Análise Social dos Fatores que Influenciam o Desenvolvimento e o Planejamento
de Assentamentos Rurais: Os Casos dos Municípios de Cervantes e Guitiriz na
Galícia
INTRODUÇÃO
Este artigo realiza uma análise social de fatores que influenciam o
desenvolvimento e o planejamento de núcleos populacionais rurais, aqui tratados
como assentamentos rurais. Nesse sentido, busca determinar quais são e em que
medida os objetos identificados excercem influência no espaço rural e no seu
âmbito de atuação relacionados como lugares rurais. O objetivo foi identificar
a percepção social do espaço rural e do lugar de assentamentos rurais dos
municípios de Cervantes e Guitiriz, levando em consideração dois grupos
sociais: a própria comunidade rural e um grupo de técnicos em planejamento.
Tendo em vista análises sobre o planejamento das áreas rurais, este estudo
incorpora em seu quadro teórico de referência a percepção do espaço social
segundo duas comunidades diferentes. Nesse sentido, considera os estudos sobre
identidade,cultura,antropologiaememória galega. Também se fundamenta em
análises da estrutura urbana e rural da Galícia que apoiam o suporte teórico do
estudo desta região no sentido de aferir as homogeneidades e as
heterogeneidades socioculturais, o que permite uma adequada compreensão
territorial.
Para este estudo e como metodologia para obter informações sobre o espaço rural
e os assentamentos rurais, realizaram-se, por um lado, uma exploração in
situassociada a visitas e entrevistas em campo e, por outro, uma exploração
interna associada a um questionário ao grupo de técnicos. Salientam-se, como
conclusões e de acordo com os resultados obtidos, que ambas as explorações
demonstram proximidades quanto às características dos assentamentos rurais e
quanto aos seus problemas, bem como consideram que os elementos da paisagem
devem ser entendidos como um ativo espacial e social no planejamento destas
áreas.
PLANEJAMENTO E ÁREA RURAL
Ao longo do século XX, as zonas rurais, em diversas regiões do mundo e na
Europa em especial, passaram por processos que afetaram o seu desenvolvimento,
de maneira positiva e negativa. O êxodo rural é um fato (Guirado-González,
2008). Nos últimos vinte anos tem ocorrido uma alteração na distribuição
espacial do crescimento populacional, num processo que torna menos evidente a
divisão entre áreas urbanas e rurais (Cohen,_2006), ainda que não exista uma
relação proporcional na distribuição da população entre territórios rurais e
urbanos na Europa e na maior parte do mundo (Mancilla,_Viladomiu_e_Guallarte,
2010).
Uma vez que áreas urbanas e áreas rurais são unidades territoriais que
mutuamente se influenciam no desenvolvimento regional (Liu,_Zhang_e_Zhang,
2009), é importante que o planejamento do espaço rural contemple as
necessidades da comunidade rural, garantindo sua participação no processo. A
comunidade rural é espacialmente representada por assentamentos rurais (AR),
que se configuram como assentamentos humanos de pequena escala com predomínio
de atividades produtivas associadas ao tipo de uso dos recursos naturais. Tal
participaçãorefere-se àincorporaçãodoconhecimentolocal dascomunidades rurais na
tomada de decisão em projetos de planejamento, visto que as áreas rurais estão
sob alteração sociotemporal em termos de desenvolvimento social, econômico e
tecnológico, especialmente nas interações de vários elementos não quantitativos
que afetam o desenvolvimento rural (Cánoves,_Villarino_e_Herrera,_2006).
No campo científico, assiste-se ao aumento da influência de perspectivas
culturais que utilizam métodos de investigação qualitativos, in-cluindo
entrevistas semiestruturadas (Valencia-Sandoval,_Flanders_e_Kozak,_2010),
grupos focais e observação participativa (Woods,_2010), além de análises da
condição social por comparação (Sigaud,_Rosa_e_Macedo,_2008). Nesse contexto,
existem vários métodos aplicados ao planejamento e gestão dos recursos, como o
observado na Tanzânia, em que habitantes representantes de AR participaram na
realização de um diagnóstico de participação rural (Chambers,_1994a). Para
Chambers_(1994b), o potencial deste instrumento está numa participação prática
e teórica mais real, o que possibilita a obtenção de resultados mais objetivos
e com maior possibilidade de aplicação e aceitação por parte das comunidades.
No Canadá foram aplicados questionários aosresidenteslocaisdos AR para
identificarasamenidadesdemigração da região (Chipeniuk,_2008). Os questionários
também são usados para obter as percepções locais positivas ou negativas sobre
áreas protegidas no espaço rural (Alkan,_Korkmaz_e_Tolunay,_2009) ou, segundo
Stephenson_(2007), para a definição dos fatores-chave na obtenção de um modelo
de valores culturais da paisagem.
Existem estudos que utilizam diagramas de Venn como método participativo
(Mayoux_e_Chambers,_2005) para ilustrar e descrever organizações das
comunidades rurais (Zanetell_e_Knuth,_2002), identificar a percepção dos
diferentes indivíduos numa zona rural (Roa,_Alvarez_e_Vélez,_2007) e
identificar a prioridade dos problemas no desenvolvimento rural (Maya,_Pérez_e
Quijano,_2001), assim como para analisar as diferenças entre instituições como
grupos sociais (Bah_et_al.,_2003; Robinson,_2002), ou seja, para estabelecer
relações entre várias partes (Chambers,_2007). Outros estudos referem-se ao uso
de um sistema de informação geográfico como método participativo para
determinar grupos de objetos espaciais - como vias ou edifícios (Roche_e
Humeau,_1999), assim como para incorporar e mapear dados qualitativos no
planejamento como forma de resolver necessidades e problemas dos habitantes
(Ceccato_e_Snickars,_2000), ainda que, atualmente, segundo Dennis_(2006), é
pouco frequente a incorporação desse tipo de informação nas ações de
planejamento. Mapas mentais também constituem um instrumento de análise social
do espaço, quer por exibirem o reconhecimento de características do lugar e de
como o mesmo está organizado (Pocock,_1976), quer pela identificação da
preferência de áreas residenciais ou de usos comuns (Thill_e_Sui,_1993), e que,
para Rambaldi_et_al.(2006), servem para representar a identidade de uma
comunidade.
No contexto europeu há estudos que realizaram questionários para a definição do
rural sob uma perspectiva de representação social (Halfacree,_1995) e para a
identificação da percepção da área residencial delimitada e sua definição
(Pacione,_1983). Também há outros em que foram utilizados mapas mentais para
obter os valores sociais e as características de uma área identificados pelos
habitantes, visando a possibilidade de serem empregados num processo de tomada
de decisão (Tyrväinen,_Mäkinen_e_Schipperijn,_2007). Do mesmo modo, workshopse
grupos focais foram realizados para elaborar cenários futuros com o objetivo de
determinar as alterações no espaço rural da Escócia (Midgley_et_al.,_2005).
Especificamente no contexto da Espanha e da Comunidade Autônoma da Galícia, há
algumas investigações que têm como referência teórica estudos que abordam a
temática do território, suas alterações e identidade sociocultural enquanto
sociedade. Frades_e_González_(2009) analisam os processos de alteração e de
desenvolvimento dos territórios rurais europeus; Fernández_de_Rota_(1991)
analisa determinados dados sob o tema central da identidade de um povo e, em
outro trabalho, reflete sobre a investigação antropológica realizada na Galícia
(idem, 1992). A construção de identidades coletivas para Pereiro_(2004) está
imersa num processo histórico de reconstrução do passado no sentido de manter e
criar a própria identidade. No seguimento da identidade do povo, Torres_Luna_e
Lois_González_(1992) estudam os regimes de herança e direito de propriedade da
terra em casos de províncias do interior. Na região da Galícia, e em relação à
evolução territorial entre o urbano e o rural, assiste-se a uma urbanização
social geral no espaço (Ferras_Sexto_e_Lois_González,_1993). Sobre a evolução
territorial dessa região, Logroño_e_Lois_González_(1997) procuraram estabelecer
uma relação entre os fenômenos de reorganização espacial e o desenvolvimento
das várias fases de industrialização.
Como se pode observar, os estudos apresentados focam-se num grupo social e em
análises que pretendem revelar alterações e identidades territoriais. Já o
presente artigo apresenta uma abordagem que combina dois grupos sociais e
explora dois diferentes tipos de conhecimento na percepção sobre os AR e sua
delimitação.
No discurso da sociologia rural, a ruralidade tem estado frequentemente
associada às inter-relações entre a baixa densidade demográfica, o predomínio
da agricultura na estrutura produtiva e as caracterís-ticas culturais (Insua_e
Correa,_2007) associadas ao lugar, localidade ou região como categorias
espaciais (Bærenholdt_e_Aarsæther,_2002). De acordo com a metodologia da
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a Espanha é
classificada por três tipos de ruralidade: litoral ou periurbana, áreas rurais
do interior competitivas e áreas rurais do interior não competitivas, tendo
mais de 47% do seu território considerado como predominantemente rural
(Bertolini,_Montanari_e_Peragine,_2008). A Galícia é uma comunidade autônoma
onde coexistem áreas de costa, montanha e terras planas (Coimbra,_2011), sendo
caracterizada pela presença de AR dispersos e com baixa densidade populacional
(García-Lamparte,_Santé_e_Crecente,_2010). Identifica-se uma dispersão
territorial, ainda que com tendência a se densificar em alguns territórios
(Santos_Solla,_2012). Dado este enquadramento geográfico e a diversidade
morfológica dos AR na Galícia como uma característica de paisagem cultural
(Mata-Olmo_e_Fernández-Muñoz,_2010), delimitar a sua área é uma tarefa
complexa. As sucessivas alterações dos critérios de delimitação de AR nas leis
do solo da Galícia colaboram para essa dificuldade (Barbosa,_Santé_e_Crecente,
2011).
Uma vez que estes critérios se aplicam de igual modo a AR distintos, não são
levadas em conta as características espaciais, formas de usos da terra, assim
como os significados, a cultura e a história dos lugares (Tuan,_1991). Ora, as
necessidades dos habitantes não são atendidas na tomada de decisão sobre a
delimitação dessas áreas, o que resulta num problema no planejamento rural.
ESPAÇO SOCIAL E SUAS PERCEPÇÕES
O termo comunidade, segundo Liepins_(2000), tem sido frequentemente usado como
significado de espaço social, o qual reconhece formas espaciais por relações
sociais (Ferreira,_2007), assim como os significados e o valor de um lugar, os
quais são construídos ao longo do tempo (Barros,_2000; Williams_et_al.,_1992).
Dado que o espaço implica um processo de significados (Merrifield,_1993), no
sentido de que um espaço social seja a construção de um produto social
(Lefebvre,_1984), a percepção que a comunidade rural tem dos lugares pode estar
dissociada da percepção que o grupo de técnicos, responsável pela elaboração de
planejamentos, tem dos mesmos, os quais são concebidos como áreas limitadas
(Nogué,_1989). Manzo_e_Perkins_(2006) consideram importante a integração de
várias perspectivas de análise no entendimento dos valores da comunidade e como
os significados do lugar podem ser mencionados e fortalecidos na elaboração do
planejamento. Sendo assim, como a comunidade rural pode contribuir como ator
participativo no decorrer do processo de planejamento rural?
Perante a relevância da identidade territorial (Sabatini,_Arenas_e_Núñez,_2011)
e seu significado para os habitantes dos AR, torna-se importante que a
delimitação do espaço responda às necessidades identificadas pelas comunidades,
de forma que o planejamento seja integrador de relações socioespaciais do
lugar. Salienta-se o quão relevante é a participação social dos atores nos
processos de planejamento de políticas públicas e dos AR (Delgado_e_Leite,
2011).
Silva_e_Figueiredo_(2013) referem-se à existência do valor simbólico como um
fator a ser considerado no processo de reestruturação rural, dado que um dos
maiores fatores condicionantes sobre os territórios rurais na Europa são as
representações externas e suas consequências na ruralidade, o que torna
relevante o estudo da percepção social de duas comunidades distintas.
Assim, uma questão complementar à comunidade rural e ao grupo de técnicos deve
ser qual é a percepção social que cada um tem dos AR, no sentidodeexplorarsua
percepçãosocialsobre oespaçorural eadelimitaçãodeAR. Apresenteinvestigação
realiza-se na Comunidade Autônoma da Galícia, situada no noroeste da Espanha,
nos municípios de Cervantes e Guitiriz (Figura_1), onde foram entrevistados a
comunidade rural e um grupo de técnicos de planejamento.
Figura 1 Localização dos Municípios de Guitiriz e Cervantes na Comunidade
Autônoma da Galícia
A Espanha possui uma estrutura administrativa formada por 17 comunidades
autônomas criadas na década de 1980 (Pereiro_e_Vilar,_2008), sendo a Galícia
uma delas. Todas têm representação política através de um governo autônomo.
Galícia é formada por quatro províncias, nomeadamente Lugo, Ourense, Corunha e
Pontevedra, sendo que as duas últimas se inserem no Eixo Atlântico com limite
territorial para Portugal. Segundo o Instituto Galego de Estatística (IGE), a
Galícia tem 2.781.498 habitantes, que se distribuem pelas províncias de Lugo,
com 348.902; Ourense, com 330.257; Pontevedra, com 958.428; e Corunha, com
1.143.911 habitantes (IGE,_2012). Galícia tem uma cultura e identidade que não
é uma realidade estática, mas sim formada por processos de negociação social
(Campos,_2004).
Os municípios de estudo são diferentes entre si. Cervantes, município de
características rurais afastado de grandes centros urbanos, encontra-se numa
zona de montanha onde prevalecem alguns assentamentosruraiscom
construçõesseculares denominadaspalhoças, revelando uma preservação do seu
patrimônio edificado. Trata-se de um município com fortes raízes rurais, as
quais ainda são mantidas por sua populacão. Guitiriz é um município de
características mais urbanas, localizado na zona de Terra Chá, compreendida
pelo centro urbano de Guitiriz e pela estrutura viária autoestrada que cruza o
município, permitindo sua acessibilidade a outros centros.
Tendo em vista a paisagem, Campos_(2006)apresenta a interessante questão sobre
as casas rurais tornarem-se modelos para a conservação das paisagens rurais
galegas. Com relação à identidade do espaço rural galego, ainda que por vezes a
distância entre aldeias seja curta, os habitantes têm percepções diferentes -
como é o caso de duas aldeias de Ancares estudadas por Reboredo_(1990) - por
conta dos sucessivos acontecimentos históricos em conjunto com as alterações de
referências geográficas e crenças, que fazem com que as polulações locais
construam sua identidade enquanto grupo ou comunidade. Atualmente, a crise que
existe no meio rural produz transformações relevantes na lógica espacial e,
consequentemente, transformações socioeconômicas, tal como acontecem nas duas
áreas de estudo (Valcárcel_Riveiro_e_Santos_Solla,_1997).
A Galícia enquanto território urbano apresenta, no entanto, diferenças
consideráveis nas suas quatro províncias, sendo a localização e a morfologia
fatores-chave na análise do seu território (Cortizas_e_Alberti,_1999). A sua
arquitetura é condicionada pelo lugar que ocupa num determinando contexto
espacial (Fernández_de_Rota,_1990). As cidades de maiores dimensões localizam-
se na zona litoral da Comunidade Autônoma, o que permite identificar uma
dicotomia entre a zona litoral e a zona interior da Galícia. Esta diferença
sobre a localização das estruturas urbanas reflete-se no espaço rural onde se
identificam vários tipos de espaços rurais formados por diferenças de
topografia, de proximidade a centros urbanos e a infraestruturas de
acessibilidade, assim como por diferenças socioculturais. No espaço rural da
Galícia, o puebloou aldeaconstitui um centro gerador de identidade em resposta
a uma necessidade sociocultural (Reboredo,_1990), ainda que, segundo Lois
González_e_Torres_Luna_(1995), a urbanização suponha a polarização do
crescimento de espaços da Galícia ocidental e costeira em função de alguns
enclaves do seu interior regional.
Temos como objetivo identificar a percepção social do espaço rural e do lugar
de AR a partir da comunidade rural e de um grupo de técnicos em planejamento.
Posteriormente, analisaremos a valoração social de seus elementos
característicos de forma a determinar a sua evolução e tendência das valorações
para organizar e delimitar os AR da Galícia.
A EXPLORAÇÃO DOS GRUPOS SOCIAIS
Para obter informação sobre o espaço rural e os AR, dividiu-se a investigação
em exploração in situe exploração interna, em função de existirem dois grupos
sociais distintos. Dessa forma, procurou-se obter os significados que os grupos
atribuem ao lugar (Gieryn,_2000), além de, com esse procedimento, realizar uma
abordagem mais comparativa e integradora (Marsden,_1999). Metodologicamente,
este artigo se caracteriza por sua opção de pesquisa qualitativa em função de
melhor se adequar aos objetivos propostos, profundamente sustentados pelo
referencial teórico escolhido, mas também com forte vinculação à reali-dade
empírica que subsidia o alcance do objetivo principal do trabalho, que é
identificar as percepções sociais envolvidas na definição dos AR.Nesse sentido,
apesquisaempíricarealizadanão teve aintenção da quantificação de quaisquer
dados, mas, pela análise dos depoimentosque se referemàrealidadeque cada um
dosdoisgruposparticipantes vivencia em seu dia a dia, explorar o conjunto de
opiniões e representações que cada um possui sobre o tema abordado. Também não
se pretendeu fazer qualquer tipo de generalização com base nas informações
recolhidas com os sujeitos da pesquisa como algum tipo de amostragem
significativa ou representativa de determinada população.
Assim, para a exploração situada, realizaram-se visitas de campo a di-versos AR
dos municípios de Cervantes e de Guitiriz, ambos da Comunidade Autônoma da
Galícia (Quadro_1) e elaboraram-se entrevistas acompanhadas de registros
fotográficos e vídeos. O perfil dos entrevistados quanto às suas atividades
profissionais é descrito como: funcionário público, ex-político, padre,
proprietário de comércio, empregado de comércio e agricultor.
Quadro 1 Identificação e Localização dos AR para Coleta de Dados para
Exploração in situ
Município Paróquia do AR Nome do AR Categoria de Análise do AR
San Román de Cervantes San Román Capital administrativa
Piornedo Maior representatividade
San Fiz de Donís histórica
Cervantes Moreira Maioria de moradias
tradicionais
Santiago de Cereixedo Cabañas Antiguas Polo de trabalho
Campo da Braña Maioria de moradias novas
San Mamede de Pedrafita Os Corredoiros Maior representatividade
histórica
Guitiriz San Pedro de Pígara Vimieiro Maioria de moradias
tradicionais
San Marina de Lagostelle Lentemil Maioria de moradias novas
Santa Eulalia de Mariz Viladonega Polo de trabalho
Fonte: Elaboração dos autores, a partir da descrição dos municípios analisados.
Uma vez que se pretende conhecer como os AR têm evoluído e quais são os
elementos espaciais utilizados por seus habitantes para delimitá-los, aplicou-
se a entrevista aberta (Bourgoin_et_al.,_2011), com perguntas orientadas
focando a temática do desenvolvimento rural (Quadro_2). Importa esclarecer que
as questões estiveram associadas aos fatores de espaço e tempo como diferença
individual e social (Harvey,_1990), no sentido de que as respostas permitiram
identificar a identidade do lugar pela sua singularidade (Twigger-Ross_e
Uzzell,_1996) com base nas características espaciais para, posteriormente,
contextualizar a avaliação.
Quadro 2 Sequência das Perguntas nas Visitas de Campo para a Entrevista Aberta
Nº da Espaço/ Propósito da Avaliação das Respostas
Pergunta Questões Tempo Resposta Espaço Rural e Delimitar Evolução do
AR AR
01 Como era o AR antigamente e o que Passado Descrição Identificar Positiva/
o caracterizava? características negativa
02 Como é o AR atualmente e o que o Presente Descrição Identificar Positiva/
caracteriza? características negativa
03 O que é necessário melhorar no Presente IdentificaçãIdentificar necessidades Positiva/
AR? (futuro) negativa
04 Qual é o futuro do AR? Futuro Exposição Identificar cenários Positiva/
negativa
Fonte: Elaboração dos autores, a partir da análise da entrevista aberta com a
comunidade rural.
Com base no conjunto das questões, elaborou-se uma tabela de opinião com a
coleta da informação dos entrevistados, e dividiram-se os temas entre espaço
rural e delimitação do AR, ambos avaliados quanto a aspectos positivos,
negativos e soluções. Em seguida realizou-se uma avaliação qualitativa sobre a
evolução do AR. O espaço rural e a delimitação do AR referem-se à imagem ideal
e aos elementos comentados pelos habitantes (Champion,_2001), sendo avaliados
segundo a identificação das características, necessidades e exposição de
cenários do próprio AR. A evolução do AR diz respeito à forma como os
habitantes interpretam o seu desenvolvimento espacial, ou seja, qual é a
percepção dos habitantes sobre os AR e sua evolução - positiva ou negativa -
até o presente, como valoração qualitativa. Em seguida, usou-se um mapa
(Herlihy_e_Knapp,_2003; Ngah,_Preston_e_Asman,_2010) no qual se identificaram
espaços representativos do AR segundo as descrições dos habitantes, obtendo uma
delimitação do mesmo.
Para a exploração interna, elaborou-se um questionário (Van_Dam,_Heins_e
Elbersen,_2002) para um grupo de 15 técnicos em planejamento territorial
pertencentes aos grupos de investigação, com a seguinte ordem de questões: o
que define um AR, o seu estado atual, o planejamento físico do AR e, por
último, o planejamento do AR segundo o seu imaginário (Quadro_3). As questões
estavam associadas aos fatores de espaço e tempo para, em conjunto com os dados
obtidos, possibilitarem a elaboração de uma avaliação num contexto cronológico.
Quadro 3 Sequência das Perguntas no Questionário
Nº da Espaço/ Propósito da Avaliação das Respostas
Pergunta Questões Tempo Resposta Fatores ou Características do
AR
01 Identifique os elementos que caracterizam os AR atualmente Passado/ Identificação do Positivo/negativo
presente AR
02 Mencione as principais questões/problemas que afetam/intervêm nosPresente/ Relevância no AR Problema/dificuldade
AR futuro
03 Como considera que devem estar organizados os planos de AR no Futuro Planejamento do AR Expectativa de organização
futuro?
04 Elabore um desenho imaginário de um plano de AR Futuro Identificação Elementos espaciais
gráfica representativos
Fonte: Elaboração dos autores, a partir da análise do questionário para o grupo
de técnicos.
Por meio da informação obtida do conjunto de questões, elaborou-se uma
avaliação qualitativa aplicando-se mapas mentais e diagramas de Venn (Cavestro,
2003), determinando a existência de fatores e características associadas ao AR.
Na primeira questão, avalia-se como positivo ou negativo o conjunto de
elementos - características sobre o espaço e os habitantes que se vinculem ao
seu planejamento - que constituem atualmente os AR. A segunda avalia, em termos
de problema ou dificuldade, questões associadas ao espaço rural e AR com
vínculo ao seu planejamento. A terceira, quais as expectativas de organização e
como o AR deve responder ao planejamento. A quarta examina os elementos
espaciais identificados e como eles são representativos, isto é, quais são as
referências que o imaginário usa e como as codifica no desenho de um plano de
AR, através da sua organização e distribuição espacial. Em relação às três
primeiras questões do questionário foram utilizados diagramas de Venn
(Mascarenhas,_1991; Sedogo_e_Groten,_2002), dado que estes exemplificam a
representação social (Mosse,_1994) de organizações, influências e importâncias
de diferentes indivíduos por comparação (Sarmento,_Ferreira_e_Hurtado,_2009).
Para a quarta questão usou-se o mapa mental (Abedi_e_Khodamoradi,_2011) para
expor quais são os elementos espaciais identificados, como estão organizados e
distribuídos, ou seja, qual é a concepção do lugar (Healey,_2006; McCall,_2003)
de um AR típico.
PERCEPÇÕES DOS GRUPOS: ANÁLISE SOCIAL
Os resultados da exploração in situe das respostas das visitas de campo
encontram-se na tabela de opinião (Quadro_4) e no mapa mental (Figura_2). Em
seguida, há um gráfico correspondente à avaliação do AR sobre a sua tendência
de evolução.
Quadro 4 Tabela de Opinião dos Entrevistados como Exploração in situ
Percepções Aspectos Positivos Aspectos Negativos Soluções
- O turismo movimenta a região. O maior movimento é das pessoas que vão ao- Falta de pessoas e poucos jovens. - A comunidade como o protagonista. Estratégias do desenvolvimento local a
posto de saúde. partir do local e com a população local.
- Os dias mais importantes da semana são a segunda e a sexta-feira por conta- Território disperso e não concentrado. - Construir um parque natural ou de proteção da paisagem para empregar os
dos serviços. jovens. As pessoas preferem estar afastadas umas das outras.
- As pessoas regressam às casas de família para passarem o fim de semana. - Antes estava cheio de gente, agora está vazio. Muitos foram para Barcelona e - Programas concebidos com o envolvimento da comunidade. Aplicação de recursos
outras cidades à procura de oportunidades. Antes voltavam no verão; agora, nemna própria região e com pessoas da região. Planejamento com foco nas
isso. necessidades e desejos locais.
- A cultura, o modo de vida e o seu baixo custo. A natureza. - Faltam serviços, e os que existem são insuficientes. - Importância do turismo e de algum tipo de parque natural como instrumento
para gerar emprego.
- A proximidade do contato com a natureza e turismo contrário ao de "massa" - Falta de infraestrutura (água, energia, telefone, TV) e de acesso a serviços- O planejamento rural ou urbano não pode ser feito por uma pessoa que não
e à urbanização. (bancos, correios, comércio). conhece o local. É necessário ouvir a comunidade.
- Acesso à tecnologia para o trabalho rural. Os caminhos são melhores. - As ações de desenvolvimento não levam em consideração as pessoas do local- Criação de emprego no local.
seja, o planejamento que se faz é como uma força exógena.
- A vida na comunidade é saudável pela vizinhança (modo de vida). - Tudo piorou nos últimos 15/20 anos. - Discriminação positiva, tratar diferenciadamente as ações voltadas para o
Espaço meio rural.
rural - A infraestrutura melhorou nas últimas décadas. - O transporte público é escasso. Escolas e serviços de saúde cada vez mais - Valorização do turismo, com a consequente criação de empregos no setor para
distantes. as pessoas do local.
- Nos últimos 20 anos, passou-se de se fazer tudo à mão para se fazer tudo- Falta apoio dos governos e de políticas que sirvam aos interesses locais. - A solução para a região é construir um muro como o de Berlim.
com máquinas - houve uma grande evolução.
- Os turistas vêm pela natureza e pela qualidade de vida. - As escolas têm poucos alunos. As pessoas não aproveitam a infraestrutura - As soluções dos problemas da comunidade passam por transformações em
existente (escola). instituições e infraestrutura mais distantes.
- A maioria da população é de reformados. - Devia-se educar o espaço rural como um bem cultural e patrimonial. Um espaço
com futuro.
- Falta promoção de economia local, e em nível cultural, não se educa para
isso.
- A comunidade não teve acesso aos recursos para manutenção das palhoças
(Programa LIDER). Apenas um assentamento teve.
- Dificuldade para comercialização da produção local.
- Não existe uma oficina de turismo para apoio aos turistas. As que existem
estão nas cidades.
- O assentamento deve ter casas agrupadas e uma área de centro de - Os assentamentos não têm casas para alugar ao turismo. - O crescimento dos assentamentos será na direção que não afete os interesses e
assentamento. o bem-estar das pessoas.
- Existem assentamentos que se dividem na parte de cima e na de baixo. - Não existe um plano de urbanismo como, por exemplo, um plano geral de - O crescimento tem que articular a questão legal com os interesses da
Alguns têm uma área central. ordenamento municipal. comunidade, assim como as áreas novas do assentamento.
- Os cafés, edifícios coletivos ou praças são importantes para o - Constrói-se muito em terrenos bons para cultivo. - O crescimento físico do assentamento, em termos de edifícios, deve ser para
assentamento, porque é onde se juntam os vizinhos. onde menos prejudique as pessoas.
- Os assentamentos têm uma história. - Quando se pretende construir existem demasiadas proibições com relação a - Constrói-se sem respeitar as tradições dos edifícios.
Delimitar distâncias.
AR - Possuem uma área central com casas e no entorno, existem outros tipos de - Os assentamentos têm muitas casas abandonadas. - É preciso derrubar tudo e reconstruir novamente.
edifícios como naves.
-A riqueza etnográfica deve ser preservada e protegida. - Existe pouco financiamento para conservar os edifícios históricos e por isso-Os edifícios novos são construídos ao lado das vias.
não se protege o seu valor.
- Os turistas pretendem ver as casas antigas por serem de pedra e as - Deve existir uma distribuição de usos por zonas e não se deve construir em
palhoças. declives.
- As casas em pedra têm um valor tradicional. - Os edifícios novos devem se integrar com a paisagem e com o que existe no
assentamento.
- A infraestrutura como água, luz e telefone melhorou nos assentamentos.
Fonte: Elaboração dos autores, com base na exploração in situ.
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Figura 2 Delimitações dos Habitantes Entrevistados no AR de San Roman de
CervantesFonte: Elaboração dos autores, com base nas respostas das
entrevistas.
A tabela de opinião em relação ao espaço rural apresenta como mais relevantes,
entre os aspectos positivos, a importância do turismo para a região, a
possibilidade de contato com a natureza sem sentir a pressão de um rural
urbanizado como "massa" e a paisagem como um elemento a proteger e conservar.
Entre os aspectos negativos estão a falta de pessoas, sobretudo jovens, a falta
de serviços e a desarticulação das ações de planejamento em relação à opinião e
aos interesses das comunidades locais. Como soluções, há a proposta de criação
de áreas de proteção da paisagem para valorização ou de um parque natural de
forma a criar empregos locais, assim como envolvimento das comunidades em
programas de desenvolvimento rural. Em relação a delimitar o AR, os resultados
mais relevantes são: com aspectospositivos, os AR devem ter as casas agrupadas,
uma área central e deve existir uma diferença quanto às funções dos edifícios;
como aspectos negativos estão a construção de edifícios em terrenos bons para
cultivo, a falta de planejamento e a falta de proteção de edifícios
tradicionais ou históricos como conjuntos a valorizar; como soluções, propõe-se
que o crescimento da área edificada não deve ser em terrenos com declive e que
haja articulação entre o legal e os interesses locais, além de se reconhecerem
zonas por funções de edifícios.
Sobre o espaço rural, os entrevistados indicam a paisagem como um elemento-
chave no desenvolvimento de atividades socioeconômicas, dada a importância que
o turismo de natureza pode assumir, desde que preservando o modo de vida dos
habitantes, porque consideram a vida na comunidade como saudável. A perda de
população associada à escassez cada vez maior de transport epúblico para acesso
a serviços localizados sobretudo em áreas urbanas provoca um sentimento de
isolamento nos entrevistados e a sensação de que os AR são lugares atualmente
com pouca importância na sociedade atual, o que foi considerado como negativo.
Apontam soluções quanto ao futuro da comunidade rural pela necessidade de
considerar os espaços rurais como áreas protegidas e/ou parques naturais, o que
poderá criar empregos associados ao turismo, uma vez que a comunidade rural
conhece as suas necessidades e por isso também apela para um maior protagonismo
nas ações de planejamento realizadas para o espaço rural.
Sobre delimitar o AR, os entrevistados classificam positivamente o fato de os
assentamentos serem lugares com história e que, portanto, as casas antigas e
construções etnográficas - como são as palhoças - devem ser conservadas e
protegidas, até porque são fatores de atração para quem visita. Identificam os
AR pela proximidade das casas e por um lugar central utilizado como local de
reunião e de atividades. De forma negativa avaliam que se constrói em terrenos
bons para cultivo e longe das vias. Quando existem áreas protegidas e se
pretende construir, o planejamento é dificultado por conta de restrições de
distâncias que, não atendendo às necessidades dos habitantes, o tornam
ineficiente. As soluções apresentadas identificam a diferença entre áreas novas
e áreas antigas do AR como uma referência ao valor tradicional que é importante
preservar, além de que os novos edifícios devem ser adjacentes ou próximos das
vias de acesso. Isto facilita a integração no espaço do AR e a organização de
diferentes zonas. O planejamento deve ser mais participativo no sentido de
maior envolvimento da comunidade para expressar as suas necessidades.
O mapa mental (Figura_2), enquanto exercício apelativo a uma memória social
responsável pela estruturação dos sistemas socioespaciais (Domingues,_1999),
mostra uma proposta de delimitação do AR dividida em duas áreas, isto é, norte
e sul. Os habitantes os classificam como "o lado de cima" e "o lado de baixo" e
identificam, numa primeira fase, edifícios representativos de poderes políticos
ou públicos, assim como de funções, tais como: o edifício do conselho, o da
associação de desenvolvimento local, a escola e a igreja. Numa segunda fase,
encontram-se os edifícios com atividade econômica, como são o banco e o hotel/
café, seguindo-se dos edifícios com caráter e valor histórico, como são as
palhoças. Existem diferenças no uso destes edifícios, além de representarem
diferentes padrões sociais de apropriação do espaço. Esta sequência é
acompanhada de registros gráficos, na tentativa de agrupar estes edifícios em
conjunto de polígonos. Numa fase seguinte, classificam as vivendas novas ao sul
do AR como vivendas diferentes das antigas associadas ao termo "tradicional" e
assinalam como um conjunto edificado. Com base nestas diferenças, distinguem os
polígo-nos entre tradicional ou novo e posteriormente desenham a delimitação do
ARpor identificação de zonas,atribuindo nome de área tradicional ou área nova.
Em relação à tendência de evolução dos AR (Gráfico_1), observa-se que, na
primeira questão, os entrevistados descrevem como era e o que caracterizava o
AR de forma geral com uma perspectiva positiva, quando identificam suas
características no passado. Descrevem os AR como lugares essencialmente de
atividade agrícola e com uma população equilibrada em termos de faixas etárias.
Naquela época havia jovens e trabalho para muita gente. Na segunda questão,
sobre a descrição do estado atual e o que caracteriza o AR, 45% das respostas
apresentam uma perspectiva positiva. De 20 anos atrás até o presente, ainda que
haja melhor infraestrutura e melhores vias de comunicação, afirmam, quando se
referem à escassez de transporte público e à concentração de serviços em áreas
urbanas, que isso tem piorado. Quando se questiona sobre o que é necessário
melhorar no AR, apenas 35% das respostas revelam uma perspectiva positiva, ou
seja, a maioria identifica as necessidades de melhorar desde uma perspectiva
negativa. Para os habitantes, os AR necessitam de incentivos econômicos para
preservação do patrimônio edificado e, assim, valorizar o seu valor histórico.
Na última questão, destinada à exposição de cenários futuros para o
desenvolvimento do AR, 80% das respostas indicam uma perspectiva negativa
quanto ao futuro dos AR. Indicam que não há futuro, pois não há gente, nem
trabalho, e comentam que existem casas vazias transformando-se em ruína, o que
significa o abandono do espaço rural. Constatam a dificuldade em comercializar
produtos locais e a falta de promoção de economia local, afirmando que assim
não existe possibilidade futura para gente nova viver em áreas rurais. O
resultado das quatro questões no seu conjunto mostra, numa análise espaço-
temporal, uma tendência negativa por parte dos entrevistados sobre como os AR
têm evoluído em termos de desenvolvimento espacial, bem como no que diz
respeito às necessidades de melhora e às expectativas quanto ao futuro dos AR.
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Gráfico 1 Tendência de Evolução dos ARFonte: Elaboração dos autores, com base
nas respostas das entrevistas.
Os resultados da exploração interna e das respostas do questionário
correspondentes às três primeiras questões são apresentados nos diagramas de
Venn (Figura_3). Sobre a primeira questão (elementos que caracterizam os AR
atualmente), o diagrama de Venn apresenta como positivos a valorização da
paisagem e cultivos para autoconsumo; e como negativos o predomínio da
agricultura, poucas residências e uma população envelhecida. As construções
antigas, edificação e paisagem desordenada são considerados como negativos mas
com menor relevância. Os elementos positivos identificados estão relacionados
ao cultivo de autoconsumo, bem como à paisagem, que devem ser valorizados por
representarem a identidade rural. Os principais elementos identificados como
negativos, ao associarem o predomínio da agricultura a uma população
envelhecida, indicam a dificuldade do desenvolvimento rural.
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Figura 3 Elementos que Caracterizam os AR AtualmenteFonte: Elaboração dos
autores, com base na exploração interna/questionário aos técnicos.
Sobre os principais problemas que afetamos AR (segunda questão), identificam-
se, através do diagrama de Venn (Figura_4), como dificuldades, o acesso à terra
e à cultura rural; e como problemas, a escassez de serviços, uma infraestrutura
precária e a falta de emprego. Também como problemas que afetam o AR, mas com
menor relevância, identificam-se o isolamento, atividades agrícolas e a
expansão da agroindústria. Os principais problemas mencionados dizem respeito
sobretudo a questões relacionadas com a atividade econômica de base e serviços
afetando os AR por falta de multifuncionalidade, não existindo referências a
aspectos de organização espacial.
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Figura 4 Principais Questões/Problemas que Afetam/Intervêm nos ARFonte:
Elaboração dos autores, com base na exploração interna/questionário aos
técnicos.
Em relação a como devem estar organizados os planos dos AR (terceira questão),
o diagrama de Venn (Figura_5) identifica como principais expectativas o
equilíbrio entre funcionalidade e conservação da estrutura morfológica do AR,
assim como a valorização da paisagem e de tradições culturais, além de melhores
serviços públicos. Com menor importância quanto à expectativa, identifica-se
que os planos de ordenamento devem associar medidas de proteção e que as
edificações devem se integrar com a natureza. A uniformidade através de um
padrão de construção e a alteração do reduzido tamanho das parcelas são
avaliadas com mínima expectativa quanto à possibilidade de se realizar.
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Figura 5 Tipos de Organizações de Planos de ARFonte: Elaboração dos autores,
com base na exploração interna/questionário.
Identifica-se com maior expectativa o valor tradicional e paisagístico,
associado à sua funcionalidade e conservação, como elemento organizador no
planejamento do AR.
Da quarta questão resulta o desenho de um plano de AR no qual se apresentam
elementos espaciais que os participantes consideram como importantes e
representativos para um AR. A composição gráfica é o resultado de como
interpretam esses elementos. Identificam-se uma estrutura de vias orgânicas e
uma praça ao sul com edifícios no seu entorno. Ao leste, o desenho da via
acompanha um conjunto de casas com áreas de cultivo de autoconsumo,
distribuídas em partes com formas irregulares. Ao norte, as casas têm edifícios
de maior dimensão para apoio às atividades agropecuárias. No lado oeste, há uma
igreja e uma área recreativa. É sobretudo uma organização não ortogonal, em que
a área edificada não é contígua, incluindo uma praça, uma igreja e uma área
recreativa como espaços de atividades sociais coletivas.
DISCUSSÃO DO DESENVOLVIMENTO E PLANEJAMENTO DOS ASSENTAMENTOS RURAIS
Com relação aos resultados expostos na exploração in situ- especificamente
quanto à paisagem, ao contato com a natureza e a um maior en-volvimento da
comunidade rural no planejamento rural como uma solução -, pode-se dizer que
exprimem a distância entre a comunidade e os técnicos de planejamento na hora
de elaborar projetos e planos de ordenamento territorial. Esta distância pode
explicar a pouca receptividade por parte das comunidades locais quando lhes são
apresentados planos gerais de ordenamento municipal, justamente porque o
produto final apresentado não teve ação participativa da população em seu
desenvolvimento, nem a possibilidade de alguma tomada de decisão. As respostas
às duas últimas perguntas e a sua tendência negativa explicam em parte esta
distância quanto à partilha e participação do conhecimento local nos planos de
planejamento referenciados anteriormente.
Sobre delimitar o AR, os habitantes apresentam a defesa da preservação dos
edifícios tradicionais históricos, o estabelecimento de diferenças de funções
por edifício, além de que o AR deve ter os edifícios agrupados. Estas
características identificadas representam em parte as referências espaciais e
os limites físicos do AR para os habitantes, que, segundo o mapa mental obtido,
são conjuntos de edifícios agrupados entre si associados a zonas ou áreas
segundo a função desses grupos de edifícios. Quando fazem referência à
ineficiência do planejamento, estabelecem uma relação entre a intenção de
construir algum tipo de edifício novo com a área de influência ou de proteção
de um edifício com classificação por sua condição histórica. Esta ineficiência
deve-se ao fato que o planejamento não atende às necessidades dos habitantes.
Ainda que concordem com a proteção de bens históricos, o planejamento não deve
ser, nesses casos, um instrumento de proibição, pelo fato de não cumprir uma
distância mínima fixa.
A proposta de delimitação no mapa mental ilustra a diferença clara entre áreas
novas e antigas para os habitantes sobre o AR. Isto porque eles identificam os
materiais e sistemas construtivos dos edifícios atribuindo um valor histórico
segundo o seu tempo e como representação social de uma época do passado. Este
método, ainda que indique uma participação ativa da comunidade rural por meio
da qual é possível registrar e ilustrar problemas, necessidades e expectativas
quanto ao espaço que afeta os habitantes, não é suficiente para a desejada
partilha do conhecimento da comunidade rural para com a técnica. Um
planejamento mais eficiente deverá ser por uma participação ativa contínua, de
maneiraque ambos os grupos sociais construam um processo de comunicação por
colaboração e não por imposição, no sentido de desenvolverem sinergias sociais
em longo prazo.
A tendência negativa das respostas nas quatro perguntas, desde o período
passado até o futuro,explica uma perspectiva cética sobre a evolução do espaço
rural com base na perda de valores socioculturais e econômicos importantes para
os habitantes. Segundo a comunidade rural, o fato de existirem muitos serviços
públicos (escolas e cuidados de saúde) nas áreas urbanas em detrimento das
rurais, bem como o reduzido transporte público para acesso às áreas urbanas, ou
seja, para acesso a esses mesmos serviços, é interpretado como um problema e,
ao mesmo tempo, como uma responsabilidade que as áreas urbanas devem ter para
com as áreas rurais, de maneira a garantirem que esses serviços sejam para
todos.
Da exploração interna feita com os técnicos, a avaliação positiva da
valorização da paisagem e de cultivos para autoconsumo, e negativa do
predomínio da agricultura, assim como de poucas residências, expõe a falta de
atividades econômicas além da agrícola e sua necessidade para um melhor
desenvolvimento rural. Pode-se interpretar a necessidade da multifuncionalidade
como uma possibilidade de resposta para o desenvolvimento da comunidade rural.
Sobre os elementos representativos do AR expostos, abordam a funcionalidade e a
conservação da estrutura morfológica sem especificar diferenças na estrutura
edificada que configura espacialmente o AR. Isto é explicado no desenho do
plano de um AR, onde apenas existe diferença da tipologia dos edifícios. Nos
diagramas de Venn, ao identificarem a paisagem e os produtos locais como
positivos, estão a referenciá-los como oportunidades para o desenvolvimento
econômico da comunidade rural que estão ao seu alcance, até porque um dos
problemas que identificam com ênfase é a falta de emprego. Quando os técnicos
sugerem a valorização da paisagem, a conservação dos edifícios e da estrutura
morfológica dos AR, indicam-nas como possíveis formas de desenvolvimento para
as necessidades da comunidade rural a que o planejamento rural deve responder.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao questionar a comunidade local e o grupo de técnicos sobre o espaço rural e
como delimitar o AR, pretendia-se explorar as suas percepções sociais, além de
quais e como eram referenciados os elementos espaciais em função da sua
integração social. Analisando a exploração in situem relação ao espaço rural e
à delimitação de AR, verificam-se referências à área edificada e à paisagem,
assim como ao dever de serem protegidas e conservadas, como soluções ao
desenvolvimento rural, se articuladas aos planos de proteção. Estes elementos
identificados pelos habitantes como positivos constituem oportunidades de
desenvolvimento para a comunidade rural, desde que ocorra um planejamento que
responda às necessidades reais dessa comunidade, e não apenas numa perspectiva
de resposta aos interesses e necessidades da área urbana. O envolvimento ativo
da população local através de métodos de participação durante o processo de
planejamento, e no caso específico de um plano geral de ordenamento municipal,
é entendido como fundamental para a comunidade. Este relacionamento de
participação ativa no planejamento mitiga o sentimento de isolamento e perda do
valor social que a comunidade rural possui.
A pouca população residente e a escassez de serviços e de transporte público
para aceder a áreas urbanas concluem a perspectiva negativa que os habitantes
têm quanto ao futuro do espaço rural, acrescentando uma situação de maior
dependência da comunidade rural em relação às áreas urbanas. Esta maior
dependência, associada ao isolamento, exprime a sua reduzida capacidade de
atuação como atores participativos no planejamento da comunidade rural, como,
por exemplo, através dos planos gerais de ordenação municipal. Os instrumentos
de planejamento rural deveriam ter, no seu processo de desenvolvimento, uma
fase de maior participação ativa da comunidade rural, até porque constituem um
meio de desenvolvimento do espaço enquanto função social e de coesão da
comunidade. Tal como foi proposto, os resultados obtidos pela participação da
comunidade rural através do método do mapa mental demonstram uma via intermédia
de participação em que os habitantes expuseram a sua percepção social sobre os
espaços do AR e como se relacionam, daí a atribuição de áreas segundo
diferentes representatividades sociais do espaço.
Sobre a tendência de evolução do AR e do espaço rural, os resultados a partir
das respostas obtidas permitem concluir que existe uma tendência de crescimento
da perspectiva negativa no espaço temporal compreendido entre o passado e o
futuro. Quanto à primeira pergunta, que se refere ao tempo passado, isto é, ao
que caracterizava e como era o AR antigamente, as respostas indicam uma maior
porcentagem da perspectiva positiva. À medida que se executam as perguntas em
entrevista aberta, percebe-se a diminuição da perspectiva positiva, pelo que se
pode comprovar pelos resultados da última questão, sobre o futuro dos AR. Estes
dados, além de identificarem uma evolução na tendência de perspectiva, permitem
concluir que os entrevistados se encontram ou valorizam mais aspectos
relacionados com a sua memória e identidade do passado do que com fatos e
alterações que acontecem no presente dos AR e do espaço rural. Esta identidade
afeita às condições de vida do passado, em certa medida, explica a proximidade
que a população residente no espaço rural atribui à terra, característica
conhecida e reconhecida na Galícia como sociocultural.
Para o grupo de técnicos, a predominância da agricultura é entendida como um
problema, sendo que uma maior diversidade de atividades econômicas geraria
desenvolvimento rural, traduzindo-se num espaço rural multifuncional. A
valorização da paisagem é importante para o espaço rural e deve ser integrada
no planejamento de um AR. Em relação a um plano de AR, este deve ser uma
estrutura ortogonal em que a organização da estrutura edificada se realiza
segundo a via e uma praça, sendo estes elementos de suporte à distribuição dos
edifícios. Conclui-se que, pelo fato de os edifícios não serem caracterizados
pela sua diferença tipológica, não se permitem estabelecer diferenças entre
áreas tipológicas como tradicionais ou novas, o que resulta numa distribuição
espacial limitativa quanto ao valor tradicional e histórico que um AR pode ter.
Os resultados obtidos por ambas as explorações demonstram uma aproximação sobre
o que caracteriza os AR e quais são seus problemas. Da mesma forma, numa
perspectiva de expectativa futura, o elemento da paisagem deve ser entendido
como um ativo espacial e social a valorizar. Como principal diferença entre as
explorações, demonstra-se a falta ou reduzida participação no planejamento por
parte da comunidade local, cujo valor enquanto conhecimento local não é
reconhecido por parte do grupo técnico. Ou seja, existem perspectivas
semelhantes identificadas como aspectos positivos e negativos, o que se pode
traduzir numa aproximação quanto a futuras ações de planejamento; no entanto,
falta e é necessário um instrumento intermediário de participação ativa e que
funcione como ligação entre a comunidade rural e a técnica.
Desta forma, é necessário que as explorações sobre os dois grupos diferentes
permitam, além das diferenças existentes, obter aspectos em comum quanto à
percepção social do espaço rural e de como delimitar um AR, de forma a que o
seu planejamento seja um resultado da integração social de elementos e
características relevantes quanto ao seu significado espacial. Neste contexto,
justificam-se as duas abordagens sobre a percepção social como um contributo ao
planejamento rural,e a intenção desta investigação de responder às necessidades
das comunidades locais envolvendo um conhecimento técnico, de maneira que, em
conjunto, comunidade rural e técnicos sejam capazes de representar uma
delimitação de AR que partilhe os problemas, necessidades e desafios do lugar
de AR. Além disso, a pesquisa desenvolvida sobre a percepção social pode ser
aplicada a outros contextos rurais e com relação a outros grupos, visto que se
trata de uma exploração.