O filósofo municipal, a Setzung e uma nova coalizão lógico-ontológica
É estranho dizer de um livro de Lições que ele condensa o percurso de um
intelectual1. Mas, no caso de José Arthur Giannotti, foi exatamente isso o que
aconteceu. É somente esse livro que permite entender como conjunto a produção
do autor desde a publicação de Trabalho e reflexão, em 1983. É só Lições de
filosofia primeira que permite juntar as peças do quebra-cabeça que Giannotti
andou montando nas últimas décadas. Nesse livro, pode-se encontrar também a
última etapa de um ajuste de contas ainda mais antigo, de seis décadas, com a
filosofia de Edmund Husserl, que deveria ter sido o tema do doutorado de 1953,
afinal dedicado à lógica de John Stuart Mill2.
Não se trata, portanto, de um volume sem mais "introdutório" à filosofia e à
sua história, um "manual", ainda que tenha preocupações, digamos, didático-
pedagógicas. Ou seja, está presente no livro a tentativa de expor o mais
claramente possível o pensamento dos autores examinados; mas o fato é que seu
procedimento construtivo (do surgimento da questão fundamental do "ser" à crise
da metafísica) faz com que sua estrutura se aproxime mais do Martin Heidegger
de Introdução à metafísica do que de um livro didático no sentido usual do
termo. O que, claro, mostra também que Giannotti não entende o "didático" da
maneira usual.
As peças do quebra-cabeça teórico de Giannotti desde a década de 1960 são
basicamente as mesmas duas peças clássicas: uma lógica e uma ontologia, unidas
em dobradiça. Na posição do problema e na busca da dobradiça a unir as palavras
e as coisas, o "filósofo municipal" não difere muito de "filósofos mundiais"
como Michel Foucault, um seu contemporâneo também egresso da tradição
fenomenológica. Chega a ser estranho que Giannotti não tenha se referido mais
extensamente ao pensamento de Foucault em seus escritos, ainda que a formulação
que dá aos problemas seja diversa. Mas, para o que me interessa aqui, importa
ressaltar apenas aquilo que os diferencia, o elemento que ainda falta para
completar o esquema de Giannotti e que se encontra ausente em Foucault (que,
também nesse déficit, repete Heidegger): o requisito exigente de uma teoria da
ilusão necessária.
Giannotti tomou para si a tarefa de pensar uma dobradiça lógico-ontológica que
funciona em falso não por boniteza, mas por precisão. Ao contrário de muito
filósofo mundial de tradição fenomenológica, tomou para si a tarefa adicional
de explodir o esquema fenomenológico husserliano com o que há de mais essencial
e de mais refinado no pensamento de Karl Marx: um conceito de crítica enraizado
na prática cotidiana das ilusões necessárias que estruturam a complexa cadeia
de valorização do capital. Uma precisão de imprecisão necessária, aquela
própria do capital.
Mas não foi apenas por isso que Trabalho e reflexão se tornou uma referência
para a Teoria Crítica no Brasil. As razões são muitas. Vou me restringir às
duas que considero as mais salientes. Em primeiro lugar, ao tomar o pensamento
de Marx como fio condutor a alinhavar esses três elementos - lógica, ontologia
e ilusão necessária -, Giannotti pôde também prolongar sua crítica à maneira
tradicional como as disciplinas das ciências sociais vinham elaborando os temas
contemporâneos. Foram criticados em suas limitações, por exemplo, o
behaviorismo de B. F. Skinner, a sociologia compreensiva de Max Weber, o
cognitivismo de Jean Piaget, a teoria dos atos de fala de J. L. Austin e de
John Searle, o Friedrich Engels da Dialética da natureza. E essa crítica à
Teoria Tradicional influente em seu tempo se liga de maneira mais geral a uma
atitude "antivoga" ou "antivaga", que, com conhecimento de causa (e isso faz
toda a diferença, dado o histórico nacional nesse caso), pretende receber
criticamente as diferentes modas teóricas que assolam com frequência a vida
intelectual do país3. Nesse sentido, tornou-se um modelo duradouro para nossa
discussão municipal.
Em segundo lugar, o livro sustenta de maneira obsessiva sua oposição à cisão
entre "ser" e "dever ser" e se aferra de maneira peculiar ao adágio do modus in
rebus. Porque a própria cisão entre o que é e o que deve ser tem de abstrair do
objeto para ser estabelecida, tem de esquecer a medida que o objeto carrega
nele mesmo, vale dizer, tem de abstrair do fato de que também a norma, também o
"dever ser", é um momento inalienável do "ser" do objeto. Tampouco aceita o
expediente fácil - e tão em voga na filosofia contemporânea atual - de dizer
que o problema se resolve fazendo da cisão uma distinção meramente analítica:
porque é a distinção mesma que obscurece a apresentação dos processos efetivos
de medida que produzem a objetividade.
Essa configuração teórica foi possível porque Giannotti ancorou sua teoria da
medida no processo social de trabalho, tomado como núcleo irradiador de
diferentes formas da sociabilidade capitalista. Mas, se o modelo lembra o de
História e consciência de classe - já que, no caso de Lukács, a "forma
mercadoria" desempenha o papel de "centro irradiador" da sociabilidade -, o
resultado é bastante diverso. Porque, em Trabalho e reflexão, não se trata de
pensar que se espraia unicamente o formalismo próprio da reificação, formalismo
que se chocaria, no limite, segundo Lukács, com os requisitos mais vitais de
existência do operário. Sem abrir mão da premissa da dominação social do
capital, o livro projeta uma variedade surpreendente de arranjos sociais reais
e possíveis dos processos de medida - vale dizer, de processos efetivos de
produção e de troca em sua reconstrução racional. E, com isso, assinala também
que as fissuras na lógica da reprodução social são muito mais variadas do que a
da contraposição exclusiva de capital e trabalho. O que, não por último, vai
dar também em uma visão muito mais complexa e cheia de nuances da política. Não
apenas pelo papel central que passa a desempenhar o Estado, mas pela
possibilidade de a política se infiltrar de diferentes maneiras e em diferentes
arranjos nas tramas da lógica da reprodução social.
Encontrar a multiplicidade sob a máscara da identidade, mostrar que a realidade
social se perde no exato momento em que é pensada a partir de elementos tomados
como idênticos ("capital", "mercado", "classes sociais", "Estado", e assim por
diante), ao mesmo tempo que mostra que essa lógica da identidade é a lógica
mesma da ilusão socialmente necessária, tudo isso não foi mero aggiornamento de
Marx e do marxismo. Não foi pouco produzir uma ontologia (social) capaz de
reconduzir a ideia de que identidades a um tempo conceituais e práticas apagam
as marcas de sua produção a uma lógica mais geral de formação de identidades
sociais que opera segundo ilusões socialmente necessárias. Porque apresentar
esse vínculo em seu processo de construção é o mesmo que mostrar que a lógica
da redução forçada da multiplicidade à unidade mostra a lógica mesma do
funcionamento do poder sob o capitalismo tardio.
Não que com isso Giannotti tenha passado a compartilhar com Theodor W. Adorno
uma crítica da ilusão necessária de identidade, ou algo assim. Pelo contrário.
Muitos anos depois, em Certa herança marxista, de 2000, ficou atestada sua
rejeição a Adorno, cujo "discurso infeliz", segundo Giannotti, "nada mais pode
além de incansavelmente tentar enxergar a face oculta da Lua"4. E essa rejeição
é ditada não apenas por diferenças teóricas quanto à compreensão da identidade,
mas pela diretriz de não perder de vista o novo que pode sempre irromper no
velho estabelecido. Ainda assim, não deixa de ser estranho que Giannotti não
reconheça nesse embate o quanto um dia esteve próximo de Adorno. Nem o quanto,
depois da publicação de Trabalho e reflexão, buscou em F. W. J. Schelling, como
Adorno antes dele, uma saída para escapar à lógica de identidade que
caracteriza mais amplamente o idealismo alemão dentro do campo de forças do
próprio idealismo alemão.
Seja como for, trata-se, até Trabalho e reflexão, de uma lógica da
multiplicidade que só pode ser reconstruída em sua complexidade se trazida à
unidade de maneira reflexionante - seguindo o modelo do Marx do manuscrito de
Para a crítica da economia política, segundo o qual o "concreto é concreto
porque síntese de muitas determinações, unidade do múltiplo, portanto"5. Ainda
na pista de Marx, Trabalho e reflexão reconstrói o complexo processo de que o
concreto é o resultado, de maneira a mostrar que, no cotidiano da dominação,
esse processo é reduzido à unidade de maneira violenta, com base em ilusões
necessárias - um exercício de poder que se apresenta não em sua efetiva trama
reflexionante, mas como um processo determinante, justamente.
A ruptura com esse quadro de pensamento vai se dar quando Giannotti se mostra
insatisfeito com a reconstrução desse processo reflexionante. O transbordamento
que levou para além desse esquema teórico foi descrito pelo próprio autor da
seguinte maneira nas "Considerações iniciais" de Apresentação do mundo, de
1995. No mesmo ano da publicação de Trabalho e reflexão, em 1983, Balthazar
Barbosa já tinha lhe colocado a pulga atrás da orelha ao aproximar uma das
noções centrais do livro, a noção de "esquema operatório"6, do "jogo de
linguagem não verbal" de Ludwig Wittgenstein. Ao perseguir essa indicação, deu-
se conta de que o lado lógico da dobradiça tinha perdido o pé e devia ser
refeito - o que, em um modelo que pensa conjuntamente lógica e ontologia,
significa que o pé ontológico também tinha vacilado. Isso tudo tem que ver
ainda, em sentido mais amplo, com uma obsessão antiga, com uma espécie de
postulado do autor: o de que uma filosofia que não está à altura da lógica do
seu tempo é simplesmente uma má filosofia7. E ele se deu conta de que a lógica
de Trabalho e reflexão estava aquém do que já tinha sido desenvolvido antes por
Wittgenstein.
A experiência dessa reformulação fez com que percebesse que os elementos de sua
reflexão não podiam mais ser pensados à maneira da lógica da "medida", por
complexa que fosse. Para retomar o início, era a dobradiça a ligar lógica e
ontologia que tinha enferrujado. E o agente corrosivo, no caso, vinha de um
pressuposto teórico importante e não problematizado de Trabalho e reflexão que
acabou subindo à superfície: uma concepção de linguagem ainda por demais
impregnada de fenomenologia. A partir desse momento, o que se tem é algo mais
próximo de um sistema de referências internas obrigatórias entre elementos
lógicos e elementos ontológicos. É a busca de um sistema de referências como
esse que vai orientar o trabalho de Giannotti a partir de então e que pode ser
resumido na busca de algo como uma "teoria do juízo", em lugar da unidade
reflexionante da "medida". Não por último porque, segundo a autocrítica de
Giannotti, a própria ideia de "reflexão" estava aquém dos desenvolvimentos já
realizados por Wittgenstein.
A partir desse momento, ao se livrar do que ele via como uma tralha
fenomenológica, Giannotti se desvencilhou do último fardo do idealismo alemão
que ainda lhe pesava: o de uma lógica da "posição", da Setzung. E isso
significou ao mesmo tempo abandonar o campo de forças que vai de Immanuel Kant
a G. W. F. Hegel e que leva de volta a Kant. Essa foi a escolha filosófica
decisiva depois da publicação de Trabalho e reflexão. E é a escolha que
prevalece até hoje nos escritos de Giannotti.
O abandono do universo conceitual da Setzung está intimamente ligado à
aceitação do diagnóstico de Heidegger apresentado em uma constelação de textos
pertencentes ao universo de Ser e tempo, de 1927 (especialmente o curso do
mesmo ano, Problemas fundamentais da fenomenologia), e, subsidiariamente, em um
texto de 1961, "A tese de Kant sobre o ser", do volume Marcas do caminho
(Wegmarken). Comparando Kant e Heidegger, Lições mostra como o primeiro tem na
Setzung, na posição, sua compreensão fundamental da existência: "a existência
provém de um ato de pensar ponente que, para Kant, está ligado ao eu
transcendental. Esta casa vem a ser sendo graças a um eu ponente que vem a ser
ente enquanto é. A existência não categoriza a casa, mas resulta de um ato
desse eu que, no fundo, é de todos. Desse modo, a existência não é uma
propriedade do objeto, mas um modo pelo qual ele é posto"8.
Assim caracterizada, a filosofia kantiana teria aberto a porta a partir da
qual, no caminho que leva até Marx, passando por Hegel e o idealismo alemão, o
sujeito moderno ganharia progressivamente o lugar de criador ou engendrador do
mundo e da história. Não cabe aqui retomar todo o argumento a partir do qual
Giannotti, apoiado em Heidegger, irá desmontar essa pretensão demiúrgica do
sujeito moderno, moldado pela virada prática própria do pós-kantismo. Tampouco
se trata, pelo momento, de questionar as consequências de tal diagnóstico
heideggeriano, mesmo que sua liquidação do sujeito moderno traga pouco mais do
que uma crítica abstrata da técnica e da ciência contemporâneas. O que cabe é
lembrar que foi em um universo teórico ainda marcado pela lógica da Setzung que
Giannotti desenvolveu sua reflexão até pelo menos meados da década de 1980. E
que, para entender seu posicionamento atual, é preciso reconstruir esse seu
percurso que leva de Kant a Marx, até a caracterização da Setzung como processo
de trabalho, bem como tentar apresentar a peculiar versão que dela deu em
Trabalho e reflexão.
Para tanto, começo tomando um atalho. Trabalho e reflexão foi talvez o primeiro
livro no país a esboçar uma crítica ao neokantismo de John Rawls, algo que pode
ter passado despercebido dado o então quase completo ineditismo do autor de Uma
teoria da justiça, de 1971, em um país de economia fechada e cujo sistema
universitário estava ainda em processo de consolidação. Ainda que não seja
explícito a esse respeito, transparece na referência de Giannotti a Rawls algo
de uma crítica ao contratualismo em geral. Mas vou pegar a deixa em um outro
sentido.
Contrariamente a Rawls e aos "modernos neokantianos" em geral, Giannotti
prefere "trilhar outros caminhos, pensar ao nível do próprio 'juízo' a
determinação recíproca entre o ato efetivo e a meta visada. Daí ser mister,
primeiramente, deixar de tomar esse ato como parte duma atividade deliberativa,
tramando regras desde o início, para acompanhá-lo tão só na sua efetividade
diante do alvo. No lugar de juízo, comportamentos orientados. Em seguida,
abandonamos o pressuposto de que essa regra mantém sua identidade indeformável
durante o processo"9. Não deixa de ser interessante notar como a equação vai se
inverter na década seguinte: no lugar de comportamentos orientados, juízo -
sendo que juízo já virá sem necessidade de aspas. Mas o relevante aqui é
insistir em que a "efetividade" do "ato" é o que permite sua reconstrução em
pensamento de tal maneira que possa ser capturado em seu processo social de
medida e em sua inscrição na teia de ilusões socialmente necessárias à sua
produção. Na versão que deu Marx da Setzung, da posição, essa efetividade do
ato remete à ideia de um sujeito que põe o mundo segundo um esquema em que a
representação do ato não coincide com a sua posição efetiva. Esse sujeito, o
proletariado, ao unir, por meio da ação política, esses dois momentos
objetivamente cindidos, torna-se classe.
Não é à toa, portanto, que caiba ao trabalho "o papel genético-transcendental",
"sendo o único comportamento que de imediato visa transformar em ente o objeto
que representa"10. Não é igualmente casual, nesse contexto, que o trabalho seja
"força produtiva por excelência; visa transformar a coisa num valor de uso para
o homem, tomando-a como se fosse apenas um ente a ser adequado ao consumo, mas
terminando por convertê-la num objeto reflexionante"11. Pois essa reconstrução
do trabalho como matriz "genético-transcendental" dos comportamentos sociais em
geral segue de perto a apropriação por Marx do idealismo alemão e da lógica da
Setzung, que é interpretada por Giannotti mediante a análise dos dois passos do
processo que considera fundamentais: a representação e a medida.
No esquema de Trabalho e reflexão, essa análise em dois momentos abre a fissura
cotidianamente preenchida pelas ilusões socialmente necessárias, aquela entre a
"medida representada" e a "medida efetiva": "Frisamos desde logo que o processo
de trabalho não persiste sem um momento representativo, mas para que o alvo
seja reiteradamente anteposto precisa ser medido. No entanto, abre-se uma
diferença entre a medida representada e a medida efetiva, pois só esta última
demanda um padrão estável de funcionamento"12. Encontra-se aqui tanto uma
apresentação sintética da "dialética da sociabilidade" de Giannotti quanto a
outra ponta de sua crítica ao neokantismo do final do século XX, exemplarmente
representado por Rawls. De modo que não é por acaso que seja igualmente esse o
momento de apontar o lugar da política, como "representação do todo, sua
encenação", "que põe no palco o interesse comum como se este não atravessasse
as vicissitudes de transformação das coisas e dos homens"13.
É a articulação de Trabalho e reflexão em torno do trabalho como matriz
"genético-transcendental" que garante à crítica o acesso às diferentes
dimensões sociais, não por último à política. A mesma matriz que põe Giannotti
em continuidade do que se chamou aqui de lógica da Setzung, segundo a qual a
crítica em sentido enfático só se tornou possível no momento em que, com Kant e
com o idealismo alemão, a prática passou a ter ao menos primado sobre a teoria,
uma lógica que alcançou sua forma mais radical e mais elaborada no conceito de
trabalho de Marx.
O peculiar da "dialética da sociabilidade" de Giannotti até Trabalho e reflexão
está em ter reelaborado o conceito de trabalho de Marx segundo uma lógica mais
geral, segundo a lógica da medida, cuja matriz está na medida própria do valor,
padrão que se espraia pelo conjunto das relações sociais. A reelaboração de
Giannotti conta não apenas com a reconstrução dos termos sofisticados em que
Marx pensou a medida do valor, mas também com uma atualização segundo a lógica
político-estatal de formação do valor própria do capitalismo da segunda metade
do século XX. Uma atualização que permitiu mostrar que os processos de medida
são tão variados quanto irredutíveis sem mais unicamente à lógica da produção
de mercadorias e da troca capitalista.
E isso não apenas porque, no próprio Marx, o caminho que leva da forma
mercadoria à forma capital, passando pela forma dinheiro, contém já um campo de
variação dos processos de medida por si mesmo notável. Também porque tentar
produzir algo como uma teoria da medida que dê conta desse campo de variação
permite mostrar um campo de variação de formas de sociabilidade (e de
oportunidades de ação, portanto) igualmente de amplo espectro, o que funciona
como antídoto para a tentação de uma uniformização e homogeneização das formas
de vida que, no final das contas, serve apenas para simplificar a tarefa do
crítico. E, segundo o diagnóstico subjacente, traz à luz uma variedade de
processos de exercício do poder que se dão em níveis, dimensões e contextos
igualmente diversos - que apenas de maneira reflexionante podem ser trazidos à
unidade própria da lógica da medida. Conta para isso com uma aliança com a
antropologia social contemporânea, capaz de fornecer instrumentos para pensar
uma complexificação do processo de divisão do trabalho e da troca à altura das
sociedades do então chamado "capitalismo tardio", o que permitiu em não poucos
momentos uma apresentação inédita de conceitos tão centrais como "troca" ou
"modo de produção". Apresentados para criticar e corrigir por vezes o próprio
Marx, inclusive.
Nesse sentido, encontrar acordo ou desacordo "no nível do juízo" pressupõe um
acordo ou desacordo prévio sobre processos sociais concretos de medida,
entendidos, por sua vez, em referência a uma identidade comum que tem de ser
pensada como produzida de maneira reflexionante e segundo a fissura estrutural
entre "medida representada" e "medida efetiva". Uma identidade, portanto, que
não pode ser pressuposta à maneira da ontologia clássica ou mesmo do
individualismo possessivo da modernidade liberal. Colocado por si mesmo contra
a parede, Giannotti não hesita em tomar uma posição radical a esse respeito:
"Preferimos o radicalismo que nega qualquer identidade prévia indeformável"14.
A partir da segunda metade da década de 1980, Giannotti começa a encontrar
dificuldades na articulação desses dois pontos fundamentais. O acordo ou
desacordo em torno da medida não pode mais tomar a formação do valor como
padrão, mesmo com todas as correções e restruturações do então chamado
"capitalismo tardio". E essa mudança de diagnóstico do tempo corresponde a uma
mudança decisiva na teoria: a descoberta de que a "identidade" visada a cada
caso pelo acordo ou desacordo em torno da "medida" pressupunha uma filosofia da
identidade que já não podia ser sustentada. Por mais sofisticada que tenha sido
a apropriação por Marx da herança do idealismo alemão e por mais sofisticadas
que fossem as interpretações contemporâneas em torno da formação do valor,
havia ainda um lodo de fundo que tinha permanecido intocado, resumido aqui pela
lógica da Setzung. Agitado, esse lodo tornou a água turva. Mas, para Giannotti,
produziu um espelho mais adequado para que a sociedade atual pudesse encontrar
seu rosto no reflexo. Não só como filosofia teórica, mas ainda na moral e na
estética.
Para retornar uma vez mais ao início: as peças do quebra-cabeça teórico de
Giannotti são basicamente uma lógica e uma ontologia, unidas em dobradiça e
funcionando segundo ilusões socialmente necessárias. Isso me parece representar
a linha fundamental de continuidade dos escritos de Giannotti. E, se está
correta a reconstrução de como esses elementos se articulam em Trabalho e
reflexão, a consequência é a de que a alteração na caracterização de um desses
elementos leva necessariamente a uma reconfiguração mais ampla de sua
articulação.
Ocorre que ao buscar recompor a unidade de Trabalho e reflexão em um nível que
julga mais sofisticado, mais preciso e mais complexo, Giannotti tenta fazê-lo
com instrumentos que o impedem estruturalmente de alcançar tal objetivo. Ou,
pelo menos, alcançar um dos elementos fundamentais: aquele de uma teoria da
ilusão necessária. Essa é uma das maneiras de apresentar a interpretação de
conjunto do percurso de Giannotti desenvolvida aqui. O que é o mesmo que dizer
que, ao abandonar o universo da lógica da Setzung, Giannotti não conseguiu mais
reencontrar um solo para a crítica. Uma deficiência estrutural que resulta do
abandono do campo de forças Kant-Hegel em favor de um campo de forças marcado
pelas filosofias de Wittgenstein e Heidegger.
Ao recorrer a Marx em Certa herança marxista, Giannotti conseguiu a duras penas
mapear (não mais que isso) os problemas a serem enfrentados com vistas a
recompor o que poderia vir a ser posteriormente uma teoria da ilusão
necessária. Foi apenas com o capítulo de Heidegger de Lições de filosofia
primeira que alcançou esboçar algo como uma "crítica da inautenticidade" que
parece pretender dar lastro a uma retomada de sua intenção crítica anterior. Em
Lições, Giannotti refere essa nova gramática da autenticidade à ontologia de
matriz wittgensteiniana que já havia desenvolvido em Apresentação do mundo.
Para desenvolver esse novo campo de referências teóricas de maneira
consistente, termina já anunciando um novo livro que tratará apenas desses
contrapontos Heidegger/Wittgenstein. Mas, mesmo antes da publicação desse novo
volume, já é possível dizer, com base no que é oferecido em Lições, que não vai
conseguir alcançar a teoria da ilusão necessária sem a qual a articulação entre
os dois momentos funciona de maneira acrítica. Porque não se vê como tal teoria
seria alcançável nos termos em que se constrói hoje a reflexão de Giannotti.
Vejamos isso um pouco mais de perto.
A rearticulação teórica realizada em Apresentação do mundo já dava conta de uma
maneira nova de rearranjar a própria história da filosofia. O pensamento de
Marx deixou ali de ser o ponto de referência a organizar a história da teoria,
à maneira de um antes e de um depois. O que significa, ao mesmo tempo, que a
modernidade de que o pensamento de Marx é um emblema deixa de ser o negativo
privilegiado sobre o qual se decalca o momento presente. Uma modernidade que,
do ponto de vista teórico, ainda se movia em um ambiente de pensamento
demarcado pela crítica de Hegel a Kant e pela possibilidade de mobilizar uma
metacrítica de inspiração kantiana à filosofia de Hegel. A transformação
materialista desse campo de forças teórico por Marx levou à categoria de
"ilusão socialmente necessária", síntese e suma da sua versão da teoria da
subjetividade moderna moldada a partir do centro filosófico do idealismo
alemão, da Setzung.
Lições é o livro que consuma a virada iniciada em Apresentação do mundo. É o
momento em que Giannotti expõe claramente não apenas o seu abandono do
paradigma da Setzung em sua versão mais avançada, aquela de Marx, mas vai ainda
além: o paradigma da Setzung passou a ser ele mesmo um bloqueio à compreensão
do momento presente. De modo que sua própria compreensão da modernidade passa
agora por dinamitar esse padrão pressuposto de subjetividade e de
sociabilidade, que considera a partir de então por demais limitado para o
entendimento do presente. A produção até Trabalho e reflexão passa a ser lida
pelo próprio Giannotti como um conjunto de tentativas ainda canhestras de
alcançar o nível de complexidade teórica e o de exposição próprios dos escritos
posteriores a Apresentação do mundo.
Vale a pena acompanhar um pouco mais de perto esse movimento, já desenhado
claramente em 1995, nas "Considerações iniciais" de Apresentação do mundo. Em
primeiro lugar, a tradução do problema da medida na nova forma de apresentação
gramatical: "O tema da medida [...] se traduz no tema do critério, em suma, de
como se pode afirmar legitimamente que tal expressão ou ação seja correta ou
incorreta. Noutras palavras, no que consiste um jogo de linguagem? Se a
descrição das regras de um jogo constitui proposições de essência determinando
os tipos de objeto com que lida esse sistema linguístico, o problema duma
ontologia se resolve numa investigação gramatical, no amplo sentido que
Wittgenstein empresta a esse termo"15.
Em segundo lugar, Giannotti tem claro que, se essa reviravolta lhe permite uma
exposição que entende mais sofisticada do que com a obtida anteriormente com a
noção de "esquema operatório", o objetivo reafirmado de produzir uma teoria da
ilusão socialmente necessária não pode ser alcançado com o auxílio de
Wittgenstein: "O que restou, pois, de meu antigo projeto duma ontologia do ser
social? Depurado de seus encalhes fenomenológicos e de alguns ecos ainda
lukácsianos, o compromisso de continuar a examinar formas de sociabilidade,
vale dizer, sua gramática, notadamente a lógica do sistema capitalista. Mas
para isso é preciso tomar enormes distâncias do trabalho realizado por
Wittgenstein, e tentar mostrar que os erros metafísicos, em que necessariamente
cai o pensamento ao longo de seu percurso, podem servir de base para formas
alienadas de sociabilidade. Se a verdade não se constitui numa combinação de
opiniões, mas se firma no processo de julgar levando em conta os resultados de
sua própria atividade, não pode esse consenso verdadeiro tramar-se na base duma
ilusão necessária?"16.
Por fim, Giannotti remete a reconstrução dessa trama ilusória a uma política
que já não pode se reivindicar de um primado da prática: "a inautenticidade do
modo de produção capitalista não se esboroa em virtude da análise lógica das
ilusões necessárias em que ele se baseia. Se de fato a filosofia deixa tudo
como está é porque perdemos o horizonte iluminista, a esperança de que o
trabalho filosófico se transforme em prática revolucionária. Mas esse
retraimento das pretensões da filosofia traz em consequência a revalorização da
prática política"17.
Esse é o ponto central do percurso: a constatação da "perda" do "horizonte
iluminista" é solidária do abandono da lógica da Setzung. Segundo seu
diagnóstico de tempo, essa "perda" significa necessariamente um abandono do
primado da prática. O que, entretanto, torna inteiramente indeterminado o que
poderia vir a ser, como diz o texto, uma "revalorização da prática política",
já que era justamente o universo da Setzung aquele que, como se viu acima a
propósito de Trabalho e reflexão, não submetia a política seja às abstrações
representativas como as de um Rawls, seja a dedutivismos teóricos de quaisquer
matizes. E essa constatação de Giannotti se radicaliza a tal ponto que, em
Lições, ele vai chegar mesmo a afirmar que "todos os movimentos
revolucionários, depois de um momento glorioso de libertação, pouco a pouco
caíram na vala comum do totalitarismo"18.
O diagnóstico de tempo de Giannotti afirma que a união de teoria e prática
(mesmo a do melhor marxismo) conduz inevitavelmente a totalitarismos. Mais
ainda, afirma que os "filósofos marxistas mais abertos às questões da filosofia
da lógica ficaram balançando entre Kant e Hegel sem chegar a uma crítica
radical de seus pressupostos lógicos. E assim tudo contribuiu para que o
pensamento filosófico marxista se transformasse numa langue de bois, puro
psitacismo"19. Ou seja, o único caminho para tentar afastar essas consequências
inevitavelmente nefastas é abandonar o universo da Setzung. Giannotti aconselha
voltar aos textos originais de Marx "antes de armar um novo discurso sobre a
'emancipação', a 'democracia radical' e outras palavras de ordem"20. Dito de
outra maneira: toda tentativa de se colocar em continuidade com a tradição da
Setzung é hoje filosoficamente rala (já que não estaria à altura dos desafios
lógicos do tempo) e politicamente ingênua (quando não explicitamente perigosa).
Giannotti constrói um diagnóstico de tempo em que não há nenhuma possibilidade
de reformulação frutífera do universo da Setzung. A alternativa que apresenta é
entre a estultice (que pode até acabar em totalitarismo) ou sua própria
posição. Só que aceitar a posição proposta por Giannotti implica abandonar
justamente o "horizonte iluminista" no qual a regência do primado da prática
permitiu primeiramente a crítica no sentido enfático que adquiriu por fim em
Marx. Não apenas Giannotti não encontra mais solo para a construção de uma
teoria da ilusão socialmente necessária e para uma crítica da alienação: ele
subdetermina a própria política.
Ao me opor a esse diagnóstico e à alternativa magra que dele resulta não
pretendo de maneira alguma dizer que o problema não seja real, que a lógica da
Setzung, mesmo em sua versão marxista mais refinada não tenha caducado. Antes
pelo contrário. Ao criticar esse universo de pensamento, Giannotti toca no
nervo exposto dessa tradição e mostra convincentemente muitos de seus limites,
o que torna a leitura de seus escritos tanto mais necessária. Quero dizer
apenas que é equívoca a identificação entre o esfumaçamento do horizonte em que
a teoria era solidária do apoio concreto da práxis em uma classe revolucionária
com um pretenso desaparecimento do "horizonte iluminista" enquanto tal. Porque
abandonar o horizonte iluminista, abandonar o universo da Setzung em sentido
amplo significa sim abandonar o primado da prática que primeiro permitiu a
crítica social em sentido enfático. E não há razão para estreitar a alternativa
teórica de tal maneira que a escolha seja entre o proletariado como sujeito-
objeto idêntico ou o abandono do primado da prática e do horizonte iluminista.
Ou, pelo menos, as razões que dá Giannotti para estabelecer uma tal alternativa
magra são bem pouco convincentes.
É certo que nenhuma das tentativas no século XX de continuar pensando no
interior do universo da Setzung de um ponto de vista crítico ecoam
positivamente na reflexão de Giannotti. A obra de maturidade de Theodor W.
Adorno é dedicada toda ela a elaborar a possibilidade de um pensamento que
escape a essa lógica de um sujeito ponente no interior mesmo desse universo
teórico, buscando nos domínios da própria lógica da Setzung as brechas para o
que ele chamou, em sua Dialética negativa, de "primazia do objeto". Movimento
difícil que, em Adorno, faz da "crítica imanente" não uma "comparação do
conceito com o conceituado em vista da sua unidade (atual ou potencial), mas
não identidade de conceito e conceituado em vista da ilusão necessária de sua
identidade real"21. Já se viu aqui a opinião pouco prestigiosa que tem
Giannotti da filosofia de Adorno.
Uma outra tentativa de reformulação do "horizonte iluminista" pode ser
encontrada nos escritos de Jürgen Habermas, que critica a lógica da Setzung
segundo a ideia de que toda "filosofia do sujeito" se enreda em dificuldades
teóricas e práticas insolúveis no interior desse modelo de pensamento (e, nesse
sentido, é uma crítica que se aplica também ao próprio Adorno). A "virada
intersubjetiva" proposta por Habermas visa manter, entretanto, a primazia da
prática na ideia de uma precedência da "ação comunicativa", procurando
reformular a ideia de crítica no confronto entre potenciais comunicativos
liberados pela modernidade e seu bloqueio por uma lógica sistêmica não por
último representada pelo capitalismo tardio e sua institucionalização. Com
isso, torna-se possível produzir referenciais críticos como os da "colonização
do mundo da vida pelo sistema" ou mesmo o de uma "comunicação sistematicamente
distorcida". Para constatar a opinião pouco prestigiosa que tem Giannotti dessa
proposta de Habermas, basta consultar, entre muitos exemplos, o artigo
"Habermas: mão e contramão"22, em que se vê que nem mesmo transformado
intersubjetivamente nesses termos o universo da Setzung poderia, segundo
Giannotti, ser prolongado.
Evoquei aqui rapidamente as reflexões de Adorno e de Habermas não para afirmar
que representem posições mais plausíveis ou mesmo corretas quando comparadas à
posição de Giannotti - mesmo porque são dois exemplos que entendo antagônicos e
irredutíveis a uma unidade, dois modelos críticos bastante diferentes. Os
exemplos de Adorno e de Habermas surgem aqui apenas como contraste, para
mostrar que a alternativa proposta por Giannotti é por demais estreita. É claro
que não lhe escapou a necessidade de criticar tanto Adorno quanto Habermas como
possibilidades equivocadas de prolongamento da lógica da Setzung, mesmo que
transformada. Aliás, as críticas que Giannotti dirige a tentativas como essas
estão calcadas justamente na ideia de que são apenas prolongamentos mal
disfarçados (e mal-ajambrados) da Setzung.
E, no entanto, quando se retoma a argumentação de Giannotti referente à
impossibilidade de prolongar a lógica da Setzung seja por que caminho for,
esbarramos sempre no já mencionado postulado de que a lógica moderna a teria
tornado inevitavelmente caduca. Ou em uma formulação de matriz heideggeriana -
incompatível com o referido postulado, ressalte-se - de que a metafísica do
sujeito teria encoberto "a pergunta pelo ser" exatamente pelo recurso à lógica
da Setzung. Acontece que Giannotti nem aplica ao próprio Heidegger o dito
postulado23, nem aceita todas as consequências filosóficas que advêm da ideia
motriz do esquecimento do ser24.
Esse estado de coisas mostra, por sua vez, um relativo subdesenvolvimento do
diagnóstico de tempo de Giannotti, representado por sua utilização - como se
não fossem argumentos incompatíveis, lembre-se uma vez mais - seja de seu
postulado lógico, seja de um diagnóstico de Heidegger que não é aceito em todas
as suas consequências. Isso talvez explique por que, todas as vezes que é
confrontado com o problema de apresentar uma teoria da ilusão necessária,
Giannotti remeta essa apresentação à política e que esta, por sua vez,
permaneça subdeterminada em seus escritos posteriores a Apresentação do mundo.
Trata-se de fato de uma mera remissão: fica-se sempre à espera da descrição
gramatical - e "o problema duma ontologia se resolve numa investigação
gramatical, no amplo sentido que Wittgenstein empresta a esse termo"25, é bom
sempre lembrar -, que, enfim, mostrará como a política se tece de fato segundo
uma trama que comporta necessariamente alienação.
Considerando o conjunto da argumentação desenvolvida até aqui, não é de
surpreender que Lições adote a estratégia de tomar as duas pontas da história:
a progressiva formação da metafísica na Grécia Antiga e sua dissolução de longa
duração a partir do século XIX em diante. Para tanto, passa por alto não apenas
a filosofia medieval (examina-se unicamente a patrística, tomando Agostinho
como emblema), mas, especialmente, toda a metafísica do sujeito típica da
modernidade. Ou seja, passa por alto a moderna metafísica do sujeito que tem
como uma de suas cristalizações emblemáticas a filosofia da Setzung, própria do
idealismo alemão.
Ao executar o salto mortal de Agostinho a Nietzsche, o que Giannotti salta no
seu livro é a formação do sujeito moderno. Seja segundo a história de longa
duração do nascimento do indivíduo moderno na filosofia medieval, seja na
formulação mais direta do sujeito como fonte de toda representação. É verdade
que, se não tivesse dado esse salto, Giannotti teria defrontado com o trabalho
irrealizável de apresentar uma história da filosofia "completa" e
academicamente informada em todos os seus momentos. Nas suas palavras: "Como se
percebe, não pretendo escrever uma história da metafísica. Deixo um buraco
enorme, que vai da filosofia medieval, pulando o racionalismo clássico e toda a
teoria do conhecimento, à crítica que se desenvolve a partir de Kant. É
possível falar da filosofia sem estudar Tomás de Aquino, Descartes, Hume, Kant,
e assim por diante? Não, mas se eu enveredasse por esse percurso não teria
escrito esse livro, que não pretende ser global nem apresentar um panorama
completo dos problemas levantados"26.
Mas, ao mesmo tempo, ao executar o salto, Giannotti se esquivou da tarefa de
enfrentar a ambivalência própria de um Hegel em relação à filosofia grega, uma
espécie de emblema de toda a filosofia da Setzung. Nas palavras de Gérard
Lebrun em sua interpretação da filosofia hegeliana: "Se os gregos estavam mais
afastados da consumação do Saber (ausência da Subjetividade), estavam
igualmente a mil léguas de sua deformação subjetiva (ausência da Subjetividade
finitizada)"27. O efeito dessa supressão é o de construir uma imagem da
metafísica que se conecta diretamente com sua longa crise terminal, já a partir
da crítica de Nietzsche. Com isso, a crise da metafísica deixa de ser
apresentada como crise da metafísica do sujeito e, em especial, da filosofia da
Setzung28.
O que não impede de observar que o capítulo sobre Nietzsche parece simplesmente
deslocado. Nisso, aliás, não está sozinho: também o seu correspondente
simétrico, o capítulo sobre Agostinho, parece não encontrar o seu devido lugar
na armação geral do livro. Uma observação que não afeta em nada o mérito dos
capítulos como apresentação dessas duas filosofias, pelo contrário. Só não se
vê como eles entram no esquema geral traçado. A impressão que fica é a de que
Giannotti sentiu o peso de saltar quinze séculos da história da filosofia e
optou por uma passagem que não é mais do que verbal: o primeiro filósofo
cristão contra o primeiro filósofo anticristão. Com a diferença de que o caso
de Nietzsche tem pelo menos a função pedagógica de espantalho para afastar
tentativas vitalistas de variados matizes, o que resulta na reafirmação da
superioridade das filosofias tanto de Heidegger quanto de Wittgenstein: "se
para falar com sentido é preciso levar em conta uma gramática, vale dizer,
regras articuladas entre si que mostram como se deve falar, é preciso ter todo
cuidado para não cair num outro abismo, representado por Nietzsche. Afirmar que
toda regra depende de uma avaliação anterior a qualquer bipolaridade, sendo
unicamente motivada por uma força vital, termina por considerar as mais
diversas funções da linguagem, a afirmação da vida como potência"29.
Feita a reserva e a ressalva, a estrutura do livro sublinha em cada um dos seus
passos as teses solidárias que o atravessam de uma ponta a outra30. Em primeiro
lugar, G. Frege ocupa o lugar daquele que, abrindo dimensões antes impensáveis
para a lógica, coloca desafios para a filosofia para os quais qualquer
metafísica está desaparelhada, em especial uma metafísica do sujeito. Frege,
aliás, estava ele próprio desaparelhado em termos filosóficos para dar conta de
suas descobertas lógicas. Talvez não custe lembrar aqui uma vez mais o
postulado implícito de Giannotti de que verdadeiras revoluções lógicas
inauguram desafios filosóficos de longa duração. Tal foi o caso de Aristóteles.
Tal foi o caso de Frege. Não por acaso, os dois pontos de apoio, as duas
margens a partir das quais Lições lança suas pontes31. Com a especificidade de
que a revolução lógica do século XIX não teve no seu autor-emblema, em Frege, o
seu filósofo, como se pode dizer de Aristóteles. Não por último pelo peculiar
platonismo de Frege.
Em segundo lugar, Husserl seria justamente aquele que primeiro teria se dado
conta da gigantesca dimensão do desafio aberto por Frege. O seu fracasso em
produzir uma filosofia à altura dessa revolução lógica é muito mais do que um
fracasso: é um fracasso exemplar. E é exatamente por essa razão que a
fenomenologia se torna, na apresentação de Giannotti, a porta de entrada por
excelência da filosofia contemporânea. Mesmo representando uma tentativa
insuficiente de dissolver a metafísica diante dos desafios colocados por Frege,
Husserl formulou primeiramente os termos em que as novas tarefas se colocavam.
Algo como um tradutor das exigências postas pela revolução de Frege, sem ter
conseguido estar à altura ele mesmo de respondê-las.
Em terceiro lugar, por fim, Heidegger e Wittgenstein aparecem com os pensadores
que finalmente conseguiram colocar o seu tempo em pensamento. Mas, da
perspectiva de Giannoti, só se pode fazer essa afirmação tomando os dois
pensadores em uma espécie de coalizão. Dois pensadores de que, apesar de
contemporâneos, não se tem notícia de terem sequer lido um ao outro, muito
menos debatido. O que quer dizer que se trata, em boa medida, de uma coalizão
artificial, construída por Giannotti, cujo objetivo, nos termos de Lições,
seria o seguinte: "Muito se tem falado na virada linguística (linguistic turn)
da filosofia ocidental, que deixa de ser filosofia da representação para ser
filosofia do discurso. Nossa estratégia é tentar capturar esse movimento quase
no final do percurso, a crise da fenomenologia, representada por Heidegger, e a
crise da filosofia analítica de que Wittgenstein é o maior exemplo. Esperamos
assim estudar as duas correntes que engrossaram e criticaram o campo de batalha
onde se têm cruzado as grandes correntes filosóficas do século XX. E aquelas do
século XXI que ainda não começaram"32.
Falo aqui em uma coalizão construída artificialmente porque tudo se passa como
se, no esquema de Giannotti, Heidegger fosse corrigido por Wittgenstein e este
fosse por sua vez suplementado por uma "moral da autenticidade" de matriz
heideggeriana de que carece. Ao final, tem-se um Heidegger filtrado pelo coador
da filosofia terapêutica de Wittgenstein, ou seja, à altura da lógica e da
ontologia mais avançadas de que se dispõe. O mais curioso desse esquema, no
entanto, é que o movimento teórico não é realizado de uma vez por todas, como
se, decantada a borra ainda por demais fenomenológica (ou "hermenêutica", como
se queira) da filosofia heideggeriana, o resultado fosse enfim a enunciação
positiva de uma nova filosofia, propriamente giannottiana. Pelo contrário.
Trata-se de uma coalizão exatamente porque o processo de filtragem tem de ser
feito a cada vez, a propósito de cada descrição gramatical, a propósito da
apresentação de cada "ontologia regional", se ainda for permitido usar a
expressão. A "materialidade" de cada descrição gramatical, de cada "ontologia
regional" não pode se fiar na fundação em uma "ontologia formal". Em suma,
Giannotti montou um esquema de "checks and balances" filosófico, no interior do
qual questões lógico-ontológicas podem ser adequadamente tratadas. Um sistema
que exige um vaivém permanente entre Heidegger e Wittgenstein, sem nenhum ponto
de parada ou fixação.
Desde Apresentação do mundo Giannotti já havia criticado a filosofia de
Heidegger a partir de uma perspectiva wittgensteiniana. A perspectiva
construtivista da coalizão montada por Giannotti é claramente apresentada na
seção "Expressão e bipolaridade lógica"33, cuja súmula enuncia: "O que
Wittgenstein poderia ter dito da lógica heideggeriana". E seu sentido geral
pode ser encontrado na seguinte passagem: "Wittgenstein substitui o 'algo como
algo' heideggeriano, estrutura ontológica de qualquer expressão e fundamento de
qualquer forma de linguagem, pela gramática de 'ver algo como algo', um jogo de
linguagem que se aprende quando se aprende a transformar sinais em signos"34.
Giannotti encontrou em Wittgenstein a correção do "como hermenêutico"
heideggeriano, anterior ao próprio enunciado35. Vale dizer que enxergou na
lógica heideggeriana mais uma oportunidade terapêutica, de correção de erros
gramaticais.
Ao mesmo tempo, Giannotti não encontra em Wittgenstein um correspondente
adequado do encaixe representado pelo Dasein heideggeriano, dobradiça lógico-
ontológica sem a qual o quebra-cabeça não pode ser composto para ainda permitir
algum tipo de crítica do existente. Parece ser por essa razão que o Dasein
retorna com força insuspeitada em Lições. A citação que se faz necessária aqui
é longa, mas igualmente significativa: "Heidegger considera, em todos os entes
que se nos apresentam finalizados em nossos relacionamentos com o mundo, uma
juntura de algo com algo, uma remissão objetivante e objetivada como uma
possibilidade do Dasein, como se fosse uma dobradiça, uma parte que tem a outra
por fim, esta por sua vez segurando-se na outra, encontrando nela seu fim, sua
meta, sua razão de ser assim. É nessa duplicidade do envio, da remissão de algo
a algo, que os signos se nos apresentam, de sorte que tanto se mostram nela
quanto fazem transparecer um modo pelo qual algo que se dá como algo. A
dobradiça apresenta a dimensão ontológica do ente manejável significante e cria
o espaço no qual vai se ancorar o enunciado que diz algo como algo. Antes da
forma tradicional da predicação, 'algo como algo', reside um travejamento de
junções ligando os entes instrumentais. O manejável se mostra no que ele é
propriamente, mas então inserido numa totalidade instrumental: na casa onde eu
moro, na cidade em que habito, no mundo em que me situo. Desde logo o mundo se
me apresenta como mundo, meu mundo assim como para os outros e, por isso mesmo,
emergindo como logos"36. Esse "mundo", depurado da necessidade de uma
"explicação antepredicativa da verdade"37 pela terapia wittgensteiniana,
liberto pela análise gramatical da "estrutura ontológica do 'algo como
algo'"38, está na base da mais recente configuração do quebra-cabeça de
Giannotti.
Além disso, é também, em última instância, esse sistema de "checks and
balances" lógico-ontológico aquele que organiza a reconstrução da história da
filosofia apresentada em Lições. Uma reconstrução que, como já mencionado,
procura evitar a ambiguidade de Hegel em relação ao mundo grego, apontada antes
com a ajuda de Lebrun. De maneira mais geral, caracteriza uma estratégia
teórica de se esquivar da imagem do mundo grego produzida pelo idealismo
alemão, segundo a qual a verdadeira "realização do saber" só poderia se dar com
uma filosofia da Setzung. Porque, no caso de Giannotti, é a Setzung que cabe
evitar.
E, no entanto, foi a lógica da Setzung que organizou sua leitura de Marx desde
a década de 1960 e que deu suporte e substância ao fio condutor da lógica (do
capital) à ontologia (social) que se consubstanciou no problema da medida,
espinha dorsal dos trabalhos de Giannotti até Trabalho e reflexão. Por isso, é
possível dizer que, a partir desse momento, o objetivo primordial de Giannotti
foi evitar o que se poderia chamar de uma "filosofia nos limites da simples
reflexão". Incluindo aí os seus próprios escritos até a década de 1980.
Mas o elemento wittgensteiniano da regra e da gramática da regra em que
Giannotti passa a desenvolver seu trabalho a partir de fins da década de 1980
não se mostrou suficiente para resolver os problemas que se colocou. Talvez
seja mais preciso dizer que o próprio problema ainda não estava suficientemente
claro para ele mesmo antes dos anos 2000. É nesse sentido mais preciso que se
pode dizer que, em Lições de filosofia primeira, Giannotti finalmente alcançou
a formulação que buscava desde os anos 1980.
Porque, se se toma a transformação do problema da medida em um caso - ainda que
um caso especial, um caso-regra - do problema mais geral da descrição
gramatical, em Apresentação do mundo, de 1995, vê-se que é ainda a lógica da
Setzung que domina, mesmo que de maneira negativa. Basta ver a enorme
importância que tem Kant nesse livro. O que, evidentemente, também é
sintomático: não se trata mais de Marx, tampouco de Hegel. E é sintomático
porque, ao recuar até Kant, Giannotti também está recuando até um momento em
que a Setzung ainda guardava a ambiguidade de poder se mover mais livremente
entre as palavras e as coisas. Quer dizer, esse primeiro movimento de recuo em
relação à Setzung significa também um movimento rumo a uma teoria do juízo. Foi
essa abertura em relação ao pesado fardo da Setzung que foi seguida nas obras
posteriores. E não há por que deixar de anunciar aqui de outra maneira e mais
uma vez a outra ponta desse caminho, posta em Lições: para se livrar do fardo
da Setzung é preciso também abandonar a lógica mesma da realização da razão, a
lógica da efetividade (a Wirklichkeit) que lhe é inseparável. Mesmo na versão
altamente sofisticada que lhe deu Marx.
Foi isso o que Giannotti deixou claro em Certa herança marxista. Esse duro
acerto de contas com Marx e com os seus próprios escritos até a década de 1980
foi uma crítica sem tréguas da lógica da Setzung.
É também por essa razão que Giannotti insiste tanto em textos habitualmente
pouco frequentados e pouco examinados de Marx. É por isso que Giannotti garimpa
sacadas nos Grundrisse; é por isso que desde o início tem por pressuposta a
interpretação de que Marx fracassou em seu intento, de que O capital ficou um
livro inacabado por boas razões. Porque não se trata apenas de criticar Marx (e
de criticar a si mesmo), mas de ressaltar aqueles aspectos de Marx que não
podem ser reduzidos à lógica da Setzung.
É como se Giannotti tivesse ele mesmo refeito o caminho de Marx e finalmente
compreendido por que Marx (e ele mesmo) tinham de fracassar. Pode ser que haja
algo dele mesmo na caracterização que dá dos "filósofos marxistas mais abertos
às questões da filosofia da lógica", que "ficaram balançando entre Kant e Hegel
sem chegar a uma crítica radical de seus pressupostos lógicos"39. Nesse
sentido, não só Husserl (em Lições), mas também Marx é outro caso de fracasso
exemplar. E, no entanto, ocupam posições inteiramente diferentes. Marx fecha
uma época: levou ao limite a lógica da Setzung, e o seu fracasso representa o
esgotamento desse universo de pensamento. Já Husserl representa uma abertura
para o futuro: libertando Kant do fardo da Setzung que a posteridade lhe impôs,
a fenomenologia volta-se para uma teoria do juízo que pretende se colocar à
altura dos desafios postos por Frege. O papel antes desempenhado por Marx é
desempenhado agora pela coalizão lógico-ontológica Wittgenstein-Heidegger. Não
é por acaso, portanto, que a Lições ainda vá se seguir um próximo livro,
dedicado unicamente à coalizão. E que esse novo livro não vá ter a mesma forma
expositiva de Lições, mas uma bem mais próxima de Apresentação do mundo.
Seja como for, o novo livro promete dar conta, se não de uma teoria da ilusão
necessária, ao menos do fenômeno da alienação. É pelo menos esse o resultado da
crítica a Marx e ao marxismo do final de Lições: "o problema da alienação
continua a ser posto praticamente todos os dias: que lógica move certas ações
humanas que resultam no contrário do que elas pressupõem quando são
deslanchadas?"40. A formulação é um tanto apressada e pouco precisa. Mas o
fundamental está em que o problema continua a ser constitutivo do quebra-cabeça
de Giannotti. Ainda que sua devida apresentação ainda esteja por ser feita nos
termos da coalizão lógico-ontológica.
Só que nada indica que o problema da alienação possa ser de fato apresentado
nesse novo quadro de pensamento. O que está intimamente ligado, por sua vez, ao
abandono do campo de forças da filosofia da Setzung, do campo de forças que se
põe entre Kant e Hegel. O preço a pagar por essa estratégia de esquiva é
justamente a perda dos instrumentos necessários para construir uma teoria da
ilusão socialmente necessária. E a razão é aí trivial. Medida com o metro de
uma teoria da ilusão necessária, a filosofia de Heidegger pode fornecer a
Giannotti quando muito uma "crítica da técnica", cuja interpretação tem um
campo de variação não muito largo, impondo a escolha entre a mera tecnofobia ou
uma crítica romântica da modernidade, calcada, talvez, na noção de "cuidado"
(Sorge)41. Um campo de variação, ressalte-se, que nada tem que ver com o
entusiasmo crítico com o desenvolvimento das forças produtivas que Giannotti
sempre demonstrou. Do lado de Wittgenstein, a situação não é melhor desse ponto
de vista. O filósofo dos jogos de linguagem pode, quando muito, dar base a uma
"terapêutica". Ou seja, pode aliviar do fardo da muita metafísica que ainda
está impregnada nos usos e abusos da linguagem. Mas nada tem a dizer quando se
trata de "sutileza metafísica e manhas teológicas" da "coisa muito complicada"
que é a mercadoria em Marx e a política no capitalismo. E este é o ponto: desde
que perdeu o ponto de apoio da Setzung, Giannotti não conseguiu reencontrar a
teoria da ilusão socialmente necessária que promete. E, nas formulações
posteriores a Apresentação do mundo, isso significa também que não conseguiu
reencontrar um lugar para a política, vale dizer, não conseguiu encontrar um
ponto de apoio para girar o compasso de uma teoria do direito e da democracia
de intenção crítica.
Seja como for, a divisão do trabalho filosófico entre Heidegger e Wittgenstein
pressupõe uma unidade lógico-ontológica que não está nem em um nem no outro.
Seria possível dizer muito simplesmente que está em Giannotti. De certa
maneira, foi o que se tentou indicar aqui, de maneira negativa, a partir do
sistema de "checks and balances" lógico-ontológico que permite correções e
suplementações nos contrapontos Heidegger/Wittgenstein. Mas buscar uma
indicação como essa não significa colocar o ônus da prova nas costas do
filósofo municipal, que teria então toda a razão em recusar o encargo de uma
apresentação positiva de seu quebra-cabeça. Apresentar, a essa altura do
campeonato pós-metafísico, uma nova articulação de lógica e de ontologia da
qual Wittgenstein e Heidegger seriam indícios, pontos de apoio e elementos
probantes? Uma exigência como essa não seria razoável. Tampouco adequada para
quem não se pretendeu tal objetivo. Mas não há nada de exterior ou de excessivo
de cobrar de Giannotti uma "teoria da ilusão necessária", algo que ele sempre
colocou como um dos objetivos fundamentais da sua reflexão. E, sob esse
aspecto, ele continua em dívida com a municipalidade.
MARCOS NOBRE é professor do departamento de filosofia do IFCH-Unicamp e
pesquisador do Cebrap.
[1] Citações dos livros de Giannotti serão seguidas das abreviaturas: TR
(Trabalho e reflexão. Ensaios para uma dialética da sociabilidade. São Paulo:
Brasiliense, 1983); AM (Apresentação do mundo. Considerações
sobre o pensamento de Ludwig Wittgenstein. São Paulo: Companhia das Letras,
1995); CHM (Certa herança marxista. São Paulo: Companhia das
Letras, 2000); e LFP (Lições de filosofia primeira. São
Paulo: Companhia das Letras, 2011).
[2] Ver sobre isso a breve introdução à entrevista que fiz com Giannotti para o
caderno Eu&Fim de Semana (Valor Econômico, 27/04/2011, pp. 18-21), em que aproximo Lições do curso de Husserl do inverno de 1923-24,
publicado justamente com o nome de "Filosofia primeira". Na entrevista,
Giannotti se autodeclara "filósofo municipal".
[3] Ver sobre isso a entrevista de Giannotti em Nobre, Marcos e Rêgo, José
Márcio. Conversas com filósofos brasileiros. São Paulo: Editora 34, 2000,
especialmente pp. 98-99.
[4] CHM, p. 172.
[5] Coleção "Os Economistas". São Paulo: Abril Cultural, 1982, p. 14.
[6] Cf. especialmente TR, pp. 48-57.
[7] Como se sabe, esse postulado, em versão kantiana, é o da lógica formal como
"fio condutor" para a lógica transcendental. A versão de Giannotti é mais
próxima da formulação do postulado dada por Husserl (e que Giannotti também
reencontra, em outro nível, em Wittgenstein): a lógica formal já é lógica
transcendental (cf., por exemplo, AM, p. 15).
[8] LFP, p. 311.
[9] TR, p. 303.
[10] Idem, p. 304.
[11] Idem, p. 305.
[12] Idem, p. 308.
[13] Idem, p. 310.
[14] Idem, p. 300.
[15] AM, p. 18.
[16] Idem, ibidem.
[17] Idem, ibidem.
[18] LFP, p. 14.
[19] Idem, p. 373.
[20] Idem, p. 15.
[21] Nobre, M. A dialética negativa de Theodor W. Adorno. A ontologia do estado
falso. São Paulo: Iluminuras/Fapesp, 1998, p. 175.
[22] In: Montero, Paula e Comin, Alvaro (orgs.). Mão e contramão. Rio de
Janeiro: Globo, 2009.
[23] Lições dedica algum tempo a explicar as razões pelas quais Heidegger se
desinteressou inteiramente da lógica formal (cf. LFP, especialmente pp. 317-
18), mas sem tirar disso nenhuma consequência contra o próprio Heidegger.
[24] Como, por exemplo, no "Apêndice" a Apresentação do mundo (especialmente,
pp. 298-300), em que Giannotti concorda com a interpretação de Heidegger sobre
a diferença em Kant, entre realidade (Realitåt) e efetividade (Wirklichkeit)
como uma diferença que inaugura a lógica mesma da Setzung: uma diferença entre
"posição relativa" e "posição absoluta" que seria borrada ao se seguir as
"trilhas íngremes" que conduzem a Marx, passando por Hegel. E, ao mesmo tempo,
como já mencionado, critica a lógica heideggeriana que daí se segue a partir de
Wittgenstein.
[25] AM, p. 18.
[26] LFP, p. 12.
[27] A paciência do conceito: ensaio sobre o discurso hegeliano. São Paulo:
Editora da UNESP, 2006, p. 191 (nota).
[28] Falando sobre a ausência de Leibniz, Giannotti a justifica não apenas como
uma falha "por economia", mas acrescenta explicitamente o elemento aqui
mencionado: "quis evitar toda a problemática do sujeito, e a mônada é antes de
tudo um sujeito absolutamente representante e querente" (LFP, p. 12).
[29] LFP, pp. 370-71.
[30] Ainda a propósito da armação geral do livro, é de notar que o capítulo
sobre Wittgenstein é relativamente subdesenvolvido, dada sua posição de ponto
de fuga da reconstrução. Mas isso se deve ao fato de que a exposição se
encontra ali em estado de alta condensação, não comparável nesse sentido com
qualquer dos demais capítulos.
[31] Estrutura que fica clara quando Giannotti justifica a exclusão de Kant com
base na premissa de que "Kant apenas leu, com pequenos retoques, a lógica
formal e escolar de seu tempo, a partir da atividade ponente do eu
transcendental". E, ao mesmo tempo, explicita, na sequência, a razão para a
exclusão de todo o universo da Setzung, incluindo-se aí o prolongamento no
marxismo e na Teoria Crítica: "Do mesmo modo, seus [de Kant] sucessores, os
idealistas alemães, ficaram confinados a essas fronteiras. Fichte, Schelling,
Hegel não escapam desse abraço. Nem o marxismo e a Teoria Crítica atual. Isso
explica por que tenho tentado escapar desse circuito, que não amplia o âmbito
do relacionamento do logos e do ser, do ser e do ente, além de uma lógica
formal incapaz de compreender o novo estatuto lógico das estruturas
matemáticas" (LFP, p. 11).
[32] LFP, p. 295.
[33] AM, pp. 199-204.
[34] Idem, p. 203.
[35] Cf. LFP, p. 323.
[36] LFP, p. 324.
[37] AM, p. 200.
[38] Idem, p. 199.
[39] LFP, p. 373.
[40] Idem, pp. 373-74.
[41] A noção de Foucault de "cuidado de si" é talvez aquela que alcançou os
limites de uma tradução crítica possível da "Sorge" heideggeriana, já que os
termos histórico-filosóficos em que o fez permitem ao menos descrever
dispositivos de controle social e deixam entrever possibilidades de resistência
a eles. Cf. História da sexualidade (três volumes, Rio de Janeiro: Graal, 1984-
85) e o curso do Collè ge de France de 1982, A hermenêutica do
sujeito (São Paulo: Martins Fontes, 2004). Cf. também LFP,
pp. 132 e 330.