A discreta transição da Coreia do Norte: diplomacia de risco e modernização sem
reforma
A República Popular Democrática da Coreia/RPDC (Coreia do Norte) é um dos
Estados menos conhecidos e difíceis de compreender do mundo, e uma das razões
disso é a contínua criação política de narrativas ideológicas caricaturais
promovidas por atores Ocidentais. Mesmo no meio acadêmico, constitui um tema
tabu, o que prejudica a análise de processos em curso, que passam
despercebidos. Apesar de considerada um fóssil da Guerra Fria, sempre no limite
do colapso, o que se observa é uma população que demonstra vitalidade e um
hábil regime que domina a arte da política e da diplomacia. Senão, como
explicar sua sobrevivência numa situação permanentemente adversa? Todavia, a
questão que será abordada, é a existência de um peculiar processo de transição
por parte da nova liderança, que busca uma paradoxal modernização sem reforma.
Uma estratégia insensata e suicida, ou sua reelaboração, com base em sólidas
tradições políticas?
Condicionantes históricos do nacionalismo e da revolução
A Coreia constitui uma nação antiga, homogênea e de notável continuidade
histórica, que realizou uma das revoluções menos conhecidas no Ocidente, e a
divisão da península, por razões diplomáticas, fez com que a revolução ficasse
restrita ao Norte, embora fosse um fenômeno nacional. O país constitui a única
nação completamente encravada entre grandes potências: China, Rússia, Japão e,
pela projeção de poder na região, Estados Unidos. Esta circunstância
condicionou sua política externa, tanto como país unido e subjugado ao Japão
que foi no passado, quanto posteriormente como nação dividida por uma guerra
civil e pela rivalidade internacional da Guerra Fria. Ainda que assegurando
forte identidade, unidade e continuidade histórica, a Coreia gravitou, ao longo
de sua evolução, entre o sistema tributário chinês, o isolamento e a interação
com o Japão. Esta situação, contudo, enfraqueceu-se desde meados do século 19,
na medida em que a China era progressivamente subjugada pelas potências
ocidentais e pela derrota frente ao Japão em 1894-1895, o qual derrotou a
Rússia em 1904-5 e anexou a Coreia em 1910.
O colonialismo japonês na Coreia foi peculiar. Ainda que oprimindo política e
culturalmente os coreanos e explorando-os como mão de obra barata, os japoneses
criaram uma infraestrutura moderna no país (transporte e administração), bem
como uma base industrial e mineradora consideráveis. Isso se devia não apenas a
um projeto assimilacionista e à proximidade entre o arquipélago e a península,
mas também à própria estrutura da economia japonesa e às circunstâncias
regionais. Dessa forma, a Coreia, ainda que permanecesse como um país de
desenvolvimento limitado teve um processo de modernização repleto de
consequências sociais, políticas e econômicas. A dominação estrangeira
estimulou o nacionalismo coreano e a transição para a uma estrutura
socioeconômica modernizada.
Dominada pelo Japão e constituindo sua linha de frente no continente, a Coreia
fazia fronteira com a China, mergulhada na guerra civil, e com a Rússia,
convertida em União Soviética. Esta, além da recuperação de sua posição de
potência, passou a constituir uma base de apoio aos movimentos nacionalistas
coreanos que emergiam, da mesma forma que os comunistas chineses. Este processo
se aprofundou com a invasão japonesa da Manchúria e, depois, do resto da China,
com uma vaga de refugiados coreanos e o estabelecimento de guerrilhas
esquerdistas na fronteira sino-coreana. Enquanto muitos coreanos se uniam às
guerrilhas comunistas chinesas, outros seguiam operando na região fronteiriça
e, ocasionalmente, se refugiando na URSS, onde recebiam treinamento. Em 1925,
havia sido fundado o Partido Comunista Coreano e, em meados dos anos 1930, os
japoneses consideravam o jovem Kim Il Sung como um dos mais perigosos líderes
guerrilheiros na fronteira da Manchúria e da Coreia (Scalapino_1972).
A Coreia e o nordeste da China, ao longo da Segunda Guerra Mundial, tornaram-se
uma praça de armas para os japoneses, zona de posicionamento de reservas
militares e de centros industriais, por estar imune aos bombardeios americanos.
Dessa maneira, quando o conflito chegava ao seu final, a URSS foi instada a
atacar os japoneses nesta região, o que se deu em agosto de 1945,
simultaneamente ao bombardeio nuclear das cidades de Hiroshima e Nagasaki. Mas
nada fora acordado sobre a Coreia, dividida de forma ad hoc.
A divisão da Coreia resultou da confluência da clivagem sociopolítica interna
com a partilha geográfica da península coreana entre os Estados Unidos e a
União Soviética, na altura do paralelo 38. A resistência antijaponesa havia
estabelecido comitês populares imediatamente após a rendição do Japão, porém,
ao sul da linha demarcatória, os EUA mantiveram as unidades pró-japonesas em
funções de polícia, dissolvendo os comitês, que se mantiveram apenas no norte.
Uma situação de transitoriedade vigorou até 1948, com uma ocupação militar que
desrespeitava o direito à autodeterminação dos coreanos, que esperavam sua
libertação com a derrota do militarismo japonês.
Contudo, em seguida o equilíbrio estratégico asiático estruturado pelos EUA
iria desabar. Washington derrotara o Japão e procurava fortalecer a posição da
China, governada pelo Kuomintang, concedendo-lhe ajuda econômica e militar,
tornando-a um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Esta frágil e
pouco realista arquitetura diplomática, contudo, desmoronou devido ao triunfo
da Revolução Chinesa e à proclamação da República Popular da China em 1º de
outubro de 1949. Assim, o estabelecimento de dois Estados coreanos, com regimes
políticos opostos e estreitamente ligados às potências líderes de cada um dos
dois blocos, viria a se tornar ainda mais problemático, com a criação de um
regime socialista na China.
A guerrilha antijaponesa e os movimentos nacionalistas da Coreia criaram
Comitês Revolucionários por todo o país, os quais se reuniram em assembleia em
Seul e proclamaram a República Popular em 6 de setembro de 1945. Dois dias
depois, os americanos desembarcaram e ocuparam o sul da Coreia, enquanto
dissolviam os Comitês, efetuavam prisões e traziam dos EUA Syngman Rhee para
formar um governo apoiado nos notáveis pró-japoneses. No norte, manteve-se a
República Popular, liderada pelo jovem comunista Kim Il Sung, e foi
implementada uma reforma agrária que consolidou o apoio ao regime. Uma comissão
da ONU declarou Syngman Rhee governante do sul, apesar da violência política.
Em 1948, eclodiram revoltas populares nas províncias sulistas de Yosu e Cheju
Do, e líderes moderados pró-unificação foram assassinados, ao passo que os
soviéticos, se retiravam do norte (Armstrong_2003).
Ao lado de graves problemas internos, Rhee passou a enfrentar uma ameaça
externa ainda maior. Em janeiro de 1950, o Secretário de Estado Acheson
declarou que o perímetro defensivo americano se estendia das Aleutas (no
Alasca) às Filipinas, passando pelo Japão (o que excluía Formosa e Coreia do
Sul). A resposta da direita republicana e democrata foi imediata: MacArthur
conseguiu o envio da esquadra para o estreito de Formosa e insuflou um clima de
guerra com apoio dos ameaçados Chang e Rhee (que acabara de ser derrotado nas
eleições legislativas). As provocações sul-coreanas na fronteira multiplicaram-
se (assassinato de emissários, incursões militares e discursos ameaçando
invadir o norte), e Kim Il Sung passou a se preparar militarmente, sobre o que
Dulles e MacArthur propositadamente silenciaram. Assim como em Pearl Harbor, um
"ataque traiçoeiro" precipitaria uma guerra legitimada.
No dia 25 de junho de 1950 as tropas norte-coreanas cruzaram o paralelo 38 e
conseguiram avançar rapidamente. O desencadeamento da guerra era resultante de
circunstâncias internas (a guerra civil iniciada dois anos antes), regionais (a
nova geopolítica da Ásia Oriental) e mundiais (resposta soviética ao
desencadeamento da Guerra Fria na Europa). Em dois meses, o exército norte-
coreano controlou quase todo o sul, cercando americanos e sul-coreanos no
perímetro de Pusan. Entretanto, com o desembarque dos marines em Inchon (ao
lado de Seul), as forças comunistas recuaram para evitar o cerco. Duas semanas
depois (1º de outubro), as forças da ONU, comandadas por MacArthur, cruzaram a
fronteira, buscando produzir um fato consumado que extrapolava a decisão da ONU
(retorno ao paralelo 38).
Segundo o General Bradley, "o maior perigo que o Ocidente tinha de enfrentar
era a possibilidade de que os EUA pudessem 'baixar a guarda' após haver obtido
a vitória na Coreia" (apud Horowitz_1973,_82). Até a invasão do norte, o número
de mortos fora insignificante, e só então teve início o massacre que custou
quatro milhões de vidas. Os chineses advertiram que não tolerariam a destruição
da Coreia do Norte, de modo que, quando MacArthur ocupou Pyongyang, a capital,
e aproximou-se do rio Yalu, eles iniciaram seus preparativos militares.
Em novembro, tropas chinesas entravam na luta, derrotando as forças da ONU. A
reação americana foi praticar uma política de terra arrasada, utilizando o
napalm e ameaçando lançar bombas atômicas. O país inteiro foi reduzido a
escombros, enquanto os combates continuavam. Certo equilíbrio foi atingido no
início de 1951, em torno do paralelo 38, embora os combates prosseguissem até
meados de junho, quando se iniciou um cessar-fogo seguido de negociações. Para
que isso pudesse ocorrer, Truman teve de destituir MacArthur.
A compreensão do ethosnorte-coreano depende do conhecimento das origens do
regime (guerrilha antijaponesa) e, principalmente, do impacto que a guerra teve
sobre o país. Tratou-se de uma guerra de extermínio, com o uso de napalm e
bombardeios massivos para destruir todas as cidades e infraestrutura, com
ameaça nuclear explícita, em que chegou a ser defendida a criação de um
corredor radioativo de 50-60 km junto à fronteira com a China. Como resultado
disso, o país desenvolveu uma mentalidade de bunker e, efetivamente, centenas
de km de túneis e 15 mil refúgios profundos foram construídos, abrigando
depósitos de mantimentos e armamentos, hospitais, fábricas, hangares para
aviões e refúgios para as pessoas. O medo de um ataque nuclear remonta a esta
época, inclusive porque os EUA estacionaram armas atômicas na Coreia do Sul e
no Japão.
Harold Lasswell, em um clássico artigo de 1941, definiu the Garrisson State
(Estado militar, caserna ou guarnição) como "o que os especialistas em
violência constituem o grupo mais poderoso da sociedade" (Lasswell 1941, apud
Cumings_2004,_1). Segundo Bruce Cumings, "a Constituição da RDPC proclama
'armar toda a sociedade e transformar todo o país numa fortaleza'" (2004, 1).
Numa população de 23 milhões de habitantes, há um exército de um milhão, além
de seis milhões na reserva e do fato de que esmagadora maioria da população tem
treinamento e experiência militares. Isso tudo devido ao trauma da guerra.
Outro ponto importante foi o estabelecimento de um culto à personalidade do
líder e de uma sociedade corporativa, porém igualitária (apesar dos privilégios
dos dirigentes). Ela associou a visão do marxismo europeu clássico a uma
tradição asiática de Estado confuciano, com destaque à continuidade da
liderança. A ideia de unidade em torno do regime e um sólido nacionalismo são
suas características marcantes (Cumings_2004). E, finalmente, o papel da
ideologia é central. Kim Jong Il, a propósito da queda da URSS, argumentou que
se tratava de falta de doutrinação da juventude. Segundo ele, "a consciência
desempenha um papel decisivo na atividade do ser humano. [...] O fator básico
que dá ímpeto ao desenvolvimento social deve ser sempre adscrito à consciência
ideológica". Pode-se dizer que se trata de uma nação onde a ideologia joga um
papel essencial (Kim_Jong_Il_1995,_7).
Após o conflito, a Coreia do Norte se encontrava completamente destruída:
cidades, pontes, represas e sistemas de irrigação, minas, fazendas, estradas e
ferrovias. A URSS e a China ajudaram os norte-coreanos em termos técnicos e
financeiros, mas foram eles próprios que arcaram com o esforço humano,
exclusivamente. Tal façanha deu à população um grande sentido de autoestima e
de proximidade com o regime. Ainda na década de 1950 a reconstrução estava
concluída e a sociedade industrial, consolidada. Para tanto foi necessário
socializar completa mente a economia, regida por planos quinquenais, e associá-
la às economias dos países socialistas. Aliás, foi a terrível destruição
econômica e social da guerra que permitiu construir uma economia socialista sem
as tensões que normalmente acompanham um processo de transição do capitalismo
ao socialismo. E como o norte já era uma sociedade relativamente urbanizada
antes da guerra, desde aquela época foi possível fazer uma reforma agrária e
criar uma agricultura estatal ou cooperativa.
O conflito acarretaria a destruição da península e um empate militar, que
consolidava a situação anterior. A China ficava irremediavelmente envolvida com
a península, zelando pela manutenção do regime de Pyongyang como um Estado-
tampão, que mantinha as forças americanas afastadas de suas fronteiras. O
exército chinês, apesar de suas deficiências, mostrara-se capaz de enfrentar a
maior potência do planeta, mas a possibilidade de incorporar Taiwan ficava
afastada por tempo indeterminado. Já os EUA revertiam sua perspectiva anterior,
apoiando a reconstrução do Japão, sob um regime de soberania limitada.
Enquanto o regime do norte gozava de legitimidade interna e estabilidade, o do
sul era permanentemente contestado por amplos setores da população, além de
depender economicamente da ajuda externa, fundamentalmente norte-americana.
Assim, a propaganda de Pyongyang tinha relativa facilidade em apresentar o
regime de Seul como "marionete dos EUA". Contudo, ambos os países eram
reconhecidos apenas pelos membros dos blocos em que se inseriam, não sendo
admitidos na ONU. Neste sentido, era fundamental para cada um dos regimes
polarizar suas políticas internas, como forma de obter legitimidade
internacional dos respectivos blocos, bem como ajuda externa.
Condicionantes políticos do socialismo Juche
Com relação à economia coreana, Cumings_(2004,_477) chama a atenção para sua
busca pela autossuficiência e pelo desenvolvimento autônomo:
A Coreia do Norte oferece o melhor exemplo de retiro consciente do
sistema mundial capitalista no mundo pós-colonial em desenvolvimento,
bem como uma tentativa séria de construção de uma economia
independente, autônoma; como resultado, observamos, hoje, à economia
industrial mais autárquica do mundo. [Mas] a Coreia do Norte nunca
permaneceu ociosa, sempre avançou. Esta foi uma retirada com
desenvolvimento e uma retirada para o desenvolvimento. A
autossuficiência foi, ademais, autossuficiência em relação ao bloco
soviético, porém com menos perseverança: [ela] recebeu grande
quantidade de ajuda econômica e assistência técnica da URSS e da
China (ainda que longe do que recebeu o Sul dos EUA e do Japão).
A RDPC contou com uma economia socialista dirigida pelo Estado, com base em
planos de longo prazo e com forte ênfase no desenvolvimento da indústria
pesada. O crescimento industrial durante o Plano Trienal 1953-1956
(reconstrução) foi de 41,7%, e o crescimento foi mantido durante toda a década
de 1960, com o lançamento do Primeiro Plano de Sete Anos 1961-1967. Neste
período, o crescimento da Coreia do Norte superava em muito o crescimento do
sul. Nos anos de 1970, porém, a RDPC já havia esgotado o potencial de
desenvolvimento extensivo de sua indústria, com base em sua própria tecnologia,
na tecnologia soviética e na tecnologia japonesa da época colonial. Por isso, a
Coreia do Norte voltou-se ao Ocidente a ao Japão para a compra de plantas
industriais completas, reduzindo parcialmente seu isolamento. Na mesma época, a
industrialização do Sul começava a gerar seus primeiros frutos, de forma que a
renda per capita do sul e do norte ficaram em níveis bastante próximos.
A Coreia do Norte também logrou importantes êxitos nas áreas rurais desde a
reforma agrária levada a cabo em 1946. A coletivização da agricultura, todavia,
só teve início após a Guerra da Coreia, com o surgimento de cooperativas, a
partir de 1954. Nestas cooperativas, com configuração territorial igual à das
antigas aldeias, os camponeses continuavam tendo o direito de transferir as
terras que habitavam por herança, ainda que não fossem proprietários das terras
em que trabalhavam, e eram recompensados economicamente de acordo com a
produtividade de seu trabalho. Nos anos de 1958-1960, o governo norte-coreano
promoveu uma revolução técnica no campo, que se deu com (a) irrigação; (b)
eletricidade; (c) mecanização; e (d) quimização. Estas condições fizeram com
que o país atingisse relativa autossuficiência alimentar.
Pyongyang foi obrigada a manter relações de equilíbrio com os dois gigantes
comunistas que, desde o 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética
(1956), divergiam e competiam de forma cada vez mais explícita. Se a ajuda
econômica da URSS era mais substancial, a postura diplomática de Moscou face ao
Ocidente, desde a afirmação da Coexistência Pacífica, era percebida como uma
ameaça potencial. Assim, era preciso contar mais com a China no campo
estratégico, durante este período, e flanquear as divergências entre os dois
aliados. Em parte, isso foi possível porque para a URSS o cenário asiático era
secundário nesta fase.
A rivalidade sino-soviética contribuiu, em grande medida, para a afirmação do
conceito Juchena Coreia do Norte, que enfatizava autoconfiança, a independência
e emprego das próprias forças, o que parecia paradoxal, considerando-se que a
tensão existente na península (tropas americanas e armas nucleares no sul)
demandava apoio chinês e soviético para a segurança do norte. Assim, Kim Il
Sung foi suficientemente hábil para criar um espaço de independência entre
Moscou e Pequim, sem tomar partido na disputa, alterando a ênfase de sua
aliança em cada conjuntura e garantindo a maior autonomia possível, o que
implicava a existência de um regime bastante fechado ao exterior, inclusive em
relação aos aliados.
No início da década de 1970, a região da Ásia Oriental sofreu uma transformação
estratégica profunda, pois a China se aproximou dos EUA (Diplomacia do Ping-
Pong), voltada contra a URSS. A Coreia do Norte viu sua posição se tornar mais
precária nas relações com os países socialistas, especialmente a China, quando
esta passa a integrar o Conselho de Segurança da ONU. Para Pyongyang e Pequim,
a ONU constituía, até então, uma instituição ameaçadora do sistema
internacional, considerada instrumento da estratégia norte-americana. Assim, a
nova política externa chinesa enfraqueceu os laços de solidariedade sino-norte-
coreanos, forjados durante a Guerra da Coreia.
Esta situação se agravaria com a Perestroika,que conduziu à normalização com a
China e à busca de contatos com a Coreia do Sul, sobretudo no campo econômico.
Esta formulou a chamada Nordpolitik, de acercamento com os países socialistas,
tirando proveito da nova conjuntura internacional. Ocorreu o reatamento com a
URSS, em 1990, o que Pyongyang considerou como "traição". Assim, aumentavam os
problemas diplomáticos da Coreia do Norte, que aprofundava então, como
estratégia compensatória, sua atuação no Movimento dos Países Não Alinhados e
junto ao Terceiro Mundo.
Songun, estratégia militar de sobrevivência
Quando o governo chinês reprimiu a manifestação de Tiananmen, a Coreia do
Norte, em nome da conservação do sistema socialista, apoiou Pequim, e a Coreia
do Sul evitou tomar posição ao lado do Ocidente, mantendo a cooperação
econômica com a China. Com Pyongyang, Pequim estreitava os laços político-
militares, pois o socialismo não poderia sofrer outra derrota, que afetaria o
equilíbrio interno da China, privando-a, simultaneamente, de um importante
ponto de apoio para sua defesa. Pyongyang adotou, então, o que ficou conhecido,
posteriormente como política do Songun, a prioridade militar como estratégia de
sobrevivência. As forças armadas passaram a ocupar o centro do cenário
político, especialmente com Kim Jong Il (Choi_1999; Ri 2014; Park_2010).
Contudo, ainda que o apoio político-militar chinês tenha sido garantido, a
cooperação econômica agora se daria no âmbito das reformas, que a vulnerável
Coreia do Norte não desejava implementar. Enquanto isso, a URSS entrava em
agonia, e a cooperação econômica se deteriorava, agravando ainda mais a
situação do país. Como a China se reaproximou e reatou com a Coreia do Sul
(formalizado em 1992), a Coreia do Norte foi estimulada por Pequim a buscar
alguma forma de concertação com os EUA, Japão e Coreia do Sul, para evitar o
isolamento e o colapso do regime. Dessa forma, iniciaram-se conversações de
alto nível entre as duas Coreias, que ingressaram conjuntamente na ONU em 1991.
Já Washington necessitava manter sua presença militar no Japão e na Coreia do
Sul, bem como articular com esses países um sistema de defesa antimísseis
voltado contra a China e a Rússia (TMD - Theater Missile Defense). O elemento
legitimador de tal política será a virtual e sempre exagerada ameaça militar da
Coreia do Norte, mostrada como um país governado por fanáticos e desesperados,
capazes de uma atitude de consequências imprevisíveis no plano internacional
(Haggard_2007). No entanto, não apenas o regime norte-coreano controlava
solidamente o país, mas também agia de forma calculada nas diversas conjunturas
diplomáticas. Daí o estabelecimento de um diálogo permanente e, até mesmo,
cordial, entre Washington e Pyongyang, durante a administração Clinton
(Harrison_2002).
Este quadro se somava ao difícil desenvolvimento das negociações intercoreanas,
iniciadas no princípio da década. Mas, em 1994, o líder comunista faleceu,
interrompendo-se temporariamente os contatos (luto de três anos). Num quadro de
indefinição e de sucessão, ocorreu um conjunto de crises. Por um lado, foram
anos de provação (a Marcha Penosa). Duas enchentes gigantescas e uma seca
provocaram uma crise alimentar no norte, sendo necessária a ajuda
internacional. Com o colapso da URSS a Coreia do Norte perdera o fornecimento
de petróleo subsidiado, de insumos para suas fábricas de fertilizantes e
cimento e peças de reposição para os maquinários. Assim, a agricultura e a
indústria sofreram drástica redução. E a China agora só vendia a preço de
mercado e em moeda conversível. O país sobrevivia vendendo armamentos, minérios
e pescados, além de depender cada vez mais da remessa financeira da Associação
dos coreanos residentes no Japão (dois milhões), que é pró-Pyongyang, oriunda
de uma loteria instituída para este fim.
Face aos problemas econômicos, a Coreia do Norte tentou fazer uma reforma
monetária, que causou forte reação de amplos setores, inclusive com inéditos
protestos. O governo acabou recuando e adotando medidas mais graduais. O
reforço das zonas econômicas especiais apenas atenuou a situação de penúria.
Nesse contexto, Kim Jong Il foi à China em 2011 para, finalmente, estudar as
reformas chinesas e buscar aplicá-las na Coreia do Norte.
No plano da segurança, com o endurecimento da administração Bush, Pyongyang
buscou explorar ainda mais a cartada nuclear como último trunfo, desenvolvendo
uma estratégia calculada de tensões. O que o regime deseja é um acordo com os
EUA, que garanta de forma multilateral sua segurança, e a obtenção de ajuda
econômica para renovar sua estrutura produtiva. Todavia, nada indica que o
Norte possa simplesmente entrar em colapso, contrariando os prognósticos mais
pessimistas. E mais ainda, impressiona a capacidade de autonomia que o regime
demonstra ao tratar com adversários, como os EUA, e amigos, como a China.
Decididamente, não deseja ser uma moeda de troca entre os grandes poderes.
Apesar de tudo, nos anos 2000, a Coreia do Norte conseguiu amenizar a crise
econômica e garantir a continuidade do regime. Já no plano externo, a
recuperação se deveu, especialmente, aos investimentos chineses, à aproximação
econômica com a Coreia do Sul - com o estabelecimento da Zona Industrial de
Kaesong (ZIK), em 2002, e com a criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEE) ao
longo da fronteira -, e à barganha política com os EUA acerca de seu programa
nuclear - sobretudo após o Acordo Quadro de 1994 e a criação das Six Party
Talks,em 2003.
As primeiras reformas econômicas foram anunciadas em meados de 2002, em um
contexto de grave crise econômica - marcada pela estagnação industrial, pela
grande escassez alimentícia, e, sobretudo, pela necessidade de obter ajuda
externa. A "Perestroika à la Pyongyang" visava, primordialmente, a aumentar o
nível de monetarização da economia, o que foi feito, inicialmente, através de
mudanças nos preços, acabando com parte dos subsídios governamentais aos bens
alimentícios básicos. Logo em seguida, foi encorajado certo empreendedorismo e
foram oficializados os pequenos mercados onde os agricultores vendiam sua
produção excedente, ainda que o governo procurasse manter certo controle sobre
os bens vendidos e fixando limites para as variações de preços. Essa medida foi
complementada com a revisão da Lei Comercial, em 2004, favorecendo o aumento da
autonomia das transações de mercado internas e o crescimento do comércio
exterior norte-coreano (Eberstadt_2007).
Não obstante, tais reformas se mostraram insuficientes para reativar a economia
do país, sendo o sistema de distribuição estatal de bens alimentícios
reimplantado em 2005, seguido pelo fechamento dos mercados privados (Lister
2010). A economia norte-coreana decaiu ainda mais com as sanções econômicas
internacionais decorrentes de seu primeiro teste de um míssil de longo alcance
(Taepodong-I), em julho, e de seu primeiro teste nuclear, em outubro de 2006.
Novas sanções foram ainda mais duras, em 2009, em resposta ao segundo teste
nuclear, e que contribuíram para a forte crise econômica que se seguiu à
tentativa de reforma monetária e de retorno à economia planificada.
Todavia, o governo logo descobriu que não era mais possível retornar às
condições anteriores a 2002, uma vez que não tinha mais condições de garantir a
quantidade necessária de suprimentos para restaurar a economia planificada,
devido às sanções internacionais e à suspensão do auxílio da Coreia do Sul. Com
o fracasso da reforma monetária, portanto, todas as demais medidas foram
abandonadas já em fevereiro de 2010. Ademais, a China abandonou a posição
ambígua em que esteve nos últimos anos - ora fornecendo subsídios, ora
pressionando pela a desnuclearização do país -, e passou a estreitar laços com
a Coreia do Norte, envolvendo em grandes projetos de cooperação bilateral.
A segunda sucessão e o retorno do Partido
Embora alguns analistas apresentem o processo sucessório que conduziu Kim Jong
Un à presidência como apressado devido aos problemas de saúde de Kim Jong Il,
as mudanças em curso na RPDC tiveram início nos últimos anos de seu governo.
Após o derrame ocorrido em 2008, o líder norte-coreano adotou uma dupla
estratégia para garantir estabilidade política interna. Em primeiro lugar,
foram tomadas importantes medidas para revigorar o Partido do Trabalho da
Coreia e seu aparato, com vistas a criar um novo ambiente interno para seu
sucessor. Depois, na Terceira Conferência do Partido, em 2010, foram anunciados
novos nomes para o Bureau Político, Secretariado, Comissão Militar Central e
Comitê Central. Com as novas indicações, Kim Jong Il tentou assegurar a
assistência e a instrução do futuro presidente na condução política do país
(Yang_2010).
A recuperação da antiga e desgastada estrutura do Partido, colocado em segundo
plano com a política Songun(de fortalecimento militar), foi uma medida crucial
para garantir a sucessão. Todavia, é importante lembrar que, ainda em 2009,
houve uma revisão da Constituição de 1998, que fortaleceu a organização da
Comissão de Defesa Nacional, principal órgão decisório do país, e que promoveu
o General Jang Song Thaek (marido da tia de Kim Jong Un) a vice-presidente.
Jang Song Thaek praticamente controlou a administração norte-coreana até que
Kim Jong Il se recuperasse. Desde 2010, com o fortalecimento da Comissão de
Defesa Nacional e com a morte de seus dois principais rivais, Ri Je Gang e Ri
Yong Chol, Jang Song Thaek foi o segundo homem mais poderoso do país, liderando
tanto o Partido como as Forças Armadas, além da incumbência de zelar pela
transição de poder. Ao considerarmos a peculiar estrutura institucional da
RPDC, há razões para acreditar que o inédito julgamento público e a execução de
Jang Song Thaek representou o desfecho de uma disputa pelo poder que começou a
ser travada a partir dos problemas de saúde de Kim Jong Il.
Por outro lado, a reforma monetária de novembro de 2009, ainda que de
resultados limitados, acabou por enfraquecer a influência dos militares. No ano
seguinte, Kim Jong Un já controlava o aparato de inteligência norte-coreano,
permitindo-lhe examinar cuidadosamente as características e projetos da elite
governante do país. Mas era necessário recuperar a economia, de forma a evitar
crises de maior profundidade no momento da transição. Daí o esforço feito por
Kim Jong Il para restabelecer a base industrial do país e buscar aumentar a
cooperação com parceiros, como a China.
Desde que assumiu o poder, em dezembro de 2011, Kim Jong Un colocou em prática
suas políticas, utilizando os centros de decisão coletiva do Partido, como o
Bureau Político do Comitê Central, bem como suas reuniões plenárias, e a
Comissão Militar Central (Kim 2014). Além disso, Kim Jong Un tem contato
frequente com o público e demonstra grande interesse pelo desenvolvimento
econômico do país e pela melhoria da qualidade de vida da população, o que
revela um estilo de liderança onipresente semelhante ao do seu avô, Kim Il Sung
(sem falar na semelhança física) e distinto de seu pai, o reservado Kim Jong
Il.
No final de 2008 e início de 2009 já era possível observar a convergência
política, o que conduziu a um novo equilíbrio entre civis (Partido) e
militares. Logo após a morte de seu pai, Kim Jong Un demonstrou uma liderança
consistente, revelando que sua preparação para a sucessão iniciou muito antes
de sua designação oficial. O novo presidente logrou, sem dúvida, exercer sua
influência sobre o Partido, as Forças Armadas e demais órgãos de segurança.
Duas semanas após a morte de Kim Jong Il, em 17 de dezembro de 2011, Kim Jong
Un foi designado Comandante Supremo do Exército Popular da Coreia, ocasião em
que lançou as bases de sua liderança ao promover mudanças na cúpula do
estamento militar.
Em seguida vieram as alterações na estrutura do Partido e a promulgação de
emendas constitucionais, quando, então, Kim Jong Un foi designado às mais altas
posições no Partido - Primeiro-Secretário e Primeiro Presidente da Comissão de
Defesa Nacional - finalizando, quatro meses após a morte de seu pai, a
transmissão oficial de poder (sucessão que seu pai levou quatro anos para
concluir). Em julho de 2012, o novo líder foi investido de um título adicional,
o de Marechal da República. Embora muitos analistas tentem reacender o conceito
de poder absoluto do líder, a rapidez que marcou a consolidação do poder de Kim
Jong Un revela a sua habilidade em estabelecer uma liderança coletiva e
renovada, com uma composição que garantiu ampla base de apoio nas instituições,
além de recuperar o estilo popular e carismático de seu avô, que se traduz no
apresso da sociedade coreana. Esse aspecto é visível nas aparições públicas do
presidente, bem como seu envolvimento direto (quase cotidiano) nas mais
variadas pautas sociais.
É importante lembrar que o risco de uma intervenção militar na RPDC é percebido
como real não apenas nas instâncias de poder, mas, fundamentalmente, pela
sociedade coreana, que tem viva na memória a violência da guerra. Assim sendo,
o desenvolvimento do programa nuclear como recurso de dissuasão foi apoiado
amplamente, mesmo nos períodos de penúria. Hoje, ocorre o desenvolvimento
paralelo do programa nuclear e da economia, baseado na lógica da Linha
Byungjin. Ela estabelece que o escudo nuclear e missilístico permite liberar
recursos para outros setores da economia, ao mesmo tempo em que garante a
segurança e a soberania do país. Aos poucos, essa lógica vem assumindo o papel
de principal eixo para definir as políticas norte-coreanas. Kim Jong Un, ao
lançar a Linha Byungjin, define os limites de atuação do Partido e das Forças
Armadas, corrigindo as (necessárias e conjunturais) distorções anteriores.
A atual orientação estipula que os militares se dediquem às atividades
militares e os civis às atividades civis, em uma clara revisão à política
Songun, que priorizou o Exército Popular da Coreia como instituição e
fortaleceu os funcionários militares em relação aos funcionários civis em geral
e os do Partido em particular. Apesar de o setor militar ser fundamental para o
regime norte-coreano, tudo indica que ele está sob o controle do presidente. O
exército convencional, cuja modernização seria caríssima, cede espaço à força
de dissuasão tecnologicamente avançada, operada por outra geração de militares.
É possível uma modernização sem reformas?
As rápidas mudanças promovidas por Kim Jong Un reacenderam as expectativas de
reforma econômica. Entretanto, o regime norte-coreano observa a questão com
muita cautela. Ao pensar em reformas, seria improvável que a RPDC seguisse o
caminho chinês, por exemplo. Em primeiro lugar, as reformas chinesas dos anos
1970 ocorreram em condições mais favoráveis diante da conjuntura política
interna e externa. A aproximação com os Estados Unidos e com o Japão (e a sua
consequente projeção estratégica), certamente facilitaram a implementação
dessas reformas pela ausência de relações conflitivas. As relações da RPDC com
esses países e com a Coreia do Sul permanecem tensas, apesar da recente
reaproximação com os sul-coreanos. A constante ameaça externa, as recorrentes
crises militares, as condições específicas produzidas pela divisão do país
(potencialmente desestabilizadoras) não constituem um cenário favorável para
reformas mais rápidas. Entretanto, é visível o impulso de modernização do
Estado e da economia.
Para se ter uma ideia, entre fevereiro e abril de 2014 houve um aumento dos
exercícios militares conjuntos dos Estados Unidos e da Coreia do Sul e há
previsão de novas manobras - um porta-aviões está estacionado na costa sul-
coreana para a realização de tais manobras. Evidentemente, não há interesse em
desencadear uma guerra contra a RPDC devido à sua capacidade de defesa, mas,
hoje, 28 mil militares norte-americanos estão na Coreia do Sul. Assim, seja
através da tentativa de constrangimento militar ou pela via oportunizada pelas
Nações Unidas, Estados Unidos e Coreia do Sul tentam aumentar as sanções contra
a RPDC. Nesse quadro, os norte-coreanos optaram por um caminho seguro e que
evite o suicídio político e físico. Dificilmente o que aconteceu na Rússia e na
Europa Oriental aconteceria na RPDC, ou seja, poucas chances a elite política
norte-coreana teria de se integrar a um sistema capitalista se o regime for
derrubado. Se isso acontecesse, os sul-coreanos ocupariam os postos mais
relevantes da economia (Lankov_2013; Lee_2011). Assim, é improvável que, em um
cenário de reunificação, os norte-coreanos pudessem renascer no capitalismo,
tendo em mente a experiência da unificação alemã em 1990.
Há, no entanto, fatores que podem se tornar indutores de mudanças econômicas.
Na Zona Especial de Kaesong voltam a operar joint ventures entre empresas
estatais do Norte e privadas do Sul (Thompson_2011). No extremo norte foi
criada a Zona de Ranjin, com um moderno porto conectado ao nordeste da China e
à Rússia, que abriga empresas de vários países. E cada pedaço de terra
disponível é cultivado no rochoso e montanhoso país, num esforço para manter a
segurança alimentar. Busca-se uma modernização própria, que deve ser
acompanhada da aceitação internacional e, especialmente, do estabelecimento de
relações diplomáticas e econômicas com os Estados Unidos (com um acordo de paz)
e a garantia de respeito ao regime. Objetivos que não seriam alcançados com a
desnuclearização unilateral.
Ao lado das imagens onipresentes dos cultuados líderes, proliferam celulares e
computadores (com intranetnacional), sinalizando modernização. Pessoas bem
vestidas, saudáveis, disciplinadas e cordiais levam uma vida aparentemente
normal (muito mais relaxada e segura que a nossa), apesar das tensões
militares, e desfrutam dos modernos parques de diversão e centros culturais e
esportivos. Há muita esperança no atual processo de renovação e uma vontade de
superar o isolamento, que é mais imposto de fora para dentro, obrigando-os a
uma resposta equivalente por razões de segurança.
Independente da discussão proposta por alguns analistas sobre o tempo de vida
do regime norte-coreano diante do poder do mercado, a RPDC seguiu uma caminho
próprio, fortemente baseado na Ideia Juche que postula, mais que
autossuficiência, autonomia. Assim, como outros Estados construídos pela via da
revolução social e da opção socialista, os norte-coreanos construíram o Estado
e a Nação considerando a necessidade de se proteger de um mundo exterior
hostil. Nesse sentido, o isolamento do país resulta de uma combinação de
fatores, que têm raízes profundas na história coreana, especialmente, no pós-
Guerra de 1950-1953. Mas, principalmente, esse isolamento é resultante da
pressão externa, intensificada com o fim de um dos principais parceiros do
país, a URSS. Todavia, isso não significa que a RPDC deseje manter essa
situação. Ao contrário, se intensificam os mecanismos de interlocução e de
cooperação com um número cada vez maior de novos Estados. O irônico é que,
apesar do isolamento autoimposto ou forçado, os norte-coreanos observam com
muita perspicácia as transformações na correlação de forças em nível
internacional com o final da Guerra Fria. A percepção da potencialidade das
relações com as potências emergentes, ou mesmo os demais países em
desenvolvimento, tem se ampliado e tomado forma com iniciativas que venham ao
encontro do projeto de mudanças no país.
Um dos pontos muito discutidos é o papel dos mercados privados, que hoje
permanece mais numa semilegalidade indefinida, mas cujo padrão não está claro.
Há uma oscilação em relação a eles (como em Cuba), onde um certo grau de
tolerância está sempre sujeito a um retrocesso para não permitir a
institucionalização da prática como ocorreu durante a crise econômica. Alguns
acreditam que esse pode ser um caminho para uma futura transição interna e
abertura externa. Para outros, trata-se apenas de uma válvula de escape a qual
recorre o regime.
Kim Jong Un começou a transformar a fisionomia da RPDC. Nos últimos anos,
grandes projetos públicos nos setores de educação, saúde e lazer, por exemplo,
transformam-se em realidade em questão de meses. O governo definiu a
agricultura, a construção pública e o campo de ciência e tecnologia como
prioridades. Tais definições refletem, em parte, o regime de sanções, que não
atingiram nenhum de seus objetivos até o momento, pois o regime norte-coreano
não dá sinais de esgotamento, tampouco impediram o desenvolvimento dos
programas nuclear e missílístico.
A busca da segurança num mundo em crise
Embora o governo norte-americano identifique o programa nuclear da RPDC como
tema de segurança nacional de alta prioridade, a atenção dispensada pela
administração do presidente Barack Obama à questão, em contraste ao que afirmou
como candidato (de que fortaleceria o engajamento com Pyongyang), diminuiu
consideravelmente. O Secretário de Estado John Kerry parecia também ter aderido
à postura de "esperar para ver". Entretanto, em março de 2011, o então
presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado norte-americano, em um
painel sobre a RPDC, advertiu sobre a manutenção do status quo na península
coreana. Na ocasião, Kerry afirmou: "[...] temos que ir além do ponto da
conversa política, pois o nosso silêncio propicia que uma situação perigosa se
torne pior".
Ao analisar a mudança de postura da administração Obama, pode-se afirmar que
dentre as razões que podem explicar tal inflexão, está a crença de que
Pyongyang jamais abandonará o seu programa nuclear, o que tornaria inútil
qualquer esforço de negociação. Os parcos resultados alcançados por
administrações anteriores e o consequente desinteresse em investir capital
político em uma questão que produz resultados limitados (e muitas críticas),
fez com que a política norte-americana para a RPDC fosse redefinida (Cha_2009).
Importante ressaltar que a visão norte-americana também está relacionada à
reversão, por parte do ex-presidente sul-coreano Lee Myung Bak, do processo de
aproximação iniciado durante a Sunshine Policy. Outro aspecto a considerar é a
frustração em relação à cooperação com a China, que faz com que Washington
redimensione as "ameaças" norte-coreanas como pretexto para conter Pequim.
Dessa forma, os norte-americanos legitimam sua presença na região. Em setembro
de 2013, ao discursar por quarenta minutos diante da Assembleia Geral das
Nações Unidas, Obama sequer mencionou a questão nuclear norte-coreana.
De fato, a administração Obama parece acreditar na eficácia da "paciência
estratégica", ainda que muitos analistas considerem que tal estratégia não
produza resultado algum. O curioso é que os norte-americanos também parecem
despreocupados com os progressos que os norte-coreanos têm realizado nos seus
programas nuclear e missílístico. Todavia, não há dúvida de que Washington usa
a possibilidade de uma "ameaça nuclear" norte-coreana como justificativa para
aumentar sua presença na região, de um lado com o claro propósito de conter a
China, e de outro, para reforçar o pacto de segurança tripartite com o Japão e
a Coreia do Sul. Nesse sentido, a RPDC é extremamente útil para as pretensões
norte-americanas de se fazer presente na região.
Evidentemente, uma tentativa séria para reverter o impasse teria que partir de
Seul, ao convencer Washington e Tóquio de que todos poderiam ganhar se as duas
Coreias encontrassem um modus vivendi preferível a um status quo que, no
futuro, pudesse escapar ao controle. Entretanto, a administração de Park Geun
Hye parece compartilhar a visão norte-americana de que a RPDC deve dar o
primeiro passo. Isso significa que Pyongyang deveria tomar a dianteira no
processo de desnuclearização. Por outro lado, não há dúvida que Pyongyang
percebe que qualquer ação unilateral nesse sentido poderia representar um
suicídio político.
A política de "paciência estratégica" da administração Obama é decorrente da
percepção de que a RPDC não mudou com o processo de transição de liderança,
ocorrido em 2011. Apesar das dificuldades econômicas no início do governo de
Kim Jong Un, parece ter ficado claro a Washington que engajamento ou sanções
não podem alterar o comportamento da RPDC. Nos Estados Unidos, praticamente
todos os representantes políticos têm um único objetivo em relação ao país -
que a RPDC se desnuclearize, que se "abra ao mundo", que promova reformas
econômicas e sociais, que "respeite os direitos humanos". Os debates sobre a
estratégia a ser utilizada permanecem os mesmos há décadas; concentram-se na
ideia de estabelecer níveis de cooperação para convencer a RPDC a mudar sua
perspectiva e suas relações com o resto do mundo ou coagi-la a mudar seu "mau
comportamento".
Nesse sentido, cabe a pergunta: os Estados Unidos estariam dispostos a tolerar
a RPDC se esta estivesse disposta a mudar o suficiente para não ameaçar seus
interesses, mantendo seu caráter? Como observou Robert_Litwak_(2008),
historicamente, os Estados Unidos têm se preocupado com o comportamentode
outros países, porém, mais recentemente, também com o seu caráter. Assim, a
relutância dos Estados Unidos em conceder à RPDC status de igualdade a outros
países atravessa várias administrações. Hillary Clinton, Donald Rumsfeld e
George W. Bush não pouparam palavras pouco diplomáticas à RPDC e a seus
líderes, o que realmente coloca em questão o desejo dos Estados Unidos em
conviver de alguma forma com este país. A tática da demonização da RPDC,
definindo-a como "outpost of tiranny", "axis of evil" e "rogue state", torna o
diálogo impossível. Haverá, de fato, a intenção de estabelecer uma agenda
política específica? Mas, é preciso reconhecer a avaliação de Victor Cha, ex-
assessor e frequente conselheiro da Casa Branca para as questões norte-coreanas
(apesar do seu prognóstico de que Kim Jong Un cairia em seu primeiro ano de
gestão), de que "a Coreia do Norte não quer apenas a bomba, mas também o status
e o prestígio de uma potência nuclear".
Embora os testes missilísticos e nucleares realizados em Pyongyang sejam
entendidos como provocações, são parte de um programa militar sistemático no
qual a RPDC tem trabalhado a mais de quarenta anos como recurso de dissuasão.
Ao inscrever seu autoproclamado statusde potência nuclear na Constituição, em
2012, e ao dar moldura legal ao programa nuclear em 1º de abril de 2013, a RPDC
demonstrou que pretende continuar a desenvolver sua capacidade de dissuasão. A
decisão pode ter tido como objetivo criar um fato consumado, para obter uma
posição mais favorável no caso de uma negociação com os Estados Unidos. O uso
frequente de uma retórica belicosa indica o desejo do país de fortalecer seu
status internacional, tornando-o uma prioridade da política externa das grandes
potências, além de um interlocutor indispensável. Para a audiência doméstica, o
regime ganha crédito como um país poderoso e independente, fiel ao legado
revolucionário de Kim Il Sung.
A "ofensiva de charme" da RPDC, que teve início com o discurso de Ano Novo de
Kim Jong Un, busca um avanço na alteração do status quo na península coreana.
Pyongyang entende que, para assegurar a sobrevivência do regime, deverá ir além
da hostilidade militar com os Estados Unidos, a mais viva relíquia da Guerra
Fria e uma das mais antigas relações de hostilidade da História recente. Assim,
a RPDC busca, nas parcerias com o Japão e com a Rússia, por exemplo, e nos
esforços de reconciliação com a Coreia do Sul, uma oportunidade para obter
investimentos externos e diminuir o isolamento político e econômico.
Entre muitos analistas há a percepção de que as mudanças na RPDC podem ser
determinadas pela China. Essa visão, aliás, é fortemente compartilhada pela
administração norte-americana. Todavia, trata-se de uma percepção inconsistente
por dois motivos. Em primeiro lugar, desde o início da controvérsia nuclear,
nos anos 1990, o principal foco da política externa norte-coreana são as
relações com os Estados Unidos, e não com a China. A RPDC busca garantias de
segurança, reconhecimento diplomático e normalização das relações econômico-
comerciais. Para tanto, a conclusão de um tratado de paz que estabeleça
condições para relações diplomáticas, bem como a suspensão das sanções
econômicas e financeiras somente podem ser negociado com os Estados Unidos.
Em segundo lugar, embora Pyongyang tenha níveis de dependência econômica em
relação a Pequim, a ascendência chinesa sobre o regime norte-coreano tem sido
superestimada, em especial no que diz respeito às decisões militares. Por outro
lado, como traço forte da política externa chinesa, Pequim apenas utilizará sua
influência para alcançar objetivos políticos consistentes e quando houver
interesses estratégicos. Não se trata, entretanto, de simplesmente exercer
influência sobre a RPDC, mas de manter relações pacíficas que garantam o status
quo na península. O apoio chinês à RPDC assegura um vizinho amigável em sua
fronteira nordeste e uma zona tampão com a Coreia do Sul, onde há forças norte-
americanas.
Ainda que, as relações entre Pequim e Seul tenham conhecido seu ponto alto e os
dois líderes tenham se encontrado em diversas ocasiões - recentemente, a
Presidente Park Geun Hye visitou Pequim (junho de 2013) e o presidente Xi
Jinping visitou Seul (julho de 2014) -, este fato não representa a alteração
das relações entre Pequim e Pyongyang. Poderá sim, em certa medida, contribuir
para a sensação de isolamento de Pyongyang se combinado à recente reaproximação
entre o Japão e a Rússia. Entretanto, seria prematuro e superficial afirmar que
esses eventos levarão o regime norte-coreano a um desgaste e consequente
colapso. É improvável que os chineses (e mesmos os russos) desejem uma Coreia
unificada sob a égide de Seul. Os objetivos políticos e estratégicos de Pequim
estão relacionados à redução da influência norte-americana no país (e na
região) ao apresentar a Seul as vantagens no aprofundamento das relações
econômico-comerciais entre os dois países. Embora, tanto na RPDC quanto na
Coreia do Sul, seja reafirmado constantemente o objetivo nacional da
reunificação, sua consecução não parece próxima. A divisão de 1945 foi
aprofundada pela guerra fratricida de 1950-1953 e os ressentimentos, nos dois
lados, ainda não foram superados.
Em relação à Rússia, uma das formas de marcar presença na península coreana é a
promoção de grandes projetos trilaterais de infraestrutura envolvendo as duas
Coreias - a ligação das ferrovias norte e sul-coreanas à Transiberiana, e a
construção de gasoduto e linhas de transmissão da província de Primorye à
Coreia do Sul, passando por território norte-coreano, nos quais a Rússia já
investiu significativamente. Parece não haver dúvida que a Rússia tem interesse
na diminuição das tensões na península coreana, mas há claros interesses
geopolíticos e geoeconômicos em jogo. Moscou sabe que o desenvolvimento do
extremo oriente do seu território depende grandemente de sua integração ao
Nordeste da Ásia.
O interesse russo em promover o diálogo entre as duas Coreias ficou demonstrado
na visita que o presidente Vladimir Putin realizou a Seul em novembro de 2013,
ocasião em que foi assinado um memorandum de intenções com as empresas Hyundai,
a siderúrgica Posco e a empresa ferroviária Korail, entre outras, que
expressaram o desejo de participar das atividades da joint venture russo/norte-
coreana RasonKonTrans, em Rajin. O objetivo é transformar o porto daquela
cidade próxima às fronteiras com a Rússia e com a China em um importante hub de
transbordo de cargas, principalmente de containers. Seria uma avaliação precoce
indicar que a crise na Ucrânia resultará em alguma mudança na política de
Moscou em relação à RPDC, em particular com relação à questão nuclear. No
entanto, os acontecimentos naquele país podem ter acelerado os planos para a
cooperação econômica e o intercâmbio de visitas de alto nível. Além disso, a
Duma de Estado ratificou acordo que prevê o perdão de 10 dos 11 bilhões da
dívida norte-coreana com a Rússia.
Por outro lado, tendo em vista a disposição de Moscou de implementar seus
projetos de desenvolvimento econômico com o objetivo de interligar o extremo
oriente da Rússia com as duas Coreias, o governo de Seul terá que pesar seus
próprios interesses de longo e médio prazo. Para a RPDC, a reaproximação com a
Rússia representa uma janela de oportunidade para contrabalançar a dependência
em relação à China e a possibilidade de uma segunda opção estratégica.
Quanto às relações com o Japão, a recente aproximação revela, provavelmente,
uma tentativa de Kim Jong Un de minar a ação coletiva dos Estados Unidos, Japão
e Coreia do Sul em relação à RPDC. Essa reaproximação é vista de maneira
positiva por Pequim e, também o Japão, tem interesse em reduzir o seu
isolamento diplomático regional, em particular em relação à China e à Coreia do
Sul. Além disso, Tóquio pretende demonstrar que pode influir nos cálculos
estratégicos de Pequim de alguma forma, sendo a aproximação com Pyongyang uma
delas. Para o governo japonês, a reaproximação com Pyongyang pode representar
um maior poder de barganha em suas relações com a Coreia do Sul, que se
encontra em um dos seus piores momentos, como também com Washington e com
Pequim.
Dessa forma, tanto a RPDC como o Japão têm interesses estratégicos nessa
reaproximação. Tóquio, ao romper laços econômicos com Pyongyang, perdeu
completamente sua influência sobre a RPDC. Os pequenos passos em resposta às
aberturas do norte podem, no entanto, ajudar a criar um canal de contato e
oferecer a Tóquio um conhecimento mais próximo dos desígnios norte-coreanos.
Para Pyongyang, a normalização das relações com Tóquio, além de aumentar seu
poder de barganha frente a Seul e a Pequim, pode abrir uma janela de
oportunidade para o desenvolvimento da economia, que se ressente fortemente do
isolamento internacional.
Por fim, cabe mencionar os esforços diplomáticos que o Brasil tem feito para
aproximar a RPDC da comunidade internacional. A abertura da embaixada residente
em 2009, o curso de capacitação da ABC/EMBRAPA a técnicos agrícolas norte-
coreanos em 2011 e as doações de alimentos por intermédio do PMA em 2010, 2011
e 2012 representam substancial capital político que deve ser preservado e
ampliado. Esse capital acumulado constitui a base da relação de confiança que
se estabeleceu entre o Brasil e a RPDC. Segundo o Ministro dos Negócios
Estrangeiros da RDPC, Ri Sol Yong, o governo da RPDC "muito apreciou a
iniciativa brasileira de abrir uma embaixada em Pyongyang, um canal direto de
contato que permite ao Brasil ter suas próprias percepções sobre a RPDC". Ao
mesmo tempo, os esforços brasileiros progridem no sentido de abrir
oportunidades de atuação política, econômica e comercial na região.
Perspectivas
Os Estados coreanos, ao longo da história, desenvolveram notável habilidade
diplomática para sobreviver entre grandes potências, e as elites dirigentes
lograram manter unidade e estabilidade internas. Tais características foram
aprofundadas pela RPDC e, em parte, perdidas pelo Sul. O culto aos líderes tem
raízes na cultura política coreana e na situação interna (diversas facções no
movimento comunista coreano e divisão do país) e externa (o contínuo jogo com
potências amigas e inimigas). Após um período em que foi previsto o seu fim, a
Coreia do Norte logrou certa estabilidade política e retomada do
desenvolvimento, especialmente com a ascensão de Kim Jong Un ao poder. Há
indícios da implementação de um projeto de modernização, mas, provavelmente,
sem as reformas de tipo chinês. Mais uma vez, a RPDC busca uma via original,
contra ventos e marés. Velhos e conhecidos problemas persistem e a RPDC segue
sendo uma sociedade tipicamente asiática e socialista, complicada de
compreender (Kang_2011). Um verdadeiro planeta Marte: vermelho, Deus da guerra
e difícil de acessar.