A Libéria e a construção do nexo entre segurança e desenvolvimento
Introdução
Os debates acerca das formas de produção da aquiescência de Estados nacionais
às normas internacionais de direitos humanos, ou a querela em torno do problema
da intervenção humanitária, são efeitos das transformações no sistema
internacional que tiveram lugar após a Guerra Fria. Na medida em que aumentaram
as demandas colocadas sobre a ONU em relação à manutenção da ordem por meio da
expansão de regimes democráticos, as questões relacionadas aos limites de uma
ordem internacional assentada sobre o princípio da soberania ganharam
centralidade. De fato, o vínculo causal entre democracia e segurança, que então
se estabeleceu, deu azo a uma agenda política normalizadora; uma agenda que
supõe que a segurança internacional não é resultado da balança de poder, senão
da difusão de regimes democráticos (normais) ' por princípio avessos à guerra
[2]. Ao final da década de 1990, a democracia já é tomada como condição que
autoriza o predicamento da soberania. O novo vocabulário posto em circulação a
partir de Uma Agenda para a Paz não representa uma realidade previamente
constituída. Ao contrário, é com esse novo vocabulário que são estabelecidas
novas relações de poder orientadas pela transformação de sociedades nacionais a
partir de um modelo liberal democrático. Segurança humana e responsabilidade
de proteger tornaram-se, assim, apenas alguns dos conceitos que compõem o
vocabulário normalizador, apontando para a convergência entre as agendas de
desenvolvimento e segurança internacional[3]. Cabe, contudo, indagar: como em
um sistema orientado pelo princípio da soberania, e por seu corolário de não
intervenção, tais conceitos puderam emergir? Como esse vocabulário foi capaz de
informar um conjunto de práticas nos campos da segurança internacional,
particularmente as Operações de Manutenção da Paz (OMP)? Esse artigo pretende
identificar algumas das práticas de normalização que emergiram com o fim da
Guerra Fria no interior das OMP. A hipótese de trabalho proposta afirma que (i)
as transformações sofridas pelas OMP refletem uma redefinição do que significa
a paz e dos meios pelos quais ela deve ser alcançada, principalmente no que
concerne à transformação dos regimes políticos domésticos; e (ii) tais
transformações assinalam a convergência entre as práticas de desenvolvimento e
de segurança no interior das práticas das OMP. Nesse sentido, pretende-se
reunir evidências que permitam discutir como se processa o nexo entre segurança
coletiva e assistência ao desenvolvimento por meio do estudo do caso da
Libéria, usualmente considerado exemplar pelos operadores da própria ONU. O
artigo propõe um recorte temporal que compreende os anos de 2003 a 2008 '
coincidentes com o desdobramento da United Nations Mission in Liberia (Unmil).
Tal recorte permite identificar alguns dos principais lineamentos das
transformações institucionais que permitiram a criação e o desdobramento das
chamadas OMP multidimensionais, portadoras de mandatos que compreendem aspectos
relacionados às praticas de segurança e desenvolvimento.
O artigo encontra-se organizado em torno de quatro seções. Inicialmente,
apresentamos uma revisão acerca das transformações das OMP após a Guerra Fria,
tomando como objeto primário a documentação produzida no interior do sistema
ONU. A segunda e terceira seções tratam do caso liberiano. Embora o estudo de
caso compreenda apenas o período de 2003 a 2008, a segunda seção trata de forma
sumária os eventos que conduziram à crise humanitária que eclodiu após a posse
do presidente Charles Taylor. A terceira seção apresenta, então, o estudo de
caso, e por meio da análise dos mandatos e orçamentos da Unmil reúne evidências
da convergência entre as práticas de segurança e desenvolvimento na Libéria.
Finalmente, a quarta e última seção oferece algumas considerações finais acerca
das transformações das OMP à luz das evidências recolhidas do caso liberiano.
Operações de manutenção da paz após a Guerra Fria
Este artigo não pretende fazer uma revisão exaustiva da literatura que trata
das transformações recentes das OMP. Ao contrário, por meio do recurso a
documentos produzidos no interior do sistema ONU e do apoio na assim chamada
bibliografia critica, o objetivo desta seção é apenas apontar o vínculo entre
as transformações dos entendimentos intersubjetivos acerca do que é a paz e de
como deve ser alcançada, de um lado, e as transformações das OMP, de outro.
Nesse sentido, optamos por não tratar a vasta bibliografia orientada por uma
perspectiva que Pugh (2004) e Bellamy e Williams (2004) nomearam solução de
problemas (problem solving), a bem do que esses autores chamaram de abordagens
criticas[4]. Nesta seção buscaremos acompanhar o processo de transformação das
OMP até a emergência das operações multidimensionais, enfatizando os vínculos
conceituais que se estabelecem entre os campos da segurança internacional e do
desenvolvimento.
A criação da ONU teve lugar em um contexto de reconstituição do sistema
internacional de segurança coletiva; tentava-se, então, devolver a estabilidade
às relações entre os Estados como reação ao legado de profunda instabilidade
deixado pela Segunda Guerra Mundial. Em meio a esse esforço, a concepção
wilsoniana de paz, universal e indivisível, foi reescrita como limitação e
proscrição do uso da força por meio da classificação do ato de agressão como
uma espécie de ilícito internacional, ao qual todos os demais Estados
estariam compelidos a responder de forma conjunta (Claude 1956). Entretanto, o
fim da Guerra marcou também a emergência de duas superpotências e de uma ordem
internacional marcada pela bipolaridade e deterrência, que oferecia escassas
possibilidades de mobilização dos mecanismos multilaterais de produção de
aquiescência (Gaddis 2005). Ainda assim, alguns elementos do sistema de
segurança coletiva foram preservados, com o endosso das potências, na
construção da nova ordem, com destaque para limitação do uso da força e da
contenção de eventuais escaladas ou transbordamentos dos conflitos
internacionais. Esta última, reforçada pelo temor de que o envolvimento de
norte-americanos e soviéticos em disputas regionais pudesse precipitar uma nova
guerra mundial.
De fato, entre seus inúmeros efeitos, a divisão do mundo impingiu às potências
grande parte das responsabilidades e dos custos envolvidos na operação do
sistema de segurança coletiva, cada uma em seu bloco. Com isso, o recurso a
mecanismos multilaterais para combater ameaças à paz, como os oferecidos pela
ONU, foi bastante esvaziado, e, em geral, reservado a casos que não envolviam
os interesses imediatos das grandes potências ou produziam ameaças de conflitos
entre elas. As OMP foram a fórmula clássica encontrada para lidar com esses
casos, e se mantiveram consistentes com o objetivo de limitar o uso da força e
estabilizar as situações de crise, principalmente por meio da separação entre
beligerantes e restituição da autoridade soberana nas áreas afetadas.
O final da Guerra Fria inaugurou um período de grandes transformações no
sistema internacional. Por um lado, cresceu o número de conflitos violentos e
guerras civis; por outro, o aumento da interdependência entre os Estados
sinalizava o fortalecimento do multilateralismo e o maior engajamento das
organizações multilaterais nos assuntos internacionais. Tal ambiente foi
ocasião para o avanço de um conjunto de princípios de cunho liberal que
afirmava a primazia dos direitos individuais e apontava para a possibilidade de
que tais direitos fossem realizados e garantidos internacionalmente. Nesse
contexto, teve lugar a elaboração de Uma Agenda Para a Paz, relatório
encaminhado pelo então Secretário-Geral Boutros-Ghali ao Conselho de Segurança,
em 1992. No documento, o Secretário-Geral afirmava que o fim do antagonismo
entre as potências daria uma nova oportunidade para a ONU; entretanto, para que
pudesse aproveitá-la, a organização teria que contar com o compromisso de seus
membros e enfrentar novos desafios. Para tanto, a Agenda propunha o
fortalecimento das práticas de segurança coletiva, revisitando os conceitos de
diplomacia preventiva, peacemaking e peacekeeping (OMP) e acrescentando um novo
instrumento: o peacebuilding pós-conflito.
De acordo com a Agenda, cada um dos instrumentos desempenharia um papel
específico na manutenção da segurança internacional e relacionar-se-ia a um dos
novos objetivos da atuação da ONU, que seriam: (i) identificar e neutralizar
situações potencialmente conflituosas, por meio da diplomacia preventiva, antes
que resultem em violência; (ii) se iniciado o conflito, engajar-se em
interrompê-lo e buscar soluções para suas causas, via peacemaking; (iii) com o
peacekeeping, trabalhar para preservar a paz e assistir a implementação de
acordos onde as batalhas tiverem sido suspensas; e (iv) assistir à reconstrução
das instituições e da infraestrutura dos Estados afetados pela guerra, por meio
do peacebuilding pós-conflito (ONU 1992)[5].
A Agenda oferecia um novo entendimento acerca das OMP, enfatizando atividades
de reconstrução, especialmente em casos de conflitos intraestatais e guerras
civis: [ ] somente um trabalho sustentado e cooperativo que trate os problemas
econômicos, sociais, culturais e humanitários que subjazem aos conflitos pode
garantir uma fundação durável à paz alcançada (ONU 1992, § 57)[6].
Como resultado, as OMP foram reinterpretadas como um primeiro estágio do
processo de reconstrução e pacificação, no qual a deposição das armas abriria
caminho para o [...] suporte à transformação de estruturas e capabilities
nacionais deficientes e para o fortalecimento de novas instituições
democráticas (ONU 1992, § 59), descrito na Agenda como uma obrigação.
A articulação dessas propostas parece ter ocorrido em torno do conceito de
segurança humana, definido pela primeira vez no Relatório de Desenvolvimento
Humano, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
em 1994. Segundo o documento, a segurança humana abrange a proteção contra
ameaças crônicas, como fome, doenças e repressão, e também contra o rompimento
dos padrões da vida cotidiana (apud CGG 1996, 59) e desdobrar-se-ia em sete
áreas: segurança econômica, alimentar, pessoal, comunitária, política, de saúde
e do meio ambiente (PNUD, 1994).
O sucesso inicial do conceito foi reforçado pela publicação, ainda em 1994, de
uma série de estudos do Banco Mundial, intitulada Voices of the Poor. Os
resultados indicavam a segurança como a primeira preocupação entre os mais
carentes, deixando para trás necessidades básicas, como abrigo e comida
(Chandler 2007), o que levou a equipe do Banco Mundial a classificá-la como
condição de possibilidade para a melhoria das condições de vida das populações
mais pobres, especialmente as diretamente afetadas por conflitos. Entretanto,
naquele contexto, a segurança não poderia restringir-se à observância de
interesses estratégicos, tal como no passado; o conceito teria de ser alargado
para incluir elementos da ordem interna relacionados à melhoria das condições
de vida.
Conforme a definição da ONU, a
segurança humana, em sua forma mais ampla, engloba muito mais que a
ausência de conflitos violentos. Inclui direitos humanos, boa
governança, acesso à educação e à saúde e garantia de que cada
indivíduo tenha oportunidades e escolhas que proporcionem a
realização de todo o seu potencial. Cada passo nessa direção é também
um passo rumo à redução da pobreza, ao crescimento econômico e à
prevenção de conflitos. (CSH 2003, 4).
O conceito de segurança humana produzia, então, o vínculo entre a agenda
de segurança coletiva e as práticas de assistência ao desenvolvimento. Tal
vínculo deu azo à noção, enunciada no relatório final da Carnegie Commission on
Preventing Deadly Conflict (1997), de que o sucesso da prevenção de conflitos
pelo tratamento de suas causas profundas (estruturais) dependeria da capacidade
dos atores internacionais de induzir e coordenar processos de transformação
social, baseados na consolidação de estruturas de proteção dos direitos
fundamentais, instituições democráticas e políticas de desenvolvimento. Com
isso, a segurança humana se firmava como um conceito capaz de informar a
reestruturação de todo o leque de políticas de combate às ameaças à paz e à
segurança internacionais
da ONU.
A apropriação do conceito logrou especial sucesso no campo das operações de
paz, servindo de base para a emergência de debates em torno do problema da
intervenção humanitária, bem como para a enorme diversificação das atividades
incluídas nos mandatos das missões a partir dos anos 1990. Em meio a esse
processo, as OMP tradicionais acabaram por dar lugar às operações
multidimensionais, mais ambiciosas e intrusivas, lançadas [...] com o objetivo
de auxiliar a reconstrução das bases políticas, econômicas e sociais dos países
em vias de sair de processos de guerras civis (Paris 2007, 405) e, assim,
[...] aliviar o sofrimento humano,
criar condições e construir instituições para a paz auto-sustentável (DPKO
2007). De acordo com o Departamento de Operações de Paz ' Department of
Peacekeeping Operations (DPKO) ', as principais atribuições das missões
conduzidas pela ONU passaram a ser: (i) prevenir a eclosão do conflito ou sua
difusão além-fronteiras; (ii) estabilizar situações conflituosas depois do
cessar-fogo e criar um ambiente favorável a acordos de paz duradouros; (iii)
assistir a implementação desses acordos; e (iv) guiar Estados ou territórios na
transição para governos estáveis, baseados em princípios democráticos, boa
governança e desenvolvimento econômico (DPKO 2007).
As novas operações de paz, portanto, [...] envolvem o uso da força como parte
de um esforço mais amplo para promover reformas políticas e econômicas com
objetivo de transformar aquelas sociedades saindo de conflitos em sociedades em
paz consigo mesmas e com seus vizinhos (Dobbins et al. 2007, XVII). Dessa
forma, em consonância com os conceitos de segurança humana e prevenção, a
implementação de políticas de desenvolvimento e a construção de instituições
democráticas foram colocadas como parte fundamental do processo de pacificação
das sociedades sujeitas a intervenções internacionais.
É importante ressaltar que, por mais que as propostas de reformulação das
operações de paz retomadas aqui façam referência a noções como direitos
individuais e ressaltem o papel da sociedade internacional na pacificação das
regiões em conflito, a garantia da segurança em longo prazo continuaria a
passar pela construção ' ou reconstrução ' de arranjos estatais. Mesmo nas
formulações mais universalistas, a defesa dos direitos básicos dos indivíduos
cabe fundamentalmente a Estados particulares, e só deve ser assumida pela
sociedade internacional quando estes mostrarem-se incapazes de garanti-la.
Assim, a ONU reconhece os Estados soberanos como entidades fundamentais da
comunidade internacional; paralelamente, sugere que o exercício das
prerrogativas decorrentes de sua forma soberana deve estar cada vez mais
atrelado a um conteúdo específico, composto de práticas de boa governança[7].
O reforço da importância dos Estados para a manutenção da paz e a necessidade
de reformar muitos deles para que pudessem dar conta de tal tarefa fizeram com
que as doutrinas de operações de paz incluíssem, de forma marcante, orientações
para a reconstrução da estrutura estatal em todos os seus aspectos, o que está
na base da ideia de multidimensionalidade[8]. Mais do que isso, o desdobramento
dessas operações passou a prever a participação de um número crescente de
agências governamentais e da própria ONU, além de atores não estatais, como
ONGs, e a atribuir a eles papéis mais relevantes. Nesse sentido, Paris (2007)
afirma que as operações de paz teriam ressurgido a partir dos anos 1990 como
uma
[ ] rede vasta, complexa e crescente de agências privadas e públicas
que fornecem um tipo de suporte à vida a estados frágeis emergindo
de conflitos ' um sistema descentralizado (e algumas vezes caótico)
para reestruturar a sociedade civil pacífica, a governança efetiva e
a vida econômica nos estados tomados pela guerra. (Paris 2007, 410).
Para dar conta da multiplicidade e da complexidade das tarefas e do número de
atores envolvidos em sua realização, essas operações passaram por ampla
reformulação operacional, com redefinição das regras de engajamento e de
elaboração dos mandatos, consolidação de processos de captação e utilização de
recursos, integração dos projetos realizados, reforço dos mecanismos de
coordenação entre atores, e reformulação das orientações táticas e estratégicas
para as equipes no campo. Tais transformações foram reunidas e sistematizadas
pelo DPKO na Doutrina Capstone (DPKO 2008), que divide o processo de paz em
três grandes fases ' estabilização, consolidação da paz, e recuperação e
desenvolvimento em longo prazo ', sendo cada uma delas caracterizada por um
conjunto específico de tarefas e de atores.
Nesse cenário, a Libéria aparece como laboratório no qual é possível
identificar a reestruturação dos instrumentos de segurança coletiva e o
progressivo vínculo entre segurança e desenvolvimento. As duas próximas seções
pretendem identificar os principais lineamentos de tais transformações. De
forma geral, interessa mostrar como narrativas históricas sobre a Libéria ' e
os diagnósticos por elas apresentados acerca das causas de seus sucessivos
conflitos ' refletem a consolidação desse vínculo entre segurança e
desenvolvimento, e, ainda, como este informa as estratégias elaboradas pela ONU
e seus principais parceiros para lidar com a situação.
A guerra civil liberiana e o desdobramento da United Nations Observer Mission
in Liberia (Unomil)
A Libéria ganhou notoriedade por ter sido o primeiro Estado africano a declarar
independência, em 1847, sem ter vivido intensa dominação colonial. Apesar
disso, sua história é marcada por grande instabilidade política e profunda
ligação com o exterior, especialmente com os Estados Unidos (Morgan 2006).
Embora descoberta por portugueses no século 15, a região foi intensamente
disputada por corsários britânicos e holandeses, que procuraram estabelecer
entrepostos comerciais devotados ao comércio de escravos (David 1984; Sawyer
2004). Em 1821, a região foi adquirida pela American Colonization Society (ACS)
[9], uma organização fundada nos Estados Unidos, em 1816, com objetivo de
enviar de volta à África os escravos que, segundo eles, não teriam mais lugar
na sociedade norte-americana; expandir as relações comerciais dos EUA com a
África; e civilizar a população nativa (Aning 1999; Wickstrom 1960; David
1984). No ano seguinte, aportaram os primeiros colonos, que estabeleceram
assentamentos ao longo da costa e acabaram por fundar uma espécie de
commonwealth (Nelson 1984)[10].
Como observam Aning (1999) e Sayle et al. (2009), desde sua criação, a Libéria
contou com um aparato administrativo semelhante ao colonial, no qual a ACS
exercia o papel de autoridade política, organizando a produção, o comércio e as
relações sociais. Sobre esse último aspecto, Nelson (1984) e Levitt (2005)
destacam a submissão imposta pelos imigrantes vindos dos EUA aos nativos,
classificados como aborígenes não civilizados (Nelson 1984, XXIV), que teve
início no período de administração branca (1822'1842), foi legalizada na
Constituição de 1847 ' posterior à independência ', e perdurou, pelo menos, até
os anos 1980, ainda que não mais constitucionalmente. Mesmo depois da
independência, os laços entre a Libéria e os EUA continuaram fortes, com a
promulgação de uma constituição de inspiração norte-americana e a ascensão ao
poder de um presidente negro nascido na Virgínia. Além disso, grande parte das
atividades produtivas do país era financiada por empresas ou pelo governo dos
EUA, que também concedia empréstimos frequentes ao governo local (Aning 1999).
Se comparada à maior parte dos Estados africanos, é possível afirmar que, após
a independência, a Libéria passou a desfrutar de uma posição política
relativamente tranquila no cenário internacional (Sayle et al. 2009).
Paralelamente, sua política interna era marcada pela fragilidade estrutural e
institucional e pela inabilidade de seus líderes na mediação de relações
sociais eivadas de tensões, especialmente com as tribos nativas (Aning 1999).
Em 1980, essa tensão culminou com a deposição e execução do então presidente
William Tolbert Jr. a mando do sargento Samuel Doe, líder do Conselho de
Redenção Popular ' People's Redemption Council (PRC) ', eleito presidente em
1985, em um pleito que excluiu a oposição (Adebajo 2002). Durante os anos de
seu governo, Doe fomentou rivalidades internas e disputas étnicas, além de ter
se beneficiado de maneira ilícita dos recursos naturais explorados na Libéria
(Harris 1999). Mesmo assim, o presidente contou com o apoio dos EUA, que,
interessados em manter um aliado contra os soviéticos na África, destinaram à
Libéria mais de US$ 500 milhões entre 1980 e 1989 (Howe 2001). Em 1989, grupos
guerrilheiros ' a maioria compostos por integrantes de minorias étnicas
perseguidas por Doe ' liderados pela National Patriotic Front of Liberia (NPFL)
se rebelaram contra as forças do governo, dando início à guerra civil (Adebajo
2002).
De acordo com dados da ONU, o conflito deixou mais de 200 mil mortos '
inclusive o presidente ' e desalojou cerca de 80% da população do país, entre
deslocados internos e refugiados, o que teria contribuído para o agravamento da
já precária situação dos Estados vizinhos, especialmente Serra Leoa e Costa do
Marfim (UNDAF 2003). A primeira tentativa internacional de intervir na Libéria
foi liderada pela Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental '
Economic Community Of West African States (Ecowas) ', com o envio de uma força
de paz em 1990, a Ecowas Cease-fire Monitoring Group (Ecomog), que contou com o
apoio da ONU e da Organização da Unidade Africana (Aning 1999). Em 1992, o
Conselho de Segurança determinou o embargo geral e completo de todas as
entregas de armas e equipamentos militares à Libéria (S/RES/788).
Entretanto, mesmo depois do embargo, a participação da ONU se manteve indireta
por um período de quase um ano. Somente quando a Ecowas conseguiu negociar o
cessar-fogo entre as partes (Acordo de Paz de Cotonou, de 1993), o Conselho
determinou a criação de uma OMP na região, a United Nations Observer Mission in
Liberia (Unomil), a primeira na história da ONU a ser realizada em conjunto com
uma operação preexistente conduzida por outra organização ' nesse caso a Ecowas
(S/RES/866 1993).
De acordo com a resolução do Conselho, a Unomil tinha como atribuições
principais:
monitorar o cumprimento [...] do Acordo de Paz [...] e verificar sua
aplicação imparcial; assistir o monitoramento do cumprimento do
embargo ao fornecimento de armas e equipamentos militares à Libéria e
o alojamento, desarmamento e desmobilização dos combatentes; observar
e verificar o processo eleitoral [...]; assistir a coordenação das
atividades de assistência humanitária no campo [...]; planejar e
angariar recursos para a desmobilização de combatentes; comunicar
qualquer violação grave do direito humanitário internacional [...];
coordenar, em conjunto com a Ecomog, a identificação de minas e
bombas e assistir seu desarmamento. (S/RES/866 1993, § 3).
Em 1995, após o reaparecimento de focos de tensão, o mandato da Unomil foi
ajustado ' ainda que não de forma significativa ', dando à missão papel mais
ativo na implementação de acordos e programas e suporte às atividades de
assistência humanitária e aos grupos de direitos humanos, além da recomendação
de medidas para prevenir a retomada do conflito (S/RES/1020 1995). Com a
realização de eleições e o estabelecimento de um novo governo em 1997, a ONU
considerou que a tarefa da missão havia sido cumprida e encerrou suas
atividades em 30 de setembro daquele ano. Ainda em 1997, o Conselho determinou
a criação da United Nations Peace-building Support Office in Liberia (Unol),
que deveria, junto com o governo, facilitar a promoção de reconciliação
nacional e boa governança
(UN 2000). A Unol foi a primeira experiência de organização de suporte à
reconstrução pós-conflito criada pela ONU; contudo, suas atividades foram
posteriores à OMP na região, e não parte dela[11].
O desdobramento da Unmil
Com a posse do presidente Charles Taylor e o encerramento da missão, as tensões
voltaram a emergir na Libéria. Grupos rebeldes e milícias passaram a contestar
a autoridade do governo e assumiram o controle sobre algumas regiões do país,
dando início à escalada de violência, abusos sistemáticos dos direitos humanos,
perseguições e criminalidade generalizada, praticados não só pelos milicianos
como também pelo governo (Sawyer 2004). Entre os rebeldes, destacaram-se o
Liberians United for Reconciliation and Democracy (Lurd), que estabeleceu
domínio paralelo no norte; e o Movement for Democracy in Liberia (Model), cuja
preponderância crescia no sul (Sayle et al. 2009). Esses grupos foram apoiados
pelos países vizinhos ' Guiné e Serra Leoa ', que mantinham relações
conflituosas com a Libéria, principalmente em decorrência do apoio do
presidente Taylor a milícias contrárias aos governos desses países (ICG 2003)
[12]. A precariedade das condições de vida na Libéria fortalecia as milícias,
fazendo com que, já em 2003, apenas um terço do território permanecesse
controlado pelo governo (Sayle et al. 2009; Hoffman 2006). Em pouco tempo, o
acesso ao sul foi bloqueado pelo Model, enquanto o Lurd cercava a capital
Monróvia (S/2003/875 2003).
Diante do agravamento do conflito e da proposta da Ecowas, apoiada pelos EUA,
de enviar tropas para região, o então Secretário-Geral Kofi Annan remeteu uma
carta ao Conselho de Segurança na qual sugeria a realização de intervenção
internacional na Libéria, a ser desdobrada em três fases: (i) envio de tropas
da Ecowas; (ii) envio de força multinacional; e (iii) estabelecimento de OMP da
ONU (S/2003/769 2003). Em resposta, o Conselho autorizou o envio imediato dos
contingentes, ancorando sua ação no Capítulo VII da Carta da ONU, visando à
criação de condições para o estabelecimento de uma OMP, a qual deveria ser
delineada pelo Secretário-Geral o mais rápido possível (S/RES/1497 2003).
Paralelamente ao envio das tropas, a ONU passou a negociar o acesso livre e
seguro dos atores humanitários à população (S/2003/875 2003). Com o acordo de
paz (Accra Comprehensive Peace Agreement) e o estabelecimento do governo
provisório, o Secretário-Geral elaborou novo relatório, no qual recomendava a
criação imediata da OMP e delineava seus termos (S/2003/875 2003). Acatadas as
sugestões, o Conselho de Segurança determinou a instituição da Unmil, ainda em
2003, com mandato de 12 meses (S/RES/1497 2003)[13].
Conforme descrito pela ONU, a partir de 2003, o caso da Libéria demonstra
claramente como a deterioração das condições humanitárias e a continuidade dos
conflitos internos podem ultrapassar fronteiras nacionais e impingir riscos ao
sistema internacional como um todo. Mais do que isso, o diagnóstico e o
corolário de medidas proposto pela Organização vai ao encontro das ideias de
que (i) a manutenção da paz e da estabilidade dependem da habilidade de
combinar o combate às ameaças no presente à sua prevenção no futuro; e (ii) que
isso seria viabilizado por uma abordagem multidimensional voltada,
principalmente, para a reforma das instituições e da infraestrutura estatal e
para a realização de programas de desenvolvimento econômico e social,
responsáveis por minar as causas mais profundas das disputas violentas.
Nesse sentido, o Conselho reconheceu uma relação entre a degeneração das
condições humanitárias e a intensificação do conflito e afirmou que a situação
[...] constitui ameaça à paz e à segurança internacionais, à estabilidade na
sub-região da África Ocidental, e ao processo de paz na Libéria (S/RES/1497
2003, 1). Tal situação seria agravada, principalmente, pelo [...] deslocamento
generalizado da população, pobreza, alto índice de desemprego e proliferação de
armas leves [...] (S/2003/875 2003, § 23), falência das instituições,
corrupção generalizada, falta de confiança no Estado, infraestrutura
deteriorada, tensão permanente entre grupos sociais ' incluindo disputas
territoriais e elementos criminais ', violação e abusos generalizados dos
direitos humanos e do direito humanitário internacional e militarização e
fragmentação da sociedade civil (S/2003/875 2003). Finalmente, o Secretário-
Geral concluiu que o equacionamento dessas questões [...] requer uma resposta
abrangente, multidimensional e sustentada da comunidade internacional (S/2003/
875 2003, § 116), por meio de ações coordenadas entre a OMP e as mais diversas
organizações envolvidas em atividades para atenuar os efeitos do conflito na
Libéria e evitar sua recorrência no futuro (S/2003/875 2003).
A coordenação entre diversos atores e a multidimensionalidade da abordagem
sustentavam todo o leque de medidas recomendadas pelo Secretário-Geral e
apropriadas pelo Conselho. Sobre esse aspecto, é interessante notar que as
recomendações basearam-se em estudos encomendados pelo próprio Secretário-
Geral, que detalhavam as condições que a OMP encontraria na Libéria; definiam
prioridades relacionadas à manutenção da paz e da estabilidade; e delineavam
planos e cronogramas de ação (S/2003/875 2003). Compunham as equipes
responsáveis pelos estudos funcionários das mais diversas agências da ONU e OIs
' com destaque para o Banco Mundial (S/2003/875 2003). As propostas das ONGs
vinculadas à assistência humanitária também foram contempladas, mediante
inclusão nas propostas do CAP/CHAP de documento elaborado por elas ' em
parceria com agências da ONU e doadores ' que continha a lista de projetos a
serem desenvolvidos em setores vitais (S/2003/875 2003, § 40).
De acordo com as recomendações incorporadas ao mandato, a grande prioridade da
Unmil seria estabilizar a situação de segurança e oferecer suporte às
organizações humanitárias ali presentes. Mais especificamente, a instituição da
missão deveria garantir o acesso dessas organizações à população local, criando
condições para a ampliação da ajuda e para o estabelecimento, na região, das
principais agências da ONU relacionadas à assistência humanitária, permitindo a
plena realização dos projetos propostos de forma conjunta no CAP/CHAP de 2003
(e dos anos seguintes) para a Libéria (S/2003/875 2003).
Em seguida, caberia à Unmil dar início à reconstrução das instituições e da
infraestrutura do Estado, com destaque para o setor de segurança, e conduzir o
processo eleitoral, tarefas que seriam realizadas ora em conjunto com o governo
provisório, ora assumindo funções de Estado (S/RES/1509 2003).
Finalmente, o texto do Conselho reconheceu que, para que a paz e a estabilidade
alcançadas se perpetuassem, seria necessário considerar como a comunidade
internacional [...] pode ajudar o desenvolvimento econômico futuro na Libéria,
com vistas a alcançar estabilidade a longo prazo [...] e a melhorar o bem-estar
de seu povo (S/RES/1509 2003, § 15). As conclusões sobre os caminhos da
assistência ao desenvolvimento seriam apresentadas inicialmente no Common
Country Assessment (CCA) e, de forma mais completa, na United Nations
Development Assistance Framework (Undaf) (UNDAF Liberia 2003), que reúne os
projetos de desenvolvimento a serem empreendidos no país de 2003 a 2005 e,
posteriormente, de 2008 a 2012, em esforços conjuntos de agências da ONU, ONGs
e OIs, com destaque para o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional
(FMI).
O desenrolar das atividades da Unmil, como descrito em seu mandato
(S/RES/1509 2003), pode ser relido de acordo com a dinâmica do processo de paz
proposta pela Doutrina Capstone (2008), e dividido em três momentos: (i)
estabilização; (ii) consolidação da paz; e (iii) recuperação e desenvolvimento
a longo prazo, cada um deles contando com um conjunto mais ou menos específico
de atores responsáveis. Relacionada à divisão em estágios, é também possível
identificar uma classificação das tarefas em três grandes áreas, que são
planejadas de forma integrada e devem operar da mesma maneira: (a) segurança e
reorganização institucional do Estado, detalhada no mandato e demais documentos
de planejamento da OMP; (b) assistência humanitária, delineada nos documentos
do CAP/CHAP[14];
e (c) assistência ao desenvolvimento, cujo planejamento final é apresentado na
Undaf. Contudo, é importante ressaltar que a divisão entre as etapas e entre as
áreas não pode ser demarcada de forma precisa; pelo contrário, os limites entre
elas são fluidos, com grandes zonas de sobreposição e interseção.
De qualquer maneira, é possível perceber que o planejamento e organização da
Unmil incorporaram, de forma marcante, as orientações normativas,
institucionais e operacionais relacionadas à redefinição da própria noção de
paz e dos caminhos para sua consecução. Com a inclusão da proteção humanitária
e da assistência ao desenvolvimento como eixos norteadores ' ao lado da
segurança ' e pilares da construção de uma paz e estabilidade duradouras, os
oficiais da ONU consideraram que a Unmil teve êxito em colocar em prática a
multidimensionalidade, o que a levou a ser inscrita entre operações de maior
sucesso conduzidas pela Organização em prol da segurança coletiva (UN Forum
2005; UN Foundation 2009). Para que isso fosse possível, além da incorporação
de técnicas aceitas e inovações que se provaram úteis, a operação contou com
considerável apoio internacional, principalmente dos EUA, e com o engajamento
de ONGs e OIs parceiras, refletidos na grande quantidade de projetos e recursos
destinados à Libéria.
A organização da Missão Multidimensional
A abordagem multidimensional das OMP conduzidas pela ONU implicou, ao longo dos
anos, em progressivo aumento do leque de atividades consideradas essenciais
para a paz desenvolvidas nas regiões sob intervenção, bem como dos recursos e
profissionais especializados considerados necessários à sua implementação. Essa
demanda articulou-se a um discurso que afirmava a universalidade dos princípios
que orientavam a instituição das operações e a definição de suas prioridades,
como democracia e desenvolvimento, o que, no limite, funcionaria como garantia
de comunhão de objetivos entre os mais diversos atores interessados em engajar-
se nos processos de paz. Tal articulação abriu espaço para que as OMP passassem
a incorporar grande número de novos atores e promover a divisão, entre eles, de
uma parte do trabalho relacionado ao processo de paz. Entretanto, para que tal
divisão fosse efetiva no campo, era necessário ampliar e aperfeiçoar os
mecanismos de coordenação, tarefa que foi incluída entre as atribuições do
DPKO/Departamento de Apoio Logístico ' Department of Field Support (DFS).
Esse processo possibilitou ao Departamento concentrar seus esforços na
manutenção da segurança ' definida como condição sine qua non para a realização
de qualquer tarefa ' e nos aspectos centrais da reconstrução do Estado,
especialmente leis, instituições e infraestrutura. Ao conduzir uma operação de
paz, portanto, o DPKO/DFS forjaria as bases sobre as quais a paz pudesse ser
edificada, mediante trabalho coordenado de sua equipe e demais agências e
organizações parceiras. Dessa forma, é possível reinterpretar o processo de
reorganização das atividades ' que deu azo à emergência da assistência
humanitária e da assistência ao desenvolvimento como áreas das OMP ', como um
de divisão do trabalho relacionado à paz e à segurança, que se articulou às
transformações normativas, institucionais e operacionais descritas desde o
epílogo da Guerra Fria.
A relação entre as três áreas pode ser descrita como de simbiose, na qual
observam-se traços de integração ' relacionados principalmente aos fins e ao
processo de planejamento ', e de independência ' garantida pela especificidade
dos caminhos trilhados por cada uma delas. Conforme a Doutrina Capstone (2008),
o Processo Integrado de Planejamento da Missão ' Integrated Mission Planning
Process (IMPP) ' visa à definição de objetivos comuns entre os parceiros das
OMP; porém, esses atores têm diferentes papéis, processos de tomada de
decisão, cronogramas de engajamento, procedimentos, pressões orçamentárias e
autoridades de supervisão (DPKO/DFS 2008, 55). Isso implica que, ainda que os
objetivos sejam comuns, os processos são paralelos, cabendo aos coordenadores
da missão manterem-se informados sobre os demais processos de avaliação e
planejamento [...] e buscarem ativamente a criação de integração substantiva
entre eles, sempre que possível (DPKO/DFS 2008, 56).
A montagem das operações de paz é bastante elucidativa em relação a esse
aspecto e mostra que, apesar de serem pensadas separadamente, as atividades das
três áreas são parte de um todo comum. A utilização de um caso concreto, como o
da Libéria, permite acessar, de forma mais direta, as políticas desenvolvidas
no campo e, com base nelas, perceber como os principais conceitos que informam
as OMP são transpostos das doutrinas da ONU para o dia a dia dos profissionais
que atuam no campo. Ademais, é possível notar como as tarefas compreendidas em
cada uma das áreas acabam por se misturar, o que muitas vezes torna difícil
reconstituir as fronteiras entre elas.
No caso da Unmil, o mandato da operação foi dividido em cinco grupos de medidas
(S/RES/1509 2003), traduzidas no orçamento como cinco componentes da missão:
(i) Cessar-Fogo; (ii) Direito Humanitário e Direitos Humanos; (iii) Reforma do
Setor de Segurança; (iv) Processo de Paz; e (v) Suporte (A/58/539 2003). Esses
componentes se mantiveram relativamente constantes durante todo o período
considerado (2003'2008). As principais alterações foram realizadas em 2007, mas
se limitaram à denominação do componente, sem se estender de maneira
significativa ao seu conteúdo. A única exceção é o Cessar-Fogo, que foi
oficialmente excluído das atribuições da missão nessa época, quando a ONU
considerou que as atividades a ele relacionadas já tinham sido concluídas, ou
poderiam ser assumidas pelo governo local[15]. A relação dos componentes da
Unmil e sua ocorrência por ano, como aparece nos orçamentos anuais (2003'2008),
estão resumidas no Quadro_1.

Tais componentes podem ser decompostos nos elementos apresentados a seguir, no
Quadro_2.
[/img/revistas/rbpi/v54n2/a02qua02.jpg]
Nesse sentido, observa-se que os elementos relacionados aos componentes Cessar-
Fogo e Reforma do Setor de Segurança são condizentes com o objetivo de devolver
ao Estado a capacidade de manter a segurança internamente e o monopólio sobre
os meios de violência, além de possibilitarem a reconstituição da sociedade
civil, especialmente após os processos de desmobilização e desarmamento[16]. No
componente Processo de Paz, os elementos de reconstrução institucional e da
estrutura administrativa fazem parte dos esforços para reerguer as bases do
Estado soberano para que ele possa, progressivamente, recuperar sua
independência em relação aos principais Estados e atores internacionais e,
domesticamente, estender autoridade por todo o território sob sua jurisdição.
Além disso, com a inclusão das eleições entre os elementos do processo de paz,
percebe-se que a independência desse Estado que será recriado como sujeito da
sociedade internacional não inclui a prerrogativa de definir a forma de
organizar as relações políticas internamente. Nesse quesito, a democracia se
impõe como modelo universal e único caminho possível para levar à paz.
A inclusão dos elementos de proteção e promoção dos direitos fundamentais e
liberdades individuais revela a importância atribuída à definição de marcos
legais e jurídicos, característicos das democracias liberais. A permanência de
elementos relacionados à proteção humanitária ao longo dos anos de intervenção,
além de viabilizar o controle de uma situação de emergência, procura garantir a
melhoria de condições básicas de vida, como educação, saúde e padrões
apropriados de nutrição. O componente conta ainda com o elemento de
reabilitação e reintegração, relacionado à educação de ofícios a ex-combatentes
e grupos afetados pela violência em troca de alimentos ou remuneração; e,
posteriormente, da criação de empregos e financiamento das atividades
produtivas por eles desenvolvidas.
Tomando por base os componentes e elementos[17] constitutivos da missão,
percebe-se que o processo de reconstrução empreendido pela Unmil na Libéria não
visa à edificação de um Estado qualquer, e, sim, de um Estado liberal
democrático, com mercado interno livre e sólido e administração pública pautada
por padrões de boa governança, estabelecidos pelas agências internacionais; em
uma palavra: um Estado normal. A normalização é resultado da combinação de
práticas de segurança e desenvolvimento, sustentada por uma perspectiva que
entende a paz não como resultado da estabilização, mas como um processo de
promoção da segurança humana[18]. Uma vez normalizado, tal Estado seria capaz
de garantir as condições necessárias à paz duradoura e atuar como membro pleno
do sistema internacional, participando ativamente de suas principais
instituições.
Considerações finais: segurança, desenvolvimento
e normalização do sistema internacional
Tomadas em conjunto, as transformações normativas, institucionais e
operacionais que tiveram lugar a partir dos anos 1990 podem ser entendidas como
parte do processo de emergência de um novo conjunto de práticas de manutenção
da paz conduzidas pela ONU. Entre suas características, deve-se destacar a
multidimensionalidade e a participação de novos atores, que evidenciam o
envolvimento mais consistente da sociedade internacional nos processos de
pacificação e reconstrução de Estados nacionais. Contudo, é interessante
observar que, apesar da cadência e coerência aparentes entre propostas e
decisões, a reconstituição dessas operações como instrumentos de manutenção da
paz e da segurança internacional foi muitas vezes marcada pela descontinuidade.
Grande parte das inovações hoje sistematizadas em documentos como a Doutrina
Capstone (2008) resultou, de fato, da compilação de experiências ad hoc,
relativas a necessidades impostas por circunstâncias particulares que cercaram
cada um dos casos nos quais a ONU se envolveu.
Outra questão digna de nota diz respeito ao fato de que, sob a égide da
multidimensionalidade, as operações tornaram-se mais dispendiosas, tanto
política quanto economicamente, e seu sucesso, traduzido aqui como realização
efetiva dos projetos e programas tidos como essenciais, progressivamente
condicionado ao suporte oferecido pelos Estados. Dessa forma, a aplicação de
novos conceitos, padrões e técnicas dependeu não só de seu desenvolvimento e
disponibilidade, como também do apoio internacional recebido em cada caso. Ao
longo dos anos, as operações capazes de combinar inovações e recursos de forma
bem-sucedida foram utilizadas pela ONU na definição de um rol de práticas
testadas e aceitas (melhores práticas) que informariam experiências
subsequentes.
A operação realizada na Libéria a partir de 2003 pode ser incluída nesse grupo,
uma vez que, como pudemos observar, além de reunir princípios e técnicas
desenvolvidos até então, teve êxito em criar novas soluções e incorporar, ao
longo de sua atuação, práticas que se mostraram eficientes em outros casos.
Dessa forma, a missão foi considerada pela ONU representante exemplar da nova
geração das operações de paz, tornando-se referência para futuras intervenções
e inspiração para documentos como a Doutrina Capstone (2008).
Este artigo teve como ponto de partida a hipótese de que após a Guerra Fria
seria possível identificar a emergência de um entendimento intersubjetivo que
identificava a paz com a difusão do modelo liberal democrático de organização
político-social (tratado aqui como processo de normalização). O estudo do caso
da Unmil nos permitiu descrever a montagem e o funcionamento de uma OMP, que
carregou consigo o ímpeto normalizador apontado na hipótese de trabalho. De
fato, nos foi possível identificar evidências das orientações normativas,
institucionais e operacionais que informam os processos de pacificação e
reconstrução de Estados após a Guerra Fria tanto em seu mandato quanto nos
itens de dispêndio que compuseram seus orçamentos.
Apesar de as áreas de segurança e assistência ao desenvolvimento terem,
tradicionalmente, caráter bastante distinto, o objetivo de manter a paz parece
ser comum a ambas. Além disso, a análise dos elementos que cada uma elenca
entre os caminhos para que seu projeto se perpetue permite identificar a
emergência de uma acepção de paz diferente da ausência de conflito armado.
Mais do
que preservar a capacidade dos Estados soberanos de governar sua população de
forma independente e de fazê-lo amparado pelo monopólio dos meios de violência
dentro do território sob sua jurisdição, o conceito de paz que emergiu,
discursivamente, no final do século 20 e início do 21, parece ter tido sucesso
em incluir nessa lista aspectos que dizem respeito ao modo de governar e
organizar as relações sociais.
Essa inclusão, ao que tudo indica, pautou-se na consolidação de uma versão do
pensamento liberal que afirma a existência de um rol de direitos universais e a
relação direta entre a preservação desses direitos e a manutenção da paz (Doyle
1996; Owen 1996). Pela reivindicação de universalidade, seus partidários se
julgam capazes de fornecer modelos que poderiam ser aplicados em qualquer país,
de modo que a paz e o desenvolvimento fossem difundidos e fortalecidos em todo
o mundo. Entretanto, a suposta universalidade dos modelos tem ainda outras
implicações para as OMP, nomeadamente, a comunhão de objetivos e propostas
entre os agentes da reconstrução; e a inclusão de novos atores, como ONGs e
empresas privadas. Uma vez que os objetivos são reescritos como universais, as
agendas de segurança e de desenvolvimento tornam-se progressivamente
convergentes, o que se revela na aproximação entre as políticas circunscritas a
cada uma delas. Tal aproximação permite indagar a própria natureza dos
processos de pacificação em curso no sistema internacional. Nesse sentido, é
possível afirmar que após a Guerra Fria, democracia, segurança e
desenvolvimento são amalgamadas em um único cadinho, vale dizer, em um único
conjunto de técnicas de exercício de poder, nomeadas governança global. Nesse
caso, podemos considerar que as técnicas de governança global transformaram a
paz democrática em uma estratégia de governo do próprio sistema internacional
(Zanotti 2005), transformando-o em um espaço normalizado ou, se preferirmos, em
processo de normalização. Nesse processo, as operações de manutenção da paz
aparecem como técnicas de governo que seriam desdobradas para guiar, formar e
fazer avançar tipos específicos de Estados, por meio do estabelecimento de
padrões de comportamento individual e modelos institucionais que devem ser
implementados e seguidos por todos os bons membros da comunidade internacional.