Clima motivacional, regulação da motivação e perceção de esforço dos atletas no
futebol
INTRODUÇÃO
A Teoria da Autodeterminação (SDT: Self-Determination Theory) (Deci & Ryan,
1985) e a Teoria dos Objetivos de Realização (AGT: Achievement Goal Theory)
(Nicholls, 1984, 1989) são duas teorias motivacionais sociocognitivas que se
preocupam em estudar a forma como as pessoas adotam e se envolvem em
determinados comportamentos, incluindo o da prática desportiva (Kingston,
Harwood, & Spray, 2006; Ntoumanis, 2001). A SDT (Deci & Ryan, 1985)
explica os constituintes da Motivação Intrínseca e Extrínseca, bem como os
fatores relacionados com a sua promoção (Deci & Ryan, 1985, 2000), tendo em
conta os fatores da personalidade em contextos sociais e as causas e
consequências do comportamento autodeterminado (Deci & Ryan, 2008). Segundo
os seus autores (Deci & Ryan, 1985, 2000), a motivação do sujeito está
relacionada com a satisfação de três necessidades psicológicas básicas (BPN:
Basic Psychological Needs): necessidade de autonomia (i.e., necessidade de se
sentir independente, na medida em que é o próprio indivíduo que regula as suas
ações), competência (i.e., necessidade de se sentir competente, ou seja de
interagir com sucesso com os estímulos do meio envolvente) e relacionamento
(i.e., necessidade de se sentir vinculado a outros, ou seja de ser considerado
e apreciado). São estas três BPN que explicam a regulação do comportamento das
pessoas, que se estabelece num continuum motivacional, que vai desde a ausência
de regulação ou falta de intenção para agir (amotivação) passando pelas formas
mais controladas de motivação (i.e., regulação externa e regulação introjetada)
e terminando nas formas mais autónomas de motivação (i.e., regulação
identificada, regulação integrada e regulação intrínseca). De acordo com Deci e
Ryan (2008) esta distinção entre a motivação controlada e autónoma é a
característica nuclear da SDT, conforme o enquadramento dado pela subteoria da
integração organísmica (OIT: Organismic Integration Theory) (Deci & Ryan,
2000). De uma forma geral, a OIT explora os contextos sociais, percebendo como
promovem ou inibem a internalização e integração na regulação do comportamento.
São estes dois processos (internalização e integração) que permitem que
comportamentos motivados de formas extrínsecas se tornem mais autodeterminados
(Ryan & Deci, 2000).
O segundo modelo teórico de suporte deste estudo é a AGT (Nicholls, 1984,
1989), a qual preconiza que as cognições, respostas afetivas e o comportamento
das pessoas em contextos de realização são influenciados pelos fatores pessoais
e situacionais. Ainda de acordo com Nicholls (1984, 1989), as pessoas são
motivadas para demostrarem ou desenvolverem elevados níveis de competência,
baseando esta sua avaliação em dois tipos de orientação (i.e., ego e tarefa). A
orientação para a tarefa relaciona-se com uma conceção de competência segundo
critérios autorreferenciados, ou seja, o êxito pressupõe melhorar e dominar a
tarefa na sua modalidade (Álvarez, Castillo, Duda, & Balaguer, 2009). Por
outro lado a orientação para o ego, relaciona-se com a conceção de competência
segundo critérios normativos, ou seja, o êxito pressupõe uma maximização da
demonstração de elevada competência perante os outros (Álvarez et al., 2009).
De acordo com Ames (1992), são os fatores ambientais referentes ao envolvimento
de realização, onde o indivíduo se encontra, aliado às suas características
pessoais, que vão influenciar a motivação através do clima motivacional, o qual
é influenciado pelos demais significativos (e.g., treinador, família, amigos).
Dada a consistência e relevância com que cada uma destas teorias tem sido
aplicada ao contexto do desporto e exercício, a investigação recente tem-se
focado na integração de ambas as teorias SDT e AGT, com o objetivo de
proporcionar uma explicação multi-teórica para o comportamento (Chatzisarantis
& Hagger, 2007; Hagger & Chatzisarantis, 2008). Assim, se tomarmos em
consideração que a SDT sugere que o contexto social afeta os níveis de
autodeterminação do sujeito através da facilitação/inibição da satisfação das
necessidades psicológicas básicas (Deci & Ryan, 2000; Ryan & Deci,
2002, 2007), então o clima motivacional pode ter um impacto importante na
regulação da motivação dos atletas porque pode facilitar ou impedir a
satisfação das suas necessidades psicológicas básicas (Sarrazin, Boiché, &
Pelletier, 2007). De facto, o ambiente social pode fornecer ou não as condições
necessárias para a motivação autónoma, uma vez que os climas controladores
normalmente estão associados a regulações externas e introjectadas e climas que
dão suporte à autonomia estão associados a regulações identificadas, integradas
e intrínsecas (Ryan & Deci, 2007), ou seja, os contextos podem conduzir à
motivação controlada se for dada mais importância às recompensas, aos castigos
e à realização referenciada, ou conduzir à motivação autónoma se derem suporte/
apoio para o desenvolvimento de um comportamento autodeterminado.
Ao fazerem uma breve reflexão sobre as ligações entre a SDT e a AGT, Deci e
Ryan (2000) consideraram que existem uma convergência geral entre os dois
modelos, uma vez que ao nível das condições ambientais ambas as teorias sugerem
que “os ambientes que são menos avaliativos e que dão mais apoio ao desejo
intrínseco de aprender promovem a base para aumentar a realização e o bem-
estar” (p. 260). Por outro lado, os climas motivacionais orientados para a
mestria (tarefa) são promotores de padrões motivacionais adaptativos e estão
associados ao aumento do bem-estar psicológico e à persistência no
comportamento (Duda, 2001; Duda & Balaguer, 2007; Hagger &
Chatzisarantis, 2008; Ntoumanis & Biddle, 1999). Por isso, segundo
Ntoumanis e Biddle (1999) e Hagger e Chatzisarantis (2008) um clima
motivacional orientado para a mestria é compatível com a motivação autónoma
considerando que contextos desta natureza promovem critérios de sucesso mais
intrínsecos e estão associados ao aumento da motivação intrínseca. Em
contraste, um clima orientado para a performance, que opera numa base onde o
critério de sucesso é normativo, pode diminuir a motivação intrínseca por
colocar uma maior ênfase nas continências externas.
Assim sendo, quando falamos de diferenças individuais na orientação dos
objetivos de realização, podemos dizer que, segundo Kingston et al. (2006) e
Wang e Biddle (2007), a orientação para a tarefa parece estar mais associada a
maiores níveis de autonomia (mais autodeterminação) e consequentemente a
padrões comportamentais mais adaptativos (e.g., mais divertimento, menos
aborrecimento, mais persistência) e, ao contrário, a orientação para o ego
parece associar-se a menores níveis de autonomia (menos autodeterminação) e
consequentemente a padrões mal adaptativos (e.g., menos divertimento, mais
aborrecimento, menos persistência). Alguns estudos realizados, nos mais
diversos contextos da atividade física, têm demonstrado empiricamente a ligação
entre as duas teorias nesse sentido, nomeadamente no contexto do desporto
(e.g., Ntounamis, 2001; Pethercik & Weigand, 2002; Spray, Wang, Biddle,
& Chatzisarantis, 2006).
De facto, na última década em especial, diversos estudos aplicados ao contexto
do desporto têm vindo a demonstrar que as variações dos objetivos de realização
(quer ao nível disposicional, quer ao nível situacional) estão associadas a
diferentes níveis de autodeterminação (Ahmadi et al., 2012; Álvarez et al.,
2009; Calvo et al., 2008; Gómez-López, Granero-Gallegos, Abraldes, &
Rodríguez-Suaréz, 2013; López-Walle et al., 2011; Moreno et al., 2010;
Ommundsen, Lemyre, Abrahamsen, & Roberts, 2010; Vansteenkiste, Mouratidis,
Van Riet, & Lens, 2014), colocando em evidência que um clima/orientação
motivacional para a tarefa relaciona-se com a motivação autónoma, enquanto um
clima/orientação motivacional para o ego relaciona-se com a motivação
controlada. Este tipo de relações também tem vindo a ser demonstrada de forma
consistente em outros contextos da atividade física, nomeadamente, na educação
física escolar (e.g., Fernandes, Vasconcelos-Raposo, Lázaro, & Dosil, 2004;
Murcia, Román, Galindo, Alonso, & Cutre, 2008; Zan, Podlog, & Harrison,
2012) e no exercício físico (e.g., Moutão, Alves, & Cid, 2012; Murcia,
Blanco, Galindo, Villodre, & Coll, 2007). Assim como, uma revisão
sistemática publicada recentemente (Teixeira, Carraça, Markland, Silva, &
Ryan, 2012) colocou em evidência que as formas mais autónomas de regulação do
comportamento são preditores positivos da atividade física e exercício, a curto
e longo prazo.
Em suma, segundo Chatzisarantis e Hagger (2007), parece evidente de que existe
também uma relação (teórica e empírica) entre os construtos subjacentes à AGT
(i.e., clima e orientação motivacional) e à SDT (necessidades psicológicas
básicas e regulação comportamental), cujo impacto positivo sobre as mais
diversas variáveis é inegável, tal como demonstram os estudos aplicados ao
contexto do desporto, como por exemplo: menor abandono da modalidade (Sarrazin
et al., 2002), mais persistência na modalidade (Pelletier et al., 2001), mais
divertimento durante a prática (Spray et al., 2006), melhor estado psicológico
(flow) dos atletas (Moreno et al., 2010), maior coesão de grupo (Calvo et al.,
2008), mais autoestima dos atletas (López-Walle et al., 2011), mais vitalidade
subjetiva percecionada pelos atletas (Ommundsen et al., 2010), e maior
satisfação com a performance (Vansteenkiste et al., 2014).
Desta forma, apesar de existirem diferentes estudos que integram a teoria dos
objetivos de realização e a teoria da autodeterminação para analisar o impacto
das suas variáveis no comportamento e emoções das pessoas (tal como foi
mencionado nos estudos acima indicados), existe ainda uma lacuna na literatura
no que diz respeito aos estudos que analisam esse impacto especificamente na
perceção de esforço dos atletas, justificando-se assim o objetivo principal do
presente estudo: analisar as relações causais hipotetizadas num modelo que
integra a AGT e a SDT, para compreender qual o impacto do clima motivacional,
na regulação da motivação e na perceção do esforço dos atletas na modalidade de
futebol.
MÉTODO
Participantes
Neste estudo participaram 460 atletas, do sexo masculino, da modalidade de
futebol, dos escalões de iniciados (n= 122), juvenis (n= 173), juniores (n= 49)
e seniores (n= 116), com idades compreendidas entre os 14 e os 36 anos (M=
17.42, DP= 4.37). Dos 460 atletas, 360 praticavam a modalidade a nível
distrital e 100 a nível nacional, sendo que 51 são guarda-redes, 152 defesas,
157 médios e 100 avançados. Os atletas indicaram ainda uma experiência na
modalidade que variou entre 1 e 24 anos de prática (M= 8.20, DP= 4.23) e um
número de treinos semanais entre 1 e 5 (M = 3.28, DP= 0.57), com uma duração
entre 60 a 120 minutos por sessão (M= 97.53, DP= 13.41).
Instrumentos
Behaviour Regulation Sport Questionnaire(BRSQ: Lonsdale, Hodge, & Rose,
2008). Este questionário é constituído por 24 itens aos quais se responde numa
escala tipo Likert de 7 níveis, que variam entre 1 (“nada verdadeira para mim”)
e o 7 (“totalmente verdadeira para mim”). Os itens agrupam-se posteriormente em
6 fatores (com 4 itens cada), que refletem os tipos de motivação subjacente ao
continuum motivacional da teoria da autodeterminação (SDT: Deci & Ryan,
1985). Para o presente estudo utilizou-se a versão validada de forma preliminar
para a população portuguesa por Monteiro et al. (2013), com recurso a uma
análise fatorial confirmatória, numa amostra de 623 atletas da modalidade de
futebol, apresentando o seu modelo de medida (6 fatores com 3 itens cada)
valores aceitáveis de ajustamento aos dados: S-B?²= 365.6, df= 120, p< 0.001,
S-B?²/df= 3.05, SRMR= 0.055, NNFI= 0.907, CFI= 0.927, RMSEA= 0.057, RMSEA 90%
CI= 0.051-0.064. No presente estudo, obtiveram-se os seguintes índices de
fiabilidade interna: amotivação (a= 0.81), regulação externa (a= 0.83),
regulação introjetada (a= 0.68), regulação identificada (a= 0.62), regulação
integrada (a= 0.68) e motivação intrínseca (a= 0.72).
Motivational Climate Sport Youth Scale(MCSYS: Smith, Cumming, & Smoll,
2008). Este questionário é constituído por 12 itens aos quais se responde numa
escala do tipo Likert de 5 níveis, que variam entre o 1 (“nada verdade”) a 5
(“muito verdade”). Os itens agrupam-se posteriormente em 2 fatores (com 6 itens
cada), que refletem as formas de percecionar o clima motivacional, subjacentes
à teoria dos objetivos de realização (Nicholls, 1984). Para o presente estudo
utilizou-se a versão validada de forma confirmatória por Borrego e Silva
(2012). No presente estudo o questionário apresentou os seguintes valores de
fiabilidade interna para os participantes da nossa amostra: clima motivacional
orientado para o ego (a= 0.66) e tarefa (a= 0.68). No entanto, optámos por
retirar os itens de cotação invertida (1 e 12), ambos do fator ego, aumentando
a sua consistência interna (a= 0.70).
Intrinsic Motivation Inventory (IMI: McAuley, Duncan, & Tammen, 1989). Para
o presente estudo utilizou-se a versão portuguesa de Fonseca e Brito (2001),
mas apenas a subescala da perceção de esforço, constituída por 5 itens (2, 6,
10, 14, 17), aos quais se responde numa escala tipo Likert de 5 níveis de
resposta, que variam entre 1 (“discordo totalmente”) e 5 (“concordo
totalmente”), salientando que o score dos itens 14 e 17 foi previamente
invertido devido à sua formulação semântica. No presente estudo esta subescala
apresentou uma fiabilidade interna de 0.64. No entanto, optámos por retirar os
itens de cotação invertida, o que aumentou a consistência interna (a=0.71).
Procedimentos
Após a obtenção da autorização por parte dos clubes e da assinatura do
consentimento informado por parte dos participantes (no caso dos atletas
menores de idade foi obtido através dos encarregados de educação), todos os
dados foram recolhidos e analisados de forma anónima garantindo assim o
princípio da confidencialidade. Realça-se ainda, que os dados dos questionários
foram recolhidos no final das sessões de treino, demorando cerca de 20 minutos
a sua aplicação.
Análise Estatística
A análise de dados foi realizada em função das orientações/recomendações
operacionalizadas por Cid, Rosado, Alves e Leitão (2012), sendo o método de
estimação utilizado o da máxima verosimilhança (ML), através do teste do qui-
quadrado, com a correção de Satorra-Bentler (S-B?²: ver Satorra & Bentler,
1994), que corrige os valores para a não normalidade da distribuição dos dados
e produz resultados mais satisfatórios (Chou & Bentler, 1995), pois o valor
do coeficiente de Mardia (43.64) indicou uma distribuição multivariada não
normal dos dados no presente estudo. Para além do teste S-B?², os respetivos
graus de liberdade (df) e o nível de significância (p), foram ainda utilizados
os seguintes índices de ajustamento: Standardized Root Mean Square Residual
(SRMR), Comparative Fit Index (CFI), Non-Normed Fit Index (NNFI), Root Mean
Square Error of Approximation(RMSEA) e o respetivo intervalo de confiança (90%
CI). No presente estudo, para os índices referidos, foram adotados os valores
de corte sugeridos por Hu e Bentler (1999): SRMR= 0.08, CFI e NNFI= 0.95 e
RMSEA= 0.06. A análise foi realizada com o recurso ao software de análise de
equações estruturais EQS 6.1 (Bentler, 2002).
RESULTADOS
Como podemos observar na Tabela_1, tomando em consideração os valores de corte
adotados (Hu & Bentler, 1999), o modelo inicialmente hipotetizado (modelo
1) não se ajustou de forma aceitável aos nossos dados.
Desta forma, analisando os parâmetros individuais, identificámos algumas
inconsistências (e.g., valores residuais muito elevados) relacionadas com os
itens 4 e 5 da subescala da perceção de esforço (itens da escala com score
previamente invertidos), bem como, com os itens 1 e 12 da perceção do clima
motivacional orientado para o ego (Figura_1). Por outro lado, também se
constatou que os pesos fatoriais dos itens mencionados eram demasiado baixos (<
0.30) para serem considerados relevantes (Hair et al., 2006; Kahn, 2006;
Worthington & Whittaker), pelo que optámos pela reespecificação do modelo
através da eliminação destes itens.
Analisando os resultados relativos ao modelo reespecificado (Figura_2), podemos
afirmar que existe uma correlação negativa significativa (r= -0.59), entre a
perceção de um clima motivacional orientado para o ego e para a tarefa. Podemos
observar também, que a perceção de um clima motivacional orientado para a
tarefa tem um efeito positivo significativo sobre a motivação autónoma (ß=
0.62), que por sua vez tem um efeito positivo, também significativo, sobre a
perceção do esforço (ß= 0.17). Por outro lado, a perceção de um clima
motivacional orientado para o ego tem um efeito positivo significativo sobre a
motivação controlada (ß= 0.41), que por sua vez tem um efeito negativo sobre a
perceção do esforço (ß= -0.05), porém não significativo. Por último,
verificamos, que na sua totalidade, as variáveis do modelo explicam apenas
cerca de 4% da variância da perceção de esforço dos atletas.
DISCUSSÃO
Tendo por base o principal objetivo deste estudo, analisar qual o impacto da
perceção do clima motivacional sobre a regulação da motivação e a perceção
esforço dos atletas na modalidade de futebol, verificámos que o nosso modelo
final apresentou valores de ajustamento bastante aceitáveis, pese embora o
facto dos índices de ajustamento incrementais (CFI e NNFI) não terem atingido
os valores de corte adotados sugeridos por Hu e Bentler (1999). No entanto,
aceitamos o modelo como bom pois nem todos os autores aconselham que se
generalize os valores de corte sugeridos por Hu e Bentler (Marsh, Hau, &
Hen, 2004), apontando-se para 0.90 como valor de corte aceitável de ajustamento
(Brown, 2006; Kline, 2005; Marsh et al., 2004; Whorthington & Whittaker,
2006).
Os resultados obtidos evidenciaram que um clima motivacional envolvendo o ego
tem um efeito preditivo positivo e significativo com formas de motivação mais
controladas, ou seja, menos autodeterminadas, no entanto, o efeito negativo que
estas têm sobre a perceção de esforço dos atletas não é significativo. De
acordo com Ntoumanis (2001), as pessoas orientadas para o ego possuem uma
relação direta com as formas de motivação menos autodeterminadas (motivação
controlada) e vários estudos têm corroborado esta afirmação (Álvarez et al.,
2009; Calvo et al., 2008, López-Walle et al., 2011; Moreno et al., 2010), pois
os seus resultados mostram que um clima motivacional/orientação para o ego
estão relacionados negativamente com a motivação autodeterminada (mais
autónoma).
Por outro lado, os resultados do nosso estudo também evidenciaram que a
perceção de um clima motivacional orientado para a tarefa tem um efeito
preditivo positivo e significativo sobre formas de motivação autónomas (mais
autodeterminadas), que por sua vez, também têm um efeito positivo e
significativo sobre a perceção do esforço. Estes resultados vão ao encontro aos
obtidos no estudo realizado por Ahmadi et al. (2012), com 255 jovens atletas
iranianos, de diferentes modalidades coletivas (incluindo o futebol), no que
diz respeito ao facto de um clima orientado para a tarefa se relacionar
positivamente com formas de motivação mais autodeterminadas (i.e., regulação
identificada, integrada e intrínseca). Também no estudo de López-Walle et al.,
(2011), realizado com 651 jovens atletas mexicanos, de modalidades individuais,
se verificaram as mesmas conclusões. No que diz respeito ao impacto do clima
motivacional e da regulação motivação na perceção de esforço dos atletas, não
foram encontrados estudos na literatura que pudessem ser confrontados com os
nossos resultados ao nível da perceção de esforço. No entanto, se partirmos do
pressuposto teórico subjacente à teoria dos objetivos de realização (Duda,
2001; Roberts, 2001), de que o esforço é uma consequência positiva da motivação
do atleta (quando orientada para a tarefa), então os nossos resultados, que
evidenciaram uma relação positiva e significativa entre clima motivacional
orientado para a tarefa, a motivação autónoma e a perceção de esforço, podem
ser corroborados com alguns estudos realizados no contexto desportivo (e.g.,
López-Walle et al., 2011; Moreno et al., 2010; Pelletier et al., 2001), nos
quais foram encontradas correlações positivas significativas entre o clima
motivacional orientado para a tarefa, as formas autónomas de regulação da
motivação e as consequências comportamentais positivas, autoestima, flow
disposicional e persistência na modalidade, respetivamente. Os resultados
destes estudos comprovam empiricamente as conclusões de uma revisão de
literatura sobre o clima motivacional na atividade física e desportiva,
realizada por Ntoumanis e Biddle (1999), na qual os autores identificaram
claramente uma associação entre um clima motivacional orientado para a tarefa e
consequências comportamentais, cognitivas e afetivas positivas.
Por último, é importante realçar ainda, que o modelo analisado explica apenas
uma pequena quantidade da variância da perceção de esforço (4%), o que é muito
comum na área das ciências sociais e humanas. De facto, o poder preditivo das
teorias explicativas do comportamento é ainda muito modesto no domínio da
investigação em atividade física e desportiva (Biddle & Fuchs, 2009), pois
muito raramente os modelos propostos pelos investigadores explicam mais do que
20% da variância das variáveis de resultado (e.g., Álvarez, Balaguer, et al.,
2009; Álvarez, Castillo, et al., 2009; Ntoumanis, 2001; Sarrazin et al., 2002).
CONCLUSÕES
Com os resultados do presente estudo podemos retirar importantes ilações para a
prática, uma vez que o modelo testado indica claramente que quando se promove
um clima motivacional orientado para a tarefa (i.e., um clima que dá ênfase ao
desenvolvimento pessoal e à realização da atividade por critérios
autorreferenciados), promove-se a motivação autodeterminada (i.e., a
identificação do sujeito com a modalidade, a sua integração no self e o prazer
com a sua prática), que por sua vez tem um impacto positivo no comportamento,
promovendo uma maior perceção de esforço por parte do atleta na realização das
tarefas inerentes à prática da modalidade.
Por último, como recomendações para futuras investigações, sugerimos que seja
estudada a análise da invariância do modelo em função dos diferentes escalões
competitivos, permitindo verificar se os impactos entre as variáveis estudadas,
no presente estudo, se mantêm inalteráveis. Por outro lado, também seria
importante analisar o efeito mediador das necessidades psicológicas básicas
entre o clima motivacional e regulação da motivação, e a sua repercussão na
perceção de esforço dos atletas.