Cenários da diversidade: variedades de capitalismo e política industrial nos
EUA, Alemanha, Espanha, Coreia, Argentina, México e Brasil (1998-2008)
APRESENTAÇÃO
O artigo que se segue dispõe de três seções. Na primeira, discorremos sobre as
formulações de Hall e Soskice (2001) em relação às variedades de capitalismo,
com as retificações propostas na pesquisa Estudo comparativo de política
industrial: as trajetórias do Brasil, Argentina, México, Coreia do Sul, EUA,
Espanha e Alemanha1. A partir daí, é apresentado um quadro comparativo dos
países indicados acima, considerando os diferentes domínios
institucionaispresentes nas variedades de capitalismo. Na segunda seção são
apresentadas as principais definições de política industrial dos países em
tela, desde 1998 até 2008. Por fim, nas considerações finais, busca-se avaliar
as medidas de política industrial pertinentes ao ambiente institucional
brasileiro, bem como as potencialidades de mudança sugeridas pela análise
realizada.
No limite, sugere-se que o sucesso da indústria dos diferentes países em
atividades de inovação tecnológica está associado à redução da incerteza
proporcionada às firmas, no âmbito de determinados ambientes institucionais,
para os investimentos em inovação. Importa assinalar, contudo, que isto não
implica a presença de um conjunto de instrumentos universais, tomados como as
melhores práticas,assimiláveis por qualquer país. De fato, a redução da
incerteza é proporcionada por mecanismos de indução às atividades inovativas
adequados a diferentes configurações institucionais, neste artigo consideradas
a partir de indicações sugeridas pela abordagem sobre as variedades de
capitalismo.No caso brasileiro, salienta-se que o predomínio de traços liberais
nos domínios interativos que emolduram a relação entre as firmas e o mundo do
trabalho (relações industriais, atividades de qualificação, relações entre as
direções e os empregados) favorece a utilização das compras governamentaiscomo
mecanismo por excelência para a redução da incerteza. Todavia, o peso do legado
corporativo ' conquanto incapaz de dotar as organizações de empresários e
trabalhadores de condições para assegurar sua lealdade a pactos mais
abrangentes ' permite vislumbrar reformas que acentuem a propensão a processos
de redução da incerteza que envolvam maior colaboração entre os atores
presentes no mundo da produção, bem como destes com o Estado, para atividades
de inovação.
DOMÍNIOS INSTITUCIONAIS DAS VARIEDADES DE CAPITALISMO
Os anos que se seguiram às crises da Coreia e do Brasil, em 1998, foram
marcados pela perda de fôlego da crença, predominante desde o início da década
de 1990, segundo a qual os sinais e mecanismos de mercado são condição
suficiente para o desenvolvimento. Emerge, com isto, uma vasta literatura que
busca salientar a diversidade de trajetórias seguida pelos países capitalistas,
em contraste com a perspectiva que apontava, no rastro dos processos de
globalização, uma tendência crescente à convergência. Neste sentido, dimensões
como financiamento, relações industriais, sistemas de qualificação, mecanismos
de governança e coordenação entre as firmas, Estado, padrões de competição,
sistemas de bem-estar, de forma dedutiva ou indutiva, passaram pelo escrutínio
de diversas análises que, em boa medida, preocuparam-se em identificar tipos
diferentes de capitalismo (Hall e Soskice, 2001; Hollingsworth e Boyer, 1997;
Whitley, 1999; Amable, 2003; Schneider, 2008)2. Não é o que se pretende aqui.
Apesar da importância das tipologias associadas a tais abordagens, nosso
objetivo é identificar os ambientes institucionais que envolvem a operação das
empresas nos países focalizados, tomando as formulações de Hall e Soskice como
recurso heurístico, de modo a perceber determinados padrões de política
industrial e as potenciais respostas das empresas a ela. No limite, o que se
pretende é, comparando diferentes configurações nacionais, identificar o que é
pertinente ao ambiente institucional brasileiro, bem como as possibilidades de
mudança que este encerra, no sentido de tornar mais efetivas as medidas de
política industrial.
De todas as formulações associadas à ideia de variedades de capitalismo, ao
brade Halle Soskice dispõe de relevo especial para os estudos de política
industrial por colocar no centro de sua análise as firmas e o modo como
enfrentam seus dilemas de coordenação. Políticas industriais buscam,
fundamentalmente, criar estímulos ao investimento privado, para objetivos
diversos (emparelhamento, inovação, promoção do emprego), por meio da alteração
dos preços relativos e da redução da incerteza quanto ao retorno de tais
investimentos. Definida a política, espera-se que seja acompanhada de um
conjunto articulado, ainda que descentralizado, de decisões de investimento
capazes de provocar efeitos que atendam aos seus objetivos (Delgado, 2005,
2009; Suzigan e Furtado, 2005; Castro, 2002; Chang, 1994). As firmas, contudo,
tomam suas decisões em ambientes institucionais diferenciados. As formulações
de Hall e Soskice fornecem pistas para a identificação dos elementos centrais
de tais ambientes. Em sua versão original, são apontados cinco domínios
interativosrelevantes para a estratégia empresarial, que tendem a se reforçar
mutuamente (Hall e Soskice, 2001). A governança corporativa, ao lado dos
vínculos entre as empresas e as finanças, é a primeira destas dimensões. Três
domíniosreferem-se a diferentes esferas do mundo do trabalho, a saber, questões
ligadas à qualificaçãoda mão de obra, às relações industriaise à relação das
firmas com seus empregados. Por fim, dilemas de coordenação aparecem também nas
relações interfirmas, associadas aos elos entre fornecedores e clientes3.
Hall e Soskice destacaram dois padrões polares deinteração estratégica das
empresas, num espectro em que formas mistas também podem aparecer. Tais tipos
são as economias de mercado liberais, em que prevalecem processos de
coordenação guiados pelos mecanismos de mercado (os EUA são o paradigma), e
aseconomias de mercado coordenado, em que prevalece a concertação entre os
diferentes atores envolvidos (a Alemanha é o paradigma). Em cada um destes
casos, desenvolvem-se vantagens institucionais comparativasque estimulam o
apego das empresas às formas de interação predominantes.
No que se refere às atividades de inovação, a abordagem sobre as variedades de
capitalismosugere que as formas liberais favorecem a ocorrência mais acentuada
de inovações radicais, ao passo que as formas coordenadas favorecem a
ocorrência de inovações incrementais4. As primeiras seriam mais afeitas aos
fast-moving technology sectors, que envolvem designligeiro e desenvolvimento
rápido de produtos e processos, como a biotecnologia, semicondutores, software,
vinculando-se, ainda, à provisão de componentes para outros setores, como
telecomunicações, dispositivos operacionais do sistema financeiro, defesa e
lazer (cf. ibid.). A estratégia competitiva das firmas estaria relacionada à
capacidade de correr riscos com novos produtos, bem como à implementação
rápida. Além dos padrões de financiamento e de governança corporativa, tal
estratégia é favorecida pelas relações entre as firmas e o mundo do trabalho,
marcadas pelo predomínio do mercado e não da concertação que, embora não
conduzam à cooperação para ações inovativas, estimulam a disposição de largar
na frentena disputa de mercados, com produtos novos devidamente protegidos pelo
segredo industrial, desenvolvidos por laboratórios em geral dissociados e
protegidos do ambiente do chão da fábrica e da relação com outros atores, ou,
ainda, por novas gerações de empresários. Novidade e preço são os elementos
fundamentais da estratégia competitiva.
Asinovações incrementais, por seu turno, estariam mais associadas à produção de
bens de capital, como máquinas e equipamentos industriais, bens de consumo
duráveis, artefatos e equipamentos de transporte (id.). Neste caso, o que se
busca é a introdução de inovações que aperfeiçoem a qualidade de uma linha de
produção já estabelecida, de modo a garantir a lealdade do consumidor, além de
assegurar a redução progressiva dos custos. A sugestão é que as formas de
financiamento e os padrões de governança corporativa das formas coordenadas
seriam mais afeitas a este esforço, uma vez que permeáveis às estratégias de
longo prazo e à cooperação entre as firmas e outros atores relevantes, como
institutos de pesquisa e universidades. Ademais, a relação das firmas com o
mundo do trabalho, baseadas na cooperação contínua e na confiança recíproca,
predispõem à busca permanente de aperfeiçoamento na produção, embora não
favoreçam o segredo industrial. Há pouco espaço para o aparecimento continuado
de novas gerações empresariais. Qualidade e lealdade do consumidor são os
elementos-chave da estratégia competitiva5.
A abordagem sobre as variedades de capitalismoassinala que as políticas
públicas tendem a ser igualmente afetadas pelas características do ambiente
institucional (id.)6. Assim, nas formas liberais o predomínio do mercado nos
processos de coordenação tornaria as empresas mais sensíveis a incentivos
propriamente financeiros, ao passo que, nas formas coordenadas a presença de
associações vigorosas, capazes de assegurar a lealdade de seus membros para
ações concertadas, favorece o desenvolvimento de disposições cooperativas por
parte das empresas sem que o impacto sobre os custos seja tomado como a
variável mais importante. No limite, diversos instrumentos de política
industrial e tecnológica são usados indiferentemente por todos os países, porém
nas formas liberais os incentivos fiscais e subsídios tendem a dispor de maior
relevância, além de políticas como as comprasgovernamentais, que permitem a
redução da incerteza nos investimentos privados, por intermédio de mecanismos
de mercado. Nas formas coordenadas é mais provável que prosperem programas de
cooperação entre as empresas, e destas com o Estado, para o alcance de
determinadas metas, não obstante a ocorrência de incentivos financeiros
imediatos.
Temos lidado, como dito no início deste artigo, com a abordagem sobre as
variedades de capitalismo como um instrumento heurísticopara identificar, a
partir as dimensões interativas apontadas acima, diferentes configurações
nacionais, tomadas não como estruturas holísticas, estáticas, mas, tão-somente,
como ambientes derivados de escolhas efetuadas em condições determinadas, que
geram incentivos para o apego dos atores sociais à sua permanência, porém
abertos à mudança, notadamente em situações de crise, a partir da orquestração
de coalizões, que podem estabelecer novas configurações7(Delgado, 2009; Delgado
et alii,2009a; Gourevitch, 1986). Ademais, adicionamos à formulação original
oEstado e a inserção das economias nacionais no mercado mundialcomo domínios
interativos de relevo para a operação das firmas (Delgado et alii, 2009a;
2009b). De fato, o Estado é uma instituição decisiva ao enforcementdos
elementos que compõem o ambiente em que tal operação se realiza, qualquer que
seja a variedade de capitalismo,assim como as políticas desenvolvidas por seus
titulares e agências afetam de forma crucial as decisões empresariais (Polanyi,
1980; Offe e Ronge, 1984; Hancké, Rhodes e Thatcher, 2007; Schmidt, 2006). Além
disto, o gasto público, mesmo nas formas liberais, é fundamental nas
configurações da demanda e da estrutura do mercado8. Por seu turno, as firmas
operam em ambientes econômicos nacionais mais ou menos abertos, mais ou menos
protegidos, além de localizados em posições centrais, periféricas ou
semiperiféricas da economia mundial, conforme a presença de atividades
econômicas que encerram maior potencial inovativo, o que torna decisivo para as
estratégias empresariais a inserção internacional das economias nas quais estão
sediadas as firmas9(Arrighi, 1997).
Nas Tabelas_1 e 2 apontamos alguns elementos considerados para a caracterização
da indústria e das modalidades de inserção internacional das economias dos
países focalizados. Merece destaque a importância do mercado interno na
economia norte-americana, tão fechada quanto a brasileira. Todavia, sua enorme
magnitude permite que o setor externo do país, mesmo que reduzido em relação ao
Produto Interno Bruto (PIB), disponha de uma participação expressiva no
comércio internacional. Do mesmo modo, embora as atividades de maior teor
tecnológico apresentem, nos EUA, uma participação inferior às reveladas por
Alemanha e Coréia do Sul, a dimensão superlativa da economia norte-americana
mantém o país com destaque no domínio das atividades intensas em tecnologia, o
que se atesta pelo peso de que dispõem os indicadores de inovação tecnológica
(peso dos gastos com inovação em relação ao PIB e participação das empresas
nestes gastos), inferiores, apenas, aos da Coreia do Sul e Alemanha. Esta
última, pela dimensão do PIB, pela presença dos setores de maior intensidade
tecnológica e pela capacidade de inovação, compõe, junto aos EUA, o grupo das
economias centraisdentre os países focalizados. A Espanha aproxima-se de tal
condição, pela dimensão de seu PIB e pela importância das manufaturas nas
exportações. Aparece, contudo, em posição intermediária no que se refere à
presença de setores de maior intensidade tecnológica. Seu desempenho nas
atividades de inovação é pouco maior que o brasileiro e muito distante do
evidenciado pelos EUA, Alemanha e Coreia do Sul. Esta, com uma economia aberta
e protegida, dispõe de um PIB que evidencia seu deslocamento das posições
ocupadas por Brasil, México e Argentina, apresentando indicadores relativos à
presença de setores de maior intensidade tecnológica, participação das
manufaturas na produção industrial e capacidade de inovação que sinalizam para
uma trajetória acelerada rumo às posições centrais10. México e Brasil ocupam
posições intermediárias, embora o Brasil revele desempenho na capacidade de
inovação ligeiramente superior ao do México11. Por fim, a Argentina apresenta
indicadores, relativos à presença de setores de maior intensidade tecnológica e
de manufaturas nas exportações, que apontam para um processo de crescente
periferização.
Consideremos, pois, como os diferentes domínios institucionais apontados acima
se apresentam nos países em análise.
Nos EUA predomina o mercado de capitais no financiamento das empresas, ao lado
de padrões de governança corporativamarcados pelo controle das gerências sobre
a gestão, no âmbito de um padrão pulverizado de propriedade acionária
(Abelshauser, 2005; Gourevitch e Shinn, 2005; Aldrighi, 2003; Novaes, 2004;
Rabelo e Silveira, 1999; Guimarães, 2007). Nas relações industriaisprevalecem
os contratos precários e atomizados, e sindicatos, em geral, frágeis. É
reduzida a participação das empresas nos esforços de qualificação, que ficam
sob responsabilidade dos indivíduos no mercado, ou do Estado, na educação
genérica formal. É também reduzida a colaboração entre empresas e seus
empregadospara esforços de qualificação ou inovação. Esforços de cooperação
entre as firmas têm alcance pequeno, prevalecendo mecanismos de coordenação por
meio do mercado (Ramos, 2008; Rocha, 2007; Itiro, 2003; Dufovsky e Dulles,
2004; Clark et alii, 2002). As relações entre empresários e Estadonão dispõem,
da mesma forma, de caráter concertado, realizando-se, num cenário pluralista,
por meio da prática de lobbies, pelos quaisasempresasbuscamposiçõesdeforça na
definiçãode medidas regulatórias e na negociação de contratos com o Estado,
cujos gastos têm papel decisivo na dinamização da economia e mesmo no
desempenho das firmas no que se refere à inovação tecnológica (Dahl, 1968;
Jenkins-Smith e Sabatier, 1993; Lehmbruch e Schmitter, 1982; Schmitter e
Streeck, 1999; Santos, 2008). Os EUA são a economia hegemônicana ordem mundial,
com presença expressiva no comércio global, embora o mercado interno seja o seu
mais importante fator de dinamismo (Delgado et alii, 2009a).
Na Alemanha, apesar de alterações importantes ocorridas nos últimos anos, os
bancos são ainda decisivos no financiamento da produção industrial, com
participação elevada na propriedade das empresas, que exibem uma estrutura de
propriedade concentrada e padrões de governança marcados pela articulação entre
diferentes agentes envolvidos no processo produtivo (Abelshauser, 2005;
Guimarães, 2006; 2007; Novaes, 2004; Gourevitch e Shinn, 2005; Srour, 2005;
Gerolomano et alii, 2008). As relações industriais na Alemanha reforçam este
padrão, com contratos de longa duração, negociados com sindicatos fortes e
associações empresariais que desempenham papéis abrangentes, seja na barganha
coletiva, seja em esforços de qualificação e inovação tecnológica. A prática da
concertação estende-se à relação das empresas com seus funcionários, que
participam de forma expressiva da gestão das firmas e de iniciativas para
qualificação e inovação (Ebbinghaus e Visser, 2000; Kuckulentz, 2007). Os elos
entre os empresários e o Estado, por seuturno, num cenário neocorporativo, são
mediados pelas associações, em múltiplos canais de intermediação (Lehmbruch e
Schmitter, 1982; Schmitter e Streeck, 1999; Guimarães, 2006; 2007a). A Alemanha
exibe uma economia aberta, com poucas restrições à importação, tecnologicamente
dinâmica, embora sejam de pequena expressão os segmentos industriais ligados ao
paradigma microeletrônico (Delgado et alii, 2009a).
Na Espanha, o autofinanciamentoaparece com destaque nas opções das empresas, em
consonância com uma estrutura de governançaemque é relevante o controle
familiar das firmas, marcadas pela grande concentração da propriedade (Puga,
2002; Minguez e Martin, 2003; Leal e Camuri, 2008; Domingo et alii, 2004;
Cestona et alii, 2005; Pérez de Lema, 2004). A flexibilização crescente dos
contratos de trabalho nas relações industriaistem reduzido o peso dos
sindicatos, inibido disposições de colaboração entre as firmas e seus
empregados, alémdedeixar pouco espaço para ações coordenadas de qualificação e
inovação, apesar do crescimento das iniciativas de cooperação entre as firmas '
cujo foco não tem sido, contudo, voltado para aqueles intentos ', bem como dos
programas públicos de qualificação (Serrano et alii, 2007; Ebbinghaus e Visser,
2000; Rozicki, 1997). Os elos entre empresas e Estadona Espanha seguem um
padrão corporativo marcado pela forte influência de vínculos familiares entre
elites políticas e burocráticas e proprietários das empresas (Schmidt, 2006;
Cabrera e Del Rey, 2007) A economia do país, apesar do PIB per capitaelevado,
tem revelado baixa presença de setores de alta tecnologia em sua estrutura
industrial, abertura comercial e participação no comércio
internacionalmedianas, compoucasrestriçõesàsimportações (Delgado et alii,
2009a).
No caso da Coreia do Sul, os bancos públicos são decisivos no financiamentoda
indústria. A estrutura concentrada da propriedade na neste país é acompanhada
do controle familiar dos grandes conglomerados, num modelo de governança
corporativa hierárquico em que é reduzida a participação de acionistas e
trabalhadores (Cho e Kim, 2007; Novaes, 2004; OECD, 2003a). Os contratos de
longa duração, que são uma das marcas das relações industriaisna Coreia do Sul,
não resultam da concertação entre empresas e sindicatos, em geral fracos e
atomizados, acarretando um padrão de cooperação entre empresas e seus
funcionários assimétrico, mas com forte identificação dos trabalhadores com as
empresas. Estas se envolvem em atividades de qualificação e recrutam
funcionários para ações inovativas, mas deixam pouco espaço para a presença dos
mesmos na gestão (Verma et alii, 1995; Choong-Young, 1998; Kim, 2005). Relações
de cooperação interfirmas são comunsno âmbito dos chaebols e entre estes e
firmas estrangeiras, mas o Estado impõe rígidos limites para que a cooperação
resulte em transferência de tecnologia, ao lado do desenvolvimento de
capacidade de inovação endógena. A relação do Estado com o empresariado
realiza-se via contatos diretos com os chaebols e a federação industrial que
controlam, e tem sido marcada pela forte disposição indutiva do primeiro,
embora a consolidação dos chaebols tenha acentuado sua autonomia (Graham, 2003;
Guimarães, 2007b; Haggard, Lim e Kim, 2003). A Coreia do Sul é uma economia
fortemente integrada ao mercado mundial,mas protegida, revelando grande
capacidade de inovação tecnológica (Delgado et alii, 2009a).
Na Argentina, os bancos cumprem papel importante no financiamentodas
indústrias, embora não disponham de peso expressivo na propriedade das
empresas, a exemplo da Alemanha. O autofinanciamento e os recursos externos
são, também, expressivos. O conglomerado familiar sempre teve papel importante
na organização das empresas, cujo modelo de governança corporativasegue o
padrão latino-americano, com acentuado controle familiar da gestão, embora
tenha se elevado a presença de controladores estrangeiros na estrutura
industrial do país (OECD, 2003a; Leal e Camuri, 2008; Schneider, 2008; Kantis
et alii, 2005) As relações industriaissão marcadas pelo predomínio do contrato
individual e precário, em meio à sobrevivência da estrutura sindical
corporativa e importante papel regulador do Estado (Diniz, 2006; Rozicki, 1997;
Palomino e Trajtemberg, 2006). São pouco comuns ações de colaboraçãoenvolvendo
as firmaseseusempregados, que, via de regra, estão ausentes da gestão das
empresas. As relações entre Estado e empresáriosseguem o padrão corporativo
presente em vários países latino-americanos, com tendência à acentuação de
mecanismos pluralistas (Schneider, 2004). A economia argentina é medianamente
abertae pouco protegida, com reduzida presença de setores de alta tecnologia e
baixa capacidade de inovação (Delgado et alii, 2009a).
No México destaca-se o autofinanciamentodas empresas, embora seja crescente a
participação do capital externo. O controle familiar, na governança
corporativa, acompanha um padrão de propriedade industrial bastante
concentrada, no âmbito do conglomerado familiar, que predomina, ao lado das
multinacionais, na estrutura industrial do país (Puga, 2002; OECD, 2003; Leal e
Camuri, 2008; Novaes, 2004). Contratos individuais e precários são crescentes,
junto a uma estrutura sindical que tem adquirido perfil pluralista, o que
revela um processo crescente de americanização das relações industriais
(Bensusán, 2003; 2007; Ramos, 2008; Rozicki, 1997; OCDE, 2006; Medina, 2003).
Apesar de associações empresariais fortes, são escassas as experiências de
colaboração entre as firmas(Schneider, 2004). Do mesmo modo, não obstante as
disposições legais que buscam estimular as empresas nas atividades de
qualificação, a importância destas e do Estado é reduzida para o alcancedeste
objetivo. Os trabalhadores, por seu turno, estão, de maneira geral, ausentes
das esferas de gestão das empresas, que mantêm com seus empregados relações em
que têm pouca incidência ações colaborativas. Padrões corporativos de
articulação com o Estado subsistem nas relações entre as empresas e o poder
público, embora com reforço da diversidade na representação de interesses do
empresariado, num cenário de acentuação do pluralismo (Schneider, 2004;
Carvalho, 1997). O México é uma economia aberta, que ostenta níveis elevados de
proteção, exceto para os países que compõem o Tratado Norte-Americano de Livre
Comércio (NAFTA), destino da maior parte de suas exportações, pouco
diversificadas. É importante a presença de setores de alta tecnologia na
indústria mexicana, embora concentrada em alguns setores, mas reduzida a
capacidade inovativa de suas empresas (Delgado et alii, 2009a).
No Brasil predominam o autofinanciamento e os bancos públicos, no financiamento
das empresas, não obstante a expansão do mercado de capitais. Prevalecem os
conglomerados familiares entre as grandes empresas nacionais, mas é expressiva
a presença de empresas estrangeiras. A propriedade é concentrada, e na
governança corporativa destacam-se o controle familiar e pequena participação
de acionistas e funcionários (Fontes Filho e Picolin 2008; OECD, 2003b; Leal e
Camuri, 2008; Novaes, 2004; Gerolomano et alii, 2008). Nas relações industriais
o contrato individual predomina, em meio à presença do Estado na regulação de
direitos individuais do trabalho (Lobo, 2010; Werneck Vianna, 1976). O
corporativismo sindical, que rege as organizações patronais e de trabalhadores,
convive com a crescente diversificação da estrutura de representação de
interesses (Diniz e Boschi, 1979; 1993; Leopoldi, 2000; Delgado, 1997). São
escassas as ações decolaboração entre empresas e empregadospara inovação e
qualificação, efetuada por agências semipúblicas, que oferecem formação
profissional elementar, ao lado da formação geral, garantida pelo Estado. Ao
lado das relações hierárquicas, no interior dos conglomerados familiares,
iniciativas para acolaboração entre as firmas têm sido estimuladas pelo Estado,
como os fóruns de competitividade, envolvendo os segmentos das cadeias
produtivas dos setores, além do apoio a clusters e arranjos produtivos locais,
mas seu impacto ainda é pequeno. A relação Estado-empresariado no Brasil tem se
efetuado por uma multiplicidade de canais, pluralistas e corporativos, sendo
que os últimos, esvaziados na década passada, retomaram sua importância.
Todavia, eles têm servido pouco à orquestração de ações concertadas (Mancuso,
2004; Diniz e Boschi, 1993; Delgado, 2005). Dotado de vigoroso mercado interno,
a economia brasileira tem se mantido relativamente fechada, com níveis ainda
elevados de proteção, sem superar as deficiências de sua capacidade de inovação
tecnológica (Delgado et alii, 2009a).
O Quadro_1 a seguir, apresenta uma síntese da caracterização dos domínios
institucionais das variedades de capitalismo, nos países em análise, com as
retificações que sugerimos às formulações de Hall e Soskice.
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POLÍTICA INDUSTRIAL: OBJETIVOS E INSTRUMENTOS
A criação de condições para o desenvolvimento de empresas dotadas de capacidade
inovativa tem sido apontada como o principal objetivo das modernas políticas
industriais. Neste sentido, elas distanciam-se das políticas que buscam tão-
somente corrigir falhas de mercado, bem como daquelas orientadas para a
equiparaçãode países atrasados aos padrões econômicos e tecnológicos presentes
nas economias que ocupam posições centrais na economia mundial12.
Políticas industriais orientadas para a correção de falhas de mercado estão
vinculadas a modalidades de intervenção estatal ex post, destinadas à
instauração de situações de equilíbrio prejudicadas pela ocorrência de
problemas como a produção de bens públicos, externalidades, informações
imperfeitas, registradas pelo sistema de preços. O problema aqui é a
impossibilidade de definir ações orientadas para a mudança, uma vez que
situações de equilíbrio podem se verificar em estágios incipientes de
desenvolvimento econômico e tecnológico, ao passo que políticas industriais
orientadas para a mudança pretendem exatamente romper com tais situações de
equilíbrio rebaixado, exigindo formas de coordenação ex ante(Delgado, 2005;
2009; Suzigan e Furtado, 2005).
Políticas industriais orientadas para processos de equiparação buscam
fortalecer ou internalizar atividades econômicas que dispõem de pequena
relevância nos países de desenvolvimento retardatário, reconhecidas como
fundamentais à dinâmica econômica moderna, identificada àquela que se processa
nas economias capitalistas centrais. Seus mecanismos foram, classicamente, a
adoção de tarifas protecionistas, crédito subsidiado, indução pública do
investimento, de modo a assegurar a edificação de setores industriais inteiros,
por via da alteração dos preços relativos e da redução da incerteza dos
investimentos privados. O problema a considerar é se tais políticas são
adequadas à elevação da competitividade em escala global, associada à redução
da proteção dispensada aos mercados internos nacionais e elevação da mobilidade
internacional dos capitais.
Neste cenário é que a elevação da competitividade das empresas, a partir da
acentuação de sua capacidade de inovar, ganha relevo. Mesmo tomando a inovação
em um sentido amplo ' isto é, envolvendo novas combinações de modo a gerar
produtos e processos diferenciados, sem, necessariamente, associar-se à criação
de uma nova tecnologia ', a acentuação da capacidade de inovação das firmas é
inseparável da elevação dos dispêndios em pesquisa e desenvolvimento e de sua
capacidade de gerar internamentenovas combinações, a partir de conhecimentos
amplamente disponíveis e daqueles que acumula em sua própria experiência e
trajetória.
O dilema da ação estatal é, pois, não só criar as condições adequadas para a
inovação, no sentido da expansão e da formação de recursos e da infraestrutura
necessárias a esta, mas também definir os estímulos adequados a cada contexto
para que as diferentes empresas venham a se valer dos recursos humanos e da
infraestrutura de inovação, estabelecendo a atividade inovativa como parte de
sua estratégia competitiva (Delgado, Condé, Ésther e Salles, 2009a). Ademais,
cabe ao Estado desenvolver ações antecipadoras, que fortaleçam setores e
atividades expressivos das tendências mais recentes e futuras do
desenvolvimento tecnológico, de modo a evitar a exigência da busca perene do
emparelhamento, combinando, pois, ações horizontais e seletivas. Se a formação
de recursos humanos e a criação de uma infraestrutura adequada à inovação são
indispensáveis para que esta possa vir a se processar de forma generalizada, o
desenvolvimento de determinados setores é indispensável também para isto, ou
mesmo para a perspectiva de ocupação de posições competitivas no futuro, como é
o caso, respectivamente, do setor de informática ou da nanotecnologia. Por fim,
em que pese a centralidade da inovação como objetivo das políticas industriais,
não pode o Estado deixar de lado outros objetivos, como o crescimento
econômico, a preservação do nível de emprego, a sustentabilidade ambiental do
desenvolvimento.
O desenvolvimento das modernas políticas industriais exige, ainda, mais duas
condições complementares. A primeira é a presença de formas de articulação
entre o Estado e o empresariado que assegurem a fixação de metas, a colaboração
e a confiança recíprocas para a condução efetiva das políticas industriais
(Evans, 1993; Delgado et alii, 2009b). A segunda é a preservação da
estabilidade institucional, de marcos regulatórios favoráveis às inversões
privadas e a presença de um ambiente macroeconômico pró-investimento. Não se
trata, aqui, importa ressaltar, de estabelecer formas precárias de contratação
da força de trabalho para assegurar o crescimento econômico, correlação baseada
numa crença repetida à exaustão no fim do século passado. Na verdade, o
contrário é que tende a prevalecer, quando se trata de combinar crescimento
econômico com aumento da capacidade de inovação das empresas (Delgado et alii,
2009a; 2009e). Trata-se de garantir condições institucionais e macroeconômicas
para assegurar estímulos ao investimento e certa imunidade das economias
nacionais diante das flutuações derivadas da intensa mobilidade internacional
dos capitais, além de mecanismos que assegurem a participação de diferentes
atores no processo de inovação.
Abaixo apresentamos as proposições de política industrial e de inovação, de
caráter geral, levadas adiante pelos países considerados neste estudo.
Estados Unidos
Nas políticas industriais desenvolvidas pelos EUA, é notável a ênfase na
regulação do direito de propriedade. O Estado participa, ainda, no
financiamento da pesquisa em diversas áreas, com destaque para o setor militar
e de energia13. As compras governamentais, contudo, aparecem como instrumento
decisivo da política industrial. Embora não exclusivo das economias liberais,
tal instrumento é, de fato, a principal forma liberal de intervencionismo
estatal, que se realiza por meio de mecanismos de mercado, na ausência de
condições favoráveis à coordenação entre os agentes econômicos por via de
arranjos de natureza institucional.
Os EUA sempre desempenharam um papel de grande importância na produção
científica e tecnológica, sobretudo pelos gastos governamentais, nas
universidades e nas empresas. Ainda que hoje sob forte concorrência, dado o
papel desempenhado no campo tecnológico por Coreia do Sul, Alemanha e China, os
EUA permanecem entre os países líderes. O grande investimento tecnológico
realizado pelas empresas é o destaque, mas as administrações federais não são
passivas. O Instituto Nacional de Standards e Tecnologia (NIST) tem um
importante papel por ser uma agência federal que opera junto ao Departamento de
Comércio. Ele possui laboratórios, um programa nacional de qualidade, uma rede
nacional de apoio para pequenas indústrias e um programa de inovação
tecnológica (TIP), este no apoio a indústrias, universidades e organizações de
pesquisa sem fins lucrativos, com valores importantes de investimento. Em
resumo, um tripé importante: as empresas, os fundos de investimento em P & D
do governo central e a ênfase no tema do "ambiente adequado", a exemplo das
patentes e a definição de nítidos marcos regulatórios, como o incentivo às
empresas.
O documento Tecnologia para o Crescimento Econômico da América ' Uma Nova
Direção para a Construção do Fortalecimento Econômico(1993), sob o governo
Clinton, é uma importante referência de orientação geral sobre políticas de
inovação e tecnologia. Seu objetivo é incrementar a competitividade para o
crescimento da indústria, dos trabalhadores e consumidores, promover inovação e
competitividade industrial, defender a propriedade intelectual e manter a
liderança em tecnologia, ciência e matemática. Defende o fortalecimento da
ciência básica e a ampliação do papel dos laboratórios estatais, sob
fiscalização do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (NSTC). O intento é
fortalecer as relações com o setor privado, incluindo o investimento em alta
tecnologia, redesenhando o papel do investimento federal em P & D e ampliando
o linkpesquisa-indústria.
O período de George W. Bush na Casa Branca apresentou ênfase diferenciada. O
impacto dos ataques terroristas de 2001 operou uma inflexão para algumas áreas
mais diretamente vinculadas ao rótulo de "defesa". Para o orçamento de 2002
foram incluídos gastos de US$1, 5 bilhão para a luta contra o bioterrorismo e a
defesa doméstica, com todas as agências ligadas a P & D recebendo recursos
adicionais (US$103 bilhões de gasto federal total). A preocupação
antiterrorismo incentivou iniciativas nacionais de ciência e tecnologia, como a
Iniciativa Nacional de Nanotecnologia, que associa dez departamentos federais
com empresas envolvidas nesta linha. As pequenas e médias empresas recebem
programas federais de Pesquisa e Inovação em Pequenos Negócios (SBIR) e da
Transferência de Tecnologia em Pequenos Negócios (SBTT). Este programa foi
reautorizado em 2008.
Os instrumentos básicos para as políticas indicam três iniciativas
multiagências: ciência em nanoescala, engenharia e iniciativa em tecnologia. A
estrutura de financiamento para a pesquisa acadêmica recebe apoio federal, mas
incentiva a competição entre os pleiteantes. Da mesma forma, há uma defesa
direta, pelo governo, de que os investimentos em pesquisa básica estejam
concentrados na Fundação Nacional de Ciência (NSF). Em 2006, é lançada a
Iniciativa para a Competitividade Americana. A maior atenção é dada ao
investimento em P & D, envolvendo as diferentes capacidades nacionais e o
incremento da produtividade pelos setores da economia. Um dos instrumentos
importantes para esta política foram as isenções fiscais para empresas
investidoras em P & D.
Os instrumentos gerais para a consecução da política científica e tecnológica
envolvem o crédito tributário e o incentivo ao investimento privado, mas também
é indicada a necessidade do investimento em professores de física, matemática e
ciências da educação e no incentivo aos programas para a competitividade e
produtividade fabril. A NSF passaria a operar como a principal agência para
promover áreas científicas.
O Departamento de Comércio desenvolveu um plano estratégico (2007-2012) neste
campo. O Programa para Administração de Tecnologia enfatiza a cooperação
interagências, como a Administração Nacional para os Oceanos e a Atmosfera
(NOOA), a Administração Nacional de Telecomunicações e Informação (NTIA,
telecomunicações e internet), o Escritório de Indústria e Segurança (BIS, para
exportação de tecnologia) e a Administração para o Comércio Internacional (ITA,
para tecnologia compartilhada). O NIST é o articulador entre agências, o setor
privado e os laboratórios de pesquisa.
Basicamente, há uma grande preocupação com o tema da propriedade intelectual,
que defende uma ação forte contra as empresas envolvidas com a "pirataria", a
capacitação de inovadores para proteger seus direitos, o trabalho juntamente
com a indústria, e a busca de apoio de parceiros comerciais dos norte-
americanos. Os republicanos são refratários a uma política industrial ativa,
preferindo que as empresas tenham seu linkcom o Estado pela via de créditos
tributários e incentivos às melhorias para a produtividade. Menos iniciativa
estatal e, enfim, mais "ambiente favorável" e pesquisa básica.
Alemanha
Os diferentes e múltiplos programas estabelecidos e desenvolvidos nos últimos
anos na Alemanha replicam várias dimensões próprias da tradição consociativa do
país, ao buscarem a articulação de institutos de pesquisa, universidades e
empresas. O governo da Alemanha tem a educação e a pesquisa como alta
prioridade, fazendo investimentos constantes e crescentes nessas áreas, com o
objetivo de aumentar a eficiência e a inovação da ciência alemã. Para o período
de 1998 a 2008, vários programas foram desenvolvidos. Em termos gerais,
observa-se que o governo alemão tem como objetivo central eliminar as barreiras
entre pesquisa pública e iniciativa privada, tornando atraentes as
transferências entre uma e outra. Para isso, o governo e as lånderdecidiram
avaliar as instituições que financiam conjuntamente a fim de assegurar e
melhorar a qualidade do sistema de financiamento da pesquisa. Ressalta-se,
nesse contexto, o papel primordial assumido pelos institutos de pesquisa e
universidades, que passam a atuar, enfaticamente, em parceria com as pequenas e
médias empresas. Paralelamente, o governo procura mais flexibilidade e
desempenho com o emprego e as estruturas de remuneração para o ensino superior
e as instituições de pesquisa não-universitárias.
No período de governo do Chanceler Gerard Schröder (1998 a 2005) alguns
programas merecem destaque. O Industrielle Gemeinschaftsforschung visa a apoiar
as PMEs'Pequenas e Médias Empresas'da ex-Alemanha Oriental, tendo a iniciativa
ZuTech ("Futuro de Tecnologias para Pequenas e Médias Empresas") para financiar
o desenvolvimento de soluções para a renovação estrutural da economia baseada
em tecnologias de maior valor, além dos Competence Centres to Support Small and
Medium-sized Enterprises (programa de três anos de consultoria e de informação,
especialmente para as PMEs no domínio do comércio eletrônico).
Em 1999, destacam-se os programas de cooperação em pesquisa
(Forschungskooperation) envolvendo as PMEs e os institutos de pesquisa. É dada,
também, continuidade ao programa FUTOUR, para promoção e apoio da tecnologia
orientada para abertura de novos negócios nas novas lånder da Alemanha. O
InnoRegio ' Innovative Stimuli for Region (InnoRegio ' Innovative Impulse für
die Region) orienta-se, do mesmo modo, para ao apoio às novas lånder. Criam-se,
ainda, redes regionais temáticas de apoio ao arranque e crescimento de empresas
inovadoras EXIST ' PUSH! (Stuttgart) e KEIM (Karlsruhe/Pforzheim).
Em 2000, o programa de financiamento Microsystem Technologies 2000 + (MST 2000
+, cuja duração abrange o período 2000-2003) foi instituído com o fito de
estabelecer uma ampla base de know-howtecnológico na indústria e na ciência.
Destaca-se, também, o PROgramm INNOvation-competence of medium-sized
enterprises (PROINNO), iniciado pelo BMWi (Ministério da Educação e
Tecnologia), que apoia a P & D e a cooperação das PMEs para a inovação de
produtos, processos e serviços.
Em 2001, destaca-se o Framework Programme Biotechnology ' Using and Shaping
Opportunities, para apoiar o programa de biotecnologia, além de recursos
disponibilizados para o National Genome Research Network. No campo da
tecnologia de informação(TI), o programado governo Innovation and Jobs in the
Information Society of the 21stCentury define o curso para a construção da
chamada sociedade baseada no conhecimento.
Em 2004, cria-se a Excellence Initiative (promoção da excelência e pesquisas
acadêmicas de alto nível em universidades), e o Pact for Research and
Innovation (aumento do financiamento institucional para as instituições
públicas de pesquisa não universitárias que recebem apoio do Governo Federal '
Max Planck Society, da Sociedade Fraunhofer, Helmholtz-Centres, Leibniz
Association ' em 3% ao ano, até 2010).
Em 2005, promove-se a expansão do programa EXIST, através da submedida, EXIST
Seed, de uma escala regional para o âmbito federal. No outono de 2005, um novo
subprograma no âmbito do programa de biotecnologia foi lançado, o EXIST Goes
Bio, que oferece financiamento para o arranque da pesquisa pública de
biotecnologia.
Devido ao aumento das despesas de P & D pelo setor empresarial, a
participação dos gastos públicos no financiamento de P & D diminuiu nos
últimos anos. O financiamento público de P & D em organizações públicas de
pesquisa tende a se deslocar para o financiamento baseado em projetos.
Consequentemente, há um vasto leque de instrumentos da política de inovação na
Alemanha, que envolvem a política fiscal, a política de concorrência, a
simplificação dos procedimentos burocráticos, além da política científica, que
prevê vários financiamentos (empréstimos, garantias, subsídios de capital) e as
medidas de sensibilizaçãoorientadasàsempresas. Como resultado, não há quase
nenhuma categoria de plano de ação sem uma medida de ação. Uma exceção notável
é a área de incentivos fiscais, que não são aplicados na Alemanha como uma
forma de estimular os investimentos de P & D das empresas.
Atualmente, o governo alemão pretende alcançar o objetivo da Agenda de Lisboa
para a União Europeia, que prevê 3% do PIB investido em P & D em 2010. Em
resumo, o governo alemão está tentando incrementar o objetivo mais amplo de
criar condições sustentáveis para fomentar a inovação e o progresso
tecnológico, especialmente para promover a capacidade inovadora das pequenas e
médias empresas. Dentre as principais políticas de apoio à inovação, destaca-se
a High-Tech Strategy do governo federal (lançado em 2006, no governo da
chanceler Angela Merkel), que é uma estratégia nacional que abrange todos os
ministérios. Estabelece estratégias para dezessete "campos de futuro" e
pretende traduzir ideias detecnologias básicas o mais rapidamente possível em
produtos comercializáveis, serviços e processos. Em fevereiro de 2008, o
governo federal lançou uma estratégia de internacionalização para atrair
pesquisadores, estudantes e investimento estrangeiro, com um forte foco em
P & D. No âmbito da Initiative for Excellence, a Alemanha está oferecendo
financiamento de projetos de apoio às escolas de pós-graduação, "clustersde
excelência" e de pesquisa de ponta nas universidades. Várias novas políticas
visam taxas de graduação superior, incluindo o Higher Education Pact 2020, e o
Qualifications Initiative.
O governo federal também está introduzindo uma nova política de inovação
contínua, sob a forma do Six Billion Euro Programme e do High-Tech Strategy.
Como um elemento importante da sua política de inovação, está investindo seis
bilhões de euros adicionais em projetos de pesquisa P & D durante este
período legislativo. Estes fundos adicionais são destinados a projetos que
prometem ter um grande efeito de mobilização para a inovação e os mercados
futuros.
Por meio do programa PROINNO II, o Ministério da Economia apoia a cooperação de
investigação cross-borderentre empresas alemãs e estrangeiras e instituições de
pesquisa. Um suporte similar está disponível para projetos realizados no âmbito
da iniciativa EUREKA para promover a inovação europeia, que inclui também os
países da União Europeia (UE).
Porfim, por via de uma série de outras medidas, que se somam à sindicadas
anteriormente, o governo alemão está reagindo ao fato de que os investimentos
em P & D por parte da indústria estão se tornando cada vez mais dependente da
evolução econômica. Os especialistas têm observado que as empresas estão se
retirando da pesquisa a longo prazo. Em vezdetomar partido de pesquisa
estratégica para a aberturade novos mercados, elas estão adquirindo novas
competências por meio da terceirização de pesquisa ou de compra de resultados
de pesquisa ' incluindo os resultados da pesquisa financiada por fundos
públicos. A pesquisa financiada publicamente, assim, torna-se mais importante.
Espanha
A Espanha reedita, a cada quatro anos, planos abrangentes sujeitos à
coordenação de conselhos intragovernamentais e abertos à cooperação com os
atores sociais relevantes na ordem econômica e nas atividades de inovação.
Prevalecem as políticas de perfil horizontal e a busca da criação de um
ambienteadequado à inovação, de efeito incerto no estímulo ao gasto privado com
inovação, não obstante os instrumentos diversos mobilizados, desde medidas de
assistência técnica, formação, incentivos fiscais, financiamento público. Os
expressivos índices de investimento e de crescimento do produto industrial
exibidos pelo país no início do século contrastam com o êxito acanhado da
política de inovação, que têm resultado num crescimento modesto das atividades
inovadoras, preponderantes em setores de menor significação econômica e, em boa
parte, lideradas pelo Estado e por residentes estrangeiros. Se é possível aí
identificar um padrão, ele só tem equivalência com o México ' também incluso
num processo de absorção crescente de sua economia nacional a um espaço mais
amplo, embora em posição de grande subalternidade ', mas, até o momento, não é
possível afirmar que dispõe de potencialidade para reverter a posição
intermediária ocupada pelo país no que se refere à inovação.
A política industrial da Espanha vem sendo desenvolvida pela Comissão
Interministerial de Ciência e Tecnologia, quando assumiu a presidência do país
José Maria Alfredo Aznar López, em 1996. O documento em
queestáconsubstanciadaapolíticaéochamado PlanoNacional I+D (Plano Nacional de
Investigação Científica Desenvolvimento e Inovação Tecnológica), que continua
sendo elaborado pelo governo atual de Zapatero (2004-). O PN original foi
criado em 1988, com a aplicação da Lei de Fomento e Coordenação Geral de
Investigação Científica e Técnica (1986) ' Lei da Ciência ' que é revisto a
cada quatro anos.
O governo espanhol entende que a competitividade internacional deve ser baseada
em áreas de grande dinamismo associadas ou baseadas no conhecimento, que geram
inovações tecnológicas, as quais devem, de forma rápida e eficiente, ser
convertidas em produtos comercializáveis. Além disto, tem assinalado que embora
a empresa seja o agente que cristaliza a inovação, a competitividade é
resultado de múltiplas interações de agentes diversos, tais como os grandes
grupos empresariais, as PMEs, os centros técnicos, os centros públicos de
pesquisa ou de inovação (CPI), os administradores e clientes, as entidades
financeiras e os poderes públicos. Deste modo, o PN destaca quatro entornos
fundamentais: científico, tecnológico, produtivo e financeiro.
Os programas setoriais são coordenados basicamente pelo Ministério da Educação
e Ciência e outros órgãos. Acoordenação interterritorial é realizada pelo
Conselho Geral de Ciência e Tecnologia. Finalmente, os fundos estruturais da
Uniao Europeia têm se mostrado um instrumento eficaz de cooperação entre o
Estado e as Comunidades Autônomas. Além disto, o PN é financiado pelo Fundo
Nacional (Fondo Nacional), dentro do qual foi criado o Programa Nacional de
Fomento da Articulação do Sistema Ciência-Tecnologia-Indústria (PACTI).
A partir do PN I+D 2000-2003, a inovação é incorporada como tema e valor
central. Assim, o plano passou a se chamar Plano Nacional de Investigação
Científica, Desenvolvimento e Inovação Tecnológica. A diferença, na prática, é
que se passa a compreender de forma articulada todas as ações de pesquisa e
desenvolvimento, desde a pesquisa básica até a inovação tecnológica, envolvendo
todos os ministérios competentes em P & D. Além disso, ressalta-se a criação,
em 2000, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCYT).
O PN é estruturado em torno de três eixos complementares: eixo temático (áreas
prioritárias e suas linhas temáticas); eixo instrumental (modalidades de
participação dos diversos agentes do sistema de ciência-tecnologia-empresa e os
instrumentos financeiros correspondentes); e o eixo orçamentário (cenário
econômico). É abrangente eleva em conta a atuação da UE 'especialmente o V
Programa Marcode P & D (V PM) e aquelas financiadas pelos fundos estruturais,
bem como as iniciativas das comunidades autônomas através de seus planos
regionais e equivalentes.
Todas as ações previstas no PN estão associadas a uma modalidade de
participação prevista na legislação espanhola de acesso a crédito. Os
mecanismos financeiros podem ser subvenção total ou parcial, subvenção
simultânea, associada a um crédito, crédito reembolsável, refinanciamento de
crédito, participação em capital (fondos de arranque) para fomentar a abertura
de empresas de base tecnológica, e fundos de investimento mútuo (fondo de
coinversión) para consolidar empresas de base tecnológica. Ainda no que tange
ao aspecto financeiro, o PN assume que o setor privado é o grande responsável
pelas atividades de P & D, devendo aumentar, portanto, seus investimentos
nesse campo.
Em outubro de 2005, o governo aprovou o chamado Programa Nacional de Reformas
(PNR), que consiste na resposta espanhola ao relançamento da Estratégia de
Lisboa, estabelecendo como objetivo estratégico a plena convergência com a
União Europeia até 2010, tanto no que diz respeito à renda per capita, quanto
em emprego e sociedade do conhecimento. Atualmente, são definidas quatro
grandes áreas no PN: geração de conhecimentos e capacidades; fomento à
cooperação em P & D; desenvolvimento e inovação tecnológica setorial; ações
estratégicas.
Destacam-se duas situações. A primeira, em relação à área de geração de
conhecimentos e capacidades, é a criação do programa Severo Ochoa, cujo
objetivo é incorporar aos centros nacionais pesquisadores de renome
internacional que desenvolvem suas atividades num centro de excelência. Além
disso, introduz-se o mecanismo de financiamento, o Programa Nacional de
Fortalecimento Institucional, ligado a objetivos de excelência tecnológica e
científica. A segunda, relacionada à área de fomento à cooperação em P & D,
pretende eliminar a principal debilidade do sistema, que é cooperação escassa
entre agentes de diferentes naturezas, sobretudo entre empresas e as
universidades e centros públicos de pesquisa, tanto em âmbito nacional quanto
internacional.
Por fim, o PN aposta na simplificação das estruturas de gestão, racionalizando
e integrando instrumentos existentes, criando novos e eliminando outros, quando
for o caso, tendo como foco a participação plena das comunidades autônomas.
Coreia do Sul
A Coreia do Sul é, definitivamente, um caso especial. Dotada de um Executivo
forte e de organizações empresariais lideradas pelos principais grupos
industriais, o país tem revelado uma grande capacidade de estabelecer metas e
objetivos em suas políticas, bem como de responder com agilidade aos desafios
que as situações de crise lhe impõem, lidando com um repertório variado de
política industrial. Não obstante as medidas de desregulamentação econômica
vividas nas últimas décadas e das tentativas de conter o poder dos
conglomerados, a Coreia mantém sua tradição de formular políticas com metas de
longo prazo, envolvendo as empresas nos organismos públicos de formulação e
implementação, preservando os mecanismos de contrapartida. A Coreia do Sul é um
dos mais exemplares saltos decrescimento no setor de P & D entre todos os
países, com o investimento em inovação como proporção do PIB maior que todos os
países analisados, sendo que é elevada a participação das empresas neste
esforço. O investimento em pesquisas aplicadas, e em relação direta com as
plataformas de exportação e desenvolvimento industrial, conduziu o próprio
investimento governamental à aplicação mais direta em pesquisa básica.
Entretanto, é verdade que a maioria das patentes de alta tecnologia é menos
expressiva do que em outros países, como os EUA ou Alemanha.
A própria estrutura do governo mostra a preocupação coreana com o tema, dados
os ministérios envolvidos ' Educação, Ciência e Tecnologia, Economia do
Conhecimento, Comunicação; quatro escritórios associados ao tema, vinculados ao
segundo vice-ministro de Educação, Ciência e Tecnologia (Ciência e Tecnologia,
Política de Pesquisa Acadêmica, Energia Atômica e Cooperação Internacional). A
ênfase governamental está localizada na preocupação com pesquisas em
biotecnologia, nanotecnologia e software, com fundos governamentais
específicos. Em 1997 foi promulgada a Lei Especial de Ciência e Tecnologia em
Inovação, englobando a criação do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia
(NSTC), estruturado a partir da cooperação interministerial entre Ciência &
Tecnologia e Educação. Foi estabelecido um Plano para Inovação em Ciência e
Tecnologia, a ser desenvolvido em cinco anos. O documento detalhando a
"Estrutura Geral da Política" indica a intenção de ampliar competências nas
áreas tecnológicas para o desenvolvimento de um sistema de inovação adequado à
competição. É enfatizada a relação indústria/universidade e a pesquisa
universitária como infraestrutura-base de investigação, incluindo a criação de
novos centros de pesquisa e melhoria da própria pesquisa. Têm destaque a
engenharia de base tecnológica, a tecnologia de informação e a biotecnologia,
complementadas pelo programa de reforma universitária "Brain Korea 21" (BK21),
voltado para a pesquisa com mais qualidade e a pós-graduação de excelência.
A ação coreana envolve uma política fiscal forte. Se as empresas aumentarem o
investimento em P & D em 50% (nos últimos quatro anos), podem realizar
dedução de até 5% do investimento total em equipamentos e instalações ou no
desenvolvimento de recursos humanos. Empresas baseadas em P & D recebem
dedução em relação ao imposto sobre consumo, bem como engenheiros e cientistas
estrangeiros, nesta área, têm isenção de imposto sobre a renda. São isentas de
imposto as operações de transferência de direitos de propriedade intelectual,
sendo também passíveis de crédito fiscal as doações realizadas para entidades
governamentais ligadas à pesquisa. É previsto, ainda, o financiamento para
novas ideias que promovam teste do produto e/ou comercialização de novas
tecnologias.
A preocupação com políticas contínuas entre governo, universidades e empresas é
uma constante. A Lei de Ciência e Tecnologia (2001) define prioridades em
C & T e P & D, particularmente biotecnologia, bioindústria e
nanotecnologia. Iniciou-se o programa Fronteira do Século XXI em P & D para,
em dez anos, desenvolver um núcleo tecnológico relacionado a dez projetos em
nanotecnologia, biotecnologia, novos materiais e tecnologia ambiental,
estruturado por consórcio público-privado (US$ 8 milhões por ano durante dez
anos). Está em desenvolvimento uma Visão de Longo Prazo para Ciência e
Tecnologia, com horizonte até 2025. O Ministério do Comércio, Indústria e
Energia ganhou relevo particularmente após as determinações governamentais
relativas às reformas internas nas empresas e no setor financeiro (1997). Suas
ações envolveram medidas para ampliar a competitividade e fortalecer o
investimento externo. No setor industrial foram tomadas medidas saneadoras e de
reestruturação das companhias, a defesa de uma produção ambientalmente
amigável, o estímulo ao e-commerce, às pequena e média empresas, a privatização
de companhias estatais e ao fortalecimento da rede infraestrutural.
Investimento em pesquisa básica e em recursos humanos qualificados, bem como a
maior concentração de investimentos em tecnologias selecionadas, são outros
pontos importantes. O governo identificou dez setores relevantes: TV digital,
displays (LCD, LED, PDP), robôs, automóveis de nova geração, semicondutores,
telefones móveis, soluções digitais, novas tecnologias de armazenamento
(baterias), biomedicina ehome network.
A ação governamental incorporou ao NSTC dirigentes industriais, associando
interesses da indústria ao sistema nacional de C & T e P & D. São mantidos
fundos públicos destinados às firmas associadas a P & D, disponibilizando
recursos para empréstimos e participação pela via de projetos (para produção,
por contrato, por subvenções), incluindo-se, ainda, o estímulo à
competitividade entre as próprias firmas. Para as pequenas e médias empresas
podem ser concedidos financiamentos adicionais para pesquisa e inovação e
existe a intenção de promover fundos de capital de risco e apoio para novas
empresas de base tecnológica. Como importante adição às políticas, o governo
propõe reformar regras de propriedade e licenciamento intelectual oriundas de
financiamento público, criando incentivos adicionais para determinados tipos de
invenção (como genética, software, inovações nos negócios) e fortalecer os
direitos de propriedade intelectual por meio de cortes especializadas.
Argentina
A Argentina não tem uma tradição de inovação tecnológica, em parte dado o
predomínio da política de substituição de importações em seu processo de
desenvolvimento. As políticas de corte neoliberal do governo Menem (1989-1999),
contudo, acentuaram as dificuldades reveladas pelo país para dotar-se de uma
estrutura produtiva centrada na inovação. Boa parte das políticas industriais
desenvolvidas de 1998 até os dias de hoje adotam como principais instrumentos
medidas de isenção tributária e assistência técnica. As dificuldades fiscais
inibem iniciativas voltadas para o financiamento do investimento e/ou as
compras governamentais.
No governo Menem (1989-1999) foi criado em 1996 um programa de incentivo às
pequenas e médias empresas, o Regime de Bonificação de Taxas de Juros. O
objetivo era facilitar o acesso das PYMEs ' Pequenas e Médias Empresas ' ao
crédito dos bancos que participavam do programa, mediante um subsídio do
governo para as taxas de juros praticadas. Tal financiamento cobria desde a
constituição de capital de giro dessas empresas até a aquisição de bens de
capital e o investimento em inovação tecnológica. Ainda com o foco nas PYMEs,
foi criado, no mesmo governo, em 1997, o Programa de Reestruturação Empresarial
(PRE), por meio do qual as empresas obtêm empréstimos a fundo perdido para o
acesso a serviços profissionais e assistência técnica.
Ainda no período Menem, no âmbito de uma reforma do sistema de Ciência e
Tecnologia da Argentina, foram criados, em 1996, a Agência Nacional de Promoção
Científica e Tecnológica e o Gabinete Interministerial de Ciência e Tecnologia
(GAGTEC). Os setores privilegiados pela Agência foram a metalurgia, a
biotecnologia, as energias alternativas, as TICs (tecnologias de informação).
No governo De La Rúa (1999-2001) foi criado o programa Regime de Importação de
Linhas de Produção Usadas e Novas, iniciado em 2000 e encerrado em 2008,
destinado às empresas exportadoras, com o objetivo de aumentar os investimentos
na competitividade dos produtos industrializados. É também deste governo o
Regime de Incentivos para a produção dos Bens de Capital, de 2001, para
estimular a fabricação nacional de bens de capital, informática e
telecomunicações, através de abono fiscal.
No governo Duhalde foi criado, em 2002, o programa Rede de Agências de
Desenvolvimento Produtivo, com mais de setenta agências distribuídas pelo país,
para assistência técnica e financeira às pequenas e médias empresas, envolvendo
parcerias público-privado e cofinanciamento entre governo federal, províncias e
municípios.
No governo de Nestor Kirchner foi elaborado, em 2006, o PMT3 (Programa de
Modernização Tecnológica), com o objetivo de formar recursos humanos para o
setor público, com recursos do BID e do próprio governo. Foram priorizados os
setores de combustíveis, metalurgia, saúde, software, nanotecnologia e
biotecnologia.
Ainda nesse governo foi criado, em 2007, o Programa de Apoio à Indústria de
Software e Serviços Informáticos, visando a melhorar o padrão de qualidade
dentro das indústrias por meio de assistência técnica e crédito a taxas
subsidiadas. Também é do governo Nestor Kirchner o programa Fomento à Pequena e
Média Empresa, de 2007, que, além da assistência técnica e apoio financeiro,
busca auxiliá-las em sua integração internacional, com o desenvolvimento de
negócios de exportação.
Cristina Kirchner também elegeu como prioridade o apoio às pequenas e médias
empresas. É de seu governo o Regime de Promoção de Investimentos em Bens de
Capital e Obras de Infra-Estrutura, de 2008, que visa o crescimento econômico e
a geração de empregos e utiliza-se de benefício fiscal, a isenção de Imposto
sobre o Valor Agregado (IVA). Além disso, foi criado, também em 2008, o
programa Formulação e Aplicação de Políticas para a Indústria, para melhorar a
competitividade da indústria nacional, mediante a especialização industrial e
consequente obtenção de produtos com alto valor agregado. Finalmente, ao
governo de Cristina Kirchner deve ser creditada a criação, em 2008, do Conselho
Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET), para desenvolver
todas as atividades relacionadas com o desenvolvimento científico e tecnológico
do país.
México
No México, o incremento recente da participação das empresas nas atividades de
inovação ocorre sem alteração de destaque na participação dos gastos com
inovação no PIB. Até recentemente, os diversos programas do governo mexicano
foram marcados pela perspectiva de criação de um ambiente institucional
favorável ao investimento privado, com destaque para medidas regulatórias, além
de programas de assistência técnica. Tal como na Argentina, prevalecem medidas
de desoneração fiscal e tarifárias na política industrial. Nos governos de
Vicente Fox e de Felipe Calderón Hinojosa ampliaram-se as fontes de
financiamento, com o desenvolvimento, inclusive, de programas setoriais.
Importa saber se terão efeito sem uma definição clara de contrapartidas
estabelecidas para as empresas. O peso expressivo dos gastos com inovação
efetuados por estrangeiros parece estar associado à crescente incorporação da
economia mexicana ao NAFTA, mas não está claro qual é o seu impacto sobre a
economia do país. Importante, de qualquer forma, é a sinalização para uma
articulação entre as atividades portadoras de futuro e a indústria petrolífera,
que pode criar processos de retroalimentação, desde que o Estado consiga impor
à indústria do petróleo um conjunto de metas que a induza a preparar sua
própria transição, no rumo de uma nova matriz energética.
No governo de Ponce de León (1994-2000), foi criado, em 1996, um Programa de
Política Industrial e Comércio Exterior, com objetivos amplos e ambiciosos,
como a melhora da infraestrutura física e base humana e institucional, estímulo
à integração das cadeias produtivas, promoção de exportações, entre outros. A
avaliação permanente de resultados e a interação do governo com produtores eram
previstos pelo governo.
Quanto à política de melhoramento da infraestrutura tecnológica para a
indústria, dois elementos são destacados ' a modernização tecnológica e a
promoção da qualidade ', e, para alcançá-los, foram planejados diversos
arranjos institucionais.
No governo de Vicente Fox (2000-2006) foi elaborado o Programa de
Desenvolvimento Empresarial 2000-2006, com objetivos que vão da criação de um
ambiente econômico, jurídico e normativo propício ao desenvolvimento das
empresas até objetivos mais específicos, como promover habilidades
administrativas, laborais e produtivas etc. Para alcançá-los foram criados 151
programas de apoio do governo federal, dos quais uma fração expressiva (39) era
de programas de capacitação, assistência técnica e consultoria empresarial, e,
outra (30), de créditos e serviços financeiros.
O Plano Nacional de Desenvolvimento Industrial 2000-2006 propôs a criação de um
Sistema Nacional de Indicadores para o acompanhamento dos resultados dos
programas e esperava obter muitos resultados até 2006, entre eles o aumento da
integração de insumos nacionais em cinco pontos percentuais para exportações
manufatureiras não maquiladoras e em vinte pontos percentuais para as
exportações da indústria maquiladora. Quanto ao desenvolvimento tecnológico, o
governo Fox propôs o Programa Especial de Ciência e Tecnologia de 2001-2006,
que tinha como objetivos criar uma política de Estado de valorização da
C & T, aumentar a capacidade científica e tecnológica, promover a
competitividade e a inovação das companhias. Em 2002, a nova Lei de Ciência e
Tecnologia regulamentou a área. Os setores priorizados foram a tecnologia da
informação, a eletrônica e telecomunicações, a saúde (remédios, sistemas de
diagnósticos, materiais e equipamentos), a agricultura, a pesca e alimentação,
a energia e a construção civil.
No governo de Calderón Hinojosa, ainda em curso, foi formulado o Plano Nacional
de Desenvolvimento para 2006-2011, que inclui, entre seus objetivos, promover a
criação, desenvolvimento e consolidação das micro, pequenas e médias empresas
(MIPyMES). A Secretaria de Economia criou dez programas de apoio empresarial.
Em relação ao desenvolvimento tecnológico, o governo criou o INNOVAPYME, o
PROINNOVA e o INNOVATEC. Os setores priorizados pelo INNOVAPYME são as micro,
pequenas e médias empresas; pelo PROINNOVA, as Associações ou redes entre
empresas, Instituições de Ensino Superior e Centros de Pesquisa; pelo INNOVATEC
são as empresas inovadoras de todos os tamanhos. Além disso, o governo criou o
Comitê Nacional de Produtividade e Inovação Tecnológica (COMPITE), para dar
consultoria e assistência técnica às empresas. O Programa para o
Desenvolvimento da Indústria do Software (PROSOFT) aprova subsídios para
programas da área.
Brasil
No Brasil, até 1999, o governo Fernando Henrique Cardoso manteve-se reticente à
adoção de diretrizes de política industrial, não obstante a presença do
documento, de 1996, Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior '
Reestruturação e Expansão do Sistema Industrial Brasileiro, sob
responsabilidade do Ministério da Indústria, do Comércio e do Turismo. O
sentido geral da política proposta é a criação de um ambiente favorável à
elevação da competitividade, por meio, principalmente, da eliminação do Custo
Brasil, por via de correções no sistema tributário e regulatório e do
desenvolvimento da infraestrutura. Destaca-se, ainda, a preservação da
estabilidade econômica, "com regras claras e não discriminatórias", a
modernização das relações trabalhistas, o "crescimento dos investimentos
diretos estrangeiros", a integração das empresas brasileiras em redes
internacionais. Por fim, "políticas específicas" são apontadas como relevantes,
tão somente, para correção de "falhas de mercado".
Importa registrar, contudo, que, não obstante esta orientação geral, medidas
pontuais de política industrial foram adotadas, em favor do setor automotivo,
de softwarese de medicamentos. Porseu turno, ao final do segundo mandato de
Fernando Henrique Cardoso, embora não exista um documento geral de orientação
da política industrial, esta passa a fazer parte da agenda do governo,
especialmente mediante a criação dos fóruns de competitividadee dos fundos
setoriais.
O governo Lula manteve a orientação macroeconômica de seu antecessor, assim
como os fundos setoriaiseos fóruns de competitividade, e reabilitou a
perspectiva de um papel mais ativo do Estado na promoção do desenvolvimento,
conferindo grande destaque à ideia de política industrial, bem como ao
estabelecimento de mecanismos de intermediação do Estado com o empresariado.
Tal perspectiva se revela já em 2003, com o Roteiro para Agenda de
Desenvolvimento. Em março de 2004, as Diretrizes de Política Industrial,
Tecnológica e de Comércio Exterior definem como linhas de ação básicas a
inovação e desenvolvimento tecnológico, a elevação da inserção externa, a
modernização industrial, a ampliação da capacidade produtiva e da escala de
produção das empresas brasileiras, a definição de opções estratégicas, a saber,
o desenvolvimento da indústria de semicondutores, de fármacos e medicamentos,
de softwarese de bens de capital. No Acompanhamento da Política Industrial,
Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE), de 2005, além das linhas de ação
horizontaise das opçõesestratégicas presentes nas Diretrizes, apresentam-se
como metas da PITCE o reforço das atividades portadoras de futuro, a saber, a
biotecnologia, a nanotecnologia e a biomassa e outras fontes de energia
renováveis. Para a coordenação das ações desenvolvidas foram criados o Conselho
Nacional de Desenvolvimento Industrial e a Agência Brasileira de
Desenvolvimento Industrial, pela Lei 11. 080, de 30 de dezembro de 2004, embora
o primeiro já operasse informalmente desde abril de 2004.
Considerada as opções mais amplas do governo Lula para o desenvolvimento, a
ênfase conferida às exportações e inovação tecnológica aparecia como elemento
subordinado, dentro da "estratégia de longo prazo" estabelecida no Plano
Plurianual de 2004-2007, que fixava como objetivo a incorporação progressiva
das famílias trabalhadoras ao mercado consumidor das empresas modernas. No
segundo mandato do governo Lula, todavia, a ênfase nas exportações e na
inovação permanece na Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) que, ao
contrário da PITCE, não destaca setores a serem objeto preferencial das ações a
seremdesenvolvidas. APDP é apresentada como uma política pragmática, que prevê
medidas de "implementação imediata", com "metas factíveis". As metas-país para
2010 são a ampliação do investimento fixo, de 17, 6% do PIB, em 2007, para 21%;
a ampliação da participação das exportações brasileiras para 1, 25%, contra 1,
18% apurados em 2007; a elevação do gasto privado em P & D de 0, 51% do PIB,
em 2005, para 0, 65%, em 2010;a dinamização das MPEs, envolvendo a elevação em
10% do número de empresas exportadoras. Os destaques estratégicosda política
seriam o fortalecimento da MPEs, a expansão das exportações, a integração
produtiva com a América Latina e o Caribe, a integração com a África, a
regionalização da produção e a produção ambientalmente sustentável. Por fim, os
programas estruturantes para sistema produtivosseriam construídos a partir de
estratégias diferenciadas que levam em consideração os estágios e as
oportunidades para os diferentes sistemas, a saber, o alcance da liderança
mundial, a conquista de mercados, a focalização, a diferenciação e a ampliação
de acesso.
Apontam-se como instrumentos da política os instrumentos de incentivo fiscais e
tributários, o poder de compra governamental e instrumentos de regulação. No
âmbito das ações sistêmicas, a PDP destaca iniciativas como a elevação dos
recursos para investimento e a redução do spread do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em suas operações de financiamento,
medidas diversas de desoneração tributária, a ampliação das linhas de
financiamento do BNDES para inovação, a simplificação de procedimentos
administrativos, a integração da política às outras açõesdo governo, emespecial
as desenvolvidas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC); pelo Plano
de Ação de Ciência, Tecnologia e Inovação, do Ministério da Ciência e
Tecnologia; pelo Plano Nacional de Educação, do Ministério da Educação; pelo
Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural; pelo
Plano Nacional de Qualificação do Ministério do Trabalho e Emprego; pelo
Programa de Educação para a Nova indústria, da CNI, SESI, e SENAI.APDPcria,
além disto, uma estrutura de governança da política, com a coordenação geral da
política ficando a cargo do MDIC, alémde comitês gestores subordinados aos
organismos responsáveis pela condução de seus diferentes programas (MF, MDIC,
ABDI, BNDES, MCT).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Se tomarmos apenas os documentos e as disposições expressas pelos governos dos
países indicados acima, revelam-se diversos elementos de convergência. A
elevação da capacidade de inovação das empresas, em especial, aparece como
objetivo central das políticas industriais de todos eles, associada ao
desenvolvimento de ações para domínio das atividades portadoras de futuro.
Outro elemento comum é a ênfase conferida às pequenas empresas e ao
empreendedorismo tecnológico. A necessidade de articulação entre o Estado e o
empresariado, de reorientação do sistema de ciência e tecnologia para a
inovação, e de aproximação das universidades e institutos de pesquisa com a
iniciativa privada, são também aspectos comuns às políticas ou às suas
intenções. Neste quadro, alterações nos sistemas de remuneração dos
pesquisadores universitários, estímulos ao registro de patentes pelas
universidades, apoio a formas diversas de parcerias entre universidades,
institutos de pesquisa e empresas aparecem recorrentemente nos documentos de
governo, de política industrial e/ou de inovação.
Todavia, se as trajetórias dos países analisados indicam várias dimensões
convergentes no que se refere aos objetivos e ao repertório de políticas
adotadas, elas se distinguem em relação à importância efetivamente conferida às
políticas de inovação e às orientadas para o desenvolvimento das atividades
portadoras de futuro, bem como parecem revelar que tais políticas dispõem de
eficácia diversa conforme o ambiente institucional, tal como compreendido a
partir dos elementos indicados pela abordagem sobre as variedades de
capitalismo. Por que, não obstante a inclinação generalizada pela aproximação
entre universidadeseempresas, osresultadossão tãodiversos, no quetocaàelevação
da capacidade inovativa destas últimas? Se o ambiente que emoldura esta relação
não estimular as firmas a tomarem a inovação como um diferencial competitivo,
não bastam a abertura do sistema nacional de ciência e tecnologia ao mundo
empresarial e a simples elevação dos requisitos de capital humano e a
infraestrutura de pesquisa e inovação. No limite, a disseminação de padrões de
tecnologia industrial básica, medidas de certificação, investimento em capital
humano e infraestrutura tecnológica são condições decisivas ao desenvolvimento
de esforços inovativos por parte das empresas, mas não são suficientes. A
decisão de inovar envolve a percepção de que é possível contornar o custo de
oportunidade envolvido em inversões que exigem a mobilização de ativos
intangíveis, de retorno incerto. Sem isto, as empresas vão preferir operar nas
linhas de menor resistência, acentuando sua competitividade por meio de outros
mecanismos.
O papel das políticas públicas é, entre outros, induzir a mudanças de
comportamento, seja por alterações no ambiente institucional, seja calibrando
as políticas para a obtenção de resultados positivos, no que se refere à
elevação da capacidade de inovação das empresas, ainda que não alteradas os
elementos centrais do ambiente institucional. Neste sentido, qual poderá ser o
caminho do Brasil? Em nossa trajetória tiveram relevo a presença de relações
precárias no mercado de trabalho, a reduzida cooperação entre as firmas, o
predomínio da produção voltada para dentro, asformasmistasdefinanciamento 'mas
compesoexpressivo do Estado ', o controle familiar da propriedade ' mas com
elevada presença estrangeira ', em meio à persistência de formas corporativas
de intermediação do Estado com o empresariado. Como, e a que custo, tais
características podem se combinar à elevação da capacidade inovativa das
empresas brasileiras? O que pode ser reformado ou fortalecido no ambiente
institucional? Como elevar a capacidade indutora do Estado e por meio de quais
mecanismos e instrumentos de política industrial e de inovação?
Consideradas as características das relações industriais e dos mecanismos de
cooperação entre as firmas, o Brasil aproxima-se das formas liberais de
capitalismo, o que torna o mecanismo das compras governamentais um elemento
central para as políticas públicas voltadas para a inovação. Neste sentido,
deve tornar-se parte central da agenda do governo brasileiro a adaptação da
legislação a este intento, assegurando que o processo de compras governamentais
confira mais importância à qualidade e aos componentes tecnológicos dos
produtos do que ao preço. Ademais, deve ser capaz de vir acompanhado de
compromissos das empresas com a atividade de inovação. Ao contrário dos EUA, o
Brasil não dispõe de um setor de defesa capaz de operar como guarda-chuva para
o desenvolvimento de atividades inovadoras, com potencial irradiador sobre todo
o tecido industrial. Todavia, o mapeamento das oportunidades no setor
energético, no complexo industrial da saúde, na infraestrutura, dentre outros,
permite vislumbrar um cenário de enormes possibilidades de utilização das
compras governamentais como fator de estímulo à inovação e ao desenvolvimento
de atividades portadoras de futuro, vitais a uma mudança de patamar da economia
brasileira na estrutura da economia mundial.
Talvez a estrutura industrial brasileira seja muito complexa e diversificada
para permitir mecanismos de indução como os desenvolvidos pela Coreia, em que a
combinação de controle estatal do sistema bancário e a presença do sistema de
contrapartidas favorecem a inclinação das empresas para atividades inovadoras,
especialmente para a exportação. Contudo, o pes o que tem o BNDES no
financiamento da atividade industrial confere ao poder público brasileiro um
poder relativamente pouco utilizado. O desafio é acentuar as exigências de
contra-partidas em ações inovativas na concessão de financiamento, associadas a
medidas que assegurem confiança aos empresários para a realização de tais
inversões, no âmbito da segurança de crédito e do segredo industrial. Se a
produção para a exportação é tendencialmente mais apta a beneficiar-se deste
tipo de política, também a produção para o mercado interno pode dela se valer,
dentro da perspectiva de incorporação de amplos contingentes ao mercado de
massas nucleado pelas grandes empresas, que, ao lado da elevação da renda, deve
envolver a ampliação da capacidade das empresas produzirem mais e mais barato.
Adicionalmente, apolítica de apoio a fusões e aquisições, orientada para a
criação de empresas brasileiras capazes de atuar como playersinternacionais,
deveria buscar atingir os setores de atividade tecnologicamente mais dinâmicos,
de modo a reduzir o impacto negativo que a elevada internacionalização do
mercado interno brasileiro acarreta para as atividades de inovação.
É possível, por outro lado, reforçar os elementos de coordenação que existem no
ambiente institucional brasileiro, frequentemente mitigados pela fragmentação
dos interesses empresariais e pelo reduzido poder de sanção de que dispõem
determinados organismos. A presença da estrutura corporativa de representação
de interesses e a experiência de intermediação neocorporativa entre Estado e
empresariado, que se reitera de formas diversas ao longo da trajetória
brasileira, está longe de desenvolver todas as suas potencialidades para a
orquestração de ações cooperativas para atividades de inovação. A ampliação das
atribuições das entidades corporativas pode favorecer este intento, tornando-as
mais representativas para assegurar a lealdade de seus membros a programas
abrangentes. Por seu turno, experiências como as dos fóruns de competitividade
podem ser dinamizadas não só para acentuar a cooperação interfirmas, mas,
também, como mecanismo de mobilização do setor empresarial pelo Estado, no
sentido da produção de bens de conteúdo tecnológico que atendam à demanda do
setor público.
Simplicidade é o que não se pode exigir do caso brasileiro. Não só nosso legado
institucional é marcado pela presença de diferentes arranjos em certa medida
conflitantes, como a diversidade de nossa estrutura produtiva torna difícil a
definição de um conjunto reduzido de metas, comuns a todos os setores
industriais. Dispomos, contudo, de experiência na utilização de um vasto
repertório de instrumentos, desde as medidas de isenção tributária, passando
pelo financiamento público e as compras governamentais. A PDP, neste sentido,
parece responder a um desafio inescapável que é a construção de políticas
seletivas para TODOS os setores industriais, mobilizando este conjunto variado
de instrumentos. Importa, todavia, estabelecer alguma hierarquia neste
processo, de modo a não diluir a importância a ser conferida às ações voltadas
ao desenvolvimento de atividades portadoras de mais potencial inovativo.
Ademais, é significativo definir procedimentos que permitam a fixação de
metasno nível das empresaspara o alcance dos objetivos perseguidos pelas
políticas setoriais. Por fim, é possível definir uma agenda de reformas
institucionais que, considerando as características da governança corporativa
das empresas e suas relações com as finanças e o mundo do trabalho, favoreçam a
acentuação da colaboração de todos os atores envolvidos na atividade produtiva
para processos de inovação.
NOTAS
1. As fontes de pesquisa para este estudo foram, fundamentalmente, documentos
de agências multilaterais e de órgãos dos governos dos países focalizados,
muitos deles citados neste artigo. Foram produzidos cinco relatórios,
disponíveis na seção Política Industrial Comparadado site da ABDI (http://
www.abdi.com.br/Paginas/Default.aspx). O volume 5 do estudo em tela (Variedades
de Capitalismo ' Formas Institucionais e Inovação Tecnológica),apresenta a
relação completa dos documentos pesquisados, com indicação do endereço
eletrônico em que podem ser localizados. Os relatórios podem ser encontrados
também na seção Projetosdo site Laboratório de História Política e Social
(LAHPS) da UFJF, no endereço http://www.ufjf.br/lahps/.
2. Para um balanço da literatura sobre as variedades de capitalismo, ver
Jackson e Deeg (2006).
3. A ausência de mecanismos como a hierarquiae a redespode ser apontado como um
dos limites desta tipologia. Ben Ross Schneider incorpora-os na identificação
de outros tipos, que entende presentes na América Latina e na Ásia. Não vamos
nos estender sobre este ponto, especialmente porque, como se verá adiante, em
nosso entendimento, as virtudes analíticas da noção de variedades de
capitalismoestão menos associadas à construção de tipos rigidamente articulados
por um único mecanismo de interação estratégica ' ou princípio alocativo, como
sugere Schneider ', mas às suas possibilidades heurísticas, no sentido da
identificação e análise dos domínios de interação estratégica das empresas em
diferentes países. Conferir Schneider (2008).
4. Sobre as noções de inovação incrementale inovação radical, ver Freeman e
Perez (1988) e, também, Tironi e Cruz (2008)
5. Uma crítica da correlação indicada por Hall e Soskice, efetuada com base na
investigação das patentes registradas pelos EUA e Alemanha, é desenvolvida por
Dirk Akkermans, Carolina Castaldi e Bart Los, para os quais as inovações
radicais ocorreriam tanto nas economias de mercado liberais, quanto nas
economias de mercado coordenadas. Comparando os casos dos EUA e Alemanha,
observam que na indústria química e eletrônica, as inovações radicais seriam
mais comuns nos primeiros, ao passo que nas indústrias metalúrgica, de máquinas
e de transportes seriam mais frequentes na Alemanha. Ver Akkermans, Castaldi e
Los (2007). No entanto, importa registrar que os setores assinalados são os
indicados por Hall e Soskice como mais representativos dos diferentes tipos de
inovação. Ademais, a Alemanha parece concentrar-se em atividades mais distantes
daquelas que compõem o núcleo das atividades inovativas dentro do paradigma
microeletrônico, noâmbitodoqualseprocessaram as inovações de maior impacto na
economia contemporânea. Sobre os paradigmas tecnológicos, ver Freeman e Perez
(1988).
6. Diferentes dimensões da ordem institucional e do sistema político são
tratados como complementaridades institucionais, que se articulam aos domínios
interativos apontados acima, reforçando-os. Assim, modelos políticos mais
consociativos seriam tendencialmente afeitos às economias coordenadas, ao passo
que nas formas liberais predominariam sistemas em que o poder de agenda e de
decisão do Executivo é mais acentuado. Do mesmo modo, sistemas de proteção
social amplos e reduzidos conectar-se-iam, respectivamente, às formas
coordenadas e liberais (Hall e Soskice, 2001).
7. Vivien Schmidt aponta as dificuldades para inclusão do tema da mudança na
teoria das variedades de capitalismoa partir da articulação entre a rational
choice,acentuando os interesses dos atores, com o institucionalismo histórico,
ressaltando situações de punctuated equilibrium, tal como efetuado por Streeck
e Thelen, por força do caráter fixo das preferências para a rational choicee da
noção de path dependancepara o institucionalismo histórico. Sugere, então, que
se dê mais atenção às ideias e aos discursos para análise da mudança no âmbito
das variedades de capitalismo (Schmidt, 2006; Streeck e Thelen, 2005; Jackson e
Deeg, 2006). Não nos parece que a sugestão de Peter Hall, em texto de 2007,
segundo a qual as variedades de capitalismonão podem ser tomadas como um elenco
fixo de características institucionais, mas como trajetórias abertas à mudança,
altere muito a avaliação que toma a versão original da ideia de variedades de
capitalismo como essencialmente impermeável à transformação. Na verdade, o
autor assinala como pressões exógenas são absorvidas no âmbito das variedades,
levando a mudanças pontuais, sem que a articulação interna de seus elementos
efetivamente se modifique (Hall, 2007).
8. Não nos deteremos aqui na análise das relações entre empresariado e Estado
nos países em tela, tema do Volume II da pesquisa em que este artigo se
assenta. Ver Delgado et alii(2009f).
9. A inserção das economias nacionais no mercado mundial é considerada levando-
se em conta sua dimensão, seu grau de abertura, os índices de proteção, além do
peso das atividades de maior intensidade tecnológica na produção interna e das
manufaturas nas exportações. O grau de abertura leva em conta o peso das
exportações e importações no PIB. Os índices de proteção considerados foram os
apresentados pelo Banco Mundial (World Bank, 2008), no limite os que estão
disponíveis para uma comparação mais abrangente, embora controversos, uma vez
que não levam em conta subsídios domésticose o câmbio. Por fim, consideramos o
peso dasativida desde média e alta tecnologia na produção doméstica e das
manufaturas nas exportações para indicar se a economia nacional ocupa um lugar
central (peso elevado das atividades de maior intensidade tecnológica e das
manufaturas nas exportações), semiperiférica (equilíbrio entre atividades de
maior intensidade tecnológica e de entre manufaturas e produtos primários nas
exportações) ou periférica (predomínio das atividades de baixa intensidade
tecnológica na produção doméstica e dos produtos primários nas exportações).
Para mais detalhes, ver Delgado et alii(2009a).
10. O Banco Mundial não apresenta o OTRI da Coreia do Sul, daí sua ausência na
Tabela_1. Na nota explicativa de seus índices, assinala, contudo, que a TTRI/
MFN é superior à dos países de alto rendimento, as restrições a produtos
agrícolas podem alcançar 49% e que, se preferências são incluídas, podem chegar
a 89%, a segunda maior tarifa para produtos agrícolas do mundo. Barreiras não
tarifárias são também comuns e podem chegara 35%. ConferirWorld Bank, Republic
of Korea: Trade Brief.
11. A presença das maquiladoras, por seu turno, enviesa, no México, os dados
relativos à presença de setores de maior intensidade tecnológica na produção
industrial e manufaturas na exportação. Importa, ainda, destacar que, embora
disponha de um regime tarifário rigoroso, a inclusão no NAFTA implica para o
México, a terceira economia mais aberta dentre os países analisados, uma
mitigação dos mecanismos de proteção ao seu mercado interno. Por fim, além da
dependência em relação ao mercado do NAFTA, o México evidencia uma forte
concentração na pauta de exportação. Apenas combustíveis e material de
transportes, em 2006, respondiam por 68, 57% das exportações mexicanas.
Conferir United Nations, UNCTAD, Unctad Handbook of Statistics, eWorldBank,
Mexico: Trade Brief.
12. Conforme distinção recolhida em Castro (2002), que aponta a presença de
três famíliasde política industrial, a saber, as relacionadas à correção de
falhas de mercado, as de equiparação e as de inovação; estas últimas são
dirigidas especialmente às firmas, ao passo que as segundas teriam como foco os
setores. Outra distinção clássica é a que opõe, além das políticas orientadas
para a correção de falhas de mercado, as políticas horizontaisàs políticas
verticais, ou seletivas.Enquanto as políticas horizontais seriam dirigidas à
criação de condições que, supostamente, beneficiam todosos setores industriais
' capital humano, infraestrutura ', as políticas seletivas correspondem a ações
dirigidas para favorecer determinados setores ou firmas, para o alcance de
resultados que são percebidos pelo Estado como eficientes para a economia em
seu conjunto (Chang, 1994:60).
13. Destacamos aqui, como nos demais países focalizados, os programas de
governo mais abrangentes, tratados no volume 3 do estudo contratado pela ABDI
(Política Industrial: objetivos e instrumentos). Um balanço das políticas
setoriais pode ser encontrado no volume 4 deste mesmo estudo (A Política
Industrial Brasileira para Setores Selecionados e a Experiência Internacional).