Hegel e Haiti
1.
No século XVIII, a escravidão havia se tornado a metáfora fundamental da
filosofia política ocidental, conotando tudo o que havia de mau nas relações de
poder.1 A liberdade, sua antítese conceitual, era considerada pelos pensadores
iluministas o valor político supremo e universal. Mas essa metáfora política
começou a deitar raízes justamente no momento em que a prática econômica da
escravidão - a sistemática e altamente sofisticada escravização capitalista de
não europeus como mão de obra nas colônias - se expandia quantitativamente e se
intensificava qualitativamente, ao ponto de, em meados do século XVIII, ter
chegado a sustentar o sistema econômico do Ocidente como um todo, facilitando,
paradoxalmente, a expansão global dos próprios ideais do Iluminismo que tão
frontalmente a contradiziam.
Essa discrepância gritante entre pensamento e prática marcou o período de
transformação do capitalismo global de sua forma mercantil para sua modalidade
proto-industrial. Seria de se esperar que nenhum pensador racional e
"esclarecido" deixaria de percebê-la. Contudo, não era esse o caso.
A exploração de milhões de trabalhadores escravos coloniais era aceita com
naturalidade pelos próprios pensadores que proclamavam a liberdade como o
estado natural do homem e seu direito inalienável. Mesmo numa época em que
proclamações teóricas de liberdade se convertiam em ação revolucionária na
esfera política, era possível manter nas sombras a economia colonial escravista
que funcionava nos bastidores.
Se esse paradoxo não parecia incomodar a consciência lógica dos contemporâneos,
talvez seja mais surpreendente que alguns autores, ainda hoje, se disponham a
construir histórias do Ocidente na forma de narrativas coerentes do avanço da
liberdade humana. As razões não são necessariamente intencionais. Quando
histórias nacionais são concebidas como autônomas ou quando aspectos distintos
da história são tratados por disciplinas isoladas, as evidências contrárias são
marginalizadas e consideradas irrelevantes. Quanto maior a especialização do
conhecimento, quanto mais avançado o nível de pesquisa, quanto mais antiga e
respeitável a tradição intelectual, tanto mais fácil se torna ignorar os fatos
desviantes. Vale lembrar que a especialização e o isolamento representam um
risco também para as novas disciplinas, tais como os estudos afro-americanos ou
os estudos diaspóricos, que foram criadas precisamente para remediar essa
situação. Fronteiras disciplinares fazem com que as evidências contrárias virem
problema dos outros. Afinal de contas, um especialista não pode ser
especialista em tudo. É razoável. Mas argumentos assim são uma forma de evitar
a verdade incômoda segundo a qual se certas constelações de fatos forem capazes
de penetrar fundo o bastante na consciência intelectual, ameaçarão não apenas
as narrativas veneráveis, mas também as disciplinas acadêmicas entrincheiradas
que as (re)produzem. Por exemplo, não há lugar na universidade em que a
constelação de pesquisa específica "Hegel e Haiti" pudesse encontrar abrigo.
Este é o tema que me interessa aqui, mas seguirei um caminho tortuoso para
chegar até ele. Peço que me desculpem, mas esse aparente desvio é o próprio
argumento.
2.
O paradoxo entre o discurso da liberdade e a prática da escravidão marcou a
ascensão de uma série de nações ocidentais no interior da nascente economia
global moderna. Os holandeses são o primeiro exemplo que deve ser considerado.
Sua "era de ouro", de meados do século XVI a meados do século XVII, foi
possibilitada pelo controle que exerciam sobre o tráfico mercantil global,
incluindo, como um componente fundamental, o comércio de escravos. Mas se
conferirmos o trabalho do mais formidável entre seus historiadores modernos,
Simon Schama, cuja descrição densa da Era de Ouro da cultura holandesa se
tornou um modelo no campo da história cultural desde sua publicação em 1987,
haverá uma surpresa à nossa espera. É impressionante que os temas da
escravidão, do trafico de escravos e da mão de obra escrava jamais sejam
discutidos na obra de Schama, The embarrassment of riches [O desconforto da
riqueza], um relato de mais de seiscentas páginas sobre como a nova república
holandesa, ao desenvolver sua própria cultura nacional, aprendeu a ser ao mesmo
tempo rica e benigna2. Seria difícil depreender dali que a hegemonia holandesa
no tráfico de escravos (substituindo Espanha e Portugal no papel de potência
escravista)3 contribuiu substancialmente para a imensa "sobrecarga" de riqueza
que ele descreve como algo que se tornou social e moralmente problemático ao
longo do século da "centralidade" holandesa para o "comércio mundial"4. Ainda
assim, Schama descreve exaustivamente o fato de que a metáfora da escravidão,
adaptada ao contexto moderno a partir da narrativa do Antigo Testamento sobre a
fuga dos israelitas do Egito, havia sido crucial para a autocompreensão
holandesa ao longo de sua luta pela independência (1570-1609) contra a
"tirania" espanhola que os "escravizava" - e portanto para a autocompreensão
das origens da moderna nação holandesa5. Schama claramente reconhece a
contradição mais evidente: o fato de que à época os holandeses discriminavam os
judeus6. Ele dedica um capítulo inteiro à discussão da estigmatização e da
perseguição de uma longa lista de "forasteiros" que, em função da obsessão
psicológica holandesa pela purificação, precisavam ser removidos, como se
fossem uma mácula, do corpo social: homossexuais, judeus, ciganos, ociosos,
andarilhos, prostitutas - mas não diz nada, porém, a respeito dos escravos
africanos nesse contexto7.
Schama mostra-se francamente farto das histórias econômicas marxistas que
tratam os holandeses apenas como uma potência capitalista mercantil8. Prefere
dedicar seu projeto à reconstrução da causalidade cultural. Examina como as
inquietações da afluência, decorrentes da "abundância de bens", despertaram no
holandês moderno o temor de um tipo diferente de escravidão, a "escravização ao
luxo" que ameaçava o "livre arbítrio", o medo de que a avareza do consumo
pudesse "converter almas livres em vis escravos"9. Schama apresenta a família
como o fulcro do "caráter nacional holandês", e não o comércio mundial,
permitindo que seus leitores adentrem a vida privada, doméstica, vislumbrem
casas e lares, mesas fartas e afetos íntimos, na época em que "ser holandês era
ser local, paroquial, tradicional e costumeiro"10. Estaríamos quase dispostos a
perdoá-lo, não fosse pelo fato de que os escravos tampouco eram estranhos ao
ambiente doméstico holandês. Seria o silêncio de Schama um eco do silêncio de
suas fontes? Eu não saberia dizer11. Mas a cultura visual holandesa oferece
evidências claras de uma realidade distinta. Uma pintura de Franz Hals, de
1648, retrata exatamente no centro da tela a figura de um jovem negro,
provavelmente um escravo, como parte da vida doméstica, visível no seio de uma
abastada e afetuosa família holandesa em meio a uma paisagem holandesa local,
paroquial (Figura_1). No livro de Schama, ricamente ilustrado, essa pintura de
Hals não aparece (apesar de que outra pintura de Hals, representando marido e
esposa holandeses sozinhos em meio a uma paisagem, ter sido incluída). Tampouco
há quaisquer outras imagens de negros12. Obviamente, em vista da ausência de
escravos no relato escrito de Schama, eles pareceriam deslocados se aparecessem
nas ilustrações. A consequência desse tipo de trabalho acadêmico é uma cegueira
parcial em meio a oceanos de perspicácia, e isso é típico da literatura
acadêmica ocidental, como veremos.

3.
A partir de 1651, a Grã-Bretanha passou a desafiar os holandeses numa série de
guerras navais que resultaram no domínio britânico não apenas da Europa, mas de
toda a economia global, incluindo o tráfico de escravos13. Naquele momento, a
revolução cromwelliana contra a monarquia absoluta e o privilégio feudal
seguiram o precedente holandês, fazendo uso metafórico da história dos
israelitas do Antigo Testamento sendo libertos da escravidão. Mas no campo da
teoria política estava em curso o abandono das escrituras antigas. A figura
central nesse caso é Thomas Hobbes. Apesar de Leviatã (1651) ser um híbrido de
imaginação moderna e bíblica, a escravidão é discutida ali em termos bastante
seculares14. Para ele, ela é uma consequência da guerra de todos contra todos
no estado de natureza, fazendo parte, portanto, das às disposições naturais do
homem15. Envolvido por meio de seu patrono, Lord Cavendish, com os negócios da
Companhia da Virgínia, que administrava uma colônia na América, Hobbes aceitava
a escravidão como "parte inalienável da lógica de poder"16. Mesmo os habitantes
de "nações civilizadas e florescentes" poderiam retornar a esse estado17.
Hobbes encarava a escravidão com honestidade e sem conflitos - John Locke, nem
tanto. A sentença inicial do primeiro capítulo do livro primeiro de seu Dois
tratados sobre o governo (1690) declara inequivocamente: "A escravidão é uma
condição humana tão vil e miserável e tão diretamente oposta ao generoso
temperamento e à coragem de nossa nação que seria difícil conceber que um
inglês, menos ainda um cavalheiro, fosse capaz de a defender".
Mas o ultraje de Locke contra "as cadeias para toda a humanidade" não era um
protesto contra a escravização de africanos negros em plantações do Novo Mundo,
e muito menos em colônias que fossem britânicas18. Pelo contrário, a escravidão
era nesse caso uma metáfora para a tirania legal, conforme o uso corrente nos
debates parlamentares britânicos sobre teoria constitucional. Como acionista da
Real Companhia Africana, envolvida na política colonial americana na Carolina,
Locke "claramente considerava a escravidão negra como uma instituição
justificável"19. O isolamento do discurso político do contrato social em
relação à economia da produção doméstica (oikos) tornou possível essa visão
dupla20. A liberdade britânica significava a proteção da propriedade privada, e
os escravos eram propriedade privada. Enquanto os escravos se situassem no
âmbito de autoridade doméstica, sua condição era protegida pela lei (Figuras_2
e 3)21.
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Escravos estavam na moda na Inglaterra do final do século XVII, acompanhando
damas da aristocracia como animais de estimação22. Retratos pintados pelo
holandês Anthony van Dyck e Peter Lely eram os protótipos de um novo gênero de
pintura, representando jovens negros que ofereciam frutas e outros símbolos de
riqueza das colônias a seus proprietários23.
4.
Meio século depois, o entendimento clássico da economia - e, portanto, da
propriedade escravista - como uma questão privada e doméstica foi frontalmente
desmentido pelas novas circunstâncias globais. O açúcar transformou as
plantações coloniais das Índias Ocidentais. Intensivas simultaneamente em
capital e trabalho, a produção de açúcar era proto-industrial, gerando um
aumento acentuado na importação de escravos africanos e uma intensificação
brutal da exploração de sua mão de obra para fazer frente a uma nova e
aparentemente insaciável demanda europeia pela doçura viciante do açúcar24. Na
dianteira do boom do açúcar no Caribe estava a colônia francesa de Saint-
Domingue, que em 1767 produziu 63 mil toneladas de açúcar25. A produção de
açúcar levou igualmente a uma demanda aparentemente infinita por escravos, cujo
número em Saint-Domingue aumentou dez vezes ao longo do século XVIII, para mais
de 500 mil seres humanos. Na França, mais de 20% da burguesia dependia de
atividades comerciais ligadas à exploração de mão de obra escrava26. Os
pensadores do iluminismo francês escreviam em meio a essa transformação.
Enquanto idealizavam populações coloniais com mitos do nobre selvagem (os
"índios" do "Novo Mundo"), o sangue vital da economia escravista não lhes
importava27. A despeito de existirem movimentos abolicionistas na época e, na
França, os Amis des noirs [Amigos dos negros], que denunciavam os excessos da
escravidão, uma defesa da liberdade com base na igualdade racial era algo de
fato raro28.
"O homem nasce livre e por toda a parte vive acorrentado", escreveu Rousseau
nas primeiras linhas de seu Contrato social, publicado pela primeira vez em
176229. Nenhuma condição humana lhe parece mais ofensiva ao coração ou à alma
do que a escravidão. E mesmo Rousseau, santo padroeiro da Revolução Francesa,
ao implacavelmente condenar a instituição, reprime da consciência os milhões de
escravos realmente existentes sob o jugo de senhores europeus. A patente
omissão de Rousseau foi cuidadosamente exposta pelos especialistas, mas apenas
recentemente. O filósofo catalão Louis Sala-Molins escreveu uma história (1987)
do Iluminismo através das lentes do Code Noir, o código legislativo francês que
se aplicava aos escravos negros nas colônias, elaborado em 1685 e sancionado
por Luís XIV, sendo erradicado definitivamente somente em 1848. Sala-Molins
considera detalhadamente o Código, que legalizou não apenas a escravidão, o
tratamento de seres humanos como propriedade móvel, mas também a marcação a
ferro, a tortura, a mutilação física e o assassinato de escravos que
procurassem questionar sua condição desumana. Ele justapõe esse código, que se
aplicava a todos os escravos sob jurisdição francesa, aos textos dos filósofos
iluministas franceses, documentando sua indignação em relação à escravidão na
teoria, ao mesmo tempo em que ignoravam "formidavelmente" a escravidão na
prática. Sala-Molins se escandaliza, e com razão. No Contrato social, Rousseau
argumenta: "A legalidade da escravidão é nula, não apenas por ser ilegítima,
mas por ser absurda e vazia de sentido. Tais palavras, escravidão e legalidade
são contraditórias. São mutuamente excludentes"30. Sala-Molins nos faz ver as
consequências dessas afirmações: "O Code Noir, o mais perfeito exemplo desse
tipo de documento na época de Rousseau, não é um código legal. O direito de que
trata não pode ser um direito, por pretender tornar legal algo que não pode ser
legalizado, a escravidão"31. Ele considera, portanto, um despropósito que
Rousseau jamais tenha mencionado em seus escritos o Code Noir. "O caso real e
flagrante daquilo que ele declara ser categoricamente insustentável não recebe
qualquer atenção de sua parte"32. Sala-Molins esmiúça os textos em busca de
qualquer evidência que possa justificar o silêncio e constata inequivocamente
que Rousseau conhecia os fatos. O filósofo iluminista citou relatos de
viajantes da época - Kolben, sobre os hotentotes, e Du Tertre, sobre os
indígenas das Antilhas -, mas evitava aquelas páginas desses mesmos relatos que
descreviam explicitamente os horrores da escravidão europeia. Rousseau referia-
se aos seres humanos de todas as partes, mas omitia os africanos; falava dos
groenlandeses transportados à Dinamarca que morriam de tristeza, mas não da
tristeza dos africanos transportados às Índias, que resultava em suicídios,
motins e fugas. Declarava a igualdade entre os homens e via a propriedade
privada como a origem da desigualdade, mas jamais somava dois e dois para
discutir a lucrativa escravidão francesa como algo central para as discussões
tanto sobre a igualdade como sobre a propriedade33. Como na República Holandesa
e na Grã-Bretanha, escravos africanos estavam presentes e eram usados e
abusados domesticamente na França34. Na verdade, era impossível que Rousseau
não soubesse "que há alcovas em Paris onde é possível se divertir sem peias com
um macaco e com um jovem garoto negro [négrillon]"35.
Sala-Molins considera o silêncio de Rousseau diante dessas evidências "racista"
e "revoltante"36. Tal ultraje é incomum entre autores que, como profissionais,
são treinados para evitar juízos passionais em seus escritos. Tal neutralidade
moral é inerente aos métodos disciplinares, que, a despeito de se basearem numa
variedade de premissas filosóficas, acabam resultando nas mesmas exclusões. O
historiador intelectual de nossos dias que trate de Rousseau em seu contexto
seguirá as boas regras do ofício e relativizará a situação, julgando (e
perdoando) o racismo de Rousseau com base no espírito do tempo, com o intuito
de evitar assim a falácia do anacronismo. Ou então o filósofo de nossos dias,
treinado para analisar a teoria em total abstração do contexto histórico,
atribuirá aos escritos de Rousseau uma universalidade que transcende a própria
intenção ou as limitações do autor, no esforço de evitar assim a falácia da
reductio ad hominem. Em ambos os casos, permite-se que os fatos incômodos
despareçam furtivamente. Estão visíveis, contudo, nas histórias gerais da
época, nas quais não podem deixar de ser mencionados, pois, toda vez que a
teoria iluminista era colocada em prática, os promotores das revoluções
políticas acabavam tropeçando no fato econômico da escravidão, de maneiras que
tornavam impossível que deixassem eles próprios de reconhecer a contradição.
5.
Os revolucionários coloniais da América que lutavam pela independência contra a
Grã-Bretanha mobilizaram o discurso político de Locke para seus fins. A
metáfora da escravidão foi crucial para a luta, mas num novo sentido: "Os
americanos realmente acreditavam que homens que fossem tributados sem seu
consentimento eram literalmente escravos, uma vez que teriam perdido o poder de
resistir à opressão, e porque a incapacidade de se defender invariavelmente
conduz à tirania"37. Ao evocar as liberdades da teoria dos direitos naturais,
os colonos americanos, enquanto senhores de escravos, eram levados a uma
"monstruosa incoerência"38. Ainda assim, apesar de alguns, como Benjamin Rush,
terem admitido sua má-fé39 e outros, como Thomas Jefferson, terem posto a culpa
pela escravização dos negros nos britânicos40; apesar de os próprios escravos
terem apresentado demandas públicas por sua libertação41 e de alguns estados
isolados terem aprovado legislação antiescravagista42, a nova nação, concebida
em liberdade, tolerava a "monstruosa incoerência", inscrevendo a escravidão na
Constituição dos Estados Unidos da América.
O enciclopedista francês Denis Diderot falava com admiração dos revolucionários
estadunidenses, como cidadãos que haviam "queimado" suas correntes" e "recusado
a escravidão"43. Mas se a natureza colonial da luta pela liberdade nos Estados
Unidos permitiu de algum modo sustentar a distinção entre o discurso político e
as instituições sociais, no caso da Revolução Francesa, uma década mais tarde,
os vários sentidos da escravidão tornaram-se inescapavelmente emaranhados ao
serem confrontados às contradições fundamentais entre os eventos
revolucionários na França e o que ocorria nas colônias francesas. Foram
necessários anos de derramamento de sangue antes que a escravidão - não apenas
sua metáfora, mas a escravidão real - fosse abolida nas colônias francesas, e
mesmo então os ganhos foram apenas temporários. Apesar de a abolição da
escravatura ser a única consequência logicamente possível da ideia de liberdade
universal, ela não se realizou por meio das ideias ou mesmo das ações
revolucionárias dos franceses; ela se realizou graças às ações dos próprios
escravos. O epicentro dessa luta foi a colônia de Saint-Domingue. Em 1791,
enquanto mesmo os mais ardentes opositores da escravidão na França esperavam
passivamente por mudanças, o meio milhão de escravos em Saint-Domingue, a mais
rica colônia não somente da França, mas de todo o mundo colonial, tomava nas
próprias mãos as rédeas da luta pela liberdade, não através de petições, mas
por meio de uma revolta violenta e organizada44. Em 1794, os negros armados de
Saint-Domingue forçaram a República Francesa a aceitar o fait accompli da
abolição da escravatura na ilha (declarada pelos comissários coloniais
franceses Sonthonax e Polverel, que agiam por conta própria) e a universalizar
a abolição em todas as colônias francesas45. De 1794 a 1800, como homens
livres, esses antigos escravos envolveram-se numa luta contra forças invasoras
britânicas, das quais muitos colonos proprietários de terras de Saint-Domingue,
brancos e mulatos, esperavam o restabelecimento da escravidão46. O exército
negro, sob o comando de Toussaint-Louverure, derrotou militarmente os
britânicos, numa luta que fortaleceu o movimento abolicionista na Grã-Bretanha
e preparou o terreno para a suspensão britânica do tráfico de escravos em
180747. Em 1801, Toussaint-Louverure, o antigo escravo que se tornou governador
de Saint-Domingue, passou a suspeitar que o Diretório Francês poderia tentar
rescindir a abolição48. Mesmo assim, ainda leal à República49, escreveu uma
constituição para a colônia que se adiantou a qualquer outro documento dessa
natureza no mundo - se não em suas bases democráticas, certamente com relação à
inclusão racial pressuposta em sua definição de cidadania50. Em 1802, Napoleão
de fato buscou restabelecer a escravidão e o Code Noir, ordenando a prisão e a
deportação de Toussaint à França, onde morreu aprisionado em 1803. Quando
Napoleão enviou tropas francesas sob o comando de Leclerc para subjugar a
colônia, lançando uma guerra brutal contra a população negra "que chegou ao
ponto de uma guerra genocida"51, os cidadãos negros de Saint-Domingue mais uma
vez pegaram em armas, demonstrando, nas palavras do próprio Leclerc, que "não
basta deportar Toussaint, há 2.000 outros líderes que também teriam de ser
deportados"52. Em 1º de janeiro de 1804, o novo líder militar e escravo de
nascimento Jean-Jacques Dessalines deu o passo final ao declarar independência
da França, combinando, assim, o fim da escravidão com o fim da condição
colonial. Sob a bandeira Liberdade ou Morte (tais palavras foram inscritas na
bandeira vermelha e azul, da qual a faixa branca da tricolor francesa havia
sido removida)53, derrotou as tropas francesas, eliminou a população branca e
estabeleceu em 1805 uma nação independente e constitucional de cidadãos
"negros", um "império" à imagem daquele do próprio Napoleão, ao qual deram o
antigo nome Arawak da ilha, Haiti54. Esses eventos, culminando na completa
liberdade dos escravos e da colônia, não tinham precedente. "Jamais uma
sociedade escravista havia sido capaz de derrubar sua classe dirigente"55.
A autolibertação dos escravos africanos de Saint-Domingue lhes assegurou, à
força, o reconhecimento dos brancos europeus e americanos - mesmo que tenha
sido por medo. Entre aqueles que sustentavam simpatias igualitárias, também
angariou respeito. Por quase uma década, antes que a eliminação violenta dos
brancos sinalizasse seu recuo deliberado de princípios universalistas, os
jacobinos negros de Saint-Domingue colocaram-se à frente da metrópole ao
realizar ativamente o objetivo iluminista da liberdade humana, parecendo
oferecer prova de que a Revolução Francesa não era simplesmente um fenômeno
europeu, mas um evento com implicações históricas de alcance mundial56. Se nos
acostumamos a diferentes narrativas, àquelas que situam os eventos coloniais
nas margens da história europeia, então fomos seriamente enganados. Os eventos
em Saint-Domingue foram cruciais para os esforços contemporâneos de extrair
sentido da realidade criada pela Revolução Francesa e seus desdobramentos57.
Devemos ter em mente os fatos segundo essa perspectiva.
6.
Consideremos a decorrência lógica da derrocada da escravidão na evolução da
consciência dos europeus que a testemunharam. Os revolucionários franceses
sempre se viram a si mesmos como um movimento de libertação que livraria as
pessoas da "escravidão", das iniquidades feudais. Em 1789, os lemas "Liberdade
ou morte" e "Antes a morte que a escravidão" eram correntes, e a "Marseillaise"
denunciava l'esclavage antique ["a escravidão antiga"] nesse contexto58. Era
uma revolução não apenas contra a tirania de um governante específico, mas
contra todas as tradições antigas que violavam os princípios gerais da
liberdade humana. Relatando os eventos em Paris, no verão de 1789, o publicista
alemão Johann Wilhelm von Archenholz (ao qual ainda retornaremos) abandonou sua
usual neutralidade jornalística para exclamar que o "povo" (Volk) francês,
"acostumado a beijar as correntes que lhe prendia [...] havia, numa questão de
horas, quebrado essas correntes gigantescas com um golpe arrebatador de
coragem, tornando-se mais livres que os romanos e gregos em seu tempo e que os
americanos e britânicos hoje"59.
Mas e as colônias, a fonte da riqueza de uma porção tão grande da população
francesa? O significado da liberdade estava em jogo em sua reação aos eventos
de 1789, e em lugar nenhum mais do que na joia da coroa, Saint-Domingue.
Seguiriam os colonos o exemplo dos americanos e se revoltariam, como demandavam
alguns dos fazendeiros crioulos de Saint-Domingue? Ou congregar-se-iam
fraternalmente para proclamar sua "liberdade" como cidadãos franceses? Neste
caso, quem seria reconhecido como cidadão? Os proprietários de terras, por
certo60. Mas somente os brancos? Estima-se que os mulatos eram proprietários de
cerca de um terço da terra cultivada de Saint-Domingue61. Não deveriam ser eles
também incluídos, e não apenas eles, mas também os negros livres? Seria
propriedade ou raça o teste decisivo para ser um cidadão da França? E ainda
mais premente, se os africanos podiam em princípio ser incluídos como cidadãos
- isto é, se os pressupostos racistas subjacentes ao Code Noir afinal não
fossem válidos -, então como poderia ser justificada a continuidade da
escravização legal dos negros?62. E se não pudesse ser justificada, como
poderia ser mantido o sistema colonial? O desenrolar da lógica da liberdade nas
colônias ameaçava decompor toda a estrutura institucional da economia
escravagista que sustentava uma porção substancial da burguesia francesa, e
essa revolução política era, por certo, sua63. Mesmo assim, somente a lógica da
liberdade poderia oferecer à revolução a legitimidade nos termos universais nos
quais os franceses se enxergavam a si mesmos.
A Revolução Haitiana era o cadinho, a prova de fogo para os ideais do
Iluminismo francês. E cada europeu que fazia parte do público leitor burguês
sabia disso64. "Os olhos do mundo estavam agora em Santo Domingo"65. Assim
começa um artigo publicado em 1804 em Minerva, o periódico fundado por
Archenholz, que vinha cobrindo a Revolução Francesa desde seu princípio e
relatando sobre a revolução em Saint-Domingue desde 179266. Por um ano inteiro,
do outono de 1804 ao fim de 1805, Minerva publicou uma série contínua,
totalizando mais de cem páginas, incluindo fontes documentais, sumários de
imprensa e relatos testemunhais, que informavam aos leitores não apenas sobre a
luta final pela independência dessa colônia francesa - sob a bandeira de
Liberdade ou Morte67! -, mas também dos eventos dos dez anos que a precederam.
Archenholz era crítico da violência dessa revolução (como também o era do
Terror Jacobino na metrópole), mas passou a estimar Toussaint-Louverture,
publicando, como parte de sua série, a tradução alemã de um capítulo do
manuscrito de Marcus Rainsford, capitão britânico, que celebrava de maneira
superlativa o caráter de Toussaint, sua liderança e sua humanidade68.
A revista de Archenholz apropriava-se livremente de fontes em língua inglesa e
francesa, de modo que seu relato refletia notícias amplamente veiculadas entre
o público leitor europeu, e os artigos em Minerva foram aproveitados, por sua
vez, por "incontáveis jornais" (um cenário de comunicação cosmopolita e aberta,
a despeito das restrições de propriedade intelectual, que talvez somente
encontrará seu paralelo na fase inicial da internet)69. Apesar de existir
censura na imprensa francesa após 180370, jornais e revistas na Grã-Bretanha
(assim como nos Estados Unidos e na Polônia)71 deram destaque aos eventos da
batalha revolucionária final em Saint-Domingue - entre outros, a Edinburgh
Review72. William Wordsworth escreveu um soneto intitulado "A Toussaint-
Louverture", publicado no The Morning Post em fevereiro de 1803, no qual
lamentava o restabelecimento do Code Noir nas colônias francesas73.
Na imprensa de língua alemã, a cobertura de Minerva era especial. Já em 1794,
dois anos após sua fundação, havia estabelecido sua reputação como o melhor de
seu gênero entre os periódicos políticos. Esforçava-se por manter-se
apartidário, objetivo e factual, buscando uma "'verdade histórica'" capaz de
"'instruir [...] nossos netos'"74. Seu objetivo, conforme explicitado em seu
lema (em inglês!), era "apresentar à própria época e à sociedade de seu tempo
sua forma e força"75. Em 1798, sua circulação chegava a três mil cópias
(respeitável mesmo em nossa época para qualquer periódico intelectual sério),
número que se estima haver dobrado em 1809. Nas palavras do biógrafo de
Archenholz, Minerva era "o mais importante periódico político da virada do
século", tanto em termos de qualidade do conteúdo, escrito por correspondentes
regulares (que eram, por sua vez, figuras públicas importantes por mérito
próprio), como pela qualidade dos leitores, entre os quais se encontravam
algumas das pessoas mais influentes na Alemanha76. O rei Frederico Guilherme
III da Prússia "lia Minerva constantemente"77. Tanto Goethe como Schiller a
liam (sendo que este se correspondia regularmente com Archenholz)78, assim como
Klopstock (que contribuía para o periódico), Schelling e Lafayette. Outro
leitor regular de Minerva - faz sentido continuar com o suspense? -, como
sabemos a partir de suas cartas publicadas, era o filósofo alemão Georg Wilhelm
Fridrich Hegel79.
7.
"De onde surgiu a ideia de Hegel sobre a relação entre o senhorio e a
servidão?", perguntam-se especialistas em Hegel, repetidamente, referindo-se à
célebre metáfora da "luta de vida ou morte" entre senhor e escravo, que, para
Hegel, oferecia a chave para o avanço da liberdade na história mundial e que
foi elaborada pela primeira vez na Fenomenologia do espírito, escrita em Jena
entre 1805 e 1806 (o primeiro ano de existência da nação haitiana) e publicada
em 1807 (o ano da abolição britânica do tráfico de escravos). Vale a pena
insistir: de onde? Os que se ocupam da história das ideias da filosofia alemã
conhecem apenas um lugar onde procurar pela resposta: nos escritos de outros
intelectuais. Talvez tenha sido Fichte, escreve George Armstrong Kelly, apesar
de que "o problema do senhorio e da servidão é essencialmente platônico"80.
Judith Shklar toma o caminho convencional de vincular a discussão hegeliana a
Aristóteles. Otto Pöggeler - e dificilmente haverá nome mais sofisticado na
literatura alemã sobre Hegel - diz que a metáfora sequer provem dos antigos,
sendo na verdade um exemplo totalmente "abstrato"81. Apenas um estudioso,
Pierre-Franklin Tavarès, chegou a realmente estabelecer a conexão entre Hegel e
o Haiti, baseando seu argumento na evidência de que Hegel havia lido o abade
francês abolicionista Grégoire82. (Seu trabalho, escrito no início da década de
1990, foi, até onde sei, retumbantemente ignorado pela comunidade hegeliana.)
Mas mesmo Tavarès trata do Hegel tardio, após a concepção da dialética do
senhor e do escravo83. Ninguém ousou sugerir que a ideia para a dialética do
senhorio e da servidão tenha ocorrido a Hegel em Jena, entre os anos de 1803 e
1805, a partir da leitura da imprensa - revistas e jornais. Porém, esse mesmo
Hegel, nesse mesmo período de Jena, durante o qual a dialética do senhor e do
escravo foi concebida pela primeira vez, fez a seguinte anotação:
Ler o jornal no início da manhã é uma espécie de prece matinal
realista. No primeiro caso, nos afastamos do mundo e nos dirigimos a
Deus, ou [no segundo caso] nos dirigimos ao mundo, àquilo de que ele
é feito. Ambas nos oferecem a mesma segurança, uma vez que deixam
cientes de onde nos encontramos84.
Restam apenas duas alternativas. Ou Hegel era o mais cego de todos os filósofos
da liberdade cegos da Europa iluminista, deixando Locke e Rousseau para trás em
sua capacidade de negar a realidade debaixo do seu nariz (a realidade impressa
debaixo de seu nariz sobre a mesa do café da manhã); ou Hegel sabia - sabia dos
escravos reais que eram bem-sucedidos em sua revolta contra seus senhores reais
- e elaborou sua dialética do senhorio e da servidão deliberadamente no quadro
de seu contexto contemporâneo85.
Michel-Rolph Trouillot escreve em seu importante livro, Silencing the past
[Silenciando o passado], que a Revolução Haitiana "entrou na história com a
característica peculiar de continuar sendo impensável, mesmo enquanto
acontecia". Ele certamente tem razão ao enfatizar a incapacidade da maioria dos
contemporâneos da revolução, por conta de suas categorias pré-fabricadas de
pensamento, "para entender a revolução em curso em seus próprios termos"86. Mas
há um perigo em equiparar dois silêncios, o passado e o presente, quando se
trata da história haitiana. Pois, se homens e mulheres no século XVIII não
concebiam a "igualdade fundamental da humanidade" em termos não raciais, como
"alguns de nós fazemos hoje", pelo menos eles sabiam o que estava acontecendo;
hoje em dia, quando a revolução dos escravos haitianos pode parecer mais
pensável, ela é mais invisível, devido à construção dos discursos disciplinares
por meio dos quais herdamos o conhecimento sobre o passado87.
Os europeus do século XVIII estavam realmente pensando sobre a Revolução
Haitiana precisamente porque ela desafiava o racismo de muitos de seus
pressupostos. Não era necessário ter sido um defensor da revolução de escravos
para reconhecer sua importância crucial para o discurso político88. "Mesmo na
era das revoluções, seus contemporâneos reconheceram na criação do Haiti algo
extraordinário"89. E mesmo seus oponentes consideraram esse "evento marcante"
como algo "digno da contemplação dos filósofos"90. Marcus Rainsford escreveu em
1805 que a causa da Revolução Haitiana era o "espírito de liberdade"91. O fato
de que esse espírito pudesse ser contagioso, atravessando a fronteira que
separava não apenas as raças, mas também os escravos dos homens livres, foi o
que tornou possível sustentar, sem recurso à ontologia abstrata da "natureza",
que o desejo por liberdade era verdadeiramente universal, um evento da história
mundial e, de fato, o exemplo que rompe o paradigma. Antes de escrever A
fenomenologia do espírito, Hegel havia abordado o tema do reconhecimento mútuo
em termos de Sittlichkeit [eticidade]: criminosos contra a sociedade ou as
relações recíprocas na comunidade religiosa ou afeição pessoal. Agora, porém,
esse jovem professor, ainda no início de seus 30 anos, teve a audácia de
rejeitar essas versões anteriores (mais aceitáveis para o discurso filosófico
estabelecido) e inaugurar, como a metáfora central de seu trabalho, não a
escravidão oposta a algum estado mítico de natureza (como todos aqueles entre
Hobbes e Rousseau haviam feito antes dele), mas escravos contra senhores,
trazendo para dentro de seu texto a realidade presente, histórica, que o
circundava como uma tinta invisível.
8.
Consideremos, em maior detalhe, a dialética de Hegel do senhor e do escravo,
concentrando-nos sobre as características mais marcadas dessa relação. (Apoiar-
me-ei não apenas nas passagens relevantes de A fenomenologia do espírito, mas
também nos textos que a precedem imediatamente, escritos em Jena entre 1803 e
1806.)92.
Hegel compreende a posição do senhor tanto em termos político como econômico.
No Sistema da eticidade (1803): "O senhor possui geralmente uma superabundância
de necessidades físicas, enquanto o outro (o escravo) delas carece"93. À
primeira vista, a situação do senhor é "independente, e sua natureza essencial
é existir para si mesma"; enquanto, em contrapartida, "o outro", a posição do
escravo, "é dependente e sua essência é viver ou existir para outrem"94. O
escravo é caracterizado pela carência de reconhecimento alheio. É visto como
"uma coisa"; "coisidade" é a essência da consciência escrava - como havia sido
a essência de sua situação legal sob o Code Noir95. Contudo, à medida que a
dialética se desenvolve, a dominação aparente do senhor se reverte, com sua
consciência de que é na verdade totalmente dependente do escravo. Basta
coletivizar a figura do senhor para ver a pertinência descritiva da análise de
Hegel: a classe de proprietários de escravos depende totalmente da instituição
da escravatura para prover a "superabundância" que constitui sua riqueza. Essa
classe é, portanto, incapaz de ser o agente do progresso histórico sem
aniquilar sua própria existência96. Mas então os escravos (novamente
coletivizando a figura) chegam à autoconsciência ao demonstrar que não são
coisas, nem objetos, mas sujeitos que transformam a natureza material97. O
texto de Hegel torna-se obscuro e, por fim, silencia ao chegar a essa
conclusão98. Considerando, porém, os eventos históricos que ofereceram o
contexto para A fenomenologia do espírito, a inferência é bastante clara.
Aqueles que chegaram a se submeter à escravidão demonstram sua humanidade
quando preferem enfrentar a morte a permanecerem subjugados99. A lei (o Code
Noir!) que os reconhece meramente como "uma coisa" já não pode ser considerada
vinculante100, apesar de que, antes, de acordo com Hegel, era o próprio escravo
o responsável por sua falta de liberdade, ao haver inicialmente optado pela
vida em lugar da liberdade, pela mera autopreservação101. Em A fenomenologia do
espírito, Hegel insiste que a liberdade não pode ser outorgada aos escravos de
cima para baixo. É preciso que a autolibertação do escravo ocorra através de
uma "prova de morte":
"E é somente arriscando a própria vida que a liberdade é obtida [...]. O
indivíduo que não arriscou sua vida pode, sem dúvida, ser reconhecido como uma
pessoa (a agenda dos abolicionistas!); mas ele não alcança a verdade desse
reconhecimento como uma autoconsciência independente"102. O objetivo dessa
libertação, da libertação da escravidão, não pode ser a sujeição, por sua vez,
do senhor, o que simplesmente repetiria o "impasse existencial" do senhor103, e
sim a eliminação completa da instituição da escravidão.
Dada a facilidade com que essa dialética do senhor e do escravo se oferece a
uma tal leitura, é de se perguntar por que o tema Hegel e Haiti foi ignorado
por tanto tempo. Os estudiosos de Hegel não apenas deixaram de responder a essa
questão, como também deixaram até mesmo, ao longo dos últimos duzentos anos, de
colocá-la104.
9.
Uma das principais razões para essa omissão é certamente a apropriação marxista
de uma interpretação social da dialética hegeliana. Desde a década de 1840, com
os escritos de juventude de Karl Marx, a luta entre o senhor e o escravo vem
sendo abstraída da referência literal e lida novamente como uma metáfora -
desta vez, para a luta de classes. No século XX, essa interpretação hegeliano-
marxista teve poderosos proponentes, incluindo Geörg Lukács e Herbert Marcuse,
assim como Alexandre Kojève, cujas conferências sobre A fenomenologia do
espírito são uma brilhante releitura dos textos de Hegel através de uma lente
marxiana105. O problema é que marxistas (brancos), dentre todos os leitores,
eram os menos propensos a considerar a escravidão real como algo significante,
uma vez que, em sua concepção etapista da história, a escravidão - não
importando o quão contemporânea - era vista como uma instituição pré-moderna,
banida da história e relegada ao passado106. Mas somente se presumirmos que
Hegel estava contando uma história que se esgotava na Europa, na qual a
"escravidão" era uma instituição mediterrânea vetusta, há muito abandonada, uma
tal leitura se tornará remotamente plausível - remotamente, porque mesmo na
própria Europa de 1806, a servidão por dívidas e a servidão fundiária ainda não
haviam desaparecido, e as leis que consideravam a escravidão propriamente dita
tolerável ainda estavam sendo contestadas107.
Há um elemento de racismo implícito no marxismo oficial, ao menos por conta da
concepção da história como uma progressão teleológica. Esse elemento se tornava
explícito, por exemplo, quando marxistas (brancos) resistiam à tese de
inspiração marxista do historiador jamaicano Eric Williams em Capitalism and
slavery (1944) - reforçada pelo historiador marxista trinidadiano C. L. R.
James em The black jacobins - de que a escravidão do sistema de plantation era
uma instituição quintessencialmente moderna de exploração capitalista108. No
que se refere à literatura hegeliana especializada, Ludwig Siep e outros
criticaram justificadamente a leitura marxista de Hegel sob a ótica da luta de
classes como algo anacrônico. O resultado disso entre os filósofos, entretanto,
tem sido uma tendência a se afastar completamente da contextualização
social109. A interpretação de Hegel segundo a luta de classes é realmente
anacrônica, mas isso deveria ter levado os intérpretes a olhar mais de perto os
eventos históricos contemporâneos de Hegel, e não a abandonar inteiramente a
interpretação social.
A literatura de orientação marxista lançou luz, porém, sobre uma área inteira
de questões de Hegel que haviam permanecido completamente negligenciadas até o
século XX. Isso se refere ao fato de que, em 1803, Hegel lera a Riqueza das
nações de Adam Smith e que isso o levou a uma concepção da sociedade civil -
die bürgerliche Gesellschaft - como economia moderna, a sociedade criada pelas
ações de troca burguesas. Mas se os marxistas foram provocados pela citação de
Hegel do exemplo de Smith da fábrica de alfinetes na discussão da divisão do
trabalho (que de modo algum se encaixa no modelo da dialética do senhor e do
escravo!), deixaram de comentar o fato de que Smith incluiu uma discussão
econômica da escravidão moderna em A Riqueza das nações110.
Há muito que se reconhece que a concepção hegeliana da política era moderna,
baseada numa interpretação dos eventos da Revolução Francesa como uma ruptura
decisiva em relação ao passado, e que, mesmo sem a mencionar expressamente, ele
se referia à Revolução Francesa em A fenomenologia do espírito111. Por que
seriam apenas dois os sentidos em que Hegel teria sido um modernista: adotando
a teoria econômica de Adam Smith e a Revolução Francesa como modelo para a
política? E, mesmo assim, quando se tratava da escravidão, a mais candente
questão social de seu tempo, com rebeliões escravas por todas as colônias e uma
revolução escrava bem-sucedida na mais rica entre todas elas - por que deveria
- como poderia Hegel se manter de tal modo fixado em Aristóteles?112.
Sem dúvida, Hegel sabia dos escravos reais e de suas lutas revolucionárias.
Naquilo que talvez seja a mais política expressão de sua carreira, ele recorreu
aos sensacionais eventos do Haiti como o pilar de sua argumentação em A
fenomenologia do espírito113. A revolução real e bem-sucedida dos escravos
caribenhos contra seus senhores é o momento em que a lógica dialética do
reconhecimento se torna visível como a temática da história mundial, a história
da realização universal da liberdade. Se o editor de Minerva, Archenholz,
relatando a história à medida que acontecia, não chegou a ele mesmo sugerir
isso nas páginas de sua revista, Hegel, leitor de longa data, foi capaz de ter
essa visão. A teoria e a realidade convergiram nesse momento histórico. Ou,
para colocar em termos hegelianos, o racional - liberdade -tornou-se real. Esse
é o ponto crucial para a compreensão da originalidade da argumentação de Hegel,
por meio da qual a filosofia explodiu os confinamentos da teoria acadêmica e se
tornou um comentário sobre a história do mundo.
10.
Haveria muita pesquisa a ser feita. Outros textos de Hegel teriam de ser lidos
com a conexão haitiana em mente114. Por exemplo, a seção de A fenomenologia do
espírito em que Hegel critica a pseudociência da frenologia assume um sentido
diverso se vista como uma crítica às teorias do racismo biológico já
estabelecidas115. Assim como a referência, na Propedêutica filosófica (1803-
1813), a Robinson Crusoé, que associa esse protótipo de homem no "estado de
natureza" - o náufrago numa ilha caribenha - a Sexta-Feira, seu escravo, uma
crítica implícita à versão individualista do estado de natureza de Hobbes116.
As primeiras conferências de Hegel sobre a filosofia do direito (Heidelberg,
1817-188) contêm uma passagem que agora se torna legível. Começa com o tópico
crucial da autolibertação do escravo:
Mesmo que eu tenha nascido escravo [Sklave], que eu tenha sido
alimentado e criado por um senhor, que meus pais e antepassados
tenham sido todos escravos, ainda assim sou livre no momento que eu
desejar, quando me torno consciente de minha liberdade. Pois a
personalidade e a liberdade de minha vontade são partes essenciais de
mim, de minha personalidade117.
Hegel continua: mesmo que liberdade signifique ter direitos de propriedade, a
posse de outra pessoa é excluída - "e se eu mandar açoitar alguém, isso não
afeta sua liberdade"118. É claro que Hegel está falando nesse caso da
escravidão moderna e é claro que a consciência da liberdade exige que o
indivíduo se torne livre, não apenas em pensamento, mas no mundo. A nova versão
dessas conferências proferidas por Hegel em seu primeiro ano em Berlim (1818-
1919) conectaram explicitamente a libertação do escravo à realização histórica
da liberdade: "Os humanos se tornarem livres é parte, portanto, de um mundo
livre. Que não haja escravidão (Sklaverei) é a exigência ética (die sittliche
Forderung). Essa exigência somente é satisfeita quando aquilo que um ser humano
deve ser aparece como o mundo exterior que ele torna seu"119. Não teríamos por
que compartilhar da perplexidade do editor dessas conferências, que reparou, em
1983, que Hegel "falava de escravos de modo surpreendentemente frequente"120. E
consideraríamos uma confirmação (ainda que outros sequer chegaram a notar) de
que Hegel, em sua obra tardia, A filosofia do espírito subjetivo, menciona
expressamente a Revolução Haitiana121.
Seria também revelador reconsiderar o argumento do filósofo francês Jacques
d'Hont, segundo o qual Hegel estava ligado à maçonaria radical durante esse
anos, pois a maçonaria faz parte de nossa história a todo momento122. Não
apenas Archenholz, o editor de Minerva, era maçom, assim como seus
correspondentes regulares Konrad Engelbert Olsner (que se encontrou com Hegel
em 1794) e Georg Foster (a cuja obra Hegel se refere), assim como muitos outros
entre os contatos intelectuais de Hegel123; não só era maçom o capitão inglês
Rainsford, autor do livro sobre a história da independência haitiana, um
capítulo do qual fora publicado em Minerva em 1805124, como também a maçonaria
foi (e aqui o relato de D'Hont silencia) um fator crucial no levante de Saint-
Domingue.
Não era incomum filhos "mulatos" de fazendeiros coloniais brancos (não raro
sendo suas mães legalmente casadas com os pais) serem levados à França para
receberem ali sua formação. E é notável que as lojas maçônicas radicais
francesas fossem espaços igualitários, nos quais a segregação racial, religiosa
e mesmo sexual podia ser superada, ao menos temporariamente125. Polverel, o
homem que dividiu com Sonthonax tanto o posto de comissário em Saint-Domingue
como a responsabilidade por declarar a abolição da escravatura na colônia em
1793, havia sido maçom em Bordeaux na década de 1770126, um período em que um
número surpreendente de jovens mulatos que posteriormente se tornaram líderes
da revolta em Saint-Domingue também se encontravam nessa cidade portuária do
circuito do comércio de escravos127. Dois desses jovens, Vincent Ogé e Julien
Raimond, declararam-se, no primeiro ano da Revolução Francesa, favoráveis aos
direitos dos mulatos. Sua falta de sucesso levou-os em direções bem diferentes.
Contando com o apoio dos Amis des Noirs e com prováveis conexões maçônicas,
assim como abolicionistas, tanto em Londres como na Filadélfia, Ogé voltou à
colônia em 1790 para liderar uma revolta de mulatos livres por direitos civis;
derrotado, foi torturado e executado pela corte colonial no ano seguinte128.
Raimond foi nomeado comissário colonial pelo governo francês em 1796 e
trabalhou em estreita proximidade primeiro com Sonthonax e em seguida com
Toussaint, a quem ajudou a redigir a constituição de 1801. Um terceiro mulato
bordelês, André Rigaud, lutou com o exército francês na Guerra de Independência
Americana e foi, depois de Toussaint (que se tornou seu rival), provavelmente o
mais importante general na luta dominguense contra os britânicos na década de
1790129. Um quarto foi Alexandre Pétion, que lutou com Dessalines contra os
franceses, tornando-se presidente da república do Haiti, criada no sul da ilha
após o assassinato de Dessalines em 1806. O presidente Pétion encorajou Simón
Bolívar a exigir a abolição da escravidão na luta latino-americana pela
independência, na qual a maçonaria também desempenhou um papel decisivo. O
historiador Jacques de Cauna escreveu a respeito desse ilustre grupo de líderes
dominguenses: "Seria interessante investigar se eles também teriam feito parte
das lojas maçônicas de Bordeaux. Essa pesquisa ainda está por ser feita"130.
Ademais, não podemos ficar cegos à possibilidade de influência recíproca: os
próprios sinais secretos da maçonaria podem ter sido afetados pelas práticas
rituais dos escravos revolucionários de Saint-Domingue. Existem referências
intrigantes ao vodu - o culto secreto dos escravos dominguenses que gerou o
maciço levante de 1791 - como "'uma espécie de maçonaria religiosa e
cerimonial'"131. Sabemos muito pouco sobre a maçonaria no Atlântico negro/
pardo/branco, um capítulo de relevo na história da hibridez e da
transculturação.
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Figura_6
Figura_7_e_8
11.
"A coruja de Minerva somente levanta voo quando o sol se põe". Essa muito
citada máxima das conferências de Hegel sobre A filosofia da história (1822),
que podia muito bem ser uma referência à revista Minerva, na verdade marca um
recuo da política radical de A fenomenologia do espírito - a extensão desse
recuo em relação à posição inicial de Hegel sobre a Revolução Francesa é,
porém, objeto de debate há muitos anos133. Mas, ao menos no que diz respeito à
abolição da escravidão, o recuo de Hegel em relação ao radicalismo
revolucionário é evidente134.
Notoriamente condenando a cultura africana à pré-história e culpando os
próprios africanos pela escravidão no Novo Mundo, Hegel repetia o argumento
banal e apologético de que os escravos viviam em condições melhores nas
colônias do que em suas pátrias africanas, onde a escravidão era "absoluta"135,
e corroborava o gradualismo: "A escravidão é a injustiça em si e por si só,
pois a essência da humanidade é Liberdade; mas, para tanto, o homem deve
amadurecer. A abolição gradual da escravidão é, portanto, mais sábia e mais
equitativa que sua súbita supressão"136. Essa postura não era, no entanto, a
mais surpreendente em suas conferências. Pelo contrário, era o brutal esmero
com que privava toda a África subsaariana, essa "terra de crianças", de
"barbárie e selvageria", de qualquer relevância para a história mundial, devido
ao que ele considerava serem as deficiências do "espírito" africano137.
Seria essa mudança simplesmente uma parte do conservadorismo mais geral de
Hegel durante os anos em Berlim? Ou estaria ele, novamente, reagindo aos
eventos correntes? O Haiti estava novamente nas manchetes durante as primeiras
décadas do século XIX, febrilmente discutido por abolicionistas e seus
oponentes na imprensa britânica, incluindo a Edinburgh Review, que temos
certeza de que Hegel lia à época138.
No contexto da pressão contínua pela abolição da escravatura, os acontecimentos
no Haiti, o "grande experimento", eram monitorados constantemente e evocavam
censuras crescentes, mesmo de seus antigos defensores139. No centro da
discussão, estava a suposta brutalidade do rei Henri Christophe140 e o declínio
da produtividade na ilha sob o sistema de trabalho assalariado (aqui seria o
momento adequado para uma crítica marxista)141. Não há registro de se esses
debates levaram Hegel a reconsiderar o "grande experimento" do Haiti. O que
está claro é que, num esforço para se tornar mais erudito nos estudos africanos
durante a década de 1820, Hegel estava na verdade se tornando mais tolo.
Hegel repetiu suas conferências sobre a filosofia da história a cada dois anos
entre 1822 e 1830, adicionando material empírico obtido de sua leitura dos
especialistas europeus na história mundial142. É tristemente irônico que,
quanto mais fielmente suas conferências refletiam a produção acadêmica
convencional europeia sobre a sociedade africana, menos esclarecidas e mais
preconceituosas elas se tornavam143.
12.
Por que é importante encerrar o silêncio sobre Hegel e o Haiti? Diante da
aceitação final de Hegel da continuidade da escravidão - e mais, diante do fato
de que a filosofia da história de Hegel ofereceu por dois séculos uma
justificativa para as mais complacentes formas de eurocentrismo (talvez Hegel
sempre tenha sido um racista cultural, se não um racista biológico) - por que a
recuperação desse fragmento da história, cuja verdade conseguiu nos escapar, é
de interesse mais do que hermético?
Há muitas respostas possíveis, mas uma certamente é o potencial de resgatar a
ideia de história universal humana dos usos aos quais a dominação branca a
condenou. Se os fatos históricos a respeito da liberdade podem ser extirpados
das narrativas contadas pelos vencedores e recuperadas para a nossa própria
época, então o projeto da liberdade universal não deve ser descartado, mas,
pelo contrário, deve ser resgatado e reconstituído sobre novas bases. O momento
de clareza de pensamento de Hegel teria de ser sobreposto ao de outros da
época: Toussaint-Louverture, Wordsworth, abade Grégoire e mesmo Dessalines. Em
que pese toda a brutalidade de sua vingança contra os brancos, Dessalines foi
quem viu com maior clareza a realidade do racismo europeu. Ainda, o momento de
Hegel deve ser sobreposto aos momentos de clareza ativa: os soldados franceses
que, enviados à colônia por Napoleão, ao ouvirem esses ex-escravos cantando a
"Marseillaise", perguntaram-se em voz alta se não estariam lutando do lado
errado; o regimento polonês sob o comando de Leclerc que desobedeceu suas
ordens e se recusou a afogar seiscentos dominguenses capturados144. Existem
muitos exemplos dessa clareza e eles não pertencem com exclusividade a qualquer
lado ou grupo. E se cada vez que a consciência dos indivíduos ultrapassasse as
fronteiras das constelações atuais de poder e percebesse o significado concreto
da liberdade, este fosse avaliado como um momento, ainda que transitório, da
realização do espírito absoluto? Quais outros silêncios teriam ainda de ser
quebrados? Quais histórias indisciplinares ainda teriam de ser contadas?145.
SUSAN BUCK-MORSS é professora de filosofia política e teoria social da
Universidade Cornell (EUA).
NOTAS
[*] Publicado originalmente em Critical Inquiry, vol. 26, nº 4, 2000, pp. 821-
65. Republicado em Buck-Morss, Susan. Hegel, Haiti and universal history.
University of Pittsburg Press, 2009. Devido à quantidade, as
notas e referências estão excepcionalmente dispostas ao final do artigo.
[1] "Para os pensadores do século XVIII que abordaram a questão, a escravidão
era a metáfora central para todas as forças que aviltavam o espírito humano"
(Davis, David Brion. The problem of slavery in the age of revolution, 1770-
1823. Ithaca: Cornell University Press, 1975, p. 263).
[2] Ver Schama, Simon. The embarrassment of riches: an interpretation of Dutch
culture in the Golden Age. Nova York: Random House, 1987 (ed.
bras.: O desconforto da riqueza. São Paulo: Companhia das Letras, 1992). A
questão que se colocava para essa nação afluente era "como criar uma ordem
moral em um paraíso terreno" (p. 125).
[3] O asiento espanhol assegurava a empreendedores individuais o privilégio
exclusivo de abastecer a América Espanhola com escravos africanos, mas os
próprios espanhóis apenas timidamente controlavam o tráfico. Entrepostos do
tráfico escravista na costa africana também exibiam bandeiras de Portugal,
Países Baixos, França, Grã-Bretanha, Dinamarca e Brandenburgo. A marinha
mercante holandesa dominava o comércio marítimo entre os países do Atlântico
Norte, transportando os bens de outras nações, e também e se beneficiava dos
privilégios obtidos no trafico de escravos baseado no asiento.
[4] Schama, op. cit., p. 228. Identifiquei, nas minhas leituras, apenas duas
menções à escravidão real: numa discussão sobre os hábitos comensais
holandeses, tratando de uma aversão ao "mengelmoes" (mexido), que não passava
de um "pábulo guisado", "um mingau para escravos e bebês" (Ibidem, p. 177), e
na menção ao fato de que a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais fora
"forçada a gastar mais de um milhão de florins por ano na defesa do encrave
pernambucano no Recife contra os portugueses, enquanto apenas 400 mil florins
de lucro eram hauridos das receitas provenientes do comércio de escravos e da
produção de açúcar e pau-brasil" (Ibidem, p. 252).
[5] A "epopeia do Êxodo tornou-se para os holandeses aquilo que havia sido para
os judeus bíblicos: a legitimação de uma grande ruptura histórica, um corte com
o passado, que se havia tornado possível pela invenção retrospectiva de uma
identidade coletiva" (Ibidem, p. 113). O rei Filipe II da Espanha era comparado
ao faraó que reinava sobre o cativeiro egípcio: "Um prostrava a casa de Jacó
com escravidão/ O outro, os Países Baixos, com tirania" (Ibidem, p. 105). A
referência holandesa à virulenta condenação do missionário católico Bartolomeu
de Las Casas dirigida aos "crimes" espanhóis da escravidão nas colônias é
mencionada por Schama, ao mesmo tempo em que a prática holandesa da escravidão
não o é (Ibidem, p. 84).
[6] Paradoxalmente, a predileção da igreja pela descrição de seu próprio
rebanho como os hebreus renascidos não a predispunha em favor daqueles
propriamente ditos" (Ibidem, p. 591).
[7] Ibidem, pp. 565-608. Schama descreve as conexões feitas pelos holandeses
entre não europeus e os excessos do consumo de tabaco, da sexualidade e outras
depravações que ameaçavam contaminar os lares holandeses: "As antologias
visuais e textuais do barbarismo no Brasil e na Flórida, por exemplo,
representavam índios fumando folhas enroladas, enquanto atos de cópula,
canibalismo, urinação em público e outras formas variadas de bestialidade eram
arroladas como elementos rotineiros no segundo plano" (Ibidem, p. 204).
[8] O autor se satisfaz em simplesmente registrar, sem qualquer comentário
crítico, a fantasia mágica de Thomas Mun, segundo a qual, no capitalismo,
dinheiro gera dinheiro, como algo que influencia os holandeses que investiga:
"Capital gerou capital, com impressionante facilidade, e, longe de negarem a si
mesmos seus frutos, os capitalistas se regozijam com os confortos materiais que
ele pode comprar. Em meados do século, parecia não haver limites, nenhum
geográfico certamente, para o alcance de suas esquadras e para a desenvoltura
de seus empreendedores. Antes mesmo que a demanda de um consumidor fosse
satisfeita ou exaurida, outra matéria-prima promissora era descoberta, sua
oferta monopolizada, sua demanda estimulada e seus mercados domésticos e
exteriores explorados. Chegaria o momento em que a maré da prosperidade
começaria a vazar?" (Ibidem, p. 323).
[9] Ibidem, pp. 47, 203.
[10] Ibidem, p. 62
[11] Grotius certamente discutiu a escravidão real. Mas Grotius (ver adiante
nota 15) é citado por Schama apenas em outros contexto (guerras justas, livre
comércio, destino do povo holandês, matrimônio, baleias). Não é de todo
infundado suspeitar do silêncio de Schama. Tais histórias nacionais seletivas
tornaram-se moda na historiografia europeia, omitindo grande parte, se não
toda, da história da colonização.
[12] No entanto, ver Blakeley, Allison (Blacks in the Dutch world: the
evolution of racial imagery in a modern society. Bloomington: Indiana
University Press, 1993), que oferece evidências visuais da
presença de negros nos Países Baixos nessa época.
[13] A Grã-Bretanha conseguiu à força da Espanha o asiento no Tratado de
Utrecht (1713). "Muito da riqueza de Bristol e Liverpool nas décadas seguintes
foi construída sobre a base do tráfico de escravos" (Palmer, R. R. e Colton,
Joel. A history of the modern world. 3 ed. Nova York: Knopf, 1969, p. 171).
[14] Se os exemplos retóricos de Hobbes se apoiam na máquina como uma metáfora
para o Estado artificialmente construído, o Antigo Testamento provê o título
para o Leviatã, assim como para o livro de Hobbes sobre o Parlamento Longo,
Behemoth, o nome bíblico de um soberano tirânico que já vinha sendo utilizado
na narrativa nacional holandesa: "Os reis de Espanha, em cujos nomes tais
infâmias (foram praticadas contra as populações civis holandesas), [...]
passaram a ser conhecidos como Behemoth, determinado a destruir os laços que
mantinham unidas comunidades e mesmo famílias" (Schama, op. cit., p. 92).
[15] Hobbes considerava a "luta elementar entre dois inimigos" como "a condição
natural que tornou a escravidão necessária como uma instituição social" (Davis.
The problem of Slavery in Western culture. Ithaca, Cornell University Press,
1966, p. 120). Aqui, Hobbes seguiu os passos de outros
teóricos, Samuel Pufendorf e Hugo Grotius, cujo livro Guerra e Paz (1853)
incluía opiniões favoráveis à escravidão e o argumento de que a escravidão era
legalmente aceitável.
[16] Davis, The problem of slavery in the age of revolution, op. cit., p. 263.
[17] Hulme, Peter. "The Spontaneous Hand of Nature: Savagery, Colonialism, and
the Enlightenment", in Peter Hulme e Ludmilla Jordanova (eds.), The
Enlightenment and Its Shadows, Londres, 1990, p. 24. Hulme
mostra-se interessado sobretudo na maneira como Hobbes caracteriza os
"selvagens" indígenas das colônias.
[18] Locke, John. Two treatises of government. Ed. Peter Laslett. Cambridge:
Cambridge University Press, 1960, §1, p. 141.
[19] Davis, The problem of slavery in Western culture, op. cit., p. 118. Locke
estava envolvido no desenvolvimento das políticas coloniais por meio de seu
patrono, o Conde de Shaftesbury, e era um ferrenho defensor de seu
empreendimento. Foi autor das Constituições Fundamentais da Carolina e membro
de seu Conselho de Comércio e Plantações, tendo sido seu secretário entre 1673
e 1675. As constituições da Carolina proclamavam: "todo homem livre da Carolina
deve ter poder e autoridade absolutos sobre seus escravos negros" (Ibidem, p.
118).
[20] "Na opinião de Locke, a origem da escravidão, assim como a origem da
liberdade e da propriedade, encontrava-se inteiramente fora do âmbito do
contrato social" (Ibidem, p. 119). O argumento filosófico de Locke temperava a
universalidade da igualdade no estado de natureza com a necessidade do
consentimento antes que o contrato social pudesse ser estabelecido, excluindo
do contrato, portanto, explicitamente, crianças e idiotas e, por extensão
interpretativa, outros que fossem incultos ou incultiváveis. Ver Mehta, Uday S.
"Liberal strategies of exclusion". Politics and Society, nº 18, 1990, pp. 427-
53.
[21] Davis chama a atenção para "o fato infeliz de que escravos fossem
definidos pela lei como propriedade e que a propriedade fosse considerada como
o fundamento da liberdade" (Davis, The problem of slavery in the Age of
Revolution, op. cit., p. 267). Foi somente "após a decisão de Somerset de 1772"
que "deixou de ser possível considerar irrefutável a legalidade da propriedade
de escravos" (Ibidem, p. 470), apesar de William Davy, o advogado do caso,
haver argumentado que havia um precedente: "No décimo primeiro ano do reinado
de Elizabeth, sustentava Davy, havia sido decidido que 'a Inglaterra tinha um
ar demasiado puro para que escravos o aspirassem'". Não era bem assim, afirma
Davis: "Na verdade, escravos negros eram comprados e apresentados na corte de
Elizabeth e de seus sucessores da dinastia Stuart; sua venda era anunciada
publicamente ao longo da maior parte do século XVIII; e eram legados em
testamentos até a década de 1820" (Ibidem, p. 472). Quando em 1765 William
Blackstone proclamou que, "a partir do momento em que seus pés toquem o solo da
Inglaterra, um escravo ou negro cairá sob a proteção das leis que regem todos
os direitos naturais, tornando-se eo instanti um homem livre", isso não se
aplicava aos escravos nas colônias. "Mesmo o advogado de Somerset reconhecia
que as cortes inglesas teriam de reconhecer a validade de um contrato de
aquisição de escravos firmado no exterior" (Ibidem, pp. 473-4).
[22] "O London Advertiser de 1756 publicou um anúncio feito por Matthew Dyer,
informando ao público que produzia 'cadeados de prata para negros ou cães,
coleiras etc'. [...] Damas inglesas posavam para seus retratos ou bem com seu
cordeiro de estimação, ou com seu cão de estimação, ou então com seu negro de
estimação" (Dabydeen, David. Hoggarth's blacks: images of blacks in eighteenth-
century English art. Athens: University of Georgia Press, 1987 [1985], pp. 21-
3).
[23] A respeito da presença de escravos na Grã-Bretanha do século XVIII, ver
também Shylon, F. O. Black slaves in Britain. Nova York/Londres: Oxford
University Press, 1974, e Limbaugh, Peter. The London hanged:
crime and civil society in the eighteenth century, Nova York: Cambridge
University Press, 1992.
[24] Ver Mintz, Sidney W. Sweetness and power: the place of sugar in modern
history. Nova York: Voking, 1985.
[25] Ver Davis, Ralph. The rise of the atlantic economies. Ithaca: Cornell
University Press, 1973, p. 257.
[26] Louis Sala-Molins afirma que um terço da atividade comercial na França
dependia da instituição da escravidão (Le Code noir, ou le calvaire de Canaan.
Paris: Presses Universitaires de France, 1987, p. 244). Estimativas mais
conservadoras situam a proporção em torno de 20%.
[27] Foi Montesquieu quem introduziu a escravidão nos debates iluministas,
definindo seu tom. Ao mesmo tempo em que condenava filosoficamente a
instituição, justificava a escravidão "negra" em termos pragmáticos, climáticos
e explicitamente racistas ("narizes achatados", "pretos da cabeça aos pés" e
carentes de "bom senso"). Concluía: "Espíritos débeis exageram demasiado a
injustiça feita aos africanos" pela escravidão colonial (Montesquieu. The
spirit of the laws. In: Selected political writings. Trad. e ed. Melvin
Richter. Indianapolis: Hackett, 1990, p. 204).
[28] A exceção mais frequentemente citada é a obra de um sacerdote, o Abade
Raynal, cujo livro Histoire philosophique et politique des établissements et du
commerce des Européens dans les deux Indes, escrito em 1770 em colaboração com
Diderot, prenunciava um Espártaco negro, que surgiria no Novo Mundo e vingaria
as violações contra os direitos naturais. O livro foi lido amplamente, não
apenas na Europa; o próprio Toussaint-Louverure foi inspirado por ele. Ver
James, C. L. R. The black jacobins: Toussaint l'ouverture and the San Domingo
revolution. 2 ed. Nova York: Vitage Books, 1963 [1938], pp. 24-5. Michel-Rolph
Trouillot já advertiu, porém, contra uma leitura muito entusiasta dessa
passagem, que deve ser vista antes como uma advertência dirigida aos europeus
do que como uma conclamação voltada aos próprios escravos: "Não se tratava de
uma clara predição sobre o surgimento de uma figura como Louverture, como
muitos em retrospecto gostariam que fosse [...]. A postura mais radical
encontra-se na inconfundível referência à unidade da espécie humana"
(Trouillot, Michel-Rolph. Silencing the past: power and the production of
history. Boston: Beacon Press, 1995, p. 85).
[29] Rousseau, Jean-Jacques. On the social contract. In: The basic political
writings. Trad. e ed. Donald A. Cress. Indianapolis: Hackett, 1988, livro I,
cap. 1, p. 141.
[30] Ibidem, p. 146.
[31] Sala-Molins, op. cit., p. 238.
[32] Ibidem, p. 241. Na verdade, os exemplos de Rousseau vêm da antiguidade,
como quando menciona Brásidas de Esparta se contrapondo ao sátrapa de
Persépolis! Ver Rousseau. Discourse on the origin of inequality. In: The basic
political writings, op. cit., p. 72.
[33] Cf. Sala-Molins, op. cit., pp. 243-6.
[34] Ver Cohen, William B. The French encounter with Africans: white response
to blacks, 1530-1880. Bloomington: Indiana University Press, 1980. Em 1764, o governo francês proibiu a entrada de negros na metrópole.
Em 1777, a lei foi modificada para suspender algumas das restrições, permitindo
que escravos coloniais acompanhassem seus senhores.
[35] Sala-Molins, op. cit., p. 248.
[36] Ibidem, p. 253. Autor também de L'Afrique aux Amériques: le Code Noir
espagnol (Paris: Presses Universitaires de France, 1992),
Sala-Molins considera os protestos contra a escravidão feitos pelo sacerdote
seiscentista Las Casas, que defendeu sua abolição imediata, mais progressistas
que os dos philosophes.
[37] Davis, The problem of slavery in the Age of Revolution, op. cit., p. 273.
Davis cita Bernard Bailyn nessa passagem. Sigo de perto a apresentação de Davis
aqui.
[38] Jordan, Winthrop D. White over black: American attitudes toward the negro,
1550-1812, Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1968, p. 289. Seus inimigos, os tories britânicos aproveitaram-se disso:
"'Como é possível, perguntava Samuel Johnson, 'que os mais fortes brados pela
liberdade sejam ouvidos do meio dos condutores de negros?'" (Davis, The problem
of Slavery in Western culture, op. cit., p. 3).
[39] "A árvore da liberdade é de natureza tão tenra que não será capaz de
vingar nos arredores da escravidão" (Benjamin Rush [1773], citado em Davis, The
problem of slavery in the Age of Revolution, op. cit., p. 283).
[40] Numa das cláusulas suprimidas da Declaração de Independência, Thomas
Jefferson acusava o rei britânico Jorge III de "haver declarado uma guerra
cruel contra a própria natureza humana, violando os mais sagrados direitos à
vida e à liberdade encarnados numa gente distante, que jamais o havia ofendido,
capturando-os e arrastando-os em cativeiro a outro hemisfério [...] decidido a
manter aberto o mercado em que homens seriam comprados e vendidos [...]. Ele
agora provoca essa mesma gente a levantarem suas armas contra nós e a
comprarem, com o assassinato das pessoas sobre quem ele os forçou, a mesma
liberdade da qual ele os havia privado, quitando assim crimes anteriores
cometidos contra as liberdades de um povo com crimes que ele os conclama a
cometer contra as vidas de outro" (Davis, The problem of slavery in the Age of
Revolution, op. cit., p. 273).
[41] "Temos em comum com todos os outros homens [...] um direito natural a
nossas liberdades, sem que sejamos delas privados delas por outros homens, pois
nascemos como um povo livre e jamais declinamos dessa benção por meio de
qualquer pacto ou acordo" (citado em Davis, The problem of slavery in the Age
of Revolution, op. cit., p. 276).
[42] "Se a Revolução Americana não pôde resolver o problema da escravidão, ela
ao menos levou à percepção do problema. Tampouco o desejo de coerência
consistia em retórica vazia. A questão surgiu nas resoluções antiescravistas
dos conselhos municipais da Nova Inglaterra, na constituição de Vermont, de
1777, em testamentos individuais que alforriavam escravos, na lei de Rhode
Island, de 1774, que proibia a futura importação de escravos, e no ato de
emancipação gradual da Pensilvânia, de 1780, adotado, de acordo com um
preâmbulo escrito por Thomas Paine, "em grata celebração à nossa afortunada
libertação" da ocupação britânica" (Davis, The problem of slavery in the Age of
Revolution, op. cit., pp. 285-6).
[43] Trouillot, op. cit., p. 85. A Encyclopédie, editada por Diderot e
D'Alembert, incluía verbetes relativos à escravidão real. Apesar de o artigo
intitulado "Nègres" ter simplesmente mencionado que seu trabalho era
"indispensável para o cultivo do açúcar, do tabaco, do índigo etc.", uma série
de verbetes escritos por Jaucourt foi mais incisiva: "Esclavage" declarava ser
a escravidão contrária à natureza; "Liberté naturelle" acusava a religião de
criar pretextos contra o direito natural por conta da demanda de escravos nas
colônias, plantações e minas; "Traité des Nègres" afirmava que escravos
traficados representavam uma "mercadoria ilícita - proibida por todas as leis
da humanidade e da igualdade", de modo que a abolição era necessária, mesmo que
arruinasse as colônias ("Sejam antes destruídas as colônias que a causa de
tanto mal"). Mas o racismo seguia presente nesses textos (Sala-Molins, Le Code
noir, ou le calvaire de Canaan, pp. 254-61) e a aboliç ão era
aconselhada sob a forma de um processo gradual, para que os escravos pudessem
ser preparados para a liberdade.
[44] Esse levante de escravos foi liderado por Boukman, um sacerdote do vodu
(culto sincrético que não apenas congregou escravos de diferentes culturas
africanas, mas também absorveu símbolos culturais ocidentais). Boukman se
dirigia aos escravos: "Abandonem o símbolo do deus dos brancos, que tanto nos
fez chorar, e ouçam a voz da liberdade, que nos fala a todos ao coração"
(James, op. cit., p. 87). Apesar de rebeliões de escravos ocorrerem com
bastante frequência em Saint-Domingue - 1679, 1713, 1720, 1730, 1758, 1777,
1782 e 1787, antes da ampla revolta de 1791 (ver Dupuy, Alex. Haiti in the
world economy: class, race, and underdevelopment since 1700. Boulder: Westview
Press, 1989, p. 34) -, o levante de Boukman provocou, no
contexto da radicalização da Revolução Francesa, uma mudança na percepção
europeia das revoltas de escravos, não mais vistas como uma sucessão de
rebeliões escravas, mas como uma extensão da Revolução Europeia: "As notícias
do verão de 1791 haviam se concentrado na fuga para Varènnes e na captura da
família real francesa e na revolta dos escravos em Santo Domingo" (Paulson,
Ronald. Representations of Revolution, 1789-1820. New Haven: Yale Unioversity
Press, 1983, p. 93).
[45] A escravidão foi abolida por Polverel e Sonthonax em agosto de 1793,
agindo autonomamente em relação às ordens de Paris. O papel de ambos foi
negligenciado pelos historiadores, outro caso de cegueira acadêmica que, para
usar a feliz expressão de Trouillot (op. cit.), "silencia o passado". Ver o
simpósio recente (Léger-Félicité Sonthonax: la première abolition de
l'esclavage - la Révolution Française et la Révolution de Saint-Domingue. Ed.
Marcel Dorigny. Saint-Denis/Paris: Société Française d'Histoire d'Outre-Mer/
Association pour l'Étude de la Colonisation Européenne, 1997), que apenas começa a remediar a situação; em especial, ver Roland
Desné, "Sonthonax vu par les dictionnaires" (pp. 113-20), que
traça a quase total desaparição do nome de Sonthonax das enciclopédias
bibliográficas da França ao longo do século XX.
[46] Os britânicos foram pragmaticamente compelidos a garantir a liberdade aos
escravos de Saint-Domingue que concordaram em lutar ao seu lado - como fizeram
Sonthonax e Polverel no caso daqueles que lutaram pela República Francesa. O
efeito dessas políticas foi comprometedor para a escravidão, contradizendo
qualquer argumento ontológico sobre a incapacidade dos escravos para a
liberdade; ver Geggus, David Patric. "The British occupation of Saint-Domingue,
1793-1798". Nova York: tese de doutorado, York University, 1978, p. 363.
[47] Geggus destaca: "O papel desempenhado pelo Haiti no súbito ressurgimento
do movimento antiescravagista em 1804 parece ter sido completamente ignorado
pela literatura acadêmica. Porém, sua importância foi aparentemente
considerável" (Geggus. "Haiti and the abolitionists: oppinion, propaganda, and
international politics in Britain and France, 1804-1838". In: Richardson, David
[ed.]. Abolition and its aftermath: the historical context, 1790-1916. Londres/
Totowa: F. Cass, 1985, p. 116). Novamente, um caso de
cegueira acadêmica que silencia o passado.
[48] Em 1796, o general Laveaux nomeou Toussaint governador e o declarou
salvador da República e redentor dos escravos prenunciado por Raynal; ver
Blackburn, Robin. The overthrow of colonial slavery, 1776-1848. Londres/Nova
York: Verso, 1988, p. 233. Em 1802, o Code Noir foi
restaurado na Martinica e em Guadalupe (mas não em Saint-Domingue).
[49] Louverture havia-se aliado anteriormente ao rei de Espanha, realizando
operações militares e operando a partir da porção oriental da ilha, que era uma
colônia espanhola; mas tão logo soube que a Assembleia Francesa havia abolido a
escravidão, juntou-se a Sonthonax contra os britânicos e foi leal à República
Francesa até sua prisão. Essa mudança de alianças, que foi objeto de
controvérsia, é analisada por Geggus. "'From his most catholic majesty to the
godless république': the 'volte-face' of Toussaint-Louverure and the end of
slavery in Saint-Domingue". Revue Française d'Histoire d'Outre Mer, vol. 65, nº
241, 1978, pp. 488-9.
[50] Para ajudá-lo a preparar o texto constitucional, Toussaint convocou um
conselho de seis cidadãos, incluindo o advogado bordelês Julien Raimond: A
Constituição é Toussaint l'Ouverture da primeira à última linha, que nela
consagrou seus princípios de governo. A escravidão foi permanentemente abolida.
Todo homem, independentemente de sua cor, poderia exercer qualquer ocupação e
não haveria qualquer distinção além daquela baseada em virtudes e talentos ou
qualquer outra superioridade que aquela conferida pela lei no exercício de uma
função pública. Ele incorporou à Constituição um artigo que preservava os
direitos de todos os proprietários ausentes da colônia "por qualquer razão",
exceto nos casos em que figurassem na lista de emigrados proscritos na França.
De resto, Toussaint concentrou todo o poder em suas próprias mãos (James, op.
cit., p. 263). O regime de Toussaint antecipou o estatuto territorial e
político do domínio. A França perdeu a oportunidade de estabelecer uma política
de imperialismo esclarecido.
[51] Geggus. "Slavery, war, and revolution in the Greater Caribbean". In:
Barry, David Gaspar e Geggus (eds.). A turbulent time: the French revolution
and the Greater Caribbean. Bloomington: Indiana University Press, 1997, p. 22.
[52] James, op. cit., p. 346.
[53] Ibidem, p. 345. Escrevendo sob pseudônimo em um jornal de Boston,
defendendo a revolução em Saint-Domingue, Abraham Bishop "lembrou que os
revolucionários americanos, que haviam ensinado o mundo a ecoar o grito de
'Liberdade ou Morte!' não diziam 'todos os brancos são livres, mas todos os
homens são livres'" (Davis, D. B. Revolutions: reflections on American equality
and foreign liberations. Cambridge: Cambridge University Press, 1990, p. 50).
[54] A constituição de Dessalines declarava que todos os haitianos são negros,
procurando eliminar legislativamente as categorias de mulatos e de todos os
vários gradientes de inter-racialidade. Dessalines foi assassinado em 1806; o
Haiti foi então dividido em duas partes, um "reino" setentrional, governado por
Henri-Christophe, e uma "república" meridional, cujo presidente era Alexandre
Pétion.
[55] Geggus, "Haiti and the abolitionists", op. cit., p. 114. [Doravante HA.]
[56] Trouillot considera a Revolução Haitiana "a revolução política mais
radical daquela época" (Trouillot, op. cit., p. 98). Blackburn escreve: "O
Haiti não foi o primeiro estado americano independente, mas foi o primeiro a
garantir liberdade civil a todos os seus habitantes" (Blackburn, op. cit., p.
260).
[57] Fora a Revolução Francesa uma "mera reforma dos abusos", como Napoleão
dizia que os britânicos a consideravam, ou representava "um completo
renascimento social", como disse em seu leito de morte? Ver Paulson, op. cit.,
p. 51. No fim da vida, Napoleão arrependeu-se da maneira como havia tratado
Toussaint-Louverture.
[58] Ver Blackburn, op. cit., p. 230.
[59] Ruof, Friedrich. Johann Wilhelm von Archenholtz: Ein deutscher
Schriftsteller zur Zeit der Französischen Revolution und Napoleons, 1741-1812.
Vaduz: Kraus Reprint, 1965 [1915], p. 29. (A grafia empregada
por Ruof para o nome de Archenholz, "Archenholtz", é inusitada). Archenholz
continuava: "'Deveriam ser exaltados pelo povo alemão, que assim se exaltaria a
si mesmo'" (Ibidem, p. 30). Em 1792, utilizou novamente a metáfora da
escravidão, ao descrever a situação revolucionária francesa, perguntando se o
povo "de uma das nações mais populosas da Terra, que se havia erguido nos
últimos anos do lodo viscoso da escravidão e provado à saciedade dos doces
frutos da liberdade, [...] tão cedo voltaria a baixar docilmente a cabeça sob o
jugo e se entreter com suas cadeias rotas como brinquedos, [...] mesmo que toda
a força combinada da Europa naufragasse do choque contra esse rochedo" (Ibidem,
p. 49).
[60] Em 1790, uma assembleia colonial em Saint-Domingue concedeu direito de
voto aos brancos não proprietários (franqueando o eleitorado a uma base mais
ampla do que na própria metrópole), reforçando assim a natureza racial da
exclusão política. Ver Blackburn, op. cit., p. 183.
[61] Blackburn escreve que possuíam 2 mil fazendas de café no oeste e no sul,
em comparação com as 780 fazendas de açúcar, cuja grande maioria era controlada
por brancos: "Em Saint-Domingue, os homens livres de cor eram quase tão
numerosos quanto os colonos brancos, talvez até mais numerosos". Os
proprietários de cor possuíam cerca de 100 mil escravos: "em nenhuma outra
parte das Américas figuravam tão alto na escala da classe proprietária aqueles
que tinham ascendência parcialmente africana"; com frequência "portavam o
prestigioso nome de um pai francês" (Ibidem, pp. 168-9).
[62] O barão de Wimpffen perguntou se os colonos não tinham medo de dizer
liberdade ou igualdade na frente de seus escravos (ver James, op. cit., p. 82).
Porém, ainda era raro em 1792 que republicanos declarassem abertamente, como o
fez Sonthonax, que "'não se pode manter os negros em cativeiro se homens livres
que eram iguais aos brancos também fossem negros como os escravos'" (Thibau,
Jacques. "Saint-Domingue à l'arrivé de Sonthonax". In: Léger-Félicité
Sonthonax, op. cit., p. 44).
[63] Na Assembleia Constituinte (1789-1791), composta por aproximadamente 1.100
deputados, um de cada dez tinha intereses em Saint-Domingue (ver ibidem, p.
41).
[64] Os Amis des Noirs (associação fundada em 1788) foram importantes ao
preparar o terreno para essa discussão. Apesar de não serem numerosos, eram
influentes como escritores e panfletários (Condorcet, Brissot, Mirabeau, Abade
Grégoire), cujos trabalhos deploravam a condição dos escravos coloniais.
Rainsford escrevia em 1805 que, como um resultado da circulação de seus
escritos, os escravos negros "eram objeto de destaque em conversas e contrições
em metade das cidades europeias"; uma vez que caracterizavam, com "infeliz
eloquência", as "misérias da escravidão" e "eram certamente a causa do chamado
à ação, com amplo alcance, daquele espírito de revolta dormente no africano
escravizado ou em seus descendentes" (Rainsford, Marcus. An historical account
of the black Empire of Hayti. Londres: J. Cundee, 1805, p. 107). A postura dos Amis des Noirs consistia na defesa unicamente da
emancipação gradual até 1791, quando passaram a defender a concessão de
direitos a negros livres e mulatos; à época da abolição efetiva da escravidão
(1794), a associação já havia deixado de existir, vítima dos expurgos de
Robespierre. A abolição passou a ser identificada com os girondinos, inimigos
de Robespierre: "Os girondinos foram acusados de haverem secretamente fomentado
os levantes coloniais em favor da Grã-Bretanha e de apoiarem a abolição com o
objetivo de arruinar o império francês [...]. O próprio Robespierre manteve-se
conspicuamente ausente da sessão de 4 de fevereiro (da Convenção, que votou
unanimemente pela abolição da escravatura) e não assinou o decreto" (Fick,
Carolyn E. "The French revolution in Saint-Domingue: a triumph or a failure?".
In: A Turbulent Time, op. cit., p. 68; comparar com Bénot, Yves. "Comment la
convention a-t-elle voté l'abolition de l'esclavage en l'an II?". Révolutions
aux Colonies. Paris, 1993, pp. 13-25).
[65] Archenholz, Johann Wilhelm von. "Einleitung zur 'Zur neuesten Geschichte
von St. Domingo'", Minerva, nº 4, 1804, p. 340. Essa era a
introdução editorial de Archenholz ao artigo (pp. 341-5), crítica da violência
da revolução e cética quanto à viabilidade do "Estado dos negros".
[66] Ver "Historische Nachrichten von den letzten Unruhen in Saint Domingo: Aus
verschiedenen Quellen gezogen", Minerva, nº 1, fev. 1792, pp. 296-319. O artigo pronunciava-se a favor dos direitos dos mulatos, da postura
de Brissot e dos Amis des Noirs.
[67] Esse lema, proclamado por Dessalines em maio de 1803, foi reportado em
"Zur neuesten Geschichte von St. Domingo", Minerva, nº 4, dez. 1804, p. 506.
[68] "A ascensão do Império Haitiano pode afetar decisivamente a condição da
raça humana [...]. Será difícil acreditar, no futuro, que os filósofos tenham
ouvido falar de um fato tão brilhante, até então inédito, e não tenham se
comovido, ou que que tenha sido confinado ao conhecimento frágil daqueles cuja
experiência não é admitida em meio ao espectro da verdade histórica [...]. Está
nos registros antigos que negros eram capazes de repelir com vigor seus
inimigos em sua própria terra; e um escritor moderno (Adanson, Voyage à
l'Afrique, 1749-53) assegurou-nos dos talentos e das virtudes desse povo;
coube, porém, ao fim do século XVIII realizar o espetáculo que exibiu uma horda
de negros que, abandonando um estado de abjeta degeneração, se emanciparam a si
mesmos da mais vil escravidão e estabeleceram entre si relações sociais
verdadeiras, promulgando leis e comandando exércitos nas colônias da Europa. O
mesmo período testemunhou uma grande e reluzente nação [França] [...] regredir
à barbárie de épocas passadas". Rainsford situava a Revolução Haitiana "entre
os episódios mais marcantes e importantes da época" (Rainsford, op. cit., pp.
x-xi, 364).
[69] Ruof, op. cit., p. 62.
[70] "O abolicionismo, que sempre foi um tema de pequenos grupos sectários na
França, agora deixou efetivamente de existir. A tentativa de reconquistar
Saint-Domingue havia sido acompanhada por um manancial de literatura voltada à
colônia, mas se tratava em grande parte de obras de colonos, que, com graus
variados de vitupério, atribuíam a revolução negra à influência abolicionista.
Então, como a expedição de Saint-Domingue falhou inteiramente, um veto total
foi imposto a todas as obras relacionadas às colônias" (HA, p. 117).
[71] A imprensa estadunidense estava repleta de histórias de Saint-Domingue.
John Adams, ao mesmo tempo em que lamentava o desenrolar dos eventos,
acreditava que fossem o resultado lógico daquilo que a rebelião nos Estados
Unidos havia criado. Outros viam a revolução dos escravos como a prova de que a
escravidão deveria ser abolida nos Estados Unidos - ou seja, ambos os lados
liam-na como algo decisivo para a história mundial (ver Davis, D. B.
Revolutions, op. cit., pp. 49-54). Correspondentes de guerra também enviavam
relatos periódicos para os jornais poloneses, uma vez que um regimento polaco
fazia parte da força militar sob o comando do general Leclerc enviado por
Napoleão para restabelecer a escravidão em Saint-Domingue. Ver PachoŃski, Jan e
Wilson, Reuel K. Poland's Caribbean tragedy: a study of polish legions in the
Haitian war of independence, 1802-1803. Nova York: Columbia university Press,
1986.
[72] Ver HA, pp. 113-5. Na verdade, a maior parte dos relatos não era muito
favorável, com a exceção da heroização de Toussaint-Louverture.
[73] O soneto foi "provavelmente escrito na França, em agosto de 1802" (Geggus.
"British opinion and the emergence of Haiti, 1791-1805". In: Walvin, James
[ed.]. Slavery and British society, 1776-1846. Baton Rouge: Louisiana State
University Press, 1982, p. 140). Wordsworth nasceu no mesmo
ano que Hegel (1770); ambos tinham por volta de 30 anos de idade na época.
William Blake também incorporou a Revolução Haitiana em sua poesia.
[74] Ruof, op. cit., pp. 69-70. Archenholz declarou a "mais estrita
neutralidade" (strengste Unparteilichkeit) como seu "principal dever" (Ibidem,
p. 40).
[75] É digno de nota que os estudiosos de Minerva tenham de voltar ao original
para descobrir o intenso interesse de Archenholz por Saint-Domingue e a
Revolução Haitiana. As duas monografias que foram escritas sobre ele não
mencionam esses artigos; ver Ruof, op. cit., e Rieger, Ute. Johann Wilhelm von
Archenholz als "Zeitbürger": Eine historisch-analytische Untersuchung zur
Aufklårung. Berlim: Duncker & Humblot, 1994. Ver, porém,
Schüller, Karin (Die deutsche Rezeption haitianischer Geschichte in der ersten
Hålfte des 19. Jahrhunderts: Ein Beitrag zum deutschen Bild vom Schwarzen.
Colônia: Böhlau, 1992, pp. 248-61), que inclui um sumário dos
artigos de Minerva sobre Saint-Domingue, assim como uma discussão dos relatos
sobre a Revolução Haitiana publicados em outros periódicos e livros alemães,
incluindo a bastante influente tradução alemã de Rainsford (pp. 103-8). O livro
de Schüller foi-me apresentado por Geggus, depois de haver escrito seu
trabalho, e tomei a liberdade de adicionar referências a ele nas notas sempre
que apropriado.
[76] Ruof, op. cit., p. 131. Dois correspondentes especialmente célebres eram
Konrad Engelbert Olsner e Georg Foster; sobre eles, ver adiante. Para os dados
relativos à circulação, ver ibidem, pp. 129-30.
[77] Ibidem, p. 130.
[78] Schiller escreveu a Archenholz em 1794, sugerindo que fizesse uma
retrospectiva sobre a Revolução Americana na revista: "Não lhe ocorreu ainda a
ideia de organizar um breve e denso retrato da guerra americana pela
liberdade?" (Ruof, op. cit., p. 45). Apesar de nenhum artigo ter aparecido em
Minerva, a série sobre os eventos de Saint-Domingue, 1791-1805, era análoga em
sua concepção.
[79] Hegel escreveu de Berna a Schelling na véspera do Natal de 1794: "De modo
um tanto acidental, falei há alguns dias com o autor das cartas assinadas por
"O" na Minerva de Archenholz. Sem dúvida, você sabe de quais estou falando. O
autor, supostamente inglês, é na verdade um silésio chamado Oeslner [...] ainda
jovem, mas se percebe que se esforçou bastante" (G. W. F. Hegel, carta a
Friedrich Wilhelm Joseph Schelling, 24 de dezembro de 1794; ver Hegel: the
letters (traduzidas por Clark Butler e Christian Seiler), Bloomington: Indiana
University Press, 1984, p. 28. Escrevendo em 1915, Ruof não
menciona Hegel como um leitor de Minerva, mas ele não teve acesso à publicação
alemã das cartas de Hegel; ver Hegel, Briefe von und an Hegel (editado por
Johannes Hoffmeister), Hamburgo: Meiner, 1969-1981. Jacques
d'Hont, porém, inicia seu livro com um capítulo sobre a influência de Minerva
sobre Hegel (e Schelling), que descreve como "total" (globale) (D'Hont,
Jacques. Hegel secret: recherches sur les sources cachées de la pensée de
Hegel. Paris: Presses Universitaire de France, 1968, pp. 7-45). Note-se que D'Hont não faz qualquer menção aos artigos sobre Saint-
Domingue que apareceram nas páginas de Minerva (sua preocupação é outra; ver
nota 106 infra). Konrad Engelbert Oeslner, um republicano mais radical que
Archenholz, era um girondino (anti-Robespierre); seu herói era o abade Sieyès.
Ver sua história da Revolução Francesa (baseada em seus relatos testemunhais):
Luzifer oder gereinigte Beitråge zur Geschichte der Französischen Revolution
(ed. Jörn Garber), Kronberg/Taunus: Scriptor, 1997 [1797].
[80] Kelly, George Armstrong. "Notes on Hegel's 'Lordship and Bondage'". In:
Hegel's dialectic of desire and recognition: text and commentary (ed. John
O'Neill). Albany: State University of New York, 1996, p. 260.
Kelly insiste que os escritos de Hegel devem ser considerados no contexto "da
época de Hegel", mesmo sendo uma época em que abunda pensamento (Ibidem, p.
272). Ele considera, portanto, as diferenças filosóficas entre Fichte,
Schelling e Hegel: a temática de Fichte era mais geral, voltada ao
reconhecimento mútuo (um tema que Hegel havia abordado anteriormente), enquanto
na dialética do senhor e do escravo "Hegel defende uma doutrina de igualdade
originária que é curiosa e perigosamente negada por Fichte" (Ibidem, p. 269).
Muitos intérpretes escolhem discutir Hegel nesse ponto nos termos colocados por
Fichte, reduzindo assim a importância do exemplo de reconhecimento específico a
Hegel, introduzido pela primeira vez em 1803: a relação entre senhor e escravo.
Ver, por exemplo, Williams, Robert R. "The story of recognition is a story
about Fichte and Hegel". In: Hegel's ethics of recognition. Berkeley:
University of California Press, 1997, p. 26.
[81] Ver Shklar, Judith N. "Self-sufficient man: dominion and bondage". In:
Hegel's dialectic of desire and recognition, op. cit., pp. 289-303, e Pöggeler,
Otto. Hegels Idee einer Phånomenologie des Geistes. 2 ed. Freiburg: Alber, 1993
[1973], p. 263-4.
[82] Ver Tavarès, Pierre-Franklin. "Hegel et l'abbé Grégoire: question noire et
révolution française". Révolutions aux Colonies, pp. 155-73.
O abade (Henri) Grégoire era certamente o mais leal defensor do Haiti entre os
abolicionistas franceses. Em 1808, escreveu De la littérature des nègres, que
conseguiu contornar a censura de Napoleão sobre o tema de modo "engenhoso",
tratando ostensivamente dos esforços literários de negros que escreviam em
francês e inglês: "O livro era predominantemente sobre a sociedade africana,
mas nele Grégoire também aproveitou a oportunidade para exaltar os dominguenses
Toussaint Louverture e Jean Kina (que havia liderado uma revolta na Martinica)
e para observar que, se o Haiti ainda era politicamente instável, esse também
tinha sido o caso da França na década de 1790" (HA, p. 117). Convidado em
meados de 1820 a assumir um bispado no Haiti, Grégoire recusou, frustrado com a
atitude conciliatória assumida pelo Haiti em relação à França, por conta da
concordância do presidente haitiano Boyer em pagar enormes reparações aos
antigos fazendeiros coloniais em troca do reconhecimento da independência
nacional (Ibidem, p. 128).
[83] Ainda não tive a oportunidade de ver o artigo original de Tavarès, "Hegel
et Haiti, ou le silence de Hegel sur Saint-Domingue" na revista de Port-au-
Prince Chemins Critiques, nº 2, maio de 1992, p. 113-31.
Tampouco li sua tese de doutorado, Hegel, critique de l'Afrique (Paris-I,
1990). Da versão de seu artigo a que tive acesso, pareceu-me que ele lida mais
com fontes francesas do que alemãs e que não consultou revistas da época; sua
avaliação é que a preocupação de Hegel com o abolicionismo surgiu
posteriormente, na década de 1820, e pode ter sido o resultado de algum
sentimento de nostalgia de seus sonhos revolucionários anteriores. Schüller
(op. cit.) menciona brevemente Hegel, mas apenas seus trabalhos tardios (dos
anos 1820), e não sugere qualquer forma de influência direta, como a que
defendo aqui; tampouco sugere que Hegel lesse Minerva.
[84] Rosenkranz, Karl. Georg Wilhelm Friedrich Hegels Leben. Darmstadt:
Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1977 [1844], p. 543.
Note-se que essa ainda é a biografia canônica de Hegel, daí sua republicação em
1977 (e novamente em 1998). Apesar de serem numerosos os trabalhos filosóficos
sobre a evolução do pensamento de Hegel, assim como biografias do filósofo, é
impressionante que Hegel não tenha encontrado um biógrafo moderno para tomar
definitivamente o lugar de Rosenkranz. Ver, por exemplo, Althaus, Horst. Hegel
und die heroischen Jahre der Philosophie: Eine Biographie. Munique: Hanser,
1992. Ainda que alguns objetos relacionados com Hegel tenham
sido submetidos a escrutínio microscópico (as marcas d'água em seus
manuscritos, por exemplo), há lacunas incríveis no que conhecemos sobre sua
vida. Há diversas razões para esse desequilíbrio, a começar pelo fato de que
Hegel mudou repetidas vezes de cidade (de Würtemberg para Tübingen, Berna,
Frankfurt, Jena, Bamberg, Nürnberg e Heidelberg), antes de se fixar em Berlim
durante a década final de sua vida, e ele mesmo tomou o cuidado de destruir
muitos documentos antes de morrer, incluindo escritos pessoais. Seu filho
(legítimo) Karl responsabilizou-se por arquivar seus documentos após sua morte
e pode ter ocultado algumas fontes. (O filho ilegítimo de Hegel, Ludwig, que
não é mencionado na biografia de Rosenkranz, foi concebido em Jena, em 1806,
enquanto Hegel escrevia a Fenomenologia do espírito, morrendo em 1831, mesmo
ano que seu pai, na Indonésia, como membro da marinha mercante holandesa.)
[85] A Fenomenologia do espírito não menciona o Haiti ou Saint-Domingue, mas
tampouco menciona a Revolução Francesa, em passagens sobre as quais os
especialistas concordam inteiramente ao reconhecerem a presença da revolução no
texto. Sobre a devoção de Hegel aos jornais e revistas, há provas abundantes,
desde seus dias de estudante em Tübingen, quando acompanhava os eventos
revolucionários franceses, passando pelos anos em Frankfurt, no final da década
de 1790, quando lia jornais com a pena na mão, até os anos de 1810 e 1820,
quando arquivava recortes da imprensa britânica, incluindo a Edinburgh Review e
o Morning Chronicle (ver nota 120 infra). Imediatamente após concluir A
Fenomenologia do espírito, Hegel deixou Jena para ir a Bamberg, onde se tornou
ele mesmo editor de um diário, que colapsou quando foi acusado por censores de
haver revelado o paradeiro das tropas alemãs (a defesa de Hegel baseou-se no
fato de que tais informações haviam sido obtidas de outras fontes
jornalísticas, já publicadas anteriormente).
[86] Trouillot, op. cit., p. 73.
[87] Ibidem, p. 82. Trouillot discute as várias "fórmulas de apagamento", por
meio das quais histórias generalistas produziram a invisibilidade (pp. 98ss).
[88] O tory evangélico James Stephen publicou um panfleto radical no verão de
1804, argumentando que a autoridade dos senhores brancos de escravos se apoiava
fundamentalmente nos temores irracionais dos escravos, "alimentados pela
ignorância e pelo hábito", mas também que, assim como a crença em fantasmas,
esse "pavor instintivo", uma vez afastado, desaparecia para sempre (HA, p.
115). Henry Brougham, respondendo a James Stephen na Edinburgh Review,
"acreditava que a obediência dos escravos derivava simplesmente de um cálculo
racional dos custos da resistência [...]. Mais orientado por uma mentalidade de
livre mercado, [Brougham] pensava em termos de estímulo e resposta" (Ibidem,
pp. 115-6). O argumento de Brougham pela abolição do tráfico de escravos também
se apoiava num fundamento de cálculo e demanda, uma vez que, depois do Haiti, o
risco de rebelião havia aumentado mais de mil vezes (Ibidem, p. 116). Sabemos
com certeza que Hegel foi leitor da Edinburgh Review no período entre 1817 e
1818, e especula-se que sua exposição a esse e outros periódicos britânicos já
vinha ocorrendo desde muito. Considerando a concepção de Hegel do espírito
moderno como essencialmente cristão, é de se imaginar que ele tivesse tomado o
partido de Stephen nessa discussão.
[89] HA, p. 113.
[90] "O fazendeiro francês Drouin de Bercy concebia-a como um evento marcante,
digno da contemplação de filósofos e estadistas, a despeito de desejar, ele
próprio, vê-la esmagada e toda a população (haitiana) massacrada ou deportada"
(HA, p. 113).
[91] Ver Rainsford, op. cit., cap. 2.
[92] Para fazer justiça às variações dos textos de Jena e, assim, à evolução da
ideia de Hegel sobre a dialética do senhor e do escravo em meio ao contexto
histórico da Revolução Haitiana, seria necessário um artigo à parte. Não será
possível oferecer aqui uma descrição verdadeiramente apurada. Poderei somente
oferecer uma hipótese, que considera a leitura de Adam Smith por Hegel em 1803
como um ponto de virada. Nos primeiros Systementwürfe de Jena (1803-1804),
Hegel tematiza a "batalha por reconhecimento" de uma maneira que marca uma
ruptura tanto com a concepção clássica de comunidade ética (Sittlichkeit)
quanto com a concepção hobbesiana da autoproteção individual (o estado de
natureza). O crucial e conclusivo "fragmento 22" (porções do qual foram
borrados e reescritos pelo próprio autor, sendo que ao menos uma página se
perdeu) começa com uma discussão sobre a "necessidade absoluta" do
"reconhecimento mútuo": a violação da propriedade deve ser vingada "até a
morte" (Hegel. Jenaer Systementwürfe. Ed. Klaus Düsing e Heinz Kimmerle. 3
vols. Hamburgo: F. Meiner, 1986, 1: 218n). Falando do chefe
de família proprietário de terras, Hegel escreve: "se ele se arrisca a um
ferimento, mas não a perder a vida", então "converte-se num escravo do outro
[er wird der Sklav des andern]" (p. 221). O vocábulo alemão normalmente
empregado é Sklave; note-se que aqui, e ao longo de sua obra, Hegel utiliza
ambos os termos, Knecht e Sklav(e), na dialética do mútuo reconhecimento. Mas e
se a "propriedade" for ela mesma a agressora, seria o escravo que retificaria a
injúria cometida contra a sua pessoa assegurando sua própria liberdade sem
oferecer compensação? Hegel não levanta essa questão, preferindo seguir rumo a
uma discussão sobre os "costumes" do "povo" (das Volk) e a "obra" comum a
todos. Isso o leva numa direção surpreendentemente não hobbesiana, a uma
crítica do trabalho prostrante e repetitivo da mão de obra fabril moderna (a
divisão do trabalho, exemplificada na fábrica de alfinetes de Smith) (ver pp.
227-8). Hegel em seguida descreve criticamente a interdependência descontrolada
e "cega" dos trabalhadores na economia global, a "sociedade burguesa"
(bürgerliche Gesellschaft) das trocas mercantis, que gera um "sistema
monstruoso" (ungeheueres System) de mútua "dependência" (Abhångigkeit) e que,
"como uma fera selvagem, precisa ser domada" (pp. 229-30). O fragmento 22 se
encerra (em 1804!) justamente no ponto em que a discussão de Hegel sobre a
"posse" (Besitz), como a forma na qual a generalidade da "coisa" (das Ding) é
"reconhecida" (anerkannt), tê-lo-ia levado a enfrentar a contradição pela qual
a lei da propriedade privada trata o escravo (cuja existência não é outra coisa
senão trabalho) como uma coisa! O escravo é uma mercadoria como nenhuma outra,
na medida em que a liberdade de propriedade e a liberdade pessoal se encontram
nele em direta contradição. É por essa razão que o manuscrito de Hegel é
interrompido tão abruptamente? A revolta dos escravos em Saint-Domingue, nesse
contexto, salvou Hegel do círculo vicioso (o "sistema monstruoso") da
reciprocidade contratual, ao oferecer o vínculo (por meio de uma mudança de
ênfase, das trocas mercantis para o trabalho) entre um sistema econômico (o
infinito sistema das necessidades) e a política: a fundação, mediante uma luta
mortal, do estado constitucional.
[93] Hegel. System der Sittlichkeit. Ed. Georg Lasson. Hamburgo: F. Meiner,
1967 [1893], apud Harris, Henry S. "The concept of recognition in Hegel's Jena
Manuscripts" [1990]. In: Hegel/Studien/Beiheft 20: Hegel in Jena. Ed. Dieter
Heinrich e Klaus Düsing. Bonn: Bouvier, 1990, p. 234. Harris
comenta: "O conceito de personalidade legal emerge lado a lado com a
instituição do dinheiro como a 'indiferença' da (isto é, a expressão universal
para) propriedade. Esse mundo do reconhecimento formal é então diferenciado
entre senhores e servos em função da extensão de suas posses (isto é, em última
instância, em termos de dinheiro)" (p. 233). O Sistema da eticidade registra
pela primeira vez a leitura de Adam Smith por Hegel e também a relação desigual
entre senhor (Herr) e servo (Knecht), que "se estabelece em decorrência da
desigualdade do poder sobre a vida" (Hegel, System der Sittlichkeit, op. cit.,
p. 34) - apesar de esses dois termos ainda não aparecerem juntos. Hegel está
preocupado com a troca de "excedente" como um "sistema de necessidades" que é
"empiricamente infinito" - esse comércio "sem fronteiras", por meio do qual um
povo é "dissolvido", isso é, retorna a um "estado de natureza"?) (Ibidem, pp.
82, 84-5). O fato de que, nas trocas de propriedade privada, "coisas tenham
igualdade com outras coisas" se torna a base do direito legal, mas apenas por
meio de um contrato, como o "intermediário vinculante". É impossível dizer da
vida, como se pode dizer de outras coisas, que o indivíduo a "possui"; daí que
entre "senhorio" (Herrschaft) e "servidão" (Knechtschaft) existe uma conexão de
"irrelatividade" (Ibidem, pp. 32-7). Hegel nota que, "entre muitos povos, a
mulher é vendida pelos pais: - mas essa não pode ser a base de um contrato de
matrimônio entre marido e esposa" (Ibidem, p. 37). (Mas o que dizer de sua
própria cultura europeia, na qual escravos são comprados e vendidos?).
"Tampouco há qualquer contrato com o servo (Knecht), mas pode haver um contrato
com outra pessoa em relação ao servo ou à mulher" (Ibidem, p. 37). Portanto, "a
situação escrava (Sklavenstand) não compõe uma classe (Stand) social, pois é um
universal apenas em termos formais. O escravo (der Sklave) é vinculado a seu
senhor como uma singularidade (Einzelnes)" (Ibidem, p. 66). As anotações de
conferência a partir das quais Sistema da eticidade foi escrito (posteriormente
perdidas!) degeneraram em "mera história", de acordo com Rudolf Haym (Hegel und
seine Zeit, 1857, apud Harris, op. cit., p. 164); seria interessante saber a
que se referia essa "mera história".
[94] Hegel. The phenomenology of mind. Trad. J. B. Baillie. Nova York: Harper
& Row, 1967 [1807], p. 234.
[95] Ibidem, p. 235.
[96] A agência histórica passa então ao escravo, que "inventará a história, mas
somente depois que o senhor tornou a humanidade possível" (Kelly, op. cit., p.
270).
[97] A ênfase sobre o trabalho é intrigante. O escravo materializa sua própria
subjetividade através do trabalho. Hegel parece privilegiar a mão de obra de
artesãos e agricultores (como havia feito também Adam Smith, em vista dos
efeitos desumanizantes do trabalho fabril). Mas numa leitura retrospectiva das
conferências de Hegel sobre a filosofia da história (discutidas adiante), essa
atitude em relação à mão de obra descreve a transformação na consciência do
escravo, de um estágio anterior, de um espírito "africano" que via a própria
natureza como subjetividade, rumo a um espírito moderno, para o qual o trabalho
sobre a natureza é uma expressão da própria subjetividade.
[98] O texto afirma: "Através do trabalho e da mão de obra, porém, essa
consciência do servo se configura" - positivamente, como a percepção do servo
de "si mesmo como factual e objetivamente autoexistente", e negativamente, como
consciência objetivada: "Pois, ao conformar a coisa, ela (sua consciência)
percebe apenas sua própria negatividade, sua existência por conta conta
própria, como um objeto, pois cancela a forma efetiva confrontando-a. Mas esse
elemento objetivo negativo é precisamente o outro, a realidade exterior, diante
do qual arrefeceu. Agora, porém, ela destrói esse negativo alheio exterior,
afirma e se apresenta como um negativo no elemento da permanência, tornando-se,
assim, para si mesmo, um ser autoexistente" (Hegel, The phenomenology of mind,
op. cit., pp. 238-9). Os marxistas interpretaram a conscientização do escravo
como uma metáfora para a superação da falsa consciência pela classe operária: a
classe-em-si se torna para-si. Eles criticaram Hegel, no entanto, por não ter
dado o passo seguinte, na direção da prática revolucionária. Sustento que os
escravos de Saint-Domingue estavam, como bem sabia Hegel, dando esse passo por
ele.
[99] Estou sugerindo que os argumentos de alguns autores negros, que
acreditavam estar em oposição a Hegel, estão na verdade próximos à intenção
original do autor. Ver, por exemplo, Paul Gilroy, que lê Frederick Douglass
(que foi embaixador dos Estados Unidos no Haiti em 1889) como alguém que
oferecia uma alternativa ao que entendia ser a "alegoria" de Hegel do senhor e
do escravo: "A versão de Douglass é muito diferente. Para ele, o escravo
prefere ativamente a possibilidade da morte à continuidade da condição de
desumanidade da qual depende a escravidão das plantações" (Gilroy, Paul. The
black Atlantic: modernity and double consciousness. Cambridge: Harvard
University Press, 1993, p. 63). Ver também Orlando Patterson,
que defende que a "morte social" que caracterizava a escravidão pressupunha,
como a negação da negação, não o trabalho (que acreditava ser o que pretendia
dizer Hegel), mas a libertação, a despeito de ver isso (em última instância,
como Hegel) como algo possível de ser obtido por um processo antes
instituicional que revolucionário; ver Patterson, Orlando. Slavery and social
death: a comparative study. Cambridge: Harvard University Press, 1982, pp. 98-
101.
[100] Compare-se com a afirmação de Hegel em 1798: "Instituições, constituições
e leis, que não mais se harmonizem com as opiniões da humanidade e das quais o
espírito se tenha esvaído, não podem ser mantidas vivas artificialmente" (apud
Gooch, G. P. Germany adn the French Revolution. Nova York: Green, 1920, p.
297). Note-se que a tentativa de Napoleão de restabelecer o
obsoleto Code Noir justamente não seria um ato da história mundial; nesse
momento, o Haiti estava do lado da história mundial, não a França napoleônica.
De modo similar, no caso da Alemanha: "Foi, assim, na guerra com a República
Francesa que a Alemanha descobriu, por sua própria experiência, que não mais
constituía um Estado", essa consciência somente pôde ser adquirida por meio de
uma luta de resistência contra o exército invasor francês (apud Williams,
Hegel's ethics of recognition, op. cit., p. 346).
[101] Hegel apegou-se a essa insistência sobre a responsabilidade do escravo.
Na Filosofia do direito (1821): "Se um homem é um escravo, sua própria vontade
é responsável por sua escravidão, assim como é sua vontade a responsável pela
sujeição de um povo. Portanto, a injúria da escravidão não se deve simplesmente
a escravizadores ou conquistadores, mas também aos próprios escravizados e
conquistados" (Hegel. Hegel's Philosophy of right. Trad. T. M. Knox. Londres:
Oxford University Press, 1967, p. 239, adendo ao §57).
[102] Hegel. The phenomenology of mind, op. cit., p. 233
[103] Esse termo é de Kojève, Alexandre. Introduction to the reading of Hegel:
lectures on the Phenomenology of spirit. Trad. James H. Nichols. Ithaca:
Cornell University Press, 1969. Queneau reuniu as anotações
das conferências e publicou-as em francês em 1947.
[104] Até onde sei, Tavarès é a única exceção, apesar de muitos autores que se
debruçaram sobre a escravidão terem recorrido à dialética hegeliana do senhor e
do escravo em suas argumentações. Ver, por exemplo, a conclusão de Davis (The
problem of slavery in the Age of Revolution, op. cit., p. 560), que sugere que
"arriscamos incorrer em fantasias" ao interpretar a dialética hegeliana do
senhor e do escravo como um diálogo imaginário entre Napoleão e Toussaint-
Louverture. Ver os inúmeros comentários de W. E. B. Dubois a respeito da
escravidão que relacionam esses textos com os de Hegel; por exemplo, ver
Williamson, Joel. The crucible of race: black-white relations in the American
south since emancipation. Nova York: Oxford University Press, 1984; Zamir, Shamoon. Dark voices: W. E. B. Dubois and American thought,
1888-1903. Chicago: University fo Chicago Press, 1995; e
Lewis, David Levering. "Introdução a W. E. B. Dubois". In: W. E. B. Dubois: a
reader. Nova York: John Macrae Book, 1995. Ver também Fanon,
Frantz (The wretched of the earth. Trad. Constance Farrington. Nova York:
Grove, 1968) que utiliza a filosofia europeia como uma arma contra a hegemonia
europeia (branca), interpretando a dialética do senhor e do
escravo tanto social (recorrendo a Marx) como psicoanaliticamente (recorrendo a
Freud), no esforço de teorizar a necessidade da luta violenta pelas nações do
terceiro mundo para superar a sujeição colonial, rejeitar o humanismo hipócrita
da Europa e alcançar igual reconhecimento nos termos de seus próprios valores
culturais. O martiniquês Fanon foi possivelmente o intérprete que mais perto
chegou de perceber a conexão entre Hegel e Haiti, mas não era essa a sua
preocupação.
[105] A leitura de Hegel por Kojève é fenomenológica de um modo (heideggeriano)
que a destaca dos marxistas mencionados anteriormente, pois aborda a dialética
do reconhecimento como um problema existencial-ontológico, não como uma lógica
de estágios históricos. Kojève conecta a discussão de Hegel com a escravidão
antiga e os escritos de Aristóteles, ao mesmo tempo em que torna visível sua
forma moderna na estrutura da luta de classes.
[106] Ver os trabalhos do historiador Eugene Genovese (por exemplo, The
political economy of slavery: studies in the economy and society of the slave
south. Londres: Pantheon Books, 1965), para um exemplo claro
dessa abordagem marxista da escravidão moderna.
[107] A libertação dos servos prussianos (decretada de cima para baixo)
aconteceria um ano após a publicação da Fenomenologia do espírito. Os
dinamarqueses, em 1804, foram os primeiros a abolir o tráfico de escravos, três
anos antes dos britânicos, que aboliram a escravidão em 1831; a França o fez
definitivamente em 1848; a Rússia (e os Estados Unidos) somente em 1861 - mas
os abolicionistas britânicos consideravam o czar Alexandre I um aliado, por ter
convencido o Concerto Europeu a desencorajar os franceses a reconquistar o
Haiti. Thomas Clarkson encontrou o czar no Congresso de Aix-la-Chapelle (1818)
e "apresentou-lhe uma carta do rei do Haiti (Henri Christophe) para que suas
habilidades lhe causassem uma boa impressão" (HA, p. 120).
[108] A segunda edição revista dos Jacobinos Negros de James, em 1962, sustenta
explicitamente a tese de que a existência escrava nas colônias era, "em sua
essência, uma vida moderna" (James, op. cit., p. 392). Essa posição havia sido
defendida também por Dubois: "Os escravos negros na América experimentavam as
piores e mais baixas condições entre todos os trabalhadores modernos" (Dubois,
Black reconstruction in America: an essay toward a history of the part which
black folk played in the attempt to reconstruct democracy in America, 1860-
1880. Nova York: Russell & Russell, 1977 [1935], p. 9,
grifo meu). Quando se trata das interpretações de Hegel, no entanto, os
estudiosos negros em sua maioria acataram os estágios históricos do discurso
europeu.
[109] Alex Honneth é representativo nesse caso, quando conclui que a leitura
marxiana de extração social do reconhecimento mútuo em Hegel é "altamente
problemática" em seu acoplamento da antropologia expressiva dos românticos
(trabalho) com o conceito feuerbachiano de amor e a economia nacional inglesa
(Honneth, Axel. The struggle for recognition: the moral grammar of social
conflicts. Trad. Joel Anderson. Cambridge: Mit Press, 1995, p. 147). Note-se que a interpretação de Ludwig Siep destaca o afastamento de
Hegel em relação a Hobbes com o recurso à dialética do senhor e do escravo, uma
leitura que na verdade favorece o argumento que apresento aqui. Ver Siep,
Ludwig. Anerkennung als Prinzip der praktischen Philosophie: Untersuchungen zur
Hegels Jenaer Philosophie des Geistes. Freiburg: Alber, 1979;
ver também o influente artigo de Siep, "The struggle for recognition: Hegel's
dispute with Hobbes in the Jena writings". In: Hegel's dialectic of desire and
recognition, op. cit., pp. 273-88. As discussões atuais da dialética do senhor
e do escravo (Gilles Deleuze, Jacques Derrida e Judith Butler) confrontam a
leitura de Kojève com a visão de Nietzsche sobre senhor e escravo, mudando
assim a importância social do debate. Nietzsche considera "mentalidade de
escravos" a postura daqueles que se submetem ao Estado e a suas leis, as
instituições que Hegel afirmava como a encarnação do reconhecimento mútuo e,
por decorrência, da liberdade concreta.
[110] Para discussões sobre a escravidão colonial e o tráfico de escravos, ver
Smith, Adam. An inquiry into the nature and causes of the wealth of nations. 2
vols. Homewood: Irwin, 1979, livro 4, cap. 7, pp. 105-75.
[111] Concordam quanto a isso mesmo especialistas que discordam em outros
pontos (por exemplo, Hyppolite, Jean. Genesis and structure of Hegel's
Phenomenology of spirit. Trad. Samuel Cherniak e John Heckman. Evanston:
Northwestern, 1974, e Forster, Michael. Hegel's idea of a
Phenomenology of spirit. Chicago: University of Chicago Press, 1998). Ver também Riedel, Manfried. Between tradition and revolution: the
hegelian transformation of political philosophy. Trad. Walter Wright. Nova
York: Cambridge University Press, 1984.
[112] Compare-se com o comentário de Schelling: "Quem há-de querer se enterrar-
se no pó da antiguidade quando o movimento de seu próprio tempo não cessa de
revirá-lo e varrê-lo adiante?" (Schelling, carta a Hegel, 5 de janeiro de 1795,
Hegel: the letters, p. 29). Na época da Revolução Francesa, os antigos eram uma
função discursiva do presente, não uma maneira de relegar o presente ao
passado. Aristóteles caminhava entre os vivos como um seu contemporâneo.
[113] É relevante aqui o argumento de Theodor Haering no Congresso Hegel de
1933 em Roma, cuja investigação da elaboração da Fenomenologia do espírito o
levou à "surpreendente" conclusão de que o livro não é orgânica ou
cuidadosamente composto, de acordo com um plano, mas uma série de súbitas
decisões, tomadas sob pressões internas e externas num intervalo de tempo
inacreditavelmente breve - o verão de 1806, para ser mais preciso; ver
Pöggeler, op. cit., p. 193. As observações de Haering são compatíveis com a
argumentação que apresento aqui.
[114] O escrúpulo filológico que se encontra, por exemplo, no trabalho de
Norbert Waszek sobre a leitura de Hegel do iluminismo escocês oferece um
modelo: estudo que lançou luz sobre a recepção de Smith por Hegel de um modo
que mudou fundamentalmente nossa compreensão da filosofia hegeliana da
sociedade civil; ver Waszek, Norbert. The scottish enlightenment and Hegel's
account of Civil society. Boston: Kluwer Academic, 1988.
Também precisamos de pesquisas não apenas sobre Minerva, mas sobre outros
periódicos alemães e os demais livros que discutiram os eventos de Saint-
Domingue. Ver o trabalho paradigmático de Schüller, op. cit.
[115] As seções que se seguem a "Senhorio e servidão", intituladas
"Estoicismo", "Ceticismo" e "A consciência infeliz", podem ser concebidas como
referências, não a diferentes estágios da história (como argumentou Rosenkranz,
op. cit., p. 205), mas a diferentes modalidades de pensamento sobre a realidade
efetiva da escravidão. No que se refere à longa seção de crítica à fisionomia e
à frenologia (ver Hegel, The phenomenology of mind, op. cit., pp. 338-72), Tavarès, que foi o primeiro a quebrar o silêncio sobre Hegel
e o Haiti, considera impressionante que os comentadores de Hegel "jamais tenham
inscrito [essa] crítica [...] no quadro do debate colonial" (Tavarès, "Hegel et
l'abbé Grégoire", op. cit., p. 168). Apesar de os editores tanto da edição
alemã como da edição inglesa de A fenomenologia do espírito afirmarem que
Hegel, ao mesmo tempo em que evitava mencionar seus nomes, estava se referindo
aos trabalhos do anatomista Franz Joseph Gall e do fisionomista Johan Kaspar
Lavater, nenhum deles chega a fazer, porém, referência ao racismo inerente às
teorias desses dois homens. Contra a anatomia craniana comparativa de Gall,
Hegel afirma que "o espírito não é um osso" e, por decorrência, argumenta
Tavarès, não diz respeito à cor da pele (Ibidem, p. 167).
[116] Próximo ao sumário da relação senhor-escravo na Propedêutica filosófica,
Hegel assinala entre parênteses: "História de Robinson Crusoé e Sexta-Feira"
(Hegel, The philosophical propaedeutic. Trad. A. V. Miller; ed. Michael George
e Andrew Vincent. Oxford: Blackwell, 1986, p. 62). Ver a
glosa desse comentário em Guietti, Paolo. "A reading of Hegel's master/slave
relationship: Robinson Crusoe and Friday". Owl of Minerva, nº 25, 1993, pp. 48-
60.
[117] Hegel, Die Philosophie des Rechts: Die Mitschriften Wannenmann
(Heidelberg 1817/18) und Homeyer (Berlin 1818/19). Ed. Karl-Heinz Ilting.
Frankfurt: Suhrkamp, 1983, p. 55.
[118] Ibidem, p. 228.
[119] Ibidem.
[120] Notas editoriais de Ilting às notas de Heidelberg de Wannenmann (Ibidem,
p. 295, nota 69).
[121] A Filosofia do espírito subjetivo de Hegel (parte 3 da Encyclopedia
[1830]) é um documento crucial, especialmente as seções "Antropologia" e
"Fenomenologia"; contém as consequências das conferências de Hegel sobre a
filosofia da história, com seu preconceito contra a cultura africana e mais
afirmações racistas sobre negros; contém também uma descrição mais extensa
sobre a dialética do senhor e do escravo do que aquela encontrada na
Fenomenologia do espírito de 1807. Aqui, Sklave e Knecht ainda são utilizados
de modo indiferente; aqui, a trajetória histórica é codificada, com a
escravidão europeia se referido aos antigos; aqui, a luta até a morte ainda é
necessária: "assim, é preciso lutar pela liberdade [...] colocar a própria
vida, assim como a dos outros, em perigo", enquanto os negros "são vendidos e
se permitem vender sem qualquer reflexão sobre se isso é certo ou errado". E
ainda: "Não se pode dizer que sejam ineducáveis, pois não somente chegaram a
aceitar ocasionalmente o cristianismo com a maior gratidão [...] como também
chegaram a formar, no Haiti, um estado baseado em princípios cristãos" (Hegel,
Hegel's philosophy of subjective spirit. Trad. e ed. M. J. Petry. Dordrecht:
David Reidel, 1979, 3 vols., vol. 3, pp. 57, 431; vol. 2, pp. 53, 55, 393).
[122] Ver D'Hont, op. cit. Esse livro oferece o argumento original de que o
Hegel "secreto" se revela em suas conexões com a maçonaria radical (ao mesmo
tempo em que D'Hont não menciona Saint-Domingue).
[123] D'Hont afirma que Archenholz pertencia aos maçons desde a década de 1760
(ver Ibidem, p. 12); ver também Ruof, op. cit., p. 11, e Rieger, op. cit., p.
176n. Ver D'Hont, op. cit., pp. 23-9, para a discussão de D'Hont de Minerva
como uma publicação maçônica, que incluía artigos da politicamente radical e
cosmopolita Chronique des mois, "o que havia de mais girondino e mais maçônico
no pensamento francês [...] É o espírito de Condorcet (fundador da Chronique) e
Brissot que se insinuam em Minerva, que, afirma ele, estava nas mãos de Hegel,
Schiller e Hölderlin em seus tempos de estudante (Ibidem, p. 8). D'Hont arrola
como maçons no círculo de Hegel Georg Foster (cujos escritos sobre a Revolução
Francesa foram selecionados por Hegel quando esteve em Berna); Konrad Engelbert
Oelsner (cujo encontro com Hegel em Berna [ver acima] pode ter sido facilitado
atravües de conexões maçônicas); assim como Wieland, Körner, Sömmering, Campe,
Garve e Gleim; também Johann Samuel Ersch, historiador literário, amigo e
colaborador de Archenholz, que esteve em Jena ao mesmo tempo que Hegel
(Archenholz considerou transferir sua revista para essa cidade em 1800, mas, em
lugar disso, Ersch se mudou para Halle; ver Hegel, carta a Schelling, 16 de
agosto de 1803, Hegel: the letters, p. 66); também Johann Friedrich von Cotta,
editor de Hegel e seu amigo, de 1802 até o fim de sua vida. D'Hont ressalta que
os historiadores de Hegel negligenciaram a influência de Minerva sobre Hegel
porque, "sem dúvida", esta os desagradava; mas ele se impressiona com "a
extrema discrição do próprio Hegel" no que dizia respeito à maçonaria, que
D'Hont explica ter sido necessária, por conta da censura e da polícia (Ibidem,
p. 9).
[124] Ver Rainsford, "Toussaint-Louverture. Eine historische Schilderung für
die Nachwelt". Minerva, nº 56, 1805, pp. 276-98, 392-48. Ver
Geggus, "British Occupation of Saint-Domingue, 1793-1798", op. cit., para a
conexção maçônica de Rainsford.
[125] Era sabido que lojas maçônicas francesas locais incluíam negros,
muçulmanos, judeus e mulheres, apesar de que a loge anglaise de Bordeaux
excluía judeus e atores; ver J. M. Roberts, The mythology of the secret
societies. Londres: Secker and Warburg, 1972, p. 51. "Lojas
(maçônicas) em toda a França eram os únicos lugares onde franceses,
independentemente de classe, ocupação ou religião, encontravam-se em igualdade
de posições, animados por um espírito de unidade. Em lugar do velho espirito de
classe, que anteriormente havia mantido unidos todos os nobres da França, a
maçonaria organizava uma confraria que incluía todas as classes e raças" (Fay,
Bernard. Revolution and freemasonry, 1680-1800. Boston: Little Brown, 1935, p.
224).
[126] O nome de Etienne de Polverel está ligado a duas lojas em Bordeaux,
L'Amitié e L'Harmonie sous Directoire Écossais. Sonthonax não era maçom (mas
era um membro dos Amis des Noirs). Polverel havia escrito dois dias antes da
abolição: "Por muito tempo a raça africana tem sofrido a calúnia que afirma
que, sem a escravidão, seus membros jamais se acostumariam ao trabalho.
Permitam-me tentar contradizer esse preconceito, não menos absurdo que aquele
da aristocracia de cor [...]. Não haverá senão irmãos, republicanos, inimigos
de todo tipo de tirania - monarquia, nobreza ou sacerdócio" (Cauna, Jacques de.
"Polverel et Sonthonax, deux voies poir l'abolition de l'esclavage". In: Léger-
Félicité Sonthonax, op. cit., pp. 51-2). Essa ênfase sobre a virtude do
trabalho era um valor maçônico, manifesto na importância alegórica central do
ofício de "pedreiro" (maçom).
[127] Justamente durantes esses anos (1802-1804), Bordeaux chegou a ultrapassar
Nantes na liderança do comércio triangular de escravos e açúcar. Ver Saugera,
Éric. Bordeaux, port négrier. Paris: Karthala, 1995.
[128] Blackburn relata que Ogé, procurando "promover direitos dos mulatos
perante a Assembleia Nacional [em Paris] [...] retornou à colônia via Londres,
onde levantou fundos junto a Clarkson e à Sociedade Abolicionista. Ogé também
visitou os Estados Unidos, onde comprou armas. Essas viagens parecem ter sido
facilitadas por conexões maçônicas" (Blackburn, op. cit., p. 182).
[129] James nos conta que Rigaud, "um mulato genuíno, quer dizer, filho de um
branco e uma negra", fora bem educado em Bordeaux e aprendera o ofício de
ourives. Alistou-se como voluntário no exército francês que lutou a Guerra de
Independência Americana (James, op. cit., pp. 96-7).
[130] Cauna, op. cit., p. 49. Da declaração de Sonthonax: "Todos os negros e
todos aqueles de sangue misto atualmente no cativeiro são declarados livres
para desfrutar de todos os direitos associados ao título de cidadão francês"
(Dorigny, "Léger-Félicité Sonthonax et la première abolition de l'esclavage".
In: Léger-Félicité Sonthonax, op. cit., p. 3).
[131] Dayan, Joan. Haiti, history, and the gods. Berkeley: University of
California Press, 1995, p. 151. Dayan assinala ainda: "[O
padre] Cabon sugere que os negros podem muito bem ter percebido que
'confabulações' brancas tinham muito em comum com o voudu: 'De alguma forma,
antes dos eventos do mês de agosto de 1791, éramos levados a ver algum tipo de
maçonaria de negros em certas manifestações de suas atividades'" (Ibidem, p
251). Ver também a narrativa ficcional histórica do romancista cubano Alejo
Carpentier (El siglo de las luces, 1982), que inclui a figura de Ogé e fala
explicitamente das conexões maçônicas.
[132] Sobre o trabalho de Barlow para esse livro, ver Honour, Hugh. From the
American Revolution to World War I, 4º volume de Bugner, Ladislas (ed.). The
image of the black in Western art. Cambridge: Cambridge University Press, 1989,
p. 95.
[133] Ver D'Hont, Hegel et les français. Hildesheim: G. Olms, 1998. No final de
A filosofia da história, Hegel ainda era capaz de falar da Revolução Francesa
como "um glorioso alvorecer mental". E mesmo assim criticava o Terror como "a
mais temível tirania. Exerce o poder sem formalidades legais e a punição que
inflige é igualmente simples - Morte. Essa tirania não poderia durar; por todas
as inclinações, todos os interesses, a própria razão se revoltou contra esse
Liberdade terrivelmente consistente, que, em sua intensidade concentrada,
exibiu uma forma tão fanática" (Hegel, The philosophy of history. Trad. J.
Sibree. Buffalo: Prometheus Books, 1991 [1858], pp. 447, 450-1).
[134] Num esboço de A lógica de 1830, Hegel destacou sumariamente que a "razão
genuína por que já não existem escravos na Europa cristã deve ser buscada senão
no próprio princípio do cristianismo. A religião cristã é a religião da
absoluta liberdade e somente para os cristãos o homem conta como tal, em sua
infinitude e universalidade. O que falta ao escravo é o reconhecimento de sua
personalidade; mas o princípio da personalidade é Universalidade" (Hegel, The
Encyclopaedia Logic (with the Zusåtze). Trad. e ed. T. F. Geraets, W. A.
Suchting e H. S. Harris. Indianapolis: Hackett, 1991, pp. 240-1). Ele parece se referir ao protestantismo nesse caso (o que, em suas
conferências sobre a filosofia da história, ele chama de mundo germânico
moderno). Hegel era consistentemente crítico das dependências hierárquicas
favorecidas pelo catolicismo (o mundo "romano"); ele pode não ter dado as boas
vindas à Concordata francesa com o Vaticano em 1801. E, de fato, ele pode ter
visto o fracasso pós-revolucionário do Haiti como consequência, em parte, do
catolicismo que era a religião oficial tanto no norte como no sul do país. Em A
filosofia da história: "Nesse caso, deve ser francamente afirmado que, com a
religião católica, nenhuma constituição racional é possível"; "Napoleão não
poderia coagir a Espanha à liberdade, não mais do que Filipe II podia forçar a
Holanda ao cativeiro" (pp. 449, 453).
[135] Hegel. Die Vernunft in der Geschichte. Ed. Johannes Hoffmeister. 5 ed.
Hamburgo: Meiner, 1955, p. 225. A tradução de Sibree acompanha a edição de Karl
Hegel; Hoffmeister acompanha a de Georg Lasson. Comparo as edições alemã e
inglesa por razões expostas na nota 124. A edição de Hoffmeister prossegue
nesse ponto: "Em todos os reinos africanos com os quais os europeus travaram
contato, a escravidão é indígena [...]. Está geralmente na base da escravidão
que uma pessoa ainda não tenha consciência de sua liberdade, tornando-se,
assim, um objeto, algo sem valor. A lição que extraímos daí e que é a única que
nos interessa é que o estado de natureza (isto é, antes do estabelecimento de
um estado racional [vernünftiger Staat]) é um estado de injustiça (Ibidem, pp.
225-6).
[136] Hegel, The philosophy of history, op. cit., pp. 96, 99. Comparar com
Hegel, Die Vernunft in der Geschichte, op. cit., p. 226.
[137] "Nessa maior parte da África, nenhuma história real pode acontecer.
Existem apenas acidentes ou surpresas que se sucedem. Não há objetivo, nenhum
estado digno de observação, nenhuma subjetividade, mas apenas uma série de
sujeitos que se destroem uns aos outros" (Hegel, Die Vernunft in der
Geschichte, op. cit., pp. 216-7). Hegel cita Heródoto, implicando que nada
havia mudado ao longo dos séculos: "Na África, todos são feiticeiros"; e repete
a história dos africanos como "adoradores de fetiches" que já se encontrava em
Charles de Brosses, o contemporâneo iluminista de Voltaire (Ibidem, pp. 220-2;
compare-se com Hegel, The philosophy of history, op. cit., p. 94).
[138] Hegel era um leitor assíduo da Edinburgh Review entre 1817 e 1819, como
sabemos com base em seus excertos dessa revista; ver "Hegel's Exzerpte aus der
'Edinburgh Review' 1817-1819". Hegel-Studien, nº 1-2, 1979, pp. 78-116. E, na década de 1829, lia o britânico Morning chronicle; ver
Petry, M. J. "Hegel and 'The morning chronicle'". Hegel-Studien, nº 11, 1976,
pp. 14-5. A despeito dos excertos preservados não tratarem do
Haiti, é evidente que Hegel estava exposto a essa nova fase do debate sobre o
Haiti numa época em que "a liberal Edinburgh Review contrapunha a cruel tirania
de Christophe ao governo virtuoso e constitucional de Pétion" (HA, p. 122). O
Haiti era novamente um tópico também em Minerva, que, em 1819, publicou em
tradução alemã amplas seções da "imparcial" história escrita pelo general
Pamphile de Lacroix sobre a Revolução Haitiana e os governos pós-
revolucionários; ver Schüller, op. cit., p. 256.
[139] Nos anos de 1820, "os abolicionistas britânicos passaram a se associar
com o reino setentrional (de Christophe), enquanto seus correligionários
franceses desenvolveram laços com o sul republicano (de Pétion) [...]. A
divisão foi reforçada por uma série de fatores: as preferências políticas dos
franceses (uma vez que os únicos abolicionistas franceses interessados no
Haiti, Grégoire e Lafayette, eram republicanos); a preferência britânica pela
monarquia; as inclinações culturais dos mulatos, muitos dos quais tinham pais
que haviam sido educados na França, enquanto Christophe [...] havia nascido
numa colônia britânica [...] Wilberforce (o abolicionista britânico) professava
neutralidade no assunto (HA, p. 122). Ele mantinha, porém, conexões pessoais
com Christophe, a quem escreveu alertando sobre a cobertura negativa da
imprensa europeia. Wilberforce contara a Macaulay em 1817: "'Jamais trabalhei
tão duro quanto em minhas cartas haitianas'" (Ibidem, p. 123); ao mesmo tempo,
Christophe "escrevia provocativamente sobre como gostaria de ver seus
compatriotas convertidos ao cristianismo protestante, abandonando um
catolicismo cujos sacerdotes eram corruptos e suja igreja defendia a escravidão
[...]. Wilberforce respondeu enviando obras sobre moralidade, bíblias em inglês
e francês, um manual de economia política e histórias dos jesuítas e da
Inquisição" (Ibidem, pp. 123-4).
[140] O "escândalo dos parafusos" de 1817 gerou notícias de que "um comerciante
britânico no Haiti, suspeito de ser um agente da República, foi torturado por
ordem de Christophe" (Ibidem, p. 125).
[141] Os avanços no Haiti se adiantavam à Europa ao evidenciar a inadequação da
igualdade política que não atacasse a desigualdade econômica. Os documentos que
asseguravam a liberdade aos escravos em Saint-Domingue em 1794 foram criticados
como algo oco, uma vez que não questionavam os direitos de propriedade dos
grandes terratenentes, enquanto as pequenas roças que costumavam ser reservadas
ao cultivo dos escravos já não eram consideradas necessárias: Mesmo que
"'ninguém tenha o direito de exigir que você trabalhe um único dia contra sua
vontade'", a terra pertence de direito àqueles que a herdaram ou compraram, de
modo que os ex-escravos precisavam trabalhar, pois "'a única maneira de
satisfazer (suas) necessidades é com o produto da terra'" (Fouchard, Jean. The
Haitian maroons: liberty or death. Trad. A. Faulkner Watts. Nova York: E. W.
Blyden Press, 1981, pp. 359-60). Na verdade, o sistema de
política fundiária de Sonthonax (manutenção de amplas fazendas onde a
disciplina militar governava os trabalhadores) foi adaptado por Toussaint
alguns anos mais tarde e generalizado pelo sucessor de Dessalines no norte,
Christophe, enquanto a proposta jamais realizada de Polverel de distribuir as
terras entre seus cultivadores seria parcialmente implementada no sistema
republicano de Pétion. Após 1823, a despeito do presidente Boyer ter dado
continuidade (num Haiti reunificado) à política de Christophe, a produtividade
econômica não era tão alta como se havia esperado. O Code Rural de Boyer, de
1826, ao mesmo tempo que reforçava as pequenas propriedades existentes,
"reduzia a maioria dos haitianos [...] essencialmente à condição de escravos"
(Dayan, op. cit., p. 14). Um artigo escrito por Macaulay e publicado em 1827 na
Edinburgh Review refletia uma "crescente frustração" com o "trabalho livre" no
Haiti, por causa de sua reduzida produtividade; e os abolicionistas em geral
deixaram de se referir ao exemplo haitiano (HA, pp. 135-6).
[142] As primeiras duas edições das conferências sobre a filosofia da história
(1837 e 1840), editadas por E. Gans e Karl Hegel, não incluíam todo o material
empírico sobre as culturas mundiais, no que era então, consequentemente, um
volume mais delgado. Georg Lasson foi o primeiro a incluir de modo abrangente o
material empírico em suas três edições, sempre mais completas (1917, 1920 e
1930). Lasson comentou em suas notas editoriais a respeito da incompetência e
até mesmo da falta de escrúpulo dos editores anteriores: "É impressionante
quanto material importante foi simplesmente deixado de lado pelos editores
(Gans e Karl Hegel - tendo sido esta última a base para a tradução inglesa de
Sibree)", em violação dos princípios rigorosos da filologia (Hegel, Die
Vernunft in der Geschichte, op. cit., p. 274). Ainda assim, o próprio Lasson
admite ter tido dúvidas sobre a inclusão de toda a informação etnológica que
existe nos cadernos de conferência de Hegel, "quando tanto dela deve parecer
obsoleto", particularmente "a essência espiritual dos habitantes da África"
(Ibidem, p. 277). Note-se que o material sobre a África que aparece nas edições
de Lasson (e Hoffmeister) está num apêndice ("Anhang: Die Alte West-Afrika"),
enquanto fora incorporada à introdução na edição de Karl Hegel (e na tradução
de Sibree), para o que fora reduzida de 21 para oito páginas. A edição mais
recente das conferências de Hegel sobre a filosofia da história (1996) inclui
três variantes distintas. Os editores concluíram que, a despeito de toda a
controvérsia entre os editores, até o momento nenhum texto "completo" ou
"principal" pode ser pretendido, "devendo restar cientificamente
insatisfatória" a interpretação da filosofia da história de Hegel (Hegel,
Vorlesungen über die Philosophie der Weltgeschichte. Ed. Ilting, Karl Brehmer e
Hoo Nam Seelman. Hamburgo: Meiner, 1996, p. 530.
[143] A dialética do senhor e do escravo se torna alegórica nos escritos de
Hegel, uma metáfora para qualquer relação de dependência, não apenas a luta de
vida e morte, mas, com a mesma frequência, aquelas que supostamente já teriam
sido superadas. Alguns exemplos: Na Encyclopedia (1845), a sujeição do servo é
"um momento necessário na educação (Bildung) de todo homem [...]. Sem essa
disciplina extenuante, nenhum homem será capaz de se tornar livre e digno de
comandar"; a respeito das nações: "Servidão e tirania são coisas necessárias na
história dos povos"; da Filosofia da religião: "'Não sou um dos contendores
envolvidos na batalha, mas ambos, sou a própria luta, sou fogo e água'" (Kelly,
op. cit., p. 271). Foi no semestre de verão de 1825 sobre a fenomenologia do
espírito que surgiu a versão do senhor e do escravo que ressalta o lado bom de
ser um servo como o próprio momento de liberdade no trabalho; ver Noerr,
Gunzelin Schmid. Sinnlichkeit und Herrschaft: Zur Konzeptualisierung der
inneren Natur bei Hegel und Freud. Königstein/Taunus: Forum Academicum in der
Verlagsgruppe Athenåum, 1980, pp. 46-7.
[144] James, op. cit., p. 318. Dessalines, em agradecimento, e também
reconhecendo aquilo que os polacos vinham sofrendo em sua terra (referia-se
apropriadamente a eles como "os negros brancos da Europa", uma vez que era
impossível distinguir a servidão polaca da escravidão), permitiu-lhes ficar no
Haiti após a independência (enquanto todos os outros brancos foram impedidos
pelo artigo 12 da constituição de 1805 de manter títulos de propriedade; ver
Haiti, history, and the gods, p. 24; Dayan nota que também foi permitido a
alguns alemães e a mulheres brancas que se houvessem casado com negros
permanecer). PachoŃski e Wilson relatam que "a maçonaria tinha numerosos
adeptos na 114ª Semibrigada (Polaca) e estava ao mesmo tempo [...] bem
enraizada entre a população de San Domingo" (PachoŃski e Wilson, op. cit., p.
309; ver também pp. 138, 283).
[145] Agradeço a Benedict Anderson, Étienne Balibar, Martin Bernal, Teresa
Brennan, Zillah Eisenstein, Peter Gilgen, Miriam Hansen, Nancy Hirschmann,
Michael Kammen, Michel-Rolph Trouillot e à Sociedade para as Humanidades e
estudantes de pós-graduação da Universidade Cornell.