Inscrição e circulação: novas visibilidades e configurações do espaço público
em São Paulo
São Paulo é uma cidade com grafites surpreendentes e extraordinária profusão de
pixações1, imensas manifestações públicas e intensa produção artística.
Estriada pela rápida movimentação das motos por entre as filas de carros em
avenidas congestionadas, assim como pela prática do skate e do parkour, do rap
e do break, a própria cidade é local e tema de uma variedade de atividades
públicas que se apropriam do espaço urbano e o produzem de maneiras inusitadas.
São essas intervenções em áreas públicas que vêm transformando e rearticulando
as profundas desigualdades sociais que sempre marcaram esses espaços. Expressas
simultaneamente como produção artística e intervenção urbana, elas conferem às
camadas subalternas uma nova visibilidade e refletem novas formas de atuação
política. Por outro lado, tais intervenções são contraditórias, pois, ao mesmo
tempo que afirmam o direito à cidade, elas fragmentam a esfera pública; e,
ainda que tornem explícita a discriminação, também recusam a integração. Elas
põem à prova os limites do processo de democratização, ao expandir a abertura
da esfera pública democrática, e os contestam por meio de atos transgressivos
que vão desde aqueles no limiar da ilegalidade até os patentemente criminosos.
Meu propósito aqui é analisar algumas das transformações e tensões geradas em
São Paulo por dois modos específicos e sobrepostos de intervenção: a produção
de inscrições e o deslocamento pelo espaço urbano. A "produção de inscrições"
refere-se à proliferação de grafites e pixações, ambos em estilos típicos de
São Paulo. Já o deslocamento espacial alude não só às novas práticas de
circulação pela cidade, que incluem o uso de motos e skates, assim como o
parkour, mas é muito mais amplo, uma vez que tais deslocamentos são cruciais
para a sociabilidade e o lazer de grupos juvenis, e também constituem aspecto
relevante da grafitagem e da pixação. Os praticantes de ambas as modalidades de
intervenção são quase exclusivamente jovens do sexo masculino, que, à medida
que recriam o espaço público, acabam ainda por configurar hierarquias de
gênero. Tais práticas, sem dúvida, não esgotam as atuais possibilidades de
constituição do espaço público urbano, e seus adeptos representam uma minoria
entre os moradores da metrópole. No entanto, hoje elas estão incorporadas à
rotina da cidade, afetam a vida dos cidadãos para além do grupo estrito de seus
adeptos e ocasionam mudanças paradoxais no ambiente urbano. Essas intervenções
pressupõem a desigualdade e, portanto, a naturalizam. Elas privilegiam a
agressividade e a transgressão como modos de articulação, ao mesmo tempo que
recorrem à linguagem dos direitos e das liberdades, e ainda revelam um prazer
genuíno na livre circulação pela cidade. Colocam em questão certo modus
vivendi, mas não evocam alternativas reconhecidas, como as articuladas em
termos de cidadania e igualdade. Por tudo isso, essas práticas requerem uma
nova concepção tanto do espaço público democrático, como do papel dos grupos
subalternos na produção da cidade.
TERRENO MOVEDIÇO: NOVAS ARTICULAÇÕES DA DESIGUALDADE E DO ESPAÇO PÚBLICO
A desigualdade social é provavelmente a característica mais saliente das
cidades brasileiras. Todavia, nas últimas décadas, ocorreram mudanças
significativas, seja na forma e no significado da desigualdade, seja nas
relações e espaços nos quais esta se manifesta e se reproduz. Notam-se hoje
configurações inusitadas - e muitas vezes contraditórias - da desigualdade em
cidades como São Paulo. Em função de tais configurações é que se podem entender
os modos de intervenção urbana apropriados por grupos de jovens.
Certos indícios dessas novas configurações são óbvios e consensuais. A despeito
da persistência da pobreza, no decorrer das últimas décadas registrou-se
considerável melhoria na infraestrutura e na qualidade física do espaço urbano
em São Paulo, com reflexos diretos e positivos nas condições de vida nas
periferias. Mesmo com a sucessão de planos econômicos e o alto nível de
desemprego, sobretudo na década de 1980, houve notável ampliação no consumo de
massa e no acesso a bens antes de acesso restrito. Alguns produtos, como
celulares e televisores, agora são encontrados por toda parte, enquanto outros,
como casas autoconstruídas e carros, tornaram-se muito mais comuns. A
organização dos movimentos sociais urbanos nas décadas de 1970 e 1980 trouxe os
moradores das periferias para o centro da arena política. Suas manifestações
ocuparam as principais praças, suas reivindicações por direitos foram
incorporadas à Constituição, e suas formas de organizar e influenciar as
políticas públicas tornaram-se rotineiras. Além disso, esses movimentos foram
cruciais para mudanças qualitativas no espaço urbano, uma vez que levaram à
instalação de infraestrutura e serviços públicos em todas as áreas
periféricas2. A democracia se consolidou e passou a ser vista como algo normal.
Todos esses avanços resultaram tanto na expansão da esfera pública e da
cidadania como na melhoria da qualidade de vida e dos espaços dos trabalhadores
pobres.
Mas também ocorreram mudanças na direção oposta. Enquanto a democracia se
institucionalizava, aumentaram os crimes violentos. E a violência gerou uma
proliferação de narrativas - uma "fala do crime" -, articulando preconceitos,
justificando a intolerância e dando origem a um novo modo de produção do espaço
urbano. A cidade tornou-se cada vez mais segregada à medida que seus habitantes
erguiam enclaves fortificados para viver, trabalhar, consumir e se divertir.
Enquanto os moradores se recolhiam a espaços privados e modelados por
tecnologias de proteção e vigilância, e esse aparato de controle e encerramento
transformava-se em indicador de status e estilo de vida, os espaços públicos
acabaram sendo relegados à condição de territórios abandonados, percebidos como
áreas de tensão e perigo.
Isso não impediu a expansão e a consolidação da democracia nem, tampouco, a
recuperação do espaço público. Na última década, a democracia continuou a se
difundir por todos os níveis da sociedade brasileira, para além das esferas
previsíveis das eleições e da política partidária. Na realidade, as práticas
urbanas inovadoras que hoje estampam suas marcas na cidade refletem com
precisão em que medida a democratização possibilitou uma mudança abrangente em
aspectos implícitos da configuração anterior de desigualdade.
Tais práticas recentes colocam em questão um certo modus vivendi, no qual as
desigualdades sociais e espaciais eram reproduzidas sem que fossem diretamente
confrontadas. Diversos arranjos tornavam isso possível. Antes de tudo, São
Paulo era claramente uma cidade dispersa, segregada por grandes distâncias e
áreas desocupadas, onde os mais abastados se concentravam na região central,
enquanto os mais pobres viviam nas periferias3. Os espaços de sociabilidade e
os de circulação distinguiam-se em função das classes. Sem dúvida, as pessoas
se misturavam em áreas públicas, especialmente no centro, mas muitas barreiras
asseguravam a separação, permitindo que, de maneira geral, as distintas camadas
da população se ignorassem. Uma dessas barreiras era a existência de sistemas
diferentes de circulação: o transporte coletivo para os trabalhadores pobres, e
os carros particulares para as classes média e alta; a porta da frente e o
elevador social para estes, e a entrada dos fundos e o elevador de serviço para
aqueles, para citar os exemplos mais óbvios. Outra era o pressuposto, por parte
das classes altas, de certa subserviência dos mais pobres, com a expectativa de
que estes "soubessem seu lugar". Além disso, evidentemente, durante muito tempo
uns e outros viveram sob o clima repressivo e de censura promovido pela
ditadura. Por outro lado, também se notava uma acentuada e difusa confiança no
progresso e na mobilidade social, o que permitia desconsiderar as
desigualdades. Hoje, todas essas referências se alteraram. (Figura_1.)
O abandono do centro por grande parte das classes superiores reflete não só o
temor à criminalidade, mas também o colapso do antigo modus vivendi que
sustentava a segregação e a desigualdade. Está associado à indistinção positiva
conferida à cidade pela democratização, à abertura do centro político aos
moradores das periferias, e à corrosão silenciosa de aspectos dos sistemas de
segregação que antes enquadravam o cotidiano, como a promovida, por exemplo,
pela legislação relativa à discriminação no uso de elevadores e entradas de
edifícios4. Também está vinculada à expansão do consumo de massa que
desestabilizou o sistema de diferenciação baseado em marcas explícitas de
status: em uma cidade com cerca de onze milhões de habitantes e mais de cinco
milhões de carros particulares, é evidente que não são apenas os membros das
classes alta e média que circulam em veículos que também servem de indicadores
de status. Além disso, o entrincheiramento espacial fez com que uma parcela das
classes alta e média se mudasse para áreas afastadas do centro, exatamente para
aquelas áreas periféricas com disponibilidade de terrenos para a construção de
enclaves fortificados. Disso resultou certa proximidade entre membros de grupos
sociais distintos e, ao mesmo tempo, a adoção generalizada de sofisticados e
explícitos aparatos de vigilância e isolamento.
Em seguida, sustento que as recentes práticas urbanas, surgidas com mais
nitidez a partir da década de 1990, vêm ocupando e reconfigurando os espaços
públicos que foram sendo abandonados em consequência do entrincheiramento e da
adoção das tecnologias de segurança. Além disso, tais práticas transformaram o
antigo modus vivendi que garantia a relativa invisibilidade das camadas mais
pobres, assim como a desatenção perante as profundas desigualdades sociais e
espaciais. São os jovens protagonistas das novas práticas urbanas que engendram
novas condições de visibilidade para as camadas subalternas. Aqueles mesmos
jovens, que supostamente deveriam circular por outros locais, passam agora de
maneira transgressora e agressiva a ocupar o espaço público, a imprimir nele
suas marcas, a reivindicar direitos sobre ele e a transformá-lo em local de
lazer. Ao fazerem isso, trazem à luz as desigualdades. Por outro lado, esses
mesmos jovens também rejeitam a incorporação e criam novas desigualdades. A
presença deles na cidade e as contradições daí advindas não podem ser,
portanto, ignoradas5.
INSCRIÇÕES
Hoje, o grafite e a pixação são modos de expressão globalizados, empregados por
jovens de todos os cantos do mundo, os quais mantêm entre si um diálogo que foi
muito facilitado pela internet. Previsivelmente, essas práticas adquiriram
feições próprias em São Paulo. Os grafiteiros e os pixadores imprimem suas
marcas em uma cidade que, poucos anos atrás, implementou ousadas políticas para
a eliminação de outdoors, painéis, placas e outras formas de sinalização no
espaço público. A paisagem urbana estava de tal modo saturada de publicidade e
de anúncios de produtos e empresas que os moradores já os consideravam uma
forma de poluição visual. Em 2006, a administração municipal conseguiu aprovar
uma legislação visando uma solução radical do problema. A chamada "Lei da
Cidade Limpa", promulgada naquele ano, proíbe todos os tipos de anúncios e
cartazes, e regulamenta com rigor as dimensões das placas que identificam lojas
e empresas. Implementada já no ano seguinte, a lei fez com que a cidade se
tornasse provavelmente uma das primeiras metrópoles capitalistas a reduzir
drasticamente a sinalização comercial no espaço público. Com apoio maciço da
população, e sob rigorosa fiscalização das autoridades, os símbolos do capital
e do consumo foram de fato removidos ou compulsoriamente reduzidos. (Figuras_2,
3, 4 e 5.)
Todavia, a despeito de ter tido êxito ao lidar com anúncios publicitários e
placas comerciais, a cidade fracassou em igual medida no controle de práticas
mais transgressivas, como o grafite e a pixação. Ao mesmo tempo que a
publicidade era eliminada e os edifícios repintados, as fachadas destes
passaram a ser recobertas por grafites e pixações. Estas últimas parecem ser
particularmente incontroláveis, apesar dos esforços da administração municipal
no sentido de pintar muros e viadutos em tons cinzentos e com materiais
resistentes à tinta de spray. Hoje as pixações são um pano de fundo onipresente
na cidade, moldando o dia a dia dos paulistanos e, ironicamente, conferindo uma
espécie de uniformidade a todos os tipos de espaço. Elas surgem por todos os
lados e locais possíveis (e mesmo em alguns aparentemente inacessíveis), de uma
ponta a outra da cidade.
Embora tanto o grafite como a pixação sejam gestos transgressivos e tenham
origens similares, e muitos de seus praticantes adotem ambos os estilos,
tratam-se de modalidades distintas de intervenção no espaço público, e a tensa
coexistência delas é um traço peculiar da cena paulistana6. A maioria dos
grafiteiros e dos pixadores é formada de jovens do sexo masculino originários
de bairros não elitizados e não centrais. Diversos grafiteiros são de classe
média e chegaram a concluir o curso superior, mas apenas uma minoria ínfima
frequentou instituições de prestígio, como a Universidade de São Paulo, ou
chegou a morar nos bairros mais ricos7. Já a maioria dos pixadores vem de áreas
periféricas ou cresceu em condições de pobreza acentuada, sem terem tido pleno
acesso a recursos institucionais, desde o sistema escolar até os empregos
regulares8. Muitos deles são afrodescendentes9. Por meio das inscrições
pintadas nos mais diversos locais, eles transcendem seus locais de origem e
suas condições originais, e penetram em todos os tipos de espaço,
reconfigurando-os e apropriando-se deles para ali deixarem suas marcas.
Há diversos estilos de grafite e pixação em São Paulo. Os elementos formais
básicos que os distinguem são o uso da cor e da figuração. O grafite sempre
manteve um relacionamento tenso com o universo da arte. Ainda que esteja fora
do âmbito deste ensaio repassar a história do grafite em São Paulo, cabe
mencionar suas etapas históricas mais importantes. As primeiras manifestações
de grafiteiros chegaram às ruas vindas do campo da arte, nas décadas de 1970 e
1980. Inspiradas por movimentos da vanguarda modernista e da pop art, elas
privilegiavam o uso da tinta e do estêncil10. Em seus primórdios, o grafite
paulistano claramente via a si mesmo como uma forma de arte. Mais tarde, na
etapa seguinte, suas manifestações podem ser remontadas ao grafite hip-hop de
Nova York, e não seria exagero afirmar que percorreu o caminho oposto, ou seja,
das ruas para o campo da arte11. Embora tenham feito uso de letras e
assinaturas, e ainda continuem a produzir pieces e throw-ups similares aos
encontrados em Nova York, os grafiteiros de São Paulo introduziram inovações
tanto nas técnicas como nas imagens.
Atualmente, o que a maioria dos paulistanos identifica como grafite são as
composições enormes e coloridas, sobretudo em muros públicos, pintadas não só
com spray mas também com tinta látex. Os artistas com frequência criam
personagens surpreendentes e imagens complexas que variam de abstratas a
surrealistas. As composições cobrem áreas muito extensas, em viadutos, túneis e
muros de arrimo, mas nunca em vagões de metrô ou em ônibus. Os grafiteiros
paulistanos estabeleceram uma relação amistosa com o poder público,
diferentemente do ocorrido em cidades como Nova York. Em São Paulo, a
prefeitura muitas vezes apoiou os grafites, em vez de reprimi-los e apagá-los,
alegando que contribuem para melhorar, embelezar e recuperar os espaços
públicos. Assim, muitos grafites de grande extensão são autorizados pela
prefeitura, que designa e prepara as superfícies em que serão realizados12. Por
vezes, os grafiteiros contam ainda com o patrocínio de instituições privadas13.
(Figuras_6 e 7.)
Desse modo, o grafite tornou-se uma modalidade de arte pública relativamente
sancionada em São Paulo, e é tão comum que se tornou por si mesmo uma atração
turística: até mesmo excursões para visitá-los podem ser facilmente encontradas
na cidade. Além disso, os mais famosos artistas-grafiteiros de São Paulo, como
osgemeos e Nunca, tornaram-se bem conhecidos e hoje expõem nos principais
circuitos de artes plásticas, desde as grandes galerias de São Paulo até a Tate
Modern londrina e outras, com suas obras alcançando preços elevados. Em julho-
agosto de 2010, realizaram-se pelo menos nove exposições de arte de rua em São
Paulo, tanto no circuito oficial de instituições artísticas, com apoio da
Secretaria Municipal de Cultura e de empresas, como nos circuitos alternativos.
A arte de rua e o grafite estão definitivamente integrados à produção cultural
da cidade. (Figura_8.)
Se o grafite sempre manteve vínculos com o mundo da arte e pode ser assimilado
ao imaginário da arte e da beleza, o mesmo não se dá com a pixação, que não é
facilmente assimilável e guarda um caráter bem mais transgressivo. Equivalente
ao tagging americano, a pixação é a escrita em espaços públicos, quase sempre
sem o recurso à cor e à figuração14. Começou a ser notada na cidade por volta
de 1980 e difundiu-se muito nas décadas de 1990 e 2000. É feita com latas de
spray ou tinta preta aplicada com pequenos rolos de espuma. Em São Paulo, a
pixação tem estilo próprio e reconhecido: uma caligrafia feita de letras
alongadas na vertical com linhas retas e pontas aguçadas. O estilo é por vezes
chamado de "tag reto". Há quem sustente que esse tipo de letra tenha sido
inspirado pelos edifícios altos da cidade. Outros dizem que provém das letras
góticas usadas em encartes e capas de discos de heavy metal e punk, populares
nas décadas de 1980 e 199015. A caligrafia da pixação tornou-se bem homogênea e
difundida, a tal ponto que se buscou codificá-la como uma fonte tipográfica,
batizada de "adrenalina-sp", que hoje é comercializada16. (Figura_9.)
A pixação é vista por seus praticantes como uma intervenção anárquica e uma
espécie de esporte radical. O objetivo é fazer as inscrições nos locais mais
inacessíveis, e experimentar o surto de adrenalina provocado pelo risco à
segurança pessoal. Os pixadores escalam edifícios altos e, sem equipamento de
segurança, fazem as inscrições de cabeça para baixo, muitas vezes pendurados em
posições difíceis e perigosas a fim de marcar seus locais prediletos, o topo
dos prédios. Os acidentes são comuns (mas os pixadores exibem com orgulho suas
cicatrizes) e vários já perderam a vida na tentativa de se superarem uns aos
outros. (Figuras_10 e 11.)
Os pixadores fazem suas inscrições por toda parte, desde fábricas abandonadas e
espaços deteriorados até prédios, residências e peças de mobiliário urbano,
tanto no centro como nas periferias. Eles deixam marcas em todo tipo de
superfície e, como os skatistas e os traceurs (praticantes de parkour), fazem
uma leitura peculiar da arquitetura, apropriando-se dela em função de seus
objetivos. Por vezes, os pixadores comentam que consideram as linhas nas
fachadas dos edifícios como elementos de um gigantesco caderno de caligrafia17.
E procuram orientar as inscrições de acordo com tais linhas, valorizando
sobretudo as letras de tamanho uniforme que mantêm uma relação harmônica com as
dimensões da fachada. (Figura_12.)
Certamente, a pixação tem a ver com a busca da fama - com ser visto e
reconhecido como autor de façanhas ousadas. Tem a ver com deixar uma marca
própria por toda a cidade. E também não resta dúvida de que se trata de uma
prática extremamente competitiva. O universo da pixação é heterogêneo e tenso.
Ele se organiza em grupos, ou "turmas", baseados em um forte sentimento de
coesão interna e lealdade, e que frequentemente se desentendem com outras
turmas em disputas por espaços e reconhecimento. Tais conflitos com frequência
resvalam para a violência e as brigas físicas, ou podem levar aos "atropelos",
a prática de pintar sobre as pixações e os grafites alheios18. Recentemente, os
próprios atropelos saíram das ruas e chegaram às galerias de arte e, no caso
mais notório, à Bienal de Arte de São Paulo de 2008. Para muitos pixadores, a
referência social e emocional mais importante são as turmas de que fazem parte.
Muitos referem-se a elas como sendo suas verdadeiras famílias, pois grande
parte dos pixadores é originária de famílias fragmentadas e problemáticas.
Talvez o mais adequado para descrever essas turmas seja a noção de "irmandade".
O mesmo ocorre com os rappers, que chamam uns aos outros de "manos"19. Trata-se
quase exclusivamente de grupos masculinos não hierarquizados e com fortes
vínculos entre os membros. Todavia, estes nunca se referem a suas turmas como
"gangues", e tampouco se identificam a territórios delimitados, como no caso
das gangues de Los Angeles - ou seja, eles não se organizam em função da
vizinhança ou do bairro20. Violência, competição, brigas, agressividade e
adrenalina são os elementos cruciais do tipo de masculinidade articulado nessas
turmas. (Figuras_13 e 14.)
Os pixadores jamais contaram com apoio da prefeitura. Pelo contrário, são alvos
constantes da repressão policial e do desprezo da população em geral. A imensa
maioria dos moradores de São Paulo detesta as pixações, considerando-as atos
criminosos de vandalismo, ataques à propriedade, e exemplo da degradação e
desfiguração que a obriga a evitar ao máximo os espaços públicos. Normalmente
as pixações são associadas à feiura e a uma vontade de destruição, no polo
oposto ao da arte e da beleza21. Para os pixadores, porém, suas intervenções
expõem as características de um espaço público ao qual dispõem de poucas formas
de acesso e no qual se sentem forçados a impor sua presença. E a proliferação
de inscrições pela cidade só faz aumentar a tensão nas interações públicas com
os jovens que poderiam estar associados à pixação.
A pixação e o grafite são atos transgressivos. Mais do que apropriações
inadequadas do espaço público ou privado, eles estampam na cidade, em especial
nas áreas mais ricas, a presença daqueles que supostamente deveriam se manter
invisíveis. Com isso, o grafite e a pixação desestabilizam o antigo modus
vivendi, com seu sistema de signos, suas relações sociais e suas regras de uso
do espaço público. Graças à pixação, ao grafite e a outras formas de produção
cultural, os jovens de sexo masculino da classe média baixa, e sobretudo das
periferias, não só afirmam sua presença na cidade, como passam a dominar uma
produção própria de signos - por meio da pintura, caligrafia, escrita, rima
(especialmente no caso do rap), vídeo e as inúmeras formas de produção
eletrônica e digital. Além disso, usam tais recursos de maneira agressiva para
denunciar a discriminação de que são alvo. Esses jovens, não mais representados
por outros que costumavam controlar a produção de signos, agora impõem à cidade
suas próprias representações22. Essa produção da representação de si mesmo é,
sem a menor dúvida, uma das consequências mais inovadoras da democratização
brasileira.
Uma das principais novidades dessas intervenções é sua linguagem política. Três
décadas atrás, os moradores das periferias começaram a se representar por meio
de movimentos sociais organizados que os levaram ao centro da esfera pública e
exigiam cidadania e direitos, em especial o direito à cidade. Atualmente, após
mais de vinte anos de democratização, as representações oriundas das periferias
articulam-se em linguagens e instituições distintas das que organizavam as
mobilizações do passado (associações de bairro, sindicatos e comunidades de
base católicas). Agora, é acima de tudo nos campos da produção cultural, da
intervenção urbana, da vida cotidiana e da circulação de signos que se
cristalizam as novas articulações.
Entre as características da São Paulo atual estão, de um lado, a intensa
produção cultural voltada para o consumo de massa e, de outro, as imensas
manifestações públicas de caráter não explicitamente político. A Parada do
Orgulho lgbt, por exemplo, tem levado mais de três milhões de pessoas
anualmente à região da avenida Paulista, tornando-se um dos eventos turísticos
mais concorridos da cidade. Outro tipo comum de reunião de massa, congregando
milhões de participantes, são os eventos religiosos, em especial os promovidos
por grupos evangélicos. Todavia, ainda mais significativas são as intervenções
culturais, que abrangem desde a pixação até a instalação pelo poder público de
grandes centros culturais nas periferias. Uma delas é a concorrida e variada
programação de espetáculos na Virada Cultural - um evento patrocinado pela
prefeitura que apresenta 24 horas ininterruptas de espetáculos artísticos nas
ruas e teatros do centro da cidade. Em 2010, e também em 2011, estima-se que
quatro milhões de pessoas tenham visto mais de mil atrações durante esse dia.
As novas produções artísticas também incluem encontros semanais para leitura de
poemas, os saraus organizados pela Cooperifa e outros grupos das periferias,
reunindo todas as semanas centenas de pessoas interessadas em ler e ouvir
poemas. Graças a essa intensa programação cultural, os membros das camadas
subalternas hoje contam com meios de se expressar que ultrapassam em muito os
tradicionais circuitos do Carnaval e da música popular. Mais do que os
movimentos sociais e a linguagem política do passado, a produção de signos e os
eventos culturais e artísticos de massa ratificam a presença deles no espaço
público. E a mudança nos meios de expressão implica uma mudança no processo de
significação. (Figura_15.)
As pixações, por exemplo, quase sempre são ilegíveis para quem não faz parte do
grupo que as realizou. Não há necessariamente a intenção de que sejam
decifráveis, nem elas normalmente transmitem uma mensagem imediata, muito menos
de natureza política. Durante os anos do regime militar, havia pixações de
cunho político, das quais a mais conhecida era "Abaixo a Ditadura", uma
mensagem escrita para ser entendida, e portanto traçada em letras de forma
simples. Já os pixadores raramente escrevem frases com intuito político. Quando
o fazem, pedem por paz ou escrevem mensagens em letras maiúsculas que revelam
uma visão sarcástica da sociedade: "Cidade Limpa de políticos corruptos" ou
"Brasil... onde graffiti é crime e corrupção é arte"23. No entanto, a pixação
mais comum em São Paulo são as inscrições em "tag reto", compostas de três
partes24. A primeira, na parte central, é o pixo propriamente dito, a etiqueta
que identifica a turma. Todos os pixadores de uma turma escrevem o pixo do
mesmo modo, seguindo um estilo similar. Já a segunda parte, normalmente à
esquerda do pixo, é a chamada "grife". Muita vezes é um diagrama, um logotipo,
e faz referência a um grupo maior que inclui várias turmas. A terceira parte, à
direita do pixo, revela a autoria individual, frequentemente com as iniciais
daqueles que participaram daquela pixação específica, ou com o nome do pixador
acompanhado de uma data. Essa inscrição tripartite indica claramente que a
pixação reflete antes uma coletividade do que um indivíduo: normalmente a
pixação não é feita por um indivíduo solitário, mas por um grupo. E às vezes
são acrescentados os nomes de pixadores já mortos, como forma de homenagem e
rememoração. (Figura_16.)
Ambas são compostas de três partes. A superior inclui dois nomes - "Dominios"
(a partir da extremidade esquerda do prédio) e "Bebados" -, seguidos da
assinatura do autor (Jão) e da data (07). A pixação inferior exibe o logo da
grife Os Mais Imundos (o, s, m, i), e depois o nome da turma (Conex), a
assinatura do autor (Fe), a data (2010) e as letras zl (Zona Leste), a região
originária dessa turma.
Os nomes das turmas e das grifes costumam fazer referências a noções de
criminalidade, marginalidade, sujeira, transgressão, drogas e loucura, como Os
Mais Imundos, Vício, Os Porra Nenhuma, Energúmenos, Túmulos, Anormais e Os
Piores, entre outros. Tais nomes reafirmam a estigmatização como modalidade de
intervenção urbana, uma prática igualmente comum no rap. Pixadores e rappers
preferem se identificar por expressões depreciativas. Com isso, produzem um
estranhamento incômodo e chamam a atenção para a discriminação de que são
objeto. Tal estratégia pode ser contrastada com a dos movimentos sociais
urbanos da época anterior, nos quais predominava a permanente insistência de
que seus membros eram cidadãos e trabalhadores dignos25.
Todavia, a interpretação das intervenções dos pixadores no espaço urbano não se
deve restringir a um exame do significado de suas palavras, pois estas muitas
vezes são ilegíveis e não passam de significantes vazios, como argumentou anos
atrás Jean Baudrillard, em esclarecedora análise dos grafites de Nova York.
Antes, trata-se de signos que operam em relação a outros signos. Nesse
contexto, o impacto deles decorre justamente do fato de serem significantes
vazios. A "intuição revolucionária" de que são portadores, diz Baudrillard26,
vem da percepção de que a "ideologia não mais funciona no nível dos
significados políticos, e sim no dos significantes, e que é bem aí onde o
sistema é vulnerável e deve ser desmantelado". Os grafites, mas sobretudo as
pixações, são ataques no plano do significante. (Figuras_17 e 18.)
E são ataques incisivos. No entanto, ainda que agressivamente públicas, as
pixações não revelam a menor intenção de promover a dignidade, a cidadania, as
leis ou o Estado de Direito, como se dava com os movimentos sociais urbanos.
Elas não são gestos em favor da inclusão social, como no caso de alguns
grafites que se tornaram ícones da arte urbana. As pixações são transgressões
explícitas, marcadas pela agressividade e por uma teimosa resistência à
assimilação. Elas acatam a ilegalidade como algo ao mesmo tempo inevitável e
desejável, como o único lugar do qual os jovens da periferia podem se
expressar. São claramente contestadoras, e é a insistência delas em sua própria
natureza ilícita, e não em mensagens que possam ser decifradas, que revela suas
intenções. Como resume o pixador Djan, no filme Pixo: "Pixação é ilegal, e a
essência tá nisso. Pixação é anarquia pura, é ódio". Daí o questionamento de
outro jovem associado à pixação conhecido como Choque Photos: "Que sociedade é
essa que forma uma geração inteira de jovens que precisa se expressar através
da destruição?"27. "Ódio" é um termo que surge com frequência em discussões
sobre a pixação. Mas há quem conteste o próprio ódio. Desde alguns anos, alguém
vem pixando os muros da cidade sempre com a mesma frase: Odeie seu ódio!
CIRCULAÇÃO
As inscrições urbanas - e seus complexos significados de beleza e
agressividade, de apoio oficial e apropriação ilícita - coexistem com várias
outras maneiras de produzir a cidade. Algumas delas são menos tangíveis, como
no caso das práticas de circulação pela cidade. Sob a via elevada numa das
avenidas mais movimentadas de São Paulo foram pintadas frases que captam a
essência de algumas das recentes práticas urbanas: "pule a catraca", "Passe
Livre Já!!" e "uma cidade só existe para quem pode se movimentar por ela!!"28.
São inscrições intrigantes em uma cidade segregada por muros e longas
distâncias, tomada pelo medo da criminalidade e frequentemente imobilizada em
congestionamentos gigantescos. Esse tipo de manifesto urbano afirma o desejo de
se apropriar da cidade percorrendo-a em todas as direções e, ao mesmo tempo,
reconhece a dificuldade de se fazer isso devido ao custo dos transportes
coletivos. Portanto, ocorre aí, ao mesmo tempo, a identificação de uma
injustiça social e a reivindicação do direito à cidade. Configura ainda um uso
da arte de rua e uma incitação a atos transgressivos como modalidade de
articulação política para aqueles jovens que se mostram pouco inclinados a
ficar restritos aos territórios das periferias empobrecidas que supostamente
seriam seu "lugar". Eles querem ter acesso a toda a cidade, a esses mesmos
espaços urbanos progressivamente abandonados pelas classes superiores. E é de
forma agressiva, ilícita, arriscada e excitante que eles tomam conta da cidade
e imprimem uma nova dinâmica a sua vida social e espacial.
Para muitos jovens, São Paulo tornou-se um espaço de mobilidade,
experimentação, lazer e risco. Eles têm um conhecimento profundo da cidade,
curiosidade sobre seus espaços diferentes e encontram prazer em explorá-los.
Pixadores e grafiteiros, assim como skatistas, traceurs, rappers e praticantes
de break, para não falar dos motoboys, circulam incessantemente por toda São
Paulo29. Em geral, muitas dessas pessoas se enquadram em várias dessas
categorias e têm em comum um enorme prazer e comprometimento com a cidade.
Todos esses performers são decifradores dos espaços urbanos e os exploram desde
ângulos inusitados, como, por exemplo, o topo dos edifícios mais altos
(escalados pelo exterior), os corrimãos que servem de guia aos skatistas, os
muros que devem ser transpostos pelos traceurs, as ruas e avenidas percorridas
em alta velocidade pelos motociclistas entre as filas de carros, ou ainda
diversos locais que ninguém mais se arrisca a visitar, como as galerias de
esgoto aproveitadas como suporte para grafites30.
Esses exploradores urbanos quase sempre moram nas periferias, mas nunca limitam
a elas seus movimentos. Os pixadores movem-se por todos os lados, tanto para se
divertir como para fazer suas inscrições. Consideram a cidade inteira uma tela,
mesmo que concentrem as pixações no centro, ponto crucial de encontros e
valorizado pela maior visibilidade dos pixos. O centro também é uma região
privilegiada por skatistas, rappers e praticantes de break, que ali costumam se
encontrar, muitas vezes nas proximidades das estações de metrô. Assim, em
função de sua extrema mobilidade e de suas práticas espaciais, esses performers
urbanos acabam rompendo a dicotomia centro-periferia há muito subjacente às
análises e vivências urbanas de moradores e cientistas sociais.
Obviamente, a circulação intensiva não é novidade para os moradores das
periferias, que sempre moraram longe de seus empregos e são obrigados a passar
longas horas entre a casa e o trabalho. Vários estudos revelam que não é raro
para esses moradores gastar de três a quatro horas diárias em transportes
coletivos31. No entanto, a circulação dos jovens apresenta hoje características
distintas. Nem sempre eles se deslocam em função do trabalho. Quando o fazem,
este é apenas um dos aspectos de sua movimentação. Com frequência, eles
circulam por prazer, simplesmente para desfrutar da cidade. Enquanto os
moradores das classes média e alta se fecham em enclaves fortificados e só
contemplam a cidade detrás das janelas fechadas e escurecidas dos carros, os
jovens exploradores urbanos são capazes de aproveitá-la abertamente, em toda
parte e em toda a sua variedade. Além disso, afirmam seu direito de fazer isso
apenas por fazer, sem outros motivos: "Uma cidade só existe para quem pode se
movimentar por ela".
Os skatistas são outros que percorrem a cidade inteira, ainda que se reúnam em
determinados locais, ocupando algumas avenidas durante a madrugada ou amplos
espaços no centro que ficam relativamente vazios nos fins de semana. Também
usam as rampas especiais existentes em parques e centros culturais. Os adeptos
do parkour, um tipo mais recente de performance urbana, aproveitam praças e
parques públicos para treinar e depois realizam seus percursos em edifícios,
viadutos, pontes e ruas. Os traceurs correm pelos espaços públicos, superando
os obstáculos à medida mesmo que vão definindo os trajetos. Enquanto saltam de
viadutos ou escalam fachadas, às vezes chegam aos mesmos topos de prédios nos
quais os pixadores costumam deixar suas marcas.
Assim como os grafiteiros, os skatistas e os praticantes do parkour mantêm um
relacionamento amistoso com o poder público. Ainda que tais atividades
continuem a ser realizadas como meio de desfrutar a cidade, e sejam atividades
urbanas improvisadas e transgressivas, elas foram em parte legitimadas pela
administração municipal, que as considera como esporte ou arte de rua,
patrocina eventos e procura regulamentá-las32. (Figuras_19 e 20.)
A circulação de skatistas e traceurs é assimilável de maneira relativamente
tranquila, mas o mesmo certamente não vale para grupos de jovens empenhados em
outros tipos de movimentação. Hoje, provavelmente a maior fonte de tensão no
espaço público é a convivência nas ruas com a imensa quantidade de
motociclistas. Como se sabe, em São Paulo, duas das ocupações mais acessíveis
aos jovens, as de office boy e motoboy, são variantes do mesmo serviço:
transportar documentos e objetos entre dois pontos na cidade, e realizar
tarefas para terceiros, com a maior rapidez possível, em meio ao tráfego pesado
e junto a repartições públicas igualmente congestionadas. A função de office
boy existe há muito, quase sempre realizada por homens muito jovens, e é
tradicionalmente o primeiro emprego dos filhos da classe trabalhadora. São eles
que ficam em filas para obter documentos ou pagar contas, circulando pela
cidade a pé ou em transportes públicos. Os motoboys exercem a mesma função, mas
se deslocam em motos, e portanto devem ter pelo menos 18 anos, a idade mínima
para se obter a carteira de habilitação. Além de documentos, também se
encarregam do transporte de vários tipos de produtos, como alimentos, remédios,
livros ou flores - ou seja, tudo o que pode ser adquirido por telefone ou pela
internet e entregue em casa ou no escritório. E, por vezes, ainda levam
pessoas, agora que começa a se difundir o serviço de mototáxi. Espera-se que os
motoboys façam as entregas ou cumpram as tarefas com a maior presteza possível,
o que não é nada fácil em uma região metropolitana imensa e com o tráfego
normalmente congestionado. Há mulheres que fazem esse serviço em São Paulo, mas
a grande maioria dos motoboys é constituída de homens, o que se reflete no
próprio nome da categoria, como se esta fosse exclusivamente masculina.
Mais do que qualquer outro grupo, são esses jovens, costurando entre as filas
de carros e cruzando a cidade em todas as direções, que a conhecem em todos os
seus meandros. Eles funcionam como agentes comunicadores, tanto para quem lhes
contrata os serviços, como para outros manos das periferias, para os quais são
portadores e disseminadores de informações e, por vezes, também de documentos e
produtos. Mesmo que a circulação dos motoboys pela cidade não tenha - ao menos
não primordialmente - uma finalidade prazerosa, em muitos aspectos eles
partilham as perspectivas e as vivências dos outros exploradores urbanos.
Muitos deles são pixadores, e aproveitam os deslocamentos remunerados para
fazer inscrições pelo caminho. Vários pixadores relatam que a pixação surgiu,
duas décadas atrás, em encontros de office boys no centro da cidade. Hoje,
motoboys, pixadores, rappers, skatistas e praticantes de break se reúnem por
toda a cidade para realizar projetos conjuntos, travar relações, partilhar
músicas, negociar roupas e cds e dvds piratas. Nos finais de semana, muitos
circulam em grupos de uma região a outra nas periferias durante a noite, em
busca de eventos de rap e dança, e às vezes também para pixar.
Porém, ser motoboy é um trabalho, uma ocupação de alto risco e cujo
relacionamento com os outros moradores da cidade é bastante conflitivo. Variam
as estimativas quanto ao número de motoboys em São Paulo, mas nenhuma fonte
menciona menos de 120 mil e outras chegam até a 250 mil33. Eles surgiram na
década de 1980 e continuaram a crescer exponencialmente na década seguinte,
refletindo a diversificação do setor de serviços e a piora do tráfego devido à
quantidade crescente de veículos nas ruas34. Com cerca de 11 milhões de
habitantes, São Paulo contava, em agosto de 2011, mais de 7 milhões de veículos
registrados. Desse total, mais de 5 milhões eram automóveis, e cerca de 900 mil
motocicletas35. Hoje os motoboys dominam o tráfego em algumas das principais
avenidas, dirigindo perigosamente em espaços viários que não foram concebidos
para tal uso. As tentativas das autoridades municipais para regular o tráfego e
reservar faixas especiais para as motocicletas deram poucos resultados. De
maneira geral, os motoristas de carros odeiam os motociclistas, pois estes
tornam a experiência de dirigir muito mais tensa e difícil (dificultando, por
exemplo, as mudanças de faixa em certas avenidas). Além disso, o aumento de
crimes cometidos por motociclistas disseminou a vinculação dos motoboys em
geral à criminalidade, reforçando assim os temores em relação a eles. Os
próprios motoboys queixam-se com amargura da desconsideração por parte dos
donos de carros, dos ataques de que são alvo e do preconceito com que são
vistos36. Não admira, nesse contexto, a escalada de agressões no trânsito. Os
acidentes são corriqueiros. Em 2010, os acidentes com motociclistas
representaram 48% de todas as ocorrências, embora as motos sejam apenas cerca
de 12% dos veículos em circulação37. A quantidade de mortes de motociclistas em
São Paulo saltou de 86, em 2000, para 262, em 2010, e mesmo assim esse total
provavelmente está abaixo da realidade38. E essa estatística não leva em conta
o grande número de motociclistas que todos os dias sofre ferimentos, de
gravidade variável, no trânsito.
Um tema persistente nos comentários em geral indignados dos paulistanos a
respeito dos motoboys são os danos que estes provocam nos espelhos laterais dos
automóveis. Os próprios motoboys com frequência trazem à baila o assunto. Ao
passarem velozmente pelos estreitos corredores entre as filas de carros, por
vezes acontece de atingirem os espelhos laterais. Os motoristas dos carros os
acusam de agir assim de propósito, o que de fato ocorre vez por outra, quando
chutam os espelhos. Este é mais um dos inúmeros exemplos de falta de civilidade
no trânsito paulistano. Todavia, neste caso, o simbolismo é particularmente
revelador. Como os donos dos carros particulares frequentemente ficam parados
em congestionamentos nas principais avenidas, o que costumam ver nos espelhos
retrovisores, sobretudo nos laterais, são os motoboys em movimento. A presença
destes transtorna um espaço que supostamente deveria permanecer desocupado e
sob controle dos motoristas dos carros. E isso incomoda aqueles cuja
propriedade de um automóvel vem acompanhada de noções de distinção social e de
depreciação da experiência de uso dos transportes coletivos.
Na verdade, os motoboys são os mais visíveis de todos os protagonistas das
novas práticas urbanas em São Paulo. Por mais que as pixações estejam em toda
parte, em geral ninguém vê os pixadores. Já os motoboys estão sempre ali,
fisicamente, ruidosamente próximos, surgindo de repente nos retrovisores. Eles
são vistos com desprezo e ódio pelos outros moradores que, ao contrário dos
novos exploradores urbanos, pouco apreciam o espaço público da cidade e fazem
de tudo para evitá-lo.
Novas modalidades de circulação por São Paulo também ocorrem fora das ruas da
cidade, naquilo que Manuel Castells39 denomina de o "espaço dos fluxos". A
caminhada, o skatismo, o parkour e o motociclismo são todas atividades efêmeras
que não deixam rastro depois de concluídas. Todavia, o acesso facilitado ao
vídeo, à fotografia digital e à internet tornou viável uma nova dimensão de
existência incorpórea, assim como uma arena para diálogos globais entre os
grupos de jovens. Skatistas e traceurs fazem questão de registrar suas
façanhas, muitas vezes recorrendo a celulares com câmeras. Tais imagens acabam
invariavelmente na internet, onde adquirem outro tipo de existência. Exemplo
disso são os doze membros do Canal*motoboy, que vêm experimentando modalidades
inusitadas de intervenção urbana. Todos carregam celulares com câmeras de vídeo
e transmitem suas experiências em tempo real, tornando-se assim, como dizem,
"cronistas de nossa própria realidade"40. O subtítulo da página deles na
internet é "Espaço Público Digital"41.
Atuando tanto nas ruas como na internet, esses exploradores urbanos jogam com a
escala e o contexto não só para obter um público, mas sobretudo para conferir
certa perdurabilidade à sua experiência. Eles trocam de espaço na tentativa de
conquistar o tempo. Isso também vale para os grafiteiros e os pixadores, cujas
marcas podem ser apagadas ou desfiguradas nos muros, mas que ganham uma
sobrevida na internet. No entanto, essas inscrições, em especial as pixações,
contam com outro recurso para perdurarem na cidade. Elas são repetitivas. A
notoriedade de uma turma e seus membros vem da reiteração, da capacidade que
têm de distribuir o mesmo signo por toda a cidade. Inscrições únicas não duram
muito: o que perdura é a presença coletiva delas e sua produção reiterada42.
RECRIAÇÕES PARADOXAIS DO ESPAÇO PÚBLICO
Tais práticas inovadoras de produção de signos, interferência no espaço público
e circulação pela cidade estão reconfigurando o espaço público e afirmando a
presença ativa desses grupos de jovens na São Paulo contemporânea. Quatro
conjuntos de características resumem as principais inovações introduzidas por
eles na produção do espaço público. Primeiro, eles criam uma nova visibilidade
e um novo tipo de presença para os grupos subalternos que rompem um estado de
coisas antes constitutivo da ordem pública. Segundo, essa ruptura é
contraditória, pois remete a narrativas de direitos e de desfrute e, ao mesmo
tempo, se exprime como risco ou tensão, assumindo muitas vezes formas ilícitas
e até violentas. Terceiro, tais práticas contribuem, de modo inequívoco, para
reproduzir e reforçar hierarquias de gênero. Por fim, quarto, constituem
intervenções paradoxais. De maneira reiterada, elas expandem e fraturam o
espaço público, reivindicam direitos e os contestam, afirmam o gozo e cortejam
a morte, e denunciam injustiças mas rejeitam obstinadamente a assimilação. Cabe
aqui explicitar esses pontos.
As recentes práticas urbanas geram uma nova e disseminada lógica de
visibilidade para os grupos subalternos. A despeito do entrincheiramento e dos
sistemas de vigilância que supostamente deveriam regular e restringir a
presença e a mobilidade dos jovens, estes continuam a circular, a transitar por
espaços inesperados e a forçar uma recalibração dos olhares. Quando, na cidade,
as distâncias físicas entre as classes eram maiores, os deslocamentos mais
difíceis, os conhecimentos e as tecnologias de comunicação menos acessíveis e
os comportamentos mais controlados, a presença ativa dos membros das classes
inferiores era menos notável, menos transgressiva e menos inconveniente. As
classes alta e média ainda controlavam o uso do espaço público de maneira
incontestada. Hoje, enquanto os mais ricos preferem se recolher a enclaves
murados, e foi reduzida a sinalização comercial e empresarial, os jovens das
periferias e suas produções passaram a se destacar mais nos espaços públicos,
revertendo assim uma tendência histórica.
Essa visibilidade inédita está associada a um novo tipo de agenciamento. Esses
flaneurs originários das margens de uma sociedade marcada por enorme
desigualdade afirmam por fim seu direito a transitar pela cidade, contemplá-la
dos pontos mais altos, produzir seus signos, representar a si mesmos e influir
em sua esfera pública. Ao fazer isso, é inevitável que tragam à tona as
desigualdades, tensões, intolerâncias e temores que estão no âmago da sociedade
brasileira. Literal e metaforicamente, eles atrapalham o trânsito. Não estão
mais segregados nas periferias onde moram nem se restringem a circuitos
próprios de mobilidade, como os transportes coletivos e os trajetos entre a
casa e o trabalho. Eles circulam intensamente a fim de desfrutar da cidade
porque é isso o que apreciam fazer, e não porque são obrigados a tanto. Nenhuma
interpretação de seus movimentos baseada em noções de necessidade será capaz de
captar seu pleno significado.
Além disso, esses jovens que imprimem suas marcas na cidade agora dominam
várias técnicas que antes estavam ao alcance apenas das classes superiores, o
que lhes permite produzir formas requintadas de autorrepresentação. Mesmo que
muitos tenham abandonado a escola, são capazes de criar estilos artísticos e
caligráficos surpreendentes, e de participar de redes globalizadas de produção
e difusão de signos. Com tais qualificações, podem impor suas representações ao
resto da cidade, e não precisam de ninguém que fale em seu nome.
Sem dúvida, o transtorno provocado por tal movimentação gera tensão. Eles
ornamentam o espaço público mas também o desfiguram, pixando prédios e
residências, monumentos e viadutos. Eles enfurecem os moradores da cidade ao
não respeitar as leis. Recusam pagar pelo transporte coletivo, ameaçando quem
insiste em cobrar o valor da passagem, e ainda costumam se unir a torcedores
que danificam carros e prédios a caminho dos estádios de futebol. Às vezes, seu
comportamento desemboca na criminalidade explícita, uma opção sempre viável em
várias regiões da cidade. Afinal, a informação necessária para um pixador
escalar um prédio é a mesma requerida para assaltá-lo. E são corriqueiras as
brigas entre as turmas, que por vezes levam a assassinatos, a principal causa
de óbito entre os jovens paulistanos.
Na verdade, a violência e a morte estão sempre presentes. Em São Paulo, a taxa
de óbito dos jovens é alarmante, como se vê na Tabela_1, mesmo com a
substancial redução das taxas de homicídio registrada na década passada, tanto
em São Paulo como em outras cidades43. Seria possível especular que o aumento
da mobilidade é um subproduto do declínio na quantidade de mortes violentas.
Sem dúvida, é mais fácil circular por uma cidade que registra menos
assassinatos. Mesmo assim, continua alto o nível de violência, e a mortalidade
no grupo dos jovens que mais circulam pela cidade, os motoboys, vem crescendo
de modo significativo.
Mas o que se nota ainda na Tabela_1 é uma evidente defasagem em termos de
gênero. Mais de 90% dos que morrem a cada ano de modo violento em São Paulo são
homens, sobretudo jovens. Os homens jovens se mostram mais propensos a assumir
riscos nas mais diversas situações, entre as quais todas aquelas práticas
discutidas acima. Eles andam de skate no meio das ruas; conduzem perigosamente
as motos entre as faixas de tráfego rápido; pixam como uma forma de esporte
radical, o que requer a escalada de prédios sem equipamentos de segurança;
fazem parkour em pontes e entre edifícios; penduram-se do topo de edifícios
altos para pixar suas fachadas; e envolvem-se em brigas de turmas. Enquanto
reinventam suas subjetividades por meio desses comportamentos agressivos e
perigosos, esses jovens recriam igualmente as hierarquias de gênero. Não só
excluem as mulheres como também as menosprezam, um sentimento bem arraigado e
explícito na cultura do rap. E as jovens desprezadas não dispõem de formas
equivalentes de produção cultural ou prática urbana. No entanto, elas são em
média mais escolarizadas, têm empregos mais estáveis e, cada vez mais, tornam-
se responsáveis por famílias, em muitos casos preferindo fazer isso sem o apoio
dos parceiros. Tais escolhas ampliam a distância entre os gêneros e a tornam
mais difícil de ser transposta. Essa desigualdade de gênero reconfigurada está
no âmago do novo tipo de esfera pública constituído por essas práticas urbanas.
Desse modo, o espaço público na São Paulo atual é, sob muitos aspectos,
paradoxal. Para circularem com liberdade e não serem simplesmente esmagados
pela repressão, os jovens das periferias que usam o espaço público para
práticas agressivas dependem dos princípios de tolerância e inclusão inscritos
historicamente nesse espaço pelo processo de democratização. Todavia, em São
Paulo, essa democracia é claramente disjuntiva: uma democracia na qual a
presença no espaço público dos jovens das periferias tem um caráter agressivo,
e as relações entre as classes estão baseadas em intolerância, preconceito,
evitação e, muitas vezes, medo. É, ainda, uma democracia na qual a contestação
se exprime em novas linguagens políticas. As novas intervenções urbanas operam
segundo uma lógica distinta daquela introduzida pelos movimentos sociais
urbanos na década de 1980, quando se iniciou o processo de democratização.
Esses novos atores afastam-se das linguagens políticas e das formas de
manifestação já estabelecidas e, em vez disso, privilegiam a produção de
signos, os eventos artísticos e culturais, assim como as práticas de
mobilidade. Os movimentos sociais anteriores lutavam pela inclusão e
articulavam narrativas de cidadania universal. Já os novos atores são céticos
quanto à possibilidade de inclusão social, concebendo suas iniciativas como
explícita e deliberadamente situadas nas margens. À medida que se apropriam de
espaços abandonados pelo entrincheiramento urbano, eles assumem e naturalizam a
desigualdade social. Embora denunciem a desigualdade, não imaginam que suas
práticas vão contribuir para reduzi-la. Reivindicam seus direitos à cidade, mas
em sua maioria não têm interesse na inclusão. Antes, preferem o ilícito e
rejeitam obstinadamente a assimilação. Suas intervenções agressivas e
intolerantes revelam escasso interesse em ressaltar a dignidade, a cidadania ou
o Estado de Direito.
Os novos atores urbanos e suas intervenções expõem os limites de um modus
vivendi. Ao subverter as regras de visibilidade e invisibilidade na cidade
engendrada pelos muros e pela oposição centro-periferia, e ao afirmar sua
existência como marginais e transgressores e decidir falar a partir dessa
posição, eles colocam em questão uma certa ordenação do sensível, explicitam as
falhas em seu sistema de partilhas, e rompem um consenso a respeito do que é
comum e do que é o espaço público44. Desse modo, eles denunciam a extensão do
sistema de injustiça que caracteriza a cidade de São Paulo e a sociedade
brasileira.
TERESA PIRES DO RIO CALDEIRA é professora no departamento de Planejamento
Urbano e Regional na Universidade da Califórnia em Berkeley.
Tradução de Claudio Alves Marcondes
[*] Publicado originalmente em Public Culture, vol. 24, nº 2, pp. 385-419,
2012. Direitos de reprodução: Duke University Press
(www.dukeupress.edu). Republicado com permissão.
[**] Gostaria de agradecer a todos que partilharam comigo sua paixão pelo
grafite, a pixação, o parkour, o skatismo e a cidade de São Paulo, e me
ajudaram nessa pesquisa, sobretudo Sérgio Miguel Franco e Carlos Augusto Calil.
Também agradeço o apoio representado por duas bolsas de pesquisa concedidas
pela Universidade da Califórnia, Berkeley, Comitê de Pesquisas da Universidade
da Califórnia em Berkeley (2009-10, 2010-11) e pelo Instituto de Pesquisas em
Humanidades da Universidade da Califórnia. Agradeço ainda a Antoni Muntadas e
Sylvia Masini, por permitirem a reprodução de algumas imagens, e David Theo
Goldberg e Hun Kim, pela ajuda na produção da versão final deste ensaio e de
suas ilustrações. Sou grata, ainda, a Gautam Bhan e a James Holston, por suas
leituras críticas em uma etapa crucial do trabalho. Versões anteriores deste
ensaio foram apresentadas em simpósios na Universidade de Chicago e na
Universidade Americana de Beirute, no Líbano.
[1] A grafia oficial da palavra em português é "pichação". No entanto, seus
praticantes e as pessoas associadas à arte de rua em geral a empregam com x, em
vez de ch. Adoto aqui essa grafia, e também pixador, pois estou me referindo a
essa prática específica, e não a outras formas de inscrições gráficas em
paredes.
[2] Ver capítulo 6 de Caldeira, Teresa P. R. Cidade de muros: crime, segregação
e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp, 2000;
Marques, Eduardo e Haroldo Torres (orgs.). São Paulo: segregação, pobreza e
desigualdades sociais. São Paulo: Senac, 2005.
[3] Analiso esse modo de segregação, que marcou a cidade sobretudo entre as
décadas de 1940 e 1980, e sua transformação no padrão segregacionista baseado
em enclaves fortificados em Caldeira, op. cit., cap. 6.
[4] Para uma análise desse colapso, ver Holston, James. Insurgent citizenship -
disjunctions of democracy and modernity in Brazil. Princeton: Princeton
University Press, 2008.
[5] Minha análise está baseada no trabalho de campo que realizo em São Paulo
desde 2001, e é parte de um projeto mais amplo sobre jovens, gêneros e uso de
novas tecnologias de comunicação por esse grupo. Desde 2005, venho me
concentrando em especial na arte de rua e nas práticas recentes de circulação
pela cidade. A pesquisa de campo para esse projeto foi conduzida inteiramente
em espaços públicos. Entrevistei grafiteiros, pixadores, skatistas e motoboys
em seus "pontos" de encontro, ou em bares, cafés e centros culturais onde
escolheram me encontrar. Acompanhei seus encontros e frequentei todos os
eventos culturais e reuniões públicas de que tive notícia. Circulei com eles
pela cidade, em geral de um evento a outro, mas nunca os acompanhei em
grafitagens ou pixações, pois era evidente que isso conduziria a situações
inconvenientes. Vários entrevistados demonstraram interesse pelo meu livro
sobre criminalidade e segregação, e apreciaram receber seus exemplares. Nas
mídias sociais, tornei-me amiga daqueles que me convidaram e, por eles, recebo
atualizações diárias sobre suas atividades e paradeiro.
[6] Tratei de algumas características do grafite e da pixação em São Paulo em
artigo anterior ("A contested public: walls, graffiti, and pichações in São
Paulo". In: Como viver junto (How to live together). Catálogo geral da 27ª
Bienal de Arte de São Paulo. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo, 2006), do qual alguns argumentos foram aqui retomados e expandidos.
[7] Os grafiteiros mais famosos de São Paulo hoje vivem de sua arte, e alguns
chegam a ser extremamente bem remunerados. Outros ganham a vida em atividades
associadas, como moda, publicidade, galerias ou ensino de arte. Muitos, mesmo
os mais bem pagos, moram em casas modestas em bairros de classe média ou de
classe média baixa, perto do centro da cidade.
[8] A grande maioria dos pixadores que entrevistei mora na periferia, muitas
vezes nas proximidades de onde vivem os pais e onde cresceram. Quase todos se
sustentam com trabalhos mal pagos no setor de serviços (desde auxiliares de
escritório até enfermeiros e eletricistas); muitos são motoboys ou office boys.
[9] Neste artigo privilegio o aspecto de gênero dessas novas práticas urbanas,
e não a questão racial, que será o tema de outro ensaio. Trato desse aspecto em
relação ao rap em: "'I came to sabotage your reasoning!': Violence and
resignifications of justice in Brazil". In: Comaroff, John L. e Comaroff, Jean
(orgs.). Law and disorder in the postcolony. Chicago: University of Chicago
Press, 2006.
[10] Para relatos dos praticantes pioneiros, ver: Gitahy, Celso. O que é
graffiti. São Paulo: Brasiliense, 1999; Prades, Jaime. A arte
de Jaime Prades. São Paulo: Olhares, 2009; e Spinelli, João
J. Alex Vallauri - graffiti: fundamentos estéticos do pioneiro do grafite no
Brasil. São Paulo: , 2010. Algumas das primeiras análises do
grafite em São Paulo são: Ramos, Célia Maria Antonacci. Grafite, pichação e
cia. São Paulo: Annablume, 1994; e Schlecht, Neil E.
"Resistance and appropriation in Brazil: How the media and 'official culture'
institutionalized São Paulo's grafite".Studies in Latin American Popular
Culture, vol. 14, 1995.
[11] Sobre essa manifestação, ver o abrangente estudo de Franco, Sérgio Miguel.
Iconografias da metrópole: grafiteiros e pixadores representando o
contemporâneo. São Paulo: dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo,
2009.
[12] Neil E. Schlacht (op. cit.) argumenta, de modo conclusivo, que esse
relacionamento com a prefeitura se consolidou, a partir do final da década de
1980, graças à primeira geração de grafiteiros. Ele foi especialmente efetivo
nas duas administrações municipais encabeçadas pelo Partido dos Trabalhadores
(pt). No entanto, mesmo a administração de Gilberto Kassab, e sob a vigência da
Lei da Cidade Limpa, continua a apoiar e a autorizar novos murais, ainda que,
ao mesmo tempo, elimine outros.
[13] Um exemplo conhecido é o projeto São Paulo Capital Graffiti, resultante de
uma parceria entre Fundação BankBoston, Cidade Escola Aprendiz (organização não
governamental dedicada a programas educacionais), Tintas Suvinil e Prefeitura
de São Paulo (por meio da Coordenadoria Especial da Juventude), em 2003-4. No
âmbito do projeto foram pintados 51 muros grandes por toda a cidade. Os
resultados foram registrados em um livro de arte (Scavone, Marcio. A cidade
ilustrada. São Paulo: Alice Publishing Editora, 2004) distribuí do a clientes do BankBoston.
[14] Sobre a pixação de São Paulo, ver: Boleta (ed.). Ttsss . . . A grande arte
da pixação em São Paulo, Brasil. São Paulo: Editora do Bispo, 2006.
[15] Para uma análise dessa caligrafia e suas relações com outras formas
tipográficas, ver Chastanet, François. Pixação: São Paulo signature. Paris:
Xgpress, 2007.
[16] Para uma visão geral dessa fonte, ver MyFonts, Adrenalina
<www.myfonts.com/fonts/brtype/adrenalina/>, acessado em 3/5/2010.
[17] Ver Borden, Iain. Skateboarding, space, and the city: architecture and the
body. Oxford: Berg, 2001; e Wainer, João. "A escrita dos
invisíveis" <http://pixodoc.wordpress.com/2010/02/04/a-escrita-dos-invisiveis-
retirado-do-blog-de-joao-wainer/> .
[18] Nesse sentido, o universo da pixação não se distingue do grafite nova-
iorquino, descrito por Gregory J. Snyder (Graffiti lives: beyond the tags in
New York's urban underground. Nova York: New York University Press, 2009, p.
60) como sendo caracterizado pelo beef, a "provocação".
[19] Sobre o sentimento de irmandade entre os rappers, ver Caldeira, "'I came
to sabotage your reasoning!'...", op. cit.; e Kehl, Maria Rita. "A fratria
órfã: o esforço civilizatório do rap na periferia de São Paulo". In: Kehl, M.
R. (org.). Função fraterna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
[20] Sobre as gangues e a pixação em Los Angeles, ver Phillips, Susan A.
Wallbangin' - graffiti and gangs in L.A. Chicago: University of Chicago Press,
1999.
[21] De acordo com a legislação brasileira, o grafite e a pixação são crimes
ambientais - conforme o artigo 65 da lei 9605, de 12/02/1998, denominada Lei
dos Crimes Ambientais -, sujeitos a multas e detenções por períodos de três
meses até um ano. Antes dessa lei, ambos eram tratados no âmbito do Código
Penal (art. 163) como ataques à propriedade (pública ou privada).
[22] Nos últimos anos, um grupo de pixadores tentou articular uma concepção da
pixação como arte, aceitando participar da Bienal de São Paulo de 2010, da
exposição Né dans la rue [Nascida na Rua], organizada pela Fondation Cartier em
Paris, em 2009, e mais recentemente da 7ª Bienal de Berlim, em 2012. Esse é um
projeto inevitavelmente ambíguo, pois a pixação é definida pelo fato de ser
ilícita. Ver abaixo.
[23] A primeira inscrição é uma óbvia referência à Lei da Cidade Limpa. Uma
foto da segunda frase difundiu-se pela internet em setembro de 2011.
[24] Ver também Pereira, Alexandre Barbosa. De rolê pela cidade: os pixadores
em São Paulo. São Paulo: dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo,
2005.
[25] Para situar em seu contexto essa inversão, cabe lembrar que, no Brasil, as
taxas de analfabetismo eram altas até recentemente (20% da população urbana em
1970, e 10%, em 2000), e que os analfabetos só puderam votar a partir de 1985.
Além disso, a probabilidade de um jovem negro da periferia de São Paulo
concluir os doze anos de formação escolar não passava de 15,2% em 2000 (Torres,
Haroldo, Ferreira, Maria Paula e Gomes, Sandra. "Educação e segregação social:
explorando o efeito das relações de vizinhança". In: Marques e Torres, São
Paulo: segregação..., op. cit., p. 135.).
[26] Baudrillard, Jean. "Kool Killer, or the insurrection of signs". In:
Symbolic exchange and death. Londres: Sage, 1993 [1976], p. 80. Ver também Stewart, Susan. "Ceci tuera cela: Graffiti as crime and
art". In: Fekete, John (org.). Life after postmodernism: essays on value and
culture. Nova York: St. Martin's, 1987.
[27] Ambas as frases foram tiradas do filme Pixo (2009), de João Wainer e
Roberto Oliveira, exibido na Fondation Cartier, Paris, em 2009, como parte da
exposição Né dans la rue. Trechos do filme podem ser vistos em:
<www.youtube.com/watch?v=s1X2toIrnGg>.
[28] Essas inscrições estão provavelmente associadas ao Movimento Passe Livre,
que, desde meados da década de 2000, vem promovendo uma campanha em favor do
transporte coletivo gratuito, que seria financiado por uma escala progressiva
de taxação. Na literatura produzida pelo movimento, o transporte gratuito é
colocado como um direito à cidade. Ver Movimento Passe Livre 2011
<saopaulo.mpl.org.br>, acessado em 29/9/2011.
[29] Ver também Guasco, Pedro. Num país chamado periferia: Identidade e
representação da realidade entre os rappers de São Paulo. São Paulo:
dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo, 2001; Pereira, op. cit.; e
Santos, Eliezer Muniz dos (org.). Coletivo canal*MOTOBOY - O nascimento de uma
categoria. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2009.
[30] Duas artistas grafiteiras, exemplos raríssimos de mulheres nesse universo,
pintam juntas quase todos os dias. Segundo me contaram, elas preparam o
material e escolhem uma estação de metrô ou uma parada de ônibus, em geral
muito distantes, cada dia numa direção diferente. Quando chegam ao destino,
saem caminhando até toparem com um muro adequado. Uma delas é exímia skatista e
já cruzou a cidade toda de skate. Como São Paulo é uma cidade enorme, as
distâncias que percorrem diariamente são imensas, no mínimo 20 quilômetros na
ida e outro tanto na volta.
[31] Os deslocamentos pela cidade vêm sendo bem documentados desde 1967 pela
Pesquisa od (Origem e Destino), realizada pelo Metrô (Companhia do
Metropolitano de São Paulo) e a Emplasa (Empresa Paulista de Planejamento
Metropolitano). Os resultados relativos aos anos de 1997 e 2007 podem ser
conferidos no site do Metrô: <www.metro.sp.gov.br/metro/numeros-pesquisa/
pesquisa-origem-destino-1997.aspx>. Alguns pixadores entrevistados por mim, que
moram nas periferias e não têm moto, passam no mínimo quatro horas e meia
circulando pela cidade. E à noite, antes de voltar para casa, muitas vezes
ainda param no centro para se encontrar com outros pixadores e sair com eles.
[32] Uma relação das melhores pistas de skate, elaborada pela revista
Cemporcento SKATE (Catraca Livre. "As 10 melhores pistas de skate de São Paulo"
<catracalivre.folha.uol.com.br/2010/11/as-10-melhores-pistas-de-skate-de-sao-
paulo>), revela que a maioria está localizada em parques públicos nas
periferias. Outro exemplo de apoio ao skate por parte da Secretaria Municipal
de Cultura é a exposição Apropriação - Meu Centro é o Skate, organizada por
skatistas e instalada em agosto de 2011 num dos pontos de encontro do grupo, a
Galeria Olido, no centro da cidade. Quanto ao parkour, um exemplo de apoio é o
curta Samparkour (Direção de Wiland Pinsdorf. São Paulo: Canvas, 2008.
<vimeo.com/3183877>).
[33] Ricardo Barbosa da Silva (Os motoboys no globo da morte: circulação no
espaço e trabalho precário na cidade de São Paulo. São Paulo: dissertação de
mestrado, Universidade de São Paulo, 2009) cita fontes distintas, tanto de órgãos públicos como dos sindicatos dos motoboys.
[34] Segundo os dados em Silva (op. cit., p. 84), o número de carros por mil
habitantes passou de 70, em 1967, para 184, em 2002. A quantidade de motos
aumentou de 348.098 em 2000 (Silva, op. cit., p. 88) para mais de 900 mil em
2011 (Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo [Detran-SP]
<www.detran.sp.gov.br>).
[35] De acordo com os dados relativos a 2011, do Detran-SP, os 7.117.136
veículos registrados na cidade dividem-se em 912.641 motocicletas e similares;
818.667 micro-ônibus (usados no transporte de passageiros) e utilitários;
5.179.363 automóveis; 42.891 ônibus; 156.878 caminhões; e 6.686 outros.
[36] Esse tratamento é evidente em um livro organizado por membros do coletivo
canal*motoboy (Santos, op. cit.), no qual relatam suas experiências. Também é
evidente nos estudos que enfocam os motoboys, como, por exemplo, Olivato,
Alessandra. Percepção e avaliação da conduta de motoristas e pedestres no
trânsito. São Paulo: dissertação de mestrado, Universidade de São Paulo, 2001; e Stiel Neto, Augusto, Mutaf, João e Avlasevicius, Silvia.
Pelo espelho retrovisor: motoboys em trânsito. São Paulo: Núcleo de
Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo (nau-usp), 2003, <www.n-a-
u.org/motoboys1.html> .
[37] Os dados sobre acidentes de trânsito são da Secretaria Municipal de Saúde,
Prefeitura de São Paulo (Sistema de Informações para Vigilância de Violências e
Acidentes (sivva). "Acidentes de trânsito" <http://www2.prefeitura.sp.gov.br//
cgi/deftohtm.exe?secretarias/saude/TABNET/SIM/obito.def>). Estudos sobre
acidentes de trânsito no Brasil mostram que, embora os acidentes fatais
envolvendo pedestres e motoristas tenham diminuído a partir de meados da década
de 1990, as mortes de motociclistas aumentaram de maneira significativa. Ver
Waiselfisz, Julio Jacobo. Mapa da violência 2011: Os jovens no Brasil. São
Paulo: Instituto Sangari; Brasília: Ministério da Justiça, 2011. Sou grata a Marcelo B. Nery, do nev-usp (Núcleo de Estudos da
Violência, da Universidade de São Paulo) por me apontar esse estudo.
[38] Dados do Pro-Aim 2011 (Programa de Aprimoramento das Informações de
Mortalidade da Prefeitura de São Paulo [Pro-Aim]. SIM - Sistema de Informações
sobre Mortalidade <www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/saude/
epidemiologia_e_informacao/mortalidade/index.php?p=5786>). Tais números
subestimam o total de mortes. Um estudo de Julio Jacobo Waiselfisz (Mapa da
violência 2011: Acidentes de trânsito. São Paulo: Instituto Sangari; Brasília:
Ministério da Justiça, 2011) calculou a diferenç a, refazendo
a tabulação das mortes registradas simplesmente como "acidentes de trânsito" e,
em seguida, reajustando os números. Sua conclusão foi de que, em 2008, a
quantidade de mortes de motociclistas chegou a 479 (Tabela 6.4, disponível
apenas online <www.sangari.com/mapadaviolencia/mapa2011.html>, acessado em 1/
10/2011).
[39] Castells, Manuel. The rise of the network society. 2. ed. Oxford:
Blackwell, 2000.
[40] Entre os patrocinadores do Canal*motoboy e de sua página na internet estão
várias instituições artísticas e acadêmicas, como a Secretaria Municipal de
Cultura de São Paulo, o Centro Cultural da Espanha - sp, assim como empresas.
[41] Canal*motoboy <www.megafone.net/saopaulo/about>.
[42] Ver também Stewart, op. cit.
[43] As outras modalidades de crime, sobretudo contra a propriedade (assaltos,
roubos, furto de veículos e sequestros), não sofreram redução. Não há consenso,
entre os cidadãos ou os cientistas sociais, quanto aos motivos desse declínio
acentuado nos homicídios. Para o governo, ele se deve, de um lado, à política
de encarceramento, reforma das polícias e melhoria dos sistemas de informação,
e, de outro, aos programas voltados para a ampliação dos serviços e da
infraestrutura nas periferias. Já as ONGs e os ativistas de direitos humanos
atribuem a redução ao controle das armas em poder da população e aos programas
de capacitação dos jovens nas periferias. Os adeptos do hip-hop acham que pode
ser resultado de seus esforços para atrair os jovens ("Hip-Hop Salva" era um de
seus lemas). E há, ainda, quem vincule o decréscimo das mortes ao papel do
crime organizado no controle do uso de armas por seus membros.
[43] As outras modalidades de crime, sobretudo contra a propriedade (assaltos,
roubos, furto de veículos e sequestros), não sofreram redução. Não há consenso,
entre os cidadãos ou os cientistas sociais, quanto aos motivos desse declínio
acentuado nos homicídios. Para o governo, ele se deve, de um lado, à política
de encarceramento, reforma das polícias e melhoria dos sistemas de informação,
e, de outro, aos programas voltados para a ampliação dos serviços e da
infraestrutura nas periferias. Já as ONGs e os ativistas de direitos humanos
atribuem a redução ao controle das armas em poder da população e aos programas
de capacitação dos jovens nas periferias. Os adeptos do hip-hop acham que pode
ser resultado de seus esforços para atrair os jovens ("Hip-Hop Salva" era um de
seus lemas). E há, ainda, quem vincule o decréscimo das mortes ao papel do
crime organizado no controle do uso de armas por seus membros.
[44] Ver Rancière, Jacques. O desentendimento ' política e filosofia. São
Paulo: Editora 34, 1996 [1995] .