Negativo e ornamental: um poema de Carlito Azevedo em seus problemas
Ainda não se escreveu uma história da intertextualidade na experiência recente
da poesia brasileira em que se diferenciem as várias práticas de apropriação,
glosa e crítica dos materiais da tradição. Tampouco se registrou como essas
práticas se modificaram ao correr do tempo das sabotagens textualistas dos
anos 1960, quando demonstravam inspiração materialista, até a
institucionalização retradicionalizadora dos anos 1990, quando, veículo de
idealizações, patrocinaram uma espécie de volta à literatura. Deste ângulo, um
exemplo que diz muito é "Na noite física (desentranhado de um poema de Charles
Peixoto)", de Carlito Azevedo, requintadas variações a partir de um poema pouco
conhecido daquele que talvez seja o poeta mais característico da assim chamada
geração marginal:
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a insônia que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?
E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?
E em nosso rosto essa raia
aberta? que estranha lava
é essa que, rubra (baba
de algum diabo?), se espalha?
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a fúria que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água1.
A seguir leiamos o poema sem título de Charles, que está em Marmota platônica,
de 1985, tendo em mente que é de uma fase posterior ao "desbunde" da "geração
mimeógrafo" para reavivarmos expressões de época (hoje crípticas),
indissociáveis daquela onda poética:
são duas e meia da manhã
a vizinha fuma um cigarro na janela
eu também
ela tem sessenta e sete anos e muitos filhos
eu trinta e cinco e apenas um
ela vive uma vida regrada
eu desregularmente insana
a insônia porém nos atraca como dois gêmeos na bolsa dágua2
Em dicção modernista, este é um registro simples, quase imediato de vivência: o
encontro de duas pessoas que não têm nada em comum, unidas casualmente pela
insônia na contemplação da noite. O verdadeiro lugar do encontro é o poema,
cuja construção tão direta quanto fortuita assume a poesia como veículo de
contato entre experiências opostas de vida (senhora insone/ poeta insano).
Ressalta o tratamento novo de um dos temas mais caros à poesia marginal, o do
conflito de gerações, inesperadamente humanizado e não mais tratado com a
irreverência e o deboche de antes, porque o poeta na maturidade de seus 35 anos
descobre as afinidades que tem com uma vizinha regrada, incluindo-
a afetivamente no poema, o que provavelmente não aconteceria no auge da poesia
marginal nos idos de 1970. Charles mantém desse tempo a soltura da composição,
a linguagem coloquial, o encadeamento displicente das frases, em sintaxe
deliberadamente linear e transparente artifício de simplicidade do poema,
cujo realismo é quebrado pela imagem-síntese do verso final transfigurador. O
estranhamento do fecho, um símile quase surreal, integra a operação metafórica
no plano cotidiano, atestando o quanto os procedimentos "marginais" são
desafetados e antiliterários. A imagem alucinada do encontro uterino traz para
o poema uma figuração de futuro, impressentida pelos figurantes da cena: na
imagem de duas crianças geradas pela noite se reconhece uma irmandade. A
transfiguração do fato pela imagem mostra que o poema prossegue dentro do
espaço da poesia moderna e que essa técnica ainda tem a vitalidade necessária
para expressar a experiência existencial e subjetiva do próprio poeta.
Tantos são os cruzamentos intertextuais e releituras que dificilmente diríamos
que em "Na noite física" está em primeiro plano a paráfrase invertida do poema
de Charles; e mesmo a afirmação de que um texto provém do outro precisaria ser
relativizada. À primeira vista, Carlito faz uma leitura atualizadora: o poema
evoca uma noite de amor transformada em noite de fúria, com sugestões de
contato físico e, em mais de um sentido, ferimento (real ou imaginário). O
noturno do título foi apanhado por sua vez de um verso de Drummond, mas puxado
para a visualidade abstrata: "[Ó] Goeldi: pesquisador da noite moral sob a
noite física" ("A Goeldi", A vida passada a limpo, 1959). Designava Drummond as
sombras foscas do gravador, captando nelas uma peculiar atmosfera existencial
que remete a medo, fantasmagorias privadas, repressão, sofrimento. Carlito com
argúcia soube ver a afinidade do poema de Charles com o universo drummondiano,
onde o isolacionismo e a frieza dos sentimentos humanos embalsamam a noite
moral, como já se lê por exemplo em "Noturno à janela do apartamento" (de
Sentimento do mundo) ou "Edifício Esplendor" (de José)3. Mas essa filiação a
Drummond pode ser estendida também àqueles poemas de esperança socialista em
que o poeta, para superar a culpa burguesa, deseja se irmanar uma irmanação
custosa e difícil com seu outro de classe, como no poema em prosa "O operário
no mar": "Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi
meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza. Ou talvez seja eu
próprio que me despreze a seus olhos". Já Charles registra secamente a
distância dentro de sua própria classe e, sem maiores expectativas de
transformação social, conta para quebrar o gelo tão somente com a calorosa
imagem uterina, isto é, com a energia comunicativa da própria poesia.
Carlito modifica essas referências com surpreendente tino artístico: apanha no
verso drummondiano o que é irrelevante, tirando toda a complexidade da noite
moral para frisar a erótica textual (de passagem diga-se que o poema foi
incluído em Sublunar, antologia de sua obra, na seção de poemas eróticos que
bretonianamente se chama "Sob o duplo incêndio"4). Ainda que o primeiro verso
dê uma localização no tempo e no espaço, os referentes da cena não estão
definidos, podendo tanto corresponder à rememoração do que se passou, à ação
presente já na manhã, quanto ao estado ininterrupto de luta (ou fantasia de)
que se eterniza na imagem. A precária identificação de dois seres na noite se
transforma em luta amorosa às escuras, ou conforme o comentário indireto de
outro poema do autor ("No céu"): "trevas em tristes/ stripteases"5. Tão
abstrato quanto a cena, o eu não qualifica as situações, só as percorre,
permutando e jogando com seus elementos em circunstâncias que mal se deixam
adivinhar, porque tempo e lugar foram dissolvidos numa linguagem bastante
estruturada, que controla seus propósitos (mais secretos). Flora Süssekind
antecipou o estatuto desse eu esvaziado quando num estudo notou que "[...] é
como 'ponto de vista', não como 'personalidade', que se expõe o sujeito em As
banhistas"6. Justamente por ser ponto de vista, podemos acrescentar, é que o eu
poético não é tocado (ou transformado) pelos acontecimentos que descreve ou
vivencia, tendendo a contemplá-los sobretudo como uma picturalidade
voyeurística da qual se vê como parte, mas da qual está alheado. A visualidade
pictórica do poema necessita do álibi da objetivação, como se todos os
movimentos que ocorrem dentro de seu campo visual fossem objetivos e
despersonalizados, mesmo quando a intervenção das interrogantes lança dúvida ou
incerteza sobre o dado. O que passa a ocupar o primeiro plano é uma arquitetura
de efeitos que, camada por camada, vai sobrepondo imagens, alusões ou
intercâmbios mas para criar uma sobrerrealidade inteiramente estetizada, uma
espécie de dissolução referencial, registrada de um ângulo hedonista em
espasmos de tensão e distensão. Aí o impulso de expressão se apaga, o eu pode
se alienar terapeuticamente, encasulado na beleza, e na beleza apenas, desse
espetáculo de superfícies que são só aparências e, em sua irrealidade
palimpséstica, atendem ainda assim o desejo de um sujeito residual (o que quer
que seja) se perder na vertigem noite adentro. Porque é ponto de vista, esse eu
tampouco se reconhece no que viu ou no que viveu (ou quis, ou sonhou viver); é
precisamente essa alienação perceptiva, sensorial e existencial que aumenta o
hedonismo da descrição, a qual dispensa a configuração de um juízo mais
analítico. O ponto de vista reduz a cena, a matéria e as possibilidades formais
a estimulantes estéticos de divagação e prazer, de prolongamento e distância,
sempre virtual e superficialmente. É claro que o poeta não merece ser criticado
por essa estetização terapêutica, inevitável, seja dito, para quem vive numa
sociedade de imagens encasuladas em seu próprio espetáculo e completamente
irrealizadas. Nascida de um sentimento da vida presente, a imagem-espetáculo
todavia tende a recompor a aura do poema, colocando o leitor em posição de
passividade diante da sua janela de efeitos.
Do ponto de vista da estrutura poética, a construção de "Na noite física" é
irônica: início e fim linearmente narrativos emolduram três estrofes mediais
passavelmente herméticas, que são o núcleo desestabilizador do poema. Também
irônico é o desdobramento do verso livre de Charles ("a insônia porém nos
atraca como dois gêmeos na bolsa dágua"), com pequenas alterações sintáticas
(inclusão do relativo "que" em lugar da adversidade do "porém" que acompanhava
o termo comparativo), em duas redondilhas maiores, que, arranjadas em quadras,
se ajustam cabralinamente à perfeição, inclusive pela tessitura de rimas
toantes em "a" que atravessam em sua pobreza monocórdia os versos. Note-se que
é uma retradicionalização enganosa, que faz variações numa forma fixa e numa
sintaxe preciosista, de modo que a metáfora tornada surreal ("dois gêmeos na
bolsa dágua"), que surgia como um símile sintético e natural da observação da
noite em Charles, perca sua alteridade fantástica e, atando a primeira à última
quadra do poema, venha a contar a metamorfose da insônia em fúria amorosa. O
tradicionalismo métrico das estrofes, contrastando com a opacidade da cena
narrada, está aí para enganar, porém o poema depende desse jogo virtuosístico
que usa parte e todo, presença e ausência, passado e presente, dia e noite,
como trompe l'oeil, responsável pela plasticidade dos recursos imagísticos e
pela indeterminação da sintaxe. Velatura sobre velatura, o jogo de ocultamento
predomina com seus paradoxos de luz e breu, o que magnetiza a atenção do
leitor, desviando-a para o funcionamento do trompe l'oeil.
Às estrofes medianas cabe desestabilizar os significados pela sucessão de
termos equivalentes (marca/ trama/ raia, rabiscar/ penetrar/ espalhar-se,
sarna/ algum mal/ baba) numa espécie de associativa desrealizante em que cada
palavra é metáfora da outra, uma desdobrando a anterior, numa dissolução
exuberante e agradável à vista (paradoxalmente contrária a seu sentido aparente
de padecimento e maus-tratos). Ocupam proeminência na construção certas
perífrases como "sarna ávida", "cega trama", "raia aberta" e "estranha lava"
que perderam seu caráter relacional e cujos referentes Carlito transforma em
metáforas autônomas e barroquizantes que nomeiam algo que pode e não pode
existir a inflexão dubitativa das perguntas é outro elemento de dissolução.
Na terceira estrofe, condensada num hipérbato, os procedimentos de
indeterminação atuam sobre a sintaxe e atingem a ação verbal, seja subtraindo o
verbo principal ("E em você a cega trama/ algum mal pôde?..."), seja truncando
o nexo discursivo pelos cortes dos versos. Tudo conflui aí para deixar
graficamente em suspenso o próprio acontecer numa tripla pergunta (uma espécie
de adivinhação) que transfere e desloca a temporalidade ao encavalar ações
passadas e um presente irreal ("ou maltrata/ ainda,"). Então a "cega trama",
que é (?) motivação inexplicada, ato no escuro, lembrança do ocorrido, se torna
"raia aberta", uma metaforização de sangramento, tal qual essa lava ou baba
rubra metáforas sobre metáforas em série desrealizante. Em "concha, espádua,
gargalhada?" chega-se ao auge das desrealizações, pois substantivos ligados
assindeticamente em interrogante resumem partes ou traços de presença humana,
consumando ou rememorando alguma troca física. Concha pode ser púbis, espádua,
a região das marcas da violência, gargalhada, explosão de prazer ou desprezo na
cena, listados alegoricamente como "Solitude, récif, étoile", não como
alternativa trágica, e sim como simultaneidade complicadora. Ou se poderia
pensar na misteriosa alternativa, tão ambígua quanto erótica, da gravura
iluminada em suas reentrâncias nos versos conhecidos de Manuel Bandeira em
"Água-forte": "Concha, rosa ou tâmara?". Assim como o ferimento é metáfora e/
ou escrita, toda a figuração do contato vai sendo abstratamente apresentada e a
violência, por assim dizer seu fruto, acaba tratada como ornamento ou tatuagem.
Tudo é composição, regida por associações fônicas, gráficas ou semânticas
perversamente sugeridas, cuja matéria referencial vai sendo apagada até que
figuras, corpos e sentimentos valham como numa gravura ou nanquim pelos efeitos
de luz, sombra, rabisco, cicatriz, trama, cor descrições reduzidas a modos de
escrita. Caem fora o referente, o teor existencial e a incomunicabilidade entre
gerações, ainda humanizados pelo drummondiano Charles, que repetia a ideia de
igualdade na atual dessolidariedade. O que ocorreu naquela noite, se for
possível falar assim, já não é o assunto, o episódio foi todo resumido a sinais
de superfície e é plasticamente superficial, inclusive o ferimento (ritual?
tribal?) tatuado. A noite física do título indicia talvez a presença de
elementos concretos e esparsos, porém deliberadamente indeterminados pelo
arranjo textual. A ambivalência da relação de prazer/ dor participa dessa
desrealização, assim como a própria violência sofrida ou praticada por esse eu
em contexto hedonista acaba também estetizada, tão estetizada que pode dizer
respeito à própria escrita do poema. Sabemos que se trata de uma luta amorosa,
não sabemos de quem com quem, os sentimentos envolvidos e o porquê dessa
reversibilidade: a cena é opaca sob a teia de arabescos verbais. Os recursos da
linguagem, os retorcimentos sintáticos (com seu quê arcaizante), a incerteza
sobre as imagens e/ ou as próprias designações, postas sob o sinal de
interrogação, são utilizados para condensar palimpséstica e eroticamente a
irrealidade do significado da noite intestina ou uterina.
Se a matéria do poema era o símile explícito "a insônia porém nos atraca como
dois gêmeos na bolsa dágua", Carlito transferiu suas variações para contexto
erótico-masoquista que o transformou inteiramente, tanto que a irmandade
noturna, a despeito de ter se tornado um par amoroso, foi abortada por uma
situação de fúria. Observe-se que o símile de Charles era uma fórmula de
promessa, continha a esperança futura de um nascer; já em Carlito a metáfora
figura o atracamento dos amantes por um presente às vezes de fúria, às vezes de
desejo. A volta da estrofe inicial no fim do texto lhe dá uma espécie de
andamento de rondó, enquanto o par vai se lanhando amorosamente com volúpia.
Num resumo rápido, o objetivo artístico do poema estaria em fazer com que a
extroversão libidinal correspondesse à imagem glosada em plano autônomo, cuja
violência transfigurada em vertigem aludisse eroticamente à própria escrita. Há
uma verdadeira ideologia da vertigem na obra de Carlito Azevedo, explicitada
por exemplo noutra passagem: "a ideia é pôr as duas mãos no centro/ nervoso do
delírio" ("Ao rés do chão"7); como se o propósito fosse captar, ou estilizar,
as espirais da vertigem, agudizadas pelo enfeitiçamento poético. A vertigem é
uma metáfora erótica parada convulsiva, verdadeira vida, momento único de
consciência intensificada, epifania, "mobilidade fixa", cuja magia serve acima
de tudo para resgatar a aura artística do poema em seu presente de consumação e
volúpia estetizadas. Ela não decorre, como se esperaria, da iluminação, do
êxtase, da transgressão, mas, ao contrário, tão somente da valorização da
aparência estética por meio de puzzles perceptivos que por assim dizer açucaram
certos tópicos da divulgação pop da obra de Georges Bataille. Isso porque, ao
mesmo tempo que mimetizam processos pictóricos, os poemas carlitianos são
figurações em expansão de uma vertigem maior, com suas mudanças de escala do
macro para o micro, metamorfoses do minimal, circulação promíscua e inesperada
do banal e do comum em sacralizações instantâneas. O amor é aliás um elemento
cenográfico, entre outros, de uma crispação geral que envolve objetos,
líquidos, desejos, nunca abordados diretamente, sempre em estado de
metamorfose. A fúria que penetra a intimidade amorosa em "Na noite física"
seria dessa ordem, se ela não estivesse espelhada pela violência que levou o
par amoroso a se estranhar como "dois gêmeos na bolsa d'água". A ambiguidade
não para aí e as viravoltas do rompante que arrebata o par alteram o
significado da noite que era apenas física: a noite pode ser o próprio poema e
a luta amorosa entre poeta e poema.
Comuns na pequena mas marcante obra de Carlito Azevedo, essas operações são
exercidas sobre um objeto ou uma cena cotidiana para desrealizá-los em
digressões feitas de brilho, fulgor, cor, num sentido oposto ao essencialismo
concretizador de João Cabral, ao qual, seja dito, devem muito. Sem onirismo ou
afirmação da imaginação livre, sua meticulosa e progressiva perda de realidade
afeta pouco caso pela disciplina intelectual e clara preferência pelo
colecionismo de figuras e exotismos, à maneira dos neobarrocos dos quais
Carlito pode ser aproximado8. Para tanto, emprega descrições tão minuciosas
quanto arbitrárias, descartando em seguida um por um os elementos descritos,
ampliando detalhes até a abstração, ou então trazendo à tona um elemento
deixado de lado, menos motivado, como decisivo para o todo. Carlito não
descreve a bufonaria dos movimentos mentais à maneira de Wallace Stevens, que
acompanha as projeções, hesitações e insatisfações do eu em relação a seu
objeto, fazendo dessa instabilidade subjetiva matéria teórica e prática do
poema, geradora inclusive de um dandismo da imaginação. Ao contrário, sua
matéria não tem dinâmica própria e, quase sempre, está mimetizando processos
picturais e visuais alheios, deles limitando-se a tirar uma ambientação
exuberante, ostensivamente artística9. A graça é que ainda assim sua poesia não
se dispõe a romper com o mundo exterior, aliás, está sempre reafirmando um
certo cotidiano carioca, como noutros poemas, em que o cenário do Rio impera
com montanhas e lagoa. Esse é o motivo de ter curiosamente conservado da poesia
marginal, ele que aparentemente pouco se apoia na expressão direta, um impulso
de cronista leve e boêmio, o gosto de aquarelista pela paisagem sempre
renovada, da névoa cobrindo a pedra, das nuances de cor ao longo do dia de sol
é por isso que a poética marginal, tão oposta à sua, é homenageada. Foi uma
solução bastante feliz (comprovada em seus melhores poemas) porque a vida mais
comum do dia a dia, ou do amor, se torna o lugar onde se encontram os tópicos
conceituais e teóricos da crise da representação ou do sujeito, dispensando-
o de martelar, como sói acontecer, a glosa subfilosófica ou os circunlóquios
conceituais que banalizaram tanta poesia contemporânea e, em especial, a
francesa. A par da sobreposição de referências estéticas, é bom lembrar quanto
ele tirou do surrealismo (principalmente da pintura) a simpatia por um cenário
imaginário, vagamente teatral, com estátua, coluna ou balaustrada e entradas e
saídas de objetos do foco o jogo entre a chaleirinha e a transa sexual em "Le
bel aujourd'hui" por exemplo10. Poesia marginal, Drummond, maneirismo,
decadentismo, neobarroco, surrealismo, Cabral todas essas referências estão
comprimidas de tal modo que ganhem indeterminação e cada uma delas se perca
numa textualidade afetadamente estetizada, nefelibata quase diríamos, sugerindo
que não há evolução de formas e o pluralismo é vitorioso. Tendo deixado de
refletir a pressão da evolução de formas como processo superador e sentido
estrutural, a tradição agora parece ser um patrimônio equânime e homogêneo, ao
qual o intertextualista tem livre acesso a qualquer instante (justamente o
oposto da arena de impedimentos, repressões e proibições, que definem a
vigência de uma tradição). Não foram poucas as vezes que o autor de Collapsus
linguae se vangloriou de não escolher um caminho em detrimento de outro,
preferir todos e valorizar a matéria intertextual generalizada, pronta para a
glosa e o gozo, sem hierarquia seu poema é resultado dessa releitura
pluralista e acomodatícia da tradição11.
Carlito Azevedo, por tudo que se viu, fez um esforço notável de desinfantilizar
o estado atual da poesia brasileira, posicionando-se com seu hermetismo de
circunstância, por assim dizer barroco-raciocinante, contra a infracomplexidade
e a miséria reflexiva dos jogos de linguagem, trocadilhos, epigramas gráfico-
visuais ou festivais paronomásticos que, dos concretistas aos marginais,
culminando na obra de Paulo Leminski, rebaixaram a complexidade do poético à
mera jogatina linguística12. Caberia indagar se a tessitura erótico-textual de
um poema como "Na noite física", ou a arabesquização de referências literárias
(que, em "Ao rés do chão", ele próprio chamou com autoironia e bem de "a
alugada/ e sexy roupa fátua do poema"13), impõe de fato um padrão mais alto, ou
mais complexo, de construção. Ou, se a disposição reflexiva saiu reforçada,
mas... pagando o preço de possuir uma formulação verbal indiferente à sua
matéria. Seja o que for, podemos afirmar que, para ele, o poeta é um virtuose,
o poema uma máquina de enfeitiçar, o sentido uma arquitetura de efeitos de
superfície, tão ilusórios quanto calculadamente vazios. É verdade que o poema
deixou de mimetizar isomorficamente seu conteúdo, superou o ideal (concretista)
de representação icônica, porém, derrotada a funcionalidade, o rigor de
construção está a serviço de um espetáculo ilusionista de imagens
autorreferidas que apresentam a dissolução dos processos formais e construtivos
como seu conteúdo. Nessa operação imagética ou metafórica tudo conduz a uma
excitação visual que resgata a literatura como valor e o poema como transmissor
de beleza é o esteticismo dessa dissolução que lhe interessa.
Ao longo de sua obra, Carlito cultivou muitas modalidades de beleza que negam o
tempo e paralisam o fluxo do pensamento numa superfície esplendorosa e
cultural. São instantes de plenitude epifânica que pairam no absoluto de sua
visão, como, por exemplo, o farfalhar do damasqueiro e a jovem a dormir em "A
morte do mandarim" ou a florzinha (flor e sexo de mulher) que "atingia seu
ponto máximo/ de beleza" quanto mais estivesse alheia ao mundo e a tudo em "Sob
o duplo incêndio"14. Essa beleza suspensiva, que opera por negações, limita-se
porém a fusionar as referências externas à lógica da própria imagem, tornando-
a espetáculo ou picturalidade vistosa. É uma beleza que, tirando uma imagem da
outra, caprichosamente em série, pede sempre mais literatura mais, mais!
Vejam o poema "3 variações cabralinas" que no livro original é imediatamente
anterior a "Na noite física": a dançarina (andaluza? africana? carioca da
gema?), contrabandeada da poesia de João Cabral, anima na mesma meia-luz do
quarto um teatro de sombras em que se desenha como figura, alegoria, metáfora,
fogo, carne, libido, inteiramente concentrada no efeito de sua dança-sedução-
destruição:
A dança veloz da língua
de uma labareda negra
a lamber no quarto escuro
sua própria labareda
se bastava [...]
com ficar ainda mais negra
com ficar mais linda ainda15
O negror (imagético) da labareda arde na escuridão, com toda a sua beleza
voltada para si mesma, entregue erótica e inteiramente à própria e cega
consumação, em que a perfeição formal é realizada por fogo e destruição. Eis o
ideal negativo e ornamental da beleza que governa o esteticismo carlitiano,
desidentificado do concreto cabralino que corresponde, como se sabe, a uma
ideologia racional-construtiva da contundência poética16. Na poesia de João
Cabral, o rodízio de termos comparativos interrompe a vigência da imagem,
quebrando o ilusionismo metafórico; o poeta alimenta a reverificação analítica
de seu instrumento, refazendo os processos de atribuição, desmentindo a
atribuição, subtraindo-a dentro de um todo maior, reafirmando enfim o concreto
de seu objeto. Carlito procede criticamente em relação a essa desmontagem, se é
que não a inverte: suas designações sobrecarregam a imagem, pela via da
metaforização desrealizante, enquanto o objeto desaparece em favor daquilo de
que ele se ornamenta, como aqui neste exemplo em que não se sabe o que é noite,
mulher, labareda, porque a multiplicação de alternativas de sentido explode
intencionalmente a representação. Sem esquecer, e isto é o principal, que essa
multiplicação é o que desencadeia tantas loas à beleza de um não-objeto o
esplendoroso objeto do poema. Carlito parece estar também glosando o ideal
adorniano do negro numa operação paródica em que o despojamento, a austeridade
de meios, a pobreza de recursos, reverteram perversamente em luxo e volúpia17.
A autorreferencialidade, rebaixada a elemento entre outros de ourivesaria,
obviamente perdeu o teor crítico metalinguagem passa a significar produção de
ilusão encadeada, mera componente de uma maquinaria neoesteticista de efeitos,
sem compromisso de revelar os elementos materiais da figuração. Não mais exerce
a função de criticar seu veículo e refletir sobre o fazer poético, pois agora
compõe a retórica da imagem (ou da metáfora), valendo por um espetáculo verbal
e conceitualmente prolífico de figuras e paramentações sem fim. A tônica deixou
de ser posta na desmontagem das imagens, ou nas interrupções autorreflexivas,
porquanto a metalinguagem tornou-se instrumento para a produção de beleza
dentro do programa esteticista do poema programa que se formula, como em
muita arte contemporânea, com os recursos sabotadores e críticos da beleza, os
mesmos da vanguarda e da poesia moderna. Negatividade ornamental, pois.
"Na noite física" vai um pouco além ao fazer o elogio da poesia em meio à
convulsão (seja das imagens, seja da vida), abstendo-se de questionar o poema
como objeto de arte. Em sua abstração, o lavor (evidenciado em cada sinal de
interrogação, na sucessão de toantes, na regularidade das quadras, no
retorcimento sintático) esvazia a estética da violência, ante a qual seu
esteticismo não reage, assim como sua matéria perversa existe apenas para ornar
a indecidibilidade textual. Ao reafirmar os valores mais tradicionais da
poesia, o texto autorreferido amplifica a beleza e idealiza a relação com o
dado real é o que pode explicar por que a aparição contemporânea da violência
não tem relevância para o poeta. A tessitura erótico-textual às voltas com a
questão da escrita, do texto na pele, da duração da imagem, que são derivas de
sua matéria, ou de seu concreto para falarmos como João Cabral, abafa o que
possa haver de transgressivo na experiência da perversão. Vimos como Charles
acreditava explicitamente no poema como contato para romper a frieza da falta
de solidariedade; já para Carlito, o próprio ato amoroso, a fúria que possui os
corpos, a excitação com essa indistinção entre amor e fúria, tudo é
irrelevante, porque o poeta está diante do desfrute da noite física da escrita
e seu espetáculo textual gozosamente tatuado18. Todas as operações ou
procedimentos formais servem aqui para recalcar (ou desmanchar) a referência ao
episódio noturno, que foi o que, até onde vemos, desencadeou a angústia dessa
paráfrase infinita por imagens e, por sorte e verdade, acabou entrando no
poema. À sua pequena cena o leitor terá acesso hermeticamente indicial que o
dispensa de confrontar poema e matéria a experiência erótica, perversa,
amorosa, aí tangenciada. Noutro lugar ("A margarida-pérola"), Carlito admite
sarcasticamente que esse tipo de poema de retrospecção cifrada contém um
"istmo/ de podre e preciosismo"19, ou seja, podre e preciosismo ligam-se por um
fio, mas é evidente que a ligação só lhe interessa pelas valências sonoras e
semânticas da palavra "istmo", mais do que pela pertinência (de fato,
inexplorada) entre podre e preciosismo. Tanto que o ponto de vista desse eu
descentrado não denuncia a fetichização da vida, da experiência ou do amor, ao
contrário, está aí para reafirmar (dogmaticamente) que a operação imagética ou
metafórica se impõe hoje como a experiência genuína da poesia, afinal é o que
conduz também à vertigem e ao enfeitiçamento. Mas precisamos da ideologia
barroquista da vertigem para reafirmar a ilusão literária e refundar a
literatice como pós-vanguardismo? Outras questões ficam igualmente no ar: o
poeta está recalcando sua própria experiência por insuficientemente poética ou
antipoética, ou sua experiência é exatamente esse recalque, mais que
sublimador, hedonista? Tanto rigor de construção serve para contornar a espiral
de desumanização em curso, ou o poema mimetiza essa desumanização para detê-la
e superá-la? Ou ao contrário estaria ele afirmando que sua experiência é
irredutível à comunicação, devendo o poema simplesmente glosar tal
intransitividade ainda à moda de Barthes? É inegável que Carlito parece não só
convencido de que a literatura não foi tocada pela barbárie (a que de alguma
maneira seu par amoroso alude e é o que dá nervo a seu poema), como a ela
escapa ao reunir elegíaca e vertiginosamente "cada fragmento nosso, perdido,/
de dor e de delicadeza"20. E por isso se dispõe a escrever para uma sociedade
em que a vida sobrevive como um problema artístico, sem jamais chegar a ser uma
possibilidade prática.
IUMNA MARIA SIMON é Professora de Teoria Literária e Literatura Comparada na
Universidade de São Paulo
VINICIUS DANTAS é Poeta, ensaísta e tradutor
[1] Azevedo, Carlito. Sob a noite física. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1996,
p. 46.
[2] Peixoto, Charles. Marmota platônica. Rio de Janeiro: Taurus, 1985, p. 104.
[3] Diz Carlito num depoimento: "Cheguei a Drummond pela poesia marginal. [...]
Não a poesia marginal que dizia: 'A vida é festa'. Mas a outra, mais
consistente, que dizia: 'Vida besta'. Por exemplo: Passatempo, de Francisco
Alvim, Grupo escolar, de Cacaso, e o próprio A vida alheia [de Eudoro Augusto].
[...] Aliás, esses poetas seguraram a barra de ser drummondianos numa época em
que não era essa moleza toda" (Azevedo, C. "Cheguei a Drummond pela poesia
marginal". Cult, nº 26, set. 1999, p. 63). É evidente que,
para fabricar sua posição histórica, o poeta está usando a fantasia de
converter a alta tradição mais largamente consagrada em subversão clandestina
chamamos atenção para quanto desse expediente astuto possa existir também na
sua poesia.
[4] Azevedo, C. Sublunar (1991-2001). Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001, pp. 83- 100.
[5] Azevedo, C. As banhistas. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p.
37.
[6] Süssekind, Flora. "A poesia andando". In: A voz e a série. Rio de Janeiro/
Belo Horizonte: Sette Letras/ Editora ufmg, 1998, p. 174.As
banhistas é o livro anterior do poeta.
[7] Azevedo, C. Sob a noite física, op. cit., p. 17.
[8] Apesar de toda a admiração que tributa a escritores como Lezama Lima (de
quem tirou o nome da revista Inimigo rumor que dirigiu) e Severo Sarduy (a
quem dedicou mais de um poema), Carlito Azevedo não segue nem a teoria nem a
prática neobarrocas. Não consta de seu programa qualquer propósito de formular
uma experiência excluída ou dar guarida a uma mestiçagem não oficial. Mesmo
sendo uma escrita altamente hedonista, oscilando entre fluxos de inversões e
interrupções caprichosas, a composição nunca é transgressiva. Prefere continuar
dentro de uma tradição reconhecível para evitar aquele autismo característico
da provocação neobarroca: Carlito não violenta as formas existentes porque
costuma reverenciá-las com desenvoltura. Por cultivar uma espécie de êxtase a
frio, a leveza de seu individualismo passa portanto longe do regime neobarroco
de perversões (um sublime do corpo e suas substâncias). É do programa desse
regime de paixões investir contra a representação tradicional, glosando
parodicamente seus termos, até exorbitá-la numa textura hipersexualizada que se
desenquadra das práticas (ou gêneros) literárias mais legitimadas. Ao passo que
a poesia carlitiana tem algo de decoroso, e muito controlado nas suas
simulações de desenfreio, pois a lógica de suas imagens privilegia as
gratificações estético-visuais. Carlito opera uma exposição progressiva que
alterna temporalidades variadas, e bem definidas, trabalhando simultaneamente a
diferença entre a imagem, a alegoria, a especulação dubitativa, o dado de
observação, a sugestão intertextual. O acabamento de seus poemas é cuidadoso, o
verso é burilado às vezes com métrica e às vezes com rimas, sendo portanto
pouco marcado pelo ritmo geralmente unidimensional e turbilhonar da erótica
neobarroca. A poesia carlitiana não subverte a língua, afinal a sua ainda é a
língua da norma, com poucas hibridizações de gíria, regionalismos e expressões
locais e datadas, confiando mais na denotação do que seus êmulos hispano-
americanos.
[9] Vale acrescentar que a relação com a arte em Carlito, tal qual noutros
poetas atuais, é quase sempre uma paráfrase de intenções (imaginadas ou
documentadas). Paráfrase de conteúdos em que a reconstituição das referências
possibilita novas abstrações, à maneira de um teste de Rorschach. A pintura por
exemplo resultaria de uma liberdade gestual exacerbada, em cuja superfície cor
e forma são estritamente valores psicológicos e cenográficos, raramente
artísticos. A aparência das obras hoje diz muito pouco sobre a vida real, porém
o poeta, como o artista, procura preservar ou imaginar um nexo existencial com
ela inclusive deixando pegadas biográficas. A arte contemporânea pode assim
oferecer situações para serem vividas (ou revividas), simulacros de vida, mesmo
que seja a mais abstrata ou conceitual, ou melhor, preferencialmente nesses
casos. Seguindo essa trilha, o poeta hoje não está preocupado com a forma
artística que glosa, ao contrário, exercita-se em reconstituir os sentimentos
em volta do momento da criação, comentando numa espécie de mímica seu
significado visual. Esse conteudismo não vê incompatibilidade em relacionar
tópicos os mais convencionais da poesia universal à arte contemporânea,
aproximando uns e outra por meio de superfícies ou texturas que fazem uma
dramatização de emoções ou confissões, às vezes muito sentimental, um tanto
para repisar as circunstâncias banais ou biográficas que podem estar por trás
de certas soluções artísticas (como a mídia usa o biografismo para explicar a
obra contemporânea). É a graça pós-moderna, imaginemos, de fazer odes ou
elegias para desenhos de Lichtenstein ou glosar Rothko para dissertar sobre a
efemeridade da vida. Essa poesia já não busca na experiência plástica e visual
processos compositivos, problemas de construção e expressão que lhe inspirariam
traduções ou correspondências verbais, como no passado inspiraram tantos: a
pintura hoje é apenas tema, pouco influindo na enunciação ou na exposição
poéticas. Foi por isso que logo a crítica literária reconheceu na visualidade
de superfície dessa réplica temática a chance de renovar seus paradigmas
comparativos, o que passou a lhe oferecer, do mesmo modo que aos poetas,
tópicos novos para suas derivas na seara de outras artes, subestimando as
questões formais. A arte se tornou consequentemente um álibi para uma conversa
xaroposa sobre cultura.
[10] Azevedo, C. Sublunar, op. cit., p. 96.
[11] Talvez por isso Silviano Santiago tenha exaltado na posição da obra de
Carlito Azevedo dentro da literatura de língua portuguesa uma volta aos
"píncaros da sua ancestral veia lírica galaico-portuguesa" (sic), que atestaria
o quanto hoje o tradicionalismo se mostra mais experimental do que a vanguarda,
sem propósito maior de superação crítica (Santiago, Silviano. "As ilusões
perdidas da poesia". Ideias, Jornal do Brasil, 15/12/2001, p.
6).
[12] Já consciente dessa armadilha da poesia de seu tempo, sobretudo a
leminskiana, escrevia o primeiro Carlito: "Desconfiar do estalo/ antes de
utilizá-lo// mas sendo impossível/ de todo aboli-lo// desconfiar do estalo/ dar
ao estalo estilo". ("Da inspiração". In: Azevedo, C. Collapsus linguae. Rio de
Janeiro: Lynx, 1991, p. 14).
[13] Azevedo, C. Sob a noite física, op. cit., p. 15.
[14] Azevedo, C. Sublunar, op. cit., pp. 26 e 97.
[15] Azevedo, C. Sob a noite física, op. cit., p. 45.
[16] Em defesa da linguagem transitiva, explica João Cabral de Melo Neto na
abertura de sua Poesia crítica que nunca entendeu "a linguagem poética como uma
coisa autônoma, intransitiva, uma fogueira ardendo por si, cujo interesse
estaria no próprio espetáculo de sua combustão: mas uma forma de linguagem como
qualquer outra" (João Cabral de Melo Neto. Poesia crítica. Rio de Janeiro: José
Olympio Editora, 1982, pp. v- vi). Aproveitando a deixa: ele
foi dos raros escritores brasileiros avançados a passar indiferente aos
influxos do existencialismo, não acatando a partição sartreana entre palavra-
signo e palavra-coisa, usada para distinguir prosa e poesia, pois rejeitava a
sugestão de Qu'est-ce que la littérature? de que o êxito poético residiria no
fracasso comunicativo. Em suma, a argumentação mallarmeana de que o poeta serve
às palavras sem instrumentalizá-las, reiterada por Sartre, é para João Cabral
inaceitável.
[17] Até aqui deixamos de apontar o quanto o jovem Carlito Azevedo partiu da
ruidosa volta ao esteticismo do último Haroldo de Campos, o mestre-guia que a
partir de Signância: Quasi coelum(1979) o ensinou a transformar uma poética
negativa moderna em superfície luxuosa e celebratória. Depois dos anos de
vanguarda, mais precisamente em meados dos anos 1970, a dita barroquização da
poesia de Haroldo de Campos, à cata da beleza das flores, ouropéis ou carapuças
intertextuais, abusou da metalinguagem encantatória e da fantasia narcísica de
alta cultura para projetar o poeta no seio da Grande Criação. Ao romper com a
espacialização e a fragmentação da linha do verso, mas também com o fetiche da
palavra rara e a função icônica do poema, Carlito com independência fundiu o
parti pris neoesteticista com sua própria experiência artística e existencial,
recauchutando a mitologia erudito-literária que Haroldo de Campos forjara na
última fase. Soube também compreender a falência da linguagem objetiva, ou do
funcionalismo concretista, que deu no seu oposto: a barroquização poético-
administrativa de panegíricos, os cromos do globe-trotter, um biografismo
autoengrandecedor e um polemismo de cobrança, que podem ser acompanhados na
trajetória rigorosa do mallarmeísmo pompier que vai de A educação dos cinco
sentidos(1985) a Crisantempo: no espaço curvo nasce um (1998). Um poema como
"Na noite física" por difícil que seja de notar, expressaria de algum modo essa
insatisfação...
[18] Para a imaginação neobarroca, esse modo de escrita remeteria à figura
fabular que é a tatuagem: metáfora encenada na carne, cheia de conotações
rituais e místicas que atestariam a radicalidade vanguardista de uma fusão
escrita/vida. A tatuagem como escrita reforçaria o desejo de que a gratuidade
da fantasia desregrada tomasse a pele em lugar das marcas do tempo, assim
escondendo, ou cancelando, a condição natural do orgânico e fisiológico
(exatamente o contrário do que vemos nas ruas e em toda parte com a banalização
do uso da tatuagem). A contemporaneidade do olhar neobarroco pode assim atestar
o quanto a experiência poética passaria pelo tribalismo, pela regressão sem
medida e pela perversão ritualizada (o que como vimos não vale inteiramente
para Carlito). Também a relação escrita/ pele desencadeia o imaginário
sadomasoquista da inscrição o gozo do espetáculo perverso e colorido de se
deixar ocupar por relatos e símbolos, sempre inacabados e completáveis, cujo
sentido por assim dizer ficaria em suspenso. Para que aflorem as diferenças com
"Na noite física", vejam essa passagem de Severo Sarduy: "A literatura é, como
a que pratica nosso colecionador [de peles, personagem da narrativa Compact, de
Maurice Roche], uma arte da tatuagem: inscreve, cifra na massa amorfa da
linguagem informativa os verdadeiros signos da significação. Mas essa inscrição
não é possível sem ferida, sem perda. Para que a massa informativa se converta
em texto, para que a palavra comunique, o escritor tem que tatuá-la, que
inserir nela seus pictogramas. A escritura seria a arte desses grafos, do
pictural assumido pelo discurso, mas também uma arte da proliferação. A
plasticidade do signo escrito e seu caráter barroco estão presentes em toda
literatura que não esqueça sua natureza de inscrição, o que se poderia chamar
escrituralidade" (Severo Sarduy. Escrito sobre um corpo. São Paulo:
Perspectiva, 1979, pp. 53- 54).
[19] Azevedo, C. Sob a noite física, op. cit., p. 40.
[20] "Na gávea", idem, ibidem, p. 59.