O Brasil e a cooperação em defesa: a construção de uma identidade regional no
Atlântico Sul
Introdução
Nos últimos dez anos, o governo brasileiro tem intensificado os seus esforços
de cooperação - inclusive em defesa - com os países no perímetro do Atlântico
Sul. Destacando a sua condição de país sul-atlântico, o Brasil busca uma
aproximação com Estados da costa ocidental da África, não apenas com parceiros
históricos, tais como Angola, Nigéria e África do Sul, mas também com os demais
países litorâneos. Na América do Sul, o Brasil também reforça seus acordos de
cooperação militar com a Argentina e o Uruguai. Apesar de muitos desses
vínculos já existirem há décadas, os esforços atuais expressam maior
intensidade e uma articulação crescente entre as políticas externa e de defesa
brasileiras. Frente a um cenário em que o Atlântico Sul assume nova importância
geopolítica, tanto para os atores da região quanto para os de fora, o Brasil
utiliza a cooperação para promover a construção de uma identidade regional que
começa a alterar as relações de poder nesse espaço.
A literatura acadêmica indica que a construção de regiões é frequentemente
impulsionada por interesses de poder. Por exemplo, um grau de protagonismo
nesse processo de construção regional tende a beneficiar os países que lideram
o processo, pois estes geralmente o fazem de forma a avançar suas prioridades
estratégicas. Neste artigo, examinamos os esforços do governo brasileiro de
articular uma identidade sul-atlântica na última década, levando em conta as
prioridades da sua política externa para com a ecologia de atores cada vez mais
complexa do Atlântico Sul.
A cooperação em defesa implementada pelo Brasil durante esse período está
fortemente vinculada à promoção, no âmbito doméstico, da proteção dos recursos
marítimos como uma das novas prioridades estratégicas do País. As descobertas
recentes de reservas offshore e as perspectivas de exploração do petróleo pré-
sal elevam a preocupação com a segurança desses recursos e rotas, alçando a
proteção de tais recursos ao mesmo grau de importância que a Amazônia. Por um
lado, o Brasil também procura modernizar e expandir a sua capacidade naval,
visando também à difusão de uma "mentalidade marítima" entre a população
brasileira. No âmbito internacional, o Brasil propõe a expansão das suas águas
jurisdicionais junto à ONU, reforçando também seus laços bilaterais e
multilaterais de cooperação centrados no Atlântico Sul.
A construção de um "cinturão de boa vontade1" permite que o governo brasileiro
promova a criação de uma identidade regional sul-atlântica, na qual o Brasil
assegura para si uma posição de destaque. Essa identidade está centrada em
preocupações com novas ameaças no Atlântico Sul. Portanto, tal estratégia se
baseia não apenas na promoção de interesses comuns aos países desse perímetro,
mas também na tentativa de minimizar o envolvimento de atores externos,
destacando a responsabilidade dos países da região. Tal afirmação ressalta o
enquadramento do Atlântico Sul como zona pacífica e livre de armas nucleares,
conforme expressado pela criação da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul
(ZOPACAS) em 1986. Contudo, o processo de construção da identidade sul-
atlântica enfrenta desafios, como a complexidade das relações entre os países
da região e atores externos, que combinam elementos de distanciamento e
cooperação (às vezes, dentro de uma única relação bilateral).
A construção de uma identidade regional, longe de ser apenas um conjunto de
afirmações retóricas, traz repercussões concretas para o Atlântico Sul. Tais
esforços auxiliam na ampliação do espaço no qual o Brasil tem condições de
projetar sua influência - mesmo além da fronteira marítima. Por outro lado, tal
protagonismo, sujeito a interpretações variadas e narrativas concorrentes,
poderia provocar novas tensões - ou exacerbar disputas preexistentes - dentro
da região, pois ele não ocorre em um vácuo de poder. Além da presença de atores
de fora da região, existem pontos de instabilidade e fragilidade no Atlântico
Sul que demonstram os limites da capacidade brasileira de consolidar um projeto
regional.
Considerações teóricas
Longe de serem "naturalmente" delineadas por barreiras geográficas ou
características culturais, as regiões são imaginários políticos, construídos ao
longo do tempo por atores motivados por interesses específicos. Assim como o
Estado, a região pode, portanto, ser pensada como comunidade imaginada, com
dimensões espaciais (Anderson_1983). A rotulação e reificação da região traz
consequências concretas, pois o próprio processo de construção afeta a
distribuição de poder. Por exemplo, ao assumirem um papel de protagonismo,
certos Estados se tornam, efetivamente, os principais construtores da região
(region-builders) - influenciando os padrões de amizade e rivalidade entre os
Estados que passam a constituir a região. Neumann_(1994) coloca algumas das
questões principais sobre a relação entre a construção regional e as dinâmicas
de poder: de quem parte a iniciativa de incluir e excluir? Quais as principais
intenções, e quais as consequências? Usamos tais perguntas como ponto de
partida para analisarmos a construção de uma identidade sul-atlântica,
sublinhando o papel do Brasil como construtor da região.
Trabalhando na tradição da geopolítica crítica, Dodds_(2011) analisa as
práticas e os discursos utilizados pelas autoridades estatais para a construção
de identidades regionais. Segundo o autor, mesmo referências discursivas sobre
um território já expressam e constituem estratégias em relação à dita região
(Dodds_2011). Práticas e discursos cotidianos são co-constituídos na formação
de identidades geopolíticas, refletindo a centralidade de representações
veiculadas na mídia, em discursos de autoridades ou em documentos oficiais
(Benwell_e_Dodds_2011). Dodds e Ingimundarson (2012) elaboram sobre a
importância da análise da relação entre geografias imaginadas, que funcionam
por meio da utilização de recursos discursivos como analogias e metáforas, e as
práticas e performances dos Estados, que são expressas por meio das suas
políticas externas. Utilizando o conceito de nacionalismo territorial, os
autores examinam como certas categorias geográficas são constituídas e
apresentadas a audiências domésticas e internacionais, e como essas categorias
podem influenciar a adoção de determinadas políticas - como, por exemplo, o
interesse em pleitear uma expansão da plataforma continental (Dodds e
Ingimundarson 2012, 22-23). Defenderemos, na presente análise, que tais
práticas e narrativas estão presentes na construção do Atlântico Sul por parte
de agentes do Estado brasileiro, principalmente os Ministérios das Relações
Exteriores e da Defesa e a Marinha do Brasil, que têm assumido um papel central
no posicionamento brasileiro relacionado ao Atlântico Sul.
Na disciplina de Relações Internacionais, contribuições sobre a construção de
regiões têm sido desenvolvidas dentro de: estudos de área, principalmente
voltados para o Sudeste Asiático (Acharya_2011) e Ártico (Keskitalo_2004);
estudos sobre processos de integração regional (Van_Langenhove_2011); e
cooperação regional em segurança e defesa (Bellamy_2004; Adler_e_Barnett_1998).
Van Langenhove adota o construtivismo social para analisar processos de
construção de regiões. Segundo o autor, as regiões são sempre construídas por
meio do discurso, sendo a regionificação o processo que permite a emergência
destas como fatos institucionalizados (Van Langenhove 2011). Procurando ir além
de concepções tradicionais a respeito do que constitui uma região, que
enfatizam critérios físicos como proximidade geográfica e critérios culturais,
Acharya (2011) desenvolve a ideia de regiões como construções sociais. O autor
enfatiza que a mera existência de proximidade geográfica e de interações entre
os atores de uma determinada área não são suficientes para a formação de uma
região, sendo necessária a presença de uma "ideia de região" (Bellamy 2004;
Acharya 2011).
Ao apresentar o seu conceito de region-building, Neumann (1994, 1999) argumenta
que a identidade de uma determinada região é constituída por uma série de
escolhas feitas a partir de considerações históricas e políticas que dependem
dos atores envolvidos, que fazem uso do seu capital político para desenvolver
representações que constituem a região (Keskitalo 2004). Dentre as práticas que
contribuem para a construção da região podemos mencionar: a seleção da área e
formato da região, a articulação de uma dimensão simbólica para a região, o
desenvolvimento de instituições voltadas para a governança da região aliado a
esforços para reforçar o uso de referências à região (tais como campanhas
educacionais), e a veiculação das delimitações de área, dos elementos
simbólicos e de governança para um grande público, como, por exemplo, por meio
da mídia (Keskitalo 2004). Tendo em mente esses elementos, combinamos pesquisa
de arquivo com análise de discurso para identificar momentos e componentes
chave na tentativa brasileira de se tornar um region-builder no Atlântico Sul.
Pano de fundo
O oceano é de importância histórica para o Brasil, que tem a costa mais extensa
de todos os países que beiram o Atlântico Sul. Durante o período colonial, o
Atlântico serviu não apenas como rota de colonização pelos portugueses, mas
também como via de transporte dos navios negreiros que traziam escravos da
África. Além disso, foi pelo Atlântico que foram lançadas tentativas de invasão
pelos franceses e holandeses nos séculos 16 e 17. Durante a Segunda Guerra
Mundial, mais brasileiros morreram no Atlântico - com o torpedeamento de
embarcações brasileiras por submarinos alemães - que em qualquer outro teatro
de guerra. Durante a Guerra Fria, o Atlântico Sul se tornou parte do jogo de
poder bipolar. Após esse período, as preocupações brasileiras com a defesa do
território nacional se voltaram mais para a Amazônia e a Região do Prata.
Embora o pensamento estratégico dominante incluísse o Atlântico Sul, as
relações com a África ainda não eram pensadas como sendo vitais para a
construção de uma identidade regional (Saraiva 1996).
Mais recentemente, as questões de segurança tradicional e não tradicional vêm
ganhando peso na visão estratégica brasileira. Notadamente, a importância
crescente dada aos recursos marítimos como objeto de defesa nacional
transparece nos principais documentos da defesa brasileira contemporânea,
inclusive a Política Nacional de Defesa (PND) (2005), a Estratégia Nacional de
Defesa (PND) (2008) e o Livro Branco de Defesa Nacional (2012). Tais documentos
apresentam o oceano como sendo de importância vital para o País e estabelecem
os passos para assegurar a soberania brasileira sobre o seu espaço marítimo.
Por exemplo, as hipóteses de emprego mencionadas indicam que, além de defender
as grandes concentrações demográficas e industriais do País, a Marinha também
deve se posicionar na foz e nas bacias fluviais do Amazonas, assim como do
Paraguai-Paraná.
Além da defesa do território e dos recursos de interesse nacional, algumas
novas questões de natureza transnacional surgem no Atlântico, como tráfico de
drogas e de pessoas. Além disso, a pirataria, que até recentemente se
restringia ao litoral oriental do continente africano, sobretudo na vizinhança
da Somália, passa a ocorrer com mais frequência no Golfo da Guiné. Como a
expansão dessa prática vem se aproximando das rotas por onde transitam navios
petroleiros, o alastramento da pirataria vem causando consternação nos países
que detêm interesses na região. Dessa forma, o Ministério da Defesa do Brasil
tem expressado preocupação com a possibilidade de que a pirataria atinja
interesses brasileiros na África, ou, até mesmo, que chegue até a costa
brasileira2.
Além das questões de segurança, tais preocupações ressaltam também a
importância econômica do oceano para o Brasil. A população brasileira ainda se
concentra nas áreas litorâneas, com 26,6% dos brasileiros residindo em
municípios da zona costeira - o equivalente a 50,7 milhões de habitantes (IBGE
2011). O espaço marítimo em si também é importante para a economia brasileira,
km na costa brasileira, do Estado do Espírito Santo ao Estado de Santa
Catarina, e englobando as bacias sedimentares do Espírito Santo, de Campos e de
Santos. Finalmente, além do petróleo, há outros recursos naturais, desde os
estoques de pesca até minerais no solo e subsolo marinhos - cuja extração,
impulsionada pela alta dos preços dos commodities, já é alvo de prospecção por
países de fora e de dentro da região, inclusive o Brasil.
A estratégia brasileira no Atlântico Sul
Iniciativas no âmbito doméstico
Alguns dos principais conceitos da estratégia brasileira no Atlântico Sul estão
refletidos nos esforços lançados pela Marinha no âmbito doméstico. Em 2004, o
então comandante da Marinha apresentou o conceito de Amazônia Azul em texto de
opinião publicado em jornal de grande circulação nacional. Usando o simbolismo
da Amazônia, o almirante destacou que a soberania nacional se estende à
proteção das riquezas naturais oceânicas - o que Keskitalo (2004) chama de
"articulação de uma dimensão simbólica para a região", disseminada pela mídia.
Além de ressaltar a necessidade da conscientização da população brasileira a
respeito dos direitos que o Brasil possui sobre o mar, o comandante ressaltou a
necessidade da presença do Estado brasileiro na Amazônia Azul, justamente pela
natureza porosa das fronteiras marítimas (Carvalho_2004).
Para assegurar tal presença, o Brasil também lançou um projeto de modernização
militar, incluindo projetos que estavam paralisados desde a década de 1970,
como o desenvolvimento do submarino nuclear. Na década de 2000, com a retomada
do crescimento econômico, o Brasil passou a dispor de recursos - e de vontade
política - para lançar um projeto concreto de reaparelhamento, refletido no
aumento de gastos militares. De acordo com o Sistema de Promoção de
Investimentos e Transferência de Tecnologia para Empresas (SIPRI), entre 2001 e
2010, os gastos militares brasileiros cresceram 30%, com uma média de 2,9% ao
ano; de 2004 a 2010, a média anual de crescimento foi de 6,9%. No entanto,
destaca-se que os gastos entre 2001 e 2010 mantiveram-se entre 1,5-1,6% do PIB
(SIPRI 2011, 170). Já em 2009, o SIPRI identificava uma relação entre a
descoberta das reservas do pré-sal em 2008 e a intenção do aumento nos gastos
com defesa, principalmente em virtude da proximidade da área do pré-sal em
relação aos limites da zona econômica exclusiva (SIPRI 2009, 204). Os efeitos
tardios da crise econômica internacional na economia brasileira levaram a uma
redução nos gastos do governo em 2011, atingindo inclusive o orçamento do
Ministério da Defesa, que teve diminuição de 25% do seu orçamento
discricionário, afetando principalmente o reaparelhamento (SIPRI 2012, 154).
Tal medida demonstra que o interesse em destinar recursos para a proteção de
áreas como a Amazônia Azul precisa ser equilibrado com as vulnerabilidades,
ainda existentes, do Brasil em relação às oscilações da economia internacional.
Os esforços para assegurar a presença e soberania brasileiras na Amazônia Azul
vêm se concentrando no aumento da capacidade naval, não apenas voltados para a
força de dissuasão, mas também para a construção de uma força tática de alto
grau de agilidade e capaz de levar os conflitos para o mais longe possível da
costa brasileira - essencialmente, uma "marinha de águas azuis". De acordo com
o Comandante da Marinha, tais esforços demonstram uma assertividade e um
reconhecimento de que os interesses brasileiros vão além da Amazônia Azul:
"Eles se estendem a qualquer lugar onde um navio navegue sob nossa bandeira,
cuja proteção é dever inalienável do Estado Brasileiro. Essa é a importância
estratégica da construção do submarino nuclear."3
Para alcançar esse objetivo, o Brasil firmou diversos acordos de cooperação
internacional. Em dezembro de 2008, o Brasil - cuja Marinha havia dominado o
ciclo do combustível nuclear - assinou com a França um acordo de cooperação em
defesa que previa, dentre outros elementos, a aquisição de quatro submarinos
convencionais Scorpène e um programa visando ao desenvolvimento de um submarino
nuclear.
Além da frota de submarinos, o Brasil também vem lançando esforços para
fortalecer outras áreas da Marinha. Entre 2005 e 2010, o aeródromo São
Paulopassou por um programa de modernização, embora permaneça subutilizado.
Além de adquirir embarcações de superfície do Reino Unido, a Marinha vem
desenvolvendo o Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAZ), cuja
função primária será a vigilância por rádio e satélite da costa e da região do
pré-sal. Para diminuir a vulnerabilidade estratégica decorrente da concentração
excessiva da frota no Rio de Janeiro, o governo também estuda a criação de uma
segunda esquadra, possivelmente baseada na costa do Pará (reforçando, portanto,
os vínculos entre as duas Amazônias - Verde e Azul). No entanto, os recursos
financeiros e institucionais sendo dedicados ao projeto do submarino nuclear
são substanciais, sobretudo quando comparados ao resto da Marinha. Só em 2013,
o governo federal destinou R$ 2,5 bilhões do Programa de Aceleração do
Crescimento (PAC) ao Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub) e ao
Programa Nuclear da Marinha4. A opção por investir pesadamente em um projeto de
longo prazo - de acordo com a Marinha, o primeiro submarino nuclear deve ser
entregue em 2023 - foi uma decisão estratégica tomada pelo governo brasileiro a
fim de reforçar sua capacidade de negação do uso do mar, e que coloca o Brasil
dentre os poucos países que detêm essa tecnologia - os demais, com a exceção da
Índia, sendo justamente aqueles que têm assentos permanentes no Conselho de
Segurança: EUA, França, Grã-Bretanha, Rússia e China.
Tais esforços, relacionados a reequipamento, são acompanhados de iniciativas
para promover a "mentalidade marítima", que a Marinha define como "convicção ou
crença, individual ou coletiva, da importância do mar para a nação brasileira e
o desenvolvimento de hábitos, atitudes, comportamentos ou vontade de agir, no
sentido de utilizar, de forma sustentável, as potencialidades do mar" (SECIRM
2012). Para disseminar essa visão, a campanha "Amazônia Azul" produz materiais
didáticos e lúdicos, distribuídos em parceria com o Ministério da Educação. O
programa também vincula os esforços lançados no Atlântico Sul ao Programa
Antártico Brasileiro (PROANTAR), criado em 1982, e ressalta a exploração
científica e conservação ambiental conduzidas pelo Brasil nas ilhas do
Atlântico e na Antártida.
Em segundo lugar, a campanha Amazônia Azul tenta divulgar e justificar, junto
ao público brasileiro, a proposta feita pelo governo de redefinição da sua
plataforma continental junto à Convenção da ONU sobre o Direito do Mar, de
forma a expandir o espaço marítimo brasileiro em até 900 mil quilômetros
quadrados. A Marinha ressalta que, caso a proposta seja aceita, as águas
jurisdicionais brasileiras irão totalizar quase 4,5 milhões de quilômetros
quadrados - uma área maior do que a Amazônia Verde5. Como parte desses
esforços, a campanha também visa a incentivar a pesquisa marinha em
biodiversidade e mapeamento dos recursos do solo e subsolo marítimos. A
intensificação dos esforços de pesquisa traz uma possível vantagem estratégica,
pois permite ao governo manter grupos de pesquisadores em ilhas oceânicas
brasileiras. Essa presença no Atlântico Sul poderia também reforçar a proposta
brasileira de expansão do território marítimo, dado que, em certos casos, a
habitabilidade, que diferencia ilhas de rochedos, torna-se um dos critérios
para a aprovação da zona econômica especial (ZEE).
Tal preocupação com a proteção dos recursos naturais também se manifesta nos
exercícios navais unilaterais que o Brasil vem realizando, que incluem
simulações de ações contra ataques terroristas a plataformas de petróleo na
Bacia de Campos6. Tais atividades refletem a construção, já evidente no
discurso oficial, de ameaças relacionadas aos recursos marítimos. Embora a END
afirme que "os ambientes apontados [...] não permitem vislumbrar ameaças
militares concretas e definidas, representadas por forças antagônicas de países
potencialmente inimigos ou de outros agentes não-estatais" (Marinha do Brasil
2008, 46), os exercícios poderiam ser interpretados como indicativos das
hipóteses de emprego sendo consideradas pelo governo brasileiro, com ênfase
sobre a proteção da costa brasileira e dos recursos offshore.
Iniciativas internacionais
Aos esforços domésticos já apresentados, soma-se o programa brasileiro de
cooperação em defesa no Atlântico Sul. Durante os anos 1970 e 1980, o Brasil já
tinha vínculos militares com a África - inclusive a exportação de equipamentos,
desde veículos blindados a aviões, a diversos países africanos (Dávila_2010;
Saraiva_1996). Ao longo da última década, o estreitamento de laços entre o
Ministério da Defesa e o Ministério das Relações Exteriores tem permitido a
expansão da cooperação em defesa seguindo o desejo de reaparelhamento das
Forças Armadas e as prioridades da política externa. Apesar do discurso oficial
da cooperação Sul-Sul brasileira enfatizar os laços históricos e culturais com
a África Lusófona, na área de defesa os acordos e iniciativas englobam uma
geografia mais ampla. Observa-se, notadamente, um esforço sistemático de
estabelecer ou aprofundar a cooperação naval com todos os países africanos no
litoral atlântico, independentemente do tipo de regime e sendo eles ou não de
língua oficial portuguesa.
De fato, tais acordos têm um antecedente não lusófono: em 1991, pouco após a
sua independência, a Namíbia solicitou assistência da Marinha do Brasil para
constituir a sua força naval (Medeiros_2002). Desde que o primeiro acordo de
cooperação naval foi assinado, em 1992, o Brasil tem sido responsável em grande
parte pela construção da Marinha da Namíbia. O fornecimento de embarcações é
explicado pela Marinha do Brasil como abrindo "perspectivas para a exportação
de outros meios navais para diversos países, com emprego de tecnologia nacional
e participação de empresas brasileiras, fornecedoras de equipamentos e sistemas
navais"7. No caso da Marinha, o treinamento de oficiais e praças do país em
português também permite ao Brasil exercer uma influência em um contexto de
crescente atuação de outros cooperantes, como a China8 (Ministério da Defesa
2013; Senado 2012). Essas experiências vêm servindo de modelo para a cooperação
em defesa brasileira ao longo da costa da África, sobretudo a combinação de
treinamento e fornecimento de equipamentos.
Os esforços de aproximação atuais ocorrem dentro de um contexto sul-atlântico
diferente daquele encontrado durante a Guerra Fria. O fim do apartheid permitiu
uma aproximação diplomática e militar com a África do Sul (Hurrell_1983; Penna
Filho_2003). Hoje a cooperação em defesa entre os dois países inclui também o
desenvolvimento do míssil A-Darter e de um sistema de vigilância do Atlântico
Sul por satélite oceanográfico9. Na área naval, os dois países participam (com
a Índia) de exercícios navais trilaterais dentro do âmbito do India-Brazil-
South Africa Maritime (IBSAMAR).
Outros acordos foram assinados com parceiros estratégicos na África, tais como
Angola - onde o Brasil tem fortes interesses comerciais e que tem sido mercado
para a exportação de armamentos brasileiros. Em 2013, o Ministro da Defesa,
juntamente com missão de empresários da indústria de defesa brasileira,
realizou visita ao país que incluiu o fechamento de contrato para compra de
seis aviões de combate A-29 Super Tucano da Embraer10.
Além de parceiros chave como a África do Sul e Angola, a cooperação em defesa
também abrange países menores, incluindo Estados como São Tomé e Príncipe,
Guiné Bissau e Camarões. Certos acordos incluem cooperação nas ditas questões
não tradicionais de segurança, tais como o tráfico de drogas e a pirataria. A
crise do Mali também é apontada como justificativa para fortalecer tais laços;
o Brasil vem ressaltando a proximidade geográfica da crise aos interesses
brasileiros na África, até mesmo no Golfo da Guiné, argumentando também que o
Brasil e seus parceiros africanos devem se preparar no caso de a instabilidade
se espalhar para o Atlântico11. Além do treinamento de oficiais (programas
coordenados pela Agência Brasileira de Cooperação, que é departamento do MRE) e
o fornecimento de equipamentos, o Brasil vem auxiliando muitos desses países
com seus levantamentos de plataforma continental, tendo em vista a preparação
de propostas junto à Convenção das Nações Unidas sobre Direito do Mar12. Dessa
forma, o Brasil dissemina sua abordagem no Atlântico Sul, usando a cooperação
em defesa como meio de enfatizar preocupações em comum.
Do lado africano, o interesse em cooperar com o Brasil - dentro e fora do
âmbito militar - vem aumentando. E, à medida que o apoio africano ao pleito
brasileiro por um assento permanente no Conselho de Segurança constitui um
elemento estratégico para a diplomacia brasileira, o Brasil tem tido certo
sucesso ao ampliar sua base de apoio. Durante visitas de alto escalão, diversos
países africanos vêm expressando seu apoio abertamente ao pleito brasileiro.
Para os países da costa ocidental, há também um interesse em comum na área de
energia, até pelo fato de o Golfo da Guiné concentrar boa parte do petróleo
africano, cogitando-se a possibilidade de descobertas semelhantes ao pré-sal
brasileiro13. No entanto, longe de ser o único provedor de cooperação, o Brasil
concorre, ao longo do Atlântico Sul, com os países do Norte e com outros
emergentes, sobretudo a China, cujo interesse pelo petróleo africano tornou-se
peça chave da sua estratégia energética e que também possui acordos de
assistência militar com países africanos.
A cooperação brasileira em defesa também cresce via plataformas multilaterais.
Após as iniciativas lançadas em 2007 por Angola para a revitalização da Zona de
Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZOPACAS), o Brasil vem assumindo certo
protagonismo no processo. Embora a ZOPACAS tenha originado de uma iniciativa
brasileira no final da Guerra Fria, foi durante a última década que o Brasil
acumulou capital econômico e político suficiente para dar maior fôlego à
iniciativa. O Brasil também se beneficia da prioridade americana em conter a
China no Pacífico, mesmo que os EUA não estejam de todo ausentes do Atlântico
Sul.
A relação com os países africanos da região permite ao Brasil maior controle do
chamado "gargalo do Atlântico", área estratégica de afunilamento do oceano,
entre os paralelos 6°S e 12°N, por meio do eixo Natal-Bissau ou Natal-Cabo
Verde (Leandro_2011). O discurso brasileiro na ZOPACAS ressalta não apenas os
interesses em comum entre os países atlânticos da América do Sul e da África,
mas também a necessidade de minimizar a presença de atores externos. Como
Miyamoto_(1987) já observou, mesmo na sua versão original o discurso oficial da
ZOPACAS ressaltava a paz e a cooperação sem abrir mão da possibilidade de
ampliação do poder naval dos países-membros.
Além da ZOPACAS, o Brasil participa da Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa (CPLP), cuja maioria dos membros está localizada na região do
Atlântico Sul ou próximo. Em março de 2010, a organização lançou o projeto de
um atlas dos oceanos da CPLP, e circularam propostas de cooperação entre os
países-membros para extensão de suas plataformas continentais, com assistência
brasileira, seguindo o modelo do Plano de Levantamento da Plataforma
Continental Brasileira (LEPLAC). Novas áreas de cooperação incluem programas de
pesquisa referentes aos fundos marinhos, tais como o Programa de Prospecção e
Exploração de Recursos Minerais da Área Internacional do Atlântico Sul e
Equatorial (PROAREA)14, pelo qual o Brasil vem pesquisando a Elevação do Rio
Grande - uma formação localizada em área internacional - a fim de efetuar o
levantamento de minerais ali existentes. Finalmente, há iniciativas para a
identificação de áreas estratégicas de interesse comum no âmbito de segurança e
vigilância marítima (SECIRM 2010). Durante reunião de ministros do Mar da
organização, o Brasil apresentou proposta para promoção da mentalidade marítima
no âmbito da CPLP por meio da criação de um "projeto pedagógico para a
mobilização de professores, alunos e sociedade civil para a importância dos
assuntos do mar como um tema da afirmação da cultura e da identidade marítima
da CPLP" nos moldes do Programa Operacional Pesca 2007-2013 (PROMAR) e sob
liderança de Portugal (Marinha do Brasil, s.d.). Além disso, em 2013 o Brasil
sediou a Operação Felino, uma série de exercícios militares da CPLP que foi
realizada no litoral do Espírito Santo, com o objetivo de capacitar as Forças
Armadas dos países participantes em áreas tais como operações de paz e missões
humanitárias.
Tais iniciativas brasileiras, tanto em cooperação militar quanto de
revalorização da ZOPACAS e de inserção da temática marítima na CPLP, fazem
parte de um esforço de construção de um "cinturão de boa vontade" que permite o
avanço dos interesses brasileiros, mesmo além da área de segurança e defesa.
Nesse sentido, nota-se uma ligeira mudança na retórica brasileira. Durante o
governo Lula, o então ministro da Defesa, Nelson Jobim, caracterizava qualquer
aumento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) no Atlântico Sul
como "inapropriada" e afirmava a região como uma área distinta do Atlântico
Norte - rejeitando, até mesmo, uma agenda comum15. Jobim também criticou como
"carta branca" o novo conceito estratégico da OTAN, que determina que a aliança
tem condição de intervir em qualquer lugar do mundo onde os interesses dos
países integrantes tenham sido lesados16. É importante notar que esse discurso
coexiste com iniciativas concretas de cooperação com países individuais da
OTAN. Por exemplo, pouco tempo após reiterar o seu apoio à posição argentina em
relação às Malvinas/Falklands, o Brasil assinou o acordo de cooperação em
defesa com a Grã-Bretanha. E, apesar de um forte discurso soberanista que
ressalta preocupações com possíveis ações unilaterais por parte dos EUA,
inclusive a renovação do SOUTHCOM e da Quarta Frota da Marinha americana, o
Brasil mantém fortes laços de cooperação com os EUA, dentro e fora da área da
defesa.
Mais recentemente, o discurso brasileiro se amplia em referência a "atores
externos à região", refletindo a inclusão de potências emergentes de fora da
região dentre os possíveis contestadores da abordagem brasileira. Tal inclusão
seria explicada pelo rápido aumento de interesses e presenças no Atlântico Sul
de atores de fora. A China, por exemplo, tem relações de cooperação com todos
os países dos dois lados do Atlântico Sul, salvo aqueles que ainda mantêm
relações diplomáticas com Taipei (Abdenur_e_Marcondes_Neto_2013). Há, por fim,
a vinculação crescente do Atlântico Sul com a Antártida, em vista dos recursos
naturais presentes no continente e que também são cada vez mais alvo de
interesse das potências emergentes.
A ecologia de atores no Atlântico Sul
Conforme apresentamos anteriormente, o processo de construção da região
liderado pelo Brasil não acontece em um vácuo de poder, e sim em um contexto de
crescente dinamismo por parte de atores de dentro e de fora da região. Alguma
contestação a respeito da narrativa brasileira já existia quando da criação da
ZOPACAS. Na época, a ZOPACAS recebeu apoio de 124 Estados-membros da ONU, mas
países europeus como Alemanha, Bélgica, França, Itália, Holanda, Portugal e
Luxemburgo, e também o Japão, decidiram pela abstenção, sendo os Estados Unidos
o único Estado-membro a ter votado contra a resolução. Tanto os países europeus
citados quanto os EUA e o Japão temiam que a resolução pudesse dificultar a
liberdade de navegação no Atlântico Sul (Rosa_2006).
Tais questionamentos também envolvem a forma como o Atlântico Sul é
identificado por alguns atores externos e internos. Para o então segundo
comandante do Comando Aliado Conjunto da OTAN, o almirante português Fernando
Melo Gomes, o Atlântico Sul era caracterizado por uma "desordem estratégica" e
pela ausência de uma "arquitectura regional de segurança efectiva" (Gomes_2006,
236). Em 2010, o Brasil expressou preocupação quanto à possibilidade de um
maior interesse da OTAN no contexto do Atlântico Sul, principalmente após a
divulgação do NATO 2020 Assured Security Dynamic Engagement, documento que
menciona a possibilidade de cooperação com países não pertencentes ao limite
geográfico da atuação da aliança. Tal possibilidade já havia se realizado, por
exemplo, no exercício final de consolidação da Força de Resposta Rápida da OTAN
em Cabo Verde, em 2006 (Gomes 2006). Além de haver ressaltado a diferença nas
questões de segurança nos contextos dos Atlânticos Norte e Sul, o ministro
Jobim afirmou em seu discurso na XII Reunião de Ministros da Defesa da CPLP
preocupação com a Iniciativa para o Atlântico Sul, proposta por Portugal e
Espanha, que visava à cooperação política entre os países da Europa, África e
América do Sul (Ministério da Defesa 2010; CPLP 2010).
As relações do Brasil com os países sul-atlânticos vizinhos também merece
destaque. Em janeiro de 2011, Brasil e Argentina assinaram acordo entre as
comissões nucleares nacionais17 para avançar o desenvolvimento do combustível
nuclear, mas que também serve para modular a rivalidade (histórica e potencial)
entre os dois países (Herz_2010). A Argentina, afinal, também se interessa cada
vez mais pelo Atlântico Sul e pela Antártida, mesmo além das Malvinas/
Falklands, e vem lançando suas próprias iniciativas de cooperação em defesa com
países africanos, em especial África do Sul, Nigéria e Angola18 19. Para a
Argentina, os encontros da Cúpula América do Sul-África fornecem uma
oportunidade para apoio político e diplomático por parte dos países africanos
em relação às reivindicações argentinas a respeito das Malvinas/Falklands20.
Apesar do maior interesse por parte da Argentina, o Brasil permanece de longe o
maior país no perímetro do Atlântico Sul - em termos de território, população,
economia e poder/capacidade de defesa. Além disso, a expansão do poder militar
brasileiro tem superado de longe os investimentos feitos pelos vizinhos sul-
americanos, em especial aqueles localizados no Atlântico Sul. Ao promover essa
identidade regional, o Brasil também amplia a sua capacidade de avançar
interesses econômicos, políticos e estratégicos, mas ao mesmo tempo tal esforço
demanda um papel cada vez mais ativo do País em relação a questões de segurança
no Atlântico Sul, especialmente na África.
Nessa empreitada, o Brasil tem a vantagem de não ter disputas com os demais
países da região. Mesmo a rivalidade com a Argentina, que chegou a incluir um
componente de corrida armamentista, foi dissipada na década de 1990. No
entanto, a abordagem brasileira pode produzir ou exacerbar certas tensões. O
antagonismo entre a Argentina e o Reino Unido ressurge com a descoberta de
reservas de petróleo offshore perto das Malvinas/Falklands. As reinvindicações
desses dois países junto à Convenção da ONU sobre Direito do Mar se sobrepõem -
um elemento de tensão ainda não resolvido (Dodds 2012a, 2012b). Certos países
da costa da África também têm fronteiras marítimas mal resolvidas, como no caso
de São Tomé e Príncipe. Finalmente, há certos focos de instabilidade na região,
tais como no Golfo da Guiné e no Mali.
Frente a esse cenário, a cooperação com os EUA no Atlântico Sul também pode ser
interpretada como uma tentativa de encontrar temas de segurança e defesa de
interesse comum, tal como o combate à pirataria no Golfo das Guiné. Oficiais da
Marinha brasileira vêm participando, na condição de observadores, de exercícios
de combate à pirataria liderados pelos EUA e contando com a presença de países
europeus, em 2012 e em 2013, na costa atlântica da África (Marinha do Brasil
2012; AFRICOM 2013). Além da troca de experiências, para o Brasil a cooperação
com os EUA serve para moderar a contestação americana decorrente não apenas da
projeção brasileira na América do Sul e na África, mas também pela concorrência
da indústria de defesa brasileira em alguns mercados.
Conclusão
O Brasil vem se mostrando como region-builder em diversos aspectos. Na sua
estratégia para o Atlântico Sul, os esforços brasileiros no âmbito doméstico
estão fortemente vinculados aos programas de cooperação em defesa, tanto no
âmbito bilateral quanto na sua dimensão multilateral. Ambos visam a fortalecer
a identidade marítima dos países do perímetro do Atlântico Sul, sublinhando não
apenas as preocupações em comum, mas também a percepção de que há uma
necessidade de proteger os recursos oceânicos de ambos os lados do Atlântico
Sul, especialmente o pré-sal. O Brasil, ao ativamente disseminar a centralidade
dos recursos marinhos na sua estratégia de defesa e nos seus esforços de
cooperação naval, se esforça para construir uma identidade regional sul-
atlântica. Tais esforços se encaixam nos tipos de comportamento identificados
pela literatura sobre a construção de regiões e observadas em outras partes do
mundo.
Tal identidade está longe de ser simétrica ou isenta de possíveis contestações.
Ao assumir um protagonismo no processo de construção da identidade sul-
atlântica, mesmo adotando um discurso de horizontalidade e enfatizando as
inciativas multilaterais, o Brasil procura aumentar sua capacidade de avançar
seus próprios interesses econômicos e políticos nesse espaço. Sendo já o maior
país da região (em termos econômicos e de capacidade militar), o aumento do
poder naval, ainda que para efeitos dissuasórios, pode alimentar a percepção de
assimetrias na região - levando a uma contestação da estratégia brasileira,
tanto por países do Atlântico Sul assim como por aqueles de fora. Para modular
essas possíveis reações, o Brasil adota um posicionamento que combina
distanciamento e cooperação - às vezes, em relação ao mesmo parceiro. Apesar de
o Brasil ter superado sua rivalidade com a Argentina, o aumento da capacidade
militar brasileira não passa despercebido em Buenos Aires. Ao mesmo tempo em
que o Brasil reitera seu apoio à posição argentina em relação às Malvinas/
Falklands e avança na implementação de um acordo de cooperação na área de
energia nuclear, ele amplia sua cooperação em defesa com a Reino Unido. Com os
EUA, a cooperação e o distanciamento presentes na estratégia brasileira são
ainda mais aparentes, envolvendo tanto uma rejeição a uma presença ampliada dos
EUA e da OTAN no Atlântico Sul quanto uma colaboração frente a ameaças comuns.
Na construção de uma identidade sul-atlântica que beneficie o Brasil, a
estratégia brasileira poderia ainda vir a exacerbar certas tensões (diretamente
ou não relacionadas ao Brasil). Por exemplo, a cooperação no levantamento das
plataformas continentais e a formulação de propostas de expansão legal das
águas jurisdicionais podem estimular na região um novo territorialismo
marítimo. Considerando a existência de focos de tensão entre certos atores no
Atlântico Sul, as iniciativas em curso fomentam uma maior disposição
competitiva em relação aos recursos e espaço marítimos. Portanto, ao avançar
sua estratégia de consolidação de uma identidade sul-atlântica, o governo
brasileiro deve levar em conta a multiplicidade de interesses no Atlântico Sul,
assim como a possibilidade de outros atores construírem narrativas
concorrentes.