Efeitos de diferentes focos de atenção na performance motora de uma tarefa de
agilidade em crianças
ARTIGO ORIGINAL
Efeitos de diferentes focos de atenção na performance motora de uma tarefa de
agilidade em crianças
Effects of different foci of attention in the motor performance of a task
agility in children
Francisco de Assis Furtado de Oliveira1, Matheus Maia Pacheco2, Ricardo Drews
3*
1Escola Superior de Educação Física, Universidade Federal de Pelotas, Brasil
2Pennsylvania State University, Estados Unidos da América
3Escola de Educação Física e Esporte, Universidade de São Paulo, Brasil
INTRODUÇÃO
Um crescente número de estudos tem demonstrado que a eficácia na performance e
aprendizagem motora tem grande dependência do foco de atenção induzido (para
uma revisão, ver Wulf, 2013). Estudos sobre performance motora apontam que
instruções que dirigiram a atenção dos indivíduos para os efeitos de seus
movimentos no ambiente – foco externo – têm-se mostrado superiores quando
comparadas as instruções dirigidas a aspetos do padrão de movimento – foco
interno (Freudenheim, Wulf, Madureira, Pasetto, & Corrêa, 2010; Kal, van
der Kamp, & Houdijk, 2013; Marchant, Greig, Bullough, & Hitchen, 2011;
Schlesinger, Porter, & Russell, 2012).
Uma gama de evidências dos benefícios do foco de atenção externo na performance
motora encontram-se em análises com a população adulta (Lohse, Sherwood, &
Healy, 2010; Makaruk, Porter, Czaplicki, Sadowski, & Sacewicz, 2012;
Schücker, Hagemann, Strauss, & Völker, 2009; Wulf, Dufek, Lozano, &
Pettigrew, 2010). Poucos estudos, entretanto, foram realizados com crianças
(Olivier, Palluel, & Nougier, 2008), havendo um número escasso de indícios
demonstrando os efeitos do foco de atenção externo da performance motora nessa
faixa etária. No entanto, se levarmos em conta os resultados encontrados na
fase de prática dos estudos que analisaram os efeitos do foco de atenção na
aprendizagem motora em crianças, encontramos resultados contraditórios sobre os
benefícios do foco de atenção externo nessa faixa etária (Abdollahipour,
Bahram, Shafizadeh, & Khalaji, 2011; Chiviacowsky, Wulf, & Avila, 2013;
Emanuel, Jarus, & Bart, 2008; Wulf, Chiviacowsky, Schiller, & Avila,
2010). Especificamente, Abdollahipour, Bahram, Shafizadeh, e Khalaji (2011)
verificaram menor número de erros na realização de uma tarefa de drible no
futebol quando o grupo realizou a tarefa com instrução de foco interno. Por
outro lado, Wulf, Chiviacowsky, Schiller, e Avila (2010) não verificaram
diferenças entre grupos que receberam diferentes induções de foco de atenção
externo e interno em uma tarefa de arremesso de bola. Resultados semelhantes
foram encontrados por Chiviacowsky, Wulf, e Avila (2013) e Emanuel, Jarus, e
Bart (2008).
Uma hipótese para os resultados encontrados seria a de diferentes efeitos do
foco de atenção nos primeiros níveis de aprendizagem (Fitts & Posner, 1967;
Gentile, 1972). Alguns estudos têm demonstrado efeitos distintos do foco de
atenção em adultos iniciantes e habilidosos, sendo questionado se foco de
atenção externo traz benefícios para a performance motora de participantes
iniciantes (Beilock, Bertenthal, Mccoy, & Carr, 2004; Beilock, Carr,
MacMahon, & Starkes, 2002; Ford, Hodges, & Williams, 2005). Crianças,
devido ao nível de desenvolvimento no qual se situam, passam por um período de
menor proficiência nas habilidades em relação a adultos e carregam consigo
menor experiência (Jerry R. Thomas, Lee, & Thomas, 1988). Tendo por base
que a distribuição da atenção, além de poder variar em função da complexidade
da tarefa e das instruções fornecidas ao indivíduo, pode ser influenciada pelo
seu nível de habilidade (Ivry, 1996; Shiffrin, 1988), se torna questionável se
instruções induzindo a utilização do foco externo seriam eficientes na
performance motora de crianças, como é encontrado na população de adultos.
Aliado a isto, a adoção do foco de atenção instruído necessita ser mensurada
para uma melhor compreensão dos efeitos que a instrução sobre o foco de atenção
na performance. Entretanto, poucos estudos controlaram a adoção do foco
solicitado (Bell & Hardy, 2009; Ford, Hodges, & Williams, 2009; Porter,
Nolan, Ostrowski, & Wulf, 2010; Stoate & Wulf, 2011). Assim, também se
encontram incertezas relacionadas à adoção do foco instruído como se há
tendências de utilização do foco em um grupo sem instrução direta. Apesar da
especulação que indivíduos do grupo sem indução de foco tendem a escolher o
foco interno (Wulf, 2007), Porter, Nolan, Ostrowski, e Wulf (2010) não
encontraram foco definido para este grupo em adultos – e ainda encontraram
adoção de diferentes instruções de foco utilizados em alguns casos.
Portanto, o objetivo do presente estudo foi investigar se instruções de foco
externo de atenção comparado ao foco interno e sem foco determinado afetariam
de forma diferente a performance motora de crianças. Adicionalmente, foi
verificado qual foco de atenção foi adotado pelos participantes em cada
condição de prática, com intuito de mensurar a adoção das instruções, o foco de
atenção utilizado na condição sem foco determinado e a frequência de troca de
foco em cada condição experimental.
MÉTODO
Amostra
Participaram voluntariamente do estudo 23 crianças de ambos os sexos (14
meninos e 9 meninas) com idade média de 10.04 ± .06 anos e estudantes de uma
Escola Estadual da cidade de Pelotas/RS. Nenhum participante tinha conhecimento
sobre objetivo do experimento e apresentava alteração visual, somatossensorial,
auditiva, ou ferimentos que impedissem ou dificultassem a realização dos
testes. O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade Federal de Pelotas (UFPel) (014/2011) e todos os indivíduos
tiveram sua participação concedida após assinatura do Termo de consentimento
livre e esclarecido pelos pais ou responsáveis.
Instrumentos
A tarefa utilizada no estudo foi o teste de agilidade em L (Porter et al.,
2010), realizado em uma quadra polidesportiva de uma Escola Estadual da cidade
de Pelotas/RS. O teste tem se mostrado confiável dado o alto coeficiente de
correlação intraclasse (r = .90) encontrado em outros estudos (Gabbett, 2006;
Webb & Lander, 1983). A realização do teste consiste em percorrer cinco
metros em linha reta, em seguida cinco metros para a esquerda, contornar um
cone e retornar o percurso até a linha de partida, formando um L (Figura_1). A
medida utilizada foi o tempo de movimento (TM), mensurado através do cronômetro
digital TECHNOS DC453/8P. Apenas um avaliador, previamente treinado, conduziu o
teste enquanto outros dois realizaram a tomada dos resultados.
Procedimentos
Cada um dos 23 participantes completou cinco tentativas em cada uma das três
condições analisadas: sem foco determinado (condição controle), foco de atenção
externo e foco de atenção interno. Como no estudo de Porter et al. (2010) as
diferentes condições foram realizadas em dias não consecutivos da semana
(segunda, quarta e sexta-feira), sendo ordenados em condição controle no
primeiro dia; as condições foco externo e foco interno foram balanceadas no
segundo e terceiro dia.
Antes da realização dos testes, os participantes receberam informações,
adaptadas de Porter et al. (2010), sobre os procedimentos da tarefa e o tipo de
foco de atenção a ser utilizado. Na condição controle os indivíduos receberam
instruções para correr através do percurso o mais rápido e melhor possível.
Na condição de foco de atenção externo foram informados de que deveriam correr
através do percurso o mais rápido e melhor possível, focando nos cones e
impulsionando o chão com o pé durante as mudanças de direção do teste. Já na
condição de foco interno as crianças receberam instruções de que deveriam
correr através do percurso o mais rápido e melhor possível, focando no
movimento das pernas e nos pés durante a execução do teste.
Os participantes foram conduzidos individualmente até o local de prática e
instruídos sobre a realização da tarefa. Para melhor entendimento, o
pesquisador demonstrou o percurso a ser realizado de forma lenta e silenciosa
afim de não haver influência no foco de atenção instruído ou indiretamente
oferecer uma estratégia que poderia ser utilizada para melhorar o desempenho.
Em seguida, os participantes foram instruídos a ficar na linha de partida e a
começar a tentativa quando estivessem prontos.
O TM começou a ser marcado quando os participantes ultrapassaram a linha de
partida e foi finalizado no momento do seu respetivo retorno. Entre as
tentativas, cada participante teve um período de descanso de dois minutos, no
qual foram convidados a responder à seguinte pergunta: No que você prestou
atenção enquanto corria?. Em nenhum momento foram autorizados a ver sua
resposta anterior. Este procedimento continuou até que todas as cinco
tentativas do dia fossem realizadas, não sendo informados o TM ou qualquer
outra forma de feedback durante e após as tentativas.
Análise Estatística
Inicialmente, foram calculadas as médias dos TM apresentados em cada condição
para os indivíduos e verificado com o teste W de Shapiro-Wilk que os dados
diferiam significativamente de uma distribuição normal. Desta forma, foi
aplicada a ANOVA de Friedman para verificar diferenças entre as três condições
de teste (controle X foco interno X foco externo) e testes pareados de Wilcoxon
corrigidos pelo procedimento de Bonferroni para identificar as diferenças entre
cada condição. Quanto ao nível de significância do teste, foi adotado 5% para a
ANOVA de Friedman e de 1.66% nas comparações par a par de Wilcoxon. O tamanho
de efeito foi calculado a partir da estatística r. Para a realização dos
procedimentos estatísticos foi utilizado o pacote estatístico SPSS 17.0
As respostas da pergunta em relação ao foco de atenção utilizado foram
codificadas e organizadas coletivamente em cada uma das três condições
experimentais: foco externo, foco interno e sem foco determinando. A
categorização e organização das respostas recebidas, com base no estudo de
Porter et al. , foi realizada por dois autores do presente estudo, havendo
total concordância na classificação das respostas em cada condição
experimental. Por exemplo, quando solicitados para focarem internamente alguns
participantes responderam: prestei atenção no meu pé, eu corri prestando
atenção no movimento dos meus braços. Em contrapartida, respostas como:
prestei atenção nos cones, corri o mais rápido que pude, olhando para as
linhas, foram respostas categorizadas como utilizando o foco de atenção
externo.
Além disso, algumas respostas foram classificadas como outras, no qual os
indivíduos misturaram os dois focos de atenção, interno e externo, ou não
focaram em nada. Por exemplo, corri prestando atenção no meu braço, e o mais
perto que pude do cone, não prestei atenção em nada enquanto corria. Estes
dados foram analisados a partir da frequência de ocorrência de cada tipo de
resposta.
A partir das respostas encontradas, foi verificado se houve associação entre as
instruções fornecidas sobre o foco de atenção, o foco adotado e a troca de foco
na tentativa seguinte, sendo realizados dois testes de qui–quadrado (χ2):
condição experimental (foco instruído) X foco adotado; e condição experimental
X frequência de troca de foco. Para uma análise detalhada, também foram
utilizadas a estatística da taxa de razão para verificar em quais condições
determinado foco adotado teve probabilidade significativamente superior de ser
utilizado em relação outras condições. O mesmo procedimento foi realizado com a
análise das trocas de foco.
RESULTADOS
Tempo de Movimento
A figura_2 apresenta os desempenhos dos participantes em relação ao TM nos
diferentes focos de atenção. A partir da ANOVA de Friedman, foram encontradas
diferenças significativas entre as três condições (χ² = 19.407; p = .001). Nos
testes pareados de Wilcoxon identificou-se diferenças significativas entre as
condições foco externo e foco interno (r = .61; p = .004) e entre as condições
foco externo e controle (r = .68; p = .001) – a condição foco externo resultou
em pior desempenho entre as três condições.
Frequência absoluta de respostas relacionadas ao foco de atenção utilizado
A tabela_1 apresenta a frequência absoluta de cada resposta sobre o foco de
atenção utilizado na execução da tarefa para o questionamento No que você
prestou atenção enquanto corria?. As condições experimentais apresentaram
primazia de foco orientado ao que a condição requeria e distribuição similar
entre os outros focos (63.5% de foco interno, 19% foco externo e 17.5% sem foco
determinado na condição foco interno e 61% de foco externo, 27% foco interno e
12% sem foco determinado na condição foco externo). Na condição controle, os
participantes apontaram respostas com 65% de foco externo, 25% de foco interno
e 10% sem foco determinado.
Sobre a mudança de foco de atenção durante uma mesma condição, os resultados
mostram que os participantes alteraram o foco 34% das vezes na condição de foco
interno, 31% na condição de foco externo, e 17.4% na condição controle.
Associação entre condição experimental X foco adotado
A análise de qui - quadrado apontou uma associação significativa entre a
condição experimental do indivíduo (foco de atenção instruído) e o foco adotado
(χ2 = 61.416; p < .001). A tabela_2 apresenta os resultados relativos a taxa de
razão da adoção da instrução do foco em cada condição. Como se pode observar, o
foco de atenção foi adotado com maior probabilidade na situação onde este foi
instruído (4.92 mais vezes para foco interno e 2.13 mais vezes para foco
externo). Adicionalmente, os resultados apontam que houve grande probabilidade
de adoção do foco externo na condição controle (2.81 mais vezes) e menor
probabilidade do foco interno (.04).
Associação entre condição experimental X troca de foco
A análise de qui-quadrado apontou uma associação significativa entre a condição
experimental do indivíduo (foco de atenção instruído) e o número de trocas de
foco (χ2= 9.093; p = .011). A Tabela_3 apresenta os resultados relativos a taxa
de razão entre a troca de focos em cada condição. As análises apontam que
somente na condição sem foco determinado (controle) observamos resultados
significativos. Nesta condição, os participantes apresentaram 2 vezes maior
probabilidade de manter o foco escolhido na tentativa seguinte.
DISCUSSÃO
No presente estudo foi investigado se instruções de foco de atenção externo
comparado ao foco interno e sem foco determinando afetariam de forma diferente
a performance motora de crianças. Ainda, o estudo analisou a adoção da
instrução verificando qual foco de atenção foi utilizado pelos participantes.
Observando os desempenhos das condições experimentais, as análises apontaram
diferenças no tempo de movimento entre os diferentes focos de atenção
induzidos: as condições controle e com instrução de foco interno apresentaram
desempenhos melhores que a condição de foco externo. Tais resultados
assemelham-se aos achados verificados na fase de desempenho dos estudos de foco
de atenção e aprendizagem motora em crianças (Abdollahipour et al., 2011;
Chiviacowsky et al., 2013; Wulf, Chiviacowsky, et al., 2010), demonstrando que
instruções dirigindo a atenção de crianças para foco externo, ao invés de
nenhum foco determinado ou foco interno, não resultaram em uma performance mais
eficaz.
Esses resultados podem estar relacionados aos efeitos do foco de atenção em
distintos níveis de aprendizagem. Alguns estudos demonstraram diferenças em
mecanismos de atenção de participantes iniciantes e habilidosos, demonstrando
que adultos em estágios iniciais de aquisição de habilidades têm benefícios na
performance motora com a utilização do foco interno de atenção (Beilock et al.,
2004, 2002; Ford et al., 2005).
Os resultados do presente estudo corroboram com a ideia de que no desempenho de
iniciantes, não automático, a execução de habilidades é suportada por um
conjunto de estruturas de controlo que são mantidos na memória de trabalho, não
podendo ser rompida através do controle consciente e, dessa forma, facilitando
os processos iniciais de habilidade (Beilock et al., 2002; Ford et al., 2005).
Logo, durante os primeiros estágios de aprendizagem, existe influência positiva
da direção da atenção nos padrões de movimento, não sendo estas tão relevantes
para indivíduos habilidosos (Schmidt & Lee, 2011).
Aliado a isto, alguns estudos analisando os efeitos do foco de atenção na
aprendizagem motora de adultos iniciantes demonstraram que, ao receber
informações de foco interno na instrução inicial e/ou nas primeiras tentativas
de prática e somente após um período de prática receber instrução de foco
externo, obtiveram melhor aprendizagem (Oliveira, Denardi, Tani, & Corrêa,
2013; Silva et al., 2013). Assumindo que a performance motora de crianças seria
semelhante, ou até inferior, a de adultos iniciantes, estes resultados destacam
diferenças no desempenho das estruturas de controlo de atenção em distintos
níveis de aprendizagem e complementam um crescente corpo de estudos que sugere
que a performance de indivíduos iniciantes não é beneficiada pelo foco externo
de atenção.
Em relação à adoção do foco de atenção, os resultados apontaram que as crianças
se utilizaram prioritariamente dos focos de atenção instruídos pelo
experimentador. As condições com instrução direta tiveram 61% e 63.5% das vezes
com as crianças utilizando o foco instruído, sendo verificada associação
significativa entre a condição experimental do indivíduo (foco de atenção
instruído) e o foco adotado. Este nível de adoção da instrução foi encontrada
também em adultos na mesma tarefa (Porter et al., 2010). A quantidade de trocas
de foco nestas condições também foram similares ao estudo de Porter et al.
(2010). Entretanto, os participantes na condição sem foco determinado focaram
atenção externamente em 65% das tentativas e escolheram mudar seu foco de
atenção em uma frequência de 17.4 %, demonstrando, em análises adicionais, que
as crianças significativamente apresentaram 2 vezes maior probabilidade de
manter o foco escolhido na tentativa seguinte. Estes resultados diferem dos
resultados de Porter et al. (2010) – neste estudo o foco para a condição
controle é disperso e as trocas de foco são mais frequentes – e se apresentam
contraditórios aos resultados da condição de foco externo.
Uma explicação para os resultados apresentados em cada condição pode estar
relacionada ao conteúdo da instrução do foco induzido. Ao visualizarmos a
frequência absoluta de cada resposta para a questão do foco adotado, observam-
se diferenças nas subcategorias do foco de atenção externo utilizado: a
condição de foco externo teve maioria de tentativas com foco no chão enquanto a
condição controle teve maioria nos cones (49 e 51 vezes respetivamente). Esses
resultados apontam que o conteúdo do foco de atenção prescrito para a condição
de foco externo não foi eficiente para realização da tarefa; as informações
relacionadas ao foco de atenção fornecidas seriam inespecíficas.
Alguns autores (por exemplo, Ried, Fugita, Freudenheim, Basso, & Corrêa,
2012; Schmidt & Lee, 2011; Wulf, 2013) têm destacado a influência e
implicações da formulação e adoção da instrução do foco de atenção. Por
exemplo, Ried, Fugita, Freudenheim, Basso, e Corrêa (2012) argumentam que é
possível que fatores como a linguagem utilizada, definida pelo contexto, pelo
tema e pelos falantes, dificultem a compreensão da instrução na realização das
tarefas por parte de alguns dos executantes. Schimdt & Lee (2011)
complementam que é muito importante que a instrução seja clara, concisa e
repetida várias vezes para encorajar os indivíduos a centrar sua atenção no
ponto desejado. Se faz necessário, portanto, compreender que instruções sobre
foco devem considerar pontos relevantes da tarefa – que possam influenciar de
forma positiva o desempenho dos executantes.
Desta forma, se considerarmos que os focos induzidos no presente estudo
implicaram em dois aspetos a serem focalizados ao mesmo tempo, podemos supor
que essa seja uma limitação do presente estudo. A consideração deste aspeto
pode estar intimamente ligada à quantidade de informações presentes na
instrução e a relação com a capacidade de processamento de informações (Badan,
Hauert, & Mounoud, 2000; M. T. H. Chi, 1977; Connolly, 1970; Lambert &
Bard, 2005). Especificamente, crianças se encontram em um nível maturacional
anterior em relação aos adultos, o que compromete o processo de avaliação do
erro afetando a performance motora (Chi, 1976; Thomas, 1980). Thomas (1980)
ressalta ainda diferenças na utilização de processos de controlo (ensaio ou
prática, rotulação, procura e resgate, agrupamento e codificação) para
transferir a informação de memória de curta duração para memória de longa
duração, sendo as crianças mais lentas no processamento.
Observa-se assim, que o foco de atenção bem-sucedido em adultos (Porter et al.,
2010) não foi superior para as crianças do presente estudo. Ao levar em conta a
colocação de Thomas, Lee, & Thomas (1988), que classificam as crianças como
novatos universais devido a quantidade limitada de experiências que elas
possuem, percebe-se que a falta de experiências podem refletir diretamente na
performance e na influência do foco utilizado.
Deve ser enfatizado que este estudo reforça a necessidade de incluir
instrumentos de controlo da adoção do foco em pesquisas relativas à eficiência
do foco de atenção e a importância do conteúdo fornecido para instrução do foco
a ser utilizado. Assim, é esperado que outros estudos sejam realizados para a
compreensão dos possíveis efeitos do foco de atenção em crianças, utilizando
testes de retenção e transferência em diferentes tarefas e condições
metodológicas a fim de verificar efeitos permanentes na performance e
aprendizagem motora.
CONCLUSÕES
Conclui-se que a utilização de instrução de foco externo de atenção não
beneficiou a performance motora de crianças. Pode-se argumentar que as
diferenças decorrentes dos níveis de aprendizagem não possibilitam observar o
mesmo efeito do foco de atenção observado em adultos. Verifica-se ainda, que as
crianças se utilizaram prioritariamente dos focos de atenção instruídos pelo
experimentador. Entretanto, a utilização de foco de atenção quando não há
indução por parte do experimentador é prioritariamente de foco externo.