (UPF) - RS, no
período de janeiro a maio de 2011.
Participantes
Foram escolhidos de forma não probabilística intencional 55 sujeitos do sexo
feminino (Marconi & Lakatos, 2009). Destes, foram excluídos quatro por não
se enquadrarem nos critérios de inclusão do estudo. Após, os 51 sujeitos foram
divididos em dois grupos, 23 sujeitos com SDFP (GSDFP) e 28 clinicamente
saudáveis (GC). As características dos sujeitos nos dois grupos são mostradas
na Tabela_1.
Os critérios de inclusão para o grupo com SDFP (GSDFP) foram apresentar dor
anterior ou retropatelar, exacerbada por pelo menos três das seguintes
situações: subir ou descer escadas, agachar por tempo prolongado, ajoelhar,
correr, permanecer sentado por longos períodos, ao contrair de forma estática o
quadríceps femoral e ao praticar desporto (Cowan, Bennell, & Hodges, 2002;
Loudon, Wiesner, Goist-Foley, Aajes & Loudon, 2002); início insidioso dos
sintomas sem relação com um evento traumático (Cabral, Melim, Sacco, &
Marques, 2008); dor igual ou maior que 2 cm na Escala Visual Analógica (EVA: 0-
10 cm) na articulação femoropatelar nos sete dias que precederam o teste,
durante a realização das atividades supracitadas (Santos, 2006); dor, de
qualquer grandeza, em dois testes funcionais com duração de 30 segundos cada um
(agachar a 90 graus e descer um step com 25 cm de altura) (Cowan et al., 2002).
Além de se enquadrar nos critérios de inclusão, os sujeitos do GSDFP possuíam
diagnóstico clínico de Síndrome da Dor Femoropatelar feito por um médico
ortopedista, especialista em joelho.
Os critérios de inclusão para o grupo controle (GC) foram: ausência de história
de lesão meniscal ou ligamentar, trauma, cirurgia ou fratura do membro inferior
(Loudon et al., 2002; Powers, 2000); sem história de dor na articulação do
joelho ou na articulação femoropatelar (dor 0 cm na EVA) (Powers, 2000);
ausência de qualquer problema nas articulações na bacia e pé, doença
neurológica ou do sistema osteomioarticular (Loudon et al., 2002); não ter
realizado tratamento fisioterapêutico no membro inferior; sem dor, de qualquer
grandeza, durante a realização dos testes funcionais com duração de 30 segundos
cada um (agachar a 90 graus; descer um step com 25 cm de altura) (Cowan et al.,
2002).
Os critérios de exclusão para ambos os grupos foram: presença de doença
neurológica (Laprade, Culham, & Brouwer, 1998); história de trauma nos
membros inferiores, lesão meniscal ou ligamentar do joelho (Cowan et al.,
2002); luxação patelar recidivante; história de cirurgia no joelho ou membros
inferiores (Powers, 2000); presença de doenças sistémicas que pudessem
comprometer a locomoção (Aliberti, 2008).
Instrumentos
A análise do ângulo do retropé estático foi realizada através do Software para
Avaliação Postural (SAPO – versão 6.8), sendo utilizada para o registro das
imagens uma câmara fotográfica (Sony Cyber Shot 14.1 MP) e a calibração das
imagens foi realizada através de um fio de prumo preso no teto, sobre o qual
foram colocadas duas bolas de isopor com uma distância de 1 m entre elas.
A análise do ângulo do retropé dinâmico foi realizada pelo Software Ariel
Performance Analysis System (APAS), sendo as imagens adquiridas através de uma
câmara de filmar digital (Sony HandyCam DCR-SR65), com frequência de aquisição
de 60 Hz.
Para esta avaliação utilizou-se um sistema de calibração bidimensional de oito
pontos, de dimensões de 61 cm no eixo x e 80 cm no eixoy e um ponto fixo foi
posicionado ao lado do calibrador.
Em ambas avaliações (estática e dinâmica) foram utilizados marcadores esféricos
no membro inferior dos sujeitos para avaliação dos ângulos.
Procedimentos
Inicialmente, os sujeitos foram esclarecidos quanto à importância da pesquisa,
critérios de inclusão e exclusão, bem como sua participação nesta através do
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e Termo de Consentimento para
Fotografias, Vídeos e Gravações. Após, foi aplicada uma ficha de avaliação para
caracterização dos sujeitos e realizada a avaliação do ângulo do retropé
estático, por meio do protocolo do SAPO (versão 0.68), onde foram demarcados,
com pequenas bolas de isopor e fita dupla face, o ponto médio do terço póstero-
inferior da perna, ponto médio do tendão de Aquiles na altura dos dois maléolos
e ponto médio do calcâneo (SAPO, 2010).
Uma máquina fotográfica (Sony Cyber Shot 14.1 Mp) foi posicionada em um tripé
com altura de 95 cm e como referência vertical foi fixado um fio-de-prumo no
teto. Sobre esse fio foram colocadas duas bolas de isopor com uma distância de
1m entre elas, que serviram como sistema de calibração. O sujeito e o fio-de-
prumo foram posicionados num mesmo plano perpendicular ao eixo da câmara a uma
distância de 3 metros dessa (SAPO, 2010). Os pés dos sujeitos foram dispostos
de forma paralela e em posição neutra, distantes 10 cm um do outro, sendo esta
distância mensurada com uma régua e demarcada no solo. Em seguida, foram
adquiridas imagens digitais no plano frontal, vista posterior. Dando
continuidade, foi realizada a avaliação do ângulo do retropé dinâmico durante a
marcha em superfície plana. Foi utilizada uma câmara de filmar digital (Sony
HandyCam DCR-SR65), posicionada num tripé a uma altura de 50 cm do solo e
distância de 3 m do sujeito, sendo as imagens adquiridas no plano frontal,
vista posterior do sujeito.
Quatro marcadores esféricos foram colocados no sujeito, nos seguintes pontos
anatómicos: um marcador no centro do calcanhar, logo acima da sola da sapatilha
(1), outro no centro do calcanhar, na inserção do tendão de Aquiles (2), um
terceiro no centro do tendão de Aquiles na altura do maléolo medial (3) e um
quarto 15 cm acima do terceiro marcador no centro da perna (4) (Cheung &
Ng, 2007; De Wit, De Clercq, & Aerts, 2000; Perry & Lafortune, 1995;
Santos, 2008) (Figura_1).
Para realizar as marcações para colocação dos marcadores foi solicitado ao
sujeito para permanecer em pé, em posição ortostática, com o peso distribuído
de forma igual em ambos os pés. Para garantir o mesmo alinhamento de todos os
sujeitos durante as marcações, estes foram instruídos a posicionar o pé sobre
uma linha reta marcada no solo, fazendo com que o centro do calcanhar ficasse
no meio dessa linha e também o segundo dedo posicionado sobre a mesma (Santos,
2008). No GSDFP com dor bilateral, foi avaliado o membro com maior exacerbação
da dor no momento da avaliação, nos sujeitos com dor unilateral foi considerado
apenas aquele membro. No GC foi avaliado o membro dominante. O sujeito foi
orientado a caminhar ao longo de uma distância de 8 metros, de forma natural.
Foram gravados cinco ensaios consecutivos da marcha a uma velocidade homogénea.
Para o cálculo das coordenadas reais, foi colocado um sistema de calibração
bidimensional no plano das filmagens, constituído por oito pontos distando
entre si 61 cm no eixo horizontal e 80 cm no eixo vertical e um ponto fixo foi
colocado ao lado do calibrador.
Análise dos Dados
Para análise do ângulo do retropé estático foram realizadas três medidas e
feita uma média entre estas três, sendo as imagens calibradas e digitalizadas
de acordo com o protocolo do SAPO e posteriormente os dados foram armazenados
no próprio software.
Para a análise cinemática do retropé, a digitalização das imagens foi realizada
no Software APAS e os dados filtrados digitalmente com uma frequência de corte
de 6 Hz. Foi analisado o valor máximo do ângulo do retropé durante a fase de
apoio simples da marcha no intervalo de 30% a 50% da fase de apoio da marcha
(Perry, 2005), sendo o ângulo do retropé formado pela intersecção das linhas
que formam o segmento perna com o segmento pé (Figura_1), sendo a eversão
considerada positiva e a inversão negativa. A fase de apoio da marcha foi
considerada do instante do toque do calcanhar ao solo até o desprendimento dos
dedos (Whittle, 1993).
Um único passo foi considerado em cada ensaio, totalizando 5 passos ao final. A
escolha por esse número de passos baseou-se em estudos prévios da análise
cinemática do retropé. (Chuter, 2010; Cornwall & Mcpoil, 1995; Moseley,
Smith, Hunt, & Grant, 1996) e no estudo de Diss (2001) que observou uma
fiabilidade acima de 0.93 para as variáveis cinemáticas numa análise de 5
passos.
Os dados cinemáticos foram normalizados na base do tempo, ajustada de 0% a 100%
para a fase de apoio da marcha, com intervalos de 1% usando como referência o
instante do toque do calcanhar até o desprendimento dos dedos do solo. Para
esta normalização foi utilizada uma rotina elaborada no programa Matlab.
Em ambas avaliações (estática e dinâmica) foram analisados os ângulos relativos
entre os segmentos perna e pé.
Análise Estatística
Para a análise estatística foi utilizado o Statistical Package for the Social
Sciences (SPSS v. 17.0). A estatística descritiva foi utilizada para
caracterização dos sujeitos. O teste de Shapiro-Wilk mostrou que os dados
apresentavam distribuição gaussiana (p= 0.96); o teste t de Student para
amostras independentes foi utilizado para testar a homogeneidade dos sujeitos
em relação à idade, massa, estatura e velocidade da marcha, bem como comparar a
variação entre as condições estática e dinâmica do ângulo do retropé entre o
GSDFP e GC e a Anova 2×2 para comparar o ângulo do retropé estático e dinâmico
entre o GSDFP e GC. O nível de significância adotado foi de p= 0.05. Para
calcular o effect size, foi utilizado o programa Gpower 3.1, usando-se os
valores de média e desvio padrão dos grupos.
RESULTADOS
Ao comparar o ângulo do retropé estático e dinâmico entre o GSDFP e o GC,
conforme se pode observar na tabela_2, não foram observadas diferenças entre os
grupos em relação aos ângulos do retropé estático e dinâmico.
A figura_2 apresenta a variação do ângulo do retropé entre as situações
estática e dinâmica. Constatou-se uma maior variação entre as duas situações no
GC (3.27 ± 4.59°) em relação ao GSDFP (1.65 ± 4.84°), no entanto ao comparar
esta variação entre os grupos, não foi observada diferença significativa(p=
0.22).
DISCUSSÃO
Este estudo teve como objetivo comparar o alinhamento postural estático e
dinâmico do retropé nos sujeitos com e sem SDFP. Ao comparar o ângulo do
retropé estático e o ângulo do retropé dinâmico entre o GSDFP e o GC, não foram
observadas diferenças, o que sugere cautela na utilização deste ângulo como
fator para o desenvolvimento ou agravo da SDFP. Estes resultados vão ao
encontro de Aliberti (2008), que ao avaliar o ângulo do retropé estático
através do SAPO, também não observou alterações neste ângulo nos sujeitos com
SDFP. O autor explica estes resultados pelo fato das medidas terem sido
realizadas de forma estática e os sinais e sintomas da SDFP exacerbarem-se
principalmente durante atividades dinâmicas.
Entretanto, Belchior, Arakaki, Reis e Carvalho (2006), Venturini, Morato,
Michetti, Russo e Carvalho (2006) e Powers et al. (1995) encontraram alterações
no ângulo do retropé estático nos sujeitos com e sem SDFP, sugerindo que
alterações nestes ângulos poderiam contribuir para o desenvolvimento ou agravo
da SDFP. Sendo assim, existem resultados distintos na literatura a respeito da
postura estática do pé em sujeitos com SDFP e sua contribuição para esta afeção
(Messier et al., 1991; Powers et al.,1995; Sutlive et al., 2004; Thomee et al.,
1995; Witvrouw, Lysens, Bellemans, Cambier, & Vanderstraeten, 2000).
É possível que a natureza multifatorial da síndrome possa contribuir para os
resultados controversos entre os diferentes estudos, sugerindo a existência de
subgrupos que por sua vez poderiam apresentar características diferentes entre
si, como já ocorre em pacientes submetidos à reconstrução do ligamento cruzado
anterior (Alkjaer et al., 2002; Chmielewski, Hurd, & Snyder-Mackler, 2005).
Adicionalmente, a SDFP é uma afeção que se manifesta principalmente durante
atividades dinâmicas, sendo fundamental a avaliação cinemática entre sujeitos
com e sem a SDFP durante estas atividades (Barton et al., 2009).
No presente estudo, também não foram observadas diferenças no ângulo do retropé
dinâmico entre os sujeitos com e sem SDFP. Assim, a SDFP parece também não
estar relacionada com alterações na magnitude das variáveis cinemáticas deste
ângulo. Esses resultados vão ao encontro daqueles encontrados por Levinger e
Gilleard (2007), os quais também não observaram diferenças na magnitude da
eversão do retropé ao realizar uma análise do movimento tridimensional da tíbia
e do retropé em sujeitos com e sem SDFP.
Ao comparar a variação entre as situações dinâmica e estática entre os grupos,
o GC apresentou maior variação entre as condições (3.27°) do que o GSDPF
(1.65°), embora esta diferença não tenha sido significativa. É possível que a
menor amplitude de movimento do retropé, entre as condições estática e
dinâmica, no GSDFP, tenha ocorrido pela presença de dor, que limitaria os
movimentos desta articulação nos sujeitos com SDFP, fator não presente nos
sujeitos do GC.
Além disso, Tiberio (1987) coloca que como o ciclo da marcha não ocorre somente
em sequência, mas necessita de um sincronismo entre as articulações, um
movimento anormal da subtalar modificará a biomecânica do joelho. Assim, uma
pronação excessiva poderá atrasar a rotação externa da perna que acompanha a
supinação da subtalar, onde este atraso resulta em uma reação compensatória na
articulação tibiofemoral levando a presença de sintomas femoropatelares.
Segundo Powers et al. (1995) e Grenholm, Stensdotter e Hager-Ross (2009),
várias atividades funcionais praticadas pelos sujeitos com SDFP poderiam
resultar em modificações nos padrões de caminhar, devido à sensação de dor ou
desconforto, sendo estas estratégias para reduzir as demandas musculares e os
sintomas da dor. Assim, acreditamos que esta menor variação entre o ângulo
estático e dinâmico também poderia ser uma estratégia adotada pelos sujeitos
com SDPF em função da sua dor.
No presente estudo optamos por realizar as avaliações com os sujeitos
utilizando uma sapatilha padrão com o objetivo de aproximá-los o máximo
possível da realidade, tendo em vista que a maioria das atividades realizadas
no dia-a-dia é com calçado. No entanto, acreditamos que o uso da sapatilha
possa ter influenciado nos resultados, o que pode ser considerada uma limitação
do estudo. Também optámos por utilizar dois softwares para avaliação dos
ângulos (SAPO e APAS) devido à logística das avaliações, o que também pode ser
considerada uma limitação. O fato da avaliação cinemática ser realizada somente
no plano frontal, além da identificação imprecisa do início e final do passo
que são as limitações dos instrumentos, também são consideradas limitações do
presente estudo.
O presente estudo contribui para elucidar a questão relativa ao alinhamento
estático e dinâmico do retropé na SDFP, uma vez que estas medidas são
amplamente realizadas na prática clínica em sujeitos com essa afeção. Através
deste estudo observou-se que sujeitos com SDFP não possuem diferenças na
magnitude destes ângulos em relação a sujeitos assintomáticos, sugerindo que a
SDFP não possui relação com alterações no alinhamento do retropé.
CONCLUSÕES
Os resultados do presente estudo, nas condições experimentais utilizadas,
evidenciaram não haver alterações no alinhamento postural estático e dinâmico
do retropé nos sujeitos com Síndrome da Dor Femoropatelar em relação ao grupo
assintomático.