Dissuasão, redução de armas nucleares e defesas antimísseis nos governos Bush e
Obama
Com o fim da Guerra Fria, os EUA mantiveram um arsenal nuclear substancial para
dissuadir potenciais ameaças da Rússia. Eles não descartaram o primeiro uso de
armas nucleares em conflitos com outros Estados, como aqueles armados com armas
químicas e biológicas. A administração de George W. Bush (2001-2009) enfatizou
que os EUA e a Rússia não eram mais inimigos e que os EUA não mais planejariam
ou dimensionariam sua força nuclear a fim de dissuadir uma ameaça russa. Os EUA
manteriam um arsenal nuclear para responder a capacidades de qualquer
adversário potencial, focando na forma como lutariam em vez de contra quem
lutariam. Ademais, os EUA combinariam as armas nucleares com defesas
antimísseis, armas convencionais e uma infraestrutura responsiva na busca de
oferecer garantias aos aliados norte-americanos, persuadir os adversários dos
EUA a não atacar, dissuadir o conflito e derrotar adversários se o conflito
ocorresse. A administração Bush anunciou que os EUA reduziriam o número de
ogivas nucleares operacionalmente desdobradas, mas que não eliminariam muitos
vetores enquanto reduzissem sua força e manteriam ogivas não desdobradas
armazenadas como uma força responsiva que poderia ser adicionada às forças
desdobradas (Woolf 2006).
O presidente Barack Obama - cuja administração se iniciou em 2009 - deu
destaque, em seu discurso em Praga em abril daquele mesmo ano, à sua estratégia
para o avanço na direção de um mundo livre de armas nucleares. Ele destacou que
colocaria um fim no pensamento da época da Guerra Fria ao reduzir o papel das
armas nucleares na estratégia norte-americana de segurança nacional e renovar
as negociações com a Rússia para mais reduções verificáveis nas reservas dos
dois Estados. Em abril de 2010, a administração Obama completou sua Revisão da
Postura Nuclear - Nuclear Posture Review (NPR) -, que definiu passos para a
redução do papel e do número das armas nucleares norte-americanas e enfatizou
que o papel fundamental das forças nucleares norte-americanas era dissuadir
ataques nucleares contra os EUA e seus aliados e parceiros. No mesmo mês, Obama
e o então presidente russo, Dmitry Medvedev, assinaram o Novo Tratado de
Redução de Armas Estratégicas - Strategic Arms Reduction Treaty (START) -, que
requereu reduções verificáveis das ogivas estratégicas desdobradas dos EUA e da
Rússia ao nível de 1.550 ogivas para cada Estado até 2018. Obama declarou que,
depois do Novo START, sua administração buscaria mais negociações com a Rússia
para a redução de ogivas não desdobradas e ogivas não estratégicas e seus
vetores associados (Drell e Goodby 2012). Entretanto, a assinatura do Novo
START veio acompanhada de um compromisso multibilionário de novos recursos para
a pesquisa, o desenvolvimento e a manutenção de armas nucleares nos EUA (Kramer
2010, 24-25). A administração Obama também viu que as defesas antimísseis
seriam fundamentais na garantia da segurança norte-americana.
O objetivo do artigo é analisar as perspectivas das administrações Bush e Obama
com relação à dissuasão, à redução de armas nucleares e às defesas antimísseis,
examinadas nas seções seguintes respectivamente. Sustento que, ainda que
houvesse diferenças quanto às formas de implementação de decisões, ambas as
administrações reafirmaram o papel fundamental das armas nucleares para a
dissuasão, comprometeram-se com a redução de armas nucleares acompanhada de
iniciativas para modernização e reconheceram a importância de defesas
antimísseis na proteção dos EUA e aliados. Tais perspectivas estão relacionadas
à necessidade contínua de ampliar a flexibilidade para lidar com ameaças
contemporâneas e à manutenção de opções diversificadas para o enfrentamento
desses desafios.
A dissuasão nos governos Bush e Obama
Quando ainda era candidato à presidência da República, George W. Bush dizia que
a administração de Bill Clinton (1993-2001) mantinha-se presa a uma
"mentalidade da Guerra Fria" e que os EUA precisavam combater as novas ameaças
do século 21, de forma que deveriam repensar os requisitos para a dissuasão
nuclear. Nos últimos anos da administração Clinton, o Congresso impediu que o
presidente reduzisse as forças nucleares estratégicas dos EUA abaixo dos níveis
especificados no START I até que o START II, de 1993, entrasse em vigor. O
Senado declarou que o presidente seguinte somente poderia reduzir as forças
norte-americanas depois de conduzir uma nova NPR, que foi enviada como um
relatório confidencial ao Congresso no fim de dezembro de 2001 pela
administração Bush (Woolf 2006, 1-3).
A administração Bush declarou que as forças nucleares continuavam a ter um
papel relevante na defesa dos EUA e de seus aliados e amigos. Elas ofereciam
capacidades plausíveis para dissuadir um amplo conjunto de ameaças, incluindo
armas de destruição em massa e forças militares convencionais de grande escala.
Porém, os EUA não mais planejariam, dimensionariam ou manteriam suas forças
nucleares como se a Rússia fosse uma versão menor da ameaça trazida pela
extinta URSS. A administração Bush reconhecia que, no futuro, os EUA
provavelmente seriam desafiados por adversários que teriam um grande conjunto
de capacidades - até mesmo perspectivas assimétricas de empreendimento da
guerra, como armas de destruição em massa - e poderiam ameaçar os interesses e
os aliados dos EUA, as forças que protegiam os interesses norte-americanos e o
território de tal Estado a fim de chantagear os EUA a abandonarem seus
compromissos ao redor do mundo. A administração Bush enfatizou que as armas
nucleares continuavam a ser as únicas no arsenal dos EUA que poderiam manter
sob risco o amplo conjunto de alvos valorizados por um adversário, de forma que
continuavam a ter um papel fundamental na estratégia de dissuasão dos EUA.
Porém, enfatizou que as armas nucleares, em conjunto com as defesas antimísseis
e outros elementos das capacidades militares dos EUA, não apenas dissuadiriam
adversários, mas garantiriam a aliados e amigos o comprometimento dos EUA com a
sua segurança ao oferecerem uma capacidade dissuasiva estendida; persuadiriam
os adversários potenciais a não desafiarem os EUA com armas nucleares ou outras
ameaças assimétricas; e derrotariam inimigos ao manterem em risco os alvos que
poderiam não ser destruídos por outros tipos de armas (Kristensen 2005; Woolf
2006, 4-9).
Além de ampliar o papel das armas nucleares para além da dissuasão, a
administração Bush alterou o papel da dissuasão na estratégia de segurança
nacional dos EUA. Os EUA poderiam não ser capazes de conter ou dissuadir os
tipos de ameaças que emergiam na contemporaneidade, como as representadas por
Estadospárias ou organizações terroristas armados com armas de destruição em
massa. Assim, os EUA também deveriam estar preparados para realizar a preempção
dessas ameaças ao lançarem ataques contra adversários antes que estes atacassem
os EUA, seus aliados ou seus interesses. Alguns analistas concluíram que a
administração previa o possível uso preemptivo das armas nucleares contra
Estados ou grupos que não necessariamente tivessem suas próprias armas
nucleares. A administração Bush garantia que, apesar de contribuírem para
objetivos distintos, as armas nucleares teriam um papel menor na estratégia de
segurança nacional dos EUA no futuro do que na época da Guerra Fria: os EUA
buscariam dissuadir e derrotar adversários com armas convencionais de precisão,
que poderiam destruir alguns alvos que eram destinados às armas nucleares no
passado, e defesas antimísseis balísticos, que poderiam dissuadir o ataque ao
negar aos adversários a habilidade de ameaçar os alvos norte-americanos com
mísseis balísticos. Alguns especialistas defenderam que um conceito de
segurança nacional que combinasse capacidades nucleares e convencionais
apagaria a distinção entre os dois tipos de armas e assim ampliaria a
probabilidade de uma resposta nuclear. Entretanto, a administração defendia que
a presença de opções nucleares e convencionais reduziria as pressões para o
apelo às armas nucleares ao dar ao presidente opções não nucleares para
garantir a segurança dos EUA (Woolf 2006, 9-11; Yost 2005, 91-93).
Ademais, os EUA não descartaram a possibilidade de primeiro uso das armas
nucleares. Embora eles tivessem afirmado que não atacariam, com armas
nucleares, Estados não nuclearmente armados, sob a maioria das circunstâncias,
eles mantiveram uma política de "ambiguidade estudada" sobre as circunstâncias
sob as quais considerariam a retaliação nuclear e o tipo de resposta que
poderiam utilizar se um Estado atacasse os EUA com armas de destruição em
massa. Na NPR, a administração Bush parecia adotar uma perspectiva mais
explícita que as administrações anteriores quanto ao uso de armas nucleares, ao
reconhecer que os EUA poderiam utilizar armas nucleares em resposta a ataques
empreendidos por Estados que tinham armas químicas, biológicas ou
convencionais. Em 2004 e 2005, foram listadas algumas circunstâncias sob as
quais os EUA poderiam considerar o primeiro uso de armas nucleares: as armas
nucleares poderiam ser utilizadas não apenas em resposta ao uso de armas
nucleares, químicas e biológicas por outros Estados, mas em antecipação a esse
uso para destruir instalações que pudessem armazenar tais armas e demonstrar a
capacidade dos EUA de usar armas nucleares para dissuadir o uso de armas de
destruição em massa por adversários. Contudo, alguns analistas defendiam que os
planos para o possível uso de armas nucleares contra Estados não nuclearmente
armados eram incompatíveis com as garantias negativas de segurança oferecidas
aos Estados não nuclearmente armados sob o Tratado de Não Proliferação de Armas
Nucleares (TNP). A administração Bush apontou tipos de contingências para os
quais acreditava que os EUA deveriam se preparar para lidar fazendo uso de
planos de emprego de armas nucleares. As contingências imediatas incluíam
perigos correntes e bem reconhecidos, como um ataque com armas de destruição em
massa sobre as forças ou os aliados norteamericanos no Oriente Médio ou na
Ásia. As contingências potenciais eram perigos plausíveis, mas não imediatos,
como a emergência de novas coalizões militares adversárias ou a reemergência de
um competidor de capacidades semelhantes, enquanto as contingências inesperadas
eram desafios de segurança não previstos, o que poderia incluir uma mudança
repentina de regime pela qual um arsenal nuclear existente fosse transferido
para o controle de uma liderança hostil ou uma repentina aquisição de armas de
destruição em massa por um adversário. O foco no inesperado destacava a
insistência da administração de que os EUA desenvolveriam e expandiriam suas
capacidades para o "planejamento adaptativo". Cumpre também lembrar que, de
acordo com a administração, o desenvolvimento de novos tipos de armas nucleares
que pudessem derrotar alvos enterrados profundamente e o uso potencial de armas
nucleares em retaliação por ataques não nucleares seriam uma parte dos esforços
dos EUA de persuadir outros Estados a não adquirirem e ameaçarem o uso de armas
químicas, biológicas ou nucleares (Payne 2005, 136-145; Woolf 2006, 12-25; Yost
2005, 93-94).
Em 2008, o então senador e candidato à presidência da República Barack Obama
definiu seus planos de desarmamento caso fosse eleito. Ele afirmou que
estabeleceria uma nova direção na política para armas nucleares e mostraria ao
mundo que os EUA acreditavam no seu compromisso sob o TNP de trabalhar para a
eliminação de todas as armas nucleares. Tendo tornado claro que os EUA não se
desarmariam unilateralmente, ele destacou que os EUA manteriam uma capacidade
nuclear dissuasiva forte, segura e confiável enquanto outros Estados
mantivessem suas armas nucleares. Obama ressaltou que não autorizaria o
desenvolvimento de novas armas nucleares e tornaria o objetivo de eliminação
das armas nucleares ao redor do mundo um elemento central da política nuclear
norte-americana. Obama demonstrou seu compromisso com a perspectiva de
desarmamento total e dissuasão continuada, que se refletiu proeminentemente na
NPR de abril de 2010 e na Estratégia de Segurança Nacional de maio de 2010.
Ambas enfatizaram o compromisso dos EUA de deixar para trás a confiança nas
armas nucleares e a necessidade crescente de dissuadir inimigos e oferecer
garantias a aliados e parceiros (Schachter 2011, 27-28).
Após o período inicial de Obama na presidência, tornou-se claro que o controle
de armas não levaria automaticamente ao desarmamento. Ademais, ele almejava
reter uma capacidade dissuasiva enquanto as armas nucleares existissem.
Entretanto, é possível identificar que a dissuasão apresenta uma série de
problemas e limitações. Ela só é plausível se os adversários permanentemente
demonstram que podem utilizar as armas nucleares, e o conceito parece somente
operar com atores racionais. Ela também requer que os adversários confiem que
os outros a respeitem, adiram a tais princípios, comuniquem-se uns com os
outros e entendam os sinais dos outros. Ademais, a confiança na dissuasão pode
levar à proliferação nuclear e às corridas armamentistas, e a dissuasão pode
criar instabilidade e situações perigosas por conta de erros de cálculo,
problemas de comunicação e acidentes técnicos. A dissuasão também é cara,
porque pode requerer modernização contínua e o desenvolvimento e a produção de
novas armas (Gårtner 2012, 4-6).
A administração Obama clamou por reduções graduais no tamanho das forças
nucleares e na confiança nessas armas, enquanto enfatizou a necessidade de
manter uma dissuasão nuclear efetiva enquanto o desarmamento era atingido.
Porém, se um certo número de armas pode levar à dissuasão estável e nenhuma
arma ostensivamente torna a dissuasão desnecessária, há um número entre esses
pontos em que a dissuasão poderia não mais prevalecer e um primeiro ataque
poderia se tornar uma opção atraente por causa da habilidade real e percebida
de infligir um ataque nuclear decisivo sobre o outro lado, com o perigo
percebido limitado de sofrer retaliação nuclear. O desarmamento total parece
ser um slogan vazio - embora politicamente valioso -, porque ele potencialmente
enfraquece a dissuasão, encoraja o acobertamento de armas e, em último caso,
incentiva o primeiro uso de armas nucleares. Ademais, a redução da confiança
nas armas nucleares e as novas limitações autoimpostas sobre seu uso, descritas
na NPR de 2010, tornam difícil não concluir que os EUA estavam menos
determinados a usar as armas nucleares naquele momento do que no passado. Com
mensagens ambíguas, a guerra convencional e os erros de cálculo relacionados às
armas nucleares, bem como uma maior proliferação nuclear, podem se tornar mais
prováveis. Como muitos aliados dos EUA confiam nas armas nucleares norte-
americanas para sua própria proteção, a percepção da hesitação norte-americana
quanto ao uso de armas nucleares pode encorajar Estados inimigos, o que, por
sua vez, seria capaz de levar tais aliados a desenvolver sua própria capacidade
nuclear (Schachter 2011, 30-31).
A NPR de 2010 declara que os EUA não usariam ou ameaçariam usar as armas
nucleares contra Estados não nuclearmente armados que fossem partes do TNP e
mantivessem o compromisso com suas obrigações de não proliferação nuclear. O
mesmo documento aponta que os EUA viam o Irã e a Coreia do Norte como Estados
que não cumpriam suas obrigações perante o TNP. O documento parecia sugerir que
os EUA poderiam usar ou ameaçar o uso de armas nucleares contra um Estado não
nuclearmente armado, mas que estivesse em vias de adquirir armas nucleares,
como muitos acreditavam que o Irã pudesse ser. Esse ponto da NPR parece buscar
persuadir Estados não nuclearmente armados que são partes do TNP a trabalhar
com os EUA e outras partes interessadas na adoção de medidas efetivas para
fortalecer o regime de não proliferação. Apesar de poderosa, tal mensagem
poderia ser entendida como um elemento que reforçava a lógica de aquisição de
armas nucleares, uma vez que parecia que a única forma de se evitar uma
imposição norte-americana seria dissuadir os EUA com armas nucleares. Além
disso, no caso de outros Estados, a NPR indicava que permanecia um estreito
conjunto de contingências nas quais as armas nucleares dos EUA ainda poderiam
ter um papel na dissuasão de um ataque convencional ou químico/biológico contra
os EUA e seus aliados ou parceiros. Assim, os EUA não estavam preparados,
naquele momento, para adotar uma política universal de que o único propósito
das armas nucleares dos EUA fosse dissuadir o ataque nuclear contra os EUA e
seus aliados, mas trabalhariam para estabelecer as condições sob as quais tal
política pudesse ser adotada de forma segura (Schachter 2011, 32-34).
A redução de armas nucleares nos governos Bush e Obama
A administração Bush anunciou que os EUA reduziriam suas forças nucleares
estratégicas a 1.700-2.200 ogivas operacionalmente desdobradas ao longo da
década. Novas reduções foram codificadas no Tratado sobre Reduções Ofensivas
Estratégicas - Strategic Offensive Reductions Treaty (SORT) -, assinado pelos
EUA e pela Rússia em maio de 2002. As ogivas operacionalmente desdobradas
estariam disponíveis imediatamente ou em questão de dias a fim de fazer frente
às contingências imediatas ou inesperadas. A administração Bush defendia que o
tamanho dessa força não era determinado pela necessidade de responder a uma
ameaça russa; porém, ela considerou as capacidades nucleares remanescentes da
Rússia ao desenvolver a NPR. Um conflito com a Rússia era considerado uma
"contingência potencial" que surgiria se a relação entre os EUA e a Rússia se
deteriorasse significativamente. As forças necessárias para lidar com as
contingências potenciais estavam inclusas na força responsiva, não na força
operacionalmente desdobrada de ogivas. A administração Bush indicava que os EUA
manteriam uma tríade de mísseis balísticos intercontinentais - intercontinental
ballistic missiles (ICBMs) -, mísseis balísticos lançados de submarinos -
submarine-launched ballistic missiles (SLBMs) -, e bombardeiros pesados para o
futuro (Huntley 2006, 51, 64; Woolf 2006, 25-26).
Analistas apontavam que as perspectivas da administração Bush de reduções
profundas nas armas nucleares ofensivas eram minadas por seus planos de manter
milhares de ogivas armazenadas para a força responsiva. Para a administração
Bush, a flexibilidade para restabelecer as ogivas nucleares rapidamente,
expandir o número de ogivas desdobradas ao longo do tempo e desenvolver novas
armas com novas capacidades tornava possível para os EUA reduzir suas armas
desdobradas no curto prazo sem criar riscos potenciais à sua segurança no
futuro. Além disso, a administração Bush não abordou questões sobre as armas
nucleares não estratégicas dos EUA e da Rússia na NPR. Após a assinatura do
SORT, a administração Bush começou a reconhecer que as armas nucleares não
estratégicas deveriam estar na agenda de discussões entre os EUA e a Rússia, em
especial na agenda do grupo de consulta para estabilidade estratégica,
anunciado em maio de 2002 (Huntley 2006, 51-53; Woolf 2006, 46-48).
De acordo com a administração Bush, uma infraestrutura que permitisse aos EUA
manterem suas forças e as adaptarem a fim de atenderem às necessidades
emergentes ofereceria à grande potência meios de responder a ameaças novas,
inesperadas ou emergentes. Ademais, ao manter a infraestrutura necessária à
adaptação de antigas ogivas e à produção de novas, os EUA poderiam reduzir suas
reservas de ogivas não desdobradas. Tal caracterização da infraestrutura de
armas nucleares e sua integração ao novo modelo de dissuasão não alterava suas
funções centrais, mas destacava o compromisso da administração com a
modernização e a expansão do complexo. A administração Bush indicou que os EUA
continuariam a observar a moratória dos testes nucleares, apesar da oposição do
presidente Bush ao Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares -
Comprehensive Nuclear-Test-Ban Treaty (CTBT). Os EUA continuariam a buscar
programas visando à segurança e à confiabilidade das reservas de armas
nucleares. Ademais, a administração definiu um programa mais amplo para
reconstruir o complexo de armas nucleares e sua força de trabalho. A NPR de
2001 recomendava que a infraestrutura tivesse a capacidade de identificar e
reparar problemas nas ogivas existentes e permitir o desenvolvimento e a
produção de novos tipos de ogivas. A administração Bush também solicitou ao
Congresso que acabasse com a proibição de pesquisas de novas armas nucleares de
baixa potência e também buscou financiamento para um estudo sobre uma ogiva
nuclear modificada destinada a penetrar o solo antes da explosão, podendo-se
ampliar a probabilidade de destruição de alvos enterrados profundamente. A NPR
também recomendou que os EUA reduzissem o tempo necessário à retomada de testes
nucleares, vendo que a ampliação para a prontidão de testes era prudente diante
da possibilidade de que um problema relacionado à segurança ou à confiabilidade
não fosse corrigido sem testes (Woolf 2006, 37-40).
O que o presidente Barack Obama sugeriu em seu discurso em Praga em 2009 não
foi exatamente o desarmamento, mas medidas de controle de armas: um tratado que
seguisse o START I - o Novo START -, a ratificação do CTBT e a conclusão de um
Tratado de Proibição da Produção de Materiais Físseis - Fissile Material Cutoff
Treaty (FMCT) - para armas nucleares ou outros explosivos nucleares (Gårtner
2012, 4-6). Cumpre lembrar que, na Conferência de Exame do TNP de 2010, os
Estados se comprometeram a buscar mais reduções de armas nucleares, inclusive
de armas não estratégicas; pressionaram pela ratificação do CTBT nos EUA;
clamaram pelo início imediato de negociações para o FMCT e instruíram os
Estados nuclearmente armados a reduzir a confiança nas forças nucleares para
sua segurança nacional. Tais elementos pareciam ter o apoio da administração
Obama. Segundo a NPR de 2010, ao modernizar as instalações nucleares e investir
em capital humano, os EUA poderiam substancialmente reduzir o número de armas
nucleares retidas como uma garantia contra surpresas técnicas ou geopolíticas,
acelerar o desmantelamento de ogivas removidas de serviço e melhorar o
entendimento das atividades estrangeiras relacionadas às armas nucleares. A NPR
também declarava que as ogivas nucleares dos EUA nunca seriam usadas contra
Estados não nuclearmente armados que mantivessem o compromisso com o TNP, mesmo
se tal Estado usasse uma arma química ou biológica. Nesse caso, a revisão
propõe uma resposta militar convencional devastadora. Porém, a revisão de Obama
desapontou alguns defensores do desarmamento nuclear ao não banir o primeiro
uso de armas nucleares em um conflito com outros Estados nuclearmente armados.
O documento cita um conjunto estreito de contingências em que uma ameaça
plausível de um ataque nuclear norte-americano era necessário para dissuadir um
ataque convencional, químico ou biológico contra os EUA ou seus aliados (Kramer
2010, 26).
Autores como Lieber e Press (2011) defendiam que os EUA provavelmente
enfrentariam desafios maiores relacionados à dissuasão nos próximos anos em
relação àqueles enfrentados durante a Guerra Fria. Conforme houvesse a
proliferação de armas nucleares, tornava-se provável que os EUA se encontrassem
em conflitos convencionais com adversários nuclearmente armados. Ademais, os
autores acreditavam que manter uma combinação correta de capacidades no arsenal
nuclear dos EUA seria vital para dissuadir ou responder a adversários que se
engajassem numa escalada nuclear coerciva. A fundação de uma capacidade
dissuasiva plausível era a manutenção da capacidade e da determinação de
empreender ameaças. Entretanto, a maioria das armas nucleares no arsenal dos
EUA, até mesmo os mísseis balísticos baseados em terra e em submarinos, tinha
enormes potências explosivas, de forma que usá-las espalharia radioatividade ao
longo de vastas regiões e certamente mataria um número grande de não
combatentes. A ameaça de uso indiscriminado de armas não seria plausível, e,
para reter uma capacidade dissuasiva plausível, os EUA deveriam ter armas
nucleares que um líder pudesse realmente usar se os aliados, as forças
militares ou o território dos EUA sofressem um ataque nuclear (Lieber e Press
2011).
A administração Obama definiu uma perspectiva pragmática para o arsenal nuclear
dos EUA, que trazia dois objetivos principais: a redução do tamanho do arsenal
nuclear dos EUA e a manutenção de uma capacidade dissuasiva robusta. Na direção
do primeiro objetivo, a administração Obama negociou e garantiu a ratificação
do Novo START, além de cogitar uma nova rodada de negociações para reduções
ainda maiores do arsenal. Ao mesmo tempo, propôs um grande esforço de
modernização para revitalizar a força restante. Tais propostas incluíam o
financiamento da infraestrutura nuclear (o complexo de laboratórios nacionais,
instalações de produção e pessoal), a extensão da vida dos sistemas mais
antigos e a substituição dos antigos vetores. A administração desejava reter e
modernizar as opções nucleares de baixa potência, em particular as bombas e os
mísseis de cruzeiro lançados por aviões; planejava a construção de uma nova
geração de submarinos que lançariam mísseis balísticos; e, segundo
especialistas, cogitava o aumento da precisão dos mísseis nesses submarinos
(Lieber e Press 2011).
Os proponentes da eliminação das armas nucleares - especialistas da área de
controle de armas e seus aliados no Congresso - afirmaram que a promessa de
Obama de reduzir o papel das armas nucleares na estratégia de segurança
nacional entrava em contradição com seus planos de modernizar a força norte-
americana. Tais planos, na visão desses atores, criarão novas capacidades
nucleares e tornarão as armas nucleares mais utilizáveis. Entre os moderados e
os conservadores no Congresso, o apoio político à modernização nuclear pode ser
erodido conforme os congressistas confrontam restrições orçamentárias cada vez
mais difíceis. No próprio orçamento de defesa, haverá pressão para que seja
priorizada a compra de armas que contribuam diretamente para as operações
militares correntes, como a contrainsurgência e o contraterrorismo, em relação
à tarefa aparentemente menos urgente de modernizar o arsenal nuclear. Embora a
Força Aérea tenha restabelecido o foco na missão nuclear após incidentes
relacionados ao manejo de ogivas e componentes, sua atenção está mais focada na
segurança e na confiabilidade das reservas do que na dissuasão nuclear e nas
capacidades militares que a apoiam. Os contratantes da área de defesa
perceberam que a dimensão convencional é mais lucrativa que a nuclear (Lieber e
Press 2011). A liderança da Força Aérea não explicou de maneira decisiva à
população norte-americana por que a dissuasão estratégica manteve-se como uma
prioridade de segurança nacional. O apoio ao arsenal assim foi se esvaindo e
dando aos defensores da eliminação das armas nucleares uma chance legítima para
alcançarem seus objetivos (Lowther e Kallberg 2013, 2).
O Novo START representava uma ponte possível ligando a era de controle de armas
nucleares entre as duas maiores potências nuclearmente armadas aos elementos
mais urgentes do início do século 21. Esse contexto também era caracterizado
pela intenção declarada da Rússia de modernizar suas forças nucleares e
convencionais, incluindo reformas drásticas na estrutura de forças
convencionais e operações em favor de uma força menor, mais profissional e mais
desdobrável. A doutrina militar russa de 2010 preservou os EUA e a Organização
do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) como possíveis ameaças, mas não tão
próximas, e reconheceu que a ameaça de uma guerra de grandes coalizões era
menos imediata que aquela representada por guerras locais ou conflitos não
convencionais. Porém, não existia um próximo passo óbvio ou incontestável após
o Novo START. A administração Obama solicitou ao Departamento de Defesa que
considerasse a possibilidade de reduções adicionais abaixo dos níveis do Novo
START. Alguns políticos norte-americanos mostram-se cautelosos em revisitar os
debates em torno da ratificação do Novo START em qualquer estrutura que
seguisse esse tratado (Cimbala 2011, 110-111).
O número de ameaças potenciais aos EUA é maior, uma vez que a Rússia mantém um
arsenal comparável ao norte-americano, e a China está expandindo seu arsenal e
desenvolvendo tanto novas ogivas como vetores mais avançados. A Coreia do Norte
continua um claro adversário capaz de lançar ataques de menor escala contra a
Coreia do Sul e ameaça os interesses vitais sul-coreanos e norte-americanos.
Contrariamente à visão dominante, há especialistas como Adam Lowther e Jan
Kallberg que acreditam que as forças nucleares norte-americanas podem ter sua
importância para a segurança nacional ampliada nas próximas décadas. Em face
dos cortes em defesa no orçamento por conta dos gastos crescentes com questões
sociais, aqueles que buscam influenciar a política da administração Obama na
área nuclear defendem que ataques convencionais de precisão podem substituir as
armas nucleares. O que eles não observam é que, em uma era de orçamentos
declinantes para defesa, a Força Aérea e a Marinha não podem garantir as
capacidades de ataque de precisão requeridas por tais planos. Assim, os EUA
novamente confiariam no arsenal nuclear para proteger os interesses vitais do
Estado e pouco provavelmente teriam recursos fiscais para construir uma
alternativa convencional ao arsenal nuclear (Lowther e Kallberg 2013, 3).
As defesas antimísseis nos governos Bush e Obama
As defesas antimísseis contribuiriam para a dissuasão, na visão da
administração Bush, ao complicarem o planejamento de ataque e minarem a
confiança de um adversário que planejasse um ataque com mísseis balísticos. O
presidente disse que buscaria o desenvolvimento de tecnologias de defesas
antimísseis que poderiam ser desdobradas na terra, no mar e no espaço e
protegeriam os EUA, seus aliados e suas forças no exterior dos ataques de
mísseis balísticos empreendidos por Estadospárias. Ademais, reconheceu que o
sistema planejado de defesas antimísseis não seria compatível com os limites do
Tratado sobre Sistemas Antimísseis Balísticos - Anti-Ballistic Missile (ABM)
Treaty. Bush buscou convencer a Rússia a denunciar o tratado com os EUA, mas,
quando tal perspectiva fracassou, ele anunciou, no fim de 2001, que os EUA
denunciariam o tratado. A denúncia ocorreu em junho de 2002. Inicialmente, a
administração Bush planejava dar continuidade aos programas de defesas
antimísseis para teatros de operações - que tentariam interceptar mísseis de
menor alcance - e de defesas nacionais antimísseis - que buscariam derrubar
mísseis de maior alcance - da época da administração Clinton. Porém, ela
eliminou a distinção entre defesas nacionais antimísseis e defesas antimísseis
para teatros de operações, dividiu os programas em fases de lançamento, meio
curso e terminal e buscou um programa robusto de pesquisa e desenvolvimento a
fim de identificar tecnologias e sistemas promissores. A administração e outros
que apoiavam as defesas antimísseis apontavam que tais sistemas eram
necessários, pois os EUA enfrentavam uma ameaça crescente de Estados que tinham
mísseis balísticos e armas de destruição em massa. Em 2004, o Departamento de
Defesa começou a desdobrar mísseis de interceptação para seu sistema de defesas
antimísseis no Alasca - seis no fim de 2004 e dois mais em 2005. Dois mísseis
de interceptação também foram desdobrados na Califórnia (Woolf 2006, 24, 33-34;
Yost 2005, 94, 96-98).
O desenvolvimento do sistema de defesas antimísseis encontrou fortes críticas
dos aliados europeus dos EUA. Eles se queixavam de que a defesa estratégica do
território norte-americano seria equivalente a separar a segurança nacional
norteamericana daquela do resto dos aliados europeus, defendendo o princípio
básico da defesa indivisível do Ocidente. Em face disso, a administração Bush
decidiu construir um novo local para as defesas antimísseis, não na costa leste
dos EUA - de onde poderia defender somente os EUA -, mas na Europa Oriental, de
onde poderia defender tanto a Europa como os EUA contra mísseis iranianos. Em
2007, a administração Bush iniciou negociações com a República Tcheca e com a
Polônia para desdobrar os elementos das defesas antimísseis. Os dois Estados
europeus receberam positivamente o pedido norte-americano, uma vez que viam o
desdobramento permanente de forças norte-americanas no seu território como uma
garantia de sua segurança em relação à Rússia. O presidente russo Vladimir
Putin caracterizou o desdobramento das defesas antimísseis na Europa como uma
ação que reacendia a Guerra Fria, e a Rússia chegou a ameaçar o desdobramento
de mísseis terra-terra contra as localizações das defesas antimísseis se elas
fossem posicionadas na Polônia e na República Tcheca e sugeriu que poderia
denunciar o Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermediário -
Intermediate-Range Nuclear Forces Treaty (INF) - de 1987. A Rússia alegava que
a localização escolhida para as defesas antimísseis na Europa era direcionada
para ela, não para o Irã, em face do desenvolvimento limitado das capacidades
iranianas em mísseis. Os russos também alegavam que os interceptores de alta
velocidade eram capazes de interceptar mísseis balísticos intercontinentais
russos lançados para os EUA a partir de bases russas, reduzindo a capacidade
dissuasiva da Rússia (Rubin 2011, 59-60).
Como abandonar completamente a ideia de desdobramento dos sistemas de defesas
antimísseis na Europa não era plausível - em particular diante da insatisfação
europeia com o foco de Obama nas questões domésticas e sua aparente negligência
com a Aliança Atlântica -, Obama anunciou em 2009 a intenção de desenvolver
sistemas de defesas antimísseis mais modestos que seriam incapazes de ameaçar
os mísseis balísticos intercontinentais russos. O novo programa definia que o
tamanho do sistema de defesas antimísseis dos EUA desdobrado na costa oeste do
Estado seria congelado nos níveis daquele momento e os sistemas comprovados
baseados no sistema de defesas táticas da Marinha seriam desdobrados na Europa.
O desdobramento seria implementado em fases ligadas à evolução da ameaça.
Interceptores ainda mais avançados capazes de atacar mísseis intercontinentais
iranianos direcionados para os EUA poderiam ser desdobrados na Polônia, caso a
ameaça se desenvolvesse contra a grande potência. Porém, se a administração
Obama desejasse ter os meios de defender os EUA a partir do continente europeu
dentro de uma década, ela não teria tempo para examinar a evolução da ameaça;
assim, ela deveria começar a construir interceptores novos e mais poderosos
naquele momento. O novo plano foi recebido com entusiasmo nos EUA e na Europa,
uma vez que ele permitiria casar a segurança dos EUA com a do Ocidente,
garantir o compromisso dos EUA com a Europa Oriental e minimizar os receios da
Rússia. Entretanto, os russos exigiram a incorporação de uma proibição de
defesas estratégicas no texto do Novo START, que estava sendo negociado na
ocasião. Obama, já comprometido com as defesas antimísseis nos EUA e o
desdobramento de defesas na Europa, recusou. Os EUA não estavam preparados para
concordar com a redução de armas nucleares ligadas a quaisquer limitações sobre
as defesas estratégicas. Ao final, chegou-se a um acordo: o texto principal do
tratado não conteria qualquer referência às defesas antimísseis, mas os
negociadores dos EUA concordaram que ela fosse mencionada no preâmbulo. Na
visão da Rússia, ela manteria o direito de se opor caso os EUA implementassem a
fase final das defesas antimísseis na Europa ou decidissem fortalecer os
sistemas de defesas antimísseis já desdobrados nos EUA ao adicionarem
interceptores ou desdobrarem defesas antimísseis em novas localizações no
território norte-americano. A interpretação norte-americana era diferente, uma
vez que os EUA entendiam que o parágrafo no preâmbulo não comprometia o Estado
a qualquer limitação no presente ou no futuro. Entretanto, a satisfação
expressa na Rússia seguindo a assinatura do Novo START era evidência de que,
para o governo, o parágrafo do preâmbulo ressuscitava o Tratado ABM, ao menos
em espírito (Rubin 2011, 60-64).
A questão das defesas antimísseis territoriais na Europa já fora tema central
nas discussões preparatórias para a Cúpula da OTAN em Lisboa, em 2010. O
objetivo da Cúpula era aprovar uma nova definição de objetivos, políticas e
estratégias da Aliança Atlântica em face dos novos desenvolvimentos globais. A
questão das defesas antimísseis europeias recebeu atenção especial nas
discussões da Cúpula, e muitos resultados foram aceitáveis para a Rússia; o
próprio presidente Medvedev fora convidado para o encontro. A declaração da
Cúpula de Lisboa destacava que as defesas antimísseis se tornariam um pilar das
capacidades militares da OTAN, lado a lado com as capacidades convencionais e
nucleares, e a Aliança era obrigada a defender as populações e os territórios
dos membros europeus contra a ameaça de mísseis balísticos, sem menções às
fontes da ameaça. O plano de Obama para as defesas antimísseis formaria o
núcleo do sistema de defesas antimísseis na Europa, e a Rússia era convidada a
cooperar com a OTAN nessa iniciativa e a integrar seus próprios sistemas de
defesas antimísseis com os da OTAN. Tal resultado se insere na política de
Obama de engajamento com os aliados europeus dos EUA e a política de
aproximação com a Rússia. Os interceptores que defenderão a Europa serão
primariamente mísseis não estratégicos com capacidades limitadas e não
colocarão uma ameaça aos mísseis balísticos intercontinentais da Rússia.
Seguindo o sucesso na Cúpula de Lisboa, Obama procurou persuadir o Senado
norte-americano a aprovar o Novo START, uma vez que a linguagem preambular
ligava a dissuasão estratégica à defesa estratégica, com a limitação implícita
da liberdade de ação norte-americana quanto às defesas antimísseis, e assim
motivara intensas críticas de senadores conservadores. Para tentar persuadir os
senadores republicanos a ratificar o Novo START, o presidente enviou a eles uma
carta afirmando que, enquanto fosse presidente e o Congresso oferecesse as
verbas necessárias, os EUA continuariam a desenvolver e desdobrar defesas
antimísseis efetivas a fim de proteger os EUA, suas forças desdobradas e seus
aliados e parceiros. O Senado aprovou o Novo START em dezembro de 2010, mas
ligou tal aprovação à liberdade de ação norte-americana com relação às defesas
estratégicas. Na Rússia, essa conexão motivou críticas de autoridades no poder
Executivo, de parlamentares e da mídia. Com a aprovação do tratado no
Parlamento russo, o Novo START entrou em vigor, mas com interpretações
distintas entre os dois Estados sobre as implicações do documento para as
defesas estratégicas (Rubin 2011, 65-67).
Tanto Medvedev quanto o então primeiro-ministro e atual presidente russo
Vladimir Putin destacaram, em 2010, que qualquer plano de defesas antimísseis
europeias pelos EUA e pela OTAN que excluísse a Rússia poderia conduzir a uma
corrida armamentista nuclear, incluindo novos desdobramentos de armas nucleares
pela Rússia. As objeções russas têm mais a ver com questões políticas do que
com a lógica da dissuasão nuclear. A inferioridade das forças convencionais
russas em relação à OTAN torna a Rússia mais confiante nas suas forças
nucleares para outras missões que não a dissuasão de um primeiro ataque nuclear
dos EUA ou da OTAN. A doutrina militar da Rússia permite o primeiro uso de
armas nucleares numa guerra convencional que inclua ataques próximos à
periferia da Rússia ou no território da Rússia com o potencial de ameaçar seus
interesses vitais e sua soberania. A Rússia temia as capacidades da OTAN para
missões convencionais de ataque e a superioridade relativa da Aliança nas
tecnologias baseadas na informação para o empreendimento de guerras
convencionais. A sensação russa de inferioridade militar convencional convidou
seus planejadores militares a preencher a lacuna com suas armas nucleares não
estratégicas (Cimbala 2011, 111, 114-115). A Rússia confia na dissuasão
estratégica como base de sua segurança nacional, uma garantia contra a erosão
de sua posição internacional. Nesse sentido, qualquer tentativa dos EUA de
desdobrar sistemas de defesas antimísseis pode levantar objeções russas e se
tornar ponto focal de tensão entre os dois Estados (Rubin 2011, 56). A
percepção de que a Rússia e os EUA têm uma singularidade nas capacidades
nucleares estratégicas comparativamente a outras potências carrega peso
político para negociadores russos em fóruns internacionais e fortalece seu
status militar de grande potência (Cimbala 2011, 115).
Considerações finais
O objetivo do artigo foi examinar as perspectivas das administrações Bush e
Obama quanto à dissuasão, à redução de armas nucleares e às defesas
antimísseis. Foi possível observar que, ainda que existissem diferenças quanto
às formas de implementação de decisões, tanto a administração Bush como a
administração Obama reafirmaram o papel fundamental das armas nucleares para a
dissuasão, comprometeram-se com a redução de armas nucleares acompanhada de
iniciativas para modernização e reconheceram a importância de defesas
antimísseis na proteção dos EUA e aliados. Essas perspectivas relacionam-se à
necessidade de ampliar a flexibilidade para lidar com ameaças contemporâneas e
à manutenção de um leque de opções para fazer frente a tais ameaças.