Proposta de um Indicador Socioeconômico para os Alunos das Escolas Públicas dos
Municípios Brasileiros
INTRODUÇÃO
A o longo do século XX chegou-se a um consenso sobre a importância da
escolarização da população diante das inúmeras evidências de forte associação
entre educação e desenvolvimento econômico e das externalidades positivas
geradas pela educação no campo político e social, tais como o fortalecimento da
democracia, modernização da sociedade, melhoria dos indicadores de saúde
pública, alívio da pobreza, redução da desigualdade social, convívio social
pacífico etc. (Schultz, 1973; Blaug, 1992; Tedesco, 2002; Cury, 2008).
Compreendeu-se também que os resultados da educação no âmbito da sociedade eram
indiretos e decorrentes dos retornos do processo educacional aos indivíduos por
meio do desenvolvimento de: (i) habilidades em leitura, escrita, matemática,
história e ciência; (ii) pensamento crítico e capacidade de resolver problemas;
(iii) habilidades sociais e ética no trabalho; (iv) cidadania e
responsabilidade social; (v) fundamentos para saúde física; (vi) habilidades
emocionais (tais como autoconfiança, respeito pelos outros, capacidade de
resistir a pressões para ter comportamentos pessoais irresponsáveis); (vii)
apreço pelas artes e literatura; além de (viii) habilidades para o mundo do
trabalho (Rothstein e Jacobsen, 2008). Assim, diante dos resultados esperados
pela sociedade e pelos indivíduos e do avanço das conquistas no campo dos
direitos sociais, a oferta da educação em muitas nações passou a ser um dever
do Estado (Bobbio, 1992; Cury, 2008).
Contudo, o que se observa, sobretudo nos países em desenvolvimento, é uma
estratificação das oportunidades educacionais decorrente de fatores (histórico-
culturais, econômicos, políticos e sociais) que, inter-relacionados, impactam a
demanda educacional das famílias e a oferta do ensino por parte do Estado e
geram grande disparidade da apropriação dos resultados educacionais entre os
grupos sociais. Assim, apesar de a educação ser um bem público que deveria ser
provido de forma a possibilitar que todos os indivíduos usufruam dos seus
benefícios sem diferenciações, o que se tem observado é a desigualdade
educacional como resultado da educação concebida como privilégio de classes e
orientada pela condição econômica e social não escolhida dos indivíduos
(Coleman et al., 1966; Rutter et al., 1979; White, 1982; Barros et al., 2001;
Buchmann e Hannum, 2001; Sirin, 2005).
Este fenômeno, que é mais intenso nos países em processo de desenvolvimento
mais iminente, onde a educação é um fator determinante para a manutenção da
grande distância que separa os estratos sociais (Buchmann e Hannum, 2001;
Barros et al., 2001), tem sido persistente também em sociedades mais
igualitárias dos países desenvolvidos, como nos Estados Unidos (Reardon e
Robinson, 2008).
No Brasil, embora o direito à educação e o dever do Estado quanto a sua
provisão estejam grafados na legislação vigente1, o desafio de superar a
exclusão educacional dos indivíduos oriundos das camadas mais pobres da
sociedade é antigo e remonta à época da independência (Almeida, 1989). Todavia,
apesar dos avanços ocorridos desde aquela época, principalmente a partir da
década de 1970 no que se refere ao acesso e à recente busca pela qualidade do
ensino (Oliveira, 2007), ficaram as marcas sociais da longa convivência (ainda
não resolvida) com um sistema educacional altamente seletivo e excludente
socioeconomicamente sob a forma da intensa desigualdade entre a minoria rica e
a maioria pobre e dos inúmeros problemas sociais que retroalimentam o ciclo de
exclusão educacional dos mais desfavorecidos (Cury, 2008).
Diante deste contexto e da necessidade de combater a desigualdade educacional
como forma de amenizar as disparidades sociais, o objetivo deste artigo é (a)
propor um indicador para descrever a situação socioeconômica dos alunos das
escolas públicas de educação básica nos municípios brasileiros e (b) evidenciar
as diferenças entre os municípios (consequentemente, entre estados e regiões).
O Indicador Socioeconômico Estudantil dos Municípios (ISE-M) foi assim
denominado, pois, diferente dos demais indicadores sociais que buscam retratar
a realidade de toda a população, foi calculado com base nos dados relativos aos
recursos econômicos (bens e serviços disponíveis nos domicílios) e do contexto
socioeducacional das famílias (nível de escolaridade dos pais) dos alunos do
ensino fundamental das escolas públicas. Para isso, foram utilizados os dados
da Prova Brasil realizada em 2011
2
(edição mais recente disponível) pelo Instituto Nacional de Estudos e
Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pelo Ministério da Educação
(MEC), mais especificamente aqueles levantados por meio do questionário
socioeconômico, agregados por município.
A escolha do nível municipal para apresentação do indicador (e não por aluno ou
escola) deve-se à necessidade de descrever a realidade educacional das redes de
ensino, ou seja, nos níveis dos entes federativos em que são definidas as
políticas públicas3. Deve-se também ao papel que os municípios brasileiros
assumiram após a Constituição de 1988 para o atendimento das demandas sociais
locais (Souza, 2005), demandas estas que foram aumentadas em decorrência dos
programas de descentralização das políticas sociais que ocorreram a partir da
década de 1990 (Arretche, 2000), não obstante as controvérsias em relação à
autonomia, ao efetivo empoderamento das comunidades locais no processo
decisório sobre políticas públicas e à capacidade técnica e tributária dos
governos municipais (Pacheco, 1999). De qualquer forma, esta escolha não está
isenta do risco de encobrir as grandes disparidades dentro de cada localidade e
de comparar realidades educacionais muito distintas. Contudo, em que pesem as
questões do federalismo brasileiro, as diferenças regionais e o fato de que a
oferta da educação básica nos municípios é compartilhada pelos governos
municipais e estaduais, um indicador municipal é importante para apontar as
diferenças e os contextos que requerem ações conjuntas entre as esferas de
governo.
Além desta introdução e das considerações finais, este artigo está estruturado
em outras três seções. A primeira apresenta o referencial teórico. A segunda
descreve as estratégias metodológicas e os procedimentos para a construção do
ISE-M. Na terceira são analisadas as características dos municípios segundo o
ISE-M nas regiões brasileiras.
REFERENCIAL TEÓRICO
O nível socioeconômico dos indivíduos é considerado um aspecto determinante nas
pesquisas sociais (Alves e Soares, 2009). Na área da educação, este se tornou
um determinante-chave, sobretudo devido às pesquisas realizadas a partir da
década de 1960 que concluíram que o desempenho educacional está fortemente
associado à origem socioeconômica dos alunos (Coleman et al., 1966; Plowden
Report, 1967; Mosteller e Moynihan, 1972; Jencks, 1972; Bowles e Gintis, 2008;
Madaus, Airasian e Kellaghan, 2008; Rutter et al., 1979; Willms, 1992; Lee,
2000; Hanushek, 1979; 1986).
No Brasil, apesar de ser um movimento que se fortaleceu apenas na década de
1990, época em que foi instituído o Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Básica (Saeb), as investigações sobre fatores associados ao desempenho escolar
começaram a formar um importante núcleo de conhecimento a partir de dados
nacionais (Alves e Franco, 2008). Neste sentido, o trabalho de Soares (2004)
descreve o desempenho cognitivo de alunos no Saeb e verifica que há grandes
desigualdades no desempenho entre os alunos das diferentes regiões, raça/cor e
níveis socioeconômicos. O estudo vai além ao mostrar que o sistema de ensino
não contribui para reverter tal quadro quando conclui que o nível de
proficiência medido pelo Saeb está fortemente associado à posição social do
aluno e que, considerando os processos relacionados aos professores (nível de
formação, salário, percepção dos problemas da escola, relação com o diretor e
com a equipe, expectativas em relação ao trabalho etc.) e à escola (prédio,
limpeza, segurança, qualidade das salas, equipamentos etc.), "a escola dos
alunos de pior desempenho é pior que a dos alunos de melhor desempenho"
(Soares, 2004:18).
Em outro estudo, Soares e Andrade (2006) investigaram o efeito da escola para
os diferentes grupos sociais na cidade de Belo Horizonte e também verificaram a
existência de relação entre a origem socioeconômica e o desempenho dos alunos.
Os autores concluíram que há escolas que conseguem elevar o desempenho de
estudantes que vivem em contextos desfavorecidos enquanto outras só produzem
bons resultados na presença de forte iniquidade social. Andrade e Laros (2007),
Soares e Alves (2003) e a coletânea apresentada em Franco (2001) são algumas
entre uma quantidade relevante de pesquisas que verificaram a relação entre os
referidos fatores no contexto brasileiro.
A Construção de Indicadores Socioeconômicos
Os indicadores socioeconômicos são medidas que descrevem a posição que os
indivíduos ou famílias ocupam em uma hierarquia social com base no acesso,
posse ou controle de fatores que caracterizam riqueza, poder e status social
(Sirin, 2005). Estas medidas são um dos construtos mais estudados em ciências
sociais e têm sido utilizadas tradicionalmente pela sociologia americana e
inglesa em pesquisas que analisam a estratificação e a mobilidade social dos
indivíduos nas sociedades. Em geral, estes indicadores são operacionalizados
por meio de uma combinação de variáveis: renda, nível de escolaridade, tipo de
ocupação, posse de bens e acesso a itens de conforto no domicílio, estado civil
e configuração da família, qualidade da casa, status da região de moradia,
comportamento social e político etc. (Duncan, 1961; White, 1982; Alves e
Soares, 2009).
Um marco nas pesquisas nesta área foi o trabalho de Duncan (1961). O autor
utilizou as variáveis renda e escolaridade contidas no censo populacional
americano de 1950 e outra variável referente ao prestígio das ocupações para,
por meio de regressão múltipla, propor um índice socioeconômico4 para a
população daquele país. Esta pesquisa se tornou um dos trabalhos mais
influentes e uma referência metodológica para as pesquisas contemporâneas de
tal forma que outros autores como Stevens e Featherman (1981) e Nakao e Treas
(1992) se propuseram a atualizá-la em diferentes momentos ou se basearam nela
para propor novos indicadores, como Ganzeboom, Graaf e Treiman (1992). Outros
ainda, como Cirino et al. (2002), por exemplo, aplicaram metodologia parecida
para analisar o status socioeconômico em diferentes países.
Não há consenso quanto às variáveis mais adequadas para aferir o nível
socioeconômico, tampouco quanto aos procedimentos metodológicos. No entanto, de
forma geral, o nível de escolaridade, a ocupação e o nível de renda têm sido os
principais descritores (Sirin, 2005). Como observam Alves e Soares (2009), ao
utilizar estas variáveis, as pesquisas assumem o pressuposto que a educação é o
elemento-chave da qualificação para o trabalho (ou o pré-requisito para as
ocupações com maior prestígio) e a renda é a consequência, ou seja, são a causa
e o efeito da posição socioeconômica do indivíduo. Quanto aos procedimentos,
métodos alternativos para fazer face à complexidade das novas realidades da
sociedade ou em função de críticas a estudos anteriores, como Osborn (1987),
têm colaborado para o avanço da área.
O índice de status social proposto por Hollingshead (1975) utiliza quatro
fatores: educação (nível de escolaridade completo), sexo, ocupação e estado
civil. O autor considerou sete níveis de escolaridade, classificou as ocupações
em nove níveis e formou categorias de estado civil (combinando as categorias:
estado civil; trabalhador e não trabalhador; com renda ou sem renda). A
variável sexo foi utilizada apenas como controle. Foram atribuídos pesos às
variáveis educação e ocupação. Assim, o índice para os indivíduos é calculado a
partir dos níveis da ocupação e escolaridade ponderados pelo peso dos fatores.
O status da família considera o estado civil e, em caso de casal, o nível de
formação e ocupação média dos cônjuges.
O trabalho de Osborn (1987) apresenta um método alternativo para construção de
um índice da posição social das famílias. O índice é composto por sete
variáveis: ocupação e nível de escolaridade dos chefes da família, tipo de
moradia, house tenure5, quantidade de pessoas por quarto, carro e telefone. O
autor argumenta sobre as vantagens do índice no que se refere à confiabilidade
e sensibilidade para avaliar o status socioeconômico em casos em que não há
informações relevantes sobre a ocupação dos indivíduos.
O International Socio-Economic Index of Occupational Status (ISEI) proposto por
Ganzeboom, Graaf e Treiman (1992) foi construído a partir da comparação de
variáveis relativas à educação, ocupação e renda de 73.901 trabalhadores do
sexo masculino em 16 países. Os autores atribuíram escores e formaram 271
categorias de ocupações, de forma a maximizar a ocupação enquanto variável
interveniente da renda e nível de escolarização. A proposta dos autores é
inferir e comparar o status social de indivíduos de diferentes países apenas
com a informação da ocupação, sem a necessidade de coletar dados sobre renda e
escolaridade. Devido às suas características, o ISEI tem sido utilizado em
avaliações educacionais internacionais como o Programme for International
Student Assessment (PISA)6, em que o status socioeconômico do aluno é inferido
por meio da informação da ocupação dos pais. O ISEI foi atualizado e
padronizado de acordo com a International Stardard Classification of Occupation
de 1988 (ISCO88)7 em Ganzeboom e Treiman (1996).
No Brasil, entre os trabalhos que utilizaram dados sobre rendimento e educação
dos levantamentos demográficos como Duncan (1961), destacam-se os de Scalon
(1998), Jannuzzi (2000), Santos (2005) e Pastore e Silva (2000). Scalon (1998)
apresenta um debate teórico entre neomarxitas e neoweberianos, com base nos
estudos empíricos de estratificação de Wright e Goldthorpe, para embasar sua
proposta de classificação de estratos sociais. Para tanto, utilizou dados de
rendimento e educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)
1988 de indivíduos do sexo masculino entre 20 e 64 anos. A autora utilizou a
análise de conglomerados com método hierárquico para definir estratos a partir
das duas variáveis objetivas e realizou análises log-lineares para reduzir o
número de classificações e encontrar um modelo de classificação que melhor
representasse a estrutura de classes no Brasil. Este estudo tomou como
referência as 18 classes de ocupação propostas por Valle Silva (1992, apud
Scalon, 1998) e, ao final, propôs a classificação das 342 ocupações em nove
classes ocupacionais. Nestes trabalhos, além do aspecto objetivo dos fenômenos
renda e educação medidos pelas variáveis da PNAD, os autores buscaram
classificações capazes de agrupar indivíduos com posições de mercado e trabalho
similares e que contemplassem características teóricas que constituem elementos
relevantes para a estrutura de posições sociais, tais como: proprietário/não
proprietário; qualificado/não qualificado; trabalho manual/não manual; rural/
urbano; autonomia/não autonomia, controle/não controle etc.
O trabalho de Jannuzzi (2000) utiliza uma base de dados maior (censos de 1980 e
1991 e as PNADs da década de 1990) para propor e comparar dois índices.
Inicialmente, o autor calcula a mediana da renda e educação para cada ocupação
a fim de construir o índice socioeconômico posicional (Isep), que é o status
médio dessas duas medidas de tendência central (o autor padronizou o índice
numa escala de 0 a 100). Em seguida, Jannuzzi propõe uma medida de distância
socioeconômica utilizando as mesmas variáveis. Para isso, utiliza a análise
fatorial, com o método de componentes principais para reduzir os dados, e os
escores fatoriais, padronizados entre 0 e 100 para obter o índice
socioeconômico distancial (Ised). O autor verifica a consistência e coerência
dos resultados entre os dois índices e, com base nas 18 classes de Valle Silva
(1992, apud Jannuzzi, 2000), propõe o agrupamento das ocupações em cinco
estratos sociocupacionais.
Igualmente, Pastore e Silva (2000) utilizaram em seu Índice de Status
Socioeconômico (ISS) dados da PNAD de 1996 e as variáveis "renda total" e "anos
de estudo". Para cada ocupação foi calculada a média das variáveis. Em seguida,
o resultado das ocupações foi padronizado numa escala de 0 a 100 para facilitar
a comparabilidade. O ISS é a média dos escores em cada variável e indica a
posição do indivíduo no mercado de trabalho. A partir dos escores, as ocupações
foram agregadas e formaram seis estratos8 com características gerais
semelhantes. Metodologias semelhantes a esta têm sido aplicadas à educação para
inferir o status socioeconômico dos alunos, como no vestibular da Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG), citado por Alves e Soares (2009), que uma das
perguntas do questionário contextual indaga aos alunos sobre as características
gerais da ocupação dos pais. Dessa forma, a posição da família é inferida com
base no estrato ocupacional em que os pais se enquadram.
Entretanto, as medidas do nível socioeconômico para alunos sofrem limitações
diante das dificuldades em obter informações precisas sobre a renda e a
ocupação dos pais junto aos alunos. Para contornar este óbice, as pesquisas e
avaliações educacionais geralmente utilizam a estratégia de medir a riqueza da
família de forma indireta, por meio da verificação de itens de consumo das
famílias e escolaridade dos pais. Neste sentido, o Critério de Classificação
Econômica Brasil (CCEB), desenvolvido pela Associação Nacional das Empresas de
Pesquisa (Anep), mais conhecido como "Critério Brasil", fornece uma metodologia
alternativa que tem sido bastante utilizada para conhecer o nível
socioeconômico das pessoas de forma indireta. O indicador é calculado a partir
da atribuição de pontos à quantidade de bens (TV, rádio, banheiro, carro,
empregada doméstica, aspirador, máquina de lavar, vídeo/DVD, geladeira e
freezer) que os indivíduos possuem, além de considerar o nível de instrução do
chefe da família. Para cada bem possuído há uma pontuação, e as sete classes
são definidas pela soma dos pontos (Pereira, 2004). Apesar de ter sido
concebido para avaliar o poder de compra de grupos de consumidores e,
consequentemente, orientar esforços de marketing e vendas das empresas, o
indicador tem sido útil às pesquisas educacionais, como, por exemplo, Inep
(2005), que adotam metodologias baseadas no "Critério Brasil" para descrever as
características socioeconômicas dos alunos.
Mesmo assim, como afirmam Alves e Soares (2009), há limitações nas medidas
indiretas do status socioeconômico da família. Uma delas é a comparação
temporal, uma vez que itens (como DVD, telefones e computador) inicialmente
acessíveis apenas às camadas mais privilegiadas, com o tempo, tornam-se
populares e passam a não diferenciar os estratos sociais. A outra limitação é
espacial, uma vez que podem refletir o hábito de consumo de determinadas
regiões mais do que de outras e, desse modo, captar pouco o status
socioeconômico de algumas realidades sociais, não permitindo uma comparação
adequada entre elas. Os autores também advertem que o nível de escolaridade
para a geração mais jovem não é um indicador tão robusto da posição social como
no passado, devido à expansão do acesso à escola nas últimas décadas. O
argumento é que atualmente a diferenciação social não se dá apenas pelos anos
de estudo (ou "quantidade" da educação), mas também pela diferença da qualidade
da educação a que se tem acesso.
Em que pesem estas considerações, algumas propostas de indicador socioeconômico
para alunos baseadas em medidas de riqueza indireta são apresentadas por Soares
(2004) e Soares e Andrade (2006). O estudo de Soares (2004) propôs uma medida
no nível socioeconômico (NSE) com base na metodologia utilizada pelo PISA, que
faz uso de dados dos alunos referentes a quatro aspectos: (a) exclusão social -
presença ou ausência de abastecimento de água, energia elétrica e pavimentação
na rua; (b) escolaridade dos pais - número máximo de anos de estudo do pai e da
mãe; (c) evidência da riqueza da família - número de pessoas por quarto (em que
uma menor relação indica melhor condição), existência de empregada doméstica;
número de automóveis na residência do aluno; (d) existência de bens
educacionais em casa - lugar calmo para estudar, jornal diário, revista,
enciclopédia, atlas, dicionário, calculadora e acesso à internet. O autor
agregou estas variáveis em um único índice via análise fatorial.
A metodologia proposta por Soares e Andrade (2006) utilizou dados dos "itens de
conforto" existentes na casa dos estudantes (TV em cores, videocassete, máquina
de lavar, computador, automóvel, banheiro, empregada doméstica, aspirador de
pó, TV a cabo, telefone fixo ou celular, geladeira duplex, freezer e sala),
indicadores de renda (renda do grupo familiar, ocupação do pai e da mãe); e
escolaridade dos pais. Com base nestas variáveis, os autores calcularam um
indicador para cada aluno e outro agregado por escola por meio da Teoria de
Resposta ao Item (TRI) a fim de controlar o efeito da posição social dos alunos
nas avaliações do sistema de ensino.
Com o mesmo propósito, o indicador socioeconômico apresentado por Alves e
Soares (2009) foi construído a partir de informações de 4,6 mil alunos9 das
redes pública e privada de Belo Horizonte. O indicador contemplou os aspectos
educação, ocupação, região de moradia e renda da família dos alunos. Para isso,
foram utilizadas as variáveis nível de escolaridade das mães e a ocupação do
pai ou da mãe (a de maior status ocupacional), que foi localizada nas seis
classes propostas por Pastore e Silva (2000). Para estimar a renda, em vez de
utilizar itens de consumo e/ou conforto das famílias, foi utilizado o Código de
Endereçamento Postal (CEP) do domicílio dos alunos. A hipótese subjacente é que
as famílias com nível socioeconômico semelhante se aglutinam por região de
moradia. A partir deste código foi calculada a renda média dos responsáveis
pelos domicílios dos setores censitários (definidos pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística - IBGE) a que pertencem os CEPs para estimar a renda
das famílias dos alunos. A variável renda para compor o indicador foi
apresentada em cinco faixas. Estas três variáveis categóricas foram incluídas
em um modelo de TRI que calculou o indicador representativo do status
socioeconômico dos alunos.
Assim, os procedimentos de construção de medidas de status socioeconômico
encontrados na literatura pesquisada nortearam a proposta de indicador
municipal apresentada neste artigo.
ASPECTOS METODOLÓGICOS
A construção do ISE-M no presente trabalho foi realizada por meio de uma
pesquisa quantitativa descritiva. Como informado, o índice que visa descrever,
de forma agregada, o contexto econômico e/ou social dos alunos das escolas
públicas nos municípios brasileiros foi proposto neste nível para servir como
uma medida suficientemente ampla para ser analisada em contraponto com
políticas educacionais relacionadas ao financiamento, avaliação e análise da
infraestrutura educacional das redes de ensino (condições dos prédios
escolares, disponibilidades de equipamentos e materiais necessários ao ensino
de qualidade, existência de espaços educativos como laboratórios e bibliotecas
e condições de trabalho dos docentes - formação, salário e carreira).
Para isso, foram utilizados dados secundários referentes aos bens e serviços
disponíveis nas casas dos alunos e o nível de escolaridade dos pais ou
responsáveis, levantados por meio do questionário contextual preenchido pelos
participantes da Prova Brasil10 em 2011.
Variáveis
Com base nos estudos apresentados na seção anterior, que mediram o status
socioeconômico a partir dos fatores renda, ocupação e educação dos indivíduos,
neste artigo, de acordo com as possibilidades da fonte utilizada, foram
selecionadas as questões da Prova Brasil11 que descreviam, de forma indireta, a
renda (por meio da descrição dos recursos econômicos) e a educação (pelo nível
de escolaridade dos pais) das famílias dos alunos para operacionalizar a
construção do ISE-M. O Quadro_1 apresenta as questões selecionadas e as
variáveis geradas a partir delas.
Como mostra o quadro, a Prova Brasil levantou dados por aluno utilizando
variáveis categóricas (em escala ordinal). Por isso, para obter as variáveis
métricas que formaram o indicador, foi necessário agregar os dados em nível
municipal e mudar o elemento de análise dos dados originais. Isso foi possível
por meio da análise de frequências absolutas e relativas das respostas dos
alunos em cada item das questões do questionário. Em seguida, foram atribuídos
pesos à quantidade de itens disponíveis nos domicílios para calcular a média
ponderada dos municípios em cada questão. Por exemplo: a questão 5 indaga se na
casa dos alunos não tem ou tem uma, duas, três ou mais televisões em cores.
Neste caso, foram atribuídos os pesos zero para "não tem" e peso um, dois ou
três, respectivamente, para as demais alternativas. Desse modo, pelo resultado
da média ponderada, cada município obteve uma pontuação entre zero e três, onde
zero indica que todos os alunos do município não têm televisão e três indica
que todos têm três ou mais televisores em cores. Em seguida, o resultado da
média ponderada em cada município foi padronizado para uma escala com valor
mínimo igual a zero e máximo igual a um (a padronização foi necessária porque
as questões apresentavam formatos diferentes e, consequentemente, escalas
diferentes de pontuação). Assim foi gerada a variável "Televisão".
Este processo guarda certa semelhança com o procedimento adotado pelo "Critério
Brasil", uma vez que considera a quantidade de itens e não apenas a
disponibilidade ou não dos descritores do contexto socioeconômico. Procedimento
análogo foi realizado para obter as demais variáveis que formaram o ISE-M,
exceto a variável "escolaridade do pai" e "escolaridade da mãe" em que não
foram consideradas todas as alternativas de resposta, a fim de se obter maior
variabilidade (e, consequentemente, maior poder de discriminação entre os
municípios). Nestas variáveis foram consideradas apenas as alternativas
relativas à escolarização em nível médio e superior.
Com o intuito de dar maior confiabilidade ao indicador, observou-se a
quantidade de respostas válidas
12
em cada variável. Após este procedimento, só foram consideradas no cálculo do
ISE-M de cada município as variáveis que contavam com pelo menos vinte
respostas válidas13. Tal estratégia visou não subestimar ou superestimar o
indicador em caso de grande número de respostas inválidas.
Procedimentos para Calcular o Indicador
As informações das variáveis foram reduzidas por meio de Análise Fatorial,
utilizando o método de componentes principais para extração dos fatores e o
método de rotação varimax. Esta foi uma estratégia alternativa a outros métodos
também utilizados para construção de indicadores, como por exemplo, a TRI14
utilizada em outros trabalhos sobre o mesmo tema. Tal escolha foi realizada uma
vez que, de acordo com Pasquali e Primi (2003), um dos pressupostos básicos
para aplicação da TRI consiste na unidimensionalidade, o que não pode ser
garantido para os dados utilizados neste trabalho. Além disso, o que diferencia
os dois métodos (TRI e análise fatorial) é a interpretação dos resultados. A
Análise Fatorial exploratória é empregada para encontrar o menor número
possível de variáveis hipotéticas que ilustram as relações dentro de um grande
número de variáveis consideradas inicialmente, ou seja, consiste em uma técnica
de redução de dados. A TRI objetiva modelar e entender a interação entre
respondentes e itens. No presente estudo, o interesse consistiu em construir um
indicador com base nas variáveis consideradas, o que justifica o uso da análise
fatorial.
Após a definição da técnica para análise dos dados, em procedimento análogo ao
de Fachel (1976), as cargas fatoriais de cada fator foram ponderadas pelo
percentual de variância explicada nos respectivos fatores e, assim, foi gerada
uma pontuação para cada município. Para facilitar a interpretação, o escore
obtido no fator renda foi padronizado para uma escala de valores entre zero e
um.
Apresentação dos Resultados
Obtido o indicador, foi explorado o potencial da medida para destacar e
diferenciar as realidades socioeconômicas dos alunos no país. Inicialmente,
foram identificados os municípios com as melhores e piores colocações no
ranking formado pelo ISE-M. Também foram descritas algumas características
destas localidades. Em seguida, para facilitar a apresentação dos resultados,
os municípios foram classificados em cinco níveis formados pelo 20o, 40o, 60o e
80o percentil do indicador. Dessa forma, o primeiro nível agrupou os municípios
cujo conjunto de alunos tem status socioeconômico menos favorecido, e o quinto
nível, os mais favorecidos. O passo seguinte consistiu na análise dos
resultados em cada Estado, a fim de compreender as semelhanças e diferenças
regionais. Por fim, os municípios classificados nos cinco níveis do ISE-
M formaram um mapa do contexto socioeconômico dos alunos das escolas públicas
nos municípios brasileiros.
Validação
Alguns trabalhos que propuseram medidas socioeconômicas realizaram
procedimentos de validação por meio da análise da correlação entre os achados
dos índices propostos e outras medidas da mesma natureza (Ganzeboom e Treiman,
1996; Hollingshead, 1975; Cirino et al., 2002, por exemplo). Para validar o
ISE-M foi adotado o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) do ano de
2012 (ano base 2010), calculado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio
de Janeiro (Sistema Firjan) como parâmetro. Este indicador é calculado
anualmente desde 2000 com o objetivo de fazer um acompanhamento socioeconômico
dos municípios e suprir lacunas de informações neste nível com tal
periodicidade (Firjan, 2010). É composto por variáveis que descrevem três
fatores: emprego e renda; educação; e saúde15. Dessa forma, é apresentado um
indicador específico para cada fator e um geral (o IFDM), formado pela média
dos três anteriores. Os resultados do ISE-M foram comparados com IFDM-
emprego&renda, que é formado pelo aspecto renda (que de certa forma foi
captado no ISE-M pelos recursos econômicos das famílias dos alunos) e emprego
(que, em geral, está associado ao nível de escolaridade e foi medido pelo ISE-
M com base na escolaridade dos pais).
ANÁLISE DOS RESULTADOS
Para o cálculo do ISE-M, foram utilizados 3.899.32716 questionários constantes
nos arquivos dos microdados da Prova Brasil 2011 disponibilizados pelo Inep/
MEC17. Estes alunos estavam matriculados em 46.290 escolas urbanas18 (85% do
total de escolas desta etapa de ensino e localização), sendo 0,1% federais,
45,9% estaduais e 54% municipais; 52,8% dos alunos cursavam o 5o ano e 47,2%
cursavam o 9o ano; 59,4% estudavam no turno matutino, 39,2% no vespertino e
1,4% no noturno; e estavam situados em 5.492 municípios das 27 unidades da
federação.
Inicialmente, antes do cálculo do ISE-M propriamente dito, foi calculado o
coeficiente de variação para identificar as variáveis com maior potencial de
discriminação dos casos. Este procedimento visou minimizar uma limitação que os
dados levantados por meio de questionários contextuais aplicados a alunos podem
apresentar para análise do status socioeconômico, uma vez que, como alertam
Alves e Soares (2009), alguns itens se popularizam com o passar do tempo e
passam a não diferenciar a posição social dos indivíduos. Desse modo, as
variáveis cujo coeficiente estava abaixo de 20%, tais como televisão (V1),
videocassete ou DVD (V3), geladeira (V4) e banheiro (V8), foram descartadas
(veja Apêndice_1). Em seguida foi analisada a matriz de correlação das nove
variáveis restantes. Verificou-se que a variável "empregada doméstica" (V9)
apresentava baixas correlações com as demais (veja Apêndice_2) e que, em
virtude disso, não seria pertinente sua inclusão, por não atender uma das
premissas da técnica utilizada.
Realizados estes procedimentos, a etapa seguinte consistiu na redução, por meio
da análise fatorial, do volume de informações dos alunos de cada município
descritas em oito variáveis: seis relativas aos recursos econômicos das
famílias dos alunos (fator renda) e duas representativas da escolaridade dos
pais (fator educação). Os resultados satisfatórios em todas as estatísticas
(veja Apêndice_3) mostram que a aplicação da técnica ao conjunto de dados foi
pertinente.
Assim, o ISE-M foi gerado para 5.333 municípios19 e, como dito na seção
anterior, foi apresentado numa escala de valores padronizados de zero a um (em
que um foi atribuído ao município cujos alunos das escolas públicas urbanas
possuem melhor nível socioeconômico e zero àquele com o pior nível
socioeconômico)20. A média dos municípios no índice ISE-M foi 0,436, sendo que
50% deles obtiveram indicador de até 0,434 (mediana). Os municípios foram
agrupados em cinco níveis (divididos em cinco partes iguais por meio do 20o,
40o, 60o e 80o percentil21), de acordo com a performance no indicador. A Tabela
1 descreve as características predominantes dos municípios em cada nível do
indicador. Nela está indicado o percentual de alunos que possuem os bens de
consumo descritos pelas variáveis que compõem o indicador e o percentual de
pais que concluíram pelo menos o nível médio nos municípios situados nos cinco
níveis do ISE-M.
Inicialmente, a tabela mostra que há itens com acesso mais disseminado entre os
estratos socioeconômicos como, por exemplo, rádio e videocassete ou DVD. Outros
itens, como carro, computador e internet, estão fora do acesso da maior parte
das famílias dos estudantes das escolas públicas brasileiras. Destaca-se também
na tabela o fato de que, em média, apenas pouco mais de um terço dos pais e
mães destes alunos concluíram a formação em nível médio ou superior, inclusive
nos municípios que compõem o melhor nível (ou seja, o nível de formação dos
pais é baixo e não varia muito entre os municípios). Detalhando um pouco mais
os microdados, foi possível verificar que apenas 24,3% das mães e 22,1% dos
pais dos alunos das escolas públicas urbanas avaliadas concluíram o ensino
médio e somente 13% das mães e 13,3% dos pais têm formação em nível superior
(informações calculadas somente a partir das respostas válidas)22. O nível de
escolaridade dos pais é um aspecto importante para direcionar as políticas
públicas educacionais, uma vez que estudos como Barros et al. (2001) e
Hasenbalg e Silva (2000) mostram forte associação entre a educação dos pais e
dos filhos no Brasil, em outras palavras, que ocorre transmissão
intergeracional da condição educacional das famílias.
Ainda sobre os resultados apresentados na Tabela_1, vale ressaltar também que
algumas variáveis apresentam menores diferenças entre os municípios
classificados entre os níveis inferiores e superiores do ISE-M (rádio e
escolaridade dos pais, por exemplo), enquanto em outras a diferença da média
entre o quinto e o primeiro nível é superior a três vezes (por exemplo, a
variável carro, computador e internet). Verificou-se, por meio do teste F (com
finalidade descritiva), que as variáveis que mais discriminam a diferença de
média entre os grupos são, respectivamente, computador, internet, freezer,
carro, máquina de lavar roupa, rádio, escolaridade do pai e escolaridade da mãe
(ver Apêndice_4).
Para se ter uma ideia das características dos municípios classificados de
acordo com os resultados do indicador, São Caetano do Sul-SP (ISE-M = 1,00),
Ernestina-RS (ISE-M = 0,99) e Águas de São Pedro-SP (ISE-M = 0,94) foram as
localidades que obtiveram os melhores desempenhos na medida socioeconômica.
Segundo dados do IBGE, o município melhor colocado tem uma população estimada
em 149.263 habitantes (Censo 2010) e PIB per capita de R$ 78.43823 (a preços
correntes de 2011). Cerca de 48,6% das mães e 39,3% dos pais dos alunos que
realizaram a Prova Brasil em 2011 neste município concluíram o ensino médio ou
superior. Por outro lado, os municípios com os piores desempenhos no indicador
foram Sambaíba-MA (ISE-M = 0,00), Bom Princípio do Piauí-PI (ISE-M = 0,01) e
Pau D'Arco do Piauí-PI (ISE-M = 0,03). Sambaíba é um município com 5.487
habitantes e PIB per capita de R$ 16.845. Apenas 11,5% das mães e 10% dos pais
dos alunos concluíram o ensino médio ou superior. A Tabela_2 compara algumas
características dos municípios com os melhores e piores resultados no ISE-M.

Como mostram os dados da Tabela_2, os municípios cujo conjunto de alunos tem
maior status socioeconômico têm maior PIB per capita. Seguindo estas
evidências, a associação entre o ISE-M e o PIB per capita foi verificada pelo
coeficiente de correlação de Pearson (r = 0,464). A associação se mostrou mais
expressiva quando as variáveis foram analisadas sob a forma categórica a partir
dos cinco níveis das variáveis formados pelos 20o, 40o, 60o e 80o percentil
(correlação de Kendall = 0,566 e Sperman = 0,765).
Vale ressaltar também que foi verificada correlação positiva expressiva entre o
ISE-M e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)24 - coeficiente
de correlação de Pearson igual a 0,452 para o 5o ano da rede pública (escolas
estaduais e municipais), 0,562 para o 9o ano da rede pública. Estes resultados
ratificam os achados de pesquisas que apontaram forte associação entre
desempenho educacional e origem socioeconômica dos alunos, tais como Colemanet
al., 1966; Rutter et al., 1979; Willms, 1992; Lee, 2000; Hanushek, 1979; 1986,
entre outras.
Numa tentativa de validar o indicador proposto, os resultados do ISE-M foram
comparados ao Índice Firjan-emprego&renda. Verificou-se que há correlação
de 0,527 entre os indicadores, e que, dessa forma, o ISE-M conseguiu
discriminar com boa aproximação os contextos municipais (entre ISE-M e Índice
Firjan geral, obteve-se r = 0,747).
O ISE-M nos Contextos Regionais
A Tabela_3 apresenta o número total de municípios por unidade da federação (UF)
que obteve o ISE-M e a proporção de localidades de cada UF e região em cada
nível do ISE-M, além do valor por aluno estimado no âmbito do Fundeb para o
financiamento das escolas públicas em 2011
25
.
Com base na tabela, verifica-se que a distribuição dos municípios nos níveis do
ISE-M em cada estado não é homogênea. Pelo contrário, há grande disparidade em
desfavor dos estados das regiões Norte e Nordeste. Ou seja, há evidências de
associação entre os níveis de ISE-M e as regiões brasileiras, como ratifica o
coeficiente de contingência (Stevenson, 1986) igual a 0,753. A região Norte é
caracterizada por intensa desigualdade. Apenas 6% dos municípios estão entre os
mais ricos, e a maior parte em níveis inferiores (44,9% no segundo e 15,9% no
primeiro nível). O Nordeste, que abriga quase um terço (32%) dos municípios
brasileiros, é a região onde se concentra a maior proporção de municípios com
alunos de escolas públicas mais pobres: 54,3% dos municípios desta região estão
entre os 20% mais desfavorecidos e 90,8% estão até no 2o nível do ISE-M. Nesta
região, apenas o município de Fernando de Noronha-PE está no 5o nível. O
Centro-Oeste é a região intermediária. Os municípios estão em sua maioria
(43,9%) no 3o nível e no 4o nível (41%) do ISE-M. O melhor contexto desta
região é encontrado no Distrito Federal (cuja localidade única, Brasília, está
no 5o nível) e no Mato Grosso do Sul com 60,3% das localidades no 4o nível. Nas
regiões Sul e Sudeste, destacam-se São Paulo (51,4%), Santa Catarina (63,2%) e
Rio Grande do Sul (68,9%) em que a maior parte dos municípios está entre os 20%
mais favorecidos. Minas Gerais, o estado com maior número de municípios do país
(mais de 15% do total do país), merece destaque pela distribuição dos
municípios em todos os níveis e maior concentração no terceiro nível (37,9%).
Outra informação relevante apresentada na Tabela_3 é o valor estimado para
investimento na formação dos alunos das escolas públicas em 2011, ou seja, os
valores (em quase sua totalidade) que o Estado brasileiro investe por aluno por
meio de sua política de financiamento da educação básica. Neste ponto, é
preciso situar que os valores investidos em cada Estado estão muito abaixo do
que os países desenvolvidos investem. Segundo dados da Organização ntes para
destacar que os países que atualmente possuem um sistema educacional mais
inclusivo e com qualidade reconhecida, que já superaram o desafio de matricular
todas as crianças e jovens em idade escolar e dotar todas as escolas com itens
de infraestrutura educacional elementar para um ensino de qualidade (como
biblioteca, laboratório de ciências e depara a Cooperação e Desenvolvimento
Econômico (OCDE) de 2010 (OCDE, 2013), os países membros daquela organização
investem, em média, US$ppp 9.01426 por aluno ao ano no nível equivalente ao
ensino fundamental brasileiro. O Brasil, segundo aquele levantamento, com o
valor médio de US$ppp 2.571, investe menos do que países vizinhos como o Chile
e a Argentina que gastam, respectivamente, US$ppp 3.110 e US$ppp 3.930 por
aluno ao ano27 (OCDE, 2013). Estes dados são importa informática, acesso à
internet e quadra de esportes, além de todos os professores com pelo menos
formação em nível superior), tarefa que o Brasil ainda tem longo caminho para
concluir, investem mais em Educação Básica (Alves e Passador, 2011; Pinto e
Alves, 2011).
Considerando os valores estimados para o Brasil em 2011, que variam entre R$
1.72928 (praticados por dez estados: AM, PA, AL, BA, CE, MA, PB, PE, PI e RN) e
R$ 2.915 (praticado em Roraima), verifica-se que não há relação entre o nível
socioeconômico da população escolar e os valores praticados nos estados, e que,
dessa forma, as diferenças na capacidade de investimento (que é de 53%, por
exemplo, entre o estado mais rico da federação, São Paulo, e os dez estados que
praticam os menores valores do fundo) podem atuar como reforçador das
desigualdades educacionais regionais.
Neste sentido, nota-se que, no Nordeste, onde há maior proporção de municípios
com baixo nível socioeconômico, oito estados praticam o valor mínimo nacional
do Fundeb. No Norte, destaca-se o caso de Roraima que, na condição de ex-
território, consegue auferir boa arrecadação tributária para um número
proporcionalmente menor de alunos, o que lhe dá a condição de maior valor per
capita nacional. Na região Centro-Oeste, a ordem de valores do fundo e do nível
socioeconômico dos municípios nos estados é diametralmente inversa ao que
sugeriria uma política de financiamento baseada na equidade. O descompasso
entre posição socioeconômica dos municípios e valor do Fundeb também é
verificado no Sul e no Sudeste, quando analisados separadamente. Este cenário
mostra que a política de financiamento educacional não consegue equalizar as
diferenças do potencial de arrecadação tributárias impostas pelas
peculiaridades econômicas dos estados e pela configuração do federalismo fiscal
brasileiro para garantir igualdade no financiamento da oferta do direito à
educação29.
Isso tem se traduzido em estratificação das oportunidades e resultados
educacionais entre os estados brasileiros (com desvantagem para as localidades
em que vive maior proporção da população mais pobre), sobretudo nos aspectos
objetivos que podem ser aperfeiçoados por meio de maior investimento financeiro
do Estado (infraestrutura das escolas, materiais didáticos, salários e formação
dos profissionais da educação), como mostram Alves, Gouveia e Viana (2012) e
Alves e Silva (2013).
O mapa apresentado na Figura_1 mostra a distribuição dos municípios no
território nacional e localiza espacialmente as informações da Tabela_3.
[/img/revistas/dados/v57n1/05f01.jpg]
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A proposta de indicador apresentada neste artigo partiu das evidências
acumuladas em pesquisas de que o nível socioeconômico dos alunos é um fator
relevante para explicar as diferenças do desempenho escolar e,
consequentemente, da apropriação dos resultados educacionais pelos diferentes
grupos sociais. Partiu também do pressuposto de que é tarefa do Estado
amenizar, por meio de ações equalizadoras, os efeitos indesejados da pobreza no
desempenho das crianças e jovens que chegam às escolas públicas em desvantagem.
O indicador descreveu o contexto econômico das famílias e a escolaridade dos
pais de quase três milhões de alunos agregados em 5.333 municípios. Os
resultados mostraram que há associação positiva entre o status socioeconômico
dos alunos e as regiões do país. Também foi evidenciada a ineficácia do modelo
de financiamento praticado pela política de fundos para corrigir o descompasso
entre nível socioeconômico dos alunos das diferentes regiões e a capacidade de
investimento em educação no contexto dos estados no atual quadro do federalismo
fiscal brasileiro, sem contar com maior participação dos recursos da União
neste nível de ensino.
Neste contexto, a construção de uma medida como o ISE-M sugere, como estratégia
útil às secretarias municipais e estaduais de educação para a identificação das
comunidades mais desfavorecidas no âmbito de suas redes, que estudos futuros
apliquem a metodologia proposta ao nível das unidades escolares, constituindo
assim um indicador socioeconômico para as escolas. Igualmente, sugere a análise
da associação entre o contexto socioeconômico e o desempenho educacional dos
alunos e as condições de oferta de ensino das escolas.
Por fim, considerando que, de forma ideal, num estado de direito, todos nascem,
de fato, iguais perante a lei, as oportunidades educacionais devem ser
oferecidas igualitariamente entre todos, pois, de outra forma, a educação passa
a servir como fator mantenedor das distâncias entre as classes sociais
(Buchmann e Hannum, 2001; Reardon e Robinson, 2008; Barros et al. 2001; Cury,
2008), Espera-se que o indicador proposto seja somado a outros esforços que
visam instrumentalizar os órgãos gestores da educação brasileira no processo de
identificação dos municípios em que estão, em maior proporção, os alunos
oriundos de contextos socioeconômicos mais desfavoráveis, a fim de que
políticas públicas educacionais norteadas pelo princípio da equidade sejam
direcionadas de modo eficaz.
NOTAS
1. O direito à educação foi inserido pela primeira vez nas constituições
brasileiras no texto de 1934 e só foi suprimido no período de vigência da Carta
autoritária de 1937 até a outorga da Constituição de 1946. O dever da oferta
pelo Estado, por sua vez, constou pela primeira vez na Constituição de 1988.
2. Apesar de a Prova Brasil ter sido realizada também em 2013, os microdados
desta edição não haviam sido disponibilizados pelo Inep/MEC no período de
finalização deste artigo.
3. Devido às características do federalismo brasileiro, que admite a figura dos
municípios como ente federativo com estrutura político-administrativa autônoma
e o regime de cooperação entre União, Estados e Municípios para oferta da
educação (art. 211 da Constituição Federal), as municipalidades constituem um
lócus importante para as políticas públicas educacionais. Nelas, os governos
municipais atuam por meio de secretarias de educação próprias, as secretárias
estaduais implementam suas estratégias por meio de unidades regionais que
agregam um certo número de municípios e a União desenvolve suas ações
suplementares (como, por exemplo, nos convênios realizados no âmbito do Plano
de Ações Articuladas, que incentiva a elaboração de um plano educacional no
âmbito dos municípios).
4. Embora tenha sido o mais influente para as pesquisas sociológicas
contemporâneas, o trabalho de Duncan não foi pioneiro. Iniciativas semelhantes
foram empreendidas por Chapin (1928) e Blishen (1958) em décadas anteriores.
5. Informa os aspectos econômicos da opção de moradia da família no que se
refere à locação, forma de aquisição ou propriedade do imóvel. Esta variável
geralmente é utilizada em pesquisas sociais como indicador de renda e riqueza
da família.
6. Programa internacional de avaliação comparada organizado pela Organização
para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que abrange três
habilidades: leitura, matemática e ciências. O teste é aplicado a estudantes de
15 anos (idade que coincide com o final do período da escolarização básica
compulsória em grande parte dos países) dos países membros da OCDE (29 países
desenvolvidos e o México) e outros, como o Brasil, que participam como
convidado. Na edição de 2009, o PISA contou com a participação de 66 países.
7. A versão mais atual da ISCO foi publicada pela International Labor
Organization, em 2008.
8. Os estratos ocupacionais vão de baixo-inferior (formado por trabalhadores
rurais não qualificados), passando por níveis intermediários como baixo-
superior, médio-inferior, médio-médio e médio-superior até alto (composto por
profissionais de nível superior e grandes proprietários).
9. Estas informações fazem parte do banco de dados de uma pesquisa longitudinal
realizada com mais de 20 mil alunos em mais de 300 escolas de cinco cidades
brasileiras denominada Geres.
10. Esta avaliação compõe o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb)
realizado pelo Inep/MEC a cada dois anos desde 1990. Este sistema foi
restruturado em 2005 e, a partir daquele ano, passou a aplicar uma avaliação
adicional censitária, conhecida como Prova Brasil. O objetivo desta prova é
avaliar as habilidades dos estudantes em língua portuguesa e matemática por
meio de testes padronizados com base na proposta do currículo nacional. Além
disso, aplica questionários contextuais a alunos, professores e diretores para
conhecer aspectos intervenientes do processo educacional e da qualidade do
ensino: a origem socioeconômica dos alunos, as condições de trabalho dos
profissionais da educação, a organização do trabalho da escola etc.
11. O questionário completo aplicado aos alunos da 4a série (5o ano) tem 54
questões, e, aos alunos da 8a série (9o ano), tem 58 questões. Ambos podem ser
acessados em ftp://ftp.inep.gov.br/microdados/microdados_prova_brasil_2011.zip
12. As questões anuladas, em branco ou que os alunos declaravam não saberem a
resposta foram consideradas inválidas.
13. Acredita-se que este número é razoável, uma vez que a Prova Brasil é
aplicada somente em escolas públicas urbanas com pelo menos vinte alunos. Este
é um dos critérios necessários adotados para possibilitar a estimação do
desempenho médio ao nível de escolas e municípios.
14. Conforme Pasquale e Primi (2003:102), "a Teoria da Resposta ao Item é uma
teoria do traço latente aplicada primariamente a testes de habilidade ou de
desempenho. O termo teoria do traço latente se refere a uma família de modelos
matemáticos que relaciona variáveis observáveis (itens de um teste, por
exemplo) e traços hipotéticos não observáveis ou aptidões, estes responsáveis
pelo aparecimento das variáveis observáveis ou, melhor, das respostas ou
comportamentos emitidos pelo sujeito que são as variáveis observáveis. Assim,
temos um estímulo (item) que é apresentado ao sujeito e este responde a ele. A
resposta que o sujeito dá ao item depende do nível que o sujeito possui no
traço latente ou aptidão.
15. O IFDM é composto por nove variáveis divididas em três fatores: emprego e
renda (geração, estoque e salário médio dos empregos formais), educação (taxa
de matrícula na educação infantil, taxa de abandono, taxa de distorção série-
idade; percentual de docentes com formação em nível superior, média de horas de
aulas diárias, resultado do Ideb) e saúde (número de consultas pré-natal,
óbitos infantis por causas evitáveis, óbitos por causas mal definidas). A
metodologia completa dos indicadores do Sistema Firjan está em Firjan (2010) e
pode ser acessada em www.firjan.org.br.
16. Segundo o Inep/MEC, 4.286.276 alunos do 5o e 9o ano do ensino fundamental
regular de 56.222 unidades escolares urbanas e rurais que tinham, pelo menos,
20 alunos matriculados nas referidas séries foram avaliados naquele ano.
Aproximadamente, 99,8% destes alunos preencheram os questionários contextuais.
17. ftp://ftp.inep.gov.br/microdados/microdados_prova_brasil_2011.zip
18. Os questionários dos alunos do meio rural não foram utilizados, uma vez que
as variáveis descritoras do contexto socioeconômico da população são próprias
para o contexto urbano.
19. Não foi gerado ISE-M para 181 municípios que tiveram menos de 20
questionários com respostas válidas em pelo menos uma das variáveis.
20. A lista completa do indicador atribuído aos municípios pode ser obtida
junto aos autores por meio de solicitação via correio eletrônico.
21. Os cinco níveis foram assim definidos: 1o nível <= 0,231; 2o nível > 0,231
e <= 0,344; 3o nível > 0,344 e <= 0, 507; 4o nível > 0,507 e <= 0,634; e 5o
nível > 0,634.
22. É importante destacar que não foi possível identificar a formação das mães
em 30,9% dos questionários devido às respostas inválidas (26,4% não sabiam;
3,3% deixaram em branco e 1,2% foi anulado). O percentual é ainda maior nas
respostas sobre os pais: 43,6% dos questionários não possuíam respostas válidas
(32,3% não sabiam, 10,6% deixaram em branco e 0,7% foi anulado). Claramente, os
alunos da 4a série/5o ano tiveram maior dificuldade para dar esta informação,
pois foram deles 69% das respostas inválidas sobre a escolarização das mães e
61,7% sobre os pais. Para reduzir a possibilidade de viés decorrente das
respostas inválidas, no cálculo do ISE-M foram consideradas apenas as variáveis
que contavam com pelo menos vinte respostas válidas em cada município.
23. O PIB per capita oferece informação sobre o potencial e o dinamismo da
economia. Neste sentido, foi utilizado aqui como parâmetro para indicar, grosso
modo, os municípios mais ricos e mais pobres. O PIB per capita brasileiro em
2011 era, segundo o IBGE, de R$ 21.536. Os municípios com 10% dos menores PIBs
per capita tinham valores de até R$ 4.525. Os 10% maiores alcançaram valores a
partir de R$ 26.252.
24. O Ideb foi criado em 2007 pelo Inep/MEC e é calculado com base no
desempenho dos alunos do 5oe 9o ano nos testes de português e matemática da
Prova Brasil e no índice de aprovação apurado pelo Censo Escolar. Sua
metodologia de cálculo pode ser acessada em http://www.inep.gov.br/download/
Ideb/Nota_Tecnica_n1_concepcaoIDEB.pdf
25. A educação pública brasileira é financiada com recursos vinculados pela
Constituição Federal: pelo menos 18% da receita líquida de impostos da União e
25% dos estados, distrito federal e municípios. No entanto, cada ente
federativo deve atuar nas etapas que lhe cabem atuação prioritária, de acordo
com o regime de colaboração: os municípios, na educação infantil e ensino
fundamental; os estados, no ensino fundamental e médio; e a União, no ensino
superior e de forma suplementar na educação básica. A educação básica também
conta com os recursos (de menor monta) do salário-educação. O Fundeb,
instituído em 2007 para substituir o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do
Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério ( Fundef), que vigorou de
1998 a 2006, é um mecanismo de subvinculação formado por 20% dos recursos dos
impostos e transferências estaduais e municipais (ICMS, FPE, FPM e IPI
Exportação, ITCD, IPVA e ITR). A União acrescenta 10% do total auferido pelos
demais entes a título de complementação (Brasil, 2007).
26. O Purchasing Power Parity Dollar ou dólar com paridade de poder de compra é
uma unidade monetária que torna possível a comparação de valores entre países,
uma vez que equipara o poder de compra de alguns serviços básicos e produtos
consumidos entre as nações.
27. Na publicação da OCDE (2013) consta que o Brasil investe, em média, US$ppp
1.566 nas séries iniciais da educação básica.
28. Estes valores aplicados às séries iniciais do ensino fundamental das
escolas urbanas servem como referência para os demais valores praticados no
Fundeb. A lei que instituiu o fundo estabeleceu coeficientes que alteram o
valor de referência de acordo com a etapa e modalidade de ensino e localidade
(rural/urbana) da escola (Brasil, 2007).
29. Vale ressaltar que o Fundeb é formado no âmbito de cada estado da federação
com recursos financeiros oriundos do esforço de arrecadação de seus respectivos
governos estaduais e municipais. Desse modo, constitui um mecanismo eficaz para
equalizar o valor por aluno investido entre os municípios de uma mesma unidade
da federação, pois redistribui recursos entre as redes de ensino municipais e
estaduais com base no número de matrículas. Igualmente, o fundo, como principal
estratégia da política de financiamento da educação básica brasileira, por ser
instituído nacionalmente por lei federal (Lei 11.494/2007 que altera o art. 60
do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias), também traz em seu bojo a
preocupação em não favorecer as disparidades no valor por aluno entre os
estados. Esta intenção do legislador na concepção do fundo fica evidente no
estabelecimento, em lei, de um valor mínimo nacional (abaixo do qual nenhum
estado poderia ficar). Para a operacionalização deste mecanismo, ocorre a
transferência de recursos do governo federal a título de complementação aos
estados que não atingem o valor mínimo de referência com recursos próprios. Por
isso, em sua concepção, o Fundeb tem mecanismos para também minimizar as
desigualdades entre os estados da federação. Assim, para reduzir mais as
desigualdades, considerando que o governo federal dispõe de maior parte da
arrecadação tributária, cerca de 55,8% em 2011, segundo a Secretaria do Tesouro
Nacional (2011), bastaria que o governo federal elevasse o valor mínimo
nacional do fundo e, consequentemente, elevasse a complementação ao fundo. De
toda maneira, o Fundeb tem possibilitado a minimização do evidente descompasso
entre capacidade de arrecadação das esferas de governo e o investimento em
educação básica, uma vez que, com este fundo (a partir de 2007), a União
contribui para o fundo o equivalente a 10% do investimento dos estados e
municípios, a título de complemento. Antes da instituição deste fundo, o
descompasso era ainda maior, pois, de acordo com Castro (2007) com base em
dados do Ipea, IBGE e Inep, dos 66,6 bilhões gastos em educação básica no
Brasil em 2005, os municípios investiram 49,6%; os estados, 46,6%; e a União,
4,5%.