Parcerias intraeuropeias: 50 anos do Tratado do Eliseu (1963-2013)
Em 22 de janeiro de 2013 a Alemanha e a França celebram os cinquenta anos do
Tratado de Cooperação Franco-Alemã, conhecido como o Tratado do Eliseu, de
1963. Esse tratado marca inicialmente uma inédita parceria franco-alemã, que
passou desde os anos 1960 por incontáveis altos e baixos. Sem esse marco da
política internacional, contudo, inúmeros obstáculos para a integração europeia
e para a política externa convergente não teriam sido superados. É certo que
algumas determinantes da época hoje já não mais existem, como a ameaça do
comunismo e a pressão da Guerra Fria. Outras surgiram, como as sucessivas ondas
de terrorismo internacional, notadamente após o 11 de setembro de 2001. Cabe
lembrar, contudo, nem que seja de passagem, que as crises anteriores de
terrorismo interno (Irlanda, Itália, Espanha e Alemanha, sobretudo) também
contribuíram para a consolidação dessa primeira parceria estratégica na Europa.
Trata-se certamente de mais uma das histórias de sucesso do itinerário da União
Europeia, uma "boa entente", como afirmou o terceiro presidente da 5ª República
Francesa, Valéry Giscard d'Estaing (1974'1981). No entanto, com o alargamento
da União e com a complexidade crescente do mundo contemporâneo, essa parceria
não se teria um tanto diluído? O surgimento de outras ambições de liderança,
com efeito, tornaram os processos decisórios mais difíceis e as rivalidades
políticas mais agudas. Com isso, a política interna, como a externa, vem se
europeizando gradual e regularmente. Diversos temas originalmente de política
"externa" tornaram-se praticamente de política interna. O Tratado do Eliseu se
insere nessa lógica. No plano internacional ' França e Alemanha são Estados
soberanos e autônomos ', é um tratado clássico. No plano europeu, dá um passo
significativo no caminho da transposição de elementos internacionais para o
campo interno. Pode-se ver nessa transposição alguma ambiguidade, na medida em
que os Estados não desapareceram, até o presente, embora haja um processo
contínuo e crescente de transferências de soberania para as instituições
federais europeias.
Um fato preponderante para o funcionamento da dupla França-Alemanha está na
igualmente dupla dependência entre os parceiros e deles para com a União
Europeia. Pode-se considerar esse formato de política interna e externa de
bilateralismo complementar. As crises mais recentes e as dúvidas sobre a
eficácia da liderança da dupla franco-alemã em tempos mudados levam a se
perguntar se as consultas regulares entre Paris e Berlim, tão importantes até o
final dos anos 1990, não teriam perdido algo de sua força. Durante longos anos
essa cooperação pareceu ser a força motriz da preservação do acquis
communautaire e propulsora de seus avanços, como no caso do Ato Europeu Único,
de 1986.1
Para a conformação atual da política externa europeia, essa parceria continua a
possuir uma notável relevância histórica. A presente reflexão esboça a origem
do tratado, sua importância para a parceira franco-alemã e para a evolução da
política da União, e conclui com uma análise dos desdobramentos possíveis na
atual quadra.
Origem do tratado
Logo após o término da 2ª Guerra Mundial, um tratado de amizade franco-alemão
era impensável. Dezoito anos depois, com a França presidida por um dos
principais líderes da vitória na guerra e na derrota do nazismo, Charles de
Gaulle, e a Alemanha governada por um de seus primeiros resistentes, o ex-
prefeito de Colônia, Konrad Adenauer, mentalidades, políticas e decisões haviam
tomado uma direção radicalmente nova e inovadora, para ambas as partes. Quase
duas décadas de políticas perseverantes de reconciliação e de entendimento
recíproco entre os dois países ' e as duas sociedades ' explicam-se em boa
parte pela convergência política acerca de um futuro comum no âmbito de uma
Europa integrada. Com eles, mas também para além deles. A paz e o afastamento
do risco de outros conflitos, em que as ameaças se haviam deslocado para fora
da França e da Alemanha, exigiam a superação das tensões entre os dois países,
que haviam chegado a ser estigmatizadas como uma "inimizade hereditária".
O entendimento franco-alemão não é apenas uma política de belos gestos
simbólicos, mas um meio longamente eficaz de realização pacífica de interesses
compartilhados. Um dos motivos para a disposição de ambos os países de
vincular-se, no longo prazo, por um tratado, foi o temor mútuo das eventuais
consequências negativas de uma política nacional, isolada, com relação ao leste
europeu. Paris receava que a República Federal, apesar dos vínculos com as
alianças ocidentais, pudesse vir a ser aspirada pela União Soviética. Bonn
temia que uma política francesa de apaziguamento e convivência a leste se
fizesse às custas da Alemanha.
Os dois países recusaram sem hesitação a nota de Estaline, de março de 1952,
com a proposta de uma Alemanha reunificada, mas neutra. As razões para tal
recusa foram diversas, em termos de política nacional, mesmo se o resultado foi
o mesmo. A França considerou com elevada desconfiança uma "neutralidade"
tutelada pela União Soviética. A experiência com outros países do leste europeu
não preconizava nada de bom. A República Federal não concebia outro formato de
reunificação que não fosse o da opção pelo Ocidente e por sua arquitetura de
aliança defensiva ' a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A
fórmula do discurso de Robert Schuman em 9 de maio de 1950 prevaleceu, tanto
para a opção política interna quanto externa. Criar, manter e desenvolver as
comunidades europeias tornou-se, com grande rapidez, um objetivo estratégico
maior.
Havia também outros motivos e razões para uma cooperação estreita dos dois
países em políticas comuns. A França, com a intenção de recuperar sua
autoestima de "grande nation" e sua agência na política internacional, tinha
também interesse em aproximar de si a República Federal da Alemanha, evitando
que ela ficasse exclusivamente sob a influência estadunidense. A liderança dos
americanos com relação à Alemanha e à Europa em geral sempre foi uma pedra no
sapato de Paris, pois conflitava com seus interesses nacionais e europeus. Bonn
esperava lograr, com uma cooperação estreita, consolidar e aprofundar o
vínculo, bem sucedido, com as estruturas ocidentais, de modo a ser incluído no
"clube" dos parceiros políticos internacionais confiáveis. Ademais, Bonn
buscava amenizar a atitude antiamericana dos franceses, de modo a preservar o
quanto possível um entendimento eficiente no interior da Otan. Nesse contexto,
a Alemanha dependia de uma boa parceria tanto com a França quanto com os
Estados Unidos. Assim, a habilidade política de não se tornar um joguete das
pretensões de poder de ambos os países foi um requisito essencial da ação alemã
nos anos 1950 e 1960.
A assinatura do Tratado do Eliseu em 1963 foi o ápice da hábil política de
entendimento do chanceler federal Konrad Adenauer, praticada desde o dia
seguinte do armistício que selou a derrota da Alemanha nazista, em maio de
1945. Alguns engajamentos fundantes a precederam. O Plano Schuman, de 1950, que
criou a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA), a primeira instituição
supranacional na Europa, foi um marco decisivo. Sete anos após o fim da guerra
e somente três anos depois da formalização da República Federal, a Alemanha
ingressava de pleno direito no círculo dos vizinhos europeus ocidentais. Um
passo decisivo para a reconciliação franco-alemã. Em 1º de janeiro de 1958
entram em vigor os tratados da Comunidade Econômica Europeia (CEE) e da
Comunidade Europeia do Átomo (Euratom). Economia e energia são mais duas
políticas públicas da Europa dos Seis que passam do plano estritamente interno
("nacional") para o comum ("externo"). Uma terceira política pública ' a de
defesa ' tropeça na recusa da Assembleia Nacional francesa, em 1954, de
ratificar a Comunidade Europeia de Defesa. A política de segurança (e dos
arsenais de defesa, sobretudo em meio à corrida nuclear), em tempos de Guerra
Fria, e para a França, refém de persistentes guerras coloniais (Indochina e,
logo, Argélia), ainda era demasiado sensível.
Com o rápido engajamento multilateral da Alemanha no espaço europeu e
ocidental, é de se perguntar por que um bilateralismo franco-alemão seria ainda
necessário. Um elemento de resposta está no fato de que a união propriamente
política dos seis estados-membros das Comunidades ainda não se realizara. Os
desequilíbrios políticos dessa época começam a poder ser superados após a queda
do Muro de Berlim, em 1990, embora outros desequilíbrios se tenham introduzido
no espaço europeu, pela expansão acelerada no final dessa década.
Nos anos 1960, Paris e Bonn entenderam que ainda se fazia necessário aparar
arestas, acertar ponteiros, coordenar políticas, mesmo se isso não
representasse uma fusão direta de objetivos e meios. Paris sabia que a recém-
criada Alemanha Federal dependia de uma política externa fundada na confiança e
trabalhava com a hipótese de que Bonn poderia ser uma espécie de seu parceiro
acessório na realização dos interesses próprios franceses na Europa. Essa
hipótese era de certa maneira otimista, na medida em que Bonn ' mesmo se
prudente e cuidadosa nas políticas europeia e internacional ' via com ceticismo
o antiamericanismo francês e considerava que uma cooperação intensificada
permitiria à Alemanha amenizar tal política. Ambas as partes julgavam, no
entanto, como estrategicamente incontornável um tratado que firmasse o caminho
da cooperação pacífica entre elas como requisito para avanços no espaço europeu
e avanços da Europa na cena mundial.
Apesar do ambiente de uma crescente aproximação, a decisão propriamente dita de
celebrar formalmente o tratado foi tomada em prazo brevíssimo. O chanceler
federal Adenauer pensava inicialmente em um acordo reservado. Em 1962, diversas
crises sacudiram a cena internacional e a política interna alemã. Desde a
construção do muro de Berlim, Adenauer vinha sendo exposto a sinais
preocupantes de desgaste da liderança que exercia desde o fim da 2ª Guerra. A
bancada democrata-cristã do governo, no Parlamento Federal, travou um forte
debate que opôs "gaullistas" e "atlantistas", a propósito da crise dos mísseis
de Cuba, evidenciando a perda de coesão quanto à política externa. Ademais, a
crise decorrente da acusação governamental de traição contra o semanário Der
Spiegel, em outubro desse ano, por motivo de um artigo sobre a incapacidade de
defesa da Alemanha no caso de ataque pelo Pacto de Varsóvia, quase levou à
dissolução da coligação governamental e acarretou a queda do ministro da
Defesa, Franz-Josef Strauss, pivô da crise. A percepção de Adenauer de que seu
governo estaria correndo o risco de terminar afinal veio a ser confirmada
(cerca de um ano mais tarde Adenauer se retira). Assim, o chanceler acelera o
movimento político internacional, a começar pelo tratado com a França.
Firma-se assim o bilateralismo franco-alemão como peça-chave da política
europeia, que de certa maneira contornava a ideia de Charles de Gaulle de
somente apoiar uma "Europa das pátrias", frase sibilina lançada pelo presidente
francês em entrevista em 15 de maio de 1962, manifestando sua resistência à
crescente tendência europeizante das políticas, notadamente da externa.
Adenauer tencionava também deixar para seus sucessores uma plataforma de íntima
vinculação com a França, imune o quanto possível às eventuais incertezas
futuras na política de seu país ou das grandes potências, cujo risco de
confronto era percebido como agudo. O bilateralismo franco-alemão era também
uma alternativa europeia plausível ao sobrepeso transatlântico dos Estados
Unidos e a seu posto avançado na Europa: a Grã-Bretanha.
A minuta do tratado foi redigida e negociada em tempo recorde e assinada
solenemente na sede da presidência francesa, o Palácio do Eliseu, em Paris, em
22 de janeiro de 1963. O Tratado do Eliseu é, indiscutivelmente, a obra-prima
de política europeia e internacional de Adenauer: no âmbito da política externa
multilateral da Alemanha Federal, a dupla franco-alemã representa um pilar
original, cuja peculiaridade o coloca fora e acima da categoria clássica dos
tratados bilaterais.2
A celebração do tratado se dá no mesmo momento em que de Gaulle se opõe
tenazmente a que as Comunidades Europeias admitam a Grã-Bretanha. A dupla
Paris-Bonn é assim objeto de críticas tanto pela oposição social-democrata
alemã quanto pelo governo estadunidense de John F. Kennedy. Ambos receavam que
a Alemanha se filiasse à política externa francesa de resistência aos ingleses,
o que colocaria em risco a coesão da aliança da Otan e poderia ensejar o
isolamento da Grã-Bretanha.
O sucesso do tratado de 1963 não deixa margem a dúvida, mas a classe política
alemã sentiu o ambiente indeciso dos parceiros atlânticos, notadamente os
Estados Unidos ' a cuja política e a cujo apoio se devia substancial parte do
soerguimento alemão. Jean Monnet, federalista europeu de profunda convicção (e
nisso em oposição a de Gaulle), queria a todo preço evitar tal risco de
afastamento da aliança atlântica e logrou ser escutado no Parlamento Federal
alemão. Com efeito, a lei alemã de ratificação do tratado, em maio de 1963,
antepôs-lhe um preâmbulo, no qual se reafirma o engajamento da Alemanha Federal
nas estreitas relações de cooperação política, econômica e de defesa com os
Estados Unidos, com a Grã-Bretanha e com a Otan, bem assim o engajamento com o
objetivo vital da reunificação alemã. Essa providência estabeleceu uma forma de
equilíbrio entre atlantistas e francófilos na política externa alemã e
sinalizou a recusa da Alemanha de um novo tipo de isolamento (o de uma Europa
que voltasse às costas a seu principal avalista, os Estados Unidos). Obviamente
de Gaulle, embora não o pudesse evitar, deixou entrever seu desagrado por não
conseguir manter intocado seu "grande desígnio" para a liderança francesa.3
Institucionalização das relações bilaterais
Logo após a formalização do Tratado do Eliseu, as relações entre França e
Alemanha não passaram por nenhuma mudança notável: a amizade de fundo não
suprimiu as diferenças na análise de conjuntura. Além da questão atlântica, as
percepções dos dois governos também divergiam quanto à ameaça soviética. A
França olhava a União Soviética com certa mansidão autossuficiente e
intelectualizada. Em sua política interna, um partido comunista forte (com
cerca de 20% do eleitorado nas décadas de 1960 e 1970) hipotecava '
negativamente, é certo ' o modus operandi da política externa francesa quanto
ao bloco soviético. A Alemanha Federal via no bloco soviético uma espada de
Dâmocles ameaçadora sobre sua nuca política, territorial e econômica. A fratura
de 1945, acentuada com o muro de 1961, nada lhe fazia pressagiar de bom para o
horizonte alemão. Essa percepção será alterada somente a partir de 1972, com o
advento da Ostpolitik do chanceler social-democrata Willy Brandt, que rompe
pela primeira vez os constrangimentos ideológicos internacionais que mantinham
atada a Alemanha Federal.4 No entanto, os mecanismos de consulta e de
coordenação política, administrativa e econômica se instalam e as "cimeiras
franco-alemãs" gradualmente se tornam rotina e servem mesmo de modelo
organizacional para os encontros de alto nível dos chefes de Estado e de
Governo das Comunidades.
Essas cimeiras entre o presidente francês e o chanceler federal alemão ocorrem
ininterruptamente desde 1963, a cada semestre. Os respectivos ministros das
Relações Exteriores e da Defesa reúnem-se a cada três meses, secretários de
Estado e diretores de departamentos diplomáticos encontram-se mesmo
mensalmente. Um tal ritmo, há meio século, não poderia ter deixado de conformar
e consolidar uma cooperação exemplar ' malgrado arrufos eventuais. A dimensão
social e cultural não foi deixada de lado: educação e juventude são previstas
como questões estratégicas. Em consequência, surge já em 1964 a Agência Franco-
Alemã para a Juventude5, dentre outras entidades bilaterais que se vão
constituindo. O Tratado do Eliseu sofreu apenas uma única alteração, em 22 de
janeiro de 1988, sob a forma de protocolos adicionais que instituíram novas
rotinas de encontros regulares entre as instâncias administrativas
governamentais. Foram criados um conselho permanente de segurança e defesa, um
conselho franco-alemão de economia e finanças e um conselho franco-alemão de
cultura. Percebe-se que a formatação do modo de cooperação entre França e
Alemanha Federal estabelece referências operacionais que a arquitetura
institucional da União Europeia, em grau certamente maior de complexidade,
assumiu.
Essa cooperação tinha três objetivos estratégicos marcantes:
• A construção de posições comuns em questões de política externa,
no âmbito das Comunidades Europeias, da Otan e das demais
instituições multilaterais, com o fito de adotar postura unificada
nas negociações das respectivas instâncias decisórias.
• A coordenação das políticas de defesa e de equipamento militar,
para adotar estratégias e táticas comuns e para promover integração e
intercâmbio de pessoal militar (criação de uma brigada mista franco-
alemã6 como elemento nuclear de uma futura força armada europeia7).
• A cooperação intensa em questões de educação e juventude. Essa
cooperação era percebida como urgente, a partir da experiência
histórica comum. Um intercâmbio regular de alunos, estudantes,
estagiários, professores, operários, etc. contribuiria para vencer as
desconfianças mútuas entre os vizinhos. Além do intercâmbio social,
as cláusulas estipularam também o fomento do ensino de línguas, o
reconhecimento mútuo dos diplomas universitários e a cooperação em
pesquisa econômica.
Tais eixos de integração bilateral articulam os campos mesmos em que se dá a
formação das políticas europeias, por complexa, lenta e gradual que tenha sido
e ainda seja. Uma parte nada negligenciável do acquis communautaire, do tesouro
de valores, normas e práticas da União Europeia, decorre do bilateralismo
franco-alemão e da integração pioneira do Benelux, na qual a Bélgica, a Holanda
e o Luxemburgo demonstraram o quanto a união faz a força.
Como na Europa: o Tratado do Eliseu e o sucesso por etapas
A agenda das relações entre a Europa e os Estados Unidos modificou-se na medida
em que as Comunidades registraram crescimento econômico e prosperidade. Com o
fim dos "trinta gloriosos", em meados dos anos 1970, a contar da primeira
grande crise do petróleo (1973), essa agenda ganha nítidos contornos de
política econômica internacional. A institucionalização da cooperação econômica
franco-alemã, no quadro de uma política monetária comum, do sistema monetário
europeu (SME) e do Conselho Franco-Alemão de Economia e Finanças, com o
crescente entrelaçamento dos capitais industriais, confere uma força nova à
posição negocial europeia perante os Estados Unidos, reforçando assim o modelo
franco-alemão de cooperação quanto à sua eficácia no plano da política externa.
É fato que sempre subsistem modulações, ênfases diferenciadas na política
europeia, por parte dos dois parceiros. No entanto, a cooperação entre França e
Alemanha (sobretudo depois do ingresso da Grã-Bretanha) manteve sua marca na
marcha das Comunidades. Um exemplo notável é o Ato Único Europeu, de 1986, que
tornou definitiva a criação de um mercado interno único.
Quanto mais longe iam as competências de Bruxelas, tanto mais claros ficavam
seus limites com relação à cooperação franco-alemã. Se esta serviu de
inspiração (de modelo, mesmo), o interesse coletivo das Comunidades (União)
pouco a pouco se sobrepôs ao predomínio ativo de Paris e de Bonn. Tal evolução
não diminuiu, entretanto, o papel exercido pela dupla franco-alemã, plenamente
imbuída de sua "missão" de líder integracionista. Instala-se uma nova dinâmica:
a dupla Paris-Bonn (a partir de 1990: Paris-Berlim) e "os demais" das
Comunidades, entrementes tornados União Europeia. França e Alemanha ainda não
encontraram o tom exato de sua parceria em uma Europa a 27. Numa Europa de 6 a
10, o problema manifestamente não se punha. Na Europa a 15 as questões de
iniciativa, operacionalidade e gestão tornaram-se agudas. A 25 (e,
forçosamente, a 27), a fórmula de rearranjo ainda está sendo buscada, e França-
Alemanha, se continua a aparecer como uma dupla dinâmica, parece dançar com
ritmos diferentes desde o agravamento das crises financeiras de 2008 em diante.
Nas questões de política de segurança e de defesa, a cooperação no âmbito do
Tratado do Eliseu não avançou, até meados da década de 1980. Se não avançou
entre França e Alemanha, tampouco avançou no plano europeu. A política externa
e de segurança comum (Pesc) ainda na década de 2010 encontra dificuldades de
monta para deslanchar. A criação do Alto Representante para a Pesc, em 1999,
emitiu um sinal forte de retomada, mas os avanços ' por mais otimistas que
sejam as manifestações políticas ' são modestos.8 Se o fracasso da Comunidade
Europeia de Defesa, em 1954, não significou o abandono do tema, a questão ficou
relegada ' sob as circunstâncias adversas da Guerra Fria e da corrida nuclear '
a um manifesto segundo plano. A diferença basilar de concepção do papel da Otan
e da atuação dos Estados Unidos na Europa e no mundo, persistente entre França
e Alemanha, impediu que as boas intenções no plano da política externa,
vertentes de defesa e segurança caminhassem no mesmo ritmo. A posição com
relação aos Estados Unidos, antes e depois da queda do Muro de Berlim, marcou
as diferenças de atitude francesa e alemã e, consequentemente, europeia. A
presença da Grã-Bretanha (potência nuclear desde 1957) a partir de 1973 não
modificou sensivelmente essa situação.
A França de Georges Pompidou (1969'1974) depois da abertura a leste promovida
por Willy Brandt via com desconfiança uma eventual aproximação alemã com a
União Soviética, em função da meta da reunificação, devidamente inscrita na Lei
Fundamental de 1949 como um objetivo vital da Alemanha Federal.9 Paris busca
então reforçar a vinculação da Alemanha Federal via Comunidades Europeias. Bonn
procura, por sua vez, levando em conta sua condição de soberania limitada, que
a França incluísse em sua política a leste também os interesses de uma Alemanha
francamente aliada ao Ocidente. A circunstância desses receios ou expectativas
levou a uma gradual intensificação da política de segurança (atuação na
Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, Helsinque, 1973; dupla
resolução da Otan em 1979; cooperação reforçada no âmbito da União da Europa
Ocidental, nos anos 1980, de modo a ativar a cooperação política europeia), que
conduz aos protocolos adicionais de 1988 e à criação do Conselho Franco-Alemão
de Defesa e Segurança. O paralelismo com as iniciativas comunitárias é patente.
A parceria franco-alemã e o papel por ela desempenhado no concerto europeu
possuem primordialmente razões específicas de política externa e de política de
poder. Não se pode ignorar, contudo, que essa parceria se revestiu, na maior
parte do tempo, das personalidades dos respectivos chefes de Estado e de
Governo, cuja sintonia contribui para a eficiência das consultas e das
decisões.
Para além dos pertencimentos político-partidários, o diálogo dos dirigentes foi
fundamental. Não se trata de lançar mão de uma explicação psicologista, mas de
reconhecer o caráter crescentemente supradoméstico do entendimento entre os
governantes. De Gaulle e Adenauer, ambos homens do fim do século 19 e início do
século 20, formados sob a influência da democracia cristã, sabem que não há
futuro para a Europa sem a reconciliação franco-alemã. Entre Georges Pompidou e
os dirigentes alemães, em especial Willy Brandt, entre 1969 e 1973, a sintonia
é menor, reduzida ao estrito necessário, embora sem ruptura. Com Giscard
d'Estaing (1974'1981) e Helmut Schmidt (1972'1982), a harmonia é forte e ajuda
os respectivos países, como a Europa, a enfrentar as crises econômicas e
políticas, como a do petróleo e a do terrorismo. Entre François Mitterrand
(1981'1995) e Helmut Kohl (1982'1998), embora pertencentes a tradições
políticas tradicionalmente opostas, a interação é clara, eficiente e mesmo
surpreendente. Essa sintonia foi fundamental para fazer avançar a União
Europeia e para coroar a unificação alemã em 1990. O apoio de ambos foi
decisivo para o grande sucesso organizacional da União na presidência do
francês Jacques Delors (1985'1995) na Comissão Europeia. O mesmo não pode ser
dito da relação entre Jacques Chirac (1995'2007) e Gerhard Schröder
(1998'2005), com os sinais políticos trocados. Como no caso de Willy Brandt,
Schröder manteve a relação com a França em fogo brando, do que decorreu certa
perda de ritmo nos processos europeus.
Com efeito, a influência franco-alemã, pelo enfraquecimento de sua coesão e
pela diluição da constelação de poder no seio da União Europeia (tanto na
Convenção para um tratado constitucional quanto no forte alargamento de 2004),
recuou fortemente. O fato de ter havido uma longa coabitação política na
França, entre 1997 e 2002, com o governo de maioria socialista de Lionel
Jospin, certamente contribui para uma diminuição do ritmo. Poder-se-ia pensar
que ocorreria uma sintonia eventualmente maior com os social-democratas
alemães, mas não foi o caso. A dupla Nicolas Sarkozy (2007'2012) e Angela
Merkel (desde 2005) somente começou a apresentar maior convergência quando a
crise do euro se agravou. É interessante notar que nenhuma outra "dupla" de
dirigentes europeus se destacou na mesma medida dos governantes franceses e
alemães. No período pós-queda do Muro de Berlim, nota-se que são amiúde
dirigentes europeus oriundos dos países pequenos da União que assumem cargos de
importância vital em Bruxelas (Luxemburgo, Bélgica, Portugal).
Não é apenas na integração no plano dos mais altos dirigentes e da burocracia
ministerial que a conexão Paris-Berlim (e, com isso, a galáxia Europa) funciona
e impulsiona. A cooperação desce, mesmo se nem sempre percebida com clareza,
até o quotidiano da sociedade. Há intercâmbios entre municípios, associações
profissionais, alunos de escolas, estudantes universitários, trabalhadores do
comércio e da indústria. A parceria entre cidades tem se mostrado especialmente
eficaz para o aumento do conhecimento mútuo e a eventual superação dos
preconceitos e estereótipos por tanto tempo alimentados na história europeia.10
O cerne do Tratado do Eliseu não se restringe, por conseguinte, à cooperação
formal intergovernamental. O engajamento da sociedade civil, com a
incomensurável diversidade de suas redes, ganhou mais peso desde o início do
processo de reconciliação entre os dois países. Esse processo tem resultados
sociais e culturais de grande valor, pois a consideração mútua dos cidadãos de
um e de outro lado do Reno é alta. Os levantamentos de opinião situam a "boa
imagem" das relações franco-alemãs acima de 80% nas duas sociedades (sem
alteração notável desde a reunificação em 199011), percebidas como importantes,
essenciais mesmo para o processo europeu de integração.
Mudanças desde a reunificação
O fim do conflito leste-oeste acarreta obviamente uma modificação importante
nas relações franco-alemãs. Não se poderia falar em cesura, como o fizeram
alguns comentaristas à época, mas certamente um marco evolutivo de grande
alcance sob o signo da perseverança e da continuidade.12 A reunificação alemã
decorre de uma alteração notável da cena internacional, com a União Soviética
em seus estertores agônicos e o sistema da Guerra Fria a esvair-se. Tornada
viável pelo Tratado Dois Mais Quatro, de setembro de 1990, a reunificação de
certa maneira desbanca França e Grã-Bretanha do envelhecido pedestal de
"potências vencedoras da 2ª Guerra Mundial". Nesse tratado joga-se a última pá
de cal sobre a ordem do imediato pós-guerra na Europa. O esfacelamento
subsequente da URSS e a liberdade política e econômica recobrada de inúmeros
países do centro e do leste europeus na década seguinte arrematam essa
extraordinária virada. Nenhum político ou analista adiantara tal previsão
quando da ascensão de Mikhail Gorbachev ao poder, em 1985.
A correlação geopolítica de poder da dupla França-Alemanha obviamente alterou-
se. Como modificada foi a posição relativa da União Europeia no mundo
reordenado, ou como de início se pensou, desordenado. Nessa dupla, a Alemanha
foi durante longas décadas linha auxiliar da política externa "grandiosa" ("de
la grandeur de la France", expressão cara a de Gaulle e nada estranha a seus
sucessores). Efetivada a reunificação, a Alemanha tornou-se o estado-membro da
União com o maior território, com a maior população e com a maior economia. Um
redimensionamento tanto do bilateralismo franco-alemão quanto do peso relativo
da Alemanha na equação europeia tornou-se, por sua vez, inevitável. O
alargamento a leste da União colocou a Alemanha política e geograficamente no
centro do sistema. O oeste em que a França foi central durante meio século
evoluiu para uma posição menos decisiva. O que antes era "Europa Ocidental" é
doravante, "simplesmente", "Europa". A nova constelação europeia conferiu à
Alemanha uma agência até então menos destacada. A França ' em parte também em
decorrência de suas incoerências políticas internas, pontuadas de fraturas
parcialmente ideológicas em boa parte anacrônicas (oposição entre "socialismo"
e "conservadorismo" e entre "nacionalismo" e "entreguismo", dentre outras) ' vê
diminuir sua influência. A adesão incondicional da Alemanha ao programa e a
seus compromissos com e na União Europeia levou-a a atuar com particular
prudência, poupando a hipersensibilidade política francesa e respeitando o
caráter comunitário da arquitetura europeia. Ao longo de duas décadas, percebe-
se que a Alemanha continua a manter posições firmes, notadamente em termos de
política econômica, monetária e financeira, de disciplina orçamentária e de
engajamento europeu. Pode-se dizer que a Alemanha da década de 2010 é talvez a
campeã do europeísmo, malgrado a tradição francesa de Jean Monnet e Robert
Schuman.
Para não colocar em risco uma parceria tão bem-sucedida, na década de 1990,
Berlim e Paris apostaram em mais Europa. O Tratado de Maastricht, em 1992,
firmou a institucionalização da União Europeia, a criação da união econômica e
monetária e a introdução da moeda única. O euro é um projeto franco-alemão,
tornado viável nas condições da parceria redimensionada ao longo do período
1990'2000. A tática de política "externa" na política "interna" europeia das
décadas de 1990'2000 foi uma nova utilização de uma estratégia aplicada, nos
anos 1950, à novel República Federal da Alemanha: a da inclusão, do
enquadramento de perto. Assim como em seu nascedouro, a Alemanha foi vinculada
às alianças ocidentais na forma da Otan e das Comunidades Europeias, ora se
atrela a Alemanha unificada ainda mais à União Europeia e a sua rede de
alianças. A profissão de fé europeia da Alemanha foi sem falhas: o marco
alemão, moeda de referência no continente e no mundo, instrumento de política
econômica internacional, foi sacrificado e incorporado ao euro. A cooperação
com a França, malgrado certas passagens a frio conforme os dirigentes nos
cargos, é preservada e segue um fator decisivo no sistema motriz da União.
A moeda única, mesmo em se tratando de uma construção ciclópica e ousada, não
basta para homogeneizar as divergências políticas entre Paris e Berlim. No
plano da política externa europeia, a Alemanha pressionou para o alargamento a
leste e a sudeste ocorrer com rapidez. Certamente a lógica alemã é a mesma que
viu aplicada a si: Europa emoldura, preserva, vincula, faz depender. Com isso o
risco de deriva política dos países anteriormente sob o jugo do regime
soviético desapareceria ou, ao menos, diminuiria sensivelmente. Nesse
particular a Alemanha persevera nos princípios de desanuviamento político
firmados na Ostpolitik de Willy Brandt nos anos 1970.
A França, diversamente, considera prioritária a reforma interna da União, com o
aprofundamento de suas instituições e a revisão de suas regras de
funcionamento, cujas falhas tornavam-se cada vez mais patentes nos anos 1990. A
política algo vetusta de grandeza nacional dos diversos governos franceses
também visava a evitar um crescimento acelerado da influência alemã por si
mesma. Ainda antes da adesão da Suécia, da Finlândia e da Áustria, em 1995, já
se falara em um afrouxamento da relação franco-alemã e de uma diluição da União
pela adesão em massa de países (do leste e do sudeste europeus) "ainda em fase
de reconstituição".13
Com tal cenário político, a cooperação no interior da União Europeia se
caracterizaria ' como efetivamente veio a ocorrer nos últimos 20 anos ' por um
incremento do processo intergovernamental de decisão. Embora o
intergovernamentalismo ainda prevaleça, alemães e franceses têm consciência de
que iniciativas teriam de ser tomadas, em especial quando o alargamento de 2004
e o bloqueio da convenção europeia de 2005 dificultaram o avanço do sistema de
ponderação decisória entre os estados-membros e em nada ajudaram a aumentar o
papel do Parlamento Europeu ou de outras instâncias de representação popular.
As iniciativas franco-alemãs, mesmo se numerosas, começam a perder algum
fôlego. Isso se dá tanto no plano das questões políticas (somente dois países
rejeitaram o projeto de convenção europeia: a França e a Holanda) quanto no da
política econômica e externa. O primeiro-ministro e ministro luxemburguês das
Finanças, Jean-Claude Juncker, europeísta convicto e reconhecido, exprime sem
muita hesitação certa fadiga com relação à dupla franco-alemã, percebida por
vezes como hiperativa.14
Desde o Tratado de Maastricht (1992) o dinamismo da dupla franco-alemã diminuiu
o ritmo. Uma divergência importante surgiu na cimeira de Nice, em 2000, a
propósito da redistribuição dos assentos no Conselho de Ministros da União. A
França recusou-se terminantemente a admitir que a Alemanha obtivesse um peso
maior, mesmo se meramente simbólico, em consequência de seu maior número de
cidadãos. A posição francesa, marcada por uma atitude conservadora, considerava
que a paridade absoluta até então vigente seria o penhor de um sucesso de mais
40 anos, que poderia ficar comprometido. Como de costume, as negociações
levaram a compromissos que mantiveram abertas as possibilidades da União,
embora aquém do que teria sido necessário para prevenir as dificuldades
operacionais previsíveis no futuro imediato, pois para o fim de 2002 ficou
marcada a rodada de adesões que se torna efetiva, afinal, em 2004.
O Tratado de Nice introduziu modificações nos seguintes campos:
• Alargamento: a União programa a admissão de novos estados-membros
a partir do final de 2002, atendidos os requisitos para a adesão.
• Decisões por maioria no Conselho de Ministros da União: cerca de
40 artigos do Tratado da União Europeia são modificados. A
unanimidade continua exigida para questões cruciais como tributação.
Política externa, de segurança e de defesa continua entravada; será
necessário esperar o Tratado de Lisboa, em 2009.
• Ponderação dos votos: Alemanha, França, Itália e Grã-Bretanha
pesam 29 cada. A Espanha 27 (mesmo peso previsto para a candidata
Polônia).
• Comissão Europeia: com a adesão programada de mais 12 membros, a
Comissão passará a ser composta por apenas um comissário por país.
Acima de 27 estados-membros, será necessária uma revisão. Reforça-se
o poder do Presidente da Comissão.
• Fomento da cooperação: instituiu-se procedimento simplificado para
a formação de grupos de estados-membros para a cooperação em campos
específicos. É o caso do Grupo do Euro, menor do que o pleno da
União. Também quanto a esse aspecto precisou-se do Tratado de 2009.
• Desdobramentos após a cimeira de Nice: com a adesão prevista,
programa-se para 2004 uma conferência dos chefes de Estado e de
Governo sobre a partilha de direitos e deveres entre a União e os
estados-membros.
• Carta dos direitos fundamentais dos cidadãos da União: sem
vincular juridicamente os estados-membros, pois revestida de caráter
declaratório, é projetada como fundamento da futura constituição
europeia, a ser elaborada pela Convenção convocada para 2002.
• Alguns outros tópicos conjunturais foram também ressaltados:
combate à epidemia da "vaca louca" (sobretudo por causa dos custos
financeiros); modernização do "modelo europeu de estado de bem-estar
social" (também com vistas ao elevado custo financeiro que já se vê
pesar nos orçamentos nacionais); indicação de uma política militar
comum (timidamente, por haver a Grã-Bretanha vetado qualquer menção
que pudesse ser interpretada como debilitação da Otan).
A França conseguiu, ao final das contas, ganho de causa, com a manutenção da
paridade com a Alemanha. O preço foi alto e é pago ainda até os dias de hoje. A
prevalência da paridade, combinada com a unanimidade para determinados temas
(mesmo que se tenha flexibilizado outros), plantou o germe dos obstáculos
decisórios que atingiram o desenvolvimento da política externa e de segurança
comum, dentre outras políticas. Paridade e unanimidade possuem forte valor
simbólico (de interesse igualmente da Grã-Bretanha), inclusive para a constante
ação da dupla franco-alemã, ao menos desde a perspectiva nacional
autossuficiente de Paris, que não vê com entusiasmo algum o crescimento de
Berlim ' malgrado a retórica oposta. A insistência francesa nesse binômio tem
igualmente fundamento em uma concepção divergente da alemã quanto ao formato
final a ser adotado pela União Europeia. Com efeito, Berlim contempla a União
Europeia desde uma perspectiva federal (o sucesso organizacional, político,
econômico e financeiro da República Federal da Alemanha certamente sustenta tal
posição). A França, numa sobrevivência política surpreendentemente longeva do
gaullismo político, insiste na tradição do estado-nação homogêneo e
centralizado. Com isso, as instituições europeias seriam meras delegadas de
seus membros, estados-nações, uma "Europe des patries", pois uma "nação
europeia" não existiria. Embora as decisões de fato adotadas ao longo do
processo europeu não reforcem a posição francesa, ela continua presente, ao
menos no discurso político de seus dirigentes e, em parte, na atuação de Paris
nos grêmios europeus.15
Perspectivas para além do cinquentenário
Malgrado os avanços notáveis da União, notadamente com a recuperação negociada
de parte do Tratado Constitucional de 2004, na forma do Tratado de Lisboa, de
1º de dezembro de 2009, as parcerias entre estados-membros seguem relevantes. A
mais antiga é certamente a franco-alemã. Desde 2008 acentuaram-se nessa
parceira os sinais conflitantes, conquanto não impedientes, próprios ao seu
longo itinerário. De um lado, permanecem as concepções divergentes quanto ao
formato final da União Europeia. De outro, como assinalado por Jean-Louis
Juncker, certo ativismo "monodirecional", concentrado na crise persistente dos
estados-membros com sérios problemas de endividamento público e de orçamento,
que abala o euro.
Um cenário possível, para além dos 50 anos de um tratado do qual, seguramente,
não há volta é o reforço do intergovernamentalismo (com suas óbvias
consequências nocivas para o aprofundamento institucional europeu). Uma
paridade mantida, mesmo de forma mitigada, em uma Europa altamente
diversificada, pode acarretar ' como parece ser o caso em 2012 ' uma fronda dos
pequenos e médios estados contra a hegemonia franco-alemã. De outro lado, a
manifesta hostilidade do governo francês sob François Hollande às iniciativas
franco-alemãs de 2011 e do primeiro quadrimestre de 2012 contribuem para um
'estranhamento' entre Paris e Berlim. Desse "estranhamento" se aproveita a Grã-
Bretanha, cujo curso para-europeu, sob governo trabalhista ou conservador,
continua a destoar no concerto da União. A recusa britânica de subscrever o
Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança é mais um episódio nessa
longa história de exceções.
De toda maneira, o consenso franco-alemão, tal como definido no Tratado do
Eliseu, se encontra em dificuldades nos anos 2010, não perde por isso sua
característica de "pauta" da União Europeia em sua evolução até o presente. No
início dos anos 2000, a consciência de que era necessária uma nova dinâmica
para essa dupla, como para a Europa mesma, era clara ao então presidente
francês Jacques Chirac (1995'2007) como ao então chanceler federal Gerhard
Schröder (1998'2005). Uma refundação das relações franco-alemãs, como da União
Europeia, parece ser uma exigência dos tempos ' ao menos consta da Agenda
Franco-Alemã 2020, estabelecida como programa de ação do Conselho Franco-Alemão
de Ministros, por Nicolas Sarkozy e Angela Merkel, em 4 de fevereiro de 2010. A
Agenda cobre seis campos de ação: (1) economia, finanças, emprego; (2) energia,
clima, diversidade biológica; (3) crescimento, inovação, pesquisa, educação,
universidade; (4) política externa, de defesa e de segurança; (5) proximidade
com os cidadãos; (6) moldura institucional.
A correlação entre a parceria franco-alemã e a organização da Europa ' ao menos
na convicção de Paris e Berlim ' fica patente, como se pode ler no preâmbulo da
agenda 2020:
Desejamos uma Europa que atue com ambição e determinação, no respeito
das diferenças entre os estados-membros e na observância do princípio
de subsidiaridade. Para alcançar tal objetivo, estamos decididos a
fazer o que for necessário para extrair o máximo do potencial das
instituições reformadas pelo Tratado de Lisboa, tornando a União
Europeia ainda mais atuante, cuja voz seja ouvida mundo afora. Agora,
que o debate sobre as instituições europeias já passou, queremos que
a Europa empenhe toda a sua força e toda a sua ação em benefício de
seus cidadãos e de suas empresas, preservando o meio ambiente como
nosso patrimônio comum. Precisamos fazer tudo o que for necessário
para promover um crescimento forte e sustentável na Europa e
possibilitar que a União saia da crise atual fortalecida, de modo que
o modelo europeu da economia social de mercado se mantenha. Para tal
fim, a Europa deve adotar ainda este ano [2010] uma nova estratégica
econômica para a próxima década, na qual sejam definidas metas
ambiciosas para 2020 e viabilizada uma coordenação bem-sucedida da
economia nos próximos meses e anos. A Europa precisa reforçar e
modernizar sua política, ganhar novos impulsos, de forma a garantir a
segurança energética, combater o aquecimento global, regular os
fluxos migratórios e desenvolver metas ambiciosas comuns para o
espaço global.16
A Europa assim almejada é uma realidade aberta, cuja identidade coletiva ainda
anda trôpega, hesitante entre o intergovernamentalismo persistente e a,
aparentemente inevitável, federalização para além dos Estados e de suas
histórias. A Europa, ao praticar uma política externa comum, inspira-se das
políticas "internas" (que um dia foram externas), e espera dela um efeito
agregador ad intra, por contraste com a conjuntura global, nomeadamente a não
europeia.
À maneira da parceria franco-alemã, cuja relevância histórica no processo de
integração não deixa margem a dúvida, a União Europeia precisa ainda integrar
as dimensões nacionais e infranacionais em uma equação supranacional, em que as
diversas não se diluam nem se transformem em obstáculo à coordenação e à
governança comunitária. Sistema de governo, tipo das relações institucionais na
União, consciência e cultura europeia, homogeneização crescente da estrutura
normativa (em especial em matéria financeira e orçamentária), equalização das
assimetrias econômicas e educacionais, segurança e defesa, harmonização da ação
externa (para além das intervenções pontuais em questões humanitárias e de
preservação da paz) ' tantos e mais pontos que desafiam as parcerias dentro e
fora da União.
Parcerias análogas à franco-alemã não surgiram, até hoje, no âmbito da União
Europeia. Parcerias de outra natureza existem, como a do Benelux. Parcerias ad
hoc pertencem mesmo à natureza das constelações mutantes de interesses
localizados, como no triste exemplo do precipitado e irrefletido apoio à
operação de guerra dos Estados Unidos, no governo George W. Bush, contra o
Iraque.
A complexa amplitude de negociação da União, cuja perseverança tem dado sobejas
mostras de êxito, conduziu ao Tratado de Lisboa, em 2009, como um notável
desempenho de recuperação dos percalços dos quatro a cinco anos anteriores.
Nesse tratado, que renova, reestrutura e consolida o longo itinerário até
então, a política externa e de segurança comum ganha afinal posição
sistematizada e de destaque, mesmo se não desabrochou muito além do espaço
nobre que recebeu nos tratados.
As Tabelas_1 e 2 a seguir reúnem excertos dos tratados, protocolos e
declarações mais recentes, trazidos para ilustrar, nos textos em vigor, as duas
reflexões aqui apresentadas. A primeira reflexão, e mais ampla, diz respeito ao
caráter exemplar da parceria franco-alemã, no que inspirou a União. As
passagens a ela remetentes estão marcadas em itálico. A segunda reflexão,
acessória, indica os numerosos e persistentes entraves que se impõem à política
externa e de segurança comum. Os trechos quanto a esse ponto estão em negrito.

[/img/revistas/rbpi/v56n1/a04tab02.jpg]
Tem-se na comemoração dos 50 anos do Tratado do Eliseu uma nova fase na
parceria franco-alemã e na evolução da União Europeia. Em uma constelação de 27
sócios, o clube europeu continua à busca de estabelecer padrões de elaboração,
implantação e aprofundamento de políticas comuns que vão além dos campos
tradicionais da economia, da aduana e do comércio. O bilateralismo complementar
entre Paris e Berlim firmou um entendimento baseado em uma experiência
globalmente bem-sucedida. A expectativa de formação de outros possíveis
bilateralismos no seio da União Europeia, em subsistemas de cooperação
setorial, é um fruto direto dessa experiência. Falta-lhe ainda a efetivação,
embora esboços estejam a se delinear. No plano da política externa, as
circunstâncias do mundo contemporâneo ainda não permitiram ir além,
concretamente, das questões humanitárias (para as intervenções atuais) e da
pacificação nos Bálcãs (uma ameaça anteporta no final dos anos 1990 e nos anos
2000). Os tratados refletem essa ambiguidade: uma posição de destaque para a
política externa e de segurança comum (no início do tratado) e uma superposição
institucional, malgrado a posição de relevo atribuída ao Alto Representante,
como vice-presidente nato da Comissão (Art. 18, §4, do TUE). É de se imaginar
que somente a prática dirá, ao longo da proverbial perseverança europeia, como
essa equação se resolverá.
1 Um excelente balanço das posições positivas (força motriz) e das posições
negativas (força de bloqueio) pode ser lido em Siedentopf, Heinrich; Speer,
Benedikt (orgs.). Deutschland und Frankreich in der europåischen Integration:
'Motor' oder 'Blockierer'? / L'Allemagne et la France dans l'intégration
européenne: 'moteur' ou 'frein'? Berlim: Duncker & Humblot, 2011. O balanço conclui pela exemplaridade e incontornabilidade da parceria
franco-alemã no processo europeu, ad intra e ad extra.
2 Adolf Kimmel/Pierre Jardin (orgs.). Die deutsch-französischen Beziehungen
seit 1963. Eine Dokumentation (Frankreich-Studien, vol. 6). Opladen: Leske +
Budrich, 2002.
3 A França domina a tecnologia nuclear ofensiva desde 1960. A "força de
dissuasão", eufemismo de caráter defensivo, constitui um trunfo estratégico que
nutre a sensação de "potência restabelecida" do governo francês.
4 Ver Peter Bender. Die Ostpolitik Willy Brandts oder die Kunst des
Selbstverstådlichen. Stuttgart: Rowohlt, 1984, 2a. ed.
5 Deutsch-Französisches Jugendwerk/Office Franco-Allemand de la Jeunesse
(<http://www.dfjw.org>).
6 Formalmente criada na cimeira de Karlsruhe, em 1987, no primeiro mandato de
François Mitterrand na presidência francesa.
7 O Eurocorps foi criado por decisão de François Mitterrand e Helmut Kohl por
ocasião da cimeira de La Rochelle, em 1992.
8 Ver Estevão C. de Rezende Martins. Parcerias Almejadas. Política externa,
segurança, defesa e história na Europa. Belo Horizonte: Fino Traço, 2012.
Coleção Relações Internacionais ' Série Parcerias Estratégicas com o Brasil.
9 Tenha-se presente que a República Federal da Alemanha se entendia como um
provisorium, até a almejada reunificação. Assim, o preâmbulo da Lei Fundamental
(promulgada em 23 de maio de 1949) afirma que a Alemanha Federal age também em
nome dos demais alemães que não puderam participar do processo decisório de
então e que o objetivo de todo o povo alemão é decidir livremente da unidade e
da liberdade da Alemanha (http://www.documentarchiv.de/brd/1949/
grundgesetz.html).
10 A relevância da geminação entre cidades é uma questão pacífica no âmbito
europeu. A título de exemplo de sua importância, pode-se mencionar a questão do
deputado europeu alemão Michael Gahler, em 1999, à Comissão, sobre os meios de
apoio financeiro ao desenvolvimento das parcerias. A resposta da comissária
Viviane Reding reforça o reconhecimento dessa importância (Pergunta escrita E-
1979/1999). Em 2012, funcionam mais de 2.200 parcerias entre cidades e
coletividades locais francesas e alemãs (que correspondem a 37% de todas as
parcerias do tipo, na Europa inteira. Ver Infobrief/La lettre d'information
DFJW/OFAJ, 1.2012, p. 16).
11 Ver, por exemplo, as referências do jornal Frankfurter Rundschau em 22 de
setembro de 2012 (<http://www.fr-online.de/politik/50-jahre-deutsch-
franzoesische-freundschaft-freunde-und-partner, 1472596,17890286.html>).
12 Ver, por exemplo, o comentário do deputado europeu francês Jean-Louis
Bourlanges, no semanário alemão Die Zeit (25 de março de 1994: <http://
www.zeit.de/1994/13/neue-visionen-suchen>).
13 A agência europeia de estatística (Eurobarometer) publica regularmente
enquetes de opinião acerca das inúmeras variáveis de satisfação social na União
(tanto interna quanto europeiamente); a mais recente é de julho de 2012: <http:
//ec.europa.eu/public_opinion/archives/eb/eb77/eb77_first_en.pdf>, na qual se
visualiza (para os últimos dez anos, aproximadamente) a evolução do "estado de
espírito" dos cidadãos ' que acompanha de perto os cenários de euforia ou de
crise.
14 Le Monde, 12 de outubro de 2011. Le chef de file des ministres des finances
de la zone euro, le Luxembourgeois Jean-Claude Juncker, critique la
multiplication des initiatives bilatérales de la France et de l'Allemagne.
" Tout ce que décident la France et l'Allemagne ne devient pas
automatiquement une décision de l'Union européenne, dit M. Juncker au quotidien
allemand Handelsblatt. Si vous regardez les douze derniers mois, environ 70%
des propositions franco-allemandes n'ont pas abouti à une décision. " Ses
propos, recueillis lundi par le journal, interviennent après une rencontre
entre le président français Nicolas Sarkozy et la chancelière Angela Merkel à
Berlin dimanche, au terme de laquelle les deux dirigeants ont convenu de faire
des propositions dans les semaines à venir, notamment sur la recapitalisation
des banques. Ce n'est pas la première fois que M. Juncker s'irrite des
initiatives du tandem franco-allemand, qui a pris pour habitude ces derniers
mois de faire des annonces bilatérales en matière de lutte contre la crise de
la dette en zone euro. Le gouvernement économique de la zone euro, tel que les
pays membres de l'Union monétaire se sont engagés à le mettre en œuvre,
" ne doit pas être un commando franco-allemand ", poursuit M.
Juncker. " L'expérience montre que cela sera principalement un commando
français ", a-t-il ajouté, " mais coordination de la politique
économique ne peut pas vouloir dire : j'atterris à Paris et je roule à
l'aveuglette derrière une voiture marquée 'follow me' [suivez-moi] ".
(<http://www.lemonde.fr/europe/article/2011/10/12>).
15 O novo presidente francês, François Hollande, ainda candidato, perguntado a
propósito do reforço das instituições europeias, declarou ao semanário Le
nouvel Observateur, em 16 de abril de 2012: "...Tout cela devra être engagé en
renforçant les contrôles démocratiques sur les décisions européennes. [...]
J'ai une ambition ardente pour l'Europe : renouer la confiance avec les
peuples." [grifo meu] <http://tempsreel.nouvelobs.com/election-presidentielle-
2012/20120416.OBS6301/politique-etrangere-ce-qu-en-dit-francois-hollande.html>.
Ainda não há sinais claros, desde que assumiu a presidência, da direção que o
governo francês tomará, uma vez que a crise financeira e orçamentária continua
a absorver todos os esforços, em torno do Tratado de Estabilidade, Coordenação
e Governança (TECG), de 2 de março de 2012, em fase de ratificação por 25 dos
27 estados-membros (não o firmaram a Grã-Bretanha e a República Tcheca).
16 Ver <http://www.bundesregierung.de/Content/DE/Artikel/2010/02/2010-02-04-
deutsch-franzoesische-agenda-2020.html>.
17Edição oficial em língua portuguesa, disponível em http://bookshop.europa.eu/
is-bin/INTERSHOP.enfinity/WFS/EU-Bookshop-Site/pt_PT/-/EUR/ViewPublication-
Start?PublicationKey=QC3209190.