Relação entre atividade física e desportiva, níveis de IMC, perceções de
sucesso e rendimento escolar
INTRODUÇÃO
Nos países da União Europeia o sobrepeso e obesidade estão fortemente
associados com estilos de vida sedentários e com a ausência de atividade física
(AF) na população adulta (Martínez-González, Martínez, Hu, Gibney, &
Kearney, 1999) sendo a inatividade física um fator determinante na acumulação
excessiva de gordura (McArdle, Katch, & Katch, 2010). Como agravante, o
estilo de vida contemporâneo e modernização convidam também a população mais
jovem a práticas de sedentarismo e aumento da prevalência de obesidade (Ogden
et al., 2006). É sabido que a AF regular está associada com melhorias no bem-
estar e saúde, assim como das capacidades físicas dos praticantes (Blair,
LaMonte, & Nichaman, 2004) onde os benefícios para a saúde parecem ser
proporcionais à quantidade de AF realizada (US Department of Health and Human
Services, 1996). Se por um lado a relação da AF com a saúde está refletida no
efeito protetor da mesma reduzindo do risco de aparecimento de doenças
degenerativas e controláveis (Eckel, Grundy, & Zimmet, 2005) por outro é de
esperar que a AF também atrase a mortalidade e aumente a longevidade (Lee,
Paffenbarger, & Hennekens, 1997). De facto, os fatores de risco nos adultos
podem ter a sua origem na infância ou adolescência e podem ser atenuados e/ou
evitados através da AF regular nessas idades (Freedman, Khan, Dietz,
Srinivasan, & Berenson, 2001). É então fundamental aumentar a consciência e
a participação de crianças e adolescentes em programas regulares e estruturados
de prática (Mota & Sallis, 2002), pois estas faixas etárias representam o
período ótimo para estimular os hábitos de um estilo de vida saudável que, se
adquiridos, provavelmente manter-se-ão durante a idade adulta (Shephard &
Trudeau, 2000).
A educação física (EF) e a escola estão na linha da frente e são considerados
contextos de intervenção fulcrais para o desenvolvimento de estilos de vida
ativos nos mais novos (WHO/CDC, 2005), apesar da aparente menor importância
dada à EF relativamente a outras áreas disciplinares (Kelder et al., 2003).
Contudo, programas aplicados com base em evidências que comprovam benefícios,
quer na saúde, quer no sucesso escolar fazem da EF um importante recurso a ter
em conta (Sallis et al., 2012). Ao ser o primeiro contexto com responsabilidade
de promover a AF em crianças e jovens (Sallis & Owen, 1998), a EF escolar
pode ser o caminho no combate à inatividade física e hábitos sedentários, uma
vez que as crianças estão cada vez menos ativas (Armstrong, 1995; Armstrong
& Van Mechelen, 1998) e a sua participação em atividades físicas tem
diminuído com o aumento da idade (Armstrong & Welsman, 2006).
Além dos benefícios apontados também há a sugestão de que o tempo dedicado à EF
ou a outras atividades físicas não tem impacto negativo no sucesso escolar e
pode, inclusive, estar ligado à obtenção de melhores notas (Rasberry et al.,
2011), contudo esta evidência, apesar de existir, ainda não é totalmente
considerada para o efeito (Donnelly et al., 2013).
Uma vez que ainda não está claro nem evidente qual a atitude dos alunos com
sobrepeso e obesidade face à participação em atividades físicas e desportivas e
sua relação com o desempenho escolar definimos como objetivo central deste
estudo a identificação dos fatores de influência no contexto da EF escolar.
Desta forma, os objetivos específicos deste estudo foram caracterizar os níveis
de prática de AF e desporto federado; caracterizar os níveis de IMC; verificar
quais as perceções de sucesso escolar e fatores que o influenciam; e
caracterizar o rendimento escolar e verificar os fatores que o influenciam.
MÉTODO
A presente investigação é de natureza quantitativa, de acordo com um
delineamento quasi-experimental, descritivo e correlacional, tendo os dados
sido recolhidos num único momento temporal (transversal).
Amostra
A amostra do presente estudo foi constituída por um total de 490 alunos dos
ensinos básico e secundário, com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos.
Relativamente ao sexo, 245 (50.0%) eram do sexo masculino e 245 (50.0%) eram do
sexo feminino. No que concerne a idade, os alunos foram agrupados em duas
faixas etárias: 12-15 anos (n= 155; 31.6%) e 16-18 anos (n= 335; 68.4%). Em
termos de ciclo de ensino, 325 (66.3%) estavam matriculados num ano de
escolaridade do 3º ciclo, enquanto os restantes 165 (33.7%) estavam
matriculados no 10º, 11º ou 12º ano (ensino secundário). Os valores médios do
IMC variaram entre 12.99 e 38.48 kg/m² (20.54 ± 3.48).
Os alunos foram recrutados em vários estabelecimentos de ensino da região
litoral de Portugal, segundo um processo de amostragem não-probabilístico
(intencional). Procedeu-se à obtenção da autorização formal dos diretores das
escolas e dos pais/encarregados de educação para a aplicação dos questionários,
garantindo o anonimato e confidencialidade dos dados recolhidos. O presente
estudo foi aprovado pelo comité de ética institucional e respeitou as
diretrizes internacionais sobre ética em pesquisas científicas.
Instrumentos
A recolha de dados foi efetuada em contexto de sala de aula, através da
utilização de computadores com ligação à internet, tendo os alunos preenchido
os dados num formulário online criado e disponível unicamente para este efeito.
Este processo decorreu sob a presença do primeiro investigador de modo a
uniformizar os procedimentos de administração do questionário e dar instruções
precisas aos alunos, quando solicitado, de forma a minimizar a possível
ocorrência de erros interpretativos. O preenchimento dos dados referentes à
massa corporal e estatura foi feito pelos alunos no mesmo formulário, tendo por
referência os valores obtidos numa medição efetuada na aula anterior de EF, de
acordo com o manual do Fitnessgram (NES, 2002). A massa corporal foi medida
através de balança eletrónica, com a possibilidade de obter valores aproximados
aos 100 gramas. A massa corporal foi registada com o aluno descalço, com roupas
leves, na posição antropométrica e com os pés apoiados no centro da balança. O
registo foi feito em quilogramas com um valor decimal. A estatura foi medida
com recurso a um estadiómetro portátil, após uma inspiração profunda. As
medições foram realizadas na posição antropométrica, com a cabeça posicionada
segundo o plano de Frankfurt. O registo de dados foi efetuado em centímetros e
posteriormente convertido para metros. As classificações obtidas às várias
disciplinas no período lectivo anterior foram igualmente preenchidas pelos
alunos, segundo a ficha individual de informação escolar que estes foram
solicitados a trazer no dia do preenchimento do questionário. Tendo em
consideração as diferentes escalas de classificação dos ensinos básico e
secundário, procedeu-se posteriormente à normalização das classificações dos
alunos do ensino secundário numa escala de 5 valores.
A categorização dos adolescentes por níveis de IMC foi efetuada segundo as
propostas de Cole e colaboradores (eg. Cole, Bellizzi, Flegal, & Dietz,
2000; Cole, Flegal, Nicholls, & Jackson, 2007; Cole & Lobstein, 2012),
ajustadas para o sexo e idade. Deste modo, foram criados três grupos: magreza,
peso normal e excesso de peso. O grupo com excesso de peso incluiu
simultaneamente os adolescentes com pré-obesidade e obesidade.
A tradução e adaptação transcultural dos instrumentos utilizados seguiram um
conjunto de processos de tradução e retroversão efetuados por diferentes
indivíduos bilingues, não familiarizados com os instrumentos. A adequação
semântica e validade de conteúdo foram estabelecidas através de um painel de
especialistas, com habilitações e experiência na área científica em causa,
tendo-se obtido uma versão final, traduzida e adaptada, que reuniu consenso por
parte dos membros do painel.
Procedimentos
Inicialmente, os alunos responderam um conjunto de questões de natureza
sociodemográfica (sexo, idade, ano de escolaridade e agregado familiar), assim
como foram solicitadas as medições de massa corporal e estatura, e as
classificações escolares.
As questões do nosso estudo sobre a mensuração da atividade física-desportiva,
aplicadas noutros estudos (Cloes, 2004; Cloes, Laraki, Dubuisson, &
Theunissen, 2007), foram baseados no modelo desenvolvido por Prochaska, Sallis
e Long (2001), onde a frequência de prática de AF foi mensurada através da
média de dois itens (Ao longo dos últimos 7 dias, quantas vezes andaste a pé
ou de bicicleta durante pelo menos 10 minutos, para ir para a escola, ir ter
com amigos, ir às compras ou apenas para andar? e Ao longo dos últimos 7
dias, quantas vezes fizeste uma atividade física durante pelo menos 20 minutos,
e que te fez acelerar a respiração ou te fez suar), enquanto a prática
desportiva federada foi avaliada através de um item (Ao longo dos últimos 7
dias, quantas horas praticaste fora da escola, ou em uma estrutura organizada/
federada). A regularidade da prática de AF e/ou desporto federado foi
mensurada através da questão Praticas um desporto (ou atividade física) fora
da escola , com as seguintes opções: sim, durante todo o ano; sim, mas não
durante todo o ano; Não.
As perceções do sucesso escolar dos alunos basearam-se na resposta à questão
Para ti, o sucesso escolar é , com as seguintes opções: passar de ano, mesmo
com negativas; passar de ano sem qualquer negativa; passar de ano com boas
notas.
Análise estatística
Primeiramente recorremos aos procedimentos habituais da estatística descritiva
(média, desvio-padrão e frequência relativa) e análise da normalidade
univariada dos dados (simetria e achatamento). Para efeitos de análise
inferencial utilizámos os testes do Qui-quadrado, ANOVA uni e multivariada e
correlação de Pearson. O eta quadrado parcial (η²) foi reportado como medida da
magnitude do efeito das diferenças verificadas nas ANOVAs, utilizando-se os
seguintes critérios de interpretação: > 0.01 (efeito pequeno), > 0.06 (efeito
moderado) e > 0.14 (efeito elevado) (Cohen, 1988). As propriedades
psicométricas das dimensões do questionário foram investigadas através da
análise fatorial confirmatória e alfa de Cronbach, tendo revelado um bom índice
de consistência interna (alfa de Cronbach igual a 0,73) e razoável adequação
fatorial (CFI> 0,90 e RMSEA <0,08). O nível de significância foi mantido em 5%
(p < 0.05). Os pacotes estatísticos utilizados foram o IBM SPSS Statistics 19.0
e o EQS 6.1
RESULTADOS
Os alunos, em média, praticavam AF em 4.49 ± 1.74 dias da semana, sendo
observável maior nível de prática por parte dos meninos (4.73 ± 1.73) quando
comparados com as meninas (4.24 ± 1.70; p = 0.002; η² = 0.02). A comparação por
grupos etários revelou um aumento dos níveis de prática entre os 12-15 anos
(4.02 ± 1.74) e os 16-18 anos (4.70 ± 1.69; p < 0.001; η² = 0.03). Por sua vez,
alunos com excesso de peso (4.20 ± 1.73) e magreza (4.06 ± 1.77) reportaram
menores níveis de AF em relação a alunos normoponderais (4.61 ± 1.73; p =
0.044; η² = 0.01).
No que concerne à regularidade da prática, 320 (65.3%) afirmaram fazê-la de
forma regular, 106 (21.6%) reportaram praticar de modo irregular (sazonal ou
ocasionalmente) e 64 (13.1%) indicaram não serem praticantes. Estas
prevalências apresentaram diferenças por sexo (p = 0.01), verificando-se uma
maior prevalência de prática regular nos meninos (71.8% vs. 58.8%) e maiores
prevalências de prática irregular ou não prática nas meninas (25.7% vs. 17.6% e
15.5% vs. 10.6%, respetivamente). O grupo etário, níveis de IMC e agregado
familiar não influenciaram significativamente a regularidade da prática (p >
0.05).
Relativamente à prática desportiva federada, a amostra revelou praticar cerca
de 3.21 horas (DP = 2.59) por semana, tendo-se obtido níveis superiores nos
meninos (3.73 ± 2.56 vs. 2.69 ± 2.52; p < 0.001; η² = 0.04). No entanto, as
variáveis grupo etário e níveis de IMC não produziram efeitos significativos
nos níveis de envolvimento desportivo federado (p > 0.05). No que concerne a
regularidade da prática desportiva federada, 288 (58.8%) afirmaram fazê-la de
forma regular, 78 (15.9%) reportaram praticar de modo irregular (sazonal ou
ocasionalmente) e 124 (25.3%) indicaram não serem praticantes federados. Estas
prevalências apresentaram diferenças por sexo (p < 0.001), verificando-se uma
maior prevalência de prática regular nos meninos (69.4% vs. 48.2%) e maiores
prevalências de prática irregular ou não prática nas meninas (18.8% vs. 13.1% e
33.1% vs. 17.6%, respetivamente). O grupo etário e níveis de IMC não
influenciaram significativamente a regularidade da prática desportiva federada
(p > 0.05).
Os alunos da amostra revelaram níveis médios de IMC de 20.54 ± 3.48 kg/m²,
variando entre 12.99 e 38.48 kg/m². As análises comparativas do IMC por sexo
não indicaram diferenças significativas (p > 0.05). No entanto, e como
esperado, verificou-se que alunos mais velhos evidenciaram níveis médios mais
elevados (20.97 ± 3.27) em comparação com os alunos mais novos (19.61 ± 3.75; p
< 0.001; η² = 0.03). Por sua vez, a análise por níveis de IMC (magreza, peso
normal e excesso de peso) indicou 3.3% (n = 16) com magreza, 71.4% (n = 350)
com peso normal e 25.3% (n = 124) com excesso de peso. As prevalências de
excesso de peso e magreza foram superiores no sexo masculino em comparação ao
sexo feminino (27.8% vs. 22.9% e 5.3% vs. 1.2%, respetivamente), enquanto se
observou uma maior percentagem de meninas no grupo normoponderal (75.9% vs.
66.9%; p = 0.01).
Destaca-se que grande parte dos alunos define o seu sucesso escolar através da
aprovação/transição de ano a par de boas classificações (tabela_1).
Verificaram-se efeitos significativos do sexo e níveis de IMC, no qual se
observou uma maior prevalência de meninas e adolescentes com peso normal no
grupo das perceções associadas à aprovação/transição de ano com boas
classificações. Por sua vez, denotou-se uma maior percentagem de meninos e
adolescentes com magreza no grupo dos que dependiam de obter aprovação/
transição de ano, mesmo que tal implicasse ter classificações negativas.
Relativamente à comparação dos níveis de AF por grupos de perceções de sucesso
escolar, somente se identificou uma diferença significativa (p = 0.03), em que
os alunos que definiam o seu sucesso escolar através da aprovação/transição de
ano com boas classificações reportaram níveis superiores de prática (4.57 ±
1.71) quando comparados com os alunos para os quais bastaria obter aprovação/
transição de ano sem classificações negativas (3.99 ± 1.73). Por sua vez, não
se verificaram diferenças significativas de prática desportiva federada em
função de diferentes grupos de perceções de sucesso escolar (p > 0.05).
A comparação em função do sexo indicou que as meninas obtiveram melhores
classificações médias finais e nas disciplinas de Português e Matemática. Não
se verificaram diferenças por sexo nas classificações de EF (p = 0.11). A
análise comparativa por grupos etários indicou melhores classificações médias
finais e nas disciplinas de Português e Matemática por parte dos alunos com 12-
15 anos, enquanto os alunos mais velhos (16-18 anos) obtiveram melhores
classificações na disciplina de EF. Verificaram-se efeitos significativos da
variável níveis de IMC nas classificações médias finais e na disciplina de EF,
em que os alunos normoponderais obtiveram melhores classificações do que os
alunos com excesso de peso.
A comparação em função das perceções de sucesso escolar revelou que o grupo das
perceções associadas à aprovação/transição de ano com boas classificações
obteve melhores classificações na média final e nas restantes disciplinas
analisadas do que os restantes grupos.
Além disso, verificaram-se correlações significativas entre as classificações
de Português e Matemática (r = 0.80; p < 0.001), entre as classificações de EF
e Português (r = 0.36; p < 0.001), e entre as classificações de EF e Matemática
(r = 0.42; p < 0.001).
A correlação entre as variáveis do rendimento escolar e a frequência de prática
de AF unicamente indicou uma relação positiva significativa entre as
classificações de EF e a prática AF (r = 0.25; p < 0.001). Por sua vez, a
frequência de prática desportiva federada relacionou-se positiva e
significativamente com a classificação média final (r = 0.11; p < 0.05) e as
classificações de EF (r = 0.28; p < 0.001). Tendo em consideração a diferença
de prática por sexo, efetuámos esta mesma análise separadamente por sexo
masculino e feminino. Os resultados obtidos indicaram, além das evidências
anteriormente enunciadas, uma relação significativa entre a prática desportiva
federada por parte das meninas e as classificações na disciplina de Português
(r = 0.17; p < 0.05).
Tabela_2
DISCUSSÃO
O objetivo deste estudo foi caracterizar os níveis de prática de AF e desporto
federado; caracterizar os níveis de IMC; verificar quais as perceções de
sucesso escolar e fatores que o influenciam; e caracterizar o rendimento
escolar e verificar os fatores que o influenciam. Tanto quanto a literatura nos
permite conhecer, o presente estudo constitui-se como inédito na análise da
perceção do sucesso escolar dos alunos do ensino básico e secundário e a sua
relação com o sucesso escolar, níveis de IMC e prevalência de prática de AF.
Prática desportiva
Os alunos do nosso estudo apresentaram uma média de 4.49 ± 1.74 dias por semana
de prática destacando-se o maior nível de prática dos meninos em comparação com
as meninas. Historicamente tem sido assim no panorama desportivo, o que
eventualmente terá tido reflexos também na prática de AF. Mais recentemente os
estudos científicos têm apresentado uma tendência convergente com este fenómeno
(Armstrong & Welsman, 2006; Maffeis & Castellani, 2007; Yli-Piipari,
Leskinen, Jaakkola, & Liukkonen, 2012) e os nossos dados não são exceção.
Do ponto de vista da prevalência, os meninos do nosso estudo tiveram uma
prevalência de prática regular 13% superior à das meninas (p = 0.01). Estes
resultados estão em linha com os do estudo de Sallis (1993), onde mostrou que
meninos eram 20% mais ativos que as meninas e que a AF média diminuía 2.7% com
a idade nos meninos e 7.4% nas meninas. Este último facto não foi confirmado no
nosso estudo revelando resultados inversos. Outro exemplo é o estudo do U.S.
National Youth Risk Behavior Survey, com mais de 11.000 adolescentes do ensino
secundário, onde Heath, Pratt, Warren, e Kann (1994) verificaram que a
percentagem de meninas adolescentes que eram ativas no 9º ano diminuiu de 31%
para 17% até ao 12º.
Os meninos podem apresentar maiores níveis de prática por vários motivos. Um
deles que não foi abordado no questionário pode dever-se ao facto dos pais dos
meninos terem maiores níveis de prática de AF que os pais das meninas.
Relativamente a este tópico, Taylor, Baranowski, e Sallis (1994) reforçam o
papel fundamental da família na participação desportiva, quer como modelos a
seguir, quer como suporte e influência social, encontrando aceitação ainda hoje
em literatura mais recente que indica que os meninos têm mais apoio social e
familiar para a realização de atividades físicas (Gonçalves, Hallal, Amorim,
Araújo, & Menezes, 2007), onde o apoio e incentivo dos pais têm apresentado
mais valor preditivo que o nível de prática de AF dos mesmos (Trost et al.,
2003).
Encontramos também uma relação positiva entre a classificação a EF (médias
acima dos 4 pontos), superior nos meninos, e a prática de AF (r =.25; p <
0.05). Contudo, se retirarmos a EF e incluirmos os dados da prática desportiva
federada, verificamos um efeito do sexo nos níveis de prática (p < 0.001) onde
os meninos indicaram uma participação mais elevada que as meninas. Estas
relações matemáticas, apesar de mostrarem a tendência não explicam a causa, que
não é única. As normas e os fatores socioculturais assim como as expetativas da
sociedade relativamente à participação desportiva influenciam a distinção entre
os níveis de prática dos dois sexos (Weinberg & Gould, 1997). Além da
tendência das crianças responderem a estereótipos sociais em relação ao
desporto e AF, outra explicação pode surgir do facto dos meninos
tradicionalmente apresentarem maior competência motora que as meninas (Mateus,
Dias, Corte-Real, Garganta, & Fonseca, 2010). A competência motora parece
ser necessária para assegurar algum sucesso durante a AF (Cliff, Okely, Smith,
& McKeen, 2009) estando associada à participação desportiva dos jovens
(Jaakkola et al., 2009; Okely, Booth, & Patterson, 2001).
Outro fator que pode explicar a menor prevalência de participação das meninas é
a intensidade das atividades físicas. A nível dos países europeus, incluindo
Portugal, os meninos apresentam níveis de AF superior às meninas, aumentando
esta diferença quando se considera AF vigorosa (Armstrong & Welsman, 2006).
O elevado nível de competição e intensidade nos desportos federados pode levar
a que alguns não participem (Landry & Driscoll, 2012). Além de participarem
menos em AF e atividades federadas, normalmente as meninas participam menos nas
aulas de EF e a sua participação normalmente é em atividades com menor
intensidade (McKenzie, Marshall, Sallis, & Conway, 2000).
Não foi feito no nosso estudo uma descriminação das modalidades praticadas, uma
vez que estava fora do âmbito do mesmo. Os jogos desportivos coletivos têm uma
prevalência maior durante a adolescência (Azevedo Júnior, Araújo, &
Pereira, 2006), mas consideramos provável que as modalidades individuais possam
ter mais aceitação entre as meninas e a sua participação ser realizada com mais
confiança (Corbin, 2002).
A redução dos níveis de AF com o aumento da idade começa mais cedo nas meninas
(Maffeis & Castellani, 2007) e, apesar de não termos dados disponíveis para
verificar na nossa amostra onde se iniciou essa redução, constatamos algo
importante para caracterizar a menor prevalência de prática por parte das
meninas. As meninas do nosso estudo demonstraram maiores níveis de inatividade
física que os meninos (p = 0.01). Esta tendência está bem documentada por
Oehlschlaeger, Pinheiro, Horta, Gelatti, e San'Tana (2004) referindo que a
prevalência do sedentarismo é 2.45 maior em meninas que em meninos. No nosso
caso é aproximadamente 1.5 vezes maior (15.5 vs 10.6%). Independentemente da
dimensão do valor, são dados preocupantes.
Armstrong e Welsman (2006) mostraram que o resultado da população portuguesa
nos níveis de AF é preocupante. Nos meninos de 11 e 13 anos apenas 40% cumprem
os níveis mínimos recomendados, sendo de aproximadamente 30% nos meninos de 15
anos. Nas meninas, o cenário agrava-se ainda mais com valores de
aproximadamente 22.5% nos 11 anos, 15% nos 13 anos e 10% nos 15 anos. Dos 22
países estudados, apenas 4 estão com níveis inferiores a Portugal.
Estudos realizados na população portuguesa (Guerra, Santos, Ribeiro, Duarte,
& Mota, 2003; Mota, Santos, Guerra, Ribeiro, & Duarte, 2002; Santos,
Guerra, Ribeiro, Duarte, & Mota, 2003) mostraram resultados
impressionantes, uma vez que 94% dos meninos e 79% das meninas acumularam pelo
menos 60 minutos de AF de intensidade moderada a vigorosa por dia e que o tempo
passado em AF aumentava com o aumento da idade. Estes estudos foram realizados
com recurso a acelerómetros. O nosso estudo foi realizado através de métodos
subjetivos por questionário. É necessário ter cautela a comparar os resultados
uma vez que também são muito diferentes do reportado por Armstrong e Welsman
(2006) que apresentaram dados obtidos por métodos subjetivos.
Um dado interessante que diverge da literatura é o aumento do nível de prática
com o aumento da idade da faixa 12-15 para a faixa 16-18 (4.02 ± 1.74 vs 4.70 ±
1.69; p < 0.001). Estes resultados fogem da tendência da generalidade dos dados
publicados relativamente aos níveis de prática. Alguns estudos reportaram
aumentos dos níveis de AF com o aumento da idade (Guerra et al., 2003; Mota et
al., 2002; Santos et al., 2003; Vasconcelos & Maia, 2001).
No estudo de Vasconcelos e Maia (2001) encontrou-se uma relação positiva entre
a idade e os níveis de prática nas meninas até aos 16 anos e um declínio a
partir daí, enquanto nos meninos a partir dos 12 anos até aos 19 houve uma
estabilização dos níveis de prática. Os autores apontam como justificação uma
maior adesão à AF e desportiva nos tempos livres e na escola, assim como
menores hábitos de sedentarismo. No caso do nosso estudo não temos dados que
suportem qualquer assunção baseada em fatores externos influenciadores. De
qualquer forma sabemos que alguns obstáculos sociais, demográficos, pessoais ou
ambientais podem limitar algumas crianças e adolescentes a praticarem AF. As
crianças são influenciadas pelos hábitos de AF das pessoas com quem convivem
(Landry & Driscoll, 2012). Desta forma, esta tendência pode estar ligada a
alunos que tenham pais que incentivam a sua participação ou que são pais
ativos. As circunstâncias familiares, sociais e/ou económicas, estão fortemente
relacionadas com o desenvolvimento a educação e oportunidades de prática de AF
(Wadsworth, 1999), mostrando uma influência directa, sobretudo dos pais, na AF
das crianças (Keresztes, Piko, Pluhar, & Page, 2008; King, Tergerson, &
Wilson, 2008) ilustrado pelo facto de crianças poderem ser aproximadamente 6
vezes fisicamente mais ativas se tiverem pais ativos (Fuemmeler, Anderson,
& Mâsse, 2011).
Outro fator externo que pode ter influenciado esta tendência é o nível
socioeconómico. Não temos dados da condição socioeconómica dos alunos uma vez
que o estudo foi de corte transversal. A população em estudo na altura da
recolha podia ter um estatuto socioeconómico diferente entre os grupos de
idade, sendo os mais novos menos privilegiados que os mais velhos. De facto, o
menor nível socioeconómico e educacional tem sido associado com menores níveis
de participação em atividades físicas (Sallis & Owen, 1998).
O facto de ser um estudo realizado num momento só, de corte transversal, pode
levar a que tenhamos estudado duas populações com comportamentos diferentes.
Não sabemos se o grupo dos mais velhos não manteve os níveis de prática que
tinha há um ou dois anos, não sabemos se aumentou, ou se, de acordo com a
literatura, diminuiu. Da mesma forma, não sabemos se o grupo que agora pertence
aos mais novos vai aumentar os seus níveis de prática quando aumentar a idade,
se vai manter, ou se vai diminuir. Podemos estar na presença de um grupo dos
mais novos que é mais sedentário que os mais velhos. Não parece ser o caso, uma
vez que o IMC, que está negativamente relacionado com a prática da AF (Donnelly
et al., 2009), aumentou com a idade (p < 0.001) e não diminuiu. Por exemplo, no
estudo de Berkey, Rockett, Gillman, e Colditz (2003), o nível de AF foi maior
para o grupo dos mais velhos, contudo nesse estudo, essa maior participação
estava associada à diminuição da prevalência de sobrepeso com o aumento de
idade de 27.3% aos 10 anos, para 17.3% aos 15 anos.
Podemos ainda indicar que, pela análise dos intervalos de idade que os sujeitos
do grupo dos mais novos estão a terminar o 3º ciclo do Ensino Básico enquanto
os mais velhos estão já em idade de Ensino Secundário. Os alunos do Ensino
Secundário têm mais tempo de EF que os alunos do 3º ciclo. Este facto pode
justificar o aumento dos níveis de prática diretamente por terem mais tempo de
EF, ou indiretamente pela relação positiva que a prática da EF poderá ter no
nível de prática de AF fora das aulas e fora da escola. Independentemente da
qualidade e quantidade de AF nas aulas de EF, Dobbins, Husson, DeCorby, e
LaRocca (2013) indicam que crianças que fazem EF têm aproximadamente 3 vezes
mais probabilidade de se envolverem em atividades físicas diversas de
intensidade moderada a vigorosa durante o seu dia na escola e complementarmente
as crianças cujos valores de AF escolares são superiores tendem a ser mais
ativas fora da escola e durante os fins-de-semana (Donnelly et al., 2009).
A diminuição da AF com o aumento da idade, apesar de não ter acontecido no
nosso estudo, tem sido descrita com frequência (Armstrong & Welsman, 2006;
Armstrong, Welsman, & Kirby, 2000; Boreham & Riddoch, 2001; Yli-Piipari
et al., 2012). Paralelamente a prevalência da adesão à prática desportiva
também é menor à medida que a idade avança. Alves, Silva, Ribeiro, Vermatti, e
Fisberg (2000) verificaram que 42.5% dos adolescentes começaram a desenvolver
algum tipo de AF antes dos 12 anos de idade, 51% entre 12 e 16 anos e 6.5% após
os 16 anos. A interrupção da prática de AF foi mencionada por 47% dos
adolescentes, ocorrendo após os 15 anos. Pegando na assunção de que uma criança
ativa tem maior probabilidade de ser um adulto ativo e verificando que a
prevalência é maior em idades mais baixas faz-nos pensar que estamos no bom
caminho. Ainda assim os números são muito baixos e a quantidade de crianças e
adolescentes que abandonam a prática da AF regular é muito alta. Por exemplo
Sallis (1993), numa revisão da especialidade, verificou que as crianças de 6-
7 anos realizavam mais AF de intensidade moderada a vigorosa por dia (45min/
dia) que as crianças com 10 a 16 anos (16-45min/dia). Entre adolescentes com
idades compreendidas entre 15 e 18 anos os padrões de AF vão decaindo,
sobretudo nas meninas (Boreham & Riddoch, 2001) e a AF vigorosa regular
apresenta um declínio constante entre os 12 até aos 21 anos, estabilizando
entre os 30 e 64 anos (Caspersen, Pereira, & Curran, 2000). Num estudo
longitudinal, no sentido de avaliar as alterações aos níveis de AF em crianças
com idades dos 11 aos 13 anos, Armstrong et al. (2000) descobriram as seguintes
diminuições com a idade de 76.2 para 44.4% nos meninos e 73.5 para 31.6% nas
meninas. Ainda constataram que com a idade de 11 anos 22.1% dos meninos e 29.6%
das meninas não realizavam sequer 10 minutos de AF moderada por semana e com a
idade de 13 anos os valores foram de 28.4 e 51.9% para meninos e meninas
respetivamente.
A industrialização e o desenvolvimento não são alheios a este abandono e
diminuição dos níveis de prática de AF. O facto de as crianças não poderem
brincar na rua ou em locais próprios, por questões de segurança ou outros, leva
à instalação de comportamentos sedentários. As evidências apontam no sentido de
crianças que passam mais tempo a brincar fora de casa tenderem a ser mais
ativos (Hinkley, Crawford, Salmon, Okely, & Hesketh, 2008).
Relativamente à prática de AF e IMC verificou-se que os alunos normoponderais
apresentaram maiores níveis de prática quando comparados com os alunos com
sobrepeso ou magros respetivamente (4.61 ± 1.73 vs 4.20 ± 1.73 vs 4.06 ± 1.77;
p = 0.044). Este resultado, apesar de ser tangencialmente significativo apenas,
era esperado e está de acordo com as evidências da literatura que indicam que
indivíduos obesos são mais frequentemente hipocinéticos (Wilmore & Costill,
2004), participando menos em atividades físicas e desportivas (Giugliani &
Carneiro, 2004).
Relativamente à prevalência de práticas desportivas federadas, encontramos
valores de prática de 71.8% nos meninos e 58.8% nas meninas, sem efeito nem da
idade, nem do IMC. Este dado indica que o facto de o aluno ter sobrepeso ou
obesidade não o inibe de praticar AF fora da escola. Curiosamente mais meninos
praticam AF desportiva, durante mais tempo (3.73 vs 2.69 horas por semana para
meninos e meninas respetivamente), mas a prevalência de excesso de peso foi
maior nos meninos (p > 0.05). Contudo alguns fatores mais, além dos que já
foram referidos, podem estar na origem desta menor participação em atividades
físicas. Por exemplo: a menor participação dos alunos com sobrepeso pode dever-
se às complicações ortopédicas que normalmente estas populações apresentam
(Fisberg, 1995), contudo num trabalho de revisão recente, Shultz, Anner, e
Hills (2009) não indicaram ter encontrado correlações entre as dores nas
articulações ou desconforto em algumas tarefas com a diminuição da AF em
crianças obesas; ou por outro lado, o facto de ter excesso de peso ou ser
obeso, juntamente com o processo de aumento de peso, carrega consigo
consequências sociais, económicas e psicológicas (Keller & Stevens, 1996).
IMC
No que diz respeito ao IMC a nossa amostra apresentou valores de IMC entre
12.99 e 38.48 kg/m² e uma média de 20.54 ± 3.48 kg/m². Estes dados isoladamente
não nos dão muita informação, contudo, relativamente às prevalências a nossa
amostra apresentou uma percentagem de indivíduos com sobrepeso de 25.3%,
normoponderais de 71.4% e magros de 3.3%.
A comparação dos dados serve para normalizar os nossos resultados, contudo o
rácio de 1 em cada 4 criança ou adolescente ter sobrepeso é preocupante, sendo
27.8% meninos e 22.9% meninas. Os nossos valores de maior prevalência nos
meninos estão de acordo com os resultados de Albuquerque, Nóbrega, Samouda, e
Manco (2012) e divergem dos resultados de Silva et al. (2008), ambos em
crianças portuguesas. Contudo, estudos noutras populações vêm indicando há
alguns anos a mesma tendência de prevalência, maior nos meninos que nas meninas
(Maffeis, Schutz, Piccoli, Gonfiantini, & Pinelli, 1993), assim como
meninas com valores de IMC superiores ao dos meninos (Jung, 1997).
Os dados disponíveis da população portuguesa indicam-nos valores de prevalência
diversos. Por exemplo, Padez, Mourão, Moreira, e Rosado (2005) apresentaram
valores de 31,3% de crianças com sobrepeso; Silva et al. (2008) apresentaram
valores de 16.3% de crianças com sobrepeso; Rito et al. (2012) apresentaram
valores de 28.1% de sobrepeso; e Albuquerque et al. (2012) apresentaram valores
de sobrepeso de 33% indicando que esta prevalência aumentou 40% nos últimos 10
anos.
Relativamente à população adolescente, o estudo de Ferreira e Duarte (2013)
indicou uma prevalência de sobrepeso de 23.5% para os meninos e 21.4% para as
meninas, sendo os valores de obesidade respetivamente de 5.4% e 3.4%.
Os dados da população portuguesa aproximam-nos dos valores dos países do sul da
Europa (Albuquerque et al., 2012) o que, juntamente aos valores de inatividade
física mostrados por Armstrong e Welsman (2006) onde os mesmos países aparecem
na cauda dos 22 países estudados, levanta muitas preocupações. De facto este
aumento de prevalência tem vindo a aumentar na população em geral e cada vez
aparece mais cedo em idades mais baixas (Carreira, Pereira, Azevedo, &
Lunet, 2012).
Os dados são preocupantes e devem ser vistos com cautela. Os trabalhos
referidos anteriormente utilizaram todos os pontos de corte do International
Obesity Task Force, ou seja, o IMC. Antunes e Moreira (2011), relativamente à
população portuguesa e comparando vários padrões numa revisão sistemática,
indicaram os seguintes valores relativos ao IMC de 8.6% a 29.6% em masculinos e
de 8.8% a 31.4% em femininos. O que estes resultados querem dizer é que
independentemente do método utilizado, o IMC varia dentro da mesma população ou
país de acordo com vários fatores sociodemográficos (Marques-Vidal & Dias,
2005). A nossa amostra foi recrutada de várias escolas do litoral de Portugal,
fazendo com que as comparações sejam difíceis de fazer.
Relativamente à magreza, os dados do WHO (2013) indicam valores em crianças com
menos de 5 anos de 1.5% para a população europeia, sendo que este valor
diminuiu desde a última avaliação quase 8 vezes, deixando patente a tendência
para o gradual aumento do peso globalmente. Rito et al. (2012) reportou valores
de 4.8% de magreza, idêntico ao reportado por Marques-Vidal, Ferreira,
Oliveira, e Paccaud (2008) 4.7 para meninas e 5.3% para meninos.
Sardinha et al. (2011) indicaram uma prevalência de sobrepeso e obesidade menor
à medida que a idade avança. No nosso estudo o valor de IMC médio aumentou o
que poderá dever-se ao próprio crescimento ou aumento da massa muscular ou
devido aos efeitos cumulativos do estado do IMC das idades anteriores
(Gortmaker, Dietz, Sobol, & Wehler, 1987).
Um aspeto que pode ser determinante na prevalência da obesidade dos alunos é o
estatuto socioeconómico (Cardoso & Padez, 2008). Num estudo realizado por
Nogueira et al. (2013), as crianças com um estatuto socioeconómico mais baixo
tinham mais probabilidade de serem obesas e de participarem menos nas
atividades físicas e desportivas. Este aspeto também não foi contemplado na
recolha dos nossos dados.
Perceção de Sucesso Escolar
A maior parte dos alunos do nosso estudo define o sucesso escolar através da
aprovação com boas classificações (81.8%) sendo este valor maior nos alunos
mais novos, nos alunos com peso normal e nas meninas. Os alunos cuja perceção
face ao sucesso escolar era passar de ano com boas notas reportaram níveis
superiores de prática (p = 0.03) que os restantes grupos. Além disso
apresentaram também melhor média final e classificação final a Português,
Matemática e EF. Estes resultados parecem indicar uma relação entre a prática
de AF e desportiva e o sucesso escolar. De facto, a AF é essencial para um
desenvolvimento saudável e a inatividade física, cada vez mais normal entre as
crianças, cria condições para constrangimentos não só ao nível da saúde e
capacidades físicas mas também ao nível cognitivo (Booth, Gordon, Carlson,
& Hamilton, 2000). Por exemplo, Ahamed et al. (2007), num estudo
randomizado, realizaram intervenção em várias escolas no sentido de aumentar a
AF relacionando a mesma com o desempenho escolar. Não encontraram diferenças
entre meninos e meninas no desempenho escolar e apesar do grupo de controlo ter
começado o estudo com melhores classificações que o grupo experimental, no
final das 16 semanas de AF acrescida não foi encontrada qualquer diferença no
desempenho escolar. No nosso estudo as meninas têm melhores classificações na
média final e a todas as disciplinas com exceção de EF que é inferior à dos
meninos.
O nosso estudo apresentou relações positivas entre a classificação da EF com
Português (r = .36; p < 0.001) e com Matemática (r = .42; p < 0.001). Estes
resultados convergem com os de Chomitz et al. (2009), que realizaram um estudo
tentando relacionar as capacidades em matemática e língua e os resultados em
testes de aptidão física realizados na EF. Os resultados caminharam
paralelamente mostrando que a probabilidade do aluno ter melhores
classificações a qualquer uma das áreas estava diretamente relacionada com o
número de testes de aptidão física concluídos com sucesso. Contudo não foi
possível descobrir a direção desta relação. São melhores alunos porque são mais
aptos fisicamente ou o contrário? No nosso estudo a prática de AF apresentou
uma relação positiva com a classificação em EF, não se verificando diferenças
nas classificações de EF entre meninos e meninas, e se considerarmos a prática
de atividades desportivas federadas encontrámos uma relação positiva com a
média final e com a EF. Na realidade, a AF pode influenciar a saúde e
capacidade de pensar em crianças, levando a melhorias do desempenho escolar e a
um cérebro mais eficiente durante mais tempo (Hillman, Kamijo, & Scudder,
2011). Estudos transversais têm mostrado associações positivas entre a AF e a
aptidão cardiovascular no sucesso escolar (Tomporowski, Davis, Miller, &
Naglieri, 2007; Trudeau & Shephard, 2008). O nosso estudo, apesar de não
ter avaliado a aptidão cardiovascular, encontrou uma relação positiva entre as
classificações de matemática e português e a classificação de EF (p < 0.001). A
esta relação pode-se aduzir que há uma relação entre a EF e a prática de AF. Os
alunos que reportaram uma atitude mais positiva face ao sucesso escolar, que
era passar com boas notas, apresentaram relação positiva com a prática de AF. A
atitude face ao sucesso por sua vez teve relação com o rendimento escolar média
final, matemática e português.
Uma análise mais aprofundada em estudos com outro tipo de desenho tem mostrado
resultados inconsistentes (Ahamed et al., 2007; Carlson et al., 2008; Coe,
Pivarnik, Womack, Reeves, & Malina, 2006; Sibley & Etnier, 2003).
Contudo os resultados devem ser vistos com algum cuidado, já que diferenças nos
desenhos de estudo, no tempo de intervenção, nos métodos e na população podem
resultar em más interpretações. O estudo de Donnelly et al. (2009) foi
realizado através de um desenho de investigação longitudinal, procurando
relações entre a AF e o desempenho escolar, ao contrário dos estudos de
Castelli, Hillman, Buck, e Erwin (2007) e de Coe et al. (2006) que basearam os
seus resultados em relações entre sucesso escolar e testes de aptidão física.
Os benefícios a nível cognitivo podem ter paralelismo com os da aptidão física
nas suas diferentes componentes, que aumentam quando o exercício é realizado
com a devida intensidade e regularidade, mas que também diminuem com períodos
de inatividade. O estudo de Davis et al. (2007) indica que 20 minutos de AF
aeróbia por dia (a uma intensidade média de 150 bpm) é insuficiente para se
obterem ganhos nos processos cognitivos das crianças (foram realizados testes
cognitivos em controlo, 20 minutos dia e 40 minutos dia). As diferenças foram
encontradas nos 40 minutos dia indicando a existência de um limiar a partir do
qual há um efeito dose-resposta (Davis et al., 2007). Talvez o maior benefício
do aumento da AF seja a sua relação com as capacidades cognitivas e o
desempenho escolar. Por exemplo, no estudo de Trudeau e Shephard (2008) a AF
adicional dentro da aula de EF manteve os resultados escolares ou aumentou os
mesmos, apesar da redução do tempo em sala de aula. Da mesma forma Donnelly et
al. (2013) verificaram que o desempenho escolar melhorou com o aumento da AF
escolar.
Num estudo longitudinal, Carlson et al. (2008) acompanharam os alunos durante
todo o ensino primário registando a quantidade de tempo em aulas de EF e o
desempenho escolar em matemática e língua, concluindo que a EF não teve efeitos
adversos no desempenho escolar e que limitar a EF não só não é desejável como
pode ter o efeito oposto. De facto, o mecanismo de associação entre a AF e o
desempenho escolar envolve capacidade de concentração, memória, processamento
da informação e comportamento (Trudeau & Shephard, 2008).
Pode haver uma relação entre o efeito agudo da AF na concentração dos alunos,
mas o efeito crónico da AF vigorosa com o desempenho escolar não está ainda bem
reforçada pela ciência (Taras, 2005), não só na aptidão cardiorrespiratória
como na aptidão muscular. No sentido de encontrar relações entre capacidades
físicas específicas e o desempenho escolar em matemática e língua, Eveland-
Sayers, Farley, Fuller, Morgan e Caputo (2009) encontraram uma relação positiva
com a matemática nos testes de aptidão muscular (r = .20). No estudo de
Castelli et al. (2007), os testes de aptidão física relacionaram-se
positivamente com o desempenho escolar geral, em matemática e línguas,
sobretudo a capacidade aeróbia, enquanto o IMC apresentou uma relação negativa.
De facto não basta ter um IMC normal. A AF regular e sobretudo os níveis de
aptidão física podem ser mais importantes. Num estudo longitudinal entre o 4º e
9º ano, comparando aqueles que são fisicamente aptos com aqueles que são menos
ativos, foram encontradas diferenças nos resultados de matemática e línguas,
sendo estas diferenças maiores para as meninas. Os autores concluíram que a
aptidão física geral é um melhor preditor do desempenho escolar do que o IMC
(London & Castrechini, 2011).
O nosso estudo verificou um efeito significativo do IMC na média final (η2 =
0.02) e na classificação de EF (η2 = 0.09) mostrando que os alunos com peso
normal tiveram melhores classificações que os alunos com sobrepeso (p < 0.05).
De facto, o sobrepeso em crianças tem sido relacionado com menor desempenho
escolar (Dwyer, Sallis, Blizzard, Lazarus, & Dean, 2006; Taras & Potts-
Datema, 2005). Outro fator que pode ajudar na magnitude deste efeito é também a
menor participação dos alunos com sobrepeso na prática de AF. Os alunos
participam menos e as suas classificações são mais baixas.
Além dos problemas associados já referenciados, o sobrepeso e obesidade em
crianças estão inversamente associados com resultados em testes de Inteligência
(QI) e desempenho escolar. Exemplo disso são os estudos de: Campos, Sigulem,
Moraes, Escrivão e Fisberg (1996), onde crianças obesas obtiveram resultados
inferiores nos testes de QI do que crianças com peso normal com diferenças nos
testes de QI (85 vs 91, respetivamente), além de que as últimas demonstraram um
leque de interesses mais vasto que as crianças obesas, melhor capacidade de
socialização e maior destreza; o estudo de Li (1995) onde crianças com
obesidade severa obtiveram resultados inferiores no teste de QI que crianças
com peso normal; e a revisão realizada por Taras e Potts-Datema (2005) onde
reforçaram as evidências atualizadas da relação inversa do sobrepeso e
obesidade com o desempenho escolar.
Outra explicação possível para estes resultados inferiores face às populações
com peso normal, pode ter a ver com a função executiva, que pode estar
comprometida no indivíduo com sobrepeso devido à falta de AF. A função
executiva diz respeito ao desenvolvimento e aplicação de estratégias, auto
regulação, intencionalidade, e utilização do conhecimento e desenvolve-se desde
a infância até a adolescência (Best, 2010). A este propósito, Davis et al.
(2007) indicaram uma relação direta entre AF vigorosa regular e a função
executiva em crianças, aduzindo que 40 minutos por dia de AF aeróbia vigorosa
resultam numa maior capacidade de habilidades de organização entre crianças
obesas. Este aumento da capacidade da função executiva pode permitir a estas
crianças aprender mais rapidamente a curto prazo.
Apesar de haver apenas um efeito positivo na média final e na classificação de
EF, a tendência global de todas as classificações é ser menor neste grupo do
que no grupo normoponderal. Além disso, na atitude face ao sucesso escolar,
apesar da prevalência entre os indivíduos com sobrepeso ter sido passar de ano
com boas notas, temos quase 20% do grupo que indica que basta passar de ano
independentemente de ter ou não boas notas (p < 0.01). Uma vez que a AF aumenta
a socialização, promove a função executiva e reduz a depressão, parece razoável
considerar que a mesma possa trazer benefícios ao desempenho escolar (Landry
& Driscoll, 2012).
Vista de outra forma, é possível não dizer que a prática de AF está diretamente
relacionada com o sucesso escolar, mas é possível confirmar que a mesma tem
impacto positivo no combate à obesidade e que esta tem impacto positivo no
sucesso escolar (Donnelly et al., 2013).
CONCLUSÕES
De acordo com os objetivos enunciados e das análises realizadas observamos que
os meninos apresentaram níveis de prática de atividade física e atividade
desportiva federada superiores às meninas havendo um aumento da prevalência dos
níveis de atividade física com o aumento da idade. Verificou-se também que os
alunos com sobrepeso apresentaram níveis inferiores de prática de atividade
física quando comparados com os alunos com peso normal ou magros.
Relativamente ao IMC, a amostra estudada apresentou uma prevalência de
sobrepeso de 25.3%, maior no sexo masculino (27.8%) que no feminino (22.9%),
aumentando esta com a idade.
Relativamente à perceção de sucesso escolar e fatores influenciadores, a maior
parte dos alunos (81.8%) considerou que o sucesso escolar é passar com boas
notas, destacando-se uma maior prevalência de meninas com esta perceção face ao
sucesso escolar. Neste contexto verificou-se que os alunos com esta atitude
face ao sucesso escolar revelaram maiores níveis de prática de atividade física
havendo maior prevalência de alunos com peso normal com esta perceção face ao
sucesso escolar.
Relativamente ao rendimento escolar verificamos que o rendimento a EF está
relacionado positivamente com o rendimento a língua portuguesa e matemática,
assim como a níveis superiores de prática de atividade física. A prática de
desporto federado tem relação positiva com o rendimento escolar média final e
EF em todo o grupo e relação positiva com o rendimento escolar a língua
portuguesa nas meninas. Verificamos também um efeito do IMC no rendimento
escolar na média final e em EF, onde os alunos com sobrepeso têm um rendimento
escolar inferior.
Face aos resultados consideramos a prática de atividade física, além de
catalisador de níveis de IMC mais baixos, um fator com influência positiva no
rendimento escolar em alunos dos ensinos básico e secundário.