Petismo e chavismo: variedades de capitalismo e de regulação trabalhista no
Brasil e na Venezuela
No início do século XXI, a América Latina (AL) vive uma profunda transformação
política. Chegaram ao Poder Executivo, na maior parte dos países da região,
governos identificados com um histórico de base popular, ou operária, ou
camponesa, ou étnica, apresentando-se como representantes de maiorias excluídas
de participação ativa da política e da economia desses países por mais de 500
anos. Assim, vimos um indígena presidente da Bolívia, um ex-operário presidente
do Brasil e mulheres governando nações como Chile, Argentina e Brasil. Somados
a esses fatos, os casos de Uruguai, Paraguai,Venezuela, Bolívia, Equador,
Nicarágua e Guatemala são exemplos do que a literatura chama de "terceira onda
de democratização na América Latina" (Hagopian e Mainwaring, 2005; Lanzaro,
2006) ou "maré rosa" (Panizza, 2005).
Dentre os modelos em questão, aprofundaremos nossa análise sobre os exemplos
brasileiro e venezuelano. São dois casos paradigmáticos. A chegada ao poder do
Partido dos Trabalhadores, sobretudo com um ex-operário, seguido por uma
mulher, tem um efeito simbólico incomensurável como renovação para as
esperanças dos trabalhadores no Brasil.
Já na Venezuela, um coronel do Exército e ex-golpista ganhou as eleições de
1998 com a maior margem de votos da história eleitoral do país e se manteve no
poder com amplo apoio popular nas ruas e igualmente ampla oposição dos setores
de classe média e das elites.
Feito esse breve introito, perguntamos: qual desses governos aumentou os
direitos aos trabalhadores? Objetivamos analisar um aspecto central das
políticas públicas na América Latina, mais precisamente às relacionadas ao
mundo do trabalho. Jogaremos luz sobre o tratamento dado às normas trabalhistas
nos dois países nesses primeiros 12 anos do século XXI1.
O objetivo desta pesquisa é encontrar respostas para a pergunta supracitada com
base em um estudo histórico das relações entre capital e trabalho. Para tanto
foi necessário um estudo de longo prazo, do contrário não entenderíamos muitas
das questões esdrúxulas que a envolvem. A análise de curto prazo não nos
possibilitaria perceber o início da relação. Neste sentido, o conceito de path
dependence nos ajudará a compreender de maneira coerente o processo. Daí o
entendermos como averiguação de escolhas feitas em determinadas conjunturas que
resultam em posições no presente, depois das quais diminuem as possibilidades
de trajetórias alternativas, como se existisse uma causalidade social
dependente da trajetória percorrida observada na história(Mahoney, 2001;
Pierson, 2004). Em outras palavras, path dependencedenota que um determinado
ator, ou um conjunto de atores, ao escolher um caminho, implica heranças
institucionais quase irreversíveis e/ou com altos custos para sua reversão.
Ademais, a path dependencepode conter aspectos positivos e negativos.
O artigo está disposto da seguinte maneira: discutimos as determinantes da path
dependence da relação capital-trabalho a partir das heranças institucionais
deixadas pelas políticas neoclássicas e em seguida analisamos as
características do modelo instalado no século XXI para Venezuela e Brasil,
respectivamente, sempre perscrutando as leis trabalhistas. Vamos ao primeiro
passo2.
CAPITALISMO DE LAS CALLES: O CASO DA VENEZUELA
Escrever sobre a história da relação capital-trabalho na Venezuela requer que
levemos em conta cinco aspectos centrais: 1) a enorme dependência econômica do
país da extração de petróleo; 2) a parca industrialização; 3) a existência de
um empresariado deveras dependente do Estado e, em sua maioria, subordinado às
multinacionais desde o descobrimento do petróleo; 4) a formação de uma classe
trabalhadora pouco atuante e reformista, cuja aristocracia operária esteve
ligada ao partido da Acción Democrática (AD); 5) a extrema desigualdade social.
Nesta introdução, esboçamos rapidamente a importância destes aspectos para a
pesquisa em questão.
A economia venezuelana difere de maneira significativa das demais da América
Latina, em particular da do Brasil, o que reflete em uma peculiaridade da
relação capital-trabalho. Na quase totalidade das economias do continente, os
problemas mais fundamentais são a escassez relativa de capital e a reduzida
capacidade para importar. Na Venezuela, historicamente, a situação é
praticamente oposta: o sistema tende a afogar-se em excesso de recursos
financeiros, refletindo em ampla facilidade para importação (Furtado, 2008:56).
Ao mesmo tempo, o caráter rentista da economia moldou uma sociedade e um
aparelho de Estado acostumados às riquezas fáceis e divisas dependentes, em
extremo, do vaivém do mercado petroleiro internacional (Lander, 2005:48; López
Maya, 2006). Todavia, o conjunto destes aspectos não implica a inexistência de
pobreza; ao contrário, as particularidades desta mesma economia e da utilização
destes recursos produzem, igualmente em toda a América Latina, seus grandes
contingentes de pobres e miseráveis em meio a enormes riquezas.
Como explicar este paradoxo? Qual implicação incide sobre a relação capital-
trabalho? A resposta a estas questões requer que entendamos um pouco da
economia venezuelana e sua dependência da exploração do petróleo. Vejamos.
Os enormes recursos petroleiros criaram uma sociedade parasitária, para
lembrar-nos do conceito de Manoel Bomfim (1997), utilizado para caracterizar a
dependência de Portugal da exploração da América portuguesa. A Venezuela sofre
do mesmo mal, pois é "petróleo-dependente". Sua economia extrai riqueza do
subsolo com muita facilidade e, historicamente, serviu para subsidiar a
acumulação no país. O problema foi que este estímulo fácil serviu menos para a
inovação e mais para a dependência do Estado petroleiro. Este foi um dos
fatores que obstou o desenvolvimento industrial na Venezuela, embora não tenha
sido o principal. Destarte, foram muitas as divisas conseguidas com esta
exportação que, por sua vez, forçaram ao Estado a sobrevalorizar a moeda
nacional com vistas a melhor utilizar os recursos advindos da venda do ouro
negro (Furtado, 2008). Se a moeda nacional é sobrevalorizada, então, a melhor
forma de obter grandes lucros é com a importação de produtos. Por consequência,
era mais vantajoso consumir produtos importados do que nacionais. Assim, o
setor do capital que mais se desenvolveu na Venezuela foi o comercial-
financeiro, em detrimento do produtivo (Moncada, 1985). Este aspecto constituiu
um ciclo vicioso que obstou o desenvolvimento da indústria no país e, por
conseguinte, da classe operária. Além disso, a sobrevalorização da moeda
resultou na facilidade de importação de tecnologia, feita, com frequência,
pelas indústrias multinacionais, gerando a fácil substituição do trabalho vivo
pelo morto. A indústria venezuelana possuía tecnologia avançada, empregava
pouca mão de obra, mas mesmo assim tinha dificuldade em competir com os
produtos importados. Além do mais, a crescente mecanização da extração do
petróleo conduziu progressivamente ao menor emprego de força de trabalho,
gerando um paradoxo, pois aquilo que mais gera capital emprega um número
decrescente de trabalho vivo (Furtado, 2008).
Estes fatores tiveram implicações determinantes sobre a relação capital-
trabalho no país. Só com a compreensão deles, entendemos por que a baixa taxa
de juros, junto com a pouca tributação, não proporcionaram o crescimento do
capital produtivo. A partir daí, existiram outras implicações para a formação
da classe trabalhadora, alocada, na maior parte, no setor comercial, e não no
industrial. Saber que o capital comercial emprega um número menor de
trabalhadores que o industrial, e não facilita sua organização política e
econômica, é deveras importante para decodificar a formação da classe
trabalhadora na Venezuela. Além disso, com base na junção das características
supracitadas, também deve entrar na conta o grande contingente de desempregados
produzidos pelo sistema, gerando a extrema desigualdade com miséria em meio a
enormes riquezas.
Nesta conjuntura, a trajetória da relação capital-trabalho na Venezuela foi
pautada pela prospecção do petróleo. Como resultado deste fator, o não
desenvolvimento de um grande parque industrial, contribuiu para algumas
questões: 1) centralidade do papel do Estado na economia; 2) poucas indústrias
no país; 3) formação da classe operária tardia e, mesmo assim, diminuta em
relação a outros países da AL; 4) dependência do trabalhador do Estado; 5)
forte repressão do Estado sobre os movimentos dos trabalhadores; 6)
aniquilamento de militantes revolucionários ao longo de sua história.
Esses fatores em seu conjunto explicam a quase que completa ausência de um
complexo arcabouço jurídico e de meios de fiscalização pelo Estado sobre os
direitos trabalhistas até o início da década de 1990. Essa trajetória foi
transformada a partir de então.
Desde meados dos anos 1980, surgem novos movimentos sociais que impõem aos
governantes de turno uma série de reivindicações por meio de protestos de rua '
muitos deles confrontacionais. Estas reivindicações caminham num crescendo até
culminar com o Caracazo de 1989; desde então, os movimentos sociais não saem
mais das ruas, impondo-se na pauta política e econômica de uma maneira jamais
vista na história da Venezuela (ver López Maya, 2006, 2003; López Maya, Smilde
e Stephany, 2002). Esta se constituiu na principal determinante do período do
Capitalismo de Las Calles (1999-2013). É a partir destas constatações que se
deve entender o incremento de direitos trabalhistas em 1991, sob o
neoliberalismo.
Até as décadas de 1980-90, vimos que a Venezuela não tivera um movimento social
organizado e atuante capaz de impor sua agenda ao Estado. A partir do extremo
empobrecimento da população no início dos anos 1980 (entre 1986 e 1997, o
índice de pobreza no país subiu de 38,88% para 48,3%, e o de pobreza extrema de
17,6% para 27,6%), há um processo crescente de reivindicações que culmina com o
Caracazo de 1989. Neste, os populares saíram às ruas de maneira massiva para
reivindicar diversos direitos e melhor qualidade de vida, bem como interferir,
sobremaneira, na vida política do país. Desde então, constituía-se, assim, um
novo ator político na Venezuela, vindo das ruas, nos termos de Margarita López
Maya (2003), política de la calle.
Quadro_1
O próprio presidente Hugo Chávez Frías é resultado deste acúmulo de lutas
populares, que não cessaram com a sua chegada ao Executivo, mas, ao contrário,
se ampliaram. Por consequência, instala-se um capitalismo de las calles de tipo
legalista, pois 1) os setores hegemônicos no conjunto do movimento social são
reformistas e não revolucionários, embora, tal como na Europa do pós-guerra,
utilizem a palavra socialista para se autodesignarem; 2) o governo é sensível
às pressões populares. Concomitantemente, muitos dos setores mais radicalizados
são cooptados e institucionalizados, formando, em sua grande maioria, a base
social do governo.
A Era Chávez é caracterizada como capitalismo de las callesnão apenas pela
presença dos movimentos sociais nas calles, mas também porque a oposição ao
governo invariavelmente ganha as praças para expressar seus descontentamentos,
e até ampara-se em movimentos dessa natureza para tentar tomar o poder, ou
simplesmente desestabilizar o governo3. A partir daí, o governo Chávez tinha
vários caminhos a seguir: 1) manter os poucos direitos trabalhistas, e atender
às demandas do grande capital; 2) flexibilizar direitos, seguindo a tendência
mundial; 3) incrementar direitos trabalhistas, e continuar atendendo às fortes
reivindicações de rua do movimento social; 4) ou ainda, podia acabar com a
coação capitalista que subordina o trabalho ao capital, atendendo
reivindicações não hegemônicas no seio do movimento social.
Para melhor garantir a estabilidade social da Venezuela, seu governo optou pela
terceira alternativa. Com efeito, criou novos direitos, bem como, preocupou-se
em estabelecer os mecanismos punitivos para aqueles que descumprissem as normas
trabalhistas. Além disso, garantiu a diminuição da jornada de trabalho. Como um
plus para a classe trabalhadora, aumentou sobre maneira os investimentos
sociais com o capital do Estado e da PDVSA (estatal petroleira). Tratou-se,
portanto, de um governo impulsionado por novos movimentos sociais, que, pela
primeira vez na Venezuela, olhou para os mais pobres prioritariamente. Ao mesmo
tempo, não rompeu com a subordinação do trabalho ao capital, que apontaria para
formas autogestionárias, mas ajudou a amenizar a exploração e a garantir a paz
social por meio do resgate da crença de grandes parcelas dos movimentos sociais
nas instituições, amplamente desgastadas desde a década de 1980.
LEI DO TRABALHO SOB O GOVERNO CHÁVEZ
A legislação do trabalho sob o governo Chávez foi caracterizada pela criação de
direitos para os trabalhadores, juntamente com o incremento de dificuldades e/
ou penalidades para aqueles que não a cumprissem. Para ilustrar essa premissa,
descrevemos, dois movimentos históricos: 1) os principais pontos da reforma
estabelecida em abril de 2006, quando foi promulgada a Reforma del Reglamento
de la Ley Orgánica del Trabajo (RLOT); e 2) a Nueva Ley Orgánica del Trabajo de
los Trabajadores y Trabajadoras (LOTTT) de maio de 2012. Optamos por trazer os
principais aspectos das duas leis em seu conjunto para melhor mostrar a
dimensão das reformas realizadas pelo governo Chávez ao longo de seus 13 anos.
Nesse sentido, comparamos as referidas leis com a legislação anterior à chegada
de Chávez ao poder. Trataremos, portanto, das duas leis como RLOT (2006) e
LOTTT (2012).
Quadro_2
O governo de Hugo Chávez Frías (1999-2012) representa o rompimento, não só com
o neoliberalismo, como também com a locupletação de determinadas elites daquele
país com os recursos do petróleo. Politicamente, seu governo significa o fim do
pacto de Punto Fijo, de 1958, estabelecido entre os dois principais partidos do
país (Acción Democrática ' AD e COPEI4), cuja tônica principal foi o acordo em
torno da distribuição de cargos no Estado, independente de qual deles ganhasse
as eleições. Na esfera econômica, representa o redirecionamento das divisas
advindas da prospecção petroleira em favor de grandes investimentos sociais
através de forte intervenção estatal.
Socialmente, o governo de Chávez representa a possibilidade de vida melhor para
a maioria da população pobre com as missões sociais patrocinadas
fundamentalmente pelos recursos do petróleo (Moraes, 2011). Sob a perspectiva
das normas trabalhistas, percebemos um claro incremento de direitos, seguindo
na contramão da tendência mundial. O governo Chávez, pressionado por movimentos
sociais vistosos, garantiu a diminuição da jornada de trabalho, a estabilidade
no emprego, o fim das empresas terceirizadas, o aumento das licenças de
maternidade e paternidade e impôs sérios obstáculos para a dispensa massiva de
trabalhadores. O ápice das garantias trabalhistas na Venezuela ocorre neste
período. Vejamos o caso brasileiro e depois passemos para as comparações, na
conclusão, entre os dois modelos.
CAPITALISMO SINDICALISTA DE CONCILIAÇÃO: O CASO BRASILEIRO
No que concerne às políticas do trabalho, o Brasil viveu um período liberal até
1930, quando se instaura um novo modelo econômico. Dava-se início à chamada Era
Vargas. Neste contexto, as leis trabalhistas foram consolidadas legalmente5,
juntamente com a forte intervenção do Estado na economia. Alguns teóricos
denominaram o período de desenvolvimentista, outros o chamaram de
corporativismo estatal. Durante a década de 1980, a força dos sindicatos e dos
trabalhadores organizados resultou na conquista de novos direitos trabalhistas,
alcançando o ápice com a Constituição de 1988. A greve fora o principal
instrumento de luta6.
Simultaneamente, as políticas liberais voltam à cena de maneira decisiva.
Estimuladas pelas principais potências mundiais, pelo grande capital, pela
reorganização das associações coletivas dos empresários e pela ampla divulgação
pelos meios de comunicação de suas ideias ganhando corações, mentes e,
principalmente, governos. Entretanto, elas só se tornariam hegemônicas na
década seguinte. Essa hegemonia foi produzida pelos seguintes fatores: 1) as
vitórias políticas de coalizões de centro-direita nas eleições de 1989, 1994 e
1998; 2) exigências de organismos internacionais pelo superávit primário; 3)
burocratização, cooptação e, consequentemente, enfraquecimento dos movimentos
sociais; e 4) censura velada nos meios de comunicação de massa, que divulgaram
as teses liberais como único caminho possível.
Por consequência, a década de 1990 foi caracterizada por: a) abertura econômica
que estimulou a concorrência pelos mercados mundiais; b) programa de
privatizações; c) flexibilização e/ou retirada de direitos trabalhistas; d)
ampliação do contingente de desempregados. Nesse momento, o grau de mobilização
dos trabalhadores, sobretudo se comparado com a década anterior, foi
baixíssimo7. Ocorreu um processo de oligarquização e burocratização das cúpulas
sindicais que previu a negociação "defensiva" em vez da "reivindicação
progressiva"8. O refluxo do movimento social organizado também foi patente,
tendo como principal resultado, para ambos, o fato de as lutas passarem a
subordinar-se às esperanças eleitorais, transformando-as de sujeito ativo em
sujeito passivo e domesticado da história.
Além do mais, no quadro de abertura econômica, as associações coletivas do
empresariado passaram a reivindicar mudanças substantivas no modelo
desenvolvimentista precário. Os governos atenderam a estas demandas e foi neste
contexto que se encontraram as contrarreformas da Previdência, do Estado e a
Trabalhista.
Particularmente, no que concerne às demandas no âmbito do Direito do Trabalho
ocorridas na década de 1990, podemos afirmar que elas foram defendidas como
panaceia para os diversos problemas econômicos brasileiros na inserção na
economia mundializada. Os "excessivos direitos" foram apresentados como
obstáculo ao crescimento econômico e à competitividade do país no cenário
internacional. A Era Vargas tinha que acabar, com vistas a diminuir o chamado
"Custo Brasil". Estas foram expressões típicas do momento.
Neste contexto, contra o qual não se poderia lutar, diziam, foram realizadas
diversas mudanças nas normas trabalhistas, através de Emendas Constitucionais,
Leis, Medidas Provisórias (MPs), Decretos e Portarias que flexibilizam direitos
e/ou prejudicam a fiscalização para o seu cumprimento, ou propõem uma
negociação entre patrão e empregado sem que se recorra ao Poder Judiciário.
Citamos algumas dessas medidas que alteram os direitos dos trabalhadores sob o
governo de Fernando Henrique Cardoso. Elas são de três tipos: 1) alterações na
jornada de trabalho ' estas preconizam a adaptação total, dependente e
subordinada do trabalhador aos interesses exclusivos dos empregadores (Quadro
3); 2) alterações no regime de previdência, processos de trabalho, vedação de
correção automática de salários e cooperativa (Quadro_4); e 3) leis que ampliam
direitos aos trabalhadores (Quadro_5).
A partir da análise dos Quadros_3, 4 e 5 percebemos que as alterações ocorreram
fundamentalmente em cinco campos: 1) flexibilização da jornada de trabalho; 2)
mudança nas leis previdenciárias; 3) alterações nos meios processuais e da
Justiça; 4) novos meios de contratação como forma de burlar direitos
trabalhistas; 5) vedação de correção automática de salários. Todas estas
mudanças foram em detrimento dos interesses dos trabalhadores e reivindicadas
pelos empresários. As únicas medidas em favor dos interesses dos trabalhadores
foram: 1) regulamentação da licença-maternidade ' já prevista pela
Constituição; 2) impedimento de que empregadores cobrem pelos instrumentos e
outros materiais necessários para o trabalho do empregado. E, ainda, podemos
incluir aqui, não como direito trabalhista, mas como política de assistência
social como forma de amenizar o sofrimento de famílias pobres excluídas, o
Programa Bolsa-Escola.
Por outro lado, direitos de fundamental importância como férias e o décimo
terceiro salário não foram alterados, mostrando um alto grau de dependência de
trajetória do modelo social democrata anterior. Não obstante, o governo de
Cardoso inaugura uma nova trajetória para os direitos trabalhistas no Brasil,
baseado essencialmente na subordinação dos interesses dos trabalhadores aos dos
empresários. O nosso desafio é investigar se os governos Luiz Inácio Lula da
Silva e Dilma Rousseff dão continuidade ou revertem o que fora criado por
aquele.
Por fim, a década de 1990, com a adoção das primeiras políticas liberalizantes,
não produziu apenas perda nos direitos universais trabalhistas, mas, sobretudo
aumento da miséria, das desigualdades e da violência no Brasil. O governo ainda
criou alguns programas sociais focalizados, buscando amenizar as desigualdades,
mas não foi suficiente para impedir o seu crescimento. Ademais, garantiu-se
segurança e forte amparo às instituições bancárias, tendo este segmento
alcançado os maiores lucros de sua história até então (Minella, 1997).
O período neoliberal constitui-se em grande derrota para o trabalho. O governo,
o capital e principalmente os grandes monopólios da mídia formaram o que muitos
chamaram de pensamento único, cuja principal característica foi forjar o
"consenso forçado", legitimando as políticas de então. Assim, as greves foram
concebidas como um acinte à sociedade como um todo. As propostas dos grevistas
apareceram como meramente corporativas e contra os interesses da sociedade e do
país. A Justiça atuou para considerá-las ilegais, concedendo fortes multas para
os sindicatos mais combativos, diminuindo sua força de atuação. Os setores
sociais que apoiavam as lutas e reivindicações populares foram completamente
excluídos dos meios de comunicação e, portanto, pareciam simplesmente não
existir. Por fim, em meio à liberdade garantida, os sindicatos não conseguiram
incrementar direitos, tampouco aumentar sua combatividade, ao contrário:
perderam garantias e força para lutar. Somadas a tudo isso, ainda ocorreram a
reestruturação produtiva e as privatizações que levaram milhares de
trabalhadores para a amargura do desemprego9.
Diante deste quadro adverso, Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente do
Brasil. Grande parte da população depositou muita esperança no novo governo.
Perscrutemos.
GOVERNO LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA (2003-2010)
O período em questão não pode ser estudado sem que se entendam as heranças
institucionais deixadas pelo governo de Fernando Henrique Cardoso. No plano
econômico, tivemos a abertura e a integração com os mercados internacionais;
praticamente todas as estatais privatizadas ou abertas ao capital privado; a
estabilidade da moeda com baixa inflação e arrocho salarial. Todos esses
fatores não foram capazes de trazer o almejado por todas as economias
capitalistas: o crescimento econômico. Este foi pífio, apesar de todas as
medidas liberalizantes apresentarem-se a seu favor.
No plano político, o setor da sociedade mais influente sobre o governo e
consequentemente mais favorecido foi o setor bancário ' vide juros altos e
lucros exorbitantes ' e, diga-se de passagem, sem contrapartida para a
sociedade.
Os empresários industriais buscaram retornar seu poder de pressão através da
renovação das direções das suas associações coletivas. Suas principais demandas
foram: reforma tributária, diminuição dos juros, ajuda do Estado em função da
concorrência externa e diminuição dos custos trabalhistas (Boschi e Diniz,
2007; Moraes, 2011). Os sindicatos dos trabalhadores e movimentos sociais
apresentaram-se praticamente esfacelados e sem poder de barganha, apesar da
vitória de Lula. Esta característica resultou na desprezível atuação das
associações dos vendedores de força de trabalho em pressões econômicas sobre
patrões e Estado para melhoria de sua qualidade de vida, bem como pela
necessária distribuição de renda ' produzida substantivamente pelos
proletários. A vitória do Partido dos Trabalhadores (PT) só foi possível em
função do total descrédito do governo de Cardoso e de suas políticas. Lula, com
propostas e postura bastante diferentes das de 1989, apresentava-se como melhor
alternativa viável para as elites políticas e econômicas no intuito de assumir
o comando político do país, embora subliminarmente existisse o medo da falta de
governabilidade, gerada pelos "radicais" do PT.
No plano social, o Brasil figurava como o país mais desigual do mundo, com
altíssimos índices de desempregados, trabalhadores em situação precária, alguns
em situação análoga à de escravo, miséria, fome e a (in)consequente violência.
Cabe lembrar que mais da metade da população economicamente ativa (PEA) não
tinha um emprego formal e, portanto, com garantia de direitos trabalhistas e
previdenciários10.
Por sua vez no plano dos direitos sociais, nosso principal objeto de pesquisa,
a herança deixada pelo governo de Cardoso foi começar a desconstrução daquilo
que fora criado sob o corporativismo estatal. Foram várias medidas,
supracitadas, que atentaram contra os direitos dos trabalhadores. As mudanças
nas leis da previdência foram para esticar a quantidade de tempo trabalhado
antes de conseguir a aposentadoria. Todas essas normas foram amplamente
pleiteadas pelas associações dos capitalistas (Moraes, 2009).
Diante desse quadro, vejamos o que foi realizado pelo governo Lula nos seus
dois mandatos. Estudemos, portanto, as principais alterações nas leis do
trabalho. Adiantamos que nem todas as leis foram contrárias aos interesses dos
trabalhadores. Temos normas em prol dos trabalhadores, outras opostas aos seus
interesses e, ainda, em defesa dos sindicalistas filiados às centrais sindicais
existentes que os apoiam. Com efeito, dividimo-las em três tipos: 1) pró-
sindicalistas; 2) leis contra o trabalho; e 3) pró-trabalho.
Podemos concluir destacando alguns aspectos importantes conduzidos pelo
governo. A partir da análise das leis mencionadas anteriormente, percebemos que
a maioria das mudanças atende a interesses pontuais do empresariado, dos
sindicalistas e dos obstinados a entrar na carreira pública. Nos demais
aspectos, podemos dizer que o governo Lula caracteriza-se por ser a
continuidade do de Cardoso, assinalando um alto grau de path dependence,pelos
motivos que expomos a seguir.
1. As medidas de flexibilização das leis trabalhistas realizadas sob o governo
Cardoso foram renovadas pelo governo Lula, mostrando concordância com as
mesmas. Isto é, este não as reverteu e, portanto, não retomou nem estabeleceu
um novo projeto desenvolvimentista, tampouco combateu as políticas neoliberais.
2. As normas previdenciárias, que pioram a situação para o trabalhador,
alteradas no governo de Cardoso, foram aprofundadas pelo governo Lula.
3. O governo petista criou novas formas de flexibilização das leis em
detrimento dos interesses dos trabalhadores.
4. A redução da jornada de trabalho, a atualização salarial de acordo com o
real custo de vida e a estabilidade no emprego não foram postas em prática pelo
governo. Este não implementou a proteção contra a dispensa arbitrária, mantendo
o desrespeito à Convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT),
tal como os governos anteriores.
5. Das medidas pró-trabalho do governo, nenhuma foi universal. Favoreceram-se
os pescadores, as gestantes, os setores do funcionalismo público e
principalmente as centrais sindicais, já existentes, que foram reconhecidas,
enquanto diversos outros setores sociais permaneceram esquecidos. Cabe
ressaltar que todas as medidas não contaram com nenhuma participação
contributiva dos empresários. Em outras palavras, o governo se resguardou para
que todas as medidas favoráveis ao trabalhador não gerassem nenhum ônus sobre
os lucros dos capitalistas.
Quadro_6
Quadro_7
Quadro_8
Quadro_9
6. O governo Lula diferencia-se do de Cardoso ao reconhecer algumas demandas
dos sindicalistas, sua principal base social, demonstrado quando anistiou
sindicalistas penalizados pelo governo anterior.
7. O governo petista aumentou substantivamente o emprego público, retomando os
concursos em diversas áreas. Isto foi muito positivo para parcela dos
trabalhadores que almejavam uma vaga no quadro do funcionalismo na busca por
estabilidade num contexto de grande desemprego e de insegurança no setor
privado.
8. A conciliação entre as classes sociais foi sua principal característica,
buscando unir os interesses do capital e dos sindicalistas, porém mantendo os
trabalhadores submissos e sem incremento substantivo de direitos. A única
ressalva que devemos fazer diz respeito ao bolsa família, que atendeu a um
número considerável de pessoas, melhorando a qualidade de suas vidas e, em
contrapartida, permitiu ao PT permanecer no poder por pelo menos mais dois
mandatos.
9. O capital não teve nenhum ônus sob este período, muito ao contrário. O Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o próprio governo
ajudaram-no com desonerações e financiamentos. As associações coletivas do
empresariado não precisaram incrementar sua ação coletiva, pois o governo não
apontou para ruptura do modelo de produção estabelecido, tampouco para atender
aos interesses dos trabalhadores em geral.
10. Com os sindicatos e movimentos sociais fracos e sem poder de barganha, não
ocorreu aumento de direitos. As grandes desigualdades sociais permaneceram,
conquanto tenha acentuado o poder político dos sindicalistas da CUT junto ao
governo.
A política de estabilidade econômica, por meio do controle da inflação, através
de juros altos, foi idêntica ao do governo anterior. Outrossim, a central
sindical criada por Lula continuou sendo sua principal base social, acrescida
pelos beneficiados do bolsa família, garantindo a eleição de sua herdeira
política. A dependência de trajetória no que diz respeito ao governo Cardoso
foi muito grande. Não houve exorbitantes mudanças, mas, ao contrário,
percebemos grandes continuidades.
Aquilo que poderia parecer uma anomalia ' o governo do PT, que outrora fora a
principal força de oposição à aliança Partido da Social Democracia Brasileira
(PSDB)/Partido da Frente Liberal (PFL)/Partido do Movimento Democrático
Brasileiro (PMDB), dar continuidade às políticas trabalhistas do governo de
Cardoso ' pode ser explicado com a junção de dois fenômenos: 1) o explícito
recuo das forças sociais ligadas ao mundo do trabalho após o período
neoliberal; 2) entender a conjuntura internacional caracterizada pela
implementação de políticas contra o trabalho nos países marcados pelo
enfraquecimento reivindicativo com baixa ação coletiva dos trabalhadores. Em
nações sob essas características, não há grandes dessemelhanças ideológicas que
se materializem em políticas públicas distintas entre partidos no poder de
diferentes cores e trajetórias.
GOVERNO DILMA ROUSSEFF (2011-2014)
As heranças institucionais deixadas pelos governos anteriores e principalmente
por Lula, seu padrinho político, mostraram-se grandes e praticamente
irreversíveis, como denota o conceito de path dependence. No plano da
macroeconomia, as mudanças foram praticamente efêmeras. Ajuste fiscal,
superávit primário e poucos gastos sociais deram a tônica liberal às suas
políticas. Simultaneamente, o governo garantiu diversas desonerações fiscais,
redução de IPI para montadoras de automóveis e outros setores da indústria.
No plano da Previdência Social, dentre inúmeras alterações, a primeira
presidente mulher regulamentou o regime complementar para os servidores
públicos, instituído pela Emenda Constitucional nº 20 de 15 de dezembro de
1998, do governo Cardoso. Como vimos, o governo Lula também já havia dado
continuidade à contrarreforma da previdência por meio de outras emendas
constitucionais. Esta regulamentação representou um grande retrocesso ao se
instituir a previdência complementar para os servidores públicos federais,
significando, indubitavelmente, perda de direitos para os trabalhadores.
Nos primeiros anos desse governo, a maior parte do funcionalismo federal entrou
em greve, reivindicando melhores salários, condições de trabalho etc. A
presidente respondeu com um aumento simplório e ao mesmo tempo com uma lei de
greve que amarrará praticamente todos os movimentos paredistas do funcionalismo
no Brasil. Um retrocesso sem tamanho.
Quadro_10
Enquanto alguns poucos novos direitos trabalhistas foram criados, todas as
medidas de flexibilização adotadas pelos governos anteriores foram renovadas ou
não questionadas, o que significa concordância com as mesmas, tal como
aconteceu com a contrarreforma da Previdência Social. Vejamos as principais
mudanças legislativas do período.
O governo Cardoso caracterizou-se por dar uma nova diretriz à trajetória dos
direitos laborais no Brasil, iniciando a flexibilização das leis trabalhistas e
previdenciárias, que atentam contra os interesses dos trabalhadores. Essas
medidas impuseram um novo quadro para a relação capital-trabalho no Brasil. O
governo Lula não as reverteu e ainda as renovou. A presidenta Dilma Rousseff
segue a mesma linha. Por isso, não podemos dizer que os três governos
representem projetos absolutamente distintos no que concerne às leis
trabalhistas. Ao contrário, percebemos uma pungente continuidade e
complementaridade. Do ponto de vista da path dependence, a trajetória iniciada
por Cardoso é mantida por Lula e Dilma sem desvios.
Quadro_11
COMPARAÇÕES FINAIS
Para efeito de conclusão, a principal constatação é de que Brasil e Venezuela
produziram capitalismos muito diferentes ao longo de suas histórias. Sob o
petismo e o chavismo, essas diferenças continuaram, abarcando desde as posturas
dos governos, até a formação e posição, tanto dos empresários, quanto dos
trabalhadores. Detectamos o curso de trajetórias bem distintas do Executivo nos
dois países. Na Venezuela ocorre fortemente a implementação de políticas
social-democratas para enfrentar os problemas do mercado "autorregulado". No
contexto brasileiro, o petismo não lembra, nem de longe, a forte intervenção na
economia dos tempos do pós-Guerra.
No Brasil, todas as esperanças depositadas tanto no presidente operário quanto
na presidenta mulher não foram suficientes para que ocorresse uma ampliação
significativa de direitos trabalhistas. Cardoso inaugurou, mas não aprofundou
tanto as mudanças na legislação trabalhista. Lula e Dilma Rousseff expressaram
a continuidade do seu governo a partir da renovação das leis criadas por ele;
bem como aprofundando a flexibilização de alguns direitos. Apesar da
similitude, podemos destacar três diferenças entre os governos do PSDB e do PT
a partir das ações deste último: 1) ampliação dos programas assistencialistas
focalizados de renda mínima; 2) reconhecimento das centrais sindicais e outras
pequenas medidas pró-sindicalistas; 3) abertura de concursos públicos
aumentando o quadro do funcionalismo. Essas medidas, inclusive, nem se
constituem como direitos trabalhistas, mas podem ser vistas no quadro de
melhora para o trabalhador. Da perspectiva da normatividade jurídica
propriamente, podemos dizer, sem medo de errar, que esses governos assumem uma
postura tal que parecem pertencer ao mesmo grupo político ou mesmo partido,
dada a similitude e complementaridade das suas políticas públicas, formando um
todo bem coerente.
Assim, podem ser vistas as sucessivas mudanças nas leis previdenciárias,
seguindo estritamente a mesma tendência, o bolsa escola de Cardoso transformado
em bolsa família de Lula, a licença-maternidade ampliada por aquele e
continuada pelo último e, por fim, todas as flexibilizações legais de Cardoso
renovadas pelos petistas. Essas medidas garantiram a governabilidade tão
almejada pelo Brasil conciliador, que, contudo, subordina os interesses dos
trabalhadores.
Com base no conceito de path dependence, o neoliberalismo representa o desvio
da trajetória iniciada nos anos 1930-1940. Para as mudanças legislativas no
âmbito do trabalho, o governo de Cardoso foi pioneiro. Por outro lado, as
mudanças estiveram e estão longe de ser amplas e irrestritas. A maior parte das
garantias permaneceu intacta. Direitos como férias e décimo terceiro salário
sobreviveram, por exemplo. As mudanças mais significativas ocorreram na
flexibilização da jornada de trabalho e fundamentalmente na ampliação do tempo
de serviço para aposentadoria integral, ambas ruins para o trabalhador. A path
dependencecriada no período desenvolvimentista foi deveras significativa, de
modo que, embora o empresariado muito desejasse, as modificações se
restringiram a flexibilizar a jornada sem que se pudesse alterar a quantidade
de horas anuais.
A path dependence também se fez presente com relação aos governos da década de
1990 e os governos do século XXI. Estes não ensaiaram reverter o desvio da
trajetória iniciada pelas políticas liberalizantes, não só renovando-as como
até aprofundando-as. A ausência de um movimento social atuante e combativo que
pressionasse os governos petistas por direitos foi a grande responsável pelas
semelhanças detectadas com a coalizão PSDB/PFL/PMDB, sobretudo no que tange às
políticas trabalhistas.
Na Venezuela, podemos dizer que o governo Chávez adotou um projeto nacional-
desenvolvimentista, pois criou estatais; re-estatizou empresas antes
privatizadas; aumentou, sobremaneira, a intervenção na economia por meio de
controle de preços, ofertas de produtos a preço de custo para a população em
mercados populares; e aumentou os direitos sociais e o emprego público.
O governo venezuelano, além de cessar as reformas pró-mercado, permitiu e, em
alguns casos, até estimulou as reivindicações trabalhistas. Ele chegou a
estatizar ' por meio de indenizações ' algumas firmas que não respeitaram os
direitos dos trabalhadores. Também diminuiu a jornada de trabalho sem redução
de salários ' uma reivindicação histórica dos trabalhadores. Após a promulgação
da Lei de Terras de 2001, distribuiu mais de 1 milhão de hectares de terras
improdutivas entre camponeses pobres, democratizou muitas das decisões do
governo sob forma de referendos e plebiscitos e ainda criou diversos programas
sociais através das missões sociais de barrio adentro. Tudo foi sendo feito em
pleno acordo com as leis do país e atendendo às reivindicações das ruas, por
isso chamamos de capitalismo de las calles, que impõe uma "Revolução Legal". É
importante reafirmar que Chávez foi produto e pressionado pelo crescente
movimento social venezuelano despertado em fins da década de 1980, vindo num
crescendo desde então.
A grande questão é que o neoliberalismo produziu efeitos absolutamente
distintos para a organização da classe trabalhadora nos dois países. Enquanto
na Venezuela foi produzido um vistoso movimento social, descrente dos partidos
políticos e das instituições do sistema, que manifestou de maneira acintosa
seus descontentamentos e desejos nas ruas, com manifestações inclusive
confrontacionais; no Brasil, o período do neoliberalismo caracterizou-se pelo
declínio acentuado da luta do trabalhador urbano. A greve, seu principal
instrumento de pressão, praticamente inexistiu na década de 1990 e isto não
significa dizer que foi resultado de ganhos de benefícios. Somente o
trabalhador rural atuou ativamente nas manifestações nos anos 1990 e por isso
muitos sem-terra beneficiaram-se com meios de produção. Esta foi a path
dependencepara o início do milênio. No Brasil, a luta do trabalhador urbano foi
canalizada para as esperanças eleitorais, resultando em enorme dependência dos
governantes. A grande mídia criou, inclusive, um falso consenso de que as
greves, manifestações e ocupações de terra atrapalhariam a vitória eleitoral
dos seus representantes, o que, por sua vez, aparecia como grande panaceia.
Resultado: luta praticamente inexistente, com o movimento cooptado e
institucionalizado. Daí a velha máxima: sem lutas, sem direitos.
No caso venezuelano, a dependência foi oposta, pois o clamor das ruas vinha
crescendo. Ao mesmo tempo, Chávez era a expressão momentânea dos movimentos
sociais que apostaram, mas não depositaram todas as suas esperanças na eleição
do chefe do Executivo, pois já estavam calejados de tanta decepção. Por isso,
continuaram a pressão sobre o novo governo, exigindo o cumprimento de suas
promessas de campanha e impondo-lhe novas demandas. Destarte, conquistaram
direitos do Estado.
Em comum, tanto o chavismo quanto o petismo caracterizaram-se por
institucionalizar os movimentos proletários. No caso do Brasil, arrefecendo
totalmente a luta, inclusive, do trabalhador rural. No caso da Venezuela, a
luta continuou nas ruas, mas muitas delas seguiram a pauta do governo. Com
efeito, afirmamos que o capitalismo de las calles não reproduziu o
neoliberalismo, não criou o socialismo, mas simplesmente implementou políticas
muito fáceis de identificar para um mínimo conhecedor da história. Trata-se de
políticas desenvolvimentistas, empurradas, tal como no período do pós-guerra,
por pressão do trabalho.
Ao mesmo tempo, o caso venezuelano ratifica a teoria "variedades de
capitalismo", segundo a qual cada país produz um capitalismo próprio. As
reformas pró-mercado na Venezuela iniciam-se em 1989, junto com os demais
países da região, respeitando a onda neoliberal ditada pelos organismos
internacionais (FMI, BID, BIRD) e países imperialistas (EUA, Inglaterra e
outros). Todavia, a correlação de forças entre capital, trabalho e Estado
produziu o que podemos chamar de anomalia do Consenso de Washington, pois
incrementou direitos aos trabalhadores ao mesmo tempo que fez liberalizações
para o capital.
Finalizando, os primeiros anos do século XXI têm significados diferentes nos
dois países. Na Venezuela, pode ser considerado como o capitalismo de las
calles, que produziu uma "Revolução Legal" ' pois baseada nas leis do país e em
respeito ao Legislativo e ao Judiciário, caracterizado por atender às demandas
das ruas e caminhar no sentido de desconstruir aquilo imposto no
neoliberalismo, com políticas desenvolvimentistas, gerando alto grau de
instabilidade política, pois os interesses contrariados, embora de um número
pequeno de eleitores, são muito fortes política e economicamente. Nestas
condições, a Venezuela passou por um momento estritamente diferente do
neoliberalismo com reversão de suas políticas.
Já no caso brasileiro, o petismo pode ser considerado como o "Capitalismo
Sindicalista de Conciliação", que produziu governabilidade. O Executivo no
Brasil, conciliador, não adotou políticas concretas em contrário ao
neoliberalismo, ou que o desconstruísse, e, ainda, procurou socorrer suas
instituições em crise, renovando as políticas flexibilizadoras na jornada de
trabalho e na Previdência Social criadas pelo governo Cardoso. Por fim, embora
petismo e chavismo não estejam muito distantes na política externa,
internamente, cada qual se caracterizou por políticas extremamente distintas,
sobretudo para o mundo do trabalho. Esta pesquisa comparada nos mostrou que a
atuação ou não dos movimentos sociais nas ruas foi fundamental para tais
diferenças.
NOTAS
* Agradeço a Luciana Simas, Wanise Cabral e aos pareceristas anônimos de DADOS
' Revista de Ciências Sociais pelos comentários.
1 Nos últimos anos, a maioria das análises tem desconsiderado a variável
histórica como um importante componente para o entendimento das mudanças
institucionais e das variedades de capitalismo (Soskice e Hall, 2001). Esta
opção não é aleatória; muitas servem para escamotear as causas de questões a
que não se quer remontar, com o objetivo de favorecer determinados interesses
(Coates, 2006).
2 O artigo em questão fez a opção metodológica de tratamento direto com as
fontes primárias e produção de uma reflexão própria comparativa sobre o
assunto; principalmente por se tratar de tema muito atual desconhecemos estudos
comparativos sobre a legislação trabalhista para os casos de Brasil e
Venezuela. Não obstante, alguns trabalhos tangenciam a questão e nos valeram
como referência, a saber: Boschi (2007); Boyer (2005); Collier e Collier
(1991); Huber (2002); Menz (2003); Sheahan (2002); Schneider (2004); Moraes
(2011).
3 Assim foi, por exemplo, o golpe de Estado frustrado de 2002 organizado pela
oposição ao governo Chávez.
4 Acción Democrática (AD), mais conhecido como Partido Social-Democrata; Comité
de Organización Electoral Independiente (Copei), mais conhecido como Partido
Social Cristiano.
5 Embora o estudo de French (2001) aponte para o amplo desrespeito da aplicação
das leis.
6 Durante o ano de 1988, 1.516 categorias fizeram greve (Boletim do Dieese,
janeiro-junho/1990). Fazendo uma comparação com o final da década de 1990,
percebemos que, em 1997, aconteceram 648 greves, número 68,8% menor que as
2.196 paralisações registradas em 1989. No ABC paulista, foram 10 greves em
1997. Em 1998, ocorreu apenas uma paralisação de quatro horas, no início de
abril, quando os funcionários da Ford cruzaram os braços e conseguiram que a
empresa alterasse a programação de férias coletivas na fábrica de São Bernardo
do Campo (O Globo, 4/1/1999, p. 22).
7 A pesquisa de Cardoso (2003) é exemplar para este aspecto.
8 Como consequência das metamorfoses no mundo do trabalho e com a adoção do
toyotismo, os sindicatos passam para a defensiva, aderindo acriticamente ao
sindicalismo de participação e de negociação que, em geral, aceita a ordem do
capital (Antunes, 1997:33-34).
9 Ao contrário do que fora prometido, as políticas neoclássicas não ampliaram o
número de empregos. Ocorreu, sim, um aumento exorbitante de desempregados,
jamais visto na história do país, que a flexibilização das leis não conseguiu
reverter. Ver dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
10 Ver dados do IBGE.