Poética da desaparição: os filmes de Jia Zhangke
O cinema chinês entrou no mercado da cultura global no final dos anos 1980,
quando diretores como Zhang Yimou e Chen Kaige ganharam prêmios internacionais
e reconhecimento da crítica por filmes como Hong gao liang [O sorgo vermelho] e
Hai Zi Wang [O rei das crianças] (ambos de 1987)1. Integrantes de uma turma de
cineastas formados pela Escola de Cinema de Pequim por volta de 1982, conhecida
na República Popular da China (RPC) como a "Quinta Geração", Zhang e Chen
basearam seu sucesso no repúdio da tradição realista-socialista do cinema de
estúdio antes vigente, em favor da reapropriação de um passado mitificado e da
evocação de majestosas paisagens esvaziadas de história. Em retrospecto, suas
obras se distinguem não tanto pela linguagem cinematográfica ou por inovações
estilísticas, mas pela distância que tomaram dos referenciais da China de Mao -
sua estética, sistema de valores, condições materiais e vida cotidiana -, os
quais foram declarados obsoletos. Nesse sentido, o modernismo cinematográfico
da Quinta Geração atuou como confirmação do tempo universal, tal como definido
pelo mercado global.
A tradição realista-socialista nunca chegou a opor nenhuma resistência eficaz e
coerente a essa tendência, visto que à época dos debates político-estéticos do
período pós-Mao ela se diluíra na irrelevância. Mais propriamente, a crítica da
Quinta Geração se centrou desde o início na sua insistência em narrativas
grandiosas e abrangentes, e na sua relutância em "narrar uma história" [jiang
gushi] de forma direta. O estilo elevado desses filmes, ao transfigurar o
objeto da representação em algo "atemporal", parecia distante da experiência
concreta de seu próprio tempo, não tendo logrado representar ou narrar o
processo épico de transformação social em curso no país durante a era das
reformas econômicas de Deng Xiaoping. A ausência de histórias nos filmes da
Quinta Geração revelava, no plano formal, uma pobreza de experiência que
contrastava de modo flagrante com o turbilhão de fatos desconcertantes que
ocorriam à sua volta.
Ao longo dos anos 1990, a posição da Quinta Geração na cena cultural nacional -
e, com ela, a posição do modernismo cinematográfico na arena das transformações
sociais e ideológicas - tornou-se mais precária. Os protestos de Tiananmen e
seus desdobramentos tornaram qualquer coisa que tivesse um caráter vagamente
crítico ou anticonformista numa instância potencial ou real de dissidência, que
precisava ser abafada ou mesmo sumariamente suprimida pela censura estatal. No
início dos anos 1990, os filmes da Quinta Geração eram recebidos no exterior
como alegorias políticas de um regime repressivo, o que acarretou sua
interdição no mercado interno - embora seu acesso aos festivais internacionais
de cinema tivesse sido viabilizado pelo próprio Estado. Mas essas medidas
administrativas drásticas pareciam anódinas perto do avanço superacelerado do
país, na segunda metade dos anos 1990, rumo à globalização e à economia de
mercado. Sob tais pressões, o ímpeto do alto modernismo chinês se dissolveu
numa miscelânea de variações pós-modernas em torno de gêneros locais ou
globais, dos filmes de kung-fu e sitcoms televisivas a espetáculos visuais de
caráter eminentemente chinês, como a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos
de 2008, em Pequim - concebida e supervisionada pelo próprio Zhang Yimou. Seu
consentimento com a instrumentalização de sua "consciência escultórica"
cinematográfica por parte do Estado representa um dos polos da dicotomia na
qual os cineastas da Quinta Geração tinham se encerrado; o outro era
constituído por um olhar nostálgico sobre sua identidade anterior, como em Mei
Lan Fang [Feitiço eterno] (2008), de Chen Kaige, versão inferior de Adeus,
minha concubina, com o qual ganhara a Palma de Ouro no Festival de Cannes de
1994.
ORIGENS E FORMAÇÃO
A chegada de Jia Zhangke e seus companheiros da "Sexta Geração" em meados dos
anos 1990 foi, em todos os sentidos, uma resposta a essa situação. Em lugar de
uma unidade simbólica fantástica, ideológica, seus filmes apresentavam
fragmentos alegóricos de uma realidade partida e desorientada. Enquanto os
cineastas da Quinta Geração compunham uma totalidade mitológica - em tomadas
amplas e vazias de uma paisagem imaculada e a-histórica, do planalto de loesse
do Shaanxi em Huang tu di [Terra amarela] (1984), de Chen Kaige, e O sorgo
vermelho, de Zhang Yimou, às cordilheiras geladas do Tibete -, os da sexta
almejavam retratar a textura esquálida e amorfa da vida cotidiana das cidades,
onde o subdesenvolvimento socialista encontra a investida das forças de
mercado. O resultado desse choque é um cenário repleto de almas errantes e
sonhos arruinados, cheio de revolta reprimida, desilusão e desespero tão
profundos que, como uma doença crônica, tornam-se parte do cotidiano.
Revolta e desespero juvenis à margem da modernização chinesa muito distantes do
glamour de Xangai, Pequim ou Shenzhen - são temas dominantes nos primeiros
filmes de Jia Zhangke. Seu primeiro longa-metragem, Xiaowu (1997), enfoca um
ladrão pé de chinelo de Fenyang abandonado à própria sorte e compelido ao crime
para sobreviver, enquanto todos os seus amigos tomaram o bom caminho e se
dedicam ao comércio. Plataforma (2000), segundo filme da "trilogia da cidade
natal" de Jia, segue as peripécias de uma trupe de animadores culturais de
Fenyang, cujas excursões ao campo pontuam a história da desintegração gradual
da cultura socialista, à medida que as peças de agitprop maoístas dão lugar a
números incoerentes de go-go dancing de beira de estrada. A terceira parte da
trilogia, Ren Xiao Yao [Prazeres desconhecidos] (2002), conta a história de
dois adolescentes, filhos de operários desempregados, cuja tentativa de
assaltar um banco termina em desastre cômico; embora o cenário do filme tenha
se transferido para Datong, seu enredo se aparta bastante do mainstream da
economia de mercado da China de hoje.
Com Shijie [O mundo] (2004), ambientado no Parque Mundial de Pequim, um parque
temático que reproduz atrações turísticas globais em escala reduzida, Jia
deixou para trás o ambiente provinciano de seus primeiros filmes para retratar
a vida dos trabalhadores migrantes na capital. Em busca da vida (2006) registra
a destruição do meio ecológico e social pelo projeto da represa de Três
Gargantas, enquanto o leitmotiv de Er Shi Si Cheng Ji [Cidade 24] (2008) é a
desagregação de famílias e a demolição de bairros inteiros, provocadas pela
desativação de um vasto complexo industrial em Chengdu, a fim de dar lugar a
projetos imobiliários. De fato, os filmes de Jia parecem adotar um enfoque
sociológico quase sistemático para retratar os problemas do desenvolvimento
chinês contemporâneo, seja confrontando seus custos sociais e humanos, caso da
juventude alienada de Xiaowu e Prazeres desconhecidos, dos trabalhadores
migrantes e das populações deslocadas de Em busca da vida, O mundo e Cidade 24,
ou seus danos ambientais de Em busca da vida.
Nascido em 1970 na cidade de Fenyang, província de Shanxi, Jia Zhangke se
tornou cineasta por acaso e um tanto tardiamente. Filho de um professor de
ensino médio e de uma vendedora de mercearia, cresceu num ambiente semirrural,
semiurbano, bastante isolado das atrações do mundo exterior. Ao explicar para
seus entrevistadores por que a música pop tem tanto destaque nos seus filmes,
ele menciona a carência absoluta de qualquer forma de cultura ou entretenimento
durante sua infância e adolescência: "Após o jantar, nós quatro [os pais, a
irmã e ele] simplesmente nos sentávamos na sala, sem ter o que fazer ou
conversar, até a hora de dormir". A chegada das canções pop de Taiwan, Hong
Kong e Japão, bem como dos filmes de Hollywood, teve, pois, algo como um efeito
liberador. Jia também se tornou um exímio dançarino de break, após ter
assistido Breakdance: The Movie (1984) mais de uma dúzia de vezes.
Mas foi em 1990, quando estudava design gráfico em Taiyuan, capital da
província de Shanxi, que Jia decidiu se tornar cineasta, após ter visto Terra
amarela, de Chen Kaige, por acaso. Ele tentou duas vezes, em vão, entrar para a
Escola de Cinema de Pequim, que finalmente o aceitou como aluno de seu
Departamento de Literatura, em 1993. A decisão de estudar teoria do cinema, e
não direção, baseou-se, segundo Jia, na suposição de que assim seria mais fácil
ser admitido. Ele próprio conjecturou que, se não tivesse se tornado cineasta,
teria sido escritor - publicou ensaios e contos nas revistas literárias de
Shanxi e chegou a ser convidado para fazer parte da Associação dos Escritores
provincial - ou, então, pintor. Como parte de sua aprendizagem em Taiyuan, ele
morou com outros aspirantes a artista nos subúrbios da cidade, vivenciando em
primeira mão a vida marginalizada de um "vagabundo sem destino" [mangliu],
convivendo nas ruas com trabalhadores migrantes e, como eles, sendo submetido a
revistas policiais no meio da noite. Jia insinuou também que poderia ter sido
proprietário de uma mina de carvão privada na região das jazidas de Shanxi,
plenamente consciente de que essa atividade, mais que qualquer outra na China
de hoje, passou a simbolizar a exploração predatória e ilegal do homem e da
natureza.
Para a geração que veio após Chen Kaige e Zhang Yimou, a tarefa consistia em
alcançar uma percepção da realidade concreta e irredutível, de modo a definir e
dar forma a uma nova linguagem cinematográfica. Essa realidade, intuíam, havia
desaparecido por completo do cinema chinês. De todos os lançamentos nacionais a
que assistia nas sessões duplas de quarta-feira na Escola de Cinema de Pequim,
Jia chegou à conclusão de que "nenhum, em absoluto, tinha a ver comigo ou com
as experiências e situações reais vividas pelos chineses e chinesas". Isso o
levou a "agir por si mesmo", isto é, a "lutar pelo direito de um discurso"
[zhengduo huayuquan] capaz de "representar a vida escondida atrás da tela
prateada"2. Na década seguinte, Jia estaria "sempre disposto a correr para a
rua com uma câmera" em busca da realidade. Nisso é possível ver a influência
marcante que a descoberta do neorrealismo italiano teve sobre ele3. Outras
influências importantes foram as de Ozu e Hou Hsia-Hsien; a marca desse último
é visível no estilo espontâneo e ágil da "trilogia da cidade natal", que Jia
realizou não a partir de um roteiro acabado, mas de algumas anotações. De fato,
ele é conhecido por jamais ter concluído um roteiro antes que o próprio filme
estivesse terminado.
Em 1995, ainda na Escola de Cinema de Pequim, Jia realizou Xiao Shan Jia Hui
[Xiaoshan volta para casa], que conta a história de um trabalhador migrante da
província de Henan empregado num restaurante de Pequim; despedido pelo patrão
às vésperas do Ano-novo chinês, Wang Xiaoshan vaga pela capital à procura de
conterrâneos que possam lhe fazer companhia durante a viagem de regresso a
Anyang, sua cidade natal. Embora encontre um punhado deles entre operários da
construção, universitários, garçons e prostitutas, nenhum se dispõe a
acompanhá-lo. Com duração de pouco menos de uma hora, o filme deu o tom da obra
posterior de Jia, cuja linguagem cinematográfica já de início tomou claramente
uma feição própria. Isso vale não somente em termos visuais, na preferência
pelas ruas como cenário e na mobilidade proporcionada pela câmera na mão, mas
também para o modo como utiliza o som: canções pop, trechos de pregões emitidos
por alto-falantes e ruídos urbanos em geral intervêm constantemente, enquanto
os atores não profissionais de Jia - uma ressonância do neorrealismo italiano -
tendem a falar em dialetos regionais; uma escolha ousada, visto que a maioria
dos filmes chineses é dublada em mandarim.
Não foi mera casualidade, tampouco, o fato de que a formação de Jia se deu
concomitantemente com a ascensão do movimento do Novo Documentário chinês:
ambos retornaram à rua, renunciando às alturas estéticas do "cinema mundial
moderno" e da nova mitologia nacional; ambos recorreram à fragmentação como
processo de estruturação cinematográfica e narrativa, a fim de permanecer em
contato com a realidade bruta que existe à revelia dos esquemas formais
modernistas. De fato, a rejeição pela Sexta Geração da imagem metafísica da
China de seus predecessores não foi apenas produto, como também reflexo de uma
sociedade mais desigual e polarizada. Isso exigia uma transformação
paradigmática do modo pelo qual a câmera confronta a realidade - uma realidade
cuja multiplicidade e cujas contradições devem ser apreendidas.
MAPEANDO AS ZONAS DE ESTAGNAÇÃO
Os filmes de Jia são mais bem compreendidos como uma tentativa de mapeamento
cognitivo dessa realidade. Eles representam uma topologia específica no
interior da esfera social fragmentada da China: o xiancheng, ou município
abrangido na divisão administrativa do condado. Não se trata de mero rótulo
técnico-administrativo para designar o cenário dos filmes, mas sim de uma noção
plenamente depurada que embasa seu impacto político-visual. O termo designa a
"sede de um condado", municipalidades que tanto exercem jurisdição umas sobre
as outras, como também se acham sob a jurisdição das cidades abrangidas no
distrito; ele abarca tanto municípios de condado, como Fenyang - cenário de
Xiaowu e Plataforma -, quanto centros industriais maiores, de nível distrital,
como Datong - cenário de Prazeres desconhecidos. Elevada a municipalidade no
início dos anos 1990, Fenyang tinha em 2005 uma população de 400 mil
habitantes, enquanto Datong tinha 3,2 milhões; em comparação, a população de
Xangai era de aproximadamente 18 milhões. Existem grandes disparidades de renda
per capita entre essas cidades: 1.500 dólares para Fenyang e 2.500 para Datong,
em comparação com 11 mil para Xangai; isto é, a renda anual média dos
habitantes de Fenyang é 15% da renda dos habitantes de Xangai.
A peculiaridade do xiancheng como tipo de paisagem social reside não somente na
sua onipresença socioeconômica e geográfica - existem mais de 2.400 condados,
ou cidades no nível de condado, na RPC, e a população de Fenyang está dentro da
média -, como também na sua escassa representação pelo cinema e pela
literatura. Enfocar o xiancheng é, conscientemente ou não, dirigir a atenção
para o avesso da modernidade socialista chinesa e sua Era das Reformas.
Nominalmente englobado na "China urbana", xiancheng se aparta da fantasia de um
mundo rural imaculado e autêntico, regido pela tradição e dotado de uma
estrutura social e ética estável, centrada na aldeia (mundo esse que não
tardaria a ser despedaçado pela expansão das forças de mercado, resultando na
perda maciça de terras aráveis e no êxodo da população rural para centros
urbanos em rápido crescimento). Por outro lado, xiancheng não é em definitivo
uma área metropolitana; no máximo, oferece o oposto da sofisticação urbana, dos
empregos de colarinho-branco, do acesso ao poder político e cultural nacional,
bem como às ideias vindas do estrangeiro, realidades verificadas em Pequim,
Xangai, nas capitais provinciais costeiras e nos grandes centros industriais:
Nanjing, Hangzhou, Xi'an, Cantão ou Chengdu nos vêm imediatamente à lembrança.
Em termos de capital material ou simbólico, portanto, xiancheng é a China
proletária par excellence. Em termos das formas urbanas e de sua representação
visual, xiancheng é geralmente visto como algo disforme e desinteressante. Com
base nas suas observações de Fenyang, vista pela ótica dos filmes de Jia, um
crítico enumerou as "propriedades espaciais objetivas de xiancheng" do seguinte
modo:
Ruínas e escombros de demolições, ao lado de ruas e prédios
destituídos de caráter; minas de carvão e rodovias desertas; amplos
espaços sem utilidade; espetáculos de dança moderna sobre caçambas de
caminhão, concorrendo com óperas populares e música frenética de
discoteca; salões de bilhar sonolentos e uma estação de estrada de
ferro decadente e vazia; o barulho de vendedores de bilhetes de
loteria por toda a parte - impessoal, monótono e, no entanto,
vibrante e mesmo demagógico -, o som típico de uma era de lassidão e
inquietude; transeuntes solitários e abatidos caminhando em meio ao
ar carregado de poeira; cheiro de comida e outros cheiros
inomináveis. Essa cidade não possui atrações arquitetônicas notáveis,
nem prédios kitsch modernos4.
Em outras palavras, trata-se da área intermediária, genérica, onde a realidade
cotidiana da China contemporânea se revela. Sem limites precisos ou distinções
nítidas entre rural e urbano, industrial e agrário, alta e baixa cultura,
xiancheng se tornou o lugar de encontro de toda espécie de forças e correntes,
contemporâneas ou anacrônicas. As locações dos filmes de Jia tanto podem estar
numa zona industrialmente superdesenvolvida - como as gigantescas minas de
carvão estatais de Datong, que compõem o indistinto pano de fundo de Prazeres
desconhecidos, sob a forma do esquálido alojamento operário onde o protagonista
vive com a mãe -, quanto subdesenvolvida, apresentando aos espectadores o
rudimentar setor de serviços que eclodiu por toda a parte na China durante os
anos 1990: pequenos restaurantes e casas de chá, banhos públicos, salões de
cabeleireiro, clubes de karaokê, salões de bilhar e bordéis. Os diferentes
modos de produção e consumo que aparecem diante da câmera encontram no
xiancheng não uma vitrine para suas realizações materiais ou seu apelo
ideológico, mas seu túmulo.
Para os forçados a examinar de perto sua estrutura social, xiancheng é uma
penosa lembrança dos fracassos e concessões da industrialização socialista, das
reformas da era pós-socialista e mesmo da arremetida das forças de mercado,
cujos efeitos brutais no campo e nas grandes cidades, como Pequim e Xangai, se
mostraram paliativos quando confrontados com essa realidade opaca e
irredutível. Mas os filmes de Jia não são nem condenações morais da desoladora
pobreza material e espiritual do xiancheng, nem justificações nostálgicas de
uma história pessoal que carrega suas marcas. Se há neles algum traço de
sentimentalismo, é antes um resquício afetivo das lembranças do próprio Jia,
perdidas no tempo e ora recuperadas mediante uma forma cinematográfica cuja
aptidão para a rememoração proustiana reside precisamente na sua capacidade de
registrar o presente.
Ao ser questionado se achava que seus filmes representavam a realidade chinesa,
Jia respondeu que eles representavam uma das realidades da China, e que sua
experiência de dez anos como cineasta lhe ensinara que a realidade de seu país
parece cada vez mais multifacetada. Em vez de tentar apreendê-la na sua
totalidade, ou "completude" [wanzhengxing], Jia procura "quebrar seu silêncio"
e mostrar as "expressões faciais" desta "gigantesca entidade econômica" - não
raro, tornando visível e audível aquilo que se encontrava obscurecido, abafado
ou mesmo inteiramente esquecido5. Isso não implica assimilar sua prática
cinematográfica a uma nova classe ou conjunto de agentes sociologicamente
tipificados, tais como o "zé-povinho" [xiaorenwu], os "marginalizados"
[bianyuan], o "grupo dos desfavorecidos" [ruoshi qunti] ou as "camadas
subalternas" [diceng]. Mais propriamente, Jia se empenha em buscar uma
perspectiva legítima que lhe permita apreender uma realidade que se subtrai à
experiência ao mesmo tempo que retorna para assediá-la e sujeitá-la em um plano
abstrato e mitológico.
Os filmes não se atêm, política ou esteticamente, a uma posição fixa; antes,
seu efeito está ligado a uma mobilidade e uma reflexividade deliberadas - em
termos de locações e assuntos, em relação aos discursos intelectuais e críticos
prevalecentes e em face do Estado e do capital (sob a forma de investidores,
distribuidores e censores). Não raro, a obra de Jia dá a impressão de ter sido
dedicada aos excluídos e imobilizados pelas forças sociais, econômicas e
ideológicas dominantes. No final de Xiaowu, por exemplo, vemos o homônimo
batedor de carteiras algemado a um poste, como um vira-lata surpreendido pelos
homens da carrocinha, devolvendo com expressão alheada os olhares dos
transeuntes que se juntam à sua volta. No entanto, o que esse instantâneo
memorável revela é precisamente a mobilidade de Xiaowu, como trabalhador
migrante que sobrevive de pequenos furtos no xiancheng; mobilidade que as
pessoas ignoram por conveniência e rejeitam sem hesitação, quando lhes parece
necessário.
Xiaowu foi amplamente elogiado pelos críticos por sua "descoberta" do
xiancheng, mas, em certo sentido, o verdadeiro ponto de partida da obra de Jia
se situa em Plataforma, que retrata a vida dos "trabalhadores itinerantes" do
setor cultural numa ambiência de xiancheng. Na verdade, Jia havia escrito o
roteiro de Plataforma, em 1995, como um relato de sua Bildung - é seu único
filme ambientado nos anos 1980 -, mas precisou esperar a conclusão de Xiaowu
para começar a trabalhar nele. Embora a "trilogia da cidade natal" tivesse
assegurado a Jia um lugar central no cinema chinês contemporâneo como o
cineasta do xiancheng, cujas imagens e sensações definem de modo lapidar sua
obra cinematográfica, posteriormente ele se sentiu compelido a superá-la, com O
mundo. Mas, no fundo, o cenário desse filme é um xiancheng situado na capital
do país, cidade de trabalhadores migrantes e idealização do mundo globalizado
visto pela ótica do xiancheng. De fato, a suprema ironia do filme tem como alvo
não o parque temático ao estilo Disney, mas Pequim, ou mesmo a própria China:
um gigantesco xiancheng, cuja realidade concreta e contraditória coexiste com
uma unidade virtual e ilusória.
UM IMPULSO DOCUMENTAL
Apesar de sua aparência modesta, é no xiancheng que estão sendo travadas as
batalhas mais brutais de uma transformação histórica na China, de forma
silenciosa e invisível. Para Jia, o que conferiu visibilidade às percepções do
xiancheng foi a obra de demolição [chai], o que faz dele não somente um cenário
ou pano de fundo cinematográfico, como também um evento em andamento que
determina a estratégia visual de seu cinema. O impulso subjacente a esse
consiste na vontade de documentar, realizada mediante o "retorno à cena"
[huidao xianchang]. "Cena", aqui, não possui apenas o sentido explícito de
cenas cotidianas de demolição e construção nos centros urbanos, bem como nas
áreas adjacentes entre cidade e campo [chengxiang jiehebu], mas também alude às
cenas de crime e violência dos anos 1990, cujas origens poderiam remontar a
1989 e aos protestos da praça Tiananmen. Nesse sentido, ao retornar à cena, o
cineasta procura não somente recuperar memórias pessoais e coletivas perdidas,
como também provar que o momento do trauma, não assimilado pela memória e pela
consciência, constitui um evento em andamento que, ainda que insuportável, pode
ser mais uma vez confrontado e apreendido mediante uma versão cinematográfica
do "grau zero da escrita".
Ainda que a idade de Jia e sua formação numa cidadezinha de condado forneçam
pistas biográficas para seu desejo de retornar à "cena", elas não podem ter
proporcionado os meios formais e discursivos de que ele se serve para encetar a
tarefa. Uma de suas fontes cruciais foi a concepção de documentário que afinava
com a do movimento do Novo Documentário [xin jilupian yundong] e dele se
alimentava. Embora tivesse alcançado projeção no início dos anos 1990, as
origens do movimento remontam ao período transitório de liberdade intelectual
vivido pela China entre a metade e o final da década de 1980, quando a
"juventude educada" do país, em sua maioria poetas e pintores, desfrutou de
liberdade para adotar estilos de vida e ideais que transcendiam a esfera do
Estado e das instituições de mercado emergentes. Os primeiros documentaristas
independentes foram os chamados "vagabundos sem destino", que se reuniam em
alojamentos universitários e pensões modestas de províncias longínquas. Liulang
Beijing: Zuihou de mengxiangzhe [Vagando por Pequim: os últimos sonhadores]
(1990), de Wu Wenguang, foi um de seus primeiros manifestos. Mas essa utopia
extrema foi rapidamente liquidada pela extensão do comércio e da tecnologia a
praticamente todos os setores da sociedade chinesa nos anos 1990, o que fez os
sonhadores sobreviventes voltarem sua atenção para as "camadas inferiores", a
fim de elaborar uma vérité visual e perceptiva na contracorrente dos
estereótipos vazios do burocratismo e do bombardeio insano da mídia
publicitária. Nesse sentido, o movimento do Novo Documentário não era uma
profissão de fé em um gênero ou formato, embora fosse ardorosamente defendido
como o último baluarte da verdade, do pensamento e da crítica: como notou
acertadamente Lü Xinyu, isso traía suas origens intelectuais na década de
19806.
Os cenários dos filmes de Jia se distinguem das locações marcadamente rurais ou
radicalmente urbanas vistas com frequência nos filmes do Novo Documentário. No
entanto, ele compartilha com os documentaristas independentes seu fervor pela
redescoberta da realidade nas suas manifestações mais concretas e profanas, bem
como sua propensão a "retornar à cena" e muitos de seus traços formais: ângulos
e movimentos de câmera característicos do cinema documentário, tomadas longas,
som direto e uso sistemático de entrevistas, recurso que Jia passou a
privilegiar um tanto tardiamente, com Cidade 24. Por fim, os personagens dos
filmes de Jia pertencem quase todos aos mesmos grupos e subgrupos sociais
daqueles retratados nos documentários independentes: jovens desempregados e
vagabundos das cidades, trabalhadores migrantes, artistas de rua, funcionários
de empresas estatais demitidos. Na fase inicial de sua carreira, Jia se definiu
como um "trabalhador migrante do cinema" [dianying mingong], postura refletida
no posicionamento de câmera adotado por ele: sempre na altura dos olhos de seus
personagens, mesmo estando de cócoras, como Xiaowu. Seguindo ou rodeando os
personagens, a câmera ora se aproxima, ora recua, quando não permanece estática
no meio deles, como um acessório de seu mundo cotidiano, na expectativa de
passar desapercebida ou, melhor ainda, de ser aceita como testemunha. Isso
instaura uma relação mais equilibrada entre quem olha e o que é olhado, os
quais poderão estabelecer um pacto pelo "direito de discurso" diante de uma
realidade fragmentada e multifacetada, de uma elite intelectual cada vez mais
afeita ao kitsch e das implacáveis forças do Estado e do mercado.
Os filmes de Jia e os documentários independentes compartilham um mesmo veio
contracultural. Contudo, se essa inclinação lhes permite uma visão privilegiada
do terreno não mapeado pelo cinema dos anos 1980, existe também uma
contrapartida, em termos de comunicação com o público. Certo isolamento
autoimposto resulta da postura crítica e anticonformista de Jia, e isso, a par
da crescente frustração com seu próprio meio e da distância que toma dele,
confere a seus filmes um toque acentuado de estranhamento visual. A impressão
de que são representações da vida operária que somente plateias cultas podem
entender, se não lamentos pela demolição das cidades financiados pelos próprios
demolidores - Cidade 24, por exemplo, foi financiado pelos próprios
empreendedores imobiliários responsáveis pelo projeto documentado no filme -,
são ironias que não escapam nem mesmo aos defensores de Jia.
MUNDOS DIGITAIS
Outro recurso fundamental para o desenvolvimento da obra de Jia foi a nova
tecnologia das câmeras digitais, ou DV. Baratas e fáceis de manejar, elas são
uma alternativa liberadora ao aluguel de câmeras cinematográficas
profissionais, tendo possibilitado um grau sem precedentes de popularização da
tecnologia visual - e, em consequência, a multiplicação de enfoques, ângulos e
expressividade individuais. Wu Wenguang afirma ter sido "resgatado [zhengqiu]
pelo vídeo digital", acrescentando que, "a partir de 1998, ele me conduziu a um
espírito de total liberdade; melhor dizendo, talvez, explorei suas
possibilidades a tal ponto, que posso fazer qualquer coisa que minha mente ou
meu coração ditarem"7.
O primeiro filme rodado por Jia em vídeo digital foi um documentário de meia
hora chamado Gonggong Changsuo [Em público], de 2001. Ele descreve a
experiência em termos semelhantes aos de Wu: "Filmei tudo o que via pela
frente, sem preparação, totalmente solto. Parecia uma aventura, um passeio sem
roteiro". Filmando em Datong, empedernido centro industrial às margens do
deserto de Gobi, Jia registrou "todo tipo de espaço: a estação de trens, a
rodoviária, salas de espera, salões de baile, de karaokê e de bilhar, um rinque
de patinação, casas de chá"8. A escolha de Datong como locação se deveu a um
boato que circulava na época, segundo o qual toda a população da cidade seria
removida para o Xinjiang e trabalhar na extração de petróleo, pois as jazidas
de carvão estavam se esgotando. Jia foi atraído pela ideia de que "todo o
mundo, em Datong, queria aproveitar seus dias para se divertir", às vésperas de
uma tremenda convulsão social.
Embora esse deslocamento maciço não tenha ocorrido, a mesma atmosfera de
desejos frustrados e existência precária à margem das transformações em curso
no país domina seu filme seguinte, Prazeres desconhecidos, também ambientado em
Datong e inteiramente filmado em vídeo. Considerado o "mais raivoso dos filmes
de Jia", uma fúria mal contida o permeia, enraizada nas limitações estruturais
da vida no xiancheng e nos projetos de vida fracassados dos personagens.
Contudo, teria sido difícil recriar a sufocante atmosfera de repressão,
humilhação e falta de horizontes que desfilam na tela, não fosse o senso de
liberdade proporcionado pelo vídeo. Arrastada, fragmentada e obscura, por vezes
beirando a incongruência, a narrativa visual de Prazeres desconhecidos parece
ter sido tramada por um intruso em um mundo imaginário que não tem receio de
ser surpreendido.
O vídeo digital se revelou um instrumento adequado não apenas para captar em
imagens a realidade bruta de Datong, para satisfação de Jia, mas também ideal
para "filmar coisas abstratas", tal como explica:
A maioria das pessoas parece se deslocar segundo uma ordem
predeterminada, como se caminhassem ao longo de um rio. Mas a
vantagem do vídeo digital é que ele permite intervir na cena e ao
mesmo tempo guardar uma distância objetiva; permite captar o ritmo e
a pulsação de um movimento que se insinua, observá-lo detidamente,
acompanhá-lo e ao mesmo tempo realizar uma observação racional...
Isso me permitiu acrescentar uma camada surrealista sobre a base
super-realista de meu trabalho anterior. Com a câmera digital, me
sentia mais um ensaísta do que um cineasta9.
As observações de Jia sobre concretude e abstração, envolvimento emocional e
reflexão "racional" são importantes, visto que a ambição estética e política de
seus filmes, bem como os do Novo Documentário, é precisamente forjar uma nova
aliança entre objetividade e pensamento, esferas violentamente cindidas pela
transformação radical da sociedade chinesa. Não seria exagero afirmar que o
vídeo digital permitiu à nova geração de cineastas dissecar o organismo da vida
social e vagar por entre seus órgãos internos. Walter Benjamin atribuiu essa
capacidade ao cinema, ao compará-lo com a pintura; uma comparação que nos
permite apreciar as implicações revolucionárias dessa nova tecnologia10. Como o
vídeo digital permite esquadrinhar a realidade em seus mínimos componentes
concretos, o ensaísta cinematográfico pode segurar a câmera com uma das mãos e
com a outra, por assim dizer, anotar aquilo que vê e pensa, mantendo uma
distância e uma autonomia crítica decisivas, sem ser tolhido pela parafernália
do equipamento de filmagem convencional.
Instaura-se assim um espaço mais prosaico - no sentido hegeliano de "mundo da
prosa" - entre a iminência material e o socialmente dado, por um lado, e sua
negação na consciência reflexiva, por outro. É aí que uma estética rudimentar,
com formas fragmentárias e mutantes, se configura, a par das experiências
históricas e humanas que seu olhar ativa e capta. Eis por que os rudes
contornos de Datong, com sua energia e inquietude, suas multidões sem rosto e a
rebeldia de sua juventude, excitaram vivamente Jia. Se o título chinês do
filme, Ren Xiao Yao, sugere uma espécie de indomável liberdade taoísta - numa
referência explícita à poesia e à filosofia de Zhuangzi -, a excitação bem pode
ter derivado da tecnologia digital recém-desenvolvida e da incipiente promessa
que ela encerra, de que uma vitória cognitiva pode ser arrancada a uma
sonambúlica dérive pelo território da indiferença e da reificação.
DESAPARIÇÕES
Enquanto os filmes da Quinta Geração, como espécimes do período heroico ou
mitológico do cinema chinês, se centravam na emergência e no vir-a-ser, os
filmes de Jia retornam insistentemente ao tema da desaparição. Em suas próprias
palavras: "Coisas belas estão desaparecendo rapidamente de nossas vidas"11. Em
Cidade 24, uma comunidade inteira desaparece com a Fábrica 420, uma gigantesca
indústria de armamentos implantada em 1958, no auge do Grande Salto Adiante,
com 30 mil empregados. No filme Em busca da vida, é a antiga cidade de Fengjie
que está condenada a desaparecer, e com ela o mito das Três Gargantas como
referência cultural coletiva, representado por formas que vão da poesia
clássica à moeda chinesa. Camadas e subgrupos sociais também se extinguem, como
os animadores culturais socialistas de Plataforma; sua sorte é simbolizada pelo
líder da trupe, interpretado pelo poeta pequinês Xi Chuan, que simplesmente
desaparece de vista após a "privatização" da companhia. Em outros casos, é algo
mais intangível que está em vias de desaparecer: o idealismo, os sonhos, o
sentimento de segurança e pertença, o sentido de finalidade, "princípios ou
normas" [zhunze]. Se o cinema dos anos 1980 almejava estabelecer normas, então
Jia pode ser visto como um poeta-cineasta da demolição das normas, da
impossibilidade de manter qualquer coisa intacta e da violência silenciosa
entranhada numa população abandonada à própria sorte.
Não obstante tudo o que está desaparecendo diante de nossos olhos, nada é tão
alarmante quanto o esquecimento da cidade natal. Xiaowu ainda possui uma casa
na aldeia, a que pode retornar, e, embora tenham sido os trabalhos de demolição
em Fenyang que animaram Jia a documentar o mundo de sua cidade natal, as ruas
mostradas em Plataforma - com suas bicicletas, tratores e esquálidos sobrados -
ainda parecem movimentadas e cheias de gente, como as de qualquer cidade onde
as pessoas estão entregues aos seus afazeres cotidianos. Em Prazeres
desconhecidos, no entanto, os alojamentos dos trabalhadores socialistas e
outros espaços públicos dão a impressão de um anacrônico e fantasmagórico
isolamento; amplos espaços abertos surgiram, não raro sob a forma de bairros
arrasados, canteiros de obra empoeirados, largas e reluzentes rodovias. Em
Plataforma, os processos mais amplos em jogo - desintegração da organização
socialista do trabalho, privatização da propriedade coletiva e marketing
agressivo - ainda estavam contidos na esfera individual do "crescimento" e da
"experiência"; rapidamente, no entanto, eles romperam o arcabouço
fenomenológico desse Bildungsroman dos anos 1980, exigindo um enfoque mais
concreto e histórico. Contudo, é só com a implacável eficiência administrativa
que determinou a demolição e a relocação de cidades inteiras, em Cidade 24 e Em
busca da vida - e a criação de um "mundo" inteiramente fantasmagórico em O
mundo -, que a consciência individual e coletiva alcança em toda sua dimensão o
real significado do desaparecimento da cidade natal.
NATUREZAS MORTAS
O título original de Em busca da vida em chinês é Sanxia haoren, que significa
"a boa gente das Três Gargantas". Sua curiosa tradução para o inglês [Still
Life, ou "natureza morta"] sugere a interpretação literária que o próprio Jia
fez de seu filme:
Um dia, me encontrei casualmente num quarto desabitado e vi os
objetos pessoais do antigo inquilino sobre uma escrivaninha cobertos
de pó. De repente, o segredo da natureza-morta se revelou para mim.
Aquele cômodo permanecera intacto por anos a fio; tudo estava coberto
de pó; uma garrafa de vinho vazia perto da janela, os enfeites nas
paredes - subitamente, tudo assumiu um ar de melancolia poética. A
natureza-morta representa uma realidade negligenciada por nós. Embora
preserve as marcas profundas do tempo, ela permanece em silêncio e,
desse modo, guarda o segredo da vida12.
O filme se inicia com a viagem do trabalhador migrante Han Sanming à região das
Três Gargantas - na época, local de construção da maior usina hidroelétrica do
mundo -, em busca de sua mulher. A câmera penetra no cenário como um estranho
num quarto vazio, recém-desocupado por seus inquilinos. Fengjie, uma cidade de
2 mil anos, nos é apresentada no momento de sua desaparição: desmantelada,
dinamitada e arrasada, em meio a nuvens de poeira e um barulho ensurdecedor.
Enquanto mais de um milhão de moradores são obrigados a deixar suas casas, a
câmera divaga de um lado para outro, como se procurasse sinais de vida num
sítio arqueológico - mas um sítio em que é o nosso próprio mundo da vida que é
desenterrado. O caractere chai - "a demolir" - é visível por toda a parte,
pintado em vermelho nos muros, ao lado das marcas indicadoras do futuro nível
das águas. Isso serve como um reiterado e melancólico aviso, um pedido de
socorro transmitido da cena de desastre social que se desenrola
inexoravelmente, e que só pode ser medida numa escala natural-histórica
(Chernobyl nos vem à lembrança, ominosamente).
O lastro documental dos primeiros filmes de Jia é enfim realçado no seu longa-
metragem mais recente, Cidade 24, no qual a melancolia que permeava Em busca da
vida dá lugar à fala e à escuta sinceras. Aqui, o tema da "natureza-morta" é a
Fábrica 420 em Chengdu, cujas instalações foram vendidas a um empreendedor
imobiliário em 2008 e demolidas para a construção de condomínios residenciais
de luxo (a fábrica seria relocada na periferia da cidade). "O socialismo chinês
acabou, como experimento no plano econômico", conclui Jia; e acrescenta: "no
filme, trato da memória desse experimento, e de como as experiências e o modo
de vida dos trabalhadores foram afetados por esse sistema"13. Com base em mais
de 130 entrevistas com 420 empregados e aposentados da fábrica, Cidade 24 acaba
sendo mais "ficcional" do que a maioria dos outros filmes de Jia, na medida em
que uma história institucional coletiva se cristaliza sobretudo em torno dos
depoimentos de três trabalhadoras, duas delas interpretadas por atrizes
famosas, Joan Chen e Lü Liping, e a terceira por Zhao Tao, que trabalhou em
todos os filmes de Jia desde Plataforma.
Essa "concentração ficcional", que pareceu necessária ao cineasta, produz certo
efeito de estranhamento; mas desempenha sobretudo a função de voice-over
discursivo, que ancora e centra o olhar documentário da câmera, o qual procura
mixar dois rolos de imagens de "natureza-morta", extraídas de dois setores da
sociedade chinesa contemporânea. Primeiro, o das instituições amparadas pelo
Estado, logo destinadas a cair em completo esquecimento, como salões de
reunião, ônibus, recintos de fábrica e as áreas comuns dos conjuntos
residenciais comunais; segundo, a esfera da vida cotidiana privada, como salas
de estar, cozinhas e objetos de uso pessoal. O que o filme apresenta não é
tanto uma coleção de naturezas-mortas do passado recalcado e do presente em
vias de desaparecimento, mas sim diversas passagens audiovisuais e discursivas
que ligam a superfície tumultuosa das cidades chinesas contemporâneas ao mundo
subterrâneo e obscuro das "histórias pessoais".
O fascínio pela natureza-morta, nesse sentido específico, também se liga ao
impulso de registrar "os trabalhadores indo e vindo diante da câmera", nas
palavras de Jia14. É sua homenagem àqueles que levam uma existência tão
silenciosa quanto uma natureza-morta. A migração compulsória da força de
trabalho em Em busca da vida, bem como a irrequieta mobilidade dos personagens
de O mundo, todos em trânsito de pequenas para grandes cidades, da Ucrânia para
Pequim, ou de Pequim para Ulan Bator -, denotam a primitiva obsessão de Jia com
a imobilidade, com aqueles que se acham imobilizados nos municípios e cidades
provinciais que marcaram seus anos de formação. Num texto de 2006, ele relata
uma viagem imprevista que fez a Datong, sob o impulso do momento, para rever
velhos amigos:
Cheguei por volta da meia-noite, tomei um táxi e fui direto para um
pequeno restaurante... Tal como esperava, todos os meus amigos
chegados estavam ali, pois não tinham outro lugar aonde ir. Eles se
reuniam diariamente nesse restaurante para matar o tempo, bebendo e
jogando. Nunca precisavam marcar encontro para se verem.
Não tendo outro lugar aonde ir, Jia e seus amigos de Shanxi resolvem visitar as
salas de cinema abandonadas do distrito das minas de carvão. Ele depara com
salas escuras e vazias, algumas delas já transformadas em depósitos, e suas
descrições se leem como notas de filmagem ou trechos de um roteiro:
Como uma turma de vagabundos, seguimos em frente à procura de sinais
das antigas salas de cinema e clubes operários, e os encontramos
ainda de pé, em meio às tempestades de areia do deserto de Gobi.
Algumas exibiam janelas despedaçadas, como feridas abertas, outras
simplesmente se deixavam estar em silêncio, como se ainda descrentes
do acontecido. Então, me ocorreu com espanto que os rostos dos
chineses contemporâneos nunca foram fielmente retratados pelos filmes
de mais ou menos uma década para cá, suas alegrias e tristezas, o
drama de suas vidas, reduzidos à insignificância. Ninguém se
preocupava com aqueles que viviam nos alojamentos operários das
imediações, com suas almas e necessidades espirituais15.
O que anima o cinema de Jia no sentido mais pessoal, privado e, não obstante,
mais engajado social e politicamente, talvez seja isto: o desejo de documentar,
representar, evocar e homenagear, seja como contemporâneo ou retardatário, o
evanescente, o imóvel e o silencioso. Trata-se de uma missão de resgate com
gume crítico. Como intelectual participante, Jia pode definir seu projeto como
"uma tentativa de compreender o estado de coisas moral de nosso país" [mingbai
minzu de jingshen xianzhuang], mas Jia Zhangke, o cineasta-poeta como
indivíduo, dedica sua obra aos "irmãos prestes a repetir a mesma rotina de
comer e beber, de suportar a mesma solidão e o mesmo vazio"16.
A natureza-morta, como noção emprestada da pintura, abre possibilidades para o
cinema de Jia, seja como poética da desaparição ou documentário de resgate. Ela
oferece, primeiramente, uma categoria epistemológica e uma estrutura
operacional básicas para sustar um acelerado e impiedoso processo de mudança, e
reconfigurar seus fragmentos dispersos numa sequência de perdurável clareza
visual. Aquilo que desaparece diante de nossos olhos, no interior do fotograma,
torna-se a substância concreta "daquilo que foi", constituindo negativamente
uma fenomenologia da vacuidade. A redução e a suspensão da História sob a forma
de natureza-morta não é um mero artifício que torna acessíveis coisas demasiado
grandes para a experiência e a percepção humanas, tornando-as mais fáceis de
manejar. Pois a quietude assim alcançada se torna um ponto focal para onde
convergem todas as imagens, sons e histórias. Enquanto ouve os barulhos de
demolição em Em busca da vida, na sua aflitiva monotonia, o espectador se abre
para todo tipo de sons e luzes, músicas e linguagens - daí, talvez, a inserção
aparentemente inexplicável da gaiata sequência de animação que mostra uma
espaçonave riscando os céus. Essa abertura pode servir como uma sugestão útil,
um trampolim para uma nova crônica da experiência coletiva.
A poética da desaparição, em Jia, se concretiza mediante o registro do presente
da China, no qual se desenrola uma agônica batalha na última fronteira do
capitalismo global. De Fenyang a Pequim, e de volta aos "cenários e cenas"
desse silencioso conflito, seus filmes ultrapassaram os limites da cidade
natal, ao mesmo tempo que buscam uma definição de cidade natal não apenas
pessoal, como também prenhe de significado político. Pois assim como o
xiancheng vem a ser a China em escala doméstica, a China vem a ser um xiancheng
em escala histórico-mundial. O que está em jogo é nada mais nada menos do que o
significado da existência social coletiva, para a qual a cidade natal não é a
última linha de defesa, mas o locus mais imediato, por meio do qual outras
aspirações, social e politicamente mais concretas, se exprimem.
Em busca da vida termina com os trabalhadores migrantes deixando Fenyang com
destinação não especificada, em busca de trabalho e meios de subsistência.
Atrás deles, entre dois prédios condenados, um homem se equilibra na corda
bamba, contra o fundo de um céu sombrio. Observar o que está presente nos
filmes de Jia Zhangke é indagar aonde vão seus personagens e que espécie de
futuro podem almejar: como diz a letra da canção ouvida no final de Cidade 24,
"Weilai zai nali" [Onde está o futuro?]. Por mais incerta que seja a resposta,
algo está fora de dúvida: eles não podem ficar - e não ficarão - parados.
ZHANG XUDONG é professor de Estudos do Leste Asiático e Literatura Comparada na
Universidade de Nova York (NYU).
[*] Artigo publicado originalmente na New Left Review, 63, maio-jun. 2010, pp.
71-88.
[1] Uma versão anterior desta monografia foi apresentada em 2009, na
conferência "Políticas culturais da modernidade: o contexto chinês", realizada
no Instituto de Arte Courtauld. Gostaria de agradecer a
Chaohua Wang, Agnes Zhuo Liu, Pu Wang, Yu Zhu, Jun Xie, Peter Button e Liang-
Hua Yu por seus comentários.
[2] Entrevista ao semanário Nanfang Renwu zhoukan [Semanário do Povo Sulino],
n° 10, 2009, p. 66. [Tela prateada: tela de projeção
utilizada nos primórdios da indústria cinematográfica, e que continha prata na
sua trama para torná-la mais reflexiva. O termo, consagrado pelo uso popular
nos EUA, passou a designar por metonímia a indústria do cinema. - N. T.]
[3] Jia menciona Ladrão de Bicicleta, de De Sica, como um de seus filmes
preferidos. Ver Xudong, Lin e outros (orgs.). Jia Zhangke Dianying [O cinema de
Jia Zhangke]. Pequim: Zhongguo Mangwen Chubanshe, 2003, pp. 114-15.
[4] Xiaodong, Wang. "Lun Jia Zhangke dianying zhong de guxiang" [A cidade natal
nos filmes de Jia Zhangke]. Dianying wenxue [Escritos sobre cinema], nº 5,
2009, p. 72.
[5] Entrevista ao Nanfang Renwu zhoukan, p. 68.
[6] Xinyu, Lü. "Cong Bi An Kaishi: Xin Jilu Yundong zai Zhongguo" [Partindo da
outra margem: o movimento do Novo Documentário na China], Tianya [Fronteiras],
nº 3, 2002, p. 68. Além de Wu Wenguang, Li Xiaoshan, Kang
Jianning e Duan Jinchuan são frequentemente mencionados como os diretores mais
destacados desse movimento.
[7] Citado em Yanping, Ruan. "DV meijie duo chuangzuo xintai yingxiang zhi
yanjiu" [Estudo do impacto do vídeo digital sobre a postura dos cineastas], em
Dianying wenxue, nº 17, 2008, p. 23.
[8] Ibidem, p. 24.
[9] Ibidem, p. 24.
[10] Walter Benjamin, "The Work of Art in the Age of Mechanical Reproduction" ,
em Illuminations. Nova York: Harcourt, Brace & World, 1968, pp. 226-7. [Ed. bras. "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade
técnica", em Magia e técnica, arte e política. São Paulo, Brasiliense, 1996. ]
[11] Zhangke, Jia. Jia Xiang [Reflexões de Jia], Pequim: Beijing University
Press, 2009, p. 25.
[12] Ibidem, p. 167.
[13] Jia, entrevista a Liu Min, em Dianying shijie [O Mundo do Cinema], n° 6,
2008, p. 42.
[14] Zhangke, op. cit., p. 167.
[15] Ibidem, p. 170.
[16] Ibidem, p. 170.