Trabalhar para estudar: sobre a pertinência da noção de transição escola-
trabalho no Brasil
Não há muita controvérsia quanto ao fato de que o desenvolvimento econômico
depende da produção e disseminação de conhecimento bem como das capacidades
técnicas a ele associadas , mesmo que a natureza desse conhecimento possa
variar consideravelmente entre países e regiões. A educação, sobretudo a de
nível superior, tornou-se, nas últimas décadas, um ativo altamente distintivo,
capaz de promover (ou, na sua ausência ou baixa adequação, frear) o
desenvolvimento. Para os indivíduos, o diploma de nível superior representa
oportunidades de mobilidade social, por meio de carreiras profissionais mais
promissoras quanto a realização pessoal, status social, direitos sociais e
retornos salariais.
O encontro entre qualificações e ocupações, contudo, não é automático. Demanda
tempo e depende da qualidade do desenvolvimento econômico. Por mais que as
dinâmicas do mercado de trabalho e do sistema educacional estejam entrelaçadas
de muitas maneiras, o curso de cada uma delas obedece a diferentes lógicas e
temporalidades. As demandas presentes do mercado de trabalho refletem o estado
atual do sistema produtivo, que, por sua vez, é o resultado dos investimentos
já realizados no passado. Os investimentos em educação projetam seus resultados
em longo prazo, o que significa que não podem ser vistos meramente como
resposta às demandas correntes. As grandes desvantagens educacionais que hoje
constrangem o desenvolvimento do Brasil são o produto da insuficiência de
investimentos no correr de muitas décadas pregressas.
Afora todos os problemas ainda enfrentados nos níveis de educação básica e
intermediária (de qualidade em ambos os casos e de cobertura no segundo), a
educação superior é um elemento crítico no que se refere a delinear mudanças
econômicas no futuro; e, assim, definir se as oportunidades de mobilidade
social serão maiores ou menores, quais grupos sociais terão maiores chances de
aproveitar essas oportunidades e quais deverão ser apoiados por políticas
específicas. Assim, os efeitos das mudanças recentes no arcabouço institucional
e nos níveis de investimento sobre a qualificação da força de trabalho, a
distribuição da renda ou as chances de mobilidade social também devem ser
avaliados com cautela.
Desde meados da década de 1990, assistimos a um conjunto de reformas
institucionais que induziram à forte expansão do ensino superior1. A estratégia
básica no momento inicial foi a de estimular a oferta por meio de instituições
privadas, seguida de uma flexibilização na oferta de cursos, criando
alternativas ao bacharelado convencional de quatro anos, através de cursos
sequenciais, tecnológicos e à distância. Grosso modo, até então, as
universidades públicas atenderam às demandas educacionais das classes médias e
altas; ao setor privado em expansão coube crescentemente a missão de absorver
estudantes provenientes de estratos de renda inferiores, adequando-se a seus
reduzidos orçamentos. O crescimento do setor privado fortaleceu, assim, a
provisão de educação superior, predominantemente, através de cursos de baixo
custo, em geral voltados às humanidades, ao direito e à administração. A oferta
de cursos das chamadas "ciências duras", como engenharia, medicina, física,
biotecnologia e química, permaneceu, majoritariamente, sob iniciativa das
universidades públicas.
A partir de 2004, ganham força iniciativas governamentais voltadas tanto para
subsidiar o ingresso de indivíduos de baixa renda no setor privado de ensino
(caso do Prouni) quanto para a expansão de vagas no setor público; assim como
políticas específicas de inclusão no ensino superior, como o Reuni e os
programas de ação afirmativa. Dado que a maior parte das vagas de ensino
superior se encontra em instituições privadas e que os programas de subsídios
públicos recobrem apenas uma fração destas, é bastante razoável assumir que o
forte aquecimento do mercado de trabalho, com aumento mais que proporcional dos
estratos salariais mais baixos, colaborou de forma significativa para a rápida
expansão do ensino superior na última década.
A grande questão é saber até que ponto o crescimento do número de indivíduos
com diplomas de nível superior vem se traduzindo (ou poderá vir a se traduzir)
em melhores oportunidades de trabalho, necessariamente associadas a ocupações e
setores econômicos mais produtivos. Mesmo que se pudesse abstrair a enorme
heterogeneidade qualitativa da educação recebida pelos milhões de novos
diplomados no Brasil (o que, na prática, os dados utilizados neste artigo nos
forçam a fazer), o desejado encontro entre qualificações e ocupações não
depende apenas da política educacional; diz respeito, em última instância, ao
modelo de desenvolvimento econômico.
OS "NOVOS GRADUADOS": TRABALHADORES E ADULTOS
O quadro educacional brasileiro se alterou substantivamente nas últimas três
décadas: segundo dados da PNAD, em 1982, a escolaridade média do brasileiro era
de 3,5 anos de estudo; em 2009, esse valor chegou a 6,1. Em 27 anos, a educação
formal da população brasileira quase dobrou. Considerando os níveis
educacionais completos, em 1995, quando a média de anos de estudo da população
como um todo já era de 5,2 anos, 78,4% não possuíam nenhum nível de ensino
completo, 9,6% tinham o ensino fundamental completo, 8,8% o ensino médio
completo e 3,3% o ensino superior completo. Embora a variação da média de anos
de estudo entre 1995 e 2009 tenha sido de pouco menos de um ano, a distribuição
dos indivíduos, quanto aos graus completos, se alterou enormemente: 59% não
possuíam nenhum nível de ensino completo, 13,5% possuíam ensino fundamental,
21% ensino médio e 6,5% ensino superior. A quantidade de pessoas sem níveis de
ensino completos se reduziu em números absolutos e relativos, enquanto,
paralelamente, os níveis de ensino mais elevados foram os que apresentaram
crescimento mais acelerado, bem acima da média, dobrando sua participação
relativa.
De todos os níveis de ensino, o superior é o único que vem apresentando
aceleração em suas taxas de expansão, esboçando uma tendência exponencial. Há
dois pontos de maior acentuação: no final dos anos 1990, seguindo as mudanças
no marco regulatório que induziram à expansão no setor privado de ensino; e, a
partir de 2005, sob o efeito das iniciativas governamentais já mencionadas. Nas
três décadas consideradas, o percentual de graduados no mercado de trabalho
praticamente triplicou; em números absolutos o aumento foi de cerca de cinco
vezes, passando de 1,9 milhão, em 1982, para mais de 10,3 milhões, em 2009.
Segundo dados do INEP, em 2008, 75% das novas matrículas em nível superior
ocorreram em instituições privadas. Nesse mesmo ano, quase dois terços dos
graduados frequentavam cursos noturnos (62,6%) e desses a maioria trabalhava
em tempo integral. Os dados da PNAD, relativos ao conjunto de indivíduos
frequentando educação de nível superior, mostram, claramente, que o crescimento
das vagas atingiu com mais força a população ocupada, mais especificamente a
população que trabalha mais de 40 horas por semana.

O perfil etário desses estudantes de nível superior sugere que são, em sua
maioria, indivíduos já há muito inseridos no mercado de trabalho, que retornam
aos estudos em proporção cada vez maior, não raro após uma trajetória de
interrupções nos estudos ou atraso escolar. É certo que o Brasil atravessa um
ciclo de envelhecimento populacional, que de maneira geral deve se refletir nos
variados segmentos sociais. Contudo, as noções convencionais de transições
educacionais e de transição escola-trabalho estão associadas a faixas etárias
específicas e a uma linearidade nos percursos individuais3; sendo esperável que
as coortes mais jovens apresentem percentuais mais elevados de graduados do que
as mais velhas. Assim, o estudante "regular", egresso do ensino médio aos 17 ou
18 anos, e que prossegue nos estudos de nível superior, terminaria sua
graduação por volta dos 25 anos. Esse é de fato um padrão bastante difundido
nos países mais ricos4 e provavelmente entre as classes de renda mais elevada
no Brasil. Em 1995, 31% dos estudantes de graduação brasileiros possuíam mais
de 25 anos. Em 2009, esse valor subiu para 40%. Mesmo que a maioria absoluta
dos estudantes esteja na faixa etária "esperada", a tendência, nitidamente, é
de envelhecimento dessa população. Isso faz do Brasil um caso bastante
discrepante em relação à maioria dos países em que o ensino superior é mais
amplamente difundido5.
Considerando esse padrão "invertido" de transição, que leva do trabalho à
escola, e que a extensão desse padrão é um processo recente e em aceleração, é
duvidoso que a mera análise da alocação ocupacional presente dos indivíduos com
recém-adquirida escolaridade superior (vale dizer, do exame do equilíbrio entre
oferta e procura dessa mão de obra) permita avaliar, adequadamente, os impactos
dos ganhos de escolaridade referentes a sua inserção profissional. Por ora,
parece mais razoável trabalhar com a hipótese de que são a inserção
profissional já alcançada pelos indivíduos e a busca por se manter e progredir
no mercado de trabalho o que explica esse movimento de volta à escola. Na
próxima seção, o exame das mudanças na estrutura ocupacional brasileira tem por
objetivo, portanto, jogar luz sobre a "origem" sócio-ocupacional dos novos
graduados e não sobre seu "destino", sobre o qual talvez seja ainda muito cedo
para falar.
A ORIGEM PROFISSIONAL DOS "NOVOS GRADUADOS" E A EVOLUÇÃO DA ESTRUTURA
OCUPACIONAL
Para efeitos empíricos, as mudanças na estrutura ocupacional são examinadas,
nesta seção, por meio da distribuição dos graduados pelos Grandes Grupos
Ocupacionais (GG), da classificação internacional de ocupações isco-886. A
tabela abaixo apresenta a composição dos grupos ocupacionais, em 1982 e 2009,
para o conjunto da força de trabalho ocupada e para o subconjunto dos ocupados
que possuem ensino superior. Tem-se, assim, para cada Grande Grupo Ocupacional
suas dimensões e sua "densidade em graduados".
As ocupações que tradicionalmente empregam trabalhadores graduados (como
medicina, engenharia, direito e arquitetura) estão reunidas no grupo dos
Profissionais (GG2). Quase por definição, esse grupo apresenta a mais elevada
densidade, isto é, o mais alto percentual de indivíduos com ensino superior, em
ambos os extremos da série, observado o salto de pouco menos da metade para
dois terços dos ocupados. A tabela não mostra, mas parte importante do
crescimento observado nesse grupo se deve à notável transformação no perfil de
grupos ocupacionais específicos. Dois bons exemplos, ambos muito numerosos e
eminentemente femininos, são as professoras dos vários níveis de ensino e as
enfermeiras, que tiveram seus requerimentos elevados do ensino médio para o
superior, por força de regulamentações públicas. Apesar de ser uma tendência em
si positiva, parece paradoxal que o crescimento dos cursos de pedagogia seja
comumente lembrado como evidência da inadequação e do desperdício que
caracterizariam a atual expansão do ensino superior no Brasil.
O grupo dos Gerentes e Altos Funcionários da Administração Pública e Privada
(GG1) reúne, além dos gerentes propriamente ditos, diretores, presidentes de
empresas e ocupantes de altos cargos políticos (inclusive eletivos). Trata-se
de uma categoria de ocupados em posições de mando e autoridade que, dependendo
das características setoriais e empresariais, requerem conhecimento
especializado. Esse fato justifica sua segunda posição com relação à densidade
de graduados, que passa de 15% para 28%, em valores arredondados. Não chega a
um terço, portanto, o número de profissionais em funções de gestão e comando
com formação de nível superior, o que sugere que o elevado número de cursos e
matrículas em administração de empresas e correlatos seja menos disfuncional do
que se imagina.
O grupo dos Técnicos (GG3) é composto de trabalhadores que detêm um
conhecimento especializado, mas que não requer, tradicionalmente, formação
acadêmica. São habilidades adquiridas através do ensino vocacional (usualmente
de ensino médio) ou até mesmo exclusivamente por meio da prática do trabalho.
Em 1982, pouco menos de 10% dos técnicos possuíam diploma de ensino superior;
em 2009, esse número se elevou para 25%, aproximando muito o perfil desse grupo
ao dos Gerentes.
O grupo dos Trabalhadores de Escritório (GG4) congrega principalmente as
chamadas ocupações não manuais de rotina; algumas delas implicando também a
posse de conhecimentos técnicos e formações específicas, caso de contadores,
estatísticos empresariais e analistas de finanças. Para essa categoria, a
Organização Internacional do Trabalho assume que as habilidades exigidas no
trabalho não implicam formação maior do que ensino médio ou técnico. No
entanto, nessas três décadas, esse grupo multiplicou por três seu percentual de
graduados, saltando de 5% para quase 15%.
Os grupos ocupacionais de 5 a 9 (Trabalhadores do Comércio e Serviços GG5,
Trabalhadores Qualificados da Agricultura GG6, Artesãos e Trabalhadores da
Indústria Leve GG7, Trabalhadores da Indústria Pesada GG8, e Trabalhadores
de Ocupações Elementares GG9) representam (e representavam em 1982) a maior
fatia da força de trabalho brasileira, abrigando quase 70% dos ocupados. A
maior parte se encontra no grupo das Ocupações Elementares (formado por
vendedores de rua, domésticas, porteiros, entregadores, vigias, trabalhadores
não qualificados da agricultura, entre outros). São ocupações para as quais não
se pressupõe níveis específicos de formação. Refletindo esse fato, verificamos,
nos dois períodos, pequenos percentuais de graduados em cada um desses grupos.
O fato de que em todos os grupos houve crescimento do percentual de graduados
significa que o crescimento do pessoal com ensino superior foi mais rápido do
que o crescimento demográfico dos ocupados. No entanto, há uma imensa diferença
de magnitude entre as ocupações mais e menos densas em graduados.
Os Gráficos_2A e 2B tomam o grupo dos Profissionais, o mais denso em graduados,
como referência. O Gráfico_2A apresenta o crescimento acumulado de todos os
ocupados, bem como dos graduados, tendo 1982 como ano base. Ao final dessa
série de 28 anos, a ocupação é cerca de 250% maior (isto é, 3,5 vezes o tamanho
que possuía no início); simultaneamente, o número absoluto de graduados
aumentou 400%; ou seja, em 2009, temos cinco vezes o número de indivíduos com
ensino superior do que havia em 1982. O Gráfico_2B opera a divisão entre as
duas séries e revela que, no acumulado, os graduados cresceram 50% mais rápido
do que o grupo ocupacional como um todo. Por isso, como vimos na Tabela_2, a
proporção de graduados passou de 45,3% para 67,5%.
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Os gráficos seguintes mostram que o grupo das Ocupações Elementares (o mais
baixo do ponto de vista do status sócio-ocupacional e o mais numeroso no
mercado de trabalho) passou por um processo quantitativamente muito distinto.
Enquanto a ocupação como um todo cresceu cerca de 65%, o número de graduados
aumentou mais de 15 vezes. Isso significa dizer que, quando a frequência
relativa de pessoas com ensino superior passa de 0,2%, em 1982, para 1,6%, há
oito vezes mais chance de um indivíduo nessa ocupação ter concluído algum curso
superior.
Obviamente, estamos tratando de fenômenos com proporções muito diversas.
Enquanto, em 2009, pouco mais de 7 milhões de indivíduos faziam parte do GG2 (e
desses, quase 5 milhões eram graduados), o GG9 era composto de mais de 32
milhões de pessoas (cerca de 510 mil sendo graduadas). Logo, os graduados estão
empregados, em sua maioria, em grupos ocupacionais que tradicionalmente formam
seu principal nicho. Mas chama a atenção a velocidade (em aceleração) com que
cresce o número de pessoas com ensino superior em ocupações que formalmente não
requerem mais do que o ensino médio ou apenas o fundamental. Em 1982, o número
absoluto de graduados no grupo dos profissionais era 14,7 vezes maior do que
entre as ocupações elementares; em 2009, essa diferença se reduziu para 9,7
vezes.
O gráfico abaixo fornece uma perspectiva sintética desse movimento de
transformação da estrutura ocupacional. O eixo vertical traz os resultados da
divisão entre o número absoluto de ocupados, em 2009 e 1982, enquanto o eixo
horizontal expressa a razão entre a quantidade de graduados para os mesmos
anos.
Em todos os grandes grupos ocupacionais a taxa de crescimento dos graduados é
superior à taxa de crescimento da própria ocupação. No entanto, há três padrões
distintos de variação, representados por aglomerados de pontos no diagrama de
dispersão.
Um aglomerado diz respeito às ocupações de códigos iniciados por números de 0 a
4 (forças armadas, gerentes, profissionais, técnicos e trabalhadores de
escritório). Como todas elas apresentam um crescimento geral superior ao da
média do mercado de trabalho no período, seu tamanho em 2009 é cerca de 2 a 3,5
vezes superior ao de 1982. A quantidade de indivíduos com ensino superior
também aumentou bastante, entre 2,4 e 7,6 vezes no entanto, para os grupos 0,
1 e 2 esse crescimento é inferior ao da média de todas as ocupações
(representada pela linha vertical). O segundo aglomerado de pontos marca um
padrão bem contrastante: são ocupações com requisitos educacionais formalmente
menores, que demograficamente cresceram a taxas iguais ou menores do que as do
mercado de trabalho como um todo, mas cujo número absoluto de graduados
aumentou entre 15 e 22 vezes. Por último, temos um ponto discrepante de todos
os demais, que representa os trabalhadores do comércio e dos serviços. Esse
grupo foi o que mais cresceu em termos absolutos no período (4,5 vezes) e,
simultaneamente, teve seu número de graduados aumentado cerca de 20 vezes.
De certa forma, o movimento observado no eixo vertical é esperado: reflete as
mudanças mais gerais que a economia brasileira experimentou a partir de 1990,
com o maciço encolhimento do emprego no setor industrial (GGs 7 e 8) e, em
menor escala, também nos setores primários (GG6), e o crescimento dos serviços
em geral (GGs 1 a 5)7. O que se observa no eixo horizontal, contudo, é bastante
contraintuitivo. Em 1982, havia cerca de 230 mil graduados trabalhando em
ocupações dos Grandes Grupos 5 a 9 (aqueles para os quais não se pressupõe
demanda por educação formal de nível superior); em 2009, esse número
ultrapassou 2,3 milhões. Não há como checar, por meio da PNAD, até que ponto as
qualificações desses ocupados com escolaridade superior correspondem ou não às
ocupações que efetivamente exercem. A hipótese já anunciada deste artigo é a de
que esse crescimento reflete, na verdade, a afluência dos indivíduos de classes
de renda inferior ao ensino superior, como resultado primeiro das políticas de
expansão da oferta, sobretudo nos anos 1990; e, depois, ao longo dos anos 2000,
pela forte expansão do emprego e da renda que atingiu mais que
proporcionalmente esses estratos sociais, complementados por programas
específicos de subsídio e inclusão. Vale repetir: o que os dados apresentados
até aqui esclarecem, principalmente, é a "origem" social dos novos graduados e
não seu "destino" ocupacional. Por último, cumpre examinar o que ocorreu com a
renda do trabalho.
O SALÁRIO E O "PRÊMIO SALARIAL"
As análises sobre a renda serão limitadas ao intervalo de tempo entre 1995 e
2009. Os bem conhecidos efeitos da inflação crônica e intensa sobre a
denominação dos valores monetários entre eles o fato de o Brasil ter mudado
seis vezes de moeda, entre 1984 e 1994 desaconselham a inclusão do período
anterior neste passo.
O gráfico a seguir exibe os valores da mediana da renda do trabalho principal e
do salário mínimo, com valores deflacionados pelo ipca, até setembro de 2009
(mês de aplicação da PNAD). Entre 1995 e o início da década de 2000, a mediana
da renda esboça um pequeno movimento de declínio e o salário mínimo um leve
crescimento (Gráfico_5), mas se comparamos esse intervalo de tempo com o
subsequente, a partir de 2003, de clara ascensão tanto dos salários quanto do
salário mínimo, podemos dizer que o primeiro momento é de estabilidade. Como se
sabe, a tendência do primeiro período acompanha menores índices de crescimento
econômico e maiores taxas de desemprego; a do segundo, o cenário inverso,
elevação das taxas de crescimento econômico e um forte ciclo de expansão do
emprego. Ao longo de todo esse período, o número de ocupados com educação
superior se expande aceleradamente, como se viu no Gráfico_1.
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O Gráfico_6 traz a decomposição da mediana da renda por nível de ensino. Os
dados mostram que os graduados possuem renda muito superior à dos demais grupos
de escolaridade, mas que sofreram perdas muito mais acentuadas, que se
estenderam até o ano de 2005, quando esta se estabiliza, um pouco abaixo de 2
mil reais (em valores de 2009), ou seja, cerca de 630 reais a menos do que no
ano inicial (queda acumulada de 25% no período). Ao contrário dos demais
grupos, sua renda não guarda relação com o movimento ascendente do salário
mínimo e da renda média, na última década. Os ocupados dos grupos de menor
escolaridade também sofreram grandes perdas salariais, sendo 2004 o fundo do
vale. Até esse ponto, os indivíduos portadores do diploma de ensino médio
haviam acumulado perdas de 36%, e os de nível fundamental, de 24%. E mesmo com
a recuperação posterior dos salários desses grupos, em 2009, os ocupados de
nível médio e fundamental ainda recebiam rendas reais inferiores às de 1995.
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Confirmando o que diversos estudos vêm mostrando8, foram os ocupados sem nenhum
nível de ensino completo os que mais se beneficiaram. Seus rendimentos
permaneceram relativamente estáveis até 2005, flutuando em torno de 380 reais.
Em 1995, esse valor equivalia a 1,5 salário mínimo. Com a valorização do
salário mínimo, a distância entre esse e os rendimentos dos trabalhadores que
não possuíam nem ensino fundamental foi se reduzindo gradativamente, até que,
em 2005, os valores se igualaram. É nesse ponto que os salários desse grupo
passam a acompanhar os aumentos reais do salário mínimo, de tal forma que, em
2009, seus rendimentos foram 22% maiores do que no início da série.
Ainda assim, os rendimentos dos vários níveis de ensino são claramente
hierarquizados. Para cada grau de escolaridade completo há um "prêmio
salarial". Operacionalmente, o prêmio salarial pela graduação pode ser definido
como a diferença percentual entre a renda dos indivíduos com ensino superior e
a dos que possuem apenas o ensino médio, dentro de um mesmo grupo ocupacional.
Como forma de controlar a heterogeneidade interna dos Grandes Grupos
Ocupacionais, bem como de isolar o efeito da graduação sobre a renda, foram
construídos dois modelos de regressão múltipla, replicados para todos os anos,
entre 1995 e 2009; em ambos, a variável dependente é o logaritmo natural da
renda do trabalho principal.
O primeiro (Modelo I) traz como variáveis de teste o nível de ensino (nenhum
nível completo, ensino fundamental, ensino médio e graduação) e os Grandes
Grupos Ocupacionais. Para especificar as condições em que o trabalho é
realizado, adicionamos variáveis de controle sobre o setor econômico
(atividades primárias, indústria tradicional, indústria moderna, construção,
serviços distributivos, serviços produtivos, serviços sociais, serviços
pessoais e administração pública); posição na ocupação (assalariado informal,
assalariado formal, empregador, trabalhador doméstico e trabalhador por conta
própria); idade, idade ao quadrado (ambas como proxyde experiência no trabalho
e do "efeito carreira"); e número de horas trabalhadas por semana. Além disso,
foram incluídos outros fatores que a literatura aponta, canonicamente, como
importantes determinantes da renda: sexo, cor e macrorregiões do Brasil. Esse
modelo visa estimar o efeito médio da graduação sobre a renda, permitindo o
mapeamento de uma tendência geral
A segunda regressão (Modelo II) traz as mesmas variáveis da anterior, com o
acréscimo de termos interativos entre os grupos ocupacionais e os níveis de
ensino. Com essas variáveis é possível distinguir o efeito diferencial do
ensino superior sobre cada ocupação.
O gráfico a seguir traz a variação dos prêmios salariais médios de todos os
níveis de ensino, calculados a partir dos coeficientes de regressão do primeiro
modelo.
Controlando por todas as variáveis inclusas no modelo de regressão, a renda de
um indivíduo com ensino superior, em 1995, era em média 92,9% maior do que a
dos que possuíam ensino médio; por sua vez, a renda desses últimos era 36,9%
superior à daqueles com apenas ensino fundamental; e, por fim, a renda das
pessoas com ensino fundamental era cerca de 31% maior que a daqueles sem nenhum
nível de escolaridade completo. Assim, por exemplo, mantidas constantes todas
as variáveis incluídas no exercício (isonomia quanto a sexo, idade, região
etc.), se dentro de um mesmo grupo ocupacional um indivíduo sem níveis de
estudo completos ganhasse 1 real, com ensino fundamental ele ganharia 1,31
real, com ensino médio 1,79 real e, com ensino superior, 3,46 reais.
Até os anos 2003 e 2004, o efeito do diploma de ensino superior fazia a renda
se elevar, em média, 90% com relação ao ensino médio. Desde então, essa
diferença percentual inicia uma trajetória de queda com marcada acentuação
nos últimos três anos da série. Os prêmios salariais pelo ensino médio e pelo
ensino fundamental também esboçam queda, embora bem mais suave, desde o início
do período. Em 2009, o prêmio pela graduação era de 68,5%; pelo ensino médio,
18,9%; e pelo ensino fundamental, 21,2%. De forma comparativa, é como se, para
um mesmo grupo ocupacional, um indivíduo sem níveis de escolaridade completos
ganhasse 1 real, teria sua renda elevada para 1,21 real com o ensino
fundamental; para 1,44 real com ensino médio; e para 2,43 reais com o superior.
Até aqui esses dados revelam a queda generalizada dos diferencias de renda do
trabalho, na última década, produto da elevação mais que proporcional da renda
dos estratos inferiores, explicável pela política de salário mínimo e pelo
aquecimento do mercado de ocupações de menor qualificação. Não se deve perder
de vista, ainda, o fato de que a posse do diploma de nível superior no Brasil
paga um enorme prêmio salarial. Supor que esse prêmio deveria aumentar, para
que se justificasse a expansão do ensino superior no Brasil ou o esforço dos
indivíduos que buscam maior escolaridade é o mesmo que dizer que o efeito da
expansão do ensino deveria ser o aumento das desigualdades de renda no Brasil.
Observando, separadamente, os grupos ocupacionais, as tendências são variadas.
Apenas no ano de 2007 todas as ocupações registram queda no prêmio salarial dos
graduados, mas, mesmo assim, não de forma homogênea. A série de gráficos abaixo
(Gráficos_8A a 8C) traz o Grande Grupo Ocupacional dos trabalhadores da
indústria pesada (GG8) como ilustração da tendência descrita acima. Em primeiro
lugar, foram estimados, através do segundo modelo de regressão, o salário médio
de dois indivíduos neste GG, um com ensino médio e outro com ensino superior9
(Gráfico_8A). Como todas as demais características foram mantidas constantes,
toda diferença entre as duas curvas que mostram a evolução dos salários
estimados se deve à credencial de ensino superior. Nota-se que a renda do
indivíduo com ensino médio assinala uma trajetória uniformemente decrescente
até 2005, quando então esboça uma leve recuperação. A renda dos graduados se
mantém relativamente estável até 2006, quando sofre perda expressiva. Como
resultado, o prêmio salarial, que até então vinha crescendo, apresenta uma
queda súbita e acentuada nesses últimos anos (Gráfico_8B). O terceiro gráfico
(8C) mostra que esses anos de queda do prêmio salarial coincidem com o
crescimento do número de graduados nesse grupo ocupacional: em 2007, havia
cerca de 115 mil indivíduos portadores de diploma superior no grupo 8. Esse
número se eleva para mais de 180 mil em 2009 é o maior crescimento, em todo o
período considerado.
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Tendências semelhantes podem ser encontradas para os grupos 5, 6 e 7 (todos com
baixa densidade de graduados): há um decréscimo da renda do ensino médio até
cerca de 2004, o que faz com que o prêmio salarial se eleve momentaneamente.
Cresce então o número de indivíduos com ensino superior: em 2005, havia cerca
de 66 mil graduados no grupo 5, 21 mil no grupo 6 e 131 mil no grupo 7. Em 2009
esses números vão para 154 mil, 54 mil e 246 mil, respectivamente. Ou seja, a
presença de pessoal com ensino superior dobrou ou mais que dobrou em apenas
quatro anos em todas essas ocupações.
No grupo 9 a tendência é um pouco diferente. Tanto o salário daqueles com
ensino médio como daqueles com ensino superior sofreram baixas até 2005. Por
isso, o prêmio salarial ficou estável, em torno dos 80%. No entanto, em 2007, e
também de forma fortemente correlacionada ao crescimento dos graduados nesse
grupo, assiste-se a uma drástica redução dessa diferença de renda, fazendo com
que a vantagem salarial média dos graduados caia pela metade, para 40%.
Nos grupos 1 e 4, grupos com maior densidade de graduados, o prêmio salarial se
mantém estável até 2007, quando ocorre uma queda, porém de menor intensidade,
se comparada à dos grupos citados anteriormente. No grupo 1, o prêmio era cerca
de 80%, caindo para 65%, enquanto no grupo 4 flutuava ao redor dos 70%, caindo
para 50%. Há que se considerar que o crescimento do número absoluto de
graduados nos grupos 1 e 4 é intenso durante todo o período (1995-2009), mas
segue um padrão de evolução linear, sem grandes saltos (diferentemente do que
ocorre nos grupos 5, 6, 7, 8 e 9). Nos grupos 2 e 3, o prêmio salarial se reduz
continuamente, durante todo o período, de maneira lenta e gradual. E nesses
grupos também a quantidade de graduados evolui de forma linear, sem saltos.
De modo geral, portanto, a crescente presença de graduados no mercado de
trabalho coincide com a redução dos diferencias de renda entre estes e o grupo
dos indivíduos com apenas o ensino médio. Coincide, mas não necessariamente a
explica,no sentido usualmente associado à tese da inflação de credenciais, que
supõe que a oferta "exagerada" de pessoas com escolaridade superior obrigaria
esses indivíduos a se empregarem em ocupações de baixa qualificação.
A série de Gráficos_9 compara a distribuição do número de estudantes de
graduação por idade (indivíduos de 18 a 64 anos) e por ocupação, em 1995 e
2009. Ao tomar os estudantes de graduação, e não os graduados, pretende-se
enfatizar a hipótese de que a relação entre ocupação e nível escolar, no
Brasil, é, especialmente para os contingentes afluentes, "invertida"; ou seja,
é a condição de ocupados e a experiência ocupacional dos indivíduos que os leva
a buscar o ensino superior. A seleção dos grupos ocupacionais apresentados
pretende ilustrar dois segmentos opostos do mercado de trabalho, com,
respectivamente, dois exemplos cada.
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Os grupos 2 (Gráfico_9A) e 4 (Gráfico_9B) colecionam ocupações para as quais a
posse do diploma de ensino superior pode ser considerada estratégica. Em ambos,
observa-se um aumento generalizado, em todos os grupos etários, do número de
estudantes, o que, de certa forma, é esperado, considerando que são indivíduos
com maiores rendimentos (capazes de suportar os custos de estudar), ocupados em
áreas em que o diploma de nível superior pode representar impulso significativo
em suas carreiras.
Os grupos 7 (Gráfico_9C) e 9 (Gráfico_9D) representam ocupações para as quais
não se supõe que o diploma de nível superior seja um requisito objetivo. Também
aqui se observa crescimento entre os dois períodos; contudo, deve-se notar que
é principalmente nas idades mais avançadas que a curva de 2009 se descola mais
da curva de 1995. Para esses dois grupos ocupacionais é entre os indivíduos com
mais de 30 anos que a proporção de estudantes se amplia mais acentuadamente. Em
todas as ocupações ainda são os mais jovens a maioria dos estudantes de
graduação. Mas a novidade, com relação a 1995, é que há um crescimento
específico dos mais velhos nos grupos ocupacionais de menor status e
rendimento. É isso que ajuda a explicar o crescimento acelerado do número de
graduados nesses grupos. Lembrando (Gráfico_4) que esses grupos perderam
terreno em termos absolutos para os grupos de 1 a 5, presume-se, neste caso,
que a busca pelo incremento educacional esteja associada: a) ao imperativo de
sobreviver em carreiras que encolhem (acirrando a concorrência entre os que
permanecem) e ao fato de que, como se viu, há um prêmio salarial substantivo
(ainda que declinante) para os graduados nessas ocupações, evidência de que sua
credencial escolar mais elevada é valorizada no mercado; ou b) a estratégias de
mobilidade sócio-ocupacional ascendente, vale dizer, a tentativas de migrar
para outras profissões mais atraentes.
CONCLUSÕES
A rápida expansão do ensino superior no Brasil é explicada tanto pelas mudanças
institucionais e regulatórias quanto por uma série complexa de mudanças (não
necessariamente convergentes) no mercado de trabalho, nestas últimas duas
décadas. Assim como o desemprego muito elevado dos anos 1990 que atingiu
especialmente trabalhadores dos setores industriais deve ter empurrado muitos
indivíduos de "volta para a escola", como forma de aumentar sua
"empregabilidade" (essa era a palavra da moda, então); o aquecimento do mercado
de trabalho e o aumento da renda dos mais pobres lhes infundiram otimismo e
renda para suportar a árdua convivência de jornadas extensas de trabalho com o
estudo noturno.
Os dados mostram que o número de graduados (e de estudantes de graduação)
cresce em todos os grupos de ocupações, refletindo não necessariamente as
demandas do mercado de trabalho, mas estratégias muito variadas (e que nossos
dados não nos permitem senão especular a respeito) de inserção e progressão
profissionais. Em todos os casos, porém, possuir um diploma de nível superior
está associado a significativos prêmios salariais. Os prêmios salariais
declinantes na última década devem-se muito mais ao movimento generalizado de
redução dos diferenciais salariais fruto do crescimento dos salários mais
baixos do que a um excesso de oferta de trabalho qualificado ou à baixa
qualidade do ensino superior10. Não foi apenas entre diplomados e não
diplomados que as diferenças salariais encolheram, em termos relativos; o mesmo
se observa entre homens e mulheres, brancos e negros, jovens e adultos, regiões
mais pobres e mais ricas.
Não é exagero dizer que, quanto à premente necessidade de o Brasil elevar seus
níveis de escolaridade, os cidadãos comuns, especialmente aqueles oriundos de
famílias mais pobres, têm feito sua parte. Que a educação seja de baixa
qualidade e que o mercado de trabalho não crie em número suficiente as
oportunidades para que o investimento feito por eles em educação se realize
plenamente são assuntos de outra alçada; dizem respeito à qualidade do
desenvolvimento econômico. Dispor de uma força de trabalho mais qualificada
confere ao país maior escopo para "escolher" seus rumos de desenvolvimento e, a
esse respeito, mais educação é sempre melhor do que menos educação. A tarefa de
evitar que lamentemos, no futuro, ter muita gente qualificada e poucas
ocupações condizentes não será cumprida exclusivamente pela política
educacional; a situação atual de vários países europeus parece sugerir isso de
forma sombria.
No Brasil, o padrão peculiar encarnado na figura do trabalhador-estudante não é
exatamente novo, já que desde sempre os indivíduos mais pobres têm sido
atraídos para o mercado de trabalho em idade muito precoce, o que lhes reserva
como melhor cenário possível a combinação entre trabalho e estudo. A novidade é
que este padrão tem viabilizado a expansão do ensino superior, na escala a que
assistimos, dada a prevalência do ensino pago e a cobertura ainda muito
insuficiente das políticas de subsídio e inclusão. Ainda que esse seja um
padrão transitório, que ao longo das próximas gerações dê lugar ao canônico
modelo das transições escola-trabalho (mas essa é apenas uma possibilidade), é
decisivo que o Estado brasileiro (sob as diversas formas em que ele se
materializa e atua) seja capaz de garantir, o quanto antes, que o "produto" que
estes indivíduos estão adquirindo no mercado tenha, pelo menos, as
características que suas embalagens prometem. Além de fazer valer o direito do
consumidor, estaríamos ampliando o leque de possibilidades das políticas de
desenvolvimento.
ALVARO A. COMIN é professor do King's College London Brazil Institute;
professor licenciado do departamento de Sociologia da FFLCH-USP e pesquisador
associado ao CEM/Cebrap
ROGÉRIO JERÔNIMO BARBOSA é pesquisador do CEM/Cebrap
[*] Este artigo é fruto do Projeto "Assessing the impact of higher education
expansion on economic restructuring, occupational change and access to
opportunities in Brazil and India. Collaborative Analysis of Microdata
Resources", financiado pelo esrc-uk, sob a coordenação geral da dra. Kate
Purcell, do Institute for Employment Research (ier) da Universidade de Warwick-
uk. Pelo lado brasileiro o trabalho foi realizado no Centro de Estudos da
Metrópole (cem-Cebrap) e coordenado por Nadya A. Guimarães. Álvaro Comin
agradece ao apoio da Capes pela oportunidade de permanecer sete meses, ao longo
de 2010, no ier-Warwick, com o auxílio de uma bolsa de pós-doutorado. Os
autores agradecem também a Flávio Carvalhaes, Bruna Gisi e Alexandre Abdal pela
leitura e sugestões.
[1] Ver Carvalho, Cristina H. A. de. A política pública para a educação
superior no Brasil (1995-2008). Ruptura e/ou continuidade? Campinas: tese de
doutoramento, ie-Unicamp, 2011.
[2] Os valores deste gráfico diferem um pouco daqueles apresentados
anteriormente porque considerou-se aqui apenas as pessoas que, além de estarem
ocupadas, especificaram em que tipo de ocupação trabalhavam.
[3] Ver Shavit, Muller e Clare. From school to work: a comparative study of
educational qualifications and occupational destinations. Oxford: Claredon
Press, 1997.
[4] Idem, ibidem.
[5] As informações produzidas pelos pesquisadores indianos associados ao
projeto mencionado na nota 1 acima sugerem que também em relação à Índia o
Brasil seja um caso excepcional, já que o perfil etário dos universitários
indianos não difere muito do dos ingleses. Para o caso da Índia, ver Unni, J.
"Employment Growth, Knowledge Intensity and Higher Education in India", Paper
apresentado na First Asian Population Association Conference, grupo temático
Labour Force, Employment and Education, Nova Deli, 16-20/11/2010; e Basant, R. e Sen, G. "Who participates in Higher education in
India? Rethinking the role of affirmative action". Paper apresentado no
Observer Research Foundation, set. 2008.
[6] Recorremos à isco-88 como forma de tornar compatíveis os diferentes
sistemas de classificação ocupacionais brasileiros usados na PNAD durante as
últimas três décadas. O nível mais agregado de classificação foi usado para
atenuar os inevitáveis ruídos provocados pelas compatibilizações entre os
códigos dos diferentes sistemas de classificação e porque, sendo a PNAD uma
pesquisa amostral, em níveis de maior desagregação faltaria representatividade
estatística para muitas ocupações, problema que seria pesadamente agravado
quando se segregassem apenas os indivíduos com escolaridade superior.
[7] Ver Comin, A. A. "Mudando sem sair do lugar: emprego e estrutura
ocupacional em São Paulo". In: Guimarães, Nadya A., Cardoso, Adalberto, Elias,
Peter e Purcell, Kate (orgs.). Mercados de trabalho e oportunidades.
Reestruturação econômica, mudança ocupacional e desigualdade na Inglaterra e no
Brasil. 1ª ed. Rio de Janeiro: fgv, 2008, pp. 181- 230.
[8] Ver Soares, Sergei. "PNAD 2009 Primeiras análises: distribuição de renda
entre 1995 e 2009". Comunicados ipea, 2010, n. 63.
[9] Trata-se de dois homens, negros, com 35 anos de idade, assalariados
formais, residentes na região Sudeste, trabalhadores do setor da indústria
tradicional, com 40 horas de jornada de trabalho semanal.
[10] Sem excluir, naturalmente, que esses fatores podem também ter colaborado
para essa redução.