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EuPTCVHe1646-107X2014000300006

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variedadeEu
ano2014
fonteScielo

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Análise das estruturas do Complexo I à luz do resultado do set no voleibol feminino

INTRODUÇÃO O voleibol é considerado um desporto de alta complexidade devido às demandas técnicas, táticas e físicas (Kugler, Kruger-Franke, Reininger, Trouillier, & Rosemeyer, 1996; Reynaud, 2011; Shondell & Reynaud?, 2002). Tal modalidade desportiva é determinada por complexos de jogo. Tais complexos possibilitam a compreensão da especificidade de organização e contra comunicação entre as equipas e norteiam o processo de treino (Costa, Ferreira, Junqueira, Afonso, & Mesquita, 2011a; Fröhner & Zimmermann, 1996; Palao, Santos, & Ureña, 2004). Ao analisar a lógica do jogo, percebe-se a existência de dois complexos distintos: Complexo I (compreende: receção, levantamento e ataque); II (bloqueio-defesa-levantamento-ataque) (Palao et al., 2004). Observa-se que as equipas, quando estão no complexo I, apresentam melhores organizações ofensivas por meio de levantamentos mais rápidos, maior número de jogadores mobilizados e ataques potentes (Afonso, Mesquita, & Palao, 2005; Costa et al., 2011a; Matias & Greco, 2011; Rocha & Barbanti, 2006).

Estudos na área de análise de jogo mostram uma preocupação em entender quais os fundamentos que se relacionam com a obtenção do ponto (Marcelino, Mesquita, & Afonso, 2008; Marcelino, Mesquita, Palao, & Sampaio, 2009). Observa- se que o ataque é a estrutura de jogo que oportuniza o maior número de pontos, quando realizado de forma potente (Castro, Souza, & Mesquita, 2011; Costa et al., 2011a; Costa, Mesquita, Greco, Ferreria, & Moraes, 2011b; Nikos, Karolina, & Elissavet, 2009; Papadimitriou, Pashali, Sermaki, Mellas, & Papas, 2004). Além disso, os levantamentos com maior velocidade mostram-se como fatores preditores do Efeito do Ataque. A maior velocidade de jogo proporciona uma menor estruturação defensiva (Kudo & Kayamori, 2001; Matias & Greco, 2011; Mesquita & Cesar, 2007; Rocha & Barbanti, 2004). uma relação do desempenho no set, com as estruturas do jogo (em competições internacionais), tendo em vista que tais ações de jogo são decisivas para a vitória na partida (Eom & Schutz, 1992). Estudos demonstram a relação entre o rendimento no set e a eficácia dos fundamentos de jogo (Drikos, Kountouris, Laios, & Laios, 2009; Marcelino et al, 2008; Rodriguez-Ruiz et al., 2011).

Por intermédio de estudos elaborados com a Análise de Jogo, percebe-se que as ações terminais (saque, ataque e bloqueio) fornecem indicadores sobre a vitória no set e no jogo (Garcia-Hermoso, Dàvila-Romero, & Saavedra, 2013; Marelic, Rešetar, & Jankovic, 2004; Rodriguez-Ruiz et al., 2011). A maior pontuação no voleibol é obtida por meio do ataque e em sua contraposição o bloqueio é um fundamento decisivo para o sucesso em uma partida (Marcelino, Mesquita, & Sampaio, 2011; Rodriguez-Ruiz et al., 2011). As diferentes situações de jogo requerem um comportamento autónomo e adaptativo dos jogadores nas suas diferentes ações, com os processos cognitivos relativos à decisão tática elaborados e delimitados ou não por meio das habilidades técnicas (Greco, 2006, 2007, 2009; Hughes & Bartlett, 2002; Kromann, Jensen, & Ringsted, 2009; Mesquita, Marques, & Maia, 2001).

Os estudos que investigaram a relação entre o desempenho técnico e a vitória no set mostram-se vinculados ao voleibol masculino. Tendo em vista a diferença de jogo entre os sexos (Costa, Afonso, Brant, & Mesquita, 2012), é justificável uma investigação científica relativa às estruturas de jogo no voleibol feminino.

Sendo assim, o objetivo deste estudo foi analisar o poder preditivo para a vitória/derrota no set a partir das estruturas de jogo do Complexo I, tendo como referência o voleibol feminino de alto rendimento. Além disso, investigou- se a influência do bloqueio, uma vez que este procedimento mostra-se como fator preditor da vitória (Barsingerhorn, Zaal, Poel, & Pepping, 2013; Marcelino et al., 2011; Patsiaouras, Moustakidis, Konstantinos, & Kokaridas, 2011; Marelic et al., 2004; Palao et al., 2004).

MÉTODO Amostra O presente estudo teve como amostra 12 equipas participantes da Superliga Feminina de Voleibol 2011/2012. Superliga é um nome que faz alusão ao principal campeonato (Voleibol) de clubes no Brasil. A Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) organiza e dirige a Superliga. Integram a competição as equipas mais relevantes do país, constituindo-se na melhor representatividade do voleibol brasileiro (Ramos et al., 2004).

Recorreu-se à observação de dezoito jogos (Quadro_1), sendo três jogos de cada equipa (?= 65 sets). O critério adotado de três jogos por equipa corresponde ao descrito por Afonso, Mesquita e Marcelino (2008), com a finalidade de analisar todas as equipas pelo menos contra dois adversários distintos, no sentido das regularidades encontradas não resultarem das idiossincrasias do oponente, mas sim da lógica inerente ao jogo. Ao todo foram analisadas 2333 sequências ofensivas relativas ao Complexo I.Na presente investigação científica houve sigilo em relação à identidade dos jogadores. Os dezoito jogos disponibilizados integram o banco de imagens (jogos) da instituição (clube) participante da competição citada. Os clubes registram os jogos com autorização da organização promotora do evento: CBV. Todos os clubes possuem o direito de registo dos jogos e o direito do uso (não comercial) dos mesmos. Os jogos foram disponibilizados para a realização desta pesquisa.

Instrumentos Na literatura uma ausência de instrumentos em relação à particularidade do problema em estudo. Por tal razão, foi empregue um instrumento específico em cada uma das variáveis investigadas. Logo abaixo estão descritas as variáveis utilizadas no presente estudo e a origem do respetivo instrumento. No Quadro_2 estão os critérios relativos a cada um dos instrumentos e, por conseguinte, as próprias variáveis.

Efeito da Receção Na variável Efeito da Receção foram adotados e adaptados os critérios de Eom e Schutz (1992), que sugerem a avaliação segundo uma escala qualitativa de zero (erro) a quatro (ação correta).

Tipo de Levantamento Não consenso na literatura consultada relativamente a um modelo que defina as variantes técnicas de realização deste procedimento de jogo. Deste modo, foram adotados como referência os estudos de Mortensen (2007) e Papadimitriou et al. (2004).

Tempo de Ataque Corresponde ao parâmetro temporal no qual o ataque é realizado, tendo como indicadores o levantador, o atacante e a trajetória da bola. Para a análise desta variável, empregaram-se os critérios propostos por Afonso et al. (2010).

Tipo de Ataque Realizado Utilizaram-se os critérios de Costa et al. (2011a) para analisar o tipo de ataque realizado.

Tipo de Oposição Corresponde ao número de bloqueadores que se opõe ao ataque adversário: 1x1, 1x2 e 1x3 (atacante versus número de bloqueadores) (Matias & Greco, 2011).

Efeito do Ataque A análise desta variável foi realizada por meio da adequação dos modelos propostos por Coleman (1985), Marcelino et al. (2011) e Moutinho, Marques e Maia (2003).

Coleta de Dados Os jogos foram gravados (por intermédio de uma filmadora digital, com registo no formato MPG) por uma das equipas participantes da Superliga. Os dezoito jogos disponibilizados e analisados integram o banco de imagens (jogos) da instituição (clube) participante da competição citada. Os jogos foram gravados com a filmadora posicionada de modo fixo atrás da área de jogo, da zona de defesa, com o registo de todo o campo de voleibol.

Procedimentos Foi usado um formulário para o registo dos critérios de cada uma das variáveis deste estudo. Os jogos foram observados num ecrã de notebook de 14 polegadas. A visualização do arquivo digital (MPG), de cada um dos jogos, ocorreu por meio do software Windows Media Player. O pesquisador responsável por este estudo fez a análise das dezoito partidas. Ao todo foram realizados 13998 registos: 2333 registos referentes a cada uma das variáveis do estudo (Efeito da Receção, Tipo de Levantamento, Tempo de Ataque, Tipo de Ataque Realizado, Tipo de Oposição e Efeito do Ataque).

Após quinze dias da concretização da análise completa das partidas, o pesquisador responsável por este estudo verificou 20% das ações registadas (intra-observação). Em seguida, dois treinadores com experiência na Superliga verificaram o mesmo índice de ações registradas em cada um dos jogos (inter- observação). Tal índice é superior ao valor de referência (10%) determinado pela literatura (Tabachnick & Fidell, 2013).

A confiabilidade inter-observador mostrou valores de Kappa entre 0.82 e 1.0 e a intra-observador entre 0.81 e 1.0 para todas as variáveis, superiores aos valores mínimos aceitáveis apontados pela literatura (0.75) (Fleiss, 2003). O percentual de acordos inter-observador e intra-observador foi, respetivamente: Efeito da Receção = 0.94, 0.91; Tipo de Levantamento = 1.00, 1.00; Tempo de Ataque = 0.82, 0.81; Tipo de Ataque Realizado = 0.91, 0.96; Tipo de Oposição = 0.98, 0.99; e, Efeito do Ataque = 0.93, 0.98.

Análise Estatística No sentido de averiguar a possível existência de fatores preditores da vitória/ derrota no set, foi realizada a regressão logística multinomial. Deste modo, buscou-se medir o grau de associação entre as variáveis independentes (Efeito da Receção, Tipo de Levantamento, Tempo de Ataque, Tipo de Ataque, Tipo de Oposição e Efeito do Ataque) na previsão da variável dependente (vitória/ derrota no set). As variáveis foram testadas individualmente, a priori, para identificar a associação significante com a variável resposta (odds ratio bruto). Quando esta foi verificada, as variáveis foram incluídas no modelo ajustado (odds ratio ajustado). Este modelo permitiu averiguar o poder preditor de cada uma destas variáveis.

Foi utilizado o software SPSS, versão 20.0 (IBM Corp, NY, EUA).

RESULTADOS A regressão multinomial foi utilizada para estimar a probabilidade de cada uma das variáveis independentes em função da variável resposta (vitória/derrota do set), sendo que o modelo ajustado foi estatisticamente significativo (G²= 57.10; p< 0.001). As variáveisTempo de Ataque e Tipo de Ataque Realizado não apresentaram associação com a variável dependente, quando avaliadas individualmente, não incorporando o modelo de regressão. Neste sentido, a Tabela_1 indica a relação entre a vitória/derrota no set e as variáveis do jogo. Observa-se que o Efeito da Receção e o Efeito do Ataque mostraram-se como fatores preditores na vitória/derrota do set.

Na associação entre a vitória/derrota no set e o Efeito da Receção observa-se que o valor de odds ratio ajustado foi de 2.015 para o Erro de Receção e de 1.337 para a receção moderada. Neste sentido, a probabilidade do erro de receção possibilitar a derrota no set foi de aproximadamente 2.0 vezes maior do que quando ocorreu a receção excelente. Além disso, a chance da receção moderada oportunizar a derrota no set foi de 1.3 vezes em comparação à receção excelente.

A análise do Efeito do Ataque evidenciou o valor de odds ratio ajustado de 1.791 para o erro de ataque, 1.537 para a continuidade 1 e 1.474 para a continuidade 2. Deste modo, a possibilidade de perder o set foi 1.8 vezes maior quando ocorreu o erro de ataque, 1.5 vezes maior quando ocorreu a continuidade 1 e 1.4 vezes maior quando ocorreu a continuidade 2, em relação ao ponto de ataque (categoria de referência).

DISCUSSÃO O presente estudo propôs-se a investigar a relação entre a vitória/derrota no set e as diferentes estruturas do sistema ofensivo [ toque (recebedor/ defensor); levantador; atacante] relativas ao Complexo I e ao bloqueio. A análise do Efeito da Receção mostrou que o erro de receção e a receção moderada aumentaram as possibilidades de derrota no set. Observa-se que a receção positiva mostra-se relacionada com a vitória no set (García-Hermoso et al., 2013), enquanto os erros de receção reduzem as oportunidades de vencer uma partida (Patsiaouras et al., 2011). A receção é uma estrutura do voleibol de importância incontestável entre os treinadores, sendo que tal relevância possibilitou a introdução de um novo jogador no corpo de regras: o líbero, especialista no toque (receção e defesa) (Marelic et al., 2004).

Estudo de Maia e Mesquita (2006) relatou a relevância do líbero. Entretanto, os pesquisadores não encontraram no voleibol feminino uma diferença na eficácia da receção do líbero em relação aos jogadores que compõem a linha do toque.

João, Mesquita, Sampaio e Moutinho (2006) identificaram diferenças entre as ações do líbero (melhor qualidade) em relação aos demais jogadores da receção no voleibol masculino, mas não ocorreu equivalência deste resultado em toda a amostra (equipas: seleções nacionais). Maia e Mesquita (2006) e João, Mesquita, Sampaio e Moutinho (2006) descrevem a importância que precisa ser dada ao treino do líbero, pois as suas ações intervêm na elaboração do sistema ofensivo. O toque do Complexo 1 ao ter uma eficácia positiva, permite melhores condições de finalização e, consequentemente, maiores oportunidades de aquisição do ponto de ataque (Costa et al., 2011a, 2011b; Matias & Greco, 2011; Patsiaouras et al., 2011; Rocha & Barbanti, 2006).

O erro de receção diferencia o nível de desempenho das equipas (Patsiaouras et al., 2011). O erro de receção, por não oportunizar a continuidade da jogada, é um fator que diferencia o desempenho das equipas no set. No que se refere à receção moderada, o menor número de jogadores mobilizados pelo levantador para o ataque, é um facilitador na organização do sistema defensivo adversário (Matias & Greco, 2011), por conseguinte se reduz a possibilidade de obtenção do ponto de ataque e, consequentemente, a vitória do set.

A análise do Efeito do Ataque mostrou que o erro de ataque, a continuidade 1 e a continuidade 2 aumentaram as chances de derrota no set. Estudos sobre a análise de jogo (Costa et al., 2011a, 2011b; García-Hermosoet al., 2013; Marcelino et al, 2008, 2009, 2011; Rocha & Barbanti, 2004, 2006) mostraram que o ponto ocorre principalmente por meio do ataque e que este encontra-se relacionado com a vitória no jogo (García-Hermoso et al., 2013; Marcelino et al., 2009; Marcelino et al., 2011). Deste modo, o erro de ataque propicia o ponto direto para o adversário, a continuidade 1 e 2 permitem a estruturação ofensiva da equipa defensora de forma organizada, por conseguinte se reduzem as possibilidades de vencer o set.

As variáveis relacionadas ao Tipo de Levantamento e Bloqueio não apresentaram poder preditor quando integradas ao modelo ajustado. É importante salientar as diferenças encontradas entre este estudo e outras pesquisas no que tange o Efeito do Bloqueio. Estudos realizados com análise do jogo observaram que o bloqueio é um fator preditor para a vitória (Marcelino et al., 2011; Marelic et al., 2004; Palao et al., 2004; Patsiaouras et al., 2011; Rodriguez-Ruiz et al., 2011). Entretanto, estes estudos observaram a categoria masculina, que se mostra diferente do sexo feminino (Afonso & Mesquita, 2011; Costa et al., 2012). Provavelmente, a menor agressividade ofensiva observada no sexo feminino (Costa et al., 2012; João, Leite, Mesquita, & Sampaio, 2010) contribuiu para que o bloqueio não fosse considerado fator preditor da vitória do set.

CONCLUSÕES O presente estudo denota evidências que são um indicativo da perda do set em decorrência de receções de baixa qualidade e também em detrimento de inúmeros insucessos no efeito do ataque. Neste sentido, à luz da eficácia positiva na receção se apresentam melhores condições de finalização e, por conseguinte maiores possibilidades de sucesso ofensivo. Logo, o processo de treino tático (numa abordagem sistémica) deve primar pela eficácia nos procedimentos de receção e ataque. Além disso, deve oferecer para as diferentes estruturas do sistema ofensivo [ toque (recebedor/defensor); levantador; atacante] a possibilidade de autonomia e adaptação aos constrangimentos da respetiva situação, sejam eles inerentes às ações da própria equipa e/ou às ações de contra comunicação com o adversário. Por fim, sugerem-se futuras investigações que abordem as ações de jogo em relação a diferentes pontuações entre as equipas e/ou momentos distintos do set. Da mesma forma, recomendam-se pesquisas com o complexo I e II, uma vez que uma lógica de jogo específica em cada um deles. Concomitantemente sugere-se a realização de investigações com a estrutura do núcleo da organização ofensiva (levantador), pesquisas com diferentes culturas, faixas etárias e ainda a investigação em níveis de rendimento tático díspares.


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