O centro voltou a crescer?: trajetórias demográficas diversas e heterogeneidade
na São Paulo dos anos 2000
O presente trabalho discute o crescimento demográfico intraurbano na região
metropolitana de São Paulo utilizando dados dos censos demográficos de 2000 e
2010 do ibge. O assunto é de grande interesse acadêmico, visto que uma parte
significativa das mazelas urbanas características de nossas grandes cidades,
experimentadas principalmente pela população de mais baixa renda, foram
creditadas a um padrão de urbanização por expansão de periferias e favelas que
tinha no elevado crescimento demográfico uma das suas principais
características. O assunto é também de grande interesse para as políticas
públicas, dado que a pressão das elevadas taxas de crescimento demográfico das
décadas de 1960 e 1970 sobre políticas e serviços públicos contribuiu para a
criação de grandes desigualdades de acesso, especialmente para os mais pobres.
Merece destaque aqui a trajetória brasileira de metrópoles com tecidos urbanos
cada vez mais estendidos, com graves consequências em termos de acesso a
serviços, mobilidade urbana e sociabilidade cotidiana, sobretudo para os mais
pobres.
A metrópole paulistana apresentou crescimento demográfico bastante modesto na
década de 2000 - cerca de 1% aa, seguindo tanto a sua própria tendência desde
os anos 1980 quanto a dinâmica geral das regiões metropolitanas brasileiras em
período recente. Esses números médios escondiam, ao menos para São Paulo, uma
desigualdade substancial nos ritmos de crescimento demográfico intraurbano.
Estudos como os de Jannuzzi e Jannuzzi e Torres mostraram que desde os anos
1980 as baixas taxas de crescimento médio escondiam o esvaziamento demográfico
das regiões mais centrais e a manutenção de taxas de crescimento muito
expressivas em áreas periféricas1. Os padrões de crescimento guardavam um
padrão claramente radial e concêntrico, com esvaziamento central e crescimento
intenso nos cinturões mais externos da metrópole2, reforçando a percepção de
uma cidade organizada em anéis3. O padrão ficava ainda mais claro quando as
unidades de análise eram os distritos censitários e os municípios, unidades
bastante agregadas, ou quando os dados eram reagrupados em grandes extratos.
Após a liberação das primeiras informações do Censo 2010, disseminou-se a ideia
de que a principal tendência da década seria que "o centro voltou a crescer"4.
O objetivo deste artigo é discutir tal tendência, demonstrando que a dinâmica
recente é muito mais complexa que o mero retorno do crescimento à região
central. Como veremos, quando a informação é desagregada e os processos são
analisados de forma mais detalhada, fica demonstrado que essa afirmação é ao
mesmo tempo verdadeira - pois áreas do centro expandido voltaram a crescer - e
bastante incompleta, pois não apenas uma parte da área central continuou a
perder população na década de 2000, como também áreas das periferias passaram a
se esvaziar, enquanto outras continuam crescendo intensamente, embora em
patamar mais baixo. Acreditamos que esses resultados acrescentam elementos ao
quadro de complexidade já destacado anteriormente para a metrópole paulistana
em trabalhos como o de Marques e Torres5, que destacaram a presença de intensa
heterogeneidade por detrás dos padrões mais gerais. Tal exercício é possível
por trabalharmos na escala das áreas de ponderação do censo, que permite
visualização em maior detalhe do que distritos e municípios, sem prejuízo da
legibilidade dos padrões gerais.
Na próxima seção, discutimos as tendências gerais a partir da literatura
existente. Na seguinte, apresentamos os padrões intraurbanos da dinâmica
demográfica na década de 2000, utilizando dados dos censos de 2000 e 2010. A
última seção explora as principais trajetórias de crescimento presentes nos
padrões observados, utilizando informações do censo sobre rendimentos,
estrutura etária, migração e precariedade habitacional, além de dados sobre
lançamentos imobiliários residenciais do mercado formal originários de outra
fonte.
AS DINÂMICAS DEMOGRÁFICAS EM SÃO PAULO
A região metropolitana de São Paulo apresentou taxas de crescimento cada vez
maiores na primeira metade do século XX, com pico na década de 1950, quando a
taxa chegou a 5,9% aa. Naquela década a metrópole absorveu 1.120.856 novos
moradores, número que seria ultrapassado sucessivamente nas décadas
subsequentes. A tabela na próxima página apresenta as populações e taxas de
crescimento gerais da região, apenas para recuperar a tendência demográfica
mais geral, já conhecida a partir de trabalhos como o de Baeninguer6. Em termos
populacionais absolutos, o pico do crescimento disse respeito à década de 1970,
quando a metrópole absorveu 4.371.615 novos habitantes em dez anos. No entanto,
a partir da década de 1960 já se observava tendência de queda paulatina e
monotônica nas taxas de crescimento. Essa tendência se acelerou na década de
1980, quando ocorreu a maior queda relativa das taxas. Naquela década, embora
os saldos para o município de São Paulo tenham se invertido7, a tendência de
periferização da década anterior continuou8, similar à experimentada em outras
metrópoles brasileiras9. Na década de 2000, a tendência de arrefecimento das
taxas se manteve.

Entretanto, quando o crescimento é desagregado para o interior da metrópole, o
quadro se modifica, já para a década de 1980. Trabalhos como os de Jannuzzi e
Jannuzzi e Torres mostraram que o arrefecimento das taxas conviveu naquela
década com a continuidade de processos intensos de crescimento em áreas
periféricas, assim como com decréscimo populacional absoluto nas regiões mais
internas da metrópole10. Jannuzzi e Jannuzzi mostraram como, ao se desagregar o
crescimento para o nível dos distritos censitários, observa-se queda
populacional absoluta na década de 1980 em várias regiões do centro expandido.
Os dados por distrito mostraram a continuidade da mesma dinâmica nos anos 1990,
e o seu espalhamento nas regiões do primeiro cinturão em torno do centro
expandido - ao norte do rio Tietê para centros regionais como Santana, Limão,
Freguesia do Ó, Vila Maria; e a oeste para áreas como Butantã, Morumbi e Vila
Sônia. Ao mesmo tempo, áreas periféricas apresentavam taxas de crescimento
positivas e de grande porte. Portanto, desde a década de 1980 verificou-se na
metrópole paulistana um padrão de decréscimo absoluto das áreas centrais, que
tendeu a se espalhar por uma região mais ampla na década seguinte, mas
acompanhado da manutenção de taxas elevadas nas periferias.
Essa análise foi complementada por Torres, que explorou a dinâmica
intrametropolitana em maior detalhe. O autor trabalhou com os dados de 1991 e
2000, desagregados nas áreas de ponderação do censo. Os resultados reforçaram
de maneira geral os dados de Jannuzzi e Jannuzzi para as áreas centrais
reportados acima, mas o trabalho se debruçou principalmente sobre as áreas
periféricas. As taxas de crescimento observadas nas regiões mais externas da
metrópole se mostraram bem superiores ao previsto pelos debates sobre o tema,
demonstrando que as franjas exteriores continuavam crescendo a taxas típicas
dos anos 1970. O autor mostrou de forma bastante eloquente a correlação entre
crescimento demográfico e renda domiciliar média, embora matizada pelo
cruzamento com a localização das áreas. Enquanto a cidade consolidada, para
usar a expressão de Torres, tinha renda de média a elevada e decrescia
populacionalmente, a chamada fronteira urbana apresentava crescimento muito
elevado e baixos rendimentos. Além disso, a produção de indicadores sociais
para tais áreas sugeriu que esse crescimento se encontrava associado à forte
presença de migrantes recentes de baixa renda, com menor acesso à
infraestrutura urbana, em clara continuidade do padrão de periferização dos
anos 1970.
A publicação do Censo 2010 permite retornarmos ao tema e analisarmos as
dinâmicas socioeconômicas da década de 2000 de forma desagregada espacialmente.
Como os dados são bastante recentes, o tema ainda não foi intensamente
analisado na literatura. A Prefeitura de São Paulo11 explorou no final de 2011
o crescimento no município de São Paulo na década passada, provocando impacto
ao reportar o retorno do crescimento à região central da cidade. A nota
trabalhou os recentes dados do ibge no nível dos 96 distritos censitários do
município e demonstrou a presença de crescimento demográfico na região do
centro expandido, assim como a manutenção do decréscimo em áreas na Zona Norte
e em parte do primeiro anel em torno do centro, além de crescimento moderado
nas áreas periféricas. Esses dados foram novamente analisados12, com
diagnóstico similar.
A observação dos detalhes espaciais do crescimento, entretanto, sugere um
quadro mais complexo do que o que se obtém analisando os distritos censitários.
A próxima seção analisa esses mesmos dados, mas na escala das áreas de
ponderação do censo, apontando para crescimento moderado, decréscimo e
crescimento acelerado em várias regiões. Além disso, o cenário que emerge do
estudo de informações mais desagregadas não pode ser correlacionado de forma
tão simples à renda ou à migração recente como foi possível para a década
anterior, sugerindo mais heterogeneidade e diferenciação do tecido
metropolitano paulistano do que tem sido considerado.
A DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DO CRESCIMENTO
Para distribuirmos o crescimento no espaço é necessário contar com uma base
cartográfica comparável que permita analisar simultaneamente as informações dos
censos de 2000 e 2010. Os setores censitários são a desagregação espacial mais
detalhada em que o ibge disponibiliza informações do universo do censo,
enquanto as áreas de ponderação são as unidades de maior detalhe da amostra do
censo, sendo compostas pelo ibge por agregações de setores. Foram verificadas
intensas mudanças dos limites dos setores censitários entre os censos,
dificultando a análise do crescimento demográfico no nível dos setores
censitários. Decidiu-se então trabalhar a compatibilização das informações no
nível das áreas de ponderação. Essa decisão resulta em perda de detalhes, visto
que a região tinha 21.744 setores censitários em 2000 e 30.815 em 2010, contra
812 e 633 áreas de ponderação em cada um dos censos, respectivamente.
Entretanto, fica garantida a comparabilidade e a legibilidade dos padrões,
objetivo desta análise.
Foi então produzida cartografia compatível de áreas de ponderação partindo das
cartografias de cada censo. A base cartográfica de áreas de ponderação do Censo
2000 para a região metropolitana de São Paulo incluía 812 áreas, mas para 2010
o ibge reduziu o número de áreas para 633. Sendo assim, a compatibilização das
cartografias levou à agregação de diversas das áreas de 2000 em áreas de 2010,
resultando em uma base compatível com 633 áreas. Em seguida, as variáveis das
bases de setores censitários de 1991, 2000 e 2010 foram transportadas por
overlay para a base de áreas compatibilizada. O resultado representa pequena
perda populacional - 17.718.899 contra 17.878.703 medidos pelo ibge em 2000, e
19.601.268 contra 19.683.975 medidos em 2010, considerando-se que determinadas
áreas não puderam ser compatibilizadas.
Os mapas_1 e 2 apresentam a distribuição do crescimento para cada um dos dois
períodos. Como se pode ver no Mapa_1, o crescimento na década de 1990 tendeu a
apresentar uma distribuição concêntrica e fortemente associada à renda, como
explorou de forma eloquente Torres13. As regiões de maior crescimento eram as
de mais baixa renda e localizadas nas regiões mais periféricas da metrópole,
onde podiam ser encontradas taxas de crescimento características até dos anos
1970, fenômeno que o autor denominou "fronteira urbana". Ao mesmo tempo, uma
parcela significativa do centro expandido apresentava crescimento negativo,
como também analisado por Torres, dando continuidade a um processo iniciado na
década de 1980 e analisado por Jannuzzi e Jannuzzi14.
[/img/revistas/nec/n95/02m01.jpg]
[/img/revistas/nec/n95/02m02.jpg]
A distribuição espacial do crescimento muda substancialmente na década
seguinte, como podemos ver no Mapa_2.
São várias as tendências, mas podemos assim resumi-las:
* Além de parte substancial da periferia ter apresentado crescimento
arrefecido para taxas menores, algumas áreas apresentaram crescimento
negativo, como é o caso de Marsilac e áreas de Embu-Guaçu, ao sul. Entre
essas regiões se inclui o núcleo do município de Mogi das Cruzes, a
leste, que já havia apresentado crescimento negativo e voltou a ter sua
população reduzida. De forma similar, a oeste, áreas dos municípios de
Osasco, Carapicuíba e Barueri também apresentaram redução populacional.
Uma parte de Osasco já havia apresentado esse comportamento na década
anterior, mas agora a mancha do decréscimo foi maior e alcançou uma parte
significativa de Barueri, que havia crescido a taxas muito elevadas na
década anterior.
* Entretanto, outras áreas das periferias da metrópole continuaram
apresentando taxas de crescimento elevadas, embora muito inferiores às
verificadas na década anterior. Entre elas se incluem áreas que já haviam
crescido intensamente na década anterior, como Grajaú, Parelheiros,
partes de Jardim Ângela, Jaraguá e José Bonifácio. Esses são casos
exemplares da tendência geral de arrefecimento das taxas de crescimento
para a metrópole na década de 2000, em que apenas áreas de ponderação
(dentre as 633) apresentaram taxas superiores a 5% aa entre 2000 e 2010,
enquanto 142 áreas superaram taxas iguais ou superiores a essa na década
de 1990. Adicionalmente, as taxas de áreas de ponderação mais elevadas na
década de 1990 haviam sido de 32% e 20% aa, enquanto na década de 2000
foram 10% e 8% aa. Assim, a região que havia apresentado o comportamento
de fronteira urbana15 cresceu muito menos na última década, mesmo nas
áreas onde continuou a crescer.
* A mancha central de decréscimo populacional não se verificou mais16. A
maior parte do centro expandido cresceu a taxas relativamente modestas,
invertendo, em termos gerais, a tendência de esvaziamento. Entretanto,
também não é precisa a descrição genérica de que o centro de São Paulo
voltou a crescer, pois as áreas centrais guardam tanto locais de grande
crescimento como de continuado decréscimo.
* Para algumas áreas do centro expandido se verificou uma verdadeira
inversão da tendência, com o estabelecimento de crescimento muito elevado
na década de 2000. São elas áreas de intensa atividade imobiliária
recente - Vila Leopoldina, Tatuapé, Morumbi e Vila Andrade, assim como
áreas consolidadas próximas ao centro histórico, como Santa Cecília, Bela
Vista, República e Cambuci.
* No entanto, em outras áreas do centro expandido a tendência de
esvaziamento demográfico das últimas décadas não parou, como se pode ver
no Mapa_2. A lista dos espaços ainda em esvaziamento inclui uma parte
expressiva da Zona Oeste - Perdizes, Pinheiros, Alto de Pinheiros e
Butantã -, assim como uma mancha ao sul - Saúde, Campo Belo e Jabaquara.
O patamar das taxas de crescimento negativo, entretanto, se reduziu, e
grande parte dessas áreas se encontra próxima da estabilidade. Vale dizer
que, enquanto entre 1991 e 2000 as taxas negativas superaram 2,5% aa em
22 áreas de ponderação, entre 2000 e 2010 nenhuma área alcançou tal taxa
e apenas seis áreas superam 1% negativo.
* A essas áreas centrais em decréscimo devemos somar quase a totalidade da
Zona Norte e outras regiões no primeiro anel em torno do centro
expandido, que já haviam vivenciado o processo de esvaziamento na década
anterior e continuaram a perder população. Na década de 2000, entretanto,
o esvaziamento chegou a uma parte expressiva da porção mais extrema da
Zona Leste do município. Estão incluídos aí diversos locais que
apresentaram intenso crescimento até a década anterior - Itaim Paulista,
Jardim Helena, São Miguel Paulista, Cidade Tiradentes. Nesse caso, o
processo de esvaziamento que, na década anterior, ia até a porção central
da Zona Leste - Vila Matilde, Artur Alvim e Penha - expandiuse em direção
às periferias.
Deve-se destacar que apenas análises de maior detalhe, como as áreas de
ponderação, permitem observar essas nuances. O uso dos distritos mascara o
esvaziamento e o crescimento de áreas contíguas, caso de Cidade Tiradentes e
José Bonifácio, a sudeste do mapa. Em estudos baseados em distritos, essas
regiões se mostram genericamente como de crescimento baixo, mas elas
apresentaram comportamentos de periferização e esvaziamento nas décadas de 1990
e 2000, respectivamente.
Quais processos podem estar associados a essas tendências? Teria havido
substituição populacional nos locais centrais que retomaram o crescimento? As
regiões que continuam crescendo repetem o padrão de crescimento periférico
associado à migração e à pobreza presentes classicamente na metrópole? A
próxima seção explora outras informações do censo, perseguindo algumas
respostas preliminares para essas perguntas.
EXPLORANDO PROCESSOS E CAUSAS DOS PADRÕES DE CRESCIMENTO
Uma primeira dimensão geral a assinalar diz respeito aos patamares mais baixos
de crescimento na última década quando comparada à anterior, tanto para as
taxas positivas quanto para as negativas. Os gráficos_1 e 2 apresentam a
distribuição do crescimento por áreas de ponderação entre 1991 e 2000 e entre
2000 e 2010.
As duas distribuições têm formas similares, mas entre 2000 e 2010 os patamares
de crescimento são substancialmente menores, tanto nos valores positivos quanto
nos negativos. O Gráfico_3 apresenta a dispersão das taxas em cada período,
para cada área de ponderação. Embora haja certa associação entre as taxas de
crescimento para cada área, a dispersão é significativa17, indicando ao mesmo
tempo manutenção do padrão anterior e mudança em um conjunto não desprezível de
espaços.
[/img/revistas/nec/n95/02g03.jpg]
Torres18 mostrou que as taxas de crescimento na década de 1990 se associavam à
renda média das áreas de ponderação19, assim como à localização geográfica,
que, como vimos no Mapa_1, tendia a radial e concêntrica. O Gráfico_4 testa se
é possível afirmarmos o mesmo para a década de 2000.
[/img/revistas/nec/n95/02g04.jpg]
Tanto o gráfico quanto a análise estatística20 indicam que não há associação
entre as taxas de crescimento na década e as rendas médias do responsável nas
áreas de ponderação em 2010. Embora a maior parte das áreas apresente renda
baixa e crescimento baixo, várias faixas de renda baixas estão presentes em
regiões com taxas de crescimento baixas e altas, exceto por algumas áreas
discrepantes de baixa renda com taxas muito elevadas. O mesmo se verifica em
áreas que contém indivíduos de faixas de renda elevadas.
Na verdade, essa é outra forma de visitar a informação já discutida
anteriormente. Enquanto na década de 1990 áreas de maior renda decresciam e
áreas de baixa renda cresciam a taxas muito elevadas, o padrão dos anos 2000 se
tornou muito mais complexo. Embora em termos gerais as taxas de crescimento
tenham arrefecido, tanto áreas habitadas por grupos sociais ricos quanto áreas
habitadas por pobres apresentaram na última década crescimentos altos e baixos.
Quais seriam as razões para isso? Seria o aprofundamento da mudança dos padrões
de crescimento demográfico associados à queda da fecundidade e à redução da
densidade domiciliar média, ou a transformação social dos locais impulsionada
por processos urbanos como promoção imobiliária ou gentrificação? Uma região
que crescia pouco (ou decrescia) pode ter passado a alojar populações de mais
baixa renda ao longo da década, que haviam apresentado taxas de crescimento
mais elevadas na década de 1990. Ou, inversamente, áreas antes habitadas por
pobres (e com altas taxas de crescimento) podem ter passado a ser ocupadas por
grupos de mais alta renda (que cresciam a taxas mais baixas).
Uma primeira aproximação a essa análise se dá ao compararmos as rendas dos
moradores de cada área de ponderação em cada censo, e verificarmos se locais
com intensa mudança sofreram expressiva substituição populacional. Para o
conjunto da região, a média da renda média de todas as áreas de ponderação era
R$ 1.049 em termos nominais (com desvio padrão de R$ 943) em 2000, e tornou-se
R$ 1.678 (com desvio padrão de R$ 1.460) em 2010. Mas, como sabemos, as
informações dos rendimentos dos dois censos não são completamente comparáveis,
por conta de mudanças introduzidas nos questionários e também por sofrerem os
efeitos da inflação, do aumento do salário mínimo e do aumento das coberturas
dos programas de transferência condicionada de renda, todos influentes sobre as
cifras absolutas.
Como estamos interessados apenas nas variações relativas dos lugares - terão
eles se elitizado ou empobrecido? -, podemos dividir a renda de cada área pela
renda média da região metropolitana, em cada ano. A comparação desses índices
mostra as posições relativas das áreas em cada censo, sendo neutros os efeitos
da dinâmica da década. Esses dados sugerem uma manutenção substancial do
conteúdo das áreas de ponderação para o conjunto da metrópole medida pela
renda21: a maioria esmagadora das áreas de ponderação alojava, em 2010,
habitantes relativamente similares, ao menos no quesito renda, aos que alojava
dez anos antes. Essa estabilidade sugere também a permanência dos elevados
padrões de segregação presentes na cidade, mas a análise dessa dinâmica exige
uma investigação específica. Portanto, para o conjunto da metrópole, a grande
maioria dos lugares permaneceu com conteúdos sociais relativos similares.
Mesmo que não tenha havido mudanças expressivas nas rendas relativas ou não
seja possível associar crescimento a faixas de renda diretamente, como ocorreu
na década de 1990, será possível delimitar tipos de transformações ocorridas na
década? Quais seriam as trajetórias de crescimento típicas circunscritas pelas
mudanças demográficas da década de 2000? A análise dos dados sugere que são
três as trajetórias mais importantes: a) áreas que decresceram até 2000 e
cresceram significativamente na última década; b) áreas que decresceram nas
duas décadas; e c) áreas que cresceram intensamente nas duas décadas.
No que se segue, exploramos essas trajetórias comparando os conteúdos sociais
médios dos moradores de cada uma delas em 2010 com os das demais áreas da
metrópole. Para fazê-lo, utilizamos variáveis do censo de maneira a
caracterizar a população segundo renda, estrutura etária, cor da pele, tipo de
domicílio (casa, apartamento e vila/condomínio) e acesso a infraestrutura, além
de indicadores de migração recente, produção imobiliária, presença de
indivíduos nascidos entre os censos e favelização. Antes de observarmos os
resultados, entretanto, são necessárias algumas explicações sobre os
indicadores utilizados para medir esses últimos quatro processos.
No caso da migração, em primeiro lugar, utilizamos as informações da amostra do
Censo 2010 relativa a migrantes chegados ao município nos últimos nove anos
antes do recenseamento. O dado serve como indicador, mas não mede precisamente
o fenômeno que precisaríamos controlar, visto que não discrimina a migração
intraurbana. É, entretanto, a melhor informação de que se dispõe a respeito do
processo. Assim, a proporção da população em cada área que migrou para o
município nos últimos nove anos é a variável utilizada para testar a
importância da migração recente na tendência demográfica. A migração recente
continua sendo uma dimensão central na explicação do crescimento demográfico -
a correlação entre as taxas de crescimento entre 2000 e 2010 e as proporções
dos habitantes das áreas que são migrantes recentes é elevada22. Como veremos,
entretanto, em áreas com trajetórias distintas a migração pode cumprir papéis
inteiramente diferentes.
Em segundo lugar, a produção imobiliária via mercado. Utilizamos o número de
unidades residenciais em lançamentos do mercado formal captados na base da
Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), que mantém um banco de
dados sobre o tema23. As informações desse banco foram trabalhadas pelo Centro
de Estudos da Metrópole (CEM), localizando-se os lançamentos a partir de seus
endereços, primeiro pontualmente e, posteriormente, nas áreas de ponderação. A
limitação dessa variável é não capturar os movimentos da autoprodução de
moradia, da pequena produção por encomenda ou do mercado informal. O dado,
entretanto, sistematiza a produção residencial lançada pelo mercado formal de
habitações. Utilizamos o número total de unidades habitacionais lançadas em
cada área de ponderação entre 2000 e 2009.
Um terceiro indicador é a proporção da população da área de ponderação que
nasceu entre os censos de 2000 e 2010. Esse indicador testa o efeito
demográfico dos nascimentos sobre o crescimento das áreas. Mas o faz apenas de
forma indicativa, por duas razões: primeiro, a variável correta seria a
fecundidade das áreas, informação de que não dispomos; segundo, não sabemos se
os pais das pessoas com 10 anos e menos residentes em uma dada área em 2010 já
moravam naquela área em 2000, ou se são eles próprios migrantes. Entretanto,
mesmo frente a tais limitações, a variável nos informa sobre a associação do
processo de crescimento à presença de indivíduos jovens, nascidos após 2000.
Por fim, as favelas. Nesse caso, utilizamos a informação da proporção da
população habitante em setores subnormais nos censos de 2000 e 2010 em cada
área de ponderação. Essa informação apresenta limitações conhecidas24, mas é a
única disponível de forma comparável para toda a região. Como a classificação
dos setores subnormais é produto de estratégia específica do ibge, e como este
procedeu a importante atualização da base entre os censos, decidimos seguir um
procedimento similar ao adotado para os rendimentos e dividir as proporções de
habitantes em subnormais de cada área de ponderação pela média da região
metropolitana, em cada censo. Além disso, os indicadores de migração e de
produção habitacional descritos acima são relativos a fluxos, mas as proporções
de subnormais são relativas a estoque, de modo que, para medirmos a importância
de variações na presença de favelas em cada área de ponderação, calculamos as
diferenças entre as proporções relativas em cada ano.
ESVAZIAMENTO NOS ANOS 1990 E CRESCIMENTO NOS ANOS 2000
Essa trajetória inclui as áreas que decresceram entre 1991 e 2000 (qualquer
crescimento negativo) e voltaram a crescer substancialmente (a mais de 2,5%)
entre 2000 e 2010. Esse processo evidentemente teve como resultado o aumento
das densidades demográficas médias na última década.
Essas áreas já tinham em 2000 renda bastante alta em média (R$ 2.300 contra R$
1.000 das demais áreas). Em 2010, os indicadores positivos tenderam a se
repetir, com renda mais alta (R$ 4.100, contra R$ 1.100 de todas as demais),
uma maior presença relativa de moradias em apartamentos (60% contra 18% das
demais), maiores proporções de pessoas com mais de 65 anos de idade (10% contra
7%) e menor de adolescentes (15% contra 21%), além de menor presença relativa
de pretos e pardos (24% contra 38%). Há também uma presença muito mais alta de
empregadas domésticas entre os residentes (0,9% contra 0,1 das demais áreas)25.
Portanto, ao menos em média, trata-se de áreas com população de altos
rendimentos e mais bem posicionadas socialmente.
A comparação de indicadores nessas áreas em 2000 e 2010 é também esclarecedora.
A proporção de domicílios em apartamentos era de 54% em 2000 e cresceu seis
pontos percentuais em 2010, sugerindo que ao menos uma parte do crescimento
verificado esteve associado a lançamentos residenciais verticais recentes. Além
disso, quando analisamos as mudanças na renda entre os dois censos (já
descontada a mudança das médias), encontramos resultados significativos e
substancialmente positivos - a renda relativa em 2010 é 22% superior à renda
relativa em 2000. Ou seja: nos locais que inverteram a tendência demográfica de
esvaziamento e cresceram intensamente nos anos 2000, a renda média cresceu bem
mais do que a média das demais áreas de ponderação da metrópole. Já os dados
sobre a proporção de indivíduos nascidos nessas áreas entre os dois censos
estão abaixo da média das demais áreas (11,8% contra 15,3%)26.
Esse dado parece confirmar a importância da produção imobiliária formal na
inversão da dinâmica demográfica nessas áreas. Ademais, a presença de produção
imobiliária nos anos 2000 se mostra fortemente concentrada nas áreas com essa
trajetória. Nessas áreas foi lançada uma média de 2.100 unidades residenciais,
contra 500 unidades, em média, nas demais áreas da metrópole. Inversamente, não
houve nessas áreas variação significativa na presença de população favelada, ou
da proporção de migrantes recentes.
Como grande parte dessas variáveis é correlacionada entre si, realizamos um
último teste estatístico, investigando o efeito conjunto sobre as trajetórias
de mudança demográfica da produção imobiliária, da diferença da proporção de
áreas subnormais, da migração recente e da presença de nascidos entre os dois
censos. No caso das áreas que decresceram até 2000 e passaram a crescer até
2010, apenas a produção imobiliária e a migração recente para o município se
mostraram significativas e positivas em análise multivariada27. Isso quer dizer
que as áreas com essa trajetória receberam mais migrantes e lançamentos
imobiliários que o restante da metrópole.
Das dez áreas nessa condição, seis delas se localizam no centro expandido
(República, Bela Vista, Cambuci, Vila Leopoldina, Santa Cecília, Santo Amaro) e
duas em áreas de expansão de alta renda (Morumbi e Tatuapé). Outras duas áreas
envolvem o centro de Taboão da Serra e uma área de ponderação no Jardim Ângela,
esta com renda muito inferior. Nessas duas últimas verificou-se baixa presença
de lançamentos residenciais do mercado formal - apenas 150 em média. A área do
Jardim Ângela foi a única que apresentou presença relativamente elevada e
crescente de moradores de favelas.
Portanto, embora o tipo de dado trabalhado não permita afirmar a presença de
troca populacional, como nos processos de gentrificação descritos pela
literatura internacional28, as áreas com essa trajetória passaram a abrigar
população ainda mais bem posicionada relativamente em termos de renda e que
habita crescentemente apartamentos. Essas áreas foram também objeto de maciço
processo de produção imobiliária pelo mercado formal, sugerindo que o retorno
ao crescimento esteve associado à intensa produção imobiliária para alta renda
e ao aumento das densidades demográficas.
ESVAZIAMENTO CONTÍNUO NAS DUAS DÉCADAS
A segunda trajetória inclui áreas que se esvaziaram nos anos 1990 e continuaram
em processo de esvaziamento na última década (crescimento negativo em ambos os
períodos). Nesse caso, a renda é levemente maior do que a das demais áreas,
tanto em 2000 quanto em 2010 (R$ 2.300 e R$ 1.990 nos dois anos, contra R$
1.000 e R$ 1.650 das demais áreas), mas substancialmente mais baixos que nas
áreas analisadas acima. Entretanto, as rendas relativas indicam que as áreas
com trajetória de esvaziamento perderam rendimentos em termos relativos. No
caso dessa trajetória, portanto, observa-se em 2010 uma população com renda
inferior, em termos relativos, à presente em 2000.
Os demais indicadores sugerem conteúdos sociais próximos da média
metropolitana, mas levemente superiores. Já em 2000 havia menores proporções de
crianças e adolescentes (7% e 22%, contra 9% e 26% das demais áreas), maior
presença de idosos (9%, contra 5% das demais áreas) e mais altas taxas de
alfabetização (63%). Era também levemente mais elevada a presença de
apartamentos (23% contra 20% das demais áreas) e melhor a infraestrutura (100%
de abastecimento de área, 95% de banheiros ligados à rede de esgotos e 99% de
coleta de esgotos). A diferença entre os indicadores dessas áreas e os das
demais tende a se repetir em 2010.
Nessas áreas não houve concentração específica de produção imobiliária formal.
Mas se já havia menos habitantes relativamente em favelas em 2000 - 3% contra
8% das demais áreas -, essa proporção se reduziu ainda mais, relativamente, em
2010. Na verdade, a proporção permaneceu estável, mas a proporção das demais
áreas subiu para 10% em 2010. Como a classificação dos setores subnormais se
tornou mais ampla e passou a incluir mais áreas em 2010, é razoável considerar
que as áreas com essa trajetória tenderam a perder moradores de favelas
relativamente na década. Além disso, essas áreas têm menos indivíduos nascidos
entre os dois censos do que a média das demais áreas (12,2% contra 15,5%). Por
fim, as áreas com essa trajetória receberam menos migrantes recentes do que as
demais - 8% contra 13% do restante da metrópole29.
Novamente, dado que grande parte dessas variáveis é correlacionada entre si,
fizemos teste estatístico multivariado similar ao realizado para a trajetória
anterior. Nesse caso, as variáveis migração recente para o município, atividade
imobiliária formal e população nascida entre os censos se mostraram
significativas e negativas30. Isso indica que o esvaziamento dessas áreas
relaciona-se a baixa migração, baixa presença de nascidos entre os censos e
baixa produção imobiliária.
Essa situação envolve 61 áreas de ponderação localizadas principalmente no
primeiro anel em torno do centro expandido em áreas da Zona Norte, em grande
parte do município de Osasco e junto aos centros de municípios de ocupação mais
antiga como Santo André, São Caetano e Mogi das Cruzes. Essa situação também se
verifica em algumas áreas do centro expandido com renda elevada, como Alto de
Pinheiros, Perdizes, Pinheiros, Campo Belo, Saúde e Butantã.
É preciso voltar a ressaltar, entretanto, que no conjunto das áreas que
apresentam esvaziamento continuado, as taxas de crescimento verificadas na
década de 2000 não foram muito elevadas e ficaram em sua maioria entre 0 e -1%
aa. De fato, a média das taxas das áreas com essa trajetória entre 1991 e 2000
foi de -1,1% aa, enquanto entre 2000 e 2010 foi de -0,4% aa. Embora o
decréscimo tenha sido contínuo, portanto, foi menos intenso na última década do
que na anterior.
Na verdade, mesmo entre 1991 e 2000, as taxas de crescimento negativo eram
bastante reduzidas relativamente, quando comparadas às taxas de crescimento
positivo. Mesmo naquela década, apenas 22 áreas apresentaram taxas negativas
superiores a 2,5%, enquanto 268 áreas apresentavam taxas superiores a 2,5%
positivos. É curioso notar que, apesar disso, até o trabalho de Torres31
mostrar o crescimento intenso da chamada "fronteira urbana", o debate local
concentrou-se principalmente no polo menos intenso dos processos em curso - o
esvaziamento das áreas centrais. Portanto, mesmo na década de 1990, a tendência
de decréscimo era já mais suave que a de crescimento, faceta que continua se
verificando na década de 2000, embora em patamar menos intenso.
CRESCIMENTO INTENSO E CONTÍNUO NAS DUAS DÉCADAS
Para explorar essa terceira trajetória analisamos as áreas que cresceram muito
nos anos 1990 (mais de 3% aa) e continuaram crescendo nos anos 2000 (mais de
2,5% aa). Como vimos anteriormente nos gráficos_1 e 2, as taxas de crescimento
positivo tenderam a se reduzir em termos gerais na metrópole e, se alcançaram
em média impressionantes 8,4% aa nos 1990, desaceleraram para os ainda muito
expressivos 4,0% aa entre 2000 e 2010.
Nesse caso, os indicadores sugerem uma situação social inversa em relação a
anteriores. A renda em 2000 era baixa (R$ 640 contra R$ 1.100) e continuou
substancialmente baixa (R$ 1.150 contra R$ 1.750 das demais áreas) em 2010. Em
2000, a presença de crianças e adolescentes era mais alta (12% contra 9%, e 31%
contra 25%, respectivamente) e a de idosos, mais baixa (3% contra 6% das demais
áreas). A grande maioria dos domicílios era de casas (91%), e o acesso à
infraestrutura era mais precário - apenas 88% dos domicílios eram ligados à
rede de água, contra 96% das demais áreas, e apenas 54% tinham banheiro
conectado à rede de esgoto, contra 81% nas demais áreas.
Em 2010, esses conteúdos sociais continuavam presentes, em termos relativos. Os
jovens entre 5 e 18 anos continuavam sobrerrepresentados (6% e 26%, contra 5% e
21%, respectivamente), a proporção de nascidos entre os dois censos era mais
alta do que a média das outras áreas (18,5% contra 15,2%), e os idosos eram
sub-representados (4% contra 8%), assim como pessoas autodeclaradas pretas e
pardas (7% e 41%, respectivamente, contra 6% e 31% nas demais áreas). Embora
tenha aumentado na década, a infraestrutura continuou menos presente -
abastecimento de água em 90% contra 96%, e banheiros ligados à rede em 66%
contra 85% para os domicílios das demais áreas.
Mais uma vez, visto que grande parte dessas variáveis é correlacionada entre
si, realizamos teste estatístico multivariado semelhante ao conduzido para as
trajetórias anteriores. Nesse caso, apenas a migração recente para o município
e a população nascida entre os censos se mostraram significativas e
positivas32. Isso quer dizer que as áreas com essa trajetória receberam
sistematicamente mais migrantes e população com idade até 10 anos que o
restante da metrópole.
Em geral, os dados sugerem que se trata de áreas similares às denominadas por
Torres como fronteira urbana, o que é confirmado pelo seu padrão de
localização. Encontram-se nessa condição 72 áreas de ponderação. A grande
maioria delas localiza-se na periferia metropolitana e apresenta renda baixa.
Entretanto, essa situação também alcança três áreas de ponderação de renda
muito elevada e em forte crescimento - uma na Vila Andrade (parte do Morumbi) e
duas em Santana do Parnaíba (um dos municípios que aloja condomínios como
Alphaville), quase certamente todas associadas à ocupação de alta renda em
condomínios fechados de alto padrão. Para essas áreas, o ganho relativo na
renda foi de 27% entre as médias dos dois censos, tendência inversa à das
demais áreas com essa trajetória de crescimento.
A comparação das rendas relativas indica estabilidade ou pequena piora relativa
da renda nas áreas de ponderação nessas condições, quando comparadas às demais
áreas - a renda média dessas áreas, em 2010, era 1% inferior à renda média
relativa dessas mesmas áreas em 2000. A migração recente aparece associada de
forma bastante intensa a essa trajetória. A proporção de migrantes recentes é
de 18% nessas áreas, contra 12% no restante da metrópole.
Nesse caso, a informação de casas e apartamentos se manteve relativamente
estável. A produção imobiliária formal se mostrou negativa e significativamente
associada às áreas dessa trajetória. Em termos médios, as áreas de crescimento
elevado e contínuo receberam apenas 190 unidades, contra 570 nas demais áreas,
em média33. Entretanto, a menor presença de lançamentos do mercado formal não
encontra um contraponto em crescimento de favelas. Na verdade, em nenhum dos
dois censos essas áreas tinham maiores populações relativas em favelas do que
as demais. Isso não quer dizer que essa trajetória, que se associa
espacialmente a áreas que ainda podem ser consideradas como fronteira urbana no
sentido de Torres, não esteja associada à precariedade habitacional. Não
dispomos de informações sobre loteamentos clandestinos e irregulares, que
afinal caracterizam as periferias paulistanas de forma mais intensa do que as
favelas.
Portanto, a grande maioria das áreas que cresceram continuamente nas últimas
duas décadas é pobre, menos dotada de infraestrutura, continua recebendo
migrantes recentes e se localiza em áreas periféricas, a exemplo do descrito
por Torres sob a designação de fronteira urbana. Como vimos no Mapa_2,
entretanto, áreas com essa trajetória representam apenas uma parte das áreas
periféricas em 2010, e seus patamares de crescimento tendem a ser inferiores
aos observados na década anterior. É possível afirmar que embora a produção das
periferias como processo continue ocorrendo de forma similar ao classicamente
descrito pela literatura, não ocupa mais a totalidade, ou mesmo a maioria das
periferias, marcadas ainda mais do que antes pela heterogeneidade.
SUMARIZANDO PADRÕES
A dimensão mais geral a destacar diz respeito ao arrefecimento das taxas de
crescimento na região metropolitana de São Paulo, tanto positivas quanto
negativas. Assim como em décadas anteriores, os números médios ocultam taxas
mais acentuadas localmente, mas seus patamares na década de 2000 foram
substancialmente mais suaves do que nos anos 1990.
Observamos também uma grande heterogeneidade nos padrões de crescimento em
termos espaciais. Diferentemente do que tem sido destacado no debate local, a
ideia de que o centro voltou a crescer oculta tendências de crescimento
moderado, crescimento intenso e esvaziamento continuado, todas presentes no
centro expandido. De forma similar, algumas áreas periféricas continuam a
alojar os processos atribuídos classicamente àqueles espaços, mas em outras
regiões é possível observar crescimento reduzido, ou mesmo esvaziamento
populacional. A estruturação dos processos de crescimento não apresenta um
comportamento claramente concêntrico nos anos 2000.
Esses padrões permitem que delimitemos ao menos três grandes trajetórias de
crescimento nas últimas duas décadas, explicadas por processos distintos. Em
uma parte das áreas centrais, o esvaziamento foi substituído por intenso
crescimento, associado à produção imobiliária recente pelo mercado formal, ao
aumento da renda relativa e à intensificação da ocupação do território. Nessas
áreas, a metrópole se tornou mais compacta, e seus moradores, mais ricos em
relação às médias da metrópole. Em outra trajetória, outras áreas centrais,
assim como regiões próximas a elas, continuaram se esvaziando em termos
populacionais. Trata-se de áreas com renda relativamente elevada que não foram
objeto de atividade imobiliária formal, nem de favelização ou de migração
recente. Algumas áreas de alta renda do centro expandido se encontram nessa
condição, contrariando a ideia de que genericamente o centro teria voltado a
crescer. Uma terceira e última trajetória inclui áreas predominantemente
periféricas com baixa renda e menor presença de serviços (embora crescentes),
que continuaram a se expandir nos anos 2000 a taxas elevadas, embora inferiores
às anteriores em termos médios. Essas áreas representam apenas uma parte das
regiões periféricas, reforçando narrativas anteriores de crescente
heterogeneidade daqueles espaços.
EDUARDO MARQUES é professor livre-docente do Departamento de Ciência Política
da Universidade de São Paulo e pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole
(CEM)
CAROLINA REQUENA é mestranda do Departamento de Ciência Política da
Universidade de São Paulo e pesquisadora júnior do CEM
[1] Jannuzzi, P. e Jannuzzi, N. "Crescimento urbano, saldos migratórios e
atratividade residencial dos distritos da cidade de São Paulo: 1980-2000".
Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, v. 4, n. 1/2, 2002, pp. 107-
27; Jannuzzi, P. "Cenários futuros e projeções para pequenas
áreas: método e resultados para os distritos paulistanos 2000-2010". Revista
Brasileira de Estudos da População, v. 24, 2007, p. 109-137.
Taschner, S. e Bógus, L. "São Paulo, o caleidoscópio urbano". São Paulo em
Perspectiva, v. 15 (1), 2001, pp. 31-44; Torres, H.
"Fronteira urbana". In: Marques, E. e Torres, H. (orgs.). São Paulo:
segregação, pobreza e desigualdades sociais. São Paulo: Senac, 2005.
[2] Torres, op. cit.
[3] Taschner, S. e Bógus, L. "Continuidades e descontinuidades na cidade dos
anéis". In: Patarra, N. (org.). Migração, condições de vida e dinâmica urbana
1980-93. Campinas: Ed. da Unicamp; São Paulo: Fapesp, 1998.
[4] Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP). Informes Urbanos, nº 2, out.
2011.
[5] Marques e Torres, op. cit.
[6] Baeninger, R. "Crescimento da população na região metropolitana de São
Paulo: desconstruindo mitos do século XX". In: Kowarick, L. e Marques, E.
(orgs.). São Paulo: novos percursos e atores: sociedade, cultura e política.
São Paulo: Ed. 34/CEM, 2012.
[7] Perillo, S. e Perdigão, M. "Cenários migratórios recentes em São Paulo".
Artigo apresentado no xi Encontro da Abep, 1998.
[8] Taschner e Bógus, op. cit.
[9] Cunha, J. M. "Redistribuição espacial da população: tendências e
trajetória". São Paulo em Perspectiva, vol. 17 (3-4), 2003, pp. 218-33.
[10] Jannuzzi e Jannuzzi, op. cit.; Torres, op. cit.
[11] PMSP, op. cit.
[12] Prefeitura Municipal de São Paulo (PMSP). PDE 10 anos: Plano Diretor
Estratégico da Cidade de São Paulo. São Paulo, 2012; PMSP.
São Paulo 2040: a cidade que queremos. São Paulo, 2012.
[13] O mapa não é idêntico ao apresentado por Torres (op. cit.), devido à
escolha da faixa de 2,5% de crescimento ao ano, em vez de 3% ao ano, como fez
esse autor.
[14] Jannuzzi e Jannuzzi, op. cit.
[15] Torres, op. cit.
[16] PMSP, Informes Urbanos, op. cit., PDE 10 anos..., op. cit., e São Paulo
2040..., op. cit.
[17] O coeficiente de correlação entre as duas taxas é de 0,492, significativo
a 99% de confiabilidade.
[18] Torres, op. cit.
[19] De fato, há correlação estatística entre crescimento 1991-2000 e renda
média do chefe em 2000 - 0,426, significativa a 99% de confiabilidade.
[20] O coeficiente de correlação entre as duas variáveis é baixo e não
significativo estatisticamente.
[21] O coeficiente de correlação entre as rendas normalizadas pelas médias
indica quase completa associação: 0,987, significativo a 99% de confiabilidade.
[22] Coeficiente de correlação de 0,449, significativa a 99%.
[23] Consultar para maiores detalhes.
[24] Saraiva, C. e Marques, E. "As condições de vida nas favelas paulistanas".
In: Marques e Torres, op. cit.; Marques, E. (org.). Assentamentos precários no
Brasil urbano. Brasília: Ministério das Cidades/CEM, 2008.
[25] Trata-se evidentemente de empregadas que dormem no emprego e que foram ali
recenseadas, e não de moradores que são empregados domésticos. A cifra pode
parecer pequena, mas não é. Quase um em cada 100 moradores dessas áreas é, na
verdade, um empregado doméstico que mora no emprego.
[26] Diferenças significativas a 99%.
[27] Foi realizada uma regressão logística com as quatro variáveis citadas,
além de variável dependente da trajetória de interesse. As duas variáveis
indicadas apresentaram significância de 99%.
[28] Hamnett, C. "The blind men and the elephant: the explanation of
gentrification". Transactions of the Institute of British Geographers, vol. 16
(2), 1991, pp. 173-89.
[29] Todas as diferenças são significativas a 99%.
[30] Foi realizada uma regressão logística com quatro variáveis (as três
citadas mais a variável diferença da proporção de áreas subnormais), além de
variável dependente da trajetória de interesse. As variáveis indicadas
apresentaram significância de 99%.
[31] Torres, op. cit.
[32] Foi realizada uma regressão logística com as quatro variáveis citadas,
além de variável dependente da trajetória de interesse. As duas variáveis
indicadas apresentaram significância de 99%. É interessante observar que o
modelo multivariado avalia a ocorrência de efeito conjunto sobre a trajetória.
Como migração e presença de jovens se encontram associados usualmente, seria de
se esperar que uma delas deixasse de ser expressiva quando introduzida
conjuntamente no teste. O fato de as duas terem permanecido indica um efeito
muito forte e independente de cada uma delas.
[33] Diferença significativa a 95% de confiabilidade.