Praxiologia motriz e a abordagem crítico-superadora: Aproximações preliminares
INTRODUÇÃO
A sociedade em que vivemos impõe-nos um modo de vida cujas diferenças se
acentuam cada vez mais, sem que isso deixe de parecer “natural” para a maioria
das pessoas; uma sociedade discriminatória e excludente, que oprime os que não
dispõem das condições necessárias para nela se inserir. Porém, no momento em
que se quer mudar essa realidade, deve-se procurar embasamento nos
conhecimentos que poderão auxiliar na consecução dessa luta. O Materialismo
Histórico Dialético (MHD) apresenta uma perspetiva de compreender o mundo
através de outro olhar, i.e., aponta uma forma de se buscar uma mudança dessa
cruel realidade que nos assombra, de modo a escapar do conformismo e submissão
ao sistema, que está para a maioria como a única saída. Como educadores temos a
obrigação de, além de ensinar, também apresentar essa realidade aos nossos
alunos. Por isso, entendemos que se faz necessária a utilização de Abordagens
Críticas da Educação Física, mais especificamente a Abordagem Crítico-
Superadora (ACS). Desse modo, eles poderão entender que todos somos sujeitos da
história e que, como tal, podemos modificá-la. “Isso quer dizer que se deve
explicar ao aluno que a produção humana, seja intelectual, científica, ética,
moral, afetiva etc., expressa um determinado estágio da humanidade e que não
foi assim em outros momentos históricos” (Coletivo de Autores, 1992, p. 33).
Dentro dessa perspetiva da sociedade capitalista e de suas necessidades, outra
realidade que necessita ser revista é a forma como os jogos e desportos vêm
sendo desenvolvidos no meio escolar. Sua prática, seguindo os moldes do
desporto de competição, vem acentuar as diferenças existentes na massa
heterogénea de alunos, separando-os em dois blocos: o dos aptos e o dos não
aptos. Aqueles que apresentam um pouco mais de habilidade vão se tornar os
praticantes assíduos; porém, aqueles que têm dificuldades acabarão se afastando
e, consequentemente, acentuar a resistência pela prática dos jogos. Nesse
sentido, a oportunidade de desenvolvimento, dentro das possibilidades de cada
indivíduo, não se concretiza, o que pode frustrar a função do professor
formador e penalizar o aluno que, sem a sadia prática do desporto na escola,
deixa de alcançar tal objetivo.
O entendimento da realidade em que estão inseridos, por parte dos alunos,
também possibilitará uma melhor compreensão das mudanças às quais os desportos
vêm sendo obrigados a se adequar, modificações estas que nem sempre estão
relacionadas ao âmbito desportivo e, sim, à forma como o desporto vem se
tornando uma mercadoria cada vez mais rentável nessa sociedade produtiva e
ideologicamente capitalista. Estes são apenas alguns aspetos que poderão ser
descritos e mais bem aprofundados dentro das aulas de Educação Física e para os
quais a Praxiologia Motriz (PM) poderá explicitar alguns elementos referentes à
lógica de funcionamento e à caracterização de distintos âmbitos do mundo dos
jogos e desportos.
Justificamos nossa escolha acerca dessas temáticas pela necessidade de um maior
embasamento metodológico por parte do professor, destacando que a PM não tem
características metodológicas. E, apesar de a PM apresentar elementos
sistematizadores de forma consistente em relação aos jogos e desportos, a forma
como devem ser tratados esses elementos por parte do professor dependerá das
orientações teórico-metodológicas de cada educador.
Os primeiros passos deste estudo foram dados junto ao Projeto de Extensão
denominado “Voleibol-CEFD” e ao Projeto de Ensino denominado “Princípios
Orientadores para o Ensino do Voleibol”, projetos complementares, já que um
surgiu da necessidade do outro. O projeto de ensino aconteceu em decorrência
das dificuldades encontradas no tracto com a PM, principalmente no momento de
articular a temática com a parte prática, junto ao projeto de extensão
Voleibol-CEFD. Detetou-se, então, a necessidade de um maior aprofundamento
teórico, o que foi feito através de uma releitura do voleibol a partir do
conhecimento praxiológico. No ano de 2005, junto ao grupo de pesquisadores da
Linha de Estudos Epistemológicos e Didáticos em Educação Física (LEEDEF),
realizamos estudos referentes ao MHD que se constitui no pilar teórico que
sustenta as ações dessa linha de pesquisa. A partir do aprofundamento teórico-
metodológico dessas temáticas, percebeu-se a necessidade de aproximar esses
conhecimentos na busca de uma possibilidade no tracto do ensino junto ao meio
escolar, buscando assim conhecer a lógica do processo de apreensão do
conhecimento em sua realidade mais pura, a realidade escolar. Como declara
Wachowics (1989), citado por Freitas (2000, p. 50): “Há vários métodos de
ensino determinados pelo seu objeto, mas há uma lógica que comanda a apreensão
da realidade pela inteligência, lógica esta que vai determinar a forma pela
qual se dá a mediatização do saber”.
Com base no que se apresentou até aqui, entendemos a necessidade de aproximar
essas duas temáticas, conhecimentos tais que até o momento, de forma
articulada, não haviam sido objeto de estudo, mas que Parlebas (2001) já vem
indicando que os conhecimentos da PM estão situados na ação motriz e estudo da
lógica interna, e que a “...pedagogia das práticas corporais implica
profundamente os sistemas de valores políticos e ideológicos” (p. 175). A
necessidade da realização de estudos que realizem um debate aprofundado dessas
relações também foi apontada por Ribas (2005) que, nesse trabalho, apresentou
as contribuições didáticas da PM para a Educação Física Escolar. Em outro
estudo, Ribas e Oliveira (2010) realizam uma análise teórica onde debatem as
relações conceituais da abordagem crítico emancipatória proposta por Elenor
Kunz com a PM. Sendo assim, o âmbito académico da Educação Física necessita de
respostas científicas que evidenciem como se dá a relação entre a ACS e a PM.
Neste estudo, inicialmente apresentaremos algumas considerações referentes aos
Jogos e Desportos buscando situá-los conceitualmente. Na sequência, trataremos
de dissertar sobre os elementos essenciais da PM, no sentido de apresentar um
pouco de sua história e de sua conceituação. Em seguida, serão apresentados
também os elementos relativos à ACS. A seguir ilustraremos essa aproximação a
partir do esboço da proposta metodológica que trata de acercar os conceitos da
PM na perspetiva teórica do materialismo histórico. Finalizamos o texto com
algumas considerações sobre o estudo no sentido de mostrar as limitações e a
possibilidade de continuidade deste trabalho.
MÉTODO
Além de todos esses aspetos que são aqui levados em consideração, o processo
metodológico seguiu a lógica proposta por Saviani (1997), que utiliza o método
proposto por Marx para a compreensão da Economia Política, relacionando e
sistematizando-o para o contexto da Educação. Saviani (1997) propõe o tracto do
conhecimento em cinco passos ou momentos que estão articulados, nem sempre se
apresentando na mesma ordem cronológica, mas que, dependendo das circunstâncias
das aulas, podem acontecer ao mesmo tempo. Os passos são os seguintes:
1º PASSO - Prática Social: é o ponto de partida e, ao mesmo tempo, o ponto de
chegada. No entanto, o conhecimento no ponto de chegada não será mais o mesmo
do ponto de partida, pois passará pelos outros passos, a fazer com que se torne
um conhecimento mais elaborado e a torná-lo um novo ponto de partida.
2º PASSO - Problematização: neste ponto, são elencados problemas referentes ao
conhecimento que seria necessário dominar, buscando, com isso, detetar questões
que precisam ser resolvidas no âmbito da prática social. Pela interação
professor/aluno, feita durante ou depois da prática social, o professor
indagará os alunos acerca da prática social, no momento em que os problemas são
discutidos.
3º PASSO - Instrumentalização: neste mo-mento, o professor será responsável
pela transmissão de forma direta ou indireta dos conteúdos. Sempre partindo dos
problemas apresentados e do objetivo, o professor irá fornecer aos alunos
possibilidades e instrumentos para solução e apreensão de determinado
conhecimento.
4º PASSO - Catarse: forma elaborada do pensamento, instância em que os
conteúdos passam a ser elementos ativos da transformação social.
5º PASSO - Prática Social: Através de todo esse processo descrito, a
compreensão da prática social passa por uma alteração qualitativa. Com isso,
conclui-se que a prática social no ponto de partida (primeiro passo) e no ponto
de chegada (quinto passo) é e não é a mesma. Pode-se perceber com isso que a
alteração objetiva da prática só pode se dar a partir da nossa condição de
agentes sociais ativos, reais.
É importante destacar que os cinco passos não são etapas a serem seguidas e que
nem sempre os objetivos para cada aula serão alcançados naquele momento em que
são propostos. Por exemplo, a catarse ou o entendimento/compreensão por parte
do aluno pode se dar apenas algumas aulas à frente, e isso vai depender das
capacidades de cada aluno. Nesse sentido, Souza (2009) acrescenta que:
"Este método, proposto para a sala de aula apresenta, enquanto ponto
de partida e ponto de chegada, no processo de ensino, a prática
social. É também um método do abstrato ao concreto, porque o ponto de
partida (no caso específico da educação, o conteúdo), no qual inicia
a análise (processo de ensino) é constituído de determinações
encontradas na representação do real. O pensamento do aluno inicia
sobre um todo constituído de relações gerais e determinações simples,
percorre com a atividade de seu pensamento o processo de ensino, que
juntamente com o professor completa a aprendizagem ao elaborar o
concreto pensado. O concreto pensado (ainda o conteúdo) constitui-se
de relações múltiplas e determinações complexas"(pp. 149-150).
Categorias de Análise
Praxiologia Motriz (PM)
A PM foi idealizada pelo francês Pierre Parlebas, que tem vindo a construir e
sistematizar suas ideias acerca dos jogos e desportos há mais de 40 anos, tempo
em que vem escrevendo inúmeros artigos e obras sobre tal temática. A mais
importante delas, denominada “Juegos, Deporte y Sociedad”, foi publicada em
2001, reunindo as principais ideias da área em forma de léxico. Essa obra é
também conhecida como Teoria da Ação Motriz. Nela, a definição de PM é a
seguinte: “Ciência da ação motriz e especialmente das condições, modos de
funcionamento e resultados de seu desenvolvimento” (Parlebas, 2001, p. 354).
Seus pilares estão localizados no campo da Sociologia e da Antropologia. Com
isso, entende-se que Parlebas considera jogos e desportos como sendo
manifestações sociais e, assim, deverão ser compreendidos a partir dessa
perspetiva. Os princípios das Ciências Sociais e Humanas contribuem já há algum
tempo para um melhor entendimento do mundo da Educação Física. A diferença é
que Parlebas situa os jogos e desportos no campo da Sociologia, com modelos,
instrumentos próprios de investigação e conteúdo coerentes.
Para Lagardera e Lavega (2003) a PM é a disciplina que estuda a lógica interna
dos jogos e desportos a partir de suas regras ou normas de funcionamento. A PM,
através dos seus elementos, tem a função de mostrar o mundo dos jogos e
desportos a partir da compreensão da essência da lógica interna, representada
pelas ações motrizes. As Ações Motrizes estão inscritas nas normas, e aí é que
Parlebas diferencia a Ação Motriz de qualquer outro movimento. E são estas
ações, as que emergem do sistema praxiológico, relativas às suas normas, que
interessam à PM.
A outra grande influência da Teoria da Ação Motriz está no Estruturalismo,
principalmente nas ideias de Lévi-Strauss. O Estruturalismo vincula-se a
aspetos essenciais de questões da Sociologia e da Antropologia. Um exemplo que
pode fundamentar essa afirmação é o de que, ao associar os elementos básicos de
uma sociedade à estrutura de um prédio ou casa, devemos considerar as
características elementares, presentes na estrutura da construção, e que se
repetem de um exemplo construtivo para outro. Na PM essa mesma relação foi
feita por Parlebas com o mundo dos jogos e desportos, ou seja, os eventos e
elementos centrais da lógica de funcionamento poderão se repetir em distintas
modalidades.
A PM não se constitui numa abordagem da Educação Física, não se caracteriza
como uma metodologia de ensino, mas, sim, como um conhecimento, criterioso e
consistente, sobre a lógica de funcionamento de jogos e desportos. Este estudo
busca apresentar um dos modos como esse conhecimento poderá ser inserido em
distintos âmbitos de discussão da Educação Física, particularmente na prática
pedagógica dos professores de Educação Física.
Assim, a Praxiologia Motriz vem nos trazer novas formas de pensar o
conhecimento dos jogos e desportos, principalmente no entendimento da lógica
interna dessas atividades, assim como na construção de uma gramática dessas
práticas (Parlebas, 2003). Neste estudo mostram-se as primeiras relações que
conseguimos realizar entre praxiologia motriz, que evidencia lógica de
funcionamento de jogos e desportos, e a abordagem crítico-superadora, que
constrói uma consistente fundamentação teórica para a prática pedagógica.
Antes, porém, de iniciarmos esta relação é importante que apontemos o primeiro
elemento de entendimento referente ao conceito de desporto e jogo proposto por
Parlebas. Em relação ao jogo tradicional, Parlebas (2001) faz as seguintes
considerações no sentido de caracterizar este contexto: a) está ligado à
tradição de uma determinada cultura; b) é regido por um corpo de regras
flexíveis que admitem muitas variantes, em função dos interesses dos
participantes; c) não depende de instâncias oficiais; e, d) está à margem dos
processos socioeconómicos – o jogo; mesmo sofrendo influência desses processos,
não depende diretamente deles para acontecer, diferente do que acontece nos
desportos, que estão estritamente relacionados aos processos de produção e
consumo.
Os desportos, por sua vez, apresentam três traços que os identificam. O
primeiro deles se refere ao fato de eles se constituirem numa manifestação
cultural institucionalizada mundialmente por confederações, federações e
comitês olímpicos. Outra característica do desporto é a competição
regulamentada que orienta essa manifestação. As regras são institucionalizadas
e orientam as práticas em todo o mundo, com pequenas alterações para algumas
realidades. Eles dependem de instâncias oficiais para serem desenvolvidos, ou
seja, as federações e confederações ou outras instituições desportivas é que
são responsáveis por sua promoção. Por fim, e o mais relevante para nosso
estudo, refere-se ao fato de que os desportos se constituem em uma manifestação
profundamente relacionada com os processos socioeconómicos de produção e de
consumo e, neste caso, têm uma vinculação histórica com o sistema capitalista
(Parlebas, 2001). O autor destaca ainda que o conteúdo desportivo tem
prevalecido no quotidiano escolar, levando para esse contexto toda a lógica
social em que está inserido o desporto, destacando que:
"Tornou-se a referência e o objetivo fundamental proposto pelas
instituições oficiais que regem a prática do professor de Educação
Física. Como reação tem se desenvolvido uma concepção que denuncia o
desporto como atividade “alienante”, porque as práticas estabelecidas
não fariam mais que reproduzir os procedimentos de exploração e
escravidão do indivíduo (exigências desumanas do treinamento, busca
por medalhas, a mais alta politização das provas, etc.). O desporto
tem-se convertido em muito na imagem do antijogo"(Parlebas, 2001, p.
313).
Este, portanto, é o contexto do objeto de estudo e análise desta pesquisa, no
caso, o voleibol. Assim, a primeira necessária articulação conceitual relativa
ao desporto: quando estamos falando em manifestações desportivas referimo-nos
às atividades que apresentam os elementos elencados por Parlebas. De forma
concreta, consiste dizer que o desporto institucionalizado, do modo como está
formatado, pode ser reproduzido na escola sem que seus elementos sejam
entendidos, avaliados e transformados. A partir do olhar da conceção crítico-
superadora esses conceitos devem ser apropriados pelos alunos e transformados
em novas formas de entendimento social, e não simplesmente serem reproduzidos
no contexto escolar. Quanto aos elementos da abordagem crítico-superadora que
serão considerados para realizar as articulações com a praxiologia motriz é o
que trataremos a seguir.
Abordagem Crítico-Superadora (ACS)
O momento atual vivido pela Educação Física, quando se está a perder espaços e
credibilidade na prática pedagógica junto ao meio escolar, aponta para a
necessidade de uma organização e um maior embasamento teórico-metodológico,
pois o Professor de Educação Física vem sendo rotulado desde há muito tempo
como aquele que apenas “larga” a bola para os alunos jogarem. Apesar de essa
prática ser bastante frequente, entendemos que as novas abordagens da Educação
Física vêm apontando para formas pedagógicas que se caracterizam por apresentar
consistência e coerência nas suas ações.
A Abordagem Crítico-Superadora apresenta como obra mais importante o Coletivo
de Autores (1992), composta por Carmen Lúcia Soares, Celi Nelza Zülke Taffarel,
Elizabeth Varjal, Lino Castellani Filho, Micheli Ortega Escobar e Valter
Bracht. Essa obra surgiu de um trabalho reunindo seus autores na busca de uma
orientação metodológica para os professores de Educação Física da rede escolar,
a Coleção Magistério, composta de 25 livros didáticos para o antigo curso de
Segundo Grau, atual Ensino Médio (EM). A coleção teve como principal objetivo
orientar uma melhoria da qualidade do ensino ministrado na escola, tanto pela
formação do professor que exerce suas funções nesta modalidade e nível, quanto
para aquele que atuaria nas séries iniciais do ensino fundamental.
A ACS tem o MHD como pressuposto teórico, em cuja base de princípios encontram-
se, além da matéria, a dialética e a prática social, como também aspira ser a
teoria orientadora da revolução do proletariado. O MHD ressalta a força das
ideias, capaz de introduzir mudanças nas bases económicas que as originaram e,
por isso, destaca a ação dos partidos políticos e dos agrupamentos humanos,
cuja prática social pode produzir transformações importantes nos fundamentos
materiais dos grupos sociais (Marx, 1988)
Por sistematizar o conhecimento da Educação Física, o Coletivo de Autores
discute aspetos importantes que devem ser analisados, dentre os quais a seleção
dos conteúdos, e apresenta quais aspetos devem ser observados para sua escolha:
a) a relevância social dos conteúdos, seu sentido/significado para a explicação
da realidade na qual o aluno esteja inserido; b) a contemporaneidade dos
conteúdos, de modo a que relacionem o conhecimento com o contexto social
moderno; c) a adequação às possibilidades sociocognoscitivas do aluno, ou seja,
entre o conteúdo para a prática social e as possibilidades desse aluno enquanto
sujeito histórico. Segundo o Coletivo de Autores (1992), os princípios da
seleção remetem à necessidade de organizá-los e sistematizá-los, fundamentados
em alguns princípios metodológicos, vinculados à forma de como serão tratados
no currículo, bem como à lógica com que serão apresentados aos alunos.
O conteúdo base para esse estudo piloto foi o desporto coletivo Voleibol, pois
como mencionado anteriormente foi onde conseguimos desenvolver a temática de
forma consistente e com elementos até então não sistematizados em nenhuma
literatura da área acerca desse desporto. Isto foi possível por meio do Projeto
de Ensino “Princípios Orientadores para o Ensino do Voleibol”, no qual o olhar
praxiológico foi o responsável por esta nossa perspetiva no ensino do voleibol.
As bases dessa articulação teórico-metodológica dos Desportos Coletivos já
foram discutidas por Ribas (2010) que aponta os processos interativos de
leitura do jogo em relação aos companheiros e adversários como um dos elementos
centrais que caracterizam os Jogos Desportivos Coletivos.
Como base para organizar e sistematizar o estudo foram utilizados os princípios
metodológicos, referenciados na obra do Coletivo de Autores (1992): a)
Confronto e contraposição de saberes, que corresponde ao confronto entre o
senso comum e o saber científico para a reelaboração do pensamento; b)
Simultaneidade dos conteúdos, ou seja, compreensão de que estes são dados da
realidade, não podendo, pois, serem isolados; c) Espiralidade, quando o
conhecimento não é tratado por etapas, mas sim representação do real no
pensamento; d) Provisoriedade do Conteúdo, que vê o aluno enquanto sujeito
histórico, rompendo com a terminalidade do conteúdo.
APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DE RESULTADOS
A partir dos cinco passos propostos por Saviani, apresentados em nosso método,
optou-se por buscar a criação de uma proposta metodológica com a qual a PM
poderá contribuir de forma relevante, principalmente no momento da
instrumentalização junto aos alunos, pois, com base em sua estrutura, poderemos
apresentar-lhes os elementos para que eles possam ter um bom entendimento
acerca da lógica interna dos jogos e desportos, ou seja, que entendam os jogos
e os desportos no contexto de suas normas e regras, bem como os papéis que são
desempenhados por seus protagonistas dentro de cada um deles.
Em nosso entendimento, um jogo, ou uma modalidade desportiva, é único nas
relações apresentadas. A escolha pelo desporto coletivo Voleibol foi feita por
utilizarmos esta modalidade desportiva para aprofundar nossos conhecimentos em
relação à PM. Através disso, buscamos os meios possíveis para que tenhamos um
melhor entendimento das relações presentes dentro de tal modalidade. Assim,
apresentamos metodologicamente um exemplo de aula, na 6ª série.
Conteúdo: Serviço no Voleibol
Objetivo: Apresentar e desenvolver o serviço no voleibol; caracterizá-lo a
partir da PM, situando-o no jogo de voleibol; facilitar a compreensão da
dinâmica do jogo de voleibol a partir do serviço.
1° Passo – Prática Social:
O Serviço no Voleibol se caracteriza por ser o Ponto de Partida das ações do
jogo. O professor poderá apresentar sua importância, características, situá-lo
no jogo de voleibol, bem como evidenciar os objetivos propostos para este tema.
Como ponto de partida, no primeiro momento da aula, o professor poderá propor a
livre experimentação do serviço, enquanto o aluno, a partir do seu entendimento
e experiência, poderá realizar a ação de “rebater a bola para o outro lado do
campo utilizando qualquer parte da mão ou antebraço” (zona de serviço ou
próximo dela). É importante que seja observada a distância da região do serviço
até à rede, já que muitos alunos não irão atingir o objetivo devido às
limitações de força e modo de realização. Outro aspeto relevante neste momento
é que o professor organize um grupo que deverá ficar recebendo a bola,
simulando uma situação mais próxima da realidade de um jogo de voleibol.
2° Passo – Problematização:
Neste momento apresentaremos algumas questões que servirão como base para que
se dê o aprofundamento em relação ao tema da aula. Os alunos deverão situar o
serviço no jogo de voleibol assim como também entender sua dinâmica, para então
compreender as distintas formas de execução e dificuldades dessa aprendizagem.
A seguir citamos alguns exemplos de questionamento:
- “Qual o entendimento dos alunos sobre o jogo de voleibol, e qual a
importância do serviço para que o jogo aconteça”;
- “Qual o modo mais fácil e o mais difícil de servir e quais suas implicações
para o jogo”;
- “Onde está situado o serviço no jogo de voleibol e qual a sua importância”;
- “Devemos observar algum elemento antes de executarmos o serviço”;
- “No momento em que formos detentores da técnica (ação motriz) necessária para
se jogar o voleibol, será que teremos todas as respostas para o jogo, ou seja,
somente isto é necessário”.
3° Passo – Instrumentalização:
1° Momento: investigação referente aos conhecimentos e experiências que os
alunos apresentam acerca do voleibol e tema da aula; atividade durante a qual
os alunos poderão executar o serviço segundo suas possibilidades, sem
preocupação com o modo de como fazê-lo.
2° Momento: apresentaremos o serviço segundo a técnica “correta” de execução,
bem como suas variações. Neste momento, aprofundaremos os elementos da
Praxiologia Motriz para que os alunos tenham um bom entendimento acerca do
sentido de suas ações no jogo, por exemplo, que, antes de executar o serviço,
devemos observar a disposição da outra equipe e buscar os espaços vazios. Claro
que, nesse momento, a maioria não terá ainda a capacidade de direcionar a bola
para onde deseja, mas nada impede que os alunos desenvolvam essa consciência e
compreendam a necessidade do aprimoramento do modo de execução da ação motriz
e, aos poucos, consigam se valer desse recurso. Neste momento o professor
poderá realizar um resgate histórico do serviço mostrando que, no início, o
sentido dessa ação motriz se limitava a dar início ao jogo, inicialmente
denominado de Mintonette (Barroso & Darido, 2010; Bojikian, 2003; Da Silva
Matias & Greco, 2012; Marchi Junior, 2001), quando foi proposto pelo
professor Willian Morgan como uma prática voltada para senhores (os
comerciantes da época, vinculados à Associação Cristã de Moços), que buscavam
uma prática desportiva coletiva em que não estivesse presente o contato físico
e a grande quantidade de deslocamentos. Com o passar do tempo, e com a
desportivização representada pelo processo de institucionalização (criação de
federações e confederações, e sua inclusão nas Olimpíadas, na década de 1960),
o serviço no voleibol foi desenvolvido e aprimorado, e hoje, no desporto
institucionalizado, tem como principal objetivo dificultar a organização do
ataque adversário. Pergunta-se: “Este objetivo do serviço é viável para o
voleibol praticado em espaços de lazer”.
3° Momento: os alunos executarão o serviço tentando aproximar-se da técnica
“correta” de execução e poderão experimentar suas variações (serviço por baixo,
serviço por cima, etc.), tentando fazer uma relação entre o serviço executado
livremente e o serviço aproximando-se da técnica, identificando as diferenças
bem como as dificuldades e buscando meios para superá-las.
4° Momento: buscar despertar nos alunos a importância que o fundamento tem para
o jogo de voleibol. Neste caso, por ser o início do jogo, caso não ocorra um
bom serviço não haverá um bom jogo. Nesse momento, as dificuldades serão
imensas, pois os alunos apresentarão deficiências em relação aos outros
fundamentos do jogo. Por isso, o serviço deve ser facilitado; do contrário, a
sequência do jogo ficará prejudicada. Outro aspeto que pode ser destacado junto
aos alunos é a importância da coletividade na sequência do jogo, que pode ser
demonstrada no exemplo da utilização dos três toques a que a equipe tem
direito, para que o jogo não se torne um jogo de “pingue-pongue”, explicando aí
a importância dos três toques.
5° Momento: desenvolvimento de atividades que tenham como objetivo principal o
serviço, mas já inserindo outros elementos do jogo que serão tratados na
sequência das aulas. Construção de atividades junto aos alunos, fazendo com que
possam criar um jogo dentro das características únicas daquele ambiente no qual
estão inseridos, possibilitando com isso que se tornem sujeitos daquela ação e
não meros participantes.
4° Passo – Catarse:
É o momento da compreensão dos elementos propostos no início da aula, e amplia-
se todo o conhecimento que o aluno já trazia acerca do tema, fazendo com que
seu conhecimento se torne mais elaborado, quando, segundo Souza (2009), este
passa a ser um elemento cultural capaz de transformação. Significa compreender
que a transformação histórica é humana, i.e., que as mudanças do significado e
dos modos de realização do serviço no voleibol são produções humanas e foram
transformadas nas últimas décadas em função de interesses do Desporto
institucionalizado, de alto rendimento, ao contrário da suposta origem
histórica do voleibol, que era um jogo com fins de exercício físico e de
convivência social. O mais interessante é que, muitas vezes, na prática livre
do voleibol, quando realizado pelos alunos do Curso de Educação Física da UFSM,
antes ou após as aulas de voleibol, quando o serviço passa a ser um elemento
que dificulta a dinâmica do jogo, acontece uma alteração na regra (pactuada
pelos próprios participantes): o serviço com objetivo de dificultar a
organização do ataque adversário é substituído por um serviço que dê condições
ao adversário de organizar a ação de receber e organizar o ataque,
privilegiando a continuidade do jogo.
5° Passo – Prática Social:
Por fim, voltamos ao ponto de partida, o serviço, só que agora, detentores de
um maior conhecimento acerca tanto das ações motrizes quanto de suas
implicações na dinâmica do jogo de voleibol. Com isso já evidenciámos novos
conhecimentos relativos ao serviço e aos fundamentos que deverão ser
desenvolvidos na sequência desse conteúdo, destacando a importância da relação
entre os momentos do jogo, de modo a que o aluno tenha uma melhor compreensão
do processo.
Ao apresentarmos esta proposta, temos em mente a formação de alunos que, por
sua consciência, possam perceber a importância de serem agentes reais na
construção de seu caminho na sociedade, na qual poderão intervir para modificá-
la se entenderem que a realidade em que vivem necessita de mudanças.
Essa relação também deve se dar dentro do âmbito escolar. Ilustramos tal
afirmação através de um exemplo: partindo da hipótese de termos um aluno
habilidoso que mostra facilidade na execução dos fundamentos e que, por isso,
ele acredita ser o dono das ações, e procura intervir em quase todos os
momentos do jogo, não deixando que seus colegas participem em nível de
igualdade. Digamos que esse aluno estivesse presente neste exemplo de aula que
propusemos anteriormente: acreditamos ser possível que ele compreenda, através
dos elementos que serão apresentadas na aula, que por mais recursos que tenha
individualmente, ele nunca poderá jogar sozinho. Haverá sempre a necessidade de
seus colegas participarem ativamente das ações. No entanto, por ser o mais
habilidoso, ele pode fazer com que os seus colegas participem ou pode negar
essa participação a eles, no momento em que vai para o serviço e não
possibilita a sequência do jogo, por exemplo. Acreditamos que esse entendimento
só se dará no momento em que este aluno consiga compreender a importância do
coletivo para a dinâmica do jogo em qualquer tipo de atividade, tanto na escola
quanto na sociedade em que vive. A técnica (ou ação motriz) consiste num
importante elemento de ensino em toda modalidade desportiva, pois passou por um
processo de construção e evolução comprovada. O que destacamos é que, além da
parte técnica, devemos aprofundar o conhecimento teórico e demonstrar ao aluno
que ele, além de dominar a técnica, deve saber onde e quando utilizá-la da
melhor forma possível, atendendo não só às suas necessidades como também às do
grupo, situando-a e ressignificando-a historicamente. Assim, para Souza (2007),
o entendimento da técnica é a de que:
"Não deverá restringir-se à simples prática motora e sim enquanto
conhecimento elaborado no processo de desenvolvimento humano,
científico e tecnológico. A apropriação da técnica, nesse sentido,
significa o domínio do instrumental teórico-prático que os homens e
as mulheres produziram na caminhada civilizatória para entender e
transformar a natureza, a história, a sociedade e a si mesmo" (p.
196).
A PM vem apresentando importantes contribuições, principalmente nas interações
presentes nos jogos e desportos (cooperação e oposição). Essas relações deverão
ser apresentadas de forma mais clara no processo de ensino. Podemos citar o
exemplo dos desportos coletivos em que a prática pedagógica consiste na ênfase
do gestual técnico, geralmente fragmentado (ensino da técnica fora das
interações de jogo). Temos ainda o exemplo das lutas, em que a ênfase também
está centrada na repetição de gestos e golpes, sem situar essas técnicas nas
interações de oposição e sem destacar a importância do processo de tomada de
decisão e da leitura do adversário. Um exemplo muito bom é o apresentado por
Collard: “[...] no tênis, durante muito tempo, imaginava-se que o êxito de um
jogador passava pelas suas qualidades físicas ou técnicas... porém, como em
todas as outras atividades sociomotrizes, é na interação com o outro que se
decide a vitória” (Collard, 2008, p. 112).
Esses são apenas alguns exemplos de como o ensino dos jogos e desportos vem
sendo desenvolvido de forma fragmentada, e que, desse modo, dificilmente
teremos o entendimento das ações que estamos desenvolvendo e, principalmente, o
entendimento do jogo ou desporto praticado. Estes aspetos são aprofundados por
Ribas (2008) onde apresenta os principais argumentos teóricos que sustentam o
conhecimento da Praxiologia Motriz.
Outro aspeto que devemos destacar é o fato de fazermos críticas à forma como o
desporto vem sendo trabalhado no meio escolar e, em vez de utilizar meios para
modificar essa realidade, utilizamos atividades que têm o mesmo caráter
competitivo, excludente, discriminatório, etc. Por isso, a importância de
entendermos a lógica interna das atividades que estamos propondo. É o que
referenda Ribas quando se refere à ideia de jogo e desporto:
"Assim, não garantimos nossos objetivos simplesmente substituindo
jogos por desportos e vice-versa. O jogo, por si só, não garante a
construção de uma boa proposta pedagógica. Existem jogos
competitivos, violentos e preconceituosos. Essas leituras é que
devemos fazer também, assim como normalmente é feito com o desporto"
(Ribas, 2005, p. 116).
Para isso a PM apresenta os conceitos de forma clara e consistente. Alguns
desses conceitos foram desenvolvidos ao longo de texto e vários outros
poderíamos aprofundar em outro momento. O importante é o entendimento de que,
cada vez mais, se vem tornando um importante pólo de compreensão dos jogos e
desportos e um consequente facilitador do ensino.
A articulação entre esses dois temas vem nos dar a possibilidade de modificação
da forma como os jogos e desportos vêm sendo apresentados na escola. Se
pretendêssemos somente isto, talvez não fosse necessária a utilização da ACS.
Porém, entendemos que essa forma de trabalho só será modificada no momento em
que os alunos tiverem consciência da sociedade na qual eles estão inseridos,
sociedade esta que os submete a suas constantes modificações, visando atender a
suas necessidades capitalistas. Por esse motivo, estão ocorrendo tantas
modificações nas regras de funcionamento de diferentes desportos. O próprio
voleibol foi adaptado para que pudesse oferecer maior previsibilidade de início
e fim, podendo ser inserido em programações. Referimo-nos ao fato de no
voleibol ter sido incluída a regra referente ao sistema de pontuação no ano de
2000 (Rally Point System), em que todo erro é ponto (Da Silva Matias &
Greco, 2012).
Por outra via, está havendo “promoção e incentivo” de diversas modalidades que
até há pouco tempo nem sequer eram consideradas modalidades desportivas, mas
sempre tendo como foco a possibilidade de vendê-las ou de torná-las mercadoria.
Por esse motivo, a “comercialização” cada vez maior de atletas que vendem todo
tipo de material referente à sua modalidade. Estamos diante da banalização de
algumas atividades que anteriormente tinham um significado diferente desse
caráter mercadológico que vai se embrenhando no meio desportivo e tomando conta
de todos os espaços, fazendo com que o desporto cada vez mais se torne uma
mercadoria para ser consumida pelo maior número de pessoas, para que a
“insaciável” sociedade capitalista continue se alimentando e possa ampliar
ainda mais suas ações de cooptação de modalidades possivelmente rentáveis.
Por outra via, tais práticas desportivas institucionalizadas apresentam: a)
características de lógica interna (meio padrão estável); b) comparações
regulamentares objetivas, em sua maioria; c) lógica exacerbada da vitória,
fomentando a competição; d) estruturas estáveis de funcionamento, destacando
ainda mais a competição; e) impossibilidade de os participantes (atletas)
interferirem nos rumos das regras, estando apenas sujeitos a elas; f)
impossibilidade de os adversários passarem à função de companheiros da mesma
equipa; g) a busca pela vitória a qualquer preço, mesmo que esteja em jogo
conceitos como saúde, bem-estar social, ética, dentre outros. Enfim, através do
olhar praxiológico é possível aprofundar as críticas aos desportos
institucionalizados, na forma como eles estão sendo trabalhados na escola, pois
toda e qualquer crítica deve ser bem fundamentada. Esta fundamentação,
entretanto, somente a teremos no momento em que tivermos uma melhor compreensão
daquilo que pretendemos ensinar.
A PM, portanto, poderá nos ajudar a entender as lógicas de apreensão do saber
que se apresentam, de maneira a possibilitar que possamos tomar posição frente
a elas em nosso processo de ensino. Souza (2007) citando Kopnin (1978) declara
que o dispositivo formal do pensamento elaborado através da lógica formal, e
que se encontra presente nas práticas tradicionais e tecnicistas da Educação
Física, torna-se incapaz de explicar, em sua totalidade, o desenvolvimento da
apreensão do conhecimento. Por outro lado, o dispositivo da lógica dialética
nos possibilita revelar o conhecimento em seu próprio processo, apreendendo, no
pensamento, a dinâmica contraditória da realidade.
CONCLUSÕES
A Abordagem Crítico-Superadora caracteriza-se por ser uma leitura crítica da
Educação Física em que, com base em seus pilares, aponta para a necessidade de
mudanças em nossa sociedade. Acreditando que a sociedade capitalista não
possibilitará essa mudança, a ACS defende a criação de uma sociedade
socialista, cujas diferenças atualmente existentes entre os indivíduos poderiam
ser minimizadas. Reconhecemos que uma mudança conjuntural é hoje muito difícil
de acontecer, porém as mudanças que estão ao nosso alcance e nas quais
acreditamos devem ser buscadas constantemente.
A necessidade de modificação da Educação Física dentro do meio escolar está
posta. No entanto, da forma como ela vem sendo trabalhada, pode-se prever que é
uma questão de tempo até que ela seja declarada sem utilidade para a escola.
Será que a disciplina poderá ser eliminada do currículo escolar
Os fatores que contribuem para que isto se realize são vários; alguns já foram
aqui citados, mas é evidente a necessidade cada vez maior de que preparemos os
alunos para o mercado de trabalho. Este tem sido um importante fator para
justificar a isenção de alunos às aulas de Educação Física. Essa justificativa
tem funcionado muito bem para o esvaziamento das aulas, principalmente junto ao
ensino médio, e como essa preparação está começando cada vez mais cedo, não se
deve estranhar que, em pouco tempo, ela também atinja o ensino fundamental, nas
séries finais.
Estamos perdendo força, pois não nos articulamos para lutar contra essa
realidade; não percebemos que as transformações que almejamos somente serão
alcançadas no momento em que nosso coletivo se mobilizar para que as mudanças
ocorram. Se de fato pretendemos fazer a diferença, isso acontecerá apenas
quando conseguirmos nos mobilizar e lutar pela mudança da realidade em que
vivemos, onde a competição e o individualismo são supervalorizados, fazendo com
que cada vez mais nos isolemos do mundo e pensemos somente em nossas
necessidades. Dessa forma, as mudanças dificilmente acontecerão e cujas
tentativas serão facilmente controladas e contornadas pelo sistema, isto porque
o modo capitalista que nos rege direciona os desejos e as ações de modo
hegemónico.
A utilização da Praxiologia Motriz neste estudo parte do princípio de que, ao
acreditarmos na necessidade de mudança, partindo do modo como o desporto vem
sendo tratado dentro da escola, poder-se-á tomá-la como ferramenta estratégica
no processo de alteração da realidade. Com ela, o desporto é transferido da
esfera competitiva para aquela em que ele pode e deve ser utilizado como forma
de ampliação do conhecimento da cultura corporal, já que os alunos poderão
experienciar e aprimorar os mais variados gestos técnicos, aproximando-se dos,
até então, empregados nas diferentes modalidades desportivas. Além disso,
conseguirão ter um melhor entendimento das dinâmicas de funcionamento de cada
um, bem como do porquê de algumas ações específicas de cada modalidade. O
aprofundamento junto ao conhecimento praxiológico pode dar subsídios para que
possamos desenvolver o desporto de outra forma junto aos alunos, enfatizando as
relações exigidas dentro de cada modalidade desportiva, bem como da criação de
jogos que possibilitem a superação dos modelos desportivizados para tornar mais
elaboradas tais práticas. Esta é, portanto, apenas uma das possibilidades de
aproximação a que chegamos neste estudo.
O entendimento e a compreensão da lógica interna dos jogos e desportos indicam
formas de superarmos o modo como os alunos veem o jogo, pois deixamos de lado o
conhecimento do senso comum já que a praxiologia propõe critérios concretos e
consistentes em relação aos desportos.
Esperamos que este estudo possa, como proposta, vir a se tornar mais uma
possibilidade de ensino na Educação Física junto ao meio escolar. O ideal seria
que tivéssemos conseguido ampliá-lo, inserindo um período prático; porém, como
isso não foi possível, fica aqui uma proposta de continuidade do estudo,
partindo para essa nova etapa, a qual carece de mais embasamento. Assim, a
continuidade da pesquisa possibilita averiguar se o que estamos teorizando
neste momento realmente é relevante ou se nossas ideias se perderiam junto à
prática docente como algo de difícil compreensão junto aos professores, e
consequentemente para os alunos. Entretanto, acreditamos que nessa nova etapa,
que fica em aberto, será possível demonstrar nossos argumentos e reafirmar a
possibilidade de aproximação das duas temáticas com o intuito de um melhor
embasamento no ensino dos jogos e desportos.