Brasil e China: uma nova aliança não escrita?
Introdução1
Em 2010 se completaram 36 anos do estabelecimento de relações diplomáticas
entre o Brasil e a República Popular da China. Ainda que, em 1974, o Brasil
estivesse sob uma ditadura militar e a China sofresse ainda os radicalismos da
Revolução Cultural, ambos os governos enfatizaram as profundas diferenças entre
si, ressaltando no entanto a possibilidade de uma ação conjunta no sistema
internacional que permitisse atingir objetivos comuns.
Assim, desde o início a parceria sino-brasileira apresentava o objetivo de uma
ação conjunta em tópicos de interesses comuns de desenvolvimento na agenda
internacional, demonstrando similaridades em alguns princípios de política
externa, principalmente a determinação em assegurar autonomia internacional,
ênfase na soberania nacional e integridade territorial, opondo-se a qualquer
tipo de interferência externa nos assuntos internos.
Apresentavam também posicionamentos similares em relação a outras questões
internacionais, tais como a oposição à diplomacia de direitos humanos dos
Estados Unidos e a responsabilidade comum à cooperação multilateral Sul-Sul, em
especial a oposição ao protecionismo comercial dos países desenvolvidos.
Durante a Guerra Fria, o Brasil e a China, conscientes de sua condição de
países em desenvolvimento, colaboraram no campo político-estratégico com o
objetivo de exercer pressão sobre o processo de reforma das instituições
multilaterais, especialmente as econômicas e financeiras. Este processo de
cooperação foi expandido, em 1988, para cooperação tecnológica nas áreas da
indústria aeroespacial e de mísseis.
Em 1974, o Brasil estava em um estágio de forte desenvolvimento econômico, com
crescimento do PIB em dois dígitos anuais, enquanto que a China, retomando
modesta presença na comunidade internacional passava por um período de profundo
caos econômico. A China, por sua vez, buscava igualmente um lugar próprio na
política mundial. Deng Xiaoping, em 1972, anunciava o fim do Campo Socialista e
se identificava como pertencendo ao Terceiro Mundo e Mao Zedong, em 1974,
desenvolvia a Teoria dos Três Mundos.
Trinta e seis anos depois, ainda que o Brasil apresente índices econômico-
financeiros altamente positivos e forte ativismo nos processos negociadores
internacionais, a China mantém-se em uma posição, tanto no plano econômico
quanto no político-estratégico, claramente superior à brasileira.
Em decorrência da crescente dependência brasileira em relação ao mercado chinês
e de seu caráter assimétrico, parte da sociedade brasileira acompanha com um
misto de desilusão e ceticismo o relacionamento sino-brasileiro. A grande
imprensa reproduz continuadamente este descontentamento, enfatizando as imagens
de ameaça chinesa, de necessidade de estabelecimento de salvaguardas, de
ingenuidade no reconhecimento da China como uma economia de mercado.
A partir da premissa de que o relacionamento sino-brasileiro esteve sempre
alicerçado nos objetivos de suas respectivas políticas externas, ao mesmo tempo
em sofre os impactos conjunturais tanto dos ambientes domésticos quanto do
cenário internacional, a presente reflexão tem como preocupação precípua
avaliar a capacidade de conversão da retórica em projetos reais e de
continuidade da parceria iniciada 36 anos atrás.
Assim, o presente texto defende a idéia de que a parceria estratégica entre
Brasil e China concentra-se em dois nítidos campos de atuação: um, no plano
político, correlacionado às estratégias de alianças no âmbito dos fóruns
multilaterais e, outro, no da cooperação científico-tecnológica, com vistas a
romper o monopólio detido pelos países desenvolvidos. A perspectiva de parceria
estratégica não se insere no campo das relações econômico-comerciais. Ao
contrário, a China insere-se gradualmente no processo econômico do Leste
Asiático e reproduz a relação comercial típica do Leste Asiático com o Brasil e
a América do Sul: fornecimento de produtos manufaturados em troca de minérios e
produtos agrícolas.
Da mesma forma, é natural que na dimensão comercial ocorram conflitos
localizados em função da competitividade bilateral ou internacional. Mas, a
questão é se estes conflitos de ordem comercial afetam ou não o relacionamento
sino-brasileiro nas demais dimensões. Quanto a este ponto, a presente reflexão
aventa a hipótese de que tanto os reflexos dos contenciosos econômico-
comerciais quanto as desconfianças nas possibilidades de manutenção da parceria
político-estratégica nos Fóruns internacionais induziram a um relativo
questionamento da viabilidade de continuidade da parceria.
No entanto, a importância da China para a mais rápida recuperação brasileira e
o novo posicionamento das Potências Emergentes nos processos decisórios
internacionais propiciaram o reforço da parceria com a República Popular da
China.
As relações políticas
Desde o início da década de 1960, a política externa brasileira passou por um
processo de mudança no que diz respeito a um dos seus anteriores paradigmas de
política externa, ou seja, a aliança estratégica com os EUA. Enquanto os
Estados Unidos estavam envolvidos principalmente com assuntos de segurança
internacional, o Brasil naquela época começou a usar sua política externa para
promover, de forma mais autônoma, o seu desenvolvimento econômico,
principalmente pela diversificação de suas parcerias tanto no relacionamento
com os países desenvolvidos quanto no âmbito da Cooperação Sul-Sul.
A China foi o único país da Ásia com o qual o Brasil conseguiu estabelecer
laços significativos no contexto da Cooperação Sul-Sul. Após o restabelecimento
das relações diplomáticas em 15 de agosto de 1974, a parceria sino-brasileira
objetivou uma ação conjunta em tópicos de interesses comuns de desenvolvimento
na agenda internacional.
Apesar das diferenças em relação aos sistemas políticos, ambos, Brasil e China
demonstraram similaridades em alguns princípios de política externa,
principalmente a determinação em assegurar a autonomia internacional, sua
ênfase na soberania nacional e integridade territorial, opondo-se assim a
qualquer tipo de interferência externa nos assuntos internos.
China e Brasil apresentaram também posicionamentos similares em relação a
outras questões internacionais, tais como a oposição à diplomacia de direitos
humanos dos Estados Unidos e a responsabilidade comum à cooperação multilateral
Sul-Sul, em especial a oposição ao protecionismo comercial dos países
desenvolvidos (Shang, 2003).
Na sequência desta estratégia, "desde o início do governo Lula, a política
externa brasileira tem se expandido com o objetivo de projetar o país como um
global player político e econômico. A diplomacia presidencial imprimiu um forte
ativismo político externo, buscando simultaneamente a expansão dos laços com os
Estados Unidos da América (EUA) e com a União Europeia (UE); aprofundaram-se os
laços com a China e com a Índia, conjuntamente com um renovado multilateralismo
Sul-Sul e uma, sem precedentes, presença política na América do Sul. Não
obstante este conjunto diversificado de "frentes externas" levando a uma
ampliação da participação nos fóruns políticos e econômicos globais, Brasil
ainda encara os constrangimentos impostos pelas assimetrias estruturais do
Sistema Internacional junto com o fato de ainda fazer parte da esfera de
influência dos EUA". (Hirst, 2008: 145)
Este interesse político-econômico pela Ásia apresentava também uma forte
expectativa no papel que poderia ser desempenhado pela China. Como expressava o
Presidente Lula, no início de seu primeiro mandato, "tenho repetido que a
América do Sul será prioridade em meu governo, pois estou convencido de que o
desenvolvimento pleno do Brasil só será possível como parte da integração do
continente como um todo. (...) E se temos uma vocação regional, somos, também
um país global. Da mesma forma que a integração nacional passa pela integração
regional, estou convencido de que a aproximação com a Ásia e, em particular com
a China, será decisiva para o Brasil realizar esse destino maior"2.
O relacionamento sino-brasileiro sempre se apresentou como altamente promissor
pela constatação de inúmeras complementaridades no plano econômico e pela
contínua presença em ambos os países de uma real vontade política de
estabelecimento de uma cooperação tanto no plano bilateral quanto no
multilateral.
Para os lideres chineses, a perspectiva de "mundo harmônico" correlaciona-se
com paz e desenvolvimento. Neste sentido, China respeita as diferentes
civilizações, os diferentes modos de produção e persegue ideais de igualdade,
respeito, benefício mútuo e harmonia entre as diferenças. E, ainda que isto
aparente ser abstrato, estabelece um roteiro para a prática diplomática,
voltada não só à garantia da paz e do desenvolvimento, mas também à cooperação.
Neste sentido, o Brasil apresenta uma perspectiva de cooperação similar à visão
da política externa chinesa. Isto é, o relacionamento brasileiro com o Leste
Asiático, no plano geral, e com a China especificamente, tem uma expressão
estratégica no seu processo de inserção internacional, com conteúdo tanto
econômico quanto político.
A questão que se coloca é se a China, em função da ampliação de seu papel
econômico, político e estratégico no atual contexto internacional, não passou a
considerar que seu relacionamento com o Brasil deixou de ser pertinente. Este
questionamento expressa o desconforto que a diplomacia brasileira passou a
sentir nos primeiros anos deste século, na constatação de que China não
conseguia, ou não tinha mais interesse, em transformar sua retórica em projetos
efetivos.
Talvez esta questão não seja pertinente se considerarmos que o atual conceito
de Cooperação Sul-Sul não apresenta o mesmo significado do período da Guerra
Fria. Hoje é seletivo e hierárquico, englobando países emergentes que não visam
mais mudanças estruturais na Ordem Internacional, mas uma readequação das
regras de forma a possibilitar a promoção de seus respectivos interesses.
A possibilidade de cooperação tecnológica começou igualmente a ser questionada
em função do fato de que cada vez mais a China detém melhores condições de
investimento do que o Brasil. E mesmo a parceria política sofre críticas pelo
não apoio explícito da China seja no interesse brasileiro em assumir uma
cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS/ONU), seja na
interminável Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC). Entretanto,
o problema não é o apoio da China, mas se, quando e como China (e os outros
Estados) vai apoiar a reforma do Conselho de Segurança da ONU.
Com o objetivo de minimizar as crescentes tensões no relacionamento bilateral,
foram desenvolvidos alguns mecanismos bilaterais, como a Comissão Sino-
Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (COSBAN), em 2006, com a
responsabilidade de coordenação de diversas vertentes do relacionamento
bilateral e o Diálogo Estratégico, em 2007 (Becard, 2009: 177).
De outro lado, no entanto, aparentemente também está claro que o processo de
inserção e desenvolvimento chinês tinha e ainda tem como objetivo final a busca
da garantia da sobrevivência integral e autônoma do Estado Chinês e do Partido
Comunista. E que para a consecução deste objetivo a China não faz
transigências, colocando acima de tudo a defesa do interesse nacional. E, por
fim, a consciência também de que o êxito de seu modelo de desenvolvimento é
dependente da aceitação das regras do jogo internacional.
No entanto, estas regras não são imutáveis, ao contrário representam o
resultado de um lento processo negociador e, conseqüentemente, interessa à
China participar dos diferentes fóruns negociadores e buscar apoio às suas
pretensões.
No plano da percepção dos interesses políticos e da disputa entre as principais
potências, China considera que seu desenvolvimento está diretamente
correlacionado com o confronto, no espaço asiático, entre Estados Unidos e
Japão, com a Índia assumindo um papel de coadjuvante nesta equação, e, no
espaço global, ao impasse observado entre estas duas potências mais a União
Europeia.
Esta aparente contradição entre uma China forte e uma China frágil e
vulnerável, mas principalmente a contradição entre uma China que busca manter
sua autonomia e uma China dependente do Sistema Internacional constitui a
principal base para o raciocínio de que o relacionamento sino-brasileiro esteve
e ainda está alicerçado na percepção mútua da importância que a estratégia de
Cooperação Sul-Sul apresenta para os dois países e para suas respectivas
políticas externas.
Apesar da maior relevância que a China assumiu nos últimos anos, expressa
essencialmente após sua acessão à OMC em 2002, o país mantém ainda uma série de
problemas que impedem o raciocínio de que é uma potência internacional
consolidada. Em primeiro, os desafios de expandir seu crescimento para outras
regiões além da região costeira, propiciando uma distribuição de renda mais
eqüitativa e agregar a população camponesa ao processo de crescimento
doméstico. Além desta realidade de desigualdades econômicas, não se pode
esquecer os problemas de fornecimento de energia e de água, a ausência de uma
política de seguro social, a degradação ambiental, a especulação imobiliária,
as práticas de falsificação, contrabando e corrupção.
E, no plano internacional, as fragilidades decorrentes da manutenção de um
Estado socialista, com um governo mantido por um partido comunista e as
decorrentes das questões de não respeito aos direitos humanos e exploração de
mão-de-obra infantil, entre outras.
Neste contexto, considera-se a permanência da consciência (vontade) política
para o desenvolvimento de mecanismos que possam possibilitar a construção de
parcerias mais vantajosas a ambos os participantes. China tem o Brasil como um
parceiro estratégico, neste mesmo processo de redefinição do sistema e da ordem
internacionais, na consideração de que ainda são atores intermediários. Desta
forma, as parcerias tecnológicas e políticas, mormente no campo multilateral,
são fundamentais.
A crise financeira internacional, escancarada no final de 2008, bem como os
impasses na Rodada Doha da OMC deixaram por demais clara a fragilidade das
atuais instituições existentes (com suas regras) e a necessidade de drásticas
mudanças para re-acomodação dos interesses dos diferentes Estados, de forma a
gerar um ambiente mais cooperativo e estável no plano internacional.
A economia brasileira certamente sentiu o aperto da crise econômica global, mas
quatro respostas podem ser consideradas como fundamentais para a superação mais
rápida: o controle exercido pelo governo brasileiro, a capacidade de efetuar as
reformas necessárias para promover o crescimento de longo prazo, a diversidade
de seus parceiros econômicos e a manutenção da forte demanda chinesa.
A crise econômico-financeira, os papéis desempenhados pela China e pelo Brasil
nos processos de recuperação econômica doméstica e internacional, assim como a
consolidação do G20, em setembro de 2009, como conselho decisório da economia
mundial possibilitaram reforço dos laços e da parceria estratégica entre Brasil
e China, propiciando o compromisso informal de retomada da perspectiva de uma
posição comum nas instituições internacionais.
De acordo com Cesarin (2009: 25-26), para a China, as Potências Emergentes
constituem uma plataforma para construir poder e influência combinando esforços
junto a potências do Sul com o objetivo de fixar novas regras do jogo a nível
mundial mediante uma instância multilateral. Já a Índia apresenta uma
estratégia mais ampla de fortalecimento de suas relações bilaterais ou
trilaterais com Estados proeminentes e com organizações regionais. E, na
perspectiva brasileira, as Potências Emergentes são uma expressão do interesse
para associar-se com atores determinantes no cenário internacional, promover o
multilateralismo e favorecer seu reconhecimento como líder regional e potência
global.
A pressão para a China assumir um papel de liderança internacional é suavizada
pelo fato de que não é só a China que está sendo demandada, mas o conjunto dos
países atualmente chamados de potências emergentes, embora a China tenha
expressão econômica, política e estratégica claramente superior à capacidade
destes outros países, os quais apresentam uma plataforma relativamente similar:
uma distribuição mais justa do poder, refletindo um mundo multipolar e sua
crescente posição na hierarquia internacional.
Depois do auge da crise financeira internacional, o Brasil e a China ampliaram
fortemente a sua política de parceria com o objetivo de expandir as suas
capacidades nos mecanismos internacionais de tomada de decisões. O recém-criado
G20 possibilitou que tanto o Brasil quanto a China, não membros do G8, pudessem
ampliar suas participações nas decisões financeiras internacionais. Ambos os
países, apesar de interesses diferentes, mostram forte interesse em reativar a
Rodada Doha da OMC, como forma de promover ajustes no comércio internacional
que melhor atendessem as expectativas do Sul.
Neste sentido, a crise econômico-financeira possibilitou o reforço dos laços e
da parceria estratégica entre Brasil e China, propiciando o compromisso
informal de retomada da perspectiva de uma posição comum nas instituições
internacionais.
O Plano de Ação Conjunta que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hu
Jintao assinaram em abril de 2010 visa dar caráter institucional à relação
entre Brasil e China, com o estabelecimento de metas e a criação de mecanismos
permanentes de consulta e coordenação entre os dois países.
Esta perspectiva corresponde plenamente à estratégia brasileira de negociação
de seu espaço no Sistema Internacional e está baseada no princípio de que,
apesar de suas assimetrias e diferenças, os países emergentes do Sul apresentam
a similaridade de contarem com um sistema de comércio que privilegia os
interesses dos países do Norte e que, conseqüentemente, é necessária uma ação
conjunta para tentar ampliar as possibilidades do Sul. Daí então a atual ênfase
brasileira na constituição de coalizões ou a importância da parceria com a
República Popular da China, seja sob o signo de Cooperação Sul-Sul, de Parceria
Estratégica ou de Potências Emergentes.
Note-se que a ação internacional brasileira apresenta um conjunto de normas e
atitudes - pacifismo, não intervencionismo, defesa da igualdade soberana das
nações - associado ao comportamento internacional do país. De um lado, a
política externa brasileira apresenta uma íntima relação com os objetivos
econômicos e de de desenvolvimento do país e um compromisso com o
multilateralismo. E, por outro lado, um dos fatores mais importantes para a
formação política externa do Brasil tem sido a sua localização no hemisfério
ocidental, com o contexto regional representando uma fonte de estabilidade para
o Brasil.
Nesse sentido, o relacionamento político brasileiro com a China expressa a
promoção dos seus interesses econômicos e a necessidade percebida de reformar o
sistema internacional, sem qualquer direcionamento anti-hegemônico ou mesmo sem
quaisquer motivações ideológicas.
Relações econômico-financeiras e tecnológicas
Com a consolidação dos dados de comércio exterior de 2009 a República Popular
da China passou a ser o principal parceiro comercial do Brasil, ultrapassando
na soma das exportações e importações uma posição mantida por 80 anos pelos
Estados Unidos.
Destaca-se ainda o fato da Ásia ter se tornado, pela primeira vez, o principal
destino das exportações brasileiras (25.8%), deslocando o tradicional posto
mantido pela União Européia (22.3%), sendo que esta maior importância da Ásia
foi decorrente, em especial, do crescimento das exportações para a China
(+23.1%).
Como a Ásia é igualmente a principal origem das importações brasileiras
(28.3%), transformou-se igualmente no principal parceiro comercial do Brasil,
em termos de blocos econômicos.
No entanto, a maior presença chinesa na balança comercial brasileira levanta
três expressivos questionamentos. O primeiro, como classificam Barbosa &
Tepassê (2009: 207-218), corresponde a uma marcada interdependência
assimétrica. Isto é, no conjunto dos principais produtos exportados da China
para o Brasil, a participação brasileira na venda destes produtos representa um
percentual relativamente marginal (aproximadamente 2%), enquanto que nas
exportações brasileiras de minérios de ferro e de soja, a China representa 32%
e 42% das vendas externas brasileiras. É assim inegável que é exatamente nestes
dois setores que reside o principal interesse chinês no relacionamento
comercial com o Brasil, ou seja a manutenção de fontes de fornecimento seguras,
contínuas e estáveis.
Em segundo, o fato das exportações brasileiras estarem concentradas em produtos
básicos, de baixo valor agregado, enquanto que as importações brasileiras são
essencialmente de manufaturados, em especial de bens industriais. Do total de
exportações brasileiras para a China em 2009, 76,8% correspondeu a produtos
básicos, enquanto que para o mundo este índice esteve em torno de 30%.
Em terceiro, mercados externos anteriormente abastecidos por exportações
brasileiras de produtos manufaturados, em especial bens industriais, estão
sendo crescentemente deslocados pela maior presença chinesa. Este efeito
deslocamento está muito mais acentuado na América Latina, mas abrange outras
regiões como África e Oriente Médio.
Com o objetivo de gerar um ambiente mais cooperativo e que pudesse reduzir os
constrangimentos decorrentes da forte assimetria no relacionamento comercial,
algumas iniciativas governamentais foram desenvolvidas como a Agenda China e o
Diálogo Financeiro Brasil-China, em 2008, complementando a anterior criação em
2004 do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) constituído pelas principais
empresas chinesas e brasileiras. (Becard, 2009: 177)
Ainda conforme Becard (2009: 180), a Agenda China objetivava tanto aprofundar a
reflexão sobre a parceria sino-brasileira quanto traçar estratégias para
dinamizar o comércio bilateral e ampliar investimentos mútuos, além de fomentar
estudos técnicos e ações de promoção do potencial produtor e exportador
brasileiro no mercado chinês, respondendo à necessidade de definição de uma
estratégia mais coordenada que evidenciasse não apenas a tecnologia brasileira
aplicada na área energética e de produtos primários, mas também outros
segmentos igualmente sofisticados tecnologicamente e pouco conhecidos no
mercado chinês. A Agenda China é ainda complementada por iniciativas de atração
de investimentos chineses em ações direcionadas ao desenvolvimento econômico do
Brasil, em especial em infra-estrutura e logística.
Mesmo havendo consciência de que a maior expressão econômico-comercial chinesa
é relativamente recente (em especial após sua acessão à OMC), cresceu o
desconforto no Brasil pelos baixos investimentos chineses que não acompanham
sua forte presença comercial no país.
No entanto, em 2009 a China passou a fazer parte do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID), sendo que no momento de seu ingresso, o Banco de
Desenvolvimento da China e o China Eximbank fecharam acordos com o BID para
participar do financiamento de projetos na América Latina. De acordo com as
declaradas intenções chinesas de ampliar investimentos na região, como bem
demonstram a presença no BID e os acordos com empresas petrolíferas da região,
observou-se igualmente interesse chinês em ampliar sua presença no Brasil e, em
especial, no financiamento de obras governamentais projetadas pelo PAC
(Programa de Aceleração do Crescimento).
É consensual que "os investimentos chineses ainda são insignificantes em termos
de produção doméstica e de emprego, especialmente quando comparados com os
investimentos adiados, possivelmente como resultado de um número crescente de
multinacionais ter optado por concentrar suas produções na China. É claro que
as operações regionais de várias destas empresas estão baseadas no Brasil, mas
seus planos de expansão para ocupar os mercados mundiais são afetados, em certa
medida, pelo dinamismo do mercado chinês e pelos níveis de competitividade que
a China consegue alcançar nos mercados externos".(Barbosa, 2008: 13)
No pós-crise, a China com fortes reservas internacionais passou a apresentar
uma tendência crescente para a internacionalização de suas empresas e de
expansão intensiva do investimento directo externo.
Consequentemente, o China Development Bank concedeu um empréstimo de US$ 10
bilhões para a Petrobras em maio de 2009. E entre 2009 e início de 2010, a
intenção de investimentos chineses no Brasil foi muito mais clara,
especialmente nos setores de petróleo, energia, mineração, agricultura,
automóveis e máquinas. Assim, em maio de 2010, a State Grid adquiriu sete
empresas de energia elétrica por U$ 1,726 bilhões. No mesmo mês, Sinochen
desembolsou US$ 3,07 bilhões dólares por 40% do campo petrolífero de Peregrino
em Campos-RJ. E em março, a empresa estatal ECE comprou por US$ 1,2 bilhão a
Itaminas Comércio de Minérios. E a Wuhan Iron & Steel anunciou um acordo
para construir uma usina de aço por US$ 3,29 bilhões.
Mesmo assim, frente ao cenário de deslocamento de colocações de produtos nos
mercados interno e externo e ao crescimento de pressões internas, o Brasil
passou a ampliar a aplicação de direitos antidumping sobre produtos chineses, o
que Jiang Shixue (2003: 322) considera como uma prática que constitui um
obstáculo a mais para o estreitamento de relações. Dentre as medidas em vigor
no final de 2009, 26 (38.2%) de um total de 68 eram sobre produtos chineses.
Polêmico e contencioso no relacionamento comercial sino-brasileiro é o fato do
Brasil ter reconhecido, em 2004, a China como economia de mercado, ao contrário
do conceito de economia em transição que tinha sido atribuído à China pela OMC.
Considerado como um fator inibidor de estabelecimento de salvaguardas
comerciais em caso de dumping ou subsídios, o reconhecimento gerou e continua
gerando uma extensa série de discordâncias por parte de setores produtivos que
se consideram prejudicados pela concorrência chinesa.
Independentemente de considerações acadêmicas ou econômicas, esta decisão foi
eminentemente política e atrelada ao conceito de parceria estratégica, por
intermédio da qual se vislumbra a possibilidade de ação em conjunto com a China
no processo de redefinição da ordem internacional. No entanto, como esta
decisão não foi ainda regulamentada pela Câmara de Comércio Exterior (CAMEX), o
Brasil se considera desobrigado de aplicação, tratando a China como economia em
transição ou economia planificada.
A parceria sino-brasileira ganhou um contorno mais definido na área de
cooperação técnica e científico-tecnológica, com o trabalho conjunto para o
desenvolvimento de satélites de sensoriamento remoto (China-Brazil Earth
Resources Satellite - CBERS). Destaca-se o fato de que o projeto de cooperação
espacial teve significado especial para o governo chinês por se tratar de um
modelo de cooperação Sul-Sul, uma das prioridades da ação diplomática chinesa.
Não havendo, até o momento, nenhum projeto de cooperação similar no segmento de
satélites entre as nações em desenvolvimento, tampouco na cooperação Norte-Sul
(CUNHA 2004: 79).
Firmado inicialmente em 1988, o acordo foi ampliado em 1995, planejando-se
produzir mais dois satélites, além dos inicialmente previstos. Pressupunha-se
que os satélites permitiriam aos dois países uma independência na área de
imagens por satélites, possibilitando-os inclusive a passar de usuários a
exportadores desse tipo de serviço. O primeiro satélite (CBERS-1) foi lançado
em 1999 e o segundo (CBERS-2) teve seu lançamento em 2003.
Já o terceiro (CBERS-2B) foi lançado em 2007 e deu início a um novo programa de
monitoramento da Amazônia. O sistema utiliza imagens do satélite para detectar
e fiscalizar o corte seletivo de madeira, no qual apenas as árvores de maior
valor comercial são removidas, sem destruição da cobertura florestal, o que
dificulta a observação via satélite. O sistema de Detecção de Exploração
Florestal Seletiva (Detex) passou a ser um dos mecanismos de monitoramento do
programa de concessão de florestas públicas federais. Estão ainda previstos os
lançamentos dos CBERS-3 e 4 em 2011 e 2014.
Destaca-se ainda a cooperação chinesa com a EMBRAPA (Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária) em especial no que se refere ao aprofundamento dos
conhecimentos sobre os sistemas de controle sanitário e fitossanitário local
para adequar os produtos brasileiros às exigências dos mercados da região, com
ênfase no acesso aos bancos de recursos genéticos para ampliar as pesquisas com
materiais de soja, assim como de produtos mais tradicionais como legumes,
cogumelos e frutas, além da intensificação dos contatos para produção de
etanol.
A cooperação está ainda sendo estendida a outros setores, como biotecnologia,
informática e desenvolvimento de novos materiais. E na área de saúde estão em
andamento iniciativas conjuntas no combate à AIDS, na produção e
comercialização de produtos farmacêuticos genéricos e remédios de medicina
tradicional e na pesquisa de novos medicamentos.
Ainda em 2009, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, por meio da
Coordenação dos Programas de Pós Graduação de Engenharia (Coppe), inaugurou
centro de pesquisa em Pequim e firmou parceria com a Universidade de Tsinghua,
a fim de desenvolver projetos acadêmicos comuns e aumentar cooperação
tecnológica - especialmente em biotecnologia, mudanças climáticas e exploração
de petróleo offshore.
O Centro Brasil-China de Tecnologias Inovadoras, como é chamada a instituição
de pesquisa, também catalogará fontes de biodiesel comuns a ambos os países com
objetivo de desenvolver projetos conjuntos. A parceria, com apoio do BNDES, dos
Ministérios das Relações Exteriores e de Ciência e Tecnologia e do Conselho
Empresarial Brasil-China, reflete interesse chinês em aproximar-se de países
latino-americanos, ricos em recursos considerados estratégicos, a fim de
garantir fornecedores estáveis e de longo prazo desses produtos.
As relações comerciais
No plano estritamente comercial, a política externa brasileira, desde o início
dos anos 1960, apresenta uma característica constante direcionada ao objetivo
de manutenção de relações comerciais diversificadas, de forma a evitar
dependências muito acentuadas de um país ou de uma região. Na realidade, busca-
se preservar e aprofundar a natureza multilateral da inserção econômica
brasileira.
Desta forma, nos últimos anos pode-se detectar um fluxo comercial brasileiro
tendendo a manter um relativo equilíbrio entre os principais parceiros
comerciais: Estados Unidos, União Européia, ALADI (Associação Latino-Americana
de Integração) e Ásia, mas com uma tendência expressiva do crescimento da
importância asiática na balança comercial brasileira.
Em 2009, 10.2% das exportações brasileiras foram para os Estados Unidos e 22.3%
para a União Européia. A ALADI foi responsável por 19.5%, a Ásia por 25.8% e o
resto do mundo por 22.2%. Assim, todas as principais áreas do mundo são
importantes mercados para o Brasil. (Tabelas_1 e 2).

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No que diz respeito ao destino das exportações brasileiras, em primeiro, a
China em 2009 ultrapassou os Estados Unidos, tornando-se o principal mercado
para o Brasil e, em segundo, a Ásia ultrapassou também a União Europeia.
Com as novas parcerias comerciais seria óbvio esperar uma relativa perda de
importância do Japão no conjunto do intercâmbio comercial brasileiro com a
Ásia. No entanto, o fato que mais chama atenção é o grande desenvolvimento do
relacionamento com a China, superando desde 2002 as exportações japonesas e
desde 2004 as importações. Enquanto o Japão recebia, em 2000, 4.5% do total das
exportações e a China 2.0%, em 2009 a China foi responsável por 13.2% das
exportações brasileiras e o Japão por 2.8%. No total das importações
brasileiras, o Japão, no mesmo período, era o fornecedor de 5.3%, passando para
4.2% em 2009, enquanto que a China evoluiu de 2.2% para 12.5% no mesmo período.
(Gráficos_1 e 2).
[/img/revistas/rbpi/v53n2/05g01.jpg]
[/img/revistas/rbpi/v53n2/05g02.jpg]
Pode-se afirmar que há, entre os diferentes países asiáticos, um padrão
comercial similar de relacionamento com o Brasil. De um lado, o Brasil é
visualizado como fonte supridora de matérias-primas, principalmente produtos
alimentícios e insumos básicos. De outro, é um cliente de produtos
manufaturados.
De uma forma genérica, China, Japão e Coréia do Sul são compradores de minérios
de ferro e seus concentrados, produtos de ferro e aço e soja em grão ou óleo de
soja. Japão é ainda um forte comprador de alumínio e, nos últimos anos, de
pedaços de frango.
Enquanto, em 2008, as commodities representaram 38.3% do total das exportações
brasileiras, as exportações deste mesmo grupo de produtos para a Ásia
corresponderam a 62.5%. Ainda que os países asiáticos absorvam
preferencialmente commodities, a China apresenta uma tendência mais acentuada
do que a dos demais países (China - 77.5%, Japão - 67.3%).
Já as importações brasileiras provenientes da Ásia consistem principalmente de
produtos eletrônicos, produtos manufaturados e máquinas pesadas. (Tabelas_3 e
4).
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Na balança comercial bilateral com a Ásia, o Brasil manteve constantes
superávits até 1994, quando passou a apresentar tendência de déficits até 2001.
Já em 2002, com a explosão do crescimento chinês, retomou-se o histórico de
superávits, entretanto, só até inclusive 2005. Assim, em 2006, a balança
bilateral anotou déficit de US$ 2,072 bilhões, em 2007 de US$ 5,628 bilhões e
em 2008 de US$ 3,637.
Note-se, no entanto, que está tendência negativa não se deve exclusivamente à
agressiva competitividade comercial chinesa, mas a uma tendência brasileira de
aproveitamento da maior ampliação de oferta de produtos no mercado
internacional, em especial para atendimento de demandas do setor produtivo
nacional, e igualmente à valorização cambial do real em relação ao dólar.
Constata-se que, no caso das importações chinesas o setor com maior peso nas
importações não é o de produtos de consumo, mas de bens industriais.
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O ano de 2009, no entanto, foi atípico em decorrência da crise financeira
global, com a tendência internacional generalizada de reduzir importações.
Mesmo assim, as demandas por parte da China, Hong Kong, Índia e ASEAN
possibilitaram que Brasil apresentasse superávit na balança comercial bilateral
de 2009.
Algumas considerações são fundamentais para se compreender o posicionamento
comercial brasileiro em relação à China. Em primeiro, apesar da forte
assimetria e do efeito deslocamento, tem-se a consciência que o relacionamento
comercial foi e continuará sendo extremamente positivo enquanto supre cortes de
importações por parte de outros países, em especial no decorrer da atual crise
econômico-financeira.
Em segundo, o Brasil não se distingue somente pela posse de recursos naturais,
mas igualmente por um setor manufatureiro complexo e forte e por um sistema de
ciência e tecnologia com acentuado potencial. Consequentemente, a capacidade
agrícola do país decorre de uma ampla sinergia entre insumos, máquinas e
equipamentos, fazendo com que o agronegócio represente uma íntima conexão entre
agricultura e indústria.
E, em terceiro, o Brasil, por sua vez, concentra suas importações provenientes
da China em produtos eletro-eletrônicos e em máquinas e aparelhos mecânicos
que, parcialmente, estão sustentando a retomada do desenvolvimento industrial
brasileiro. As fortes pressões internas contra as importações chinesas estão
concentradas principalmente nos setores produtores de têxteis (tecidos e
vestuários) e, de brinquedos, os quais na realidade apresentam uma participação
bem inferior à dos demais produtos. Como são produtos intensivos em mão-de-
obra, são mais sensíveis politicamente ao afetarem, de forma mais direta,
empregos no mercado doméstico. (Castro, 2008: 22-25)
De outro lado, como reflete o CEBC (2010: 3), tem-se a consciência de que as
posições da China permanecerão ambíguas sempre que interesses econômicos
estiverem em jogo. Mas que, apesar de estar se transformando em uma potência
internacional, continuará mantendo seu discurso de identificação como nação em
desenvolvimento.
Considerações finais
No século XXI, tornou-se consensual apontar que o Brasil é um país emergente e
que faz parte do principal pelotão dos países emergentes. O conceito de país
emergente, ainda que não bem explicitado e passível de contestações, indica
inicialmente o reconhecimento da existência de um conjunto de países que, em
função de seus processos de desenvolvimento, está se aproximando dos assim
denominados países desenvolvidos. Mas, mais do que isto, são igualmente países
que além de apresentarem significativo crescimento econômico, demonstram
intensa vontade política de co-participação nos processos decisórios
internacionais, apresentando tanto ambições políticas regionais quanto
pretensões de se transformarem em grandes potências.
Na base destas pretensões está a percepção de que, desde o final da Guerra
Fria, o mundo está em um forte processo de reorganização das instituições e das
regras que regulamentam as relações internacionais. Isto é, o mundo organizado,
dividido e subordinado às perspectivas de dois blocos (soviético e americano)
deixou de existir e se defronta agora com a presença de novos atores com
capacidades e interesses de maior participação neste processo internacional de
revisão e de renegociação das regras internacionais.
A crise financeira internacional, escancarada no final de 2008, bem como os
impasses na Rodada Doha da OMC deixaram por demais clara a fragilidade das
atuais instituições existentes (com suas regras) e a necessidade de drásticas
mudanças para re-acomodação dos interesses dos diferentes Estados, de forma a
gerar um ambiente mais cooperativo e estável no plano internacional.
O Brasil e sua política externa expressam bem estas intenções. Em primeiro, com
o final da Guerra Fria, o Brasil tomou consciência de seu isolamento
internacional, em especial, pela crise financeira da década de 1980. E, em
segundo, um país que se apresenta como global trader e global player, para
defesa de seus interesses teria que ter uma maior presença e uma postura mais
ativa nos processos negociadores internacionais.
Neste sentido, a ação política externa brasileira reintroduziu o tema da
Cooperação Sul-Sul a partir da percepção de que os interesses, demandas e
desejos do Sul não formam a maior parte dos termos da atual ordem
internacional, conduzida pelos estados do Norte.
Esta estratégia aparenta ter o objetivo de representar parcela das aspirações
dos países do Sul no debate global, de forma a pressionar para o processo de
reforma das instituições multilaterais. Pode, assim, ser interpretado como
representando um contraponto aos países desenvolvidos, mas sem buscar um
confronto, ao contrário, utilizando-se das estruturas institucionais
existentes. Sendo que esta perspectiva é decorrente da percepção de que são
Estados que detêm interesses similares, como desenvolvimento econômico,
segurança e prestígio internacional.
Esta movimentação reforçou a intenção diplomática brasileira de ênfase na
expansão de relações com os outros principais países em desenvolvimento, em
especial com a China. De qualquer forma, é bom realçar que esta ênfase não é
excludente, sendo que o Brasil persiste com a diretriz universalista de sua
política externa, a qual não privilegia o mundo em desenvolvimento em
detrimento do desenvolvido. Assim, é também prioritária a ampliação do
relacionamento externo tanto com os Estados Unidos quanto com a União Européia
ou com o Japão, ou com outras potências emergentes, como bem exemplifica o
Fórum de Diálogo Índia, Brasil, África do Sul (IBAS), sem esquecer igualmente a
significativa importância da América do Sul na atual política externa
brasileira.
Por fim, a lembrança da aliança não escrita nos remete a Rio Branco e a sua
expectativa de que o relacionamento Brasil - Estados Unidos fosse uma parceria
e não uma relação de subordinação. Isto, na realidade, é o que se raciocina
quando se está pensando na parceria estratégica Brasil - China, conformada por
dois parceiros que embasam sua políticas externas nas perspectivas de autonomia
e de não interferência e que buscam atuar internacionalmente em conjunto em
questões de interesses e de vantagens mútuas.