O Barão do Rio Branco no Itamaraty (1902-1912)
Introdução
Pode-se afirmar que quase tudo que se refere à atuação de José Maria da Silva
Paranhos Júnior, Barão do Rio Branco, na condição de ministro das relações
exteriores do Brasil está desvendado. Se do ponto de vista factual infere-se
que quase nada mais resta para vir à luz, o mesmo não se dá no que diz respeito
à interpretação de seus atos, nomeadamente as decorrências que eles provocaram
em longo prazo. Teses novas sempre podem ser levantadas. O que vem a seguir é
uma sistematização de alguns conceitos sobre o Barão, com acréscimos
interpretativos, no referente à política externa, com a pretensão de se tocar
no essencial de modo a contribuir para ampliar a compreensão do que seria o
mais relevante no período que esteve à frente da chancelaria brasileira. Em
2012 se comemora o centenário de seu falecimento (no seu ambiente de trabalho),
e é politicamente propício para se revisitar o legado do patrono da nossa
diplomacia, até porque o País movimenta-se no contexto regional de forma oposta
àquela do Barão, embora a América do Sul de hoje possua alguns traços
conjunturais formalmente semelhantes àqueles em que ele atuou. Em termos
globais, na primeira década de 1900, assistiu-se ao início de um processo de
crise internacional gestada nas contradições da economia liberal. O contexto
mundial era multipolar em transição para a formação de blocos (Lessa 2005, 119-
21), caracterizado pelo nacionalismo e pela agressividade, geradores de
disputas interimperialistas, incidentes diplomáticos, provas de força e corrida
armamentista, componentes de um cenário que anunciava o fim de um período de
expansão e prosperidade das economias industriais. A crise da era dos impérios
desembocou na Grande Guerra (1914-1918), marco histórico do fim efetivo do
século 19, este identificado com a pax britannica. Fora do círculo das grandes
potências e, portanto, com poucos meios para influir nas decisões
internacionais, à diplomacia brasileira não lhe era permitido errar nas
apostas. Ler corretamente as tendências do contexto mundial em mudança para
aproveitar suas oportunidades é o grande desafio que se coloca de modo
permanente aos homens de Estado. A gestão de Paranhos Júnior no Ministério das
Relações Exteriores (MRE) merece reexame constante não somente pelo seu savoir-
faire, que compõe o perfil de diplomata completo que foi, mas também porque
firmou tendências e procedimentos que se incorporaram à tradição diplomática
brasileira.
Paranhos Júnior assumiu o MRE com 57 anos de idade. Bacharel em Direito,
geógrafo e historiador prestigiado que tinha em seu ativo duas expressivas
vitórias em litígios internacionais (questões das Missões de Palmas e do Amapá)
nos quais representara os interesses do Brasil. Ao finalizar o Tratado de
Petrópolis (17 de novembro de 1903) com a Bolívia, já ministro, encerrando a
difícil questão do Acre, seu prestígio cresceu ainda mais, até porque a solução
foi ao encontro da majoritária opinião nacional. Realista, infenso à retórica e
à verborragia, afirmou que a política internacional não se fazia com
sentimentalismos, mas inspirada nos interesses nacionais. Chegou a ser
comparado a Bismarck no seu realismo. Mesmo na retificação da fronteira do
Brasil com o Uruguai (1909), corrigindo-se uma situação injusta, o fez na hora
certa, de modo a acentuar a diferença de procedimento da Argentina, que então
reivindicava a posse de ambos os lados do Rio da Prata. Cosmopolita e
respeitado em todo o País, tornou-se ícone de inteligência e patriotismo. Foi
mantido na direção da pasta por quatro presidentes da República. A política
externa brasileira de dezembro de 1902 a fevereiro de 1912 foi toda de Rio
Branco. Sua autonomia de ação permitiu-lhe dar continuidade e desenvolver uma
administração que se tornou um divisor de águas na história das relações
internacionais do Brasil.
Unitarismo
Rio Branco era, por índole e formação, liberal, monarquista e contrário à
descentralização do poder. Para ele, o prestígio que o Brasil desfrutara no
exterior ao final do Império decorrera da ordem interna e da estabilidade das
suas instituições. Fazia distinção entre as nações não só no que dizia respeito
à extensão territorial e número de habitantes, mas também consoante o grau de
cultura, nível de "civilização" e honestidade de seus governos, o que se pôde
perceber, por exemplo, na sua discordância dos critérios adotados pelas grandes
potências na Conferência da Paz de Haia (1907), quando elas classificaram as
nações para a formação do Tribunal Arbitral Permanente.
Foi um admirador, embora com reservas, dos Estados Unidos, antes mesmo de lá
ter estado por um período de quase dois anos para defender o Brasil na questão
de Palmas, arbitrada pelo presidente Cleveland. Sobre as repúblicas hispano-
americanas, a opinião do chanceler, salvo exceções, era negativa, chegando
mesmo a elas referir-se com desdém ("ridículas repúblicas hispano-americanas")
em razão do estado crônico de convulsão da ordem pública em que viviam, pois
traziam a vergonha e a desconsideração para a América Latina. O Chile
afigurava-se-lhe como a única exceção; não por acaso um país que não era
república federativa. Os pronunciamentos e as guerras civis acarretavam
descrédito para a área, permitindo que na Europa e nos Estados Unidos fizessem
referências às "turbulentas repúblicas da América do Sul".1 A Monarquia fizera
o Brasil "unido, grande, próspero e livre", invejado pelos "súditos de Gusmões
Blancos e Porfírios Dias".2 A partir de sua larga vivência na Europa,
assegurava que os governos e as classes esclarecidas do Velho Mundo tinham em
alta conta o Brasil que, para aquelas, valia mais do que as repúblicas hispano-
americanas e os Estados Unidos. Via, com orgulho, seu país ser uma exceção no
sul do continente, no qual lhe cumpriria, até, desempenhar uma missão
histórica. O Império, ao fazer intervenções armadas nos países platinos,
atendera à sua honra e aos seus interesses, mas também desempenhara missão
civilizadora.
O temor de Rio Branco, às vésperas da República, era de que o Brasil deixasse
de ser a exceção e se igualasse aos demais países da América Latina, caso o
novo regime trouxesse o torvelinho revolucionário e a fragmentação territorial.
Mas, uma vez proclamada a República, acatou "a vontade nacional",3 e permaneceu
à frente do consulado de Liverpool não sem antes pedir o perdão do Imperador
deposto, que o apoiou e estimulou sua permanência na carreira. (Rio Branco
1957, 64-65) O estilo naturalmente reservado de Rio Branco facilitou-lhe o
continuar no serviço, apesar de ter opinião negativa sobre o Marechal Deodoro e
seus métodos ditatoriais de governo. (Burns 1967, 548). Quando aceitou, mais
tarde, após muita relutância, o convite de Rodrigues Alves (1902-1906) para
assumir o MRE, a República presidencialista já conseguira sua consolidação
política e adentrara em uma fase de estabilidade financeira. Os investidores
estrangeiros voltavam ao País. (Topik 2002, 418). Antigos monarquistas tinham
aderido à nova ordem. O próprio presidente fora conselheiro do Império. Rio
Branco consolava-se com o "chamado regime presidencial" no entendimento de que
era o que mais convinha ao País "por muito tempo" e que seria imprudência
tentar restaurar o parlamentarismo. O importante seria "fortalecer e
desenvolver os elementos conservadores, pôr termo às agitações e à anarquia e
assegurar acima de tudo a unidade nacional".4
Prestígio gera rivalidade
Ao procurar diferenciar o Brasil do grupo latino-americano de nações, Rio
Branco recorreu a uma política de prestígio e de divulgação da boa imagem do
País por meio do desenvolvimento e apoio a iniciativas próprias de uma
diplomacia cultural. (Ricupero 2002, 84). O esforço bem-sucedido junto à Santa
Sé para a criação do primeiro cardinalato latino-americano no Rio de Janeiro, a
modernização da armada brasileira, os sucessos do chanceler no remate de velhas
questões lindeiras, e a aproximação com os Estados Unidos despertaram ciúmes na
Argentina, manifestado na imprensa, sobretudo no La Prensa, em matérias
inspiradas pelo rival de Rio Branco na questão de Palmas, Estaniláo S.
Zeballos.5 Foi nesse ambiente de competição que surgiu em Buenos Aires a
polêmica sobre o rearmamento naval brasileiro, na esteira da elevação da
representação do Brasil em Washington à categoria de embaixada, e da eleição da
cidade do Rio de Janeiro para sediar a Terceira Conferência Internacional
Americana prevista para 1906.
Rio Branco acreditava que o poder militar era essencial para uma nação impor
respeito frente às demais e, por isso, uma vez ministro, reiterou a necessidade
de se refazer a marinha de guerra. Não há consenso entre os estudiosos sobre
eventual influência recebida de leituras diretas de obras de geopolíticos da
época, em especial de Ratzel, Mahan, Mackinder e Kjellén. (Heinsfeld 2000, 16,
22, 42-43, 48, 52, 81, 195; Miyamoto 1995, 47; Backheuser 1945, 28). De
qualquer forma, o chanceler brasileiro pensou e agiu como um geopolítico,
guiado pelo senso de observação, instinto e faro político. Historiador,
construiu suas análises e projeções a partir do exame das fontes e apegava-se à
concretitude dos fatos, despreocupado em traduzir para seus atos de política
externa ideias então em circulação no Ocidente, como o cumprimento de um
Destino Manifesto, a superioridade da raça ou a importância da guerra como
elemento de coesão nacional. Realista, tinha consciência dos limites da
influência do Brasil na América do Sul. Apesar de gozar de prestígio e respeito
dentro e fora do País, lastreados num histórico de sucessos e bom senso
diplomático, Rio Branco nunca alardeou desejo de liderança nem levou a efeito
uma política externa agressiva e arrogante escudada em ideais de projeção
nacional.
Aproximação Brasil-Estados Unidos: o corolário Roosevelt
Possuidores da maior economia do planeta e recém-ingressados na política das
grandes potências, os EUA tornavam-se centro de um subsistema internacional de
poder. Rio Branco, ao captar com precisão a nova distribuição do poder mundial,
não contestou as pretensões dos norte-americanos e até lhes facilitou a tarefa
ao procurar uma aproximação ainda maior do que a que já existia entre os dois
países e a manifestar o desejo de vê-los desempenhando o papel de leadership do
Continente.6 Além de razões de caráter político, vistas mais adiante, a
complementaridade das suas economias dava um fundamento de natureza comercial à
aproximação, pois o rápido crescimento da população norte-americana
proporcionava amplas perspectivas à venda de produtos tropicais, especialmente
de café, em proporções tais que o mercado consumidor daquele país por muito
tempo ainda manter-se-ia como o mais importante motor da economia brasileira.
Rio Branco não se envolveu em debates sobre a condução da economia e política
comercial. Não obstante sua preferência pessoal por uma tarifa aduaneira
liberal, conforme se vê em trecho de longa carta enviada a Domício da Gama em
1908,7 defendeu na frente externa o protecionismo que a tarifa brasileira dava
a certos produtos nacionais. As importações provenientes dos EUA, todavia,
recebiam favor alfandegário, geralmente de 20%, em reciprocidade à livre
entrada que eles davam a mercadorias brasileiras. Rio Branco, como qualquer
brasileiro bem-informado, tinha consciência de que o protecionismo nos EUA era
mais forte do que o praticado no Brasil e que a livre entrada de quase todos os
produtos nacionais naquele país se devia ao fato de não concorrerem com o que
era produzido internamente e porque eram matéria-prima para as fábricas (caso
da borracha) ou "artigos necessários à alimentação do povo e que seria
impolítico encarecer" (café e cacau).8
A política exterior de abrangência latino-americana de Jefferson (1801-1809) e
Monroe (1817-1825) foi abandonada pelo governo norte-americano logo após o
insucesso do Congresso do Panamá (1826) em favor de tratados bilaterais. Só no
último quartel do século 19 os EUA voltaram a considerar a América Latina como
um todo e, em consequência, formularam uma política exterior pan-americana, na
qual se sobressaíam os objetivos econômicos, embora em relação às áreas
adjacentes tenham pesado, também, razões geopolíticas. Originalmente concebida
como proteção e não ingerência, a doutrina Monroe foi transformada em
justificativa para sancionar intervenções em países latino-americanos
abrangidos pela ampliação da área de segurança norte-americana. Os princípios
formulados por Monroe em 1823, que vedavam o continente à conquista europeia,
impunham, na ótica do presidente Theodore Roosevelt (1901-1909),
responsabilidades, como o zelar pela ordem e pela paz no continente por meio de
uma ação de polícia internacional. Na mensagem de 6 de dezembro de 1904 ao
Congresso do seu país, Roosevelt conciliou monroísmo com intervencionismo ao
retrabalhar o conceito de proteção do hemisfério contra agressões
extracontinentais de forma a dar justificativa à política de intervenção contra
os Estados latino-americanos9 nos casos de "descalabro crônico" ou de
"afrouxamento geral dos laços da sociedade civilizada".10 As repúblicas da
América Latina, conforme constatou o Evening Post de Nova York, deveriam
reconhecer suas obrigações em troca da proteção dos Estados Unidos11, que, em
contrapartida, assumiram, também, o papel de gendarmes dos interesses europeus
no continente, embora não se lhes reconhecessem o direito de ocupação
territorial por ser incompatível com a segurança dos Estados Unidos. (Costa
1968, 217-18). À Europa dava-se a garantia de que as nações latinas da América,
sob a supervisão norte-americana, preservariam a ordem pública e manteriam seus
compromissos em dia.12 Londres aplaudiu os termos do corolário Roosevelt. A
imprensa da Europa, particularmente a britânica, também aprovou a nova
interpretação da doutrina Monroe, uma vez que significava proteção para seus
investimentos.13 Essa auto-outorga de poder, derivada da nova versão da
Doutrina Monroe, embora repousasse em razões econômicas e geopolíticas, era
também parte da visão de mundo de uma geração que então chegava ao poder
(Perkins 1964, 312-13), segundo a qual o expansionismo norte-americano era,
também, uma questão de honra e de prestígio (May 1964, 319-31; Costa 1968, 183-
84; Duroselle 1976, 227). A Guerra Hispano-americana (1898) é o marco do novo
ciclo na política externa dos Estados Unidos que se prolongaria até 1918 (final
da Primeira Guerra). (Pecequilo 1999, 53). No Brasil, o novo quadro
internacional foi percebido pelos novos donos do poder em 1889. O Barão manteve
a tendência republicana de adaptar a política externa do País à nova
conjuntura, reforçando-lhe a ênfase pelo fato de concordar com a interpretação
de Roosevelt sobre a doutrina Monroe, que para ele não deveria despertar o
temor e as suscetibilidades observadas na América espanhola,14 cujas
repúblicas, dizia, deveriam se cuidar caso sentissem qualquer ameaça na
linguagem franca do presidente norte-americano, procurando "escolher governos
honestos e previdentes, e, pela paz e energia no trabalho, progredirem em
riqueza e força".15 A doutrina se lhe afigurava proteção contra eventuais
violências e conquistas perpetradas pelas potências europeias. A linguagem de
Roosevelt deveria inquietar mais as potências do Velho Mundo pelo fato de os
Estados Unidos mostrarem-se dispostos a "intervir, sempre que for necessário,
na questão do Oriente europeu e na Ásia, que as mesmas potências entendiam
pertencer-lhe exclusivamente". A união da América hispânica para se contrapor
aos EUA seria inútil, algo que para ele estava fora de questão, até mesmo
"ridículo" em razão da disparidade de forças e de recursos, além da separação
que existia entre seus povos.16 Rio Branco ainda registrou a incoerência
daqueles que, no Brasil, manifestavam prevenções contra os EUA depois de terem
aplaudido a intervenção dos mesmos a favor de Floriano Peixoto por ocasião da
Revolta da Armada (1893-1894).17 Mas o chanceler brasileiro não era figura
deslocada do seu ambiente. Sua posição em relação à mensagem do presidente
norte-americano de 6 de dezembro de 1904 tinha respaldo, embora não unânime, na
opinião interna.18 Mesmo na América Latina, de modo geral, o corolário
Roosevelt foi acolhido com moderação. (Perkins 1964, 204-205). De mais a mais,
o País atravessava período de estabilidade político-institucional, além de
estar com as contas externas em ordem depois da rígida política financeira de
Campos Sales (1898-1902), fatos que somados à prosperidade da lavoura cafeeira
tornaram possíveis os êxitos materiais da administração Rodrigues Alves (1902-
1906), colocando o Brasil longe de ser qualificado como uma república "mal
governada e turbulenta".
O primeiro teste de Rio Branco a esse respeito foi o bloqueio naval imposto em
9 de dezembro de 1902 por Grã-Bretanha, Alemanha e Itália à Venezuela a título
de cobrança de dívidas. O governo Roosevelt manteve-se neutro, mas fora
comunicado com antecedência pelos interventores, que, assim, reconheceram a
nova potência mundial e sua respectiva área de influência. Apenas há seis dias
à frente do MRE, quando a frota dos credores entrou no porto de La Guayra, Rio
Branco não hesitou em alinhar-se aos EUA, pois entendeu que a doutrina Monroe
não estava em questão, uma vez que o bloqueio não implicava conquista de
território (Stuart 1989, 49, 187-88, 206; Lins 1945, 489-90; Perkins 1964, 187-
88). O Secretário de Estado Hay opinou que o Brasil não deveria se envolver na
questão da Venezuela, com o que concordou o governo brasileiro, até porque
desejava preservar as boas relações com os governos que pressionavam o país
sul-americano.19 Além de aceitar a sugestão norte-americana, o chanceler
brasileiro recusou a do ministro argentino Drago para formar uma liga de países
sul-americanos contra demonstrações de força de países europeus, e negando-se a
engrossar protesto contra cobrança coercitiva de dívidas, pois o Brasil não era
mau pagador. (Lins 1945, 489-90; Costa 1968, 134). Pode-se, também, ajuntar que
qualquer protesto naquela conjuntura seria vão, uma vez que afora os Estados
Unidos nenhum outro país americano tinha força suficiente para se opor a
qualquer uma das potências europeias envolvidas no episódio venezuelano.
Criação da embaixada brasileira em Washington
Nem decorridos dois meses da mensagem de Roosevelt ao Congresso de seu país
redefinindo os termos da doutrina Monroe (6 de dezembro de 1904), Rio Branco
reafirmou a aproximação Brasil-Estados Unidos, de modo enfático, por meio de um
ato que, conforme afirmou Nabuco, por si só tinha o significado de uma
política: a elevação da legação do Brasil em Washington, em 13 de janeiro de
1905, à categoria de embaixada, acompanhada de ato recíproco e simultâneo do
governo norte-americano. Nas palavras de Álvaro Lins, a embaixada resultou do
desejo do chanceler brasileiro de criar "uma moldura nova e brilhante para dar
relevo a um quadro antigo" (isto é, a amizade norte-americana) para não
"repetir os seus antecessores". (Lins 1945, 492-93). A elevação do nível de
representação entre dois países, naquela época sobretudo, tinha um significado
que ia além da rotina diplomática. Para o Brasil não assinalou apenas o
estreitamento dos laços de amizade - conferia-lhe prestígio e o diferenciava do
conjunto de nações da América do Sul.
Tanto nessa ocasião quanto na Europa enxergou-se na criação das embaixadas a
formação de uma entente Brasil-Estados Unidos, aspirando o primeiro à
supremacia política na América Latina em eventual divisão de responsabilidades
na aplicação da doutrina Monroe, conforme declararam então o presidente
Roosevelt e o seu secretário de Estado Root. (Costa 1968, 69). Na Alemanha, o
órgão pangermanista Grenzboten entendeu que o ato simultâneo conferia ao Brasil
o status de primeira potência, a mais adiantada da América do Sul.20 A criação
das embaixadas foi acusada na Argentina,21 cuja imprensa interpretou como
desejo brasileiro de exercer, com o apoio dos Estados Unidos, hegemonia sobre o
segmento sul do hemisfério. (Costa 1968, 68-69, 75). Um subimperialismo,
segundo análise do La Prensa. No Rio de Janeiro, seus principais jornais, como
O Paiz e o Jornal do Commercio, apoiaram o ato do governo,22 qualificaram-no
como marco de um novo momento na política exterior brasileira,23 realçaram o
prestígio brasileiro e vislumbraram o estabelecimento de uma entente cordiale
entre as duas maiores nações do continente.24 O Jornal do Brasil, do Rio de
Janeiro, e o Comércio, de São Paulo, são exemplos de jornais que desaprovaram a
criação das embaixadas. O próprio Rio Branco respondeu aos seus críticos, sob o
pseudônimo de J. Penn, em longo artigo publicado no Jornal do Commercio, do Rio
de Janeiro, no qual, depois de justificar pela tradição a aproximação dos dois
países, tocou no essencial: a amizade dos Estados Unidos proporcionaria ao
Brasil "uma barreira invencível" às manobras contra ele empreendidas em
Washington, o principal centro das intrigas contra o Brasil. (Rio Branco 1948,
129-51). Os argumentos do Chanceler provinham tanto da economia quanto do jogo
político internacional e estão explicitados no citado despacho reservado para
Washington de 31 de janeiro de 1905, no qual além de reiterar a importância do
mercado dos EUA para o café e outros produtos, observou que o cultivo e
estreitamento da amizade com aqueles permitiriam
continuar a desfazer as intrigas e os pérfidos manejos dos nossos
invejosos de sempre e dos adversários ocasionais que as questões de
fronteiras nos têm trazido. Agora mesmo, como no passado, o Governo
do Peru está em campo, solicitando a intervenção dos Estados Unidos
contra o Brasil e contra o Chile. Em Buenos Aires o atual Ministro
das Relações Exteriores do Peru, Sr. Prado Ugartecho, disse que o seu
governo não duvidaria fazer as maiores concessões aos Estados Unidos
e até a pedir o seu protetorado. […] Não há de ser com uma política
de alfinetadas, tornando-nos desagradáveis aos Estados Unidos como
desejariam os impotentes inimigos que eles contam aqui e em quase
toda a América Espanhola que poderemos inutilizar em Washington os
esforços dos nossos contendores.25
Rio Branco reiterou tais argumentos em fevereiro de 1909, em despacho para o
embaixador Joaquim Nabuco em Washington, pelos quais fica nítido o caráter
utilitário que emprestava à aproximação, pois esperava ampliar a liberdade de
movimentos da chancelaria brasileira no seu contexto imediato.
Argentinos - parceiros e rivais: a questão alfandegária
O mercado brasileiro, desde longa data, desempenha papel expressivo no
funcionamento da economia da Argentina. Segundo dizia-se, o general Mitre
afirmava que "el Brasil es una nación que Dios ha puesto donde está, para
enriquecer la Argentina".26 Mesmo assim e apesar de os produtos procedentes da
Argentina, sobretudo trigo em grão e farinha, figurarem nas primeiras posições
no rol das importações brasileiras, os vizinhos do Prata sempre lutaram a favor
do incremento das suas vendas no Brasil. Significativo foi o debate que se
travou em 1906 na imprensa portenha a respeito das relações comerciais com o
vizinho do norte, suscitado pela manutenção, em junho, da redução alfandegária
brasileira que beneficiava a farinha de trigo importada dos Estados Unidos. O
tratado de reciprocidade comercial desejado pela imprensa e governo argentinos,
defendido até por razões de natureza política por Assis Brasil, ministro do
Brasil em Buenos Aires, não teve acolhida no governo brasileiro, ou, mais
precisamente, de Rio Branco,27 que não se deixou impressionar pela maré
montante dos jornais portenhos. Em artigo publicado como matéria do próprio
Jornal do Commercio, mas segundo todas as indicações fora por ele mesmo
redigido, contestou os argumentos levantados por uma parte daqueles jornais e,
numa demonstração de simetria de atitudes no que dizia respeito às relações
comerciais do seu país com a Argentina e Estados Unidos, concluiu que não havia
por que ter um relacionamento preferencial com o vizinho do Prata em razão do
seu limitado mercado consumidor para as necessidades brasileiras decorrentes do
contínuo crescimento da produção cafeeira. O pensamento do Ministério das
Relações Exteriores, dizia, fora torcido quando noticiou-se que a redução de
20% nos direitos de importação concedida pelo Brasil a certos produtos norte-
americanos28 deveu-se à livre entrada do café brasileiro nos Estados Unidos.
Esta não fora a razão principal, uma vez que o fundamento da redução decorria
do fato de os Estados Unidos comprarem a metade da produção anual brasileira. A
Argentina importava 120.000 sacas por ano contra 6.100.000 dos Estados Unidos,
2.000.000 da Alemanha, 748.000 da França, 400.000 da Holanda e 300.000 da
Bélgica. Nenhum desses países, à exceção dos Estados Unidos, gozavam da redução
de 20% na taxa alfandegária de suas exportações para o Brasil.29 Situação
inversa representava o mercado brasileiro para a produção argentina, pois era
"o principal ou antes o único mercado para as suas farinhas e […] vai nele
ganhando terreno todos os dias a ponto de haver suplantado completamente as
farinhas americanas. Cabe, portanto, à Argentina que nos vende muito e compra
pouco, fazer concessões aduaneiras ao Brasil sem nos pedir favores em troca."30
Em tais acordos, dizia, "nenhum país se deixa levar […] pelo sentimentalismo ou
por espírito de camaradagem. Todos procuram atender aos seus interesses". O
arrazoado fechava-se com a observação de que o fato de o Brasil ser e desejar
ser sempre bom amigo da Argentina não poderia ser levado em consideração, pois
a amizade não entraria em conta em questões de intercâmbio comercial.31 De
qualquer forma, as relações comerciais entre os dois países mantinham um fluxo
praticamente invariável, com saldos amplamente favoráveis ao país do sul. Se
pouca coisa mudava naquelas relações, o mesmo não ocorria nas de natureza
política, como que a contrariar a lógica econômica. Aliás, na história das
relações bilaterais Brasil-Argentina são constantes os momentos de aguda
rivalidade entremeados por aqueles de extrema cordialidade. Da mesma forma, as
aproximações, afastamentos e reaproximações do Paraguai e Uruguai em relação a
um ou ao outro rival eram, até recentemente, mutuamente monitorados com a
preocupação de divisar aspirações hegemônicas.
A disputa naval
O general Júlio Roca, ao concluir sua segunda gestão presidencial, em outubro
de 1904, deixou as relações da Argentina num elevado nível de concórdia com o
vizinho do norte. (Fraga 1994, 45). A rivalidade, todavia, permaneceu latente e
afloraria logo após a discussão e aprovação do projeto de rearmamento naval
pelo Congresso Nacional brasileiro. (Moneta 1973, 70). Nesse mesmo ano, o
ministro plenipotenciário argentino adepto das boas relações com o Brasil, o
citado Gorostiaga, deixou o Rio de Janeiro. Quando o vice-presidente argentino
Figueroa Alcorta assumiu a presidência, no início de 1906, em virtude do
falecimento do titular Manuel Quintana, e designou Estanisláo Zeballos, rival
de Rio Branco desde o litígio lindeiro de Palmas, para, pela terceira vez,
chefiar o Ministério das Relações Exteriores argentino, a rivalidade subiu de
nível e chegou a ameaçar a paz entre os dois países (Fraga 1994, 49). Em 1907 o
sul do continente, conforme afirmou Ferrari (1980), "se transformou em um campo
magnético, cujos pólos eram Rio de Janeiro e Buenos Aires, Zeballos e Rio
Branco". (Ferrari 1980, 689).
Rio Branco assumiu o MRE num momento em que a marinha de guerra do Brasil
encontrava-se reduzida nos seus efetivos e no número de navios, em decorrência
das convulsões políticas do início da República, em especial a Revolta da
Armada (1893-1894) contra Floriano. (Bittencourt 2012, 27). Na opinião interna
era ponto pacífico que o País estava necessitando de se rearmar no oceano, por
razões de prestígio e por precaução contra eventuais agressões
extracontinentais ou mesmo contra possíveis afrontas ao amor próprio nacional
oriundas do contexto sul-americano. O estado da defesa nacional era preocupação
antiga do Chanceler,32 que por isso estimulou o desenvolvimento de um projeto
de rearmamento naval bem como a conscrição militar (Backeuser 1945, 22). O
caráter pacífico da nacionalidade não implicava, no seu entender, manter o País
em estado de fraqueza militar, pois os conflitos independiam da vontade
nacional. Além disso, o extenso litoral, a vastidão do interior e o exemplo de
nações vizinhas que se armaram obrigavam o Brasil a dotar-se dos necessários
elementos de defesa. Forças armadas equipadas e povo com educação cívica e
militar eram necessários à garantia da soberania e da paz. Por isso mesmo, Rio
Branco em momento algum aceitou sequer falar sobre redução do plano naval sob
pressão da Argentina. Reivindicava para o seu país o direito de ser tratado
como ela havia sido quando, em anos anteriores, encomendara vários navios.33 Em
discurso pronunciado em 11 de junho de 1908 no Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro, por ocasião da conferência do visconde de Ouro Preto sobre a
batalha naval do Riachuelo, Rio Branco, assertivo, enfatizou que a nação,
previdentemente, deveria estar preparada para a defesa "de seu território, dos
direitos e da sua honra, contra possíveis provocações e afrontas"34, mas, para
diluir receios, mandou um recado claro ao governo argentino quando lembrou que
na hipótese insensata de o Brasil ter plano de ataque contra países vizinhos as
encomendas de unidades navais recentemente feitas "não seriam de navios só
capazes de operar no alto mar ou ao longo do nosso dilatado litoral". (Rio
Branco 1948, discursos:170-71; Lins 1965, 403).
Existe a versão de que o programa naval brasileiro de 1906 tenha sido inspirado
nas ideias de Sir Hugh Tennynson d'Eyncourt, que representaria os interesses da
firma inglesa Vickers Armstrong, que, com efeito, recebeu a encomenda de três
encouraçados (Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro) de grande porte, tipo
dreadnought. O Brasil não chegou a receber o Rio de Janeiro, pois o vendeu à
Turquia, o que acarretou o cancelamento da construção das unidades que lhe
dariam apoio e, assim, o programa naval de 1906 do ministro almirante
Alexandrino de Alencar35 ficou reduzido a 2 dreadnoughts, 2 scouts e 10
destroyers. (Martins e Cozza 1997, 83-85, 99-100; Bittencourt 2012, 31).
A reiteração do caráter pacífico das encomendas navais não surtia efeito entre
os argentinos, que as viam como desafio à primazia naval do seu país na região.
A política do Brasil em relação à sua marinha de guerra adquiria para o governo
platino, segundo Etchepareborda, "real periculosidade", pois "representava a
ruptura do equilíbrio naval sul-americano". O afã argentino de se rearmar
obedecia, também, a desígnios imperialistas de uma nação orgulhosa de si ao
completar cem anos de vida independente. (Etchepareborda 1978, 82, 85). Depois
de intenso debate interno, o governo argentino, em 1908, decidiu-se pela compra
de dois encouraçados tipo dreadnoughtde 27.500 toneladas (Moreno e Rivadávia).
(Tulchin 1990, 87). Com a queda de Zeballos (junho de 1908), as relações entre
os dois países melhoraram sensivelmente. Roque Sáenz Peña, na condição de
presidente eleito, visitou o Brasil em 1910 e, logo em seguida, ele e Rio
Branco puseram fim à disputa naval. Em 1915, os citados encouraçados foram
incorporados à armada da Argentina, que assim recuperou a supremacia naval na
região.
O "triângulo" ABC e a noção de influência compartilhada
O receio do imperialismo, mormente pelas práticas agressivas com que se
manifestava, era um sentimento bem presente à época, do qual Rio Branco não
escapava. Embora sem alimentar paranoias ou perder o senso de medida, soube
respaldar-se na repulsa que a agressividade das grandes potências provocava na
opinião para agir com a firmeza necessária em situações que poderiam gerar
arranhões à soberania nacional. Ao assumir a pasta, o Barão acumulara uma
experiência de 26 anos fora do País, a maior parte deles passada entre Paris,
Londres e Liverpool. Estudioso e frio observador, teve oportunidade de conhecer
de perto o núcleo do capitalismo industrial na sua etapa imperialista, bem como
de acompanhar as atividades das grandes empresas, que não raro atuavam com
cobertura diplomática dos governos de seus países de origem. Na questão do
Acre, a primeira que enfrentou imediatamente após a assunção da chancelaria,
agiu como alguém que conhecia a linguagem e maneira de atuar dos financistas e
especuladores internacionais.
Na concepção de Rio Branco, a melhor maneira de se proteger contra atentados à
soberania era garantir a estabilidade política da região. A esse propósito, em
1904 trocara ideias com o ministro plenipotenciário argentino no Rio de
Janeiro, Manoel Gorostiaga, "sobre a conveniência de um tratado de arbitramento
geral entre o Brasil e a República Argentina, e sobre a utilidade de algum
acordo entre as duas Repúblicas e a do Chile", tendo em vista pôr fim às
revoluções na região. Para o chanceler, agitações e desordens frequentes
desacreditavam "na Europa e nos Estados Unidos todos os latinos ou latinisados
da América", retardavam ou paralisavam seu progresso e constituíam "um
verdadeiro perigo […] em futuro não muito remoto […] para os países da América
Latina, devastados pelas guerras civis, se ainda assim o estiverem, e não é
provável que os ampare a chamada doutrina de Monroe, porque na América do Norte
também haverá excesso de população, política imperialista e já ali se sustenta
o direito de desapropriação, pelos mais fortes, dos povos incompetentes". O
espírito revolucionário não se restringia a certos vizinhos, mas existia também
no Brasil e, "até certo ponto", na Argentina.36 Assim, em favor da
estabilidade, Rio Branco buscou uma política de equilíbrio, oposta a sonhos
imperialistas ou a projetos de hegemonia, procurando desenvolver uma cordial
inteligência com a Argentina e o Chile. (Lins 1945, 613). Isso combina com a
concepção oligárquica de nações e com a de influência compartilhada,
reconhecida por Rio Branco como a única possível ao Brasil na vertente
atlântica da América do Sul. Ambas repousavam em concepções realistas e
pragmáticas, pois guardavam a expecativa de que a amizade entre as três
repúblicas contribuiria para impedir intervenções de uma delas em outro país de
menor expressão, o que deixaria o Brasil mais à vontade no contexto sub-
regional, conforme afirmaria no citado despacho de 31 de março de 1906 para a
legação em Washington. Em novembro de 1904, deu os primeiros passos nessa
direção quando em correspondência para o ministro do Brasil em Buenos Aires
tratou da conveniência de se criar, pelos três principais países da América do
Sul, um instrumento legal que levasse a atitudes voltadas para a paz e a ordem
na região.37 Nesse momento, havia convergência no pensamento das chancelarias
do Rio de Janeiro e Buenos Aires,38 pois o presidente Julio Roca foi também
defensor da atuação conjunta dos três, a fim de se constituir o que se designou
por "Triângulo ABC". Mais adiante, Puga Borne (ministro das Relações Exteriores
do Chile) e Lorenzo Anadón (representante da Argentina naquela capital)
chegaram a minutar um projeto de tratado para regular as relações entre os
países do ABC. Rio Branco também fez sua minuta, mas o assunto não prosperou,
sobretudo em razão da tensão então existente nas relações Brasil-Argentina. Na
concepção de Rio Branco, o ABC não incluiria equivalência naval, a qual
descartava com veemência, nem se destinava a contrabalançar ou fazer oposição à
influência norte-americana.39 A documentação é reiterativa nesse sentido. Mesmo
não se concretizando, a eventual entente motivou preocupação nas nações menores
da área que tinham alguma pendência com integrantes do ABC,40 que, assim,
adquiria um ar de entente do Sul. Aos peruanos, especialmente, conforme
informou Nabuco, pois tinham a questão de Tacna e Arica com o Chile e a de
limites com o Brasil.41 Embora, ao tempo de Rio Branco, o ABC não tenha ido
além da fase preliminar de negociações, tentou-se, sem sucesso, uma atuação
concertada quando da Quarta Conferência Internacional Americana, realizada em
1910, em Buenos Aires.
Observações finais
O Brasil, após a consolidação do regime republicano instituído em 1889 e a
implantação do sistema oligárquico na gestão Campos Sales, que também
encaminhou a solução do crônico problema financeiro, ingressou, na
administração Rodrigues Alves, em um período de tranquilidade política e de
realizações materiais. Os anos de 1902 a 1918 correspondem, a nosso ver, ao
auge da Primeira República, até porque nele se destaca o brilho da larga gestão
de Rio Branco no MRE. Em termos econômicos, a Primeira Republica caracterizou-
se pela expansão da economia agroexportadora, cuja especialização foi levada
aos seus limites máximos. O alinhamento Washington-Rio de Janeiro em boa parte
foi adequação aos vínculos comerciais já solidamente estabelecidos entre os
dois países. Os EUA, com o trunfo que lhes davam as dimensões de seu mercado,
dispunham de um eficaz meio de pressão para forçar a obtenção de vantagens
aduaneiras. Para o Brasil, a livre entrada concedida ao café tinha um custo,
sobretudo pelo desestímulo ao processo de industrialização em razão da entrada
maciça de produtos industrializados facilitada pelo rebaixamento de direitos de
alfândega às mercadorias procedentes dos EUA.
Embora o Chanceler não tenha inaugurado a inflexão da política externa
brasileira em direção aos Estados Unidos, deu a ela um sentido utilitário, além
de ter consolidado e aprofundado tendências. Rio Branco não temia o
expansionismo dos EUA e era compreensivo com a ação deles na América Central42,
o que lhe facilitou o cultivo da amizade norte-americana, esta vista como
neutralizadora de eventuais ingerências nas questões internacionais do Brasil,
que, assim, poderia ter um aumento virtual nas suas margens de movimentos na
sub-região. Dir-se-ia que Rio Branco perseguia uma política de hands off na
área. A aproximação, como ele a concebia, não implicava ver seu país em posição
de caudatário, até porque não estava vinculada a compromissos. Por outro lado,
não se traduziu em apoio norte-americano ao Brasil em suas pendências
internacionais; apoio, aliás, nunca solicitado por Rio Branco. Independente de
estratégia, a aproximação levada a efeito por Rio Branco, entusiasticamente
coadjuvado por Nabuco, foi unilateral, isto é, sem a equivalência do governo de
Washington, cuja diplomacia estava mais voltada para a obtenção de vantagens
alfandegárias e comerciais do que apoiar as aspirações da diplomacia brasileira
em elevar seu status no concerto internacional. (Bueno 2003, 164; Smith 1991,
67; Reis 2012, 109; Pereira 2012, 11). O próprio Chanceler, perto do final de
sua gestão, desencantou-se com a diplomacia norte-americana. De qualquer forma,
a aproximação entre os dois países não pode ser vista como um objetivo em si
mesmo, nem primordial; o mais importante acabou sendo sua visibilidade, embora
não planejada. Rio Branco movimentou-a como uma peça, cujo alcance só pode ser
aquilatado ao se considerar o jogo inteiro, cuja meta primeira foi a solução
das questões de fronteira ainda pendentes. A grande obra de Rio Branco como
ministro foi concluir a tarefa na qual se envolvera antes de assumir a
chancelaria, dando sequência à obra iniciada no período colonial e continuada
pelos diplomatas do Império, de fixação dos limites do território nacional
mediante o fechamento definitivo de suas fronteiras por meio de arbitramentos
com a Argentina (questão das Missões, 1895) e França (questão do Amapá, 1900),
na condição de advogado do Brasil, e de tratados, quando chanceler, com a
Bolívia (questão do Acre, 1903), Equador (1904), Holanda (Guiana, 1906),
Colômbia (1907), Peru (1909) e Uruguai (1909). (Goes Filho 2002, 115). O
sucesso nos movimentos impostos pela defesa da soberania e naqueles motivados
ou conectados à política de prestígio deu nova presença ao Brasil no cenário
internacional, no qual podia se apresentar como uma nação territorialmente
satisfeita, rearmada no oceano com o que tinha de mais moderno no mundo, com os
compromissos financeiros em dia, sediando a Terceira Conferência Internacional
Americana, marcando presença na Segunda Conferência de Paz em Haia, sem
problemas de fronteira e desobrigado de compromissos internacionais. Segundo o
próprio Rio Branco (apud Viana Filho 1959, 393), seu país elevava-se a outro
patamar no concerto internacional, desinteressando-se das estéreis questões
entre as nações sul-americanas para atuar em um círculo mais elevado, o das
grandes amizades internacionais.