A mídia e a crise da democracia: repensando a política estética
"A mudança observada aqui no modo de exposição - uma mudança trazida pela
tecnologia da reprodução - também é visível na política. A crise da democracia
pode ser entendida como uma crise nas condições que governam a apresentação de
políticos."
Walter Benjamin (1935).
AS NOVAS MÍDIAS E A VELHA DEMOCRACIA
O impacto da tecnologia da comunicação na democracia e nos movimentos sociais
tem sido uma questão fundamental nos campos da teoria social e política desde
que as mídias de massa, incluindo jornais, cinema, rádio e tv, foram
institucionalmente estabelecidas e passaram a desempenhar um papel cada vez
mais crucial na articulação e na mediação de comunicações políticas. É digno de
nota que o recente advento e a ampla propagação de mídias sociais ligadas à
internet, como os sites de redes sociais e a blogosfera, tendem a ir para além
dos limites de uma comunicação de mão única, inseridos nas mídias de massa, e a
promover comunicação mútua em uma escala sem precedentes. Desde o final da
década de 1990, diversas formas de mídia social foram empregadas em movimentos
sociais e campanhas eleitorais por todo o globo. Exemplos notáveis incluem: a
utilização inicial de telefones celulares durante a manifestação
antiglobalização em Seattle em 1999;o emprego entusiástico do Facebook por
coordenadores de campanha de Barack Obama durante a eleição presidencial de
2008; e a propagação das manifestações após as eleições iranianas de 2009,
através do Twitter e do YouTube. Houve, portanto, um grande conjunto de
discussões focadas no aumento das possibilidades para o desenvolvimento de
movimentos populares, de uma representação mais sistemática da opinião pública
e de uma comunicação direta entre os poderes políticos e o público. Apesar
disso, a meu ver, muitas discussões parecem se preocupar demais com a
transformação quantitativa da esfera pública e compartilhar tanto de uma
perspectiva instrumental sobre o uso efetivo de mídias sociais na mobilização
política, como de um ponto de vista otimista demais acerca da melhora da
democracia deliberativa, impulsionada pela avançada tecnologia da comunicação.
Até o momento, deu-se muito menos atenção à questão crucial da mudança na
natureza da própria democracia em conexão com o desenvolvimento da tecnologia
da comunicação. Nesse sentido, chamo atenção particularmente para as discussões
sobre a mídia e a democracia liberal na Alemanha no início do século xx, uma
discussão desenvolvida especialmente pelo crítico social e cultural judeu-
alemão Walter Benjamin (1892-1940).
No período entreguerras, um conjunto de mandarins intelectuais radicais alemães
levantou questões igualmente perceptivas e forneceu insightsque ainda hoje
merecem uma consideração teórica cuidadosa. No contexto da interação entre
tecnologia da comunicação e política, a Alemanha do início do século xx pode
ser caracterizada pela ascensão de movimentos fascistas e pela acelerada
expansão de novas mídias, como o rádio e o cinema. Na República de Weimar,
tanto pensadores conservadores (como Ludwig Klages, Oswald Spengler e
especialmente Ernst Jünger) como intelectuais liberais de esquerda (como Kurt
Tucholsky, Thomas Mann e Bertolt Brecht) estavam plenamente conscientes da
profunda transformação da esfera pública burguesa e do surgimento de uma nova
cultura de massa. Suas primeiras respostas ao impacto das mídias de massa na
política, fossem elas lamentações acerca da "morte" da política deliberativa ou
a aceitação entusiástica de uma nova era de política de massa, convergiam na
crise da democracia liberal. Embora, naquele momento, talvez tenha sido
ofuscado por esses outros escritores políticos, Benjamin também compreendeu a
mudança nas dinâmicas da política relacionando-as ao acelerado crescimento das
mídias de massa na Europa Ocidental e na Rússia no início do século xx. Mais
importante, ao contrário dos pensadores conservadores ou "modernistas
reacionários", na terminologia de Jeffrey Herf1, o insightcrítico de Benjamin
sobre a tecnologia da comunicação e a cultura de massa lhe permitiu conduzir
uma investigação mais penetrante sobre a complexa interação entre as mídias de
massa, a crise da democracia liberal e a ascensão do fascismo.
Neste ensaio, pretendo reexaminar a famosa, ainda que amplamente
incompreendida, tese de Benjamin da estetização da política relacionando-a ao
desenvolvimento das mídias de massa e à crise da democracia. Defendo que a
estetização da política representa o ponto central tanto de sua concepção da
crise da democracia liberal como um sistema político deliberativo e
representativo, quanto de sua compreensão sobre a ascensão do fascismo como uma
forma direta de comunicação política entre um poder político e o público. Meu
estudo da análise de Benjamin sobre a interação entre a política fascista e as
mídias de massa leva a uma consideração crítica mais ampla da função do
espetáculo político na era da mídia. Ao fazer isso, procuro destacar sua
relevância teórica para nossa compreensão da ligação entre as novas mídias e a
democracia, seja ela a "nova" ou a "velha" democracia.
ALGUNS MAL-ENTENDIDOS SOBRE A ESTETIZAÇÃO DA POLÍTICA
A concepção de "política estética" de Benjamin, cujo renome é principalmente de
crítico literário e cultural, foi mencionada apenas esporadicamente nos campos
da teoria social e política. Seu insightsobre a relação entre arte e política é
notoriamente estabelecido em uma passagem explícita, ainda que bastante
metafórica, do ensaio "A obra de arte na era de sua reprodutibilidade
tecnológica"2, escrito por volta de 1935:
A humanidade, que, na época de Homero, era um objeto de contemplação
para os deuses do Olimpo, se tornou agora um objeto de contemplação
para si mesma. Sua auto-alienação chegou ao ponto em que ela pode
experienciar sua própria destruição como um gozo estético de primeira
ordem.Essa é a estetização da política, tal como a pratica o
fascismo. O comunismo responde politizando a arte.3
Essa observação conclusiva levou a algumas interpretações muito simplistas dos
insightsde Benjamin sobre a relação entre arte e política. Uma dessas leituras
redutoras da "estetização da política" identifica o fascismo como uma obra de
arte total "wagneriana"4, enquanto a "politização da arte" é interpretada como
a busca de Benjamin por outra forma de arte propagandística que possa espelhar
a estetização da política5. Essas leituras limitam o insightde Benjamin sobre a
complexa interação entre arte e política a uma abordagem política da arte e,
consequentemente, perdem de vista o contexto político da teoria da arte de
Benjamin. Por um lado, se o pensamento de Benjamin no ensaio "A obra de arte...
" é examinado em conjunto com outros trabalhos, isto é, com "Teorias do
fascismo alemão" e o projeto das Passagens, sua magnum opusincompleta, torna-se
mais evidente que a concepção de Benjamin da estetização da política é mais do
que uma investigação politicamente orientada sobre as dimensões estéticas do
fascismo. Por outro lado, uma leitura contextual mostra também que a
"politização da arte" significa mais do que simplesmente fazer da cultura um
catalizador para a propaganda comunista. Embora seja verdade que Benjamin
apresenta sua famosa tese sobre a "politização da arte" como oposta à
estetização da política, as implicações mais amplas dessa tese foram
infelizmente reduzidas e simplificadas de tal forma que seu argumento é
entendido como se fosse sobre o papel complementar da arte na política. Mais
notavelmente, uma leitura brechtiana tende a alinhar a tese com a defesa de que
a arte deve fornecer um tipo específico de veículo para a propaganda comunista.
É verdade que o uso um tanto alusivo por Benjamin do termo "comunismo" tende a
provocar uma interpretação limitada como essa;mas aqui, na verdade, esse termo
oscila entre sentidos literal-históricos e metafórico-utópicos. Do mesmo modo,
a busca de Benjamin pela "politização da arte" não significa nem a mera
subordinação de um discurso (a estética) a outro (a política), nem sugere que a
arte tenha de manifestar uma ideologia política ou uma tendenciosidade
temática. Além disso, diferentemente do modelo romântico schilleriano da
educação estética, a politização da arte não implica simplesmente um projeto
pedagógico para educar ou treinar os ouvidos ou os olhos a reconhecer a beleza
e a verdade por meio de uma reflexão atenta. Benjamin procura encontrar figuras
e expoentes exemplares que foram capazes de politizar a arte, olhando, por
exemplo, para movimentos de vanguarda contemporâneos que combinam tecnologia e
prática política, tais como o dadaísmo, o surrealismo, a Bauhaus e o teatro
épico de Brecht. A questão-chave para compreender a dimensão política presente
no ensaio "A obra de arte... " é: por que Benjamin se dedicou a um ensaio que
investigava a profunda mudança na natureza da arte nos anos 1930, o mesmo
período em que os regimes fascistas estavam ascendendo rapidamente e
desbancando as democracias?
Os aspectos-chave da crítica de Benjamin da política estética residem no fato
de que ele associou o colapso da arte e da experiência estética burguesas a uma
transformação mais ampla da experiência moderna. Ao compreender a
característica essencial da modernidade como uma "civilização tecnológica",
Benjamin procurou reconectar arte e tecnologia e, além disso, superar a
famigerada dicotomia cultura (Kultur) e civilização (Zivilisation), uma
dicotomia que embasava os discursos filosóficos e sociais de muitos
intelectuais alemães do período. As críticas radicais da democracia liberal
estavam amplamente vinculadas à disposição anticivilização dos pensadores
conservadores da República de Weimar, como Ludwig Klages, Moeller van den Bruck
e especialmente Oswald Spengler. Após a publicação de O declínio do Ocidente
(Der Untergang des Abendlandes, 1918-22), Spengler passou a ser visto como uma
das figuras mais influentes nesse grupo de crítica radical de uma civilização
ocidental desalmada e sórdida e sua democracia representativa degenerada.
Contudo, em seu trabalho posterior, particularmente em O homem e a técnica(Der
Mensch und die Technik, 1931), Spengler, ao contrário de outros críticos
conservadores, procurou reconciliar a Kulturalemã com a política de massa
nacionalista, celebrando e adotando a tecnologia moderna. Aqui se encontra uma
característica distintiva da visão modernista reacionária sobre a tecnologia e
os movimentos de massa. Como observou Herf acertadamente: "enquanto os
conservadores alemães falavam de tecnologia oucultura, os modernistas
reacionários ensinaram a direita alemã a falar em tecnologia ecultura"6.
Modernistas reacionários, como Spengler, não compartilhavam dos sentimentos
antitecnológicos da maior parte dos pensadores conservadores; ao contrário,
eles tentaram combinar reação política com avanço tecnológico. A ideia
modernista-reacionária da tecnologia estava profundamente enraizada na
perspectiva instrumental de relações entre meios e fins e, enquanto tal,
representava um romantismo altamente tecnológico. Além disso, intelectuais de
direita foram atraídos para o fascismo em parte na esperança de que ele poderia
levar à resolução de uma crise cultural na sociedade burguesa, liberando a
tecnologia das restrições sociais e políticas da República de Weimar. Foi Ernst
Jünger quem continuou a vincular a crise da política à representação histórica
das massas.
Na coletânea de ensaios intituladaGuerra e guerreiros(Krieg und Krieger, 1930),
editada por Jünger, intelectuais de direita apresentam um retrato mítico da
Primeira Guerra Mundial e uma imagem heroica do "guerreiro", ao glorificarem as
experiências da linha de frente. A partir das considerações feitas por eles,
Benjamin extrai as principais características do fascismo alemão: a mitificação
da experiência e sua subsequente transformação em consciência coletiva pela
ideologia fascista dos anos 1920. A preocupação de Benjamin com a relação entre
experiência e tecnologia o leva a pensar mais detidamente o papel da tecnologia
no discurso fascista sobre experiência coletiva e histórica. Para Benjamin,
como descrito em seu ensaio de 1930, "Teorias do fascismo alemão", a política
está interessada primeiramente em identificar modos de organizar a experiência.
O fascismo se manifesta como um poder político capaz de manipular a experiência
coletiva, por meio da identificação da derrota na guerra com a perda da
história. Não é coincidência que Jünger se esforce para associar a experiência
mítica da guerra à representação das massas em seu trabalho posterior, O
trabalhador - Dominação e forma(Der Arbeiter - Herrschaft und Gestalt, 1932).
Nesse livro, Jünger procura demonstrar que a representação visual dos
trabalhadores não é condicional ou secundária, mas central à política
antiburguesa, algo que se assemelha à discussão de Benjamin sobre a política
estetizada. Afirma Jünger:
O objetivo deste livro é tornar visível aGestalt
do trabalhador, para além de todas as teorias, todos os partidos e
todos os preconceitos - torná-la visível como uma massa efetiva, que
já interveio na história e que determina imperiosamente as formas de
um mundo transformado. Uma vez que isso é menos uma questão de novos
pensamentos ou de um novo sistema, do que de uma nova realidade, tudo
depende da minúcia da descrição, que demanda olhos capazes de uma
visão completa e nítida
7.
Jünger visa, com suas "preferências totalitárias", associar a "transição de uma
era burguesa de interioridade subjetiva para o pós-industrialismo do poder
visível"8. A grande ênfase na visibilidade do trabalhador por meio da
Gestaltdemonstra sua concepção peculiar da mudança da lógica da comunicação
política: a substituição da deliberação racional baseada em uma cultura
burguesa individual letrada por uma identificação mítica baseada na percepção
coletiva da representação visual. Exigindo uma "visão nítida" para a
comunicação não distorcida e direta entre as massas e o governante, Jünger
busca recuperar a experiência (Erlebnis) imediata em uma forma coletiva.
Baseando-se no argumento de Jünger, a maior parte dos estudos sobre política
estética concebe a esfera pública fascista como algo que envolve uma "bela
ilusão" e tende a identificar o modo de comunicação fascista com a
Gesamtkunstwerk(obra de arte total)9. No entanto, como Susan Sontag deixou
claro, durante o período nazista não era a arte que estava subordinada a
necessidades políticas, mas a política que se apropriava da retórica da arte10.
A identificação da comunicação política fascista com certos tipos de obra de
arte restringe uma análise da política estética a uma interpretação da ilusão e
da falsa representação da realidade. Essa compreensão limitada repete a falácia
da teoria da ideologia e, consequentemente, perde de vista o contexto mais
amplo de uma política estética, uma política que está intrinsecamente ligada ao
desenvolvimento da mídia. Benjamin não vê a política estética simplesmente como
uma obra de arte total "wagneriana". Ele concentra sua atenção em comoa
comunicação fascista foi capaz de substituir juízos morais e políticos pelo
juízo estético por meio do espetáculo político. Sua análise está, portanto,
menos preocupada com a coreografia pública da ação política, do que com os
distintos modos pelos quais uma nova forma de coletividade é formada e
organizada através da experiência estética do espetáculo político11.
Em seu ensaio de 1930, "Teorias do fascismo alemão", Benjamin critica aqueles
aspectos da comunicação de massa que mitologizam a conexão entre a experiência
da guerra e o levante da consciência nacional: "Gravando a paisagem com
bandeiras flamejantes e trincheiras, a tecnologia queria recriar os traços
heroicos do idealismo alemão"12. A abstração metafísica da guerra feita pelos
nacionalistas representa "a tentativa de redimir, de forma mística e sem
mediação, o segredo da natureza, entendido de modo idealista, através da
tecnologia" e busca construir uma coletividade alemã do pós-guerra, por meio da
combinação de "heroísmo" com "máquina de guerra". Como ressalta Hillach, essa
atitude frente à experiência da guerra implica uma combinação reacionária de
"renúncia mítica ao espírito da guerra" e "distanciamento heroico de si mesmo
frente à individualidade"13. A mitificação da experiência da guerra, através do
embelezamento do maquinário de guerra e da mecanização do corpo humano, atinge
seu apogeu no "Manifesto futurista" de Emilio F. T. Marinetti, que declara "a
guerra é bela"14.
De certo modo, no trabalho de Benjamin, a política estética revela os aspectos
antimodernos da política fascista, que procuram mover o Estado para além do
código burguês-democrático da legalidade, da moralidade e da emancipação
política. No interior da política estética, o âmbito político é redefinido como
o lugar da experiência (Erlebnis) autêntica. Assim, a estetização da política
tende a reproduzir a aura, imbuindo a política e as figuras políticas de uma
aura mítica. Nesse sentido, a tese de Benjamin sobre a estetização da política
desvela aqueles aspectos do projeto antimoderno radical que procuram restaurar
a totalidade da vida social, depondo os sistemas sociais fragmentados e
funcionalmente diferenciados da modernidade.
A TRANSFORMAÇÃO DA VISIBILIDADE DO PODER
Para Benjamin, as análises da política estética feitas por intelectuais de
direita, incluindo os futuristas, exemplificam a penetração da esfera política
pelo espetáculo. Sua compreensão mítica da experiência histórica envolve uma
estratégia política que alinha experiência (Erlebnis) vivida com consciência e
ação políticas. Benjamin desenvolve esse tema explorando o papel formador da
mídia, seu impacto na crise do sistema representativo e a subsequente ascensão
do fascismo. Devido à sua abordagem romântica, apesar de afirmativa, da
tecnologia, a crítica da democracia feita pelos modernistas reacionários e sua
defesa da centralidade da experiência coletiva foram erroneamente associadas à
própria crítica de Benjamin da política estética. A noção de Benjamin de
tecnologia, no entanto, difere de modos significativos das concepções
românticas spenglerianas. Sua noção de tecnologia se aproxima menos da
racionalidade instrumental do que de características mais reflexivas e
miméticas. Além disso, enquanto no pensamento de Spengler a noção de cultura
indica o celebrado modo alemão de vida estética, para Benjamin, "cultura" se
refere ao exato oposto, nada mais do que o "monumento da barbárie"15. Aqui, sua
crítica da democracia representativa burguesa concentra-se na importante
questão da própria cultura, uma cultura que está profundamente ligada à
tecnologia da comunicação. Ao explorar a complexa intersecção entre tecnologia,
cultura e civilização, Benjamin caracteriza os principais aspectos da
modernidade como "civilização tecnológica" e chama atenção para a mudança
correspondente nas dinâmicas da política:
As democracias apresentam o político diretamente, em pessoa, frente
aos representantes eleitos. O parlamento é seu público. Mas inovações
nos equipamentos de gravação permitem agora que o orador seja ouvido
por um número ilimitado de pessoas enquanto está falando, e seja
visto por um número ilimitado de pessoas um pouco depois. Isso
significa que se dá prioridade à apresentação do político frente ao
equipamento de gravação. Os parlamentos estão ficando despovoados ao
mesmo tempo que os teatros
16.
O colapso da democracia parlamentar está ligado à transformação da visibilidade
do poder, isto é, da representação do governante. Para Benjamin, essa
transformação da visibilidade do poder é parte de uma transição mais ampla na
natureza da política. De acordo com a concepção de Bobbio da dicotomia entre
público/privado no discurso político ocidental, público significa "aberto ao
público", "realizado na frente de espectadores", enquanto privado, ao
contrário, é aquilo que é dito ou feito em um círculo restrito de pessoas ou,
levado ao extremo, em segredo17. Nesse sentido, como Thompson nota
apropriadamente, a dicotomia entre público/privado diz respeito à publicidade
versusprivacidade, abertura versussegredo, visibilidade versusinvisibilidade:
"Um ato público é um ato visível, realizado abertamente para que qualquer um
possa ver; um ato privado é um ato invisível, um ato realizado secretamente
atrás de portas fechadas"18. A investigação de Benjamin sobre essas mudanças no
parlamento demonstra que sua análise do declínio da aura na era das mídias de
massa - isto é, a destruição da autenticidade e da singularidade da obra de
arte por meio da tecnologia da comunicação, como a fotografia e o cinema - não
se restringe ao âmbito da arte. A crise da democracia representativa coincide
com a ascensão do fascismo, de um modo que se assemelha à substituição da
cultura literária e das experiências estéticas burguesas pela indústria do
entretenimento, fundada sobre uma nova forma de experiência coletiva de choque.
A análise de Benjamin dessas transformações políticas indica que a
predominância do valor da exibição não só está atrelada ao crescimento da
indústria do entretenimento, como também desempenha um papel decisivo na
ascensão de uma nova forma de visibilidade do poder. Benjamin levanta a questão
central de se a crescente visibilidade do poder e as novas possibilidades
geradas pelos meios de comunicação resultam em uma "crise da democracia
representativa", que se baseia na representação transparente da opinião
pública, e não na maior democratização ou no engajamento público. Ele acredita
que aumentos na visibilidade do poder per se, às vezes acompanhados de um
crescimento correspondente na acessibilidade e na abertura, não garantem maior
democratização; ao contrário, ele teme que seja cada vez mais possível
manipular a representação do governante, o que resulta em um enfraquecimento
crucial da democracia representativa.
Benjamin pensa a intersecção entre representação e visibilidade de três formas,
em relação (a) ao governante, (b) ao parlamento e (c) às massas: (a-b) entre o
governante e os membros do parlamento; (b-c) entre os membros do parlamento e
as massas; e (a-c) entre o governante e as massas. Primeiro, Benjamin defende
que a onipresença do governante faz com que o "parlamento se torne o espectador
do governante", o que resulta na "teatralização do parlamento"; como
consequência, "os parlamentos, assim como os teatros, estão desertos"19.
Intelectuais de direita atribuíram o sistema representativo à distorção da
vontade do povo e consideraram o fascismo como uma resolução para esse
problema. Benjamin, contudo, defende que a política fascista não oferece uma
resolução para a crise da representação, mas, na verdade, simplifica a questão
da representação e antecipa a teatralidade da política. Na teatralização do
parlamento, os representantes se tornam o espectador e o parlamento se torna o
próprio espetáculo. Segundo, como o parlamento foi reduzido a uma mera
audiência do governante, há um colapso da democracia representativa e um
desempoderamento do povo20. Terceiro, Benjamin associa a ascensão do fascismo à
maior visibilidade do governante. É cada vez mais possível ao governante ser
apresentado diretamente ao público com a ajuda dos meios de comunicação. O
rádio e o cinema possuem um importante papel a desempenhar na aceleração da
transformação da visibilidade do poder e da esfera pública política.
Governantes são agora convidados a se posicionar frente à mídia e se fazer
públicos. Benjamin observa, então:
O rádio e o cinema estão alterando não só a função do ator
profissional, mas - igualmente - a função daqueles que, como o
político, se apresentam frente a essas mídias. A direção dessa
mudança é a mesma para o ator de cinema e para o político,
independentemente de suas diferentes atribuições. Ela tende à
exibição de habilidades controláveis e transferíveis sob determinadas
condições sociais, assim como o esporte buscou tal exibição sob
determinadas condições naturais. Isso leva a uma nova forma de
seleção - a seleção frente a um aparato - da qual o campeão, a
estrela e o ditador surgem como vitoriosos21.
Na visão de Benjamin, a ampla disseminação das mídias de massa é o fundamento
sobre o qual se ancora a política moderna do populismo: o governante torna-se
capaz de se comunicar com o povo diretamente, e não por meio de seus
representantes. O funcionamento da política depende agora substancialmente da
performance do governante-ator, um evento político no qual todos participam,
tanto o governante como os governados. Benjamin não sugere que o
desenvolvimento das mídias de massa serve inevitavelmente à manutenção do
domínio do governante, mas observa que seu resultado é a vitória do ditador. Na
degeneração da democracia parlamentar e no aumento da importância da relação
direta entre o governante e o povo, Benjamin enxerga a dinâmica dominante da
teatralidade fascista: a vitória da visibilidade mediada de Hitler.
O insightde Benjamin sobre a crise da democracia representativa está
intimamente ligado à questão da transformação da visibilidade do poder. Sua
explicação da predominância do valor de exibição durante o colapso das
categorias estéticas burguesas fornece uma base firme a partir da qual a
questão da ascensão do espetáculo político pode ser investigada de modo
sistemático. Primeiro, Benjamin caracteriza a mudança central da função da obra
de arte como uma passagem do valor de culto para o valor político. Segundo, a
substituição do valor de culto pelo valor de exibição demonstra que, a partir
de agora, a função primária da arte é ser colocada em "exibição". Acima de
tudo, ela é dirigida para sua "função política". Se a política depende da
exposição e do controle do corpo (ou de sua imagem), uma função que os meios de
comunicação possibilitam, então é preciso perguntar se é possível considerar a
política da imagem ou a política da visibilidade do poder como ilustrativas de
todas as políticas na era das mídias de massa.Aqui, Benjamin chega à conclusão
de que o espetáculo tecnologicamente mediado se torna o modo dominante de
comunicação política. A política está vinculada à luta pela visibilidade do
poder, ao menos no período que se segue ao surgimento dos meios eletrônicos de
comunicação22.
A POLÍTICA DO ESPETÁCULO MIDIÁTICO
Considero a tese de Benjamin sobre a "estetização da política" parte de sua
concepção mais ampla do espetáculo político, que esclarece a luta pela
visibilidade do poder articulada pela tecnologia da comunicação. A proliferação
dos filmes de propaganda fascista nos anos 1930 leva Benjamin a examinar o
espetáculo político à luz da reprodução das massas, por um lado, e a dominação
da política pela dinâmica da cultura de consumo, por outro. A concepção de
espetáculo político de Benjamin se baseia em sua tentativa de interpretar a
iconografia mediada do poder e das massas, e de demonstrar a afinidade das
estratégias fascistas de comunicação política com a indústria do entretenimento
na era do capitalismo avançado.
a) A reprodução das massas
A noção de Benjamin de reprodutibilidade tecnológica implica a de reprodução em
"massa". No trabalho de Benjamin, a "reprodução" da arte denota menos uma
"pluralidade", uma mera coleção de ocorrências individuais, do que uma
"massa"23. A reprodução em massa diz respeito ao surgimento e à transformação
das próprias massas: "A reprodução em massa é particularmente favorecida pela
reprodução das massas"24. Uma característica-chave da tecnologia do cinema é
sua afinidade crucial com a lógica da formação das massas. Benjamin ilustra
isso:
Em grandes procissões cerimoniais, convenções gigantescas e eventos
esportivos de massa e na guerra, que alimentam as câmeras, as massas
se deparam frente a frente consigo mesmas. Esse processo, cuja
importância é evidente, está intimamente ligado ao desenvolvimento
das tecnologias de reprodução e de gravação
25.
Os meios de comunicação não afetam apenas a visibilidade do poder em virtude da
apresentação do governante no parlamento, eles também desempenham um papel
decisivo na formação das massas. Isso é alcançado apresentando a elas sua
própria imagem, por meio da "realização do desejo das massas contemporâneas de
aproximar coisas espacial e humanamente" e "superar a singularidade de cada
coisa"26. A tecnologia de representação visual da "massa", capaz de cenas de
multidões e closesindividuais, percebe a "reação simultânea da massa" pela
primeira vez. É essa dupla qualidade da mídia que permite que o filme
possibilite que as massas experienciema si mesmas e apreciemesteticamente seus
próprios movimentos de massa.
Enquanto descreve os "movimentos de massa", Benjamin se refere não apenas à
ascensão do fascismo, mas também aos movimentos socialistas e comunistas do
início do século xx, todos intimamente associados à transformação da
visibilidade das massas modernas. Benjamin enfatiza particularmente os vínculos
entre os movimentos de massa proletários e sua experiência intersubjetiva e
coletiva no cinema: "O proletariado é um coletivo, assim como esses espaços são
espaços coletivos. E somente aqui, no coletivo humano, o cinema pode completar
o trabalho prismático que iniciou ao atuar nesse meio... Nenhum outro meio pôde
reproduzir esse coletivo em movimento"27. Através da experiência de ver sua
própria imagem, uma multidão reconhece a si mesma como uma massa. A
representação da multidão como possuidora de uma subjetividade coletiva não é
secundária, e sim central a toda política enraizada em movimentos de massa.
b) A iconografia do espetáculo político
Em um fragmento escrito por volta de agosto de 1934, Benjamin oferece uma
exposição detalhada da imagem de Hitler, comparando-a ao ar feminino do
personagem Carlito, de Charlie Chaplin. Esse ensaio, "A masculinidade diminuída
de Hitler", foi escrito antes do lançamento de O grande ditador, em 1940.
Enquanto Benjamin escrevia esse fragmento, Hitler assumia o cargo de
Reichspråsident[presidente do Reich], após a morte de Paul von Hindenburg em 2
de agosto de 1934, enquanto renunciava oficialmente ao título de presidente.
Benjamin ressalta as estratégias de gerenciamento de imagem de Hitler,
enfatizando os modos pelos quais ele maximizava o efeito do espetáculo nessas
circunstâncias políticas altamente carregadas: "'Isso acontece apenas uma vez,
e nunca se repete'. Hitler não aceitou o título de presidente do Reich; seu
objetivo era o de impressionar o povo com a singularidade de sua aparição. Essa
singularidade trabalha a favor de seu prestígio magicamente transposto"28.
Sabe-se que por volta de 1932, sob a direção do cantor de ópera Paul Devrient,
Hitler treinou suas expressões faciais em frente ao espelho para produzir um
bom efeito29. Na visão de Benjamin, a principal imagem que Hitler procura criar
é aquela da "masculinidade diminuída": "A tônica central para Hitler não é a
imagem do homem militar, mas aquela do cavalheiro em circunstâncias fáceis. Os
emblemas feudais de autoridade estão desatualizados; só sobraram feitios
masculinos"30. A imagem de Hitler é menos "expressiva" do que "reflexiva", como
sugere Buck-Morss, restituindo ao homem-na-multidão sua própria imagem, "a
imagem narcisista do ego intacto, construída contra o medo do corpo-em-
pedaços": "Não como aquele que lidera, mas como aquele que precisa ser
liderado"31.
Em um paralelo com a análise iconográfica da imagem de Hitler, as ideias de
Benjamin sobre alterações na função do espetáculo, sua mudança do ritual para a
política, derivam de uma situação na qual as técnicas mais avançadas da arte
contemporânea servem primeiramente para embelezar e propagar a imagem do poder.
A concepção de Benjamin sobre o declínio da "esfera autônoma de arte" reflete a
predominância da política na prática artística32. A estética fascista é,
contudo, distinta de outras representações políticas anteriores, no sentido de
que ela coloca as massas no centro do palco: "A arte fascista é a arte da
propaganda. Ela é, portanto, executada para as massas. A propaganda fascista,
além disso, tem de permear toda a vida social. A arte fascista não é, portanto,
executada apenas paraas massas, mas também pelasmassas"33. Diferentemente do
romantismo precedente, a propaganda fascista não exclui as massas do processo
de representação e visualização do poder. Ao contrário, ela realça "as massas"
como um herói mais belo. Essa concepção possui estreita afinidade com a análise
mais sistemática do "ornamento de massa" feita por Siegfried Kracauer,
contemporâneo de Benjamin, na qual defende que as massas são encantadas e
arrebatadas por sua própria apresentação espetacular enquanto massa34. As
massas, no entanto, continuam ainda isoladas e marginalizadas do poder.
Benjamin enfatiza:
Como consequência, alguém poderia presumir que as massas estavam no
controle dessa arte, que elas poderiam utilizá-la como um meio de
autocomunicação (Selbstverståndlichung), que eram donas de sua
própria casa: donas de seus teatros e estádios, donas de seus
estúdios de filmagem e de suas editoras. Todos sabem que esse não é o
caso. Ao contrário, aqueles que dominam esses locais são "a elite". E
essa elite não quer que a arte forneça um meio de autocomunicação
para as massas35.
A característica fundamental do espetáculo político fascista é ele ser um
espetáculo da pseudoautorrepresentação. Os desejos das massas são realizados
apenas por meio da imagem e da representação. Seu statuspolítico e social
permanece substantivamente inalterado. As massas surgem como o sujeito da
história no interior da representação, mas permanecem como objetos passivos no
processo político de tomada de decisão.
A crescente proletarização do homem moderno e a crescente formação
das massas são dois lados de um mesmo processo. O fascismo procura
organizar as massas recentemente proletarizadas, enquanto deixa
intactas as relações de propriedade que elas lutam para abolir. Ele
vê sua salvação na concessão de expressão às massas - mas não em
conceder direitos a elas. As massas têm um direito a relações de
propriedade transformadas; o fascismo procura dar a elas expressão
para manter essas relações inalteradas.O resultado lógico do fascismo
é uma estetização da vida política36.
Como esboçado acima, para Benjamin, a notável distinção entre "proletarização"
e "formação de massas" é crucial. O fascismo realiza um ato precário de
equilíbrio, aceitando uma cultura "proletária" - isto é, uma cultura pós-
burguesa e pós-individual -, enquanto se esforça simultaneamente para "inibir
as demandas coletivistas das massas"37. O principal objetivo do fascismo é o de
preservar o princípio da propriedade privada, equilibrando de uma só vez os
desejos coletivistas das "massas" com o desejo de "aproximar coisas espacial e
humanamente", enquanto abandona a democracia representativa. Dessa forma, como
ressalta Berman, a estranha combinação de expressão e direito, que corresponde
à forma e lei (isto é, estética e justiça), se torna aparente38. Enquanto tal,
a crítica de Benjamin do espetáculo político não aborda em detalhe os temas
ideológicos esperados - o nacionalismo, o irracionalismo mítico e o racismo
biológico, por exemplo -, mas sim a estrutura das dinâmicas comunicativas no
interior da esfera política. Na visão de Benjamin, o fascismo é o herdeiro
legítimo do esteticismo da l'art pour l'art, não em razão de suas pretensões
ideológicas, mas porque ambos são estabelecidos sobre a recusa do direito das
massas à autocomunicação39. De acordo com o prazer escopofílico do poder e das
próprias massas, a experiência coletiva funciona por meio da identificação com
o Führer.Através dessa identificação estética, a política fascista visa
neutralizar o juízo crítico e limitar o prazer corporal autônomo do corpo
individual.
c) A realidade mediada do espetáculo político
A Exposição Mundial (ou Exposition Internationale des Arts et Techniques dans
la Vie Moderne) sempre atraiu Benjamin como uma figura exemplar do espetáculo
urbano, juntamente com as passagens, os panoramas, as lojas de departamento e o
cinema. A Exposição Mundial de Paris em 1937, em particular, é concebida como
um protótipo do espetáculo político e do espaço tecnológico da propaganda no
período do fascismo. Dois pavilhões notáveis se encontravam simbolicamente
contrapostos um ao outro: o da Alemanha nazista e o da União Soviética. O
pavilhão nazista, projetado por Albert Speer, que foi também um dos principais
arquitetos do Zeppelinfeld para a conferência do Partido Nacional-Socialista em
Nuremberg, foi premiado com uma medalha de ouro por seu projeto, assim como o
foi o pavilhão soviético. Nesse espaço gigantesco, o documentário de Leni
Riefenstahl sobre a convenção nazista de Nuremberg, O triunfo da vontade
(Triumph des Willens), foi exibido para audiências globais e ganhou o Grande
Prêmio na Exposição de 1937, em decorrência de suas conquistas tecnológicas e
estéticas. Para Benjamin, que estava no exílio em Paris durante o período da
exposição, esse filme exemplifica fielmente a intersecção do espetáculo
político com a estética cinematográfica fascista. A descrição explícita de
Benjamin das técnicas específicas empregadas para representar as massas e o uso
politicamente regressivo dos novos meios de comunicação se harmonizam com um
grande número de cenas em O triunfo da vontade.
Em geral, movimentos de massa são apreendidos mais claramente pela
câmera do que pelo olho. Uma perspectiva panorâmica captura
agrupamentos de centenas de milhares. E mesmo quando essa perspectiva
não é menos acessível ao olho humano do que à câmera, a imagem
formada pelo olho não pode ser alargada do mesmo modo que pela
fotografia. Isso quer dizer que os movimentos de massa, e acima de
tudo a guerra, são formas de comportamento humano especialmente
adequadas à câmera40.
Riefenstahl explora rigorosamente as possibilidades tecnológicas das câmeras
móveis para evocar uma série interminável de tableaux vivantsimpressionantes.
Como Kracauer nota apropriadamente, enquanto ela está girando, inclinando e
acompanhando suas câmeras, o espectador está tomado pela impressão de "que
frente aos nossos olhos uma vida palpável se torna uma aparição"41. O seu
experimento, que utiliza a perspectiva aérea, reproduz uma distância aurática,
por meio da qual as massas conhecem a si mesmas como "massa". Em O triunfo da
vontade,o deleite com o movimento contínuo serve finalmente apenas para
simbolizar "a prontidão das massas a serem moldadas e usadas à vontade pelo
líder": "A ênfase nesses ornamentos vivos pode ser buscada na intenção de
cativar o espectador com suas qualidades estéticas e levá-lo a crer na solidez
do mundo da suástica"42. A escala gigantesca na qual Riefenstahl representa a
multidão produz uma experiência panorâmica que oprime os sentidos da audiência
com sua própria imagem ampliada.
O fato de que O triunfo da vontadeé um tipo de filme documentário facilitado
pela cinematografia avançada também levanta questões cruciais sobre a realidade
cinemática do espetáculo midiático e sobre a interpretação da realidade
histórica. Em uma entrevista dada em setembro de 1965, Riefenstahl negou que
qualquer um de seus trabalhos, inclusive O triunfo da vontade, eram propaganda,
denominando-os ao contrário cinéma verité: "Nenhuma das cenas é encenada. Tudo
é genuíno. E não há comentários tendenciosos pelo simples motivo de que não há
qualquer comentário. É história - pura história"43. Em oposição a essa visão,
Sontag critica O triunfo da vontadepor sua representação de "uma transformação
radical da realidade já alcançada": "A história se transforma em teatro... Em O
triunfo da vontade,o documento (a imagem) não é apenas o registro da realidade,
mas é a única razão pela qual a realidade foi construída, e tem eventualmente
de substituí-la"44. A discrepância entre o ponto de vista de Riefenstahl e de
Sontag joga luz sobre o principal atributo do espetáculo midiático como uma
realidade mediada entre ilusão e eventos históricos. As duas asserções provêm
da questão da (re)construção da realidade. Elas frequentemente entendem o filme
como uma representação da realidade, e não levam em consideração o modo pelo
qual a realidade ou mesmo a não realidade podem ser aperfeiçoadas pela
representação midiática. Elas prestam pouca atenção ao fato de que mesmo a
ilusão pode ser perfeitamente reproduzida como real. Vista da perspectiva do
espetáculo político, em que a relação entre o real e o representado se
obscurece, O triunfo da vontadeé um espetáculo tecnologicamente reproduzido,
que a audiência considera real. Na terminologia de Adorno, o espetáculo
político está fundamentado na tentativa de criar "a ilusão da realidade
absoluta do não real"45. A superioridade estética do filme de Riefenstahl
reside em sua reconstrução aperfeiçoada, tanto nos termos de suas
características artísticas como nos de suas características técnicas. Seu filme
reproduz a si mesmo, penetra na realidade e eventualmente substitui a realidade
no curso de sua comunicação com as audiências.
d) A mercantilização da política
O fato de que o filme de Riefenstahl é uma "mercadoria" levanta uma questão
acerca da relação entre o espetáculo político e a cultura de consumo, tal como
articulada pela indústria do entretenimento. Na visão de Benjamin, a
estetização da política reflete o processo mais amplo de estetização da vida
cotidiana ou, num sentido mais específico, de "literalização das condições de
vida"46, que corresponde ao surgimento da cultura de consumo no capitalismo
avançado. Como nota Featherstone, "na era do industrialismo, o poder da arte
como ilusão, sua autoridade como uma obra original, a fonte de sua 'aura', foi
deslocada para a indústria, com pinturas se transformando em anúncios
publicitários, a arquitetura em engenharia técnica, artesanatos e escultura em
artes industriais, para produzir uma cultura de massa"47. Quando examina a
estetização da vida cotidiana, Benjamin chama atenção para o fato de que a
estetização do espetáculo também está conectada à lógica da cultura de consumo
e à indústria do entretenimento. Para Benjamin, o espetáculo político está
inevitavelmente manifesto em certas formas de mercadoria e é criado com a ajuda
da cultura de consumo. Como esclarece no escrito de 1939, a racionalização da
sociedade moderna parece ser "uma consequência da representação reificadora da
civilização"48. Benjamin está preocupado em examinar o espetáculo da
modernidade e o modo pelo qual ele é materializado em locais que obedecem à
lógica da cultura da mercadoria - as passagens, as exposições mundiais, o
interior, a rua e a barricada. Para Benjamin, a política não é simplesmente uma
arena separada. No capitalismo avançado, ela está intrinsecamente vinculada à
cultura de consu-mo. De acordo com ele, a mercantilização da política significa
que a política se tornou um objeto vendável de consumo de massa como qualquer
outro.
Uma ampla gama de pesquisas recentes sugere que, mesmo durante o período
nazista, uma grande parte da população levava uma vida dupla, e que a cultura
cotidiana na sociedade nazista dependia profundamente da "atividade de lazer,
do consumo privado, do prazer não político"49. Esses estudos históricos ajudam
a reiterar o argumento de Benjamin de que a política no capitalismo avançado se
torna uma faceta da indústria do entretenimento ou, ao menos, é cada vez mais
influenciada pela busca do prazer que caracteriza a cultura de consumo. Como
notado acima, na análise de Benjamin, a comunicação política fascista se
configura como um espetáculo de massa encenado pelo Estado com a ajuda dos
meios de comunicação. Como um espetáculo de massa, a política fascista deve ser
atrativa para ser comprada e consumida pelas massas. O filme de Riefenstahl
envolve uma forma de mercadoria e coincide com os princípios centrais da
indústria do entretenimento. Em contraposição à democracia liberal, que
supostamente procura estabelecer a arena política como autônoma, a política
fascista surge como um sistema interligado ao capitalismo, como um item
comercializável. Na política da representação, o valor de exibição é central à
comunicação política entre o espetáculo político, entendido como mercadoria, e
as massas, como consumidoras. Assim, quanto mais a política se torna
entrelaçada à cultura de consumo, mais a lógica do espetáculo político segue de
perto a estética da mercadoria. Ao examinar o flâneurvadiando nas passagens, as
massas observando as mercadorias na exposição mundial e a audiência fascinada
pelo cinema, Benjamin joga luz sobre a experiência fantasmagórica do
espetáculo. Esquecimento, anestesia, voyeurismo, prazer visual individual e
coletivo, fragmentação e atomização são aspectos cruciais da experiência
fantasmagórica do espetáculo. Do mesmo modo, o espetáculo político coincide com
uma forma de estética da mercadoria que organiza a experiência do consumidor
nos termos do esquecimento, da fragmentação, etc. Ao organizar a experiência, o
espetáculo político dependia do apelo aos consumidores, apresentando a eles um
produto cuidadosamente projetado. Espelhando a proliferação da publicidade
política, como retrata Berman, a mercantilização do espetáculo político acelera
"a prioridade da imagem sobre a substância e a transformação do orador político
em um ator para os meios de comunicação"50. Por meio de sua análise sobre a
dimensão estética do espetáculo político, Benjamin demonstra que, quando o
prazer visual substitui a comunicação racional na arena política, o colapso da
esfera pública literária burguesa e a crise da democracia liberal se aceleram.
Sua concepção do espetáculo político revela como a teatralização da democracia
parlamentar e o surgimento do espetáculo fascista derivam da interpenetração de
espetáculo político e estética da mercadoria.
DEMOCRACIA NA ERA DO ESPETÁCULO POLÍTICO
Neste ensaio, explorei a concepção de Benjamin da estetização da política no
contexto mais amplo do espetáculo da política, enfatizando seus aspectos
massificados, estetizados e mercantilizados. Ao capturar a essência do
espetáculo político como o anestésico do sistema sensorial humano, Benjamin
consegue explorar uma forma particular de crise política, que está vinculada à
crise dos sistemas de representação e à cultura centrada no olhar. Mostrei que
a ascensão do fascismo está intimamente conectada ao desenvolvimento dos meios
de comunicação, mas que não envolve diretamente a ressurreição da aura ou a
reauratização do poder. Defendi que isso lança luz sobre a principal
característica do espetáculo político, isto é, uma aura artificial reproduzida
pela tecnologia da mídia. Nesse ponto, a abordagem de Benjamin sobre o
espetáculo político diverge de modo decisivo de uma crítica da ideologia
(Ideologiekritik), um tipo específico de crítica desenvolvido pelos membros do
Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt e particularmente por seu
contemporâneo, Theodor W. Adorno. A crítica de Benjamin do espetáculo político
está menos preocupada com a formação da falsa consciência do que com a
alienação do sistema sensorial humano.
Benjamin descreve a política do espetáculo dessa forma: "O objetivo da
revolução é acelerar essa adaptação. Revoluções são inervações do coletivo -
ou, mais precisamente, visam a inervação da parte do novo e historicamente
único coletivo, que tem seus órgãos na nova tecnologia"51. A análise de
Benjamin reflete mais profundamente o impacto do espetáculo político na crise
da experiência moderna, uma crise total da percepção. Contrapondo-se a esse
pano de fundo, a tentativa de Benjamin de politizar a arte constitui uma
tentativa de recuperar o isolado e fragmentado sistema sensorial do corpo
humano.
Jaeho Kang é professor assistente no Departamento de Estudos de Mídia e Cinema
na New School em Nova York.
[1] Herf, J. Reactionary modernism: technology, culture and politics in Weimar
and the Third Reich. Cambridge: Cambridge University Press, 1986.
[2] Daqui em diante, "A obra de arte... "[Ed. bras.: Magia e técnica, arte e
política.Trad. SérgioPaulo Rouanet. SãoPaulo: Brasiliense, 1996].
[3] Benjamin, W. Selected Writings. vol. 3. ed. Howard Eiland e Michael W.
Jennings. Cambridge, MA: Harvard University Press, 2002, p. 122. Daqui em
diante, sw.
[4] Stollmann, R. "Fascist politics asa total workof art: tendenciesof the
aesthetizationof political lifein national socialism". New German Critique, 14,
1978, pp. 41-60.
[5] Wolin, R. Walter Benjamin: an aesthetics of redemption. Berkeley:
Universityof California Press, 1984.
[6] Herf, Reactionary modernism...,op. cit., p. 2.
[7] Apud Berman, R. Modern culture and critical theory. Madison: The University
of Wisconsin Press, 1989, p. 101.
[8] Ibidem, p. 102.
[9] Afirma Stollman: "A esfera pública fascista deve ser entendida como uma
'bela ilusão' que é, no entanto, diferente da 'bela ilusão' da arte, que serve
como um meio de fuga psíquica e privada da realidade. A ilusão fascista é o
resultado concreto de uma fuga da realidade pelas massas pequeno-burguesas, que
são socio economicamente e sociopsicologicamente mais predispostas a tal fuga.
O fascismo alemão pode, portanto, ser entendido como um preenchimento falso,
deturpado e meramente formal dos ideais e intenções da estética clássica, para
os quais a sociedade burguesa não possui qualquer utilidade, isto é, como um
desafio pseudossocialista"("Fascist politics as a total work of art... ", op.
cit. , p. 59).
[10] Sontag, S. Under the sign of Saturn. Londres: Vintage, 2001. Nesse contexto, o discurso de Goebbels sobre a relação entre a
política e a arte implica a visão totalitária da política estética e sua ideia
de beleza como perfeição física. Goebbels afirma que a "política é a arte mais
elevada e abrangente que existe e nós, que moldamos a política moderna alemã,
nos sentimos como artistas... [sendo] a tarefa da arte e do artista a deformar,
moldar, remover os doentes e criar liberdade para os saudáveis" (Apud Sontag,
Under the sign of Saturn, op. cit. , p. 92).
[11] O significado de estética na obra de Benjamin indica um estudo do sistema
sensorial humano, aisthetikos( ), a raiz etimológica grega de estética. O termo
não representa parte de uma teoria das belas-artes, que tende a identificar a
essência da beleza na obra de arte; ele delineia, ao contrário, um estudo da
percepção e do sentido em conexão com certa forma de tecnologia. Falar de uma
política estética, como sugere Koepnick, é examinar o modo pelo qual "a
iconografia fascista coloniza a estrutura da experiência moderna, cativa
sentimentos popularese disciplina a percepção sensorial com a ambição de
integrar a sociedade e de mobilizar as massas para uma futura guerra"
(Koepnick, L. Walter Benjamin and the aesthetics of power. Lincoln: University
of Nebraska Press, 1999, p. 4).
[12] sw, vol. 2, p. 319. [Ed. bras.: Documentos de cultura, documentos de
barbárie. Trad. Christl Brink, Ilka Roth, IreneAroneoutros. São Paulo: Cultrix,
1986. ]
[13] Hillach, A. "The aesthetics of politics: Walter Benjamin's 'Theories
ofgermanfascism'". New German Critique, nº17, 1979, p. 106.
[14] sw, vol. 3, p. 121.
[15] sw, vol. 4, p. 392.
[16] sw, vol. 3, p. 128.
[17] Bobbio, N. Democracy and dictatorship.Cambridge: Polity, 1989, p. 17.
[18] Thompson, John B. The media and modernity. Cambridge: Polity, 1995, p.
123.
[19] sw, vol. 3, p. 128.
[20]Analisando o papel do parlamento como espectador em regimes fascistas,
Hewitt descreve de modo apropriado a crise da democracia representativa:
"Primeiro, o povo entrega seu poder para os 'representantes' eleitos, esses
representantes, por sua vez, deixam depois de representar e se tornam meros
espectadores. O desempoderamento do povo é, então, sinônimo da redução de seu
modo de representação ao statusde especularidade. O elemento político e o
mimético se encontram nessa crítica da representação parlamentar" (Hewitt, A.
Fascist modernism: aesthetics, politics, and the avantgarde. Stanford: Stanford
University Press, 1993, p. 171).
[21] sw, vol. 3, p. 128.
[22] Para uma análise detida da visibilidade do poder no contexto da teoria
social da mídia, ver Thompson, JohnB. "The new visibility". Theory, Culture
& Society, nº22, 2005, pp. 31-51.
[23] Weber, S. Mass mediauras: form, technics, media. Stanford: Stanford
University Press, 1996, p. 84.
[24] sw, vol. 3, p. 132.
[25] Ibidem, p. 132.
[26] Ibidem, p. 105.
[27] sw, vol. 2, p. 18. De modo semelhante, Kaplan oferece uma descrição
explícita da formação das massas e de sua relação com os primeiros anos do
cinema: "multidões assistindo filmes aprendem a partir da tela a conhecerem a
si mesmas como uma multidão: ir ao cinema se torna um ritual de grupo, ou um
lugar onde estranhos se reúnem para sonhar conjuntamente. A multidão passa a
conhecer a si mesma como filme. Sujeitos que conhecem a si mesmos como filme -
isto é, que internalizaram o critério estético oferecido no filme - possuem uma
experiência radicalmente diferente do que se conhecessem a si mesmos através do
filme"(Kaplan, A. Y. Reproductions of banality: fascism, literature and french
intellectual life. Minneapolis: Universityof Minnesota Press, 1986).
[28] sw, vol. 2, p. 793.
[29]Buck-Morss, S. "Aestheticsand anaesthetics: Walter Benjamin's art workessay
reconsidered". New Formations, nº 20, 1993, p. 142.
[30] sw, vol. 2, p. 792.
[31] Buck-Morss, op. cit. , p. 142.
[32] De acordo comGeuss, "a arte autônoma" pode transmitir ao menos dois
sentidos analiticamente distintos. Por um lado, ela pode constituir uma tese
sociológica a respeito de se a "arte" é estabelecida em uma determinada
sociedade como um domínio separado de esforço humano, não sujeito a
interferências externas. Por outro lado, ela pode ser uma tese a respeito da
existência de certos critérios de julgamento e de princípios de avaliação
(Geuss, R. "Artand criticism in Adorno's a esthetics". Journal of European
Philosophy, nº6, 1998, p. 314-5).
[33] Benjamin, W. Gesammelte Schriften, vol. 3, R. Tiedemann e H.
Schweppenhåuser (ed. ), com a colaboração de T. Adorno e G. Scholem. Frankfurt
am Main: Suhrkamp Verlag, 1991, p. 488.
[34] Kracauer, S. The mass ornament: Weimar essays. Cambridge, MA: Harvard
University Press, 1995, p. 75. [Ed. bras. O ornamento da massa. Trad. Marlene
Holzhausene Carlos EduardoJ. Machado. São Paulo: Cosac Naify, 2009. ]
[35] Benjamin, Gesammelte Schriften, op. cit. , p. 488.
[36] sw, vol. 3, pp. 120-1.
[37] Berman, R. "Literaturkritik zwischen Reichsgründung und 1933". In:
Hohendahl, P. U. (ed. ). Geschichte der deutschen Literaturkritik: 17301980.
Stuttgart: Metzler, 1989, p. 37.
[38] Ibidem, p. 37.
[39] sw, vol. 3, p. 122.
[40] sw, vol. 3, pp. 132-3.
[41] Kracauer, Siegfried. From Caligari to Hitler: A psychological history of
the german film.Princeton: Princeton University Press, 1947, p. 302. [Ed.
bras.: De Caligari a Hitler. Uma história psicológica do cinema alemão. Trad.
Teresa Ottoni. Riode Janeiro: Zahar, 1988. ]
[42] Ibidem, p. 302.
[43] Sontag, op. cit. , p. 82.
[44] Ibidem, pp. 82-3.
[45] Adorno, T. W. In search of Wagner. Londres: Verso, 2005, p. 79.
[46] sw, vol. 2, p. 742.
[47] Featherstone, M. Consumer culture and postmodernism. Londres: Sage, 1991,
p. 73.
[48] Benjamin, W. The Arcades Project. Trad. H. EilandeK. McLaughlin.
Cambridge, MA: Harvard University Press. 1999, p. 14. [Ed. bras.: Passagens.
Bolle, W. (org. ). BeloHorizonte: Ed. ufmg, 2006. ]
[49] Koepnick, L. Walter Benjamin and the aesthetics of power. Lincoln:
University of Nebraska Press, 1999, p. 189. Ver
tambémPeukert, D. Inside nazi Germany: conformity, opposition, and racism in
everyday life.NewHaven: Yale University Press, 1987; Kater, M.
H. Different drummers: jazz in the culture of nazi Germany.Oxford: Oxford
University Press, 1992; eSchütz, E. "Das 'Dritte Reich' as
Mediendiktatur. Medienpolitik und Modernisierung in Deutschland 1933 bis 1945".
Monatshefte, nº87, 1995, pp. 129-150.
[50] Berman, R. Modern culture and critical theory, op. cit. , p. 41.
[51] sw, vol. 3, p. 124.