Intenções versus desempenho: o Brasil na política externa portuguesa (1976-
2007)
Introdução
Em Portugal, o período imediatamente após ao 25 de Abril de 1974 é
caracterizado pelos processos de descolonização e democratização e,
posteriormente, pelo empenho no processo de adesão às comunidades europeias. Se
o regime autoritário se tinha fechado com a questão colonial por resolver, não
é de estranhar que o novo regime se depare, desde logo, com a mesma
preocupação, abordando-a, inevitavelmente, de forma diferente. Tal como
demonstrado em alguns trabalhos "o fim do regime autoritário e o processo de
transição à democracia que se inicia em 25 de Abril de 1974 vem determinar uma
redefinição profunda da política externa portuguesa (...): descolonização,
democratização e desenvolvimento."1 passam a ser as linhas condutoras do país
nos primeiros tempos da democracia. Se este período foi marcado por aquelas
determinantes, qual o papel que o Brasil tem ocupado na estratégia de política
externa portuguesa desde 1976?
O que pretendemos mostrar com este artigo é que, apesar das alterações exigidas
pela democratização e a tônica no processo de integração europeia, a política
externa portuguesa não deixou de contemplar outras áreas regionais. O nosso
argumento sustenta que, no caso da América Latina, se destaca a relação com o
Brasil, embora tenha prevalecido a retórica e o simbolismo sobre as
concretizações práticas, devido, essencialmente, à matriz de valores históricos
e culturais que proporcionou aquela continuidade.
Partindo dos eixos orientadores da política externa portuguesa no pós 25 de
Abril, nomeadamente com a instauração do primeiro Governo Constitucional em
1976, o artigo visa analisar o enquadramento do Brasil nas opções da política
externa portuguesa. Assim, depois de, resumidamente, traçarmos a evolução das
relações luso-brasileiras, iremos confrontar a narrativa e a prática
selecionando quatro indicadores:2 os programas de cada governo no que toca ao
item da política externa, as visitas oficiais realizadas ao Brasil pelos
Presidentes da República, Primeiros-ministros e Ministros dos Negócios
Estrangeiros portugueses, o investimento português no Brasil e imigração
brasileira em Portugal. Embora se adopte uma avaliação temática a mesma
comporta uma análise temporal que corresponde aos vários Governos
Constitucionais em Portugal, como é possível conferir no quadro_1 .

A histórica relação luso-brasileira
Quando em 1974 a democracia se instalou em Portugal, ainda se vivia no Brasil
um período ditatorial, contudo, não podemos avaliar esta diferença como um
óbice ao relacionamento dos dois países, tal como não fora quando Portugal era
uma ditadura e o Brasil uma democracia. Salazar e o Presidente Kubitschek
mantiveram sempre boas relações, e o Brasil apresentou-se, na maior parte dos
casos, como um defensor das políticas de Salazar (Gonçalves: 2003). Contudo, a
revolução portuguesa suscitou algumas desconfianças no Brasil, e entre 1974 e
1976 o relacionamento entre os dois países conheceu um certo abrandamento.
Ainda assim, o Governo brasileiro foi o primeiro a reconhecer oficialmente o
novo regime português. Nos dois anos imediatamente após a revolução, a
principal fonte de inquietação residia nos territórios portugueses na África3,
mas em 1976 o desenrolar das relações luso-brasileiras iria começar a fluir, e,
em 1978, com as instituições políticas portuguesas a funcionarem dentro da
normalidade foi possível conferir também uma certa ordem às relações com o
Brasil, assinalada com a visita do Presidente da República, Ramalho Eanes, ao
Brasil em maio desse ano.
Ainda assim, quando o processo de democratização aconteceu registaram-se
sentimentos diferentes no Brasil, "uma reacção negativa de amplos sectores da
emigração portuguesa e uma reacção positiva de muitos sectores da oposição à
ditadura" (Telo: 2005, 290). A reação da comunidade portuguesa no Brasil é
importante porque quando se dá a transição democrática em Portugal, o número de
emigrantes portugueses no Brasil era significativo, e durante o Estado Novo
tinha sido determinante na influência da política bilateral dos dois países.
Se, inicialmente, Salazar se mostrou contrário ao fenômeno da emigração, logo
percebeu que este poderia ser um importante grupo de pressão a favor da
política portuguesa.
Mas foi a questão da descolonização que surtiu maior efeito no desenrolar da
relação luso-brasileira, do mesmo modo que para os líderes brasileiros essa
questão era mais importante do que a própria revolução. De facto, "a pedra de
toque que reconciliaria Portugal com o sistema internacional e que permitiria
reequacionar as relações luso-brasileiras era a mesma: a descolonização de
África" (Carvalho: 2009). Logo em 1974, a aceitação do Brasil para mediar a
independência da Guiné-Bissau não foi bem recebida por Portugal, causando um
grande mal-estar diplomático. E se o governo português não estava certo de
querer o envolvimento brasileiro na resolução dos processos de independência,
também alguns países africanos não se mostraram dispostos a aceitá-lo, embora o
pedido de mediação na independência de Angola tenha sido solicitado pela
Organização da Unidade Africana (OUA). Por conseguinte, face à
indisponibilidade dos Estados Unidos e à reprovação do Brasil (Telo: 1998,
288)4, Portugal aceitou num curto espaço de tempo as independências dos
territórios africanos, e logo nos primeiros meses da revolução a questão
colonial ficou resolvida. A partir daqui a abertura ao mundo e o rumo à Europa
foram a pedra angular da política externa portuguesa. Qual passou a ser, então,
o lugar ocupado pelo Brasil?
Fraternidade, amizade e cultura: a base da vontade de aproximação ao Brasil
A análise dos programas dos governos permite-nos verificar que a justificação
encontrada para a inclusão do Brasil entre as prioridades portuguesas está
intimamente relacionada com "laços especiais de fraternidade", "afinidades
históricas e culturais" ou por toda uma "tradição de amizade, colaboração e
profundas raízes culturais". No período entre 1976 e 1985, a política externa
portuguesa evoluiu, antes de mais, em direção à Europa. De acordo com as linhas
programáticas, nesta fase, a aproximação ao Brasil fez-se acima de tudo, por
razões de ordem histórica e de identidade cultural.
O programa do X Governo Constitucional (1985-87), liderado por Cavaco Silva,
apontava como prioridades: a integração europeia, a participação na Aliança
Atlântica, o reforço do relacionamento com os países africanos de língua
oficial portuguesa e o apoio às comunidades portuguesas no mundo. No segundo
Governo de Cavaco Silva (1987-91) as prioridades estratégicas de política
externa permaneceram, realçando, entre outras, a "reaproximação global de
Portugal à América Latina, com especial ênfase na relação privilegiada com o
Brasil."5 Ora, o que podemos constatar é que começou a haver um rol crescente
de preocupações que já não se reduziam à afirmação da independência nacional, à
transição democrática ou à integração europeia. Passou a existir a necessidade
de consolidar a democracia para lá da União Europeia, tentando reforçar-se a
posição de Portugal noutras áreas geográficas - como é o caso dos países de
língua oficial portuguesa. Daqui resultou o empenho crescente em conjugar os
interesses nacionais com os ditames europeus - se por um lado se começou a
falar da diplomacia econômica e da necessidade em aproveitar as potencialidades
econômicas nas relações políticas bilaterais, por outro lado, começou a criar-
se a ideia de que era possível que Portugal funcionasse como a ponte na
aproximação do Mercosul e da União Europeia, tendo em conta a relação
privilegiada que mantém com o Brasil.
O XIII Governo Constitucional (1995-99), liderado por Antônio Guterres, marcou
a alternância entre o PS e o PSD na condução governativa, porém, as linhas
gerais da política externa portuguesa não se alteraram substancialmente. Sobre
este domínio, o programa apresentado fazia uma caracterização global dos
relacionamentos de Portugal, onde englobava as relações bilaterais com Espanha,
com o Mediterrâneo e África, bem como com os Estados Unidos. De forma destacada
apareciam as relações de Portugal com o Brasil, onde se afirmava o objectivo de
"desenvolvê-las em termos práticos e adequados às realidades dos nossos dias"6,
realçando os projetos de integração regional de cada um dos países e a
necessidade da criação de uma Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Tal
como anteriormente, mais uma vez se destacou a importância da diplomacia
econômica, que se deveria jogar no plano comunitário (defendendo os interesses
nacionais nas negociações da UE), bilateral (diversificando as relações
econômicas e comerciais) e multilateral (por meio da OMC). A estratégia
econômica que a política externa portuguesa viria a adotar para com o Brasil
tinha na base todo o quadro de valores culturais e históricos que é facilitado
pela existência de uma língua comum. Em 1999, no seu segundo mandato, Antônio
Guterres enfatizava uma vez mais a diplomacia econômica, e a necessidade de a
tornar eficiente.
O Governo de Durão Barroso adotou as mesmas linhas condutoras da política
externa: União Europeia, NATO e ONU, espaço lusófono e divulgação da língua
portuguesa, comunidades portuguesas e diplomacia econômica. Em relação ao
Brasil salientava a necessidade de continuar o relacionamento bilateral, mas
não exclusivamente no domínio econômico. No âmbito da diplomacia econômica,
previa-se a criação de parcerias com vista a reforçar a cooperação econômica e
empresarial com os países de língua oficial portuguesa. A mesma linha foi
seguida pelo Governo de Santana Lopes, acrescentando, relativamente ao espaço
lusófono, a necessidade de aproveitar o recém-constituído Fórum Empresarial e
de dinamizar a actividade do Instituto Internacional de Língua Portuguesa
(IILP) no âmbito da CPLP.
No programa do anterior Governo (2005-2009), a política externa portuguesa
apresentava os mesmos vetores de orientação, ainda que volte a ser enfatizada a
necessidade da internacionalização da economia portuguesa, sem ser, no entanto,
feita qualquer referência ao Brasil.
Deste modo, com a análise das linhas programáticas evidencia-se uma vontade
transversal aos vários governos em privilegiar as relações com o Brasil. Essa
vontade assentou essencialmente numa matriz histórica e cultural, e por isso,
na maior parte dos casos não houve empenho suficiente para responder às
expectativas que eram criadas - exceptuando os momentos em que os interesses
econômicos também se fizeram ouvir - tal como é demonstrado pela constante
repetição dos objectivos das visitas oficiais realizadas.
Das linhas programáticas às visitas oficiais
Como instrumento de política externa, as visitas oficiais realizadas pelos
líderes políticos permitem-nos extrair algumas ilações quanto às prioridades e
opções no cenário internacional, destacando-se nalguns casos apenas o seu
carácter simbólico. Deste modo, como se desenhou o vaivém de visitas oficiais
dos líderes portugueses ao Brasil? Em que situações o seu simbolismo se
sobrepôs a reais vontades pragmáticas?
Adotando a divisão cronológica já mencionada, verificamos que no primeiro
período apenas se registram duas viagens, mas ambas sinônimas de simbolismo - a
primeira viagem oficial ao Brasil, depois do 25 de Abril, foi realizada pelo
Primeiro-ministro Mário Soares em Dezembro de 1976, e a primeira visita do
Chefe de Estado foi também ao Brasil, tal como apresentado no quadro_2.
[/img/revistas/rbpi/v53n2/03q02.jpg]
No primeiro caso, o objectivo fulcral da visita de Mário Soares foi o de dar
uma nova dinâmica às relações políticas entre os dois países, melindradas com
os desentendimentos suscitados com o 25 de Abril. Por isso, Mário Soares, antes
de partir para o Brasil, afirmou que "existem motivos históricos, culturais e
de interesses recíprocos que justificam uma posição especial em relação ao
Brasil."7 Quanto às perspectivas da relação econômica, o comunicado final
emitido após a viagem realçou a coincidência de pontos de vista na
possibilidade de expandir as relações econômicas e comerciais.8 A viagem do
Presidente Ramalho Eanes em Maio de 1978, a primeira de um Chefe do Estado após
o 25 de Abril, aconteceu com um ambiente político brasileiro que não era de
todo favorável: os regimes políticos ainda eram diferentes, existiam
divergências na política externa e a atividade dos exilados brasileiros em
Portugal continuava a gerar alguma desconfiança. Ainda assim, a visita ficou
marcada pela renovação da confiança entre a comunidade portuguesa e a
confirmação da receptividade brasileira no que toca à questão africana e ao
espaço lusófono, tendo sido esta a área mais sensível dadas as diferentes
acepções sobre aquela matéria. A visita de Ramalho Eanes representou um ponto
alto, exatamente, por se tratar de um Chefe de Estado. Os 'laços de sangue' e a
'língua comum' traduziram-se assim nas bases dos discursos dos presidentes,
durante a visita de Eanes.
É importante também sublinhar que entre os anos de 1979 e 1985 não há registo
de qualquer visita dos líderes políticos portugueses ao Brasil, o que não
significa que a política externa portuguesa deixasse de estar atenta ao Brasil,
contudo o processo de adesão à então Comunidade Europeia exigia maior empenho.9
No período seguinte, entre 1986 e 1995, concluído o processo de integração às
Comunidades Europeias, registraram-se cinco visitas oficiais ao Brasil, duas
efetuadas pelo Presidente da República, duas pelo Primeiro-ministro e outra
pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros. O Ministro dos Negócios Estrangeiros
foi quem primeiro visitou o Brasil, em agosto de 1986. O discurso de Pires de
Miranda conferiu importância às perspectivas econômicas que a relação luso-
brasileira poderia adquirir, salientando, obviamente, a entrada de Portugal na
Comunidade Econômica Europeia (CEE).10 Todavia, apesar do desejo do Ministro, a
verdade é que a retórica se sobrepôs à prática ainda durante algum tempo,
talvez por se considerar que o impulso deveria ser dado primeiro no âmbito
político e só depois, e por arrasto, no econômico.
Em abril de 1987, Mário Soares realizou uma nova visita oficial ao Brasil,
desta vez como Chefe de Estado. O objetivo principal da viagem foi o de dar a
conhecer a nova imagem de Portugal, bem como mudar a ideia que os brasileiros
tinham acerca dos portugueses. O Presidente fez-se acompanhar por uma delegação
com cerca de 120 pessoas. No discurso perante o Congresso brasileiro, Mário
Soares fez uma caracterização do novo Portugal: moderno, democrático, dinâmico
e integrado na CEE.11 Durante a visita, o Presidente português12 sublinhou
ainda a necessidade de se implementar uma cooperação econômica entre os dois
países. Apesar da afetividade e dos laços culturais existentes, ainda não tinha
sido possível consolidar aquele tipo de cooperação, pois, tal como referiu,
"não bastam a história e o afeto para alicerçar uma relação econômica
sólida."13
Na visita oficial que o Primeiro-ministro Cavaco Silva efetuou em 1987 o
objectivo era simples: incentivar os empresários brasileiros a investir em
Portugal. A conjuntura interna portuguesa era bastante favorável: Portugal já
era membro da CEE e começava a desenvolver um processo de modernização, tinha
estabilidade econômica, controle da inflação, e estabilidade política. A
segunda visita de Cavaco Silva ao Brasil decorre em 1991, mas com um contexto
brasileiro interno diferente. Positivo a nível político, as primeiras eleições
diretas já tinham ocorrido; negativo a nível econômico, pois o Brasil
atravessava uma dura crise econômica, contrastando com o clima favorável que se
vivia em Portugal. Mais uma vez Cavaco Silva apostou na dinamização do vetor
econômico. Esta visita ficou marcada pela assinatura do Acordo Geral de
Cooperação, bem como de vários documentos que deram uma nova dinâmica ao
Tratado de Amizade e Consulta de 1953. Alguns autores consideram aquele Acordo
como uma parceria entre os dois países, já que significou "o aproveitamento
mútuo das potencialidades de ambos os países e de intensificação das relações
bilaterais" (Marchueta: 2003, 93). Desta forma, a visita do Primeiro-ministro
português permitiu institucionalizar as Cimeiras luso-brasileiras e assinar o
Acordo Ortográfico, realçando, uma vez mais, a importância da língua e da
cultura que unem os portugueses e os brasileiros.
Com a entrada em cena de António Guterres, verificou-se verdadeiramente uma
passagem das palavras aos atos. Depois da visita inaugural do Chefe de Estado
Ramalho Eanes para consolidar as relações luso-brasileiras; da visita de Mário
Soares para dar a conhecer o novo Portugal, aberto, democrático, dinâmico; das
visitas de Cavaco Silva com empresários e da institucionalização da CPLP (que
viria a ocorrer em 1996) parecia que estas iniciativas estavam a impulsionar
uma política externa mais coesa e orientada para o Brasil, criando condições e
aproveitando as oportunidades para definir o Brasil como uma verdadeira
prioridade. Contudo, quando em abril de 1996 António Guterres visitou o Brasil
deparou-se com uma tarefa semelhante à dos governos anteriores: conquistar os
brasileiros. Parecia não existir uma linha condutora mas uma repetição nas
atitudes dos que tinham visitado o Brasil até então, com excepção das visitas
de Soares em 1976 e Eanes em 1978 que permitiram abrir caminho e quebrar o gelo
que existia, embora no essencial permanecesse a "crónica incapacidade de
consubstanciar as iniciativas" (Carvalho: 2009, 170).
O discurso de António Guterres valorizou Portugal, o Brasil e os espaços
regionais em que cada país estava integrado, "por vezes com a mania das
grandezas próprias de pequenos países, Portugal dizia que era a chave para a
entrada do Brasil na Europa. Nem o Brasil precisa de Portugal para entrar na
Europa nem nós precisamos do Brasil para entrar no Mercosul."14 A viagem de
Guterres, com uma comitiva de cerca de 250 pessoas, teve três objectivos
fulcrais.15 Primeiro, dar a conhecer os laços de amizade entre os dois
governantes como forma de garantir as boas relações entre Portugal e Brasil.
Depois, avançar com a ideia de uma parceria ou sociedade a nível empresarial e
econômico, indispensável para ambos os países. E, por fim, deixar uma imagem de
modernidade por meio das várias iniciativas culturais que decorreram.16 Os
objetivos foram conseguidos, a imagem de marca de Portugal foi passada e a
imprensa brasileira chegou a precaver Fernando Henrique Cardoso: "O Guterres
ainda ganha a eleição presidencial no Brasil"17, o que traduz o indubitável
balanço positivo da viagem.
Em 1997, a visita que o Presidente Jorge Sampaio realizou, ocorreu com uma nova
posição do Brasil na política externa portuguesa (porque reflete também uma
estratégia econômica), assumindo-se Portugal como o sexto investidor
estrangeiro no Brasil. Ainda assim, a viagem ficou marcada pela polêmica em
torno do alargamento da reciprocidade de direitos aos cidadãos brasileiros
residentes em Portugal, embora Fernando Henrique Cardoso tenha enfatizado que a
relação política luso-brasileira estava bastante sólida. A visita do Presidente
Jorge Sampaio demonstrou que o Brasil tinha passado a desempenhar um papel
muito mais relevante na política externa portuguesa, em especial devido ao
exercício de uma diplomacia econômica, levada a cabo eficazmente pelo governo
de António Guterres.
Portugal e o Brasil organizaram em conjunto as comemorações dos 500 anos da
chegada ao Brasil. Em março de 2000, Fernando Henrique Cardoso visitou
Portugal, em data coincidente com a partida da armada de Pedro Álvares Cabral,
e em Setembro esteve Jorge Sampaio no Brasil. Dos discursos proferidos por
Sampaio ressalta a ideia de confiança - confiança nos empresários e confiança
no Brasil. Referindo-se à aposta portuguesa feita no Brasil, Jorge Sampaio
realçou que "nós acreditamos no Brasil: não é já a costumada retórica dos
afectos que o diz, mas a fria expressão numérica das realidades econômicas. Nós
acreditamos no Brasil porque estamos a aprender a conhecê-lo melhor."18 Da
visita destaca-se a assinatura do Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta19,
revogando assim o Tratado de 1953. Contudo, ao domínio econômico é apenas
reservada uma pequena referência. Entre outras alterações, o Tratado
estabeleceu a igualdade de direitos políticos, a partir de então cidadãos
brasileiros e portugueses podiam reclamá-los ao fim de 3 anos de residência no
outro país.
No ano de 2004, decorreram três visitas dos líderes políticos ao Brasil, duas
delas realizadas no âmbito da VII Cimeira Luso-brasileira, e a terceira
efectuada pelo Primeiro-ministro Pedro Santana Lopes. Face a isto, e devido à
alteração no Governo, 2004 foi um ano peculiar, ao contrário do Governo
anterior em que o Primeiro-ministro Durão Barroso não realizou qualquer visita
oficial ao Brasil, com excepção da participação na VII Cimeira Luso-brasileira.
Pouco depois de tomar posse, o Primeiro-ministro Pedro Santana Lopes fez a sua
primeira visita oficial ao estrangeiro, deslocando-se ao Brasil em resposta ao
convite do presidente Lula para participar nas comemorações do Dia da
Independência. Entre os temas na agenda esteve a cultura, mas também a
imigração e as relações econômicas. A questão das migrações foi central. Lula
da Silva garantiu ao Primeiro-ministro português que iria rever a questão dos
milhares de pensionistas que descontaram para a Segurança Social brasileira e
não recebiam o respectivo retorno. Assim como Santana Lopes assegurou que iria
manter-se empenhado em acelerar os processos de legalização dos emigrantes
brasileiros em Portugal.
O Governo português sofreu novas alterações em 2005 e o novo Ministro dos
Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, também se deslocou ao Brasil. Uma vez
mais o principal tema da agenda foi a questão da imigração, acrescentando-se a
economia e a relação entre a União Europeia e o Mercosul. Ao nível da economia,
Freitas do Amaral apelou a um maior investimento brasileiro em Portugal, e
apontou algumas das vantagens que as empresas brasileiras poderiam obter -
incentivos fiscais, acesso ao mercado europeu e facilidades adicionais
proporcionadas pela língua. Não deixou contudo de realçar que também era sua
intenção que os investimentos portugueses continuassem a crescer naquele país.
Após um ano como Primeiro-ministro, José Sócrates realizou, em agosto de 2006,
a sua primeira visita oficial ao Brasil. A visita de quatro dias contou com uma
comitiva de 50 pessoas, a agenda centrou-se na cultura, na economia bem como na
imigração. Tal como verificamos anteriormente, embora o programa de Governo não
defina com clareza a estratégia adotada pela diplomacia portuguesa para o
Brasil, a verdade é que quando confrontado com a evolução positiva do papel do
Brasil no cenário internacional, teve que reagir em conformidade.
A realização da primeira cimeira União Europeia-Brasil, em Julho de 2007, sob a
égide da presidência portuguesa do Conselho da UE é também disso exemplo.
Os investimentos e o impulso na vertente econômica
O tema da internacionalização da economia portuguesa, em particular o
investimento directo no estrangeiro prende-se com a relação que se estabeleceu
entre os interesses econômicos e a estratégia de política externa. A
internacionalização da economia feita a partir de meados da década de 90 tem na
base uma motivação e um empenho diplomático com o objectivo de, primeiro,
consolidar a relação luso-brasileira, depois, rentabilizar as semelhanças
culturais que existem entre os dois países, e, por fim, aproveitar as
oportunidades e as condições que se criaram naquele período na economia e no
mercado brasileiros. O Brasil assumiu-se como um alvo econômico na política
externa portuguesa, especialmente a partir da década de 80, com as visitas de
Mário Soares e de Cavaco Silva, mas acima de tudo com o papel do Primeiro-
ministro António Guterres,20 a partir de meados da década de 90, ao adotar a
"opção Brasil" como base programática.
A viagem efectuada por Guterres, em 1996, permitiu consolidar uma vontade
antiga de incrementar as relações econômicas entre os dois países. Ainda que o
investimento brasileiro em Portugal não tivesse sofrido uma evolução
significativa, o investimento português no Brasil conheceu, indubitavelmente,
uma viragem extraordinária. Depois da definição da diplomacia econômica, ao
longo de vários anos, foi possível concretizá-la no Brasil, na segunda metade
da década de 90.
O panorama interno do Brasil também favoreceu a aposta de Portugal. O
'calcanhar de Aquiles' da economia brasileira foi, insistentemente, a elevada
taxa de inflação. Nem as medidas levadas a cabo pelo Governo de Sarney, nem
pelo Governo de Collor de Melo conseguiram controlar a inflação. Todavia, o
Plano Real, lançado por Fernando Henrique Cardoso como Ministro da Fazenda do
Governo de Itamar Franco, serviu de rampa de lançamento para a economia
brasileira. Foi possível controlar a inflação, desregulamentar a economia e
abri-la ao capital estrangeiro por meio de um amplo processo de privatizações
promovido por Fernando Henrique Cardoso.
Paralelamente, a política de incentivo à internacionalização adotada por
António Guterres fomentou o investimento dos empresários portugueses no Brasil
- tais como a EDP, a PT, a CIMPOR, a Brisa, a SONAE ou as Águas de Portugal -
embora a aposta das empresas mais pequenas, no setor da indústria, se possa
justificar pelas afinidades linguísticas e culturais.21
Deste modo, se até meados da década de 90 o investimento direto português no
Brasil (IDPB) era insignificante, a partir dessa altura registra-se o seu
aumento exponencial. Até então, o investimento direto português no estrangeiro
(IDPE) concentrava-se sobretudo nos países da União Europeia, destacando-se a
Espanha, Reino Unido e França, seguido dos PALOP e dos Estados Unidos. Em 1995,
o Brasil recebia apenas 1 por cento do investimento português, mas a partir de
então a situação altera-se por completo. De um modo geral, verifica-se um
aumento do IDPE, nomeadamente, no período entre 1995 e 2001 de onde se destaca
a fatia atribuída ao Brasil.22 Relativamente ao IDPB é possível constatar que
em 1995 Portugal ocupava a 21ª posição entre os investidores, passando para a
10ª posição em 1996.23 Em 1997 e 1998 ocupava a 6ª posição, e em 1999 e 2000
passou a ser o terceiro maior investidor estrangeiro no Brasil - representando
mais de 8 por cento do IDPE - atrás dos Estados Unidos e da Espanha. Esta
situação é proporcionada pela vontade expressa de Portugal, mas também pelas
condições da economia brasileira, que se encontrava em fase de reformas
registrando a liberalização do comércio externo e as privatizações impostas
pelo Plano Real, tal como indicado anteriormente.24 Em contrapartida, a partir
de 2001 o investimento português voltou a virar-se para dentro, com a União
Europeia a receber 81 por cento do investimento e o Brasil apenas 9 por cento,
mas em 2002 voltaria a recuperar a posição.
Se em 1999 e 2000 Portugal tinha conseguido atingir a melhor posição entre os
investidores estrangeiros no Brasil, a partir de 2003 a tendência é
decrescente. Em 2002 Portugal apresentava-se na 6ª posição, mas em 2003 voltou
para a 14ª posição, num ano que ficou "marcado, pela primeira vez, por um
investimento líquido negativo, em virtude do desinvestimento verificado"
(Costa: 2005, 16 e 17). Dificilmente será possível voltar a atingir os valores
do final da década de 90. Ainda assim, os analistas consideraram o ano de 2005
globalmente positivo para os investidores portugueses no Brasil, e natural o
decréscimo dos fluxos de investimento, pois "após uma fase inicial de
importantes e volumosos investimentos, o período atual é de consolidação, com
muitas das empresas portuguesas instaladas no Brasil a atingirem a sua própria
sustentação financeira" (AICEP: 2006, 10)
Em todo o caso, apesar de se ter dado um aumento extraordinário do investimento
de Portugal no Brasil, o mesmo não aconteceu na situação inversa. Assinalam-se
apenas exemplos pontuais de algumas empresas. De acordo com dados da Agência
para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP), o IDBE cresceu
1.357 por cento entre 1994 e 2004. Pese embora o investimento do Brasil em
Portugal seja pouco significativo quando comparado com o volume que o
investimento português atingiu naquele país.
Como podemos avaliar esta mudança no investimento português? Alteraram-se as
políticas e as prioridades governativas? Sem dúvida. Mas a isso podemos juntar
outras razões. Desde 1999 que se começou a assistir a uma instabilidade na
economia brasileira que levou à desaceleração do programa de privatizações, bem
como se assistiu ao impacto da crise argentina na economia brasileira, à
desvalorização do real face ao dólar e também a hesitações derivadas da
eventual eleição de Lula da Silva. Do lado português registou-se um ciclo de
consolidação dos investimentos portugueses realizados na economia brasileira,
uma nova estratégia econômica adotada pelo Governo, bem como, os efeitos da
crise econômica portuguesa que começavam a reclamar alguma dose de contenção.
Por conseguinte, Portugal voltaria a ser, especialmente, uma economia receptora
de capitais, e em 2003 o investimento do Brasil em Portugal era já superior ao
inverso.
Em relação ao ano de 2003, é importante assinalar que a descida do IDPB
acompanhou a descida global do IDE no Brasil, o que se relaciona efetivamente
com a conjuntura interna brasileira. Foi por isso um ano de cautela e de
adiamento dos investimentos para aguardar que Lula constituísse o seu governo.
Contudo, a instabilidade econômica não deve ser vista como uma razão para a
saída do Brasil, até porque "independentemente de quem vier a ser escolhido,
aquilo que se faz e diz antes das eleições muda imediatamente no pós eleições e
o jogo passa a ser outro."25 De fato, em termos globais, Lula da Silva deu
continuidade às políticas econômicas de Fernando Henrique Cardoso. Mais do que
a eleição de Lula, para aquele cenário contribuiu, do lado português, a posição
do governo de Durão Barroso que apresentou uma atitude substancialmente
diferente daquela que caracterizou António Guterres. Se Guterres fez questão de
aceitar o desafio de apostar tudo no Brasil, já Durão Barroso considerou
importante a diversificação dos investimentos portugueses. O então Ministro da
Economia, Carlos Tavares, deixou passar a ideia de uma nova estratégia para a
economia portuguesa: "ir em ondas de entusiasmo pode não ter os melhores
resultados. Não nos podemos esquecer que a principal forma de
internacionalização da economia é a exportação. O nosso mercado prioritário
para o investimento é Portugal."26
Estava então traçada a nova política de Durão Barroso. O Primeiro-ministro iria
assentar a sua estratégia não no Brasil, mas em Espanha. Por isso, é fácil
perceber que, perante um mercado e uma economia voláteis e com opções políticas
a distanciarem-se da realidade, os investidores portugueses no Brasil tenham
passado por situações mais difíceis, levando ao aumento do desinvestimento.27
Ainda no quadro econômico, no que respeito ao comércio, o Brasil nunca se
apresentou com a mesma importância que ao nível dos investimentos.
Tradicionalmente, os valores da balança comercial sempre foram modestos e mais
desfavoráveis a Portugal. Em contrapartida na área do turismo temos observado
uma evolução favorável, ainda que mais tardia.
Neste quadro, a TAP desempenhou um papel fundamental no mercado brasileiro,
sendo a principal transportadora de passageiros de e para o mercado europeu. Em
2001 cerca de 170 mil turistas portugueses deslocaram-se ao Brasil, enquanto
Portugal representa o segundo destino dos turistas brasileiros para a Europa.
De acordo com dados do ICEP28, em 2006 e 2007 Portugal foi o 3º país emissor de
turistas para o Brasil, antecedido pela Argentina e pelos Estados Unidos. É
importante ressaltar neste domínio a tendência para uma evolução positiva e
significativa, especialmente no nordeste brasileiro.
Imigração e política externa
Embora por momentos parecesse que a posição do Brasil na política externa
portuguesa ia alterar-se - de uma relação baseada e concretizada na retórica da
afetividade e no sentimento da fraternidade para uma duradoura relação
econômica - tal não aconteceu. No início do novo século, os fluxos migratórios
de cidadãos brasileiros para Portugal conferiram uma nova abordagem ao lugar do
Brasil na política externa portuguesa. Tais fluxos têm sido caracterizados por
uma discriminação positiva, prática que é sustentada pelo princípio da
reciprocidade de direitos que, desde meados do século XX, tem regulado a
imigração luso-brasileira, demonstrando como uma relação baseada nos laços de
afetos e de amizade permite plasmar todas as áreas da sociedade, encontrando-se
também a política externa dependente dessa retórica.
Portugal tornou-se um país de imigração a partir da década de 80. Entre 1981 e
1991 assistiu-se a um crescimento de quase 50 por cento da população
estrangeira em Portugal (54.414 residentes em 1981, 107.767 residentes em
1991).29 Porém, a adesão de Portugal ao Acordo Schengen, em 1991, levou a uma
mudança de atitude do Governo, que começou a impor restrições à abertura das
fronteiras e a controlar a entrada, saída e permanência de estrangeiros. Mesmo
assim, a lei nacional impôs-se durante algum tempo às diretivas europeias e
"Portugal conseguiu manter a discriminação positiva face ao Brasil, ao abrigo
do Acordo de Supressão de Vistos assinado em Agosto de 1960, que permitia a
entrada e permanência de brasileiros até 6 meses sem visto em Portugal"
(Santos: 2004, 110). Mas em 1999 Portugal alinhou-se à agenda política europeia
sobre imigração, ao abrigo do Tratado de Schengen, do Tratado de Amesterdã e da
Cimeira de Tampere.
Os fluxos migratórios do Brasil para Portugal durante a década de 90 fizeram
dos cidadãos brasileiros o principal grupo de imigrantes em Portugal.30
Aumentaram nove vezes, entre 1986 e 2003, e beneficiaram ainda "de um processo
especial de regularização que resultou do Acordo Bilateral assinado em Julho de
2003, e de um antigo estatuto de 'igualdade de direitos'. Em diversos estudos
de opinião efectuados junto da população portuguesa, os brasileiros são
considerados como o grupo imigrante mais próximo desta" (Malheiros: 2007, 23).
Com a entrada em grande número dos cidadãos brasileiros em Portugal, a
reciprocidade de direitos políticos começou a ser debatida, questão que
perturbou inclusivamente as 'excelentes' relações bilaterais. A problemática
que pôs em causa os diplomas dos dentistas brasileiros a exercer atividade em
Portugal, conhecida como a "questão dos dentistas", foi das que mais afectou a
estabilidade das relações luso-brasileiras, sendo esclarecida diplomaticamente
por meio de uma correta gestão da política externa portuguesa. Quando o
Presidente Jorge Sampaio foi confrontado com esta questão, durante a sua viagem
ao Brasil - que coincidiu precisamente com a revisão constitucional de 1997 que
não incluiu o alargamento da reciprocidade de direitos - o Presidente declarou
que "a questão dos dentistas introduziu um elemento de desconfiança, que não
será superado se não se resolver de forma equitativa e razoável."31 Portugal
não estava disposto a ceder este direito, sem contrapartidas e sem analisar
eficazmente toda a situação. Apesar do lugar que o Brasil ocupava na política
externa portuguesa, foi preciso uma confirmação efetiva de que o Brasil merecia
tal concessão.
O Tratado de Porto Seguro, de 2000, referido anteriormente, estabeleceu, por
isso, o princípio da igualdade de poderes políticos a portugueses e
brasileiros. Neste sentido, a lei da reciprocidade foi aprovada pelo Parlamento
português em 2001, depois de uma Revisão Constitucional32 que permitiu aos
cidadãos brasileiros residentes em Portugal alcançarem cargos políticos no
Governo e Tribunais, serem eleitos deputados e votarem em todas as eleições
portuguesas. Contudo, continuam a existir diferenças relativamente à lei
brasileira: os brasileiros não podem seguir a carreira militar em Portugal e o
prazo para obter a nacionalidade é de 5 anos, sendo no Brasil apenas de 1 ano.
Em 2003, a assinatura do Acordo sobre a Contratação Recíproca de Nacionais
(conhecido como o "Acordo Lula") permitiu a legalização de milhares de
imigrantes brasileiros que estavam em situação ilegal em Portugal, depois de
terem entrado com vistos de turismo - entre Outubro e Março de 2004 foram
legalizados 17.000 brasileiros, havendo 31.000 recenseados para serem
legalizados (Padilla: 2007). Entre outras vantagens, os cidadãos brasileiros em
Portugal têm a possibilidade de adquirir a nacionalidade portuguesa num prazo
mais curto, o que foi implementado com a lei de 1981, de participação política
e são-lhes aplicados os mecanismos utilizados aos estrangeiros não comunitários
para regularização dos trabalhadores. A assinatura deste Acordo permitiu
demonstrar, mais uma vez, o estatuto privilegiado que os cidadãos brasileiros
adquiriram em Portugal (o mesmo se pode dizer dos portugueses no Brasil) quando
comparados com outros estrangeiros.
Relativamente ao número exato de cidadãos brasileiros em Portugal, não existe
um valor uniforme, devido ao fato de uma parcela da população ser constituída
por imigrantes não regularizados. O Instituto Nacional de Estatísticas (INE)
aponta para 31.869 (em 2001) e o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF)
indica 60.105 (em 2002). A realidade é que a evolução foi crescente e a
tendência é de aumento.
Tendo em conta o volume de imigrantes brasileiros em Portugal, não é de
estranhar a constante referência ao tema da migração nas agendas políticas,
nomeadamente desde o inicio do novo século, como foi possível verificar na
análise das visitas do Primeiro-ministro, Santana Lopes, do Ministro dos
Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, e do Primeiro-ministro, José
Sócrates. No mesmo sentido, quando questionado acerca da legalização dos
imigrantes brasileiros em Portugal, o Embaixador Francisco Seixas da Costa33
referiu que "por vezes é necessário sublinhar às autoridades brasileiras que
Portugal é membro da União Europeia e que tem responsabilidades no plano
internacional, nomeadamente no âmbito do Acordo Schengen"34, ou seja, por muito
que a reciprocidade de direitos seja uma realidade nos dois países é necessário
que se compreenda que Portugal e Brasil estão enquadrados em espaços
geográficos diferentes pelo que as leis tendem a ser coincidentes com as
necessidades e exigências desses mesmos espaços.
Considerações finais
No quadro da América Latina, o Brasil é o país que tem merecido uma maior
atenção por parte da estratégia externa de Portugal, pese embora as relações
com a Venezuela assumirem também um peso importante devido à emigração
portuguesa naquele país. A relação com o Brasil desenvolve-se, por um lado, por
meio de uma relação multilateral, com a CPLP e com os fora em que ambos os
países fazem parte, e, por outro lado, por meio de um enquadramento bilateral
nas cimeiras luso-brasileiras.
Desde finais da década de 80, com a democratização e estabilização do Brasil
que se reforçaram as relações luso-brasileiras e que o país se assumiu como um
mercado de eleição para Portugal. A existência do mesmo regime político trazido
com a democratização do Brasil em 1985, a globalização da economia e do
comércio internacional, bem como a integração regional da Europa e da América
Latina são alguns factores favoráveis para o crescimento do interesse português
pelo Brasil. Se até então as relações entre os dois lados do Atlântico estavam
estagnadas, estas mudanças vieram provocar alterações também à forma como
Portugal iria olhar para o Brasil, e, simultaneamente, à forma de
relacionamento que se iria produzir daí em diante, com primordial destaque para
a relação econômica.
Após a análise efetuada, verificamos que até 1985 os interesses externos de
Portugal se encontravam simultaneamente na África, tendo em conta a necessidade
de resolver os contenciosos que estavam pendentes devido ao processo
descolonização sendo que a sua resolução se apresentava como um requisito para
a aceitação da proposta de adesão à CEE; e na Europa, que era entendida como o
mecanismo capaz de permitir a consolidação democrática e contribuir para o
desenvolvimento do Portugal democrático. O Brasil apresenta-se ora enquadrado
no grupo de países de língua oficial portuguesa, ora como o país irmão com o
qual não se pode perder a relação que existe desde há séculos, quer se consigam
identificar vantagens imediatas ou não. Neste período, uma vez que Portugal
estava empenhado no processo de adesão à CEE, a presença do Brasil na política
externa portuguesa ficou muito presa à retórica, mesmo que as intenções fossem
efetivamente de concretizar determinados interesses e rentabilizar determinadas
similitudes.
Como fica patente com as análises atrás efetuadas, a política externa do
governo de Cavaco Silva também se orientou para o Brasil e tinha como desejo
passar das palavras aos atos. Porém, apesar do aumento do investimento
brasileiro em Portugal, tal não atingiu os níveis então desejados, e no que
toca à relação comercial ela continuava aquém das expectativas. Predominava a
retórica do afeto, da amizade, da cooperação política e da ambição de se
traduzir tudo isso em políticas econômicas. Num texto publicado pelo então
Ministro dos Negócios Estrangeiros começa-se por identificar a existência de
uma diplomacia econômica enquanto mecanismo cooperativo entre o Ministério dos
Negócios Estrangeiros e o Ministério do Comércio e do Turismo. Diplomacia
econômica essa que se traduziu na necessidade de atrair investimento, aumentar
a capacidade de produção e de exportação, e de manter os mercados tradicionais.
No que toca ao Brasil, campo onde essa diplomacia econômica poderia ser
aplicada, o Ministro João de Deus Pinheiro observava que a qualificação de
'especiais' para as relações luso-brasileiras se resumia às afinidades
históricas, linguísticas e culturais, não existindo uma verdadeira concertação
política e muito menos econômica. Contudo, "os laços que desde sempre nos
uniram facilitarão decerto a construção de uma relação política e econômica
mais sólida e profícua para ambos os países." (Pinheiro: 1989,166)
Com a determinação de António Guterres em implementar a "opção Brasil", foi
possível assistirmos, entre 1995 e 2002, ao exercício de uma diplomacia
econômica que tinha como alvo o Brasil. Como pudemos constatar, a posição de
António Guterres bem como o contexto brasileiro favorável foram indispensáveis
para o sucesso da aposta portuguesa em investir no Brasil. Além dos bons
resultados no domínio econômico, este período é marcado também pela assinatura
do Tratado de Amizade, Cooperação e Consulta, em 2000, assim como pela
realização regular das Cimeiras Luso-brasileiras, e pela institucionalização da
CPLP (que não foi possível avaliar no presente artigo).
Face à análise efetuada, é também possível constatar que as políticas dos três
últimos Governos (2002-2007) traçaram um rumo diferente em relação aos períodos
analisados anteriormente. O contexto e os resultados obtidos das visitas que
são realizadas ao Brasil não são, em nada, comparados com o enquadramento
visível durante os Governos de António Guterres. Neste período não existe a
mesma euforia no que se refere ao incremento da posição do Brasil na política
externa portuguesa. A nível econômico a própria situação interna do Brasil é
diferente, assim como se começou a notar um desgaste nos investidores
portugueses. Por outro lado, o aumento da imigração brasileira em Portugal
transfere o Brasil para outro patamar, que se prende com a necessidade de
enquadrar legalmente aquele fenômeno e de conciliar as políticas migratórias de
ambos os países. Em 2004 o tema central já não é a relação econômica, mas a
imigração, ou seja, os laços culturais e históricos que unem os dois países
permitiram fortalecer, em seu tempo, uma relação econômica, e depois
incrementaram uma forte imigração para Portugal (principalmente depois da
entrada de Portugal na CEE, mas com maior visibilidade a partir do final da
década de 90).
Assim, a partir de 2001, o que aqui fica claramente demonstrado é o retorno à
dimensão política e cultural com o reforço da retórica, e o afrouxamento da
proximidade econômica na estratégia de aproximação ao Brasil. Reforçando a
nossa ideia inicial, ainda que se tenha verificado uma mudança nas prioridades
da política externa portuguesa motivada pela alteração de regime político,
verificamos que o Brasil continuou a estar entre essas prioridades tal como
tinha estado durante o Estado Novo, embora os objectivos se tenham alterado.
Portugal percepciona o Brasil como um país com o qual partilha um conjunto de
valores históricos, a mesma língua e, por isso, aspectos que poderão ser
rentabilizados e dos quais poderão ser retiradas vantagens.